Entrevistas

“Esaú e Jacó”: uma superfície simples com significados complexos

A Ateliê acaba de lançar, na Coleção Clássicos Ateliê, Esaú e Jacó, o penúltimo livro de Machado de Assis, uma obra que até hoje suscita interesse e intriga os leitores e a crítica. Para falar sobre o lançamento, o Blog da Ateliê conversou com José De Paula Ramos Jr, doutor em Literatura Brasileira pela USP e professor da ECA. Ele é coordenador da Coleção Clássicos Ateliê e estabeleceu o texto e elaborou as notas de Esaú e Jacó. Acompanhe:

Como foi o processo de estabelecer o texto e as notas desta edição? Quais foram os principais desafios?

José De Paula Ramos Jr

José De Paula Ramos Jr: O romance Esaú e Jacó, de Machado de Assis, é publicado em 1904 pela editora Garnier, que nesse mesmo ano lança a segunda edição da obra.  A terceira é póstuma, de 1917, pela mesma editora Garnier. Assim, a segunda edição vem a ser dotada de autenticidade, legitimidade e genuinidade, pois o texto expressa a última vontade autoral explícita. Por essa razão, serviu de texto de base para a edição Ateliê, mas foi feita a colação com a lição textual da primeira edição. A lição contida na edição crítica do romance (Civilização Brasileira / MEC, 1977) serviu como texto de controle. A edição Ateliê corrige erros, atualiza o texto, segundo o Acordo Ortográfico de 1990, apresenta profusas notas explicativas, que contribuem para a inteligibilidade do texto, em favor, sobretudo, do leitor em formação, e contém um rico e agudo estudo, escrito por Paulo Franchetti, professor da Unicamp, especialmente para a edição Ateliê.

Esaú e Jacó é um dos livros de Machado de Assis que mais atingiram o “sucesso de público” quando lançado (prova disso são as duas edições que ele teve no mesmo ano). O senhor acredita que ele ainda é um romance que pode agradar ao público do século XXI?

JDPRJ: Esaú e Jacó é um clássico tão respeitável quanto Memórias Póstumas de Brás Cubas e Dom Casmurro. Trata-se de uma obra perene. Isso significa que ela ultrapassa a fronteira histórica em que foi escrita e é sempre atual.

Apesar da sinopse simples, o senhor acredita que há uma complexidade em Esaú e Jacó? De que maneira isso se coloca na obra?

JDPRJ: Na superfície, Esaú e Jacó contém, de fato, um enredo simples: a história da desavença entre dois irmãos gêmeos, que brigam desde o útero até a idade adulta, são a antítese um do outro, inclusive politicamente, a despeito da grande semelhança física, apaixonam-se pela mesma mulher, que hesita entre os dois, adoece e morre, sem que haja escolhido um deles, que permanecem irreconciliáveis até o fim da narrativa. No entanto, essa superfície aparentemente simples contém significados complexos, que são percebidos por uma leitura atenta aos efeitos de sentido construídos pelo texto –alusões eruditas, comentários do narrador, a intertextualidade, a paródia, a alegoria, a ironia e o humor. Os que percebem coisas como essas encontram um prazer muito maior na leitura.

Aires, que reaparece no livro seguinte de Machado (Memorial de Aires) repõe a questão do “narrador problemático” que perpassa parte da obra de Machado. Afinal, em sua avaliação, ele é narrador ou apenas personagem da obra?

JDPRJ: Em Esaú e Jacó, o conselheiro Aires se desdobra em narrador e personagem. Narra em primeira pessoa e interage com os protagonistas e com personagens secundárias.

José Veríssimo fala da “novidade” em Esaú e Jacó: “O seu principal encanto talvez esteja no contador. Cada livro dele, de parte o estilo, traz uma novidade. A de Esaú e Jacó é a do assunto, que tem, do modo por que é exposto, toda a figura de um fato novo” (trecho da apresentação da edição da Ateliê). Em sua opinião, qual é essa “novidade” de Esaú e Jacó, já que a história de Pedro e Paulo (como indica o título do romance) tem traços tão antigos quanto as histórias bíblicas? 

JDPRJ: Sim, o romance contém elementos de uma vasta tradição cultural e literária, mas esses elementos são atualizados na escrita de Machado de Assis, o que confere o “frescor” de que fala José Veríssimo. Aliás, por ser um clássico, mantém esse frescor nos dias atuais.

Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis

No universo da crítica literária, muito se debate sobre qual é e onde se localiza no texto o “Realismo” de Esaú e Jacó e se ele deve ser tomado “a contrapelo”. Qual sua análise sobre o assunto?

JDPRJ: Machado manteve distanciamento crítico em relação aos cânones do Realismo, principalmente em relação à corrente do Naturalismo. Em suas obras, posteriores a 1881, Machado, usualmente, faz paródias irônicas do cientificismo expresso nas obras literárias quer do Realismo, quer do Naturalismo. Para Machado, a representação artística da vida não deveria se sujeitar à camisa de força do materialismo cientificista, mas libertar a imaginação ao ponto de inventar um defunto autor (um morto que escreve) nas Memórias Póstumas de Brás Cubas, como estratégia imaginativa para melhor configurar a realidade psíquica e social. Nesse sentido, podemos admitir como realistas as obras de Machado posteriores a 1881, mas de um realismo sui generis, pois não renuncia à imaginação, à fantasia e, mesmo, ao maravilhoso, como no caso das Memórias Póstumas de Brás Cubas.

Conheça outros títulos da Coleção Clássicos Ateliê

Cor para sublimar a dor

“As Fontes Primárias de uma História Natural da Paleta do Artista”, de Philip Ball foi traduzido por Roberto Oliveira e disponibilizado gratuitamente, no formato de e-book, no site da Ateliê Editorial. O e-book traz história das cores nas pinturas antigas. Do que eram feitas as tintas na era pré-industrial? Com projeto gráfico de Gustavo Piqueira e Samia Jacintho/Casa Rex, As Fontes Primárias de uma História Natural da Paleta do Artista, Philip Ball dedica um capítulo para cada cor primária (vermelho, amarelo e azul), contando histórias e curiosidades, em uma leitura fluida, leve e cheia de informação. A seguir, o tradutor e escritor Roberto Oliveira (que também é médico, bacharel em direito e pesquisa sobre Bioética e Mídia) fala sobre a obra:

O que o motivou a traduzir a obra?

Roberto Oliveira: A tradução de As Fontes Primárias… deve-se a uma descoberta feita nos últimos anos quando comecei a fazer a pesquisa iconográfica para ilustrar A Visita da Peste, livro escrito em co-autoria com Jerusa Pires Ferreira e que deve ser lançado brevemente pela Ateliê Editorial. À medida que avançávamos nos textos sombrios da peste, fui encontrando obras de arte de um colorido vivíssimo, como se fossem marcas de uma tentativa de superação/sublimação do sofrimento, sobretudo, mas não só, pela celebração da salvação e misericórdia divinas. A partir daí, surgiu o interesse pela pesquisa das cores e seu impacto psicológico, que remeteu como um engenho faustiano à Teoria das Cores de Goethe, autor presente na Visita da Peste e do qual Jerusa era uma grande especialista. Em paralelo, foi crescendo a curiosidade, como médico e pesquisador, pela obtenção e uso de pigmentos e corantes, que, desde o século XIX, vêm revolucionar o isolamento de vírus e bactérias e também a síntese de novos fármacos, a partir da anilina, dando origem a grandes laboratórios como a Bayer (Bayer Farbenfabrik – Bayer Indústria de Corantes), AGFA (Aktiengesellschaft für AnilinfabrikationSociedade para a Fabricação de Anilina), BASF (Badisch Anilin und Soda Fabrik – Indústria de Anilina e Soda da Região de Baden) e a Hoechst (Hoechst Farbwerke – Hoechst Indústria de Corantes).

Por que decidiu colocá-la à disposição gratuitamente?

RO: Disponibilizar uma obra sem custos para o público em geral é, em primeiro lugar, o prazer de dividir uma descoberta com o maior número possível de interessados, inclusive, alunos de artes gráficas, editoração e afins, áreas que se constituem hoje em um de meus interesses. Devo dizer que para isso concorreram muito as discussões com o Plínio Martins, na sua dupla ou tripla função de professor da Escola de Comunicação da USP, editor experiente e apaixonado por artes gráficas. Por fim, me pareceria um contrassenso não disponibilizar gratuitamente a tradução, uma vez que o texto original foi lançado em uma publicação eletrônica britânica gratuita, The Public Domain, que se apresenta como concentrada “em obras que todos são livres para desfrutar, compartilhar e construir sem restrições”.

Por que escolheu a Ateliê Editorial para disponibilizar a obra?

RO: A competência do editor e seu empenho na busca de obras originais foi determinante para a escolha, independente da tradição que a editora pudesse ter em e-books. Em suma, me parece que a tradição possa fazer o hábito, mas não o monge.

O tema “cores primárias” pode parecer até mesmo simples, mas a abordagem que Philip Ball oferece no livro é bastante singular. O que o senhor destaca como mais interessante nessa obra? Durante a primeira leitura, o que mais o impactou nela?

RO: O texto tem vários pontos interessantes, por exemplo,  a relação do pintor com seus materiais e a importância decisiva destes para a obtenção de determinados resultados. Tal  observação pode caber em qualquer bom estudo de pigmentos como material de uma dada atividade profissional. Porém, a referência a materiais como o mínio faz pensar em questões tão diversas como a história da química e envenenamentos criminosos ou casuais, especialmente, quando se sabe que médicos, pintores e perfumistas integravam no Medievo a mesma guilda mas, se faltar tal informação, basta ler O Nome da Rosa ou uma biografia de pintores, como Cândido Portinari. Porém, de fato, na primeira leitura, o que mais me atraiu não foi o perigo, mas a beleza das ilustrações.

Em sua opinião, o que mais vai surpreender o leitor nesta obra?

RO: Acredito que este estudo possa interessar a uma variedade de leitores e, assim, fica impossível, como em qualquer texto ou obra de arte, saber o que mais irá agradar ou surpreender a cada um, mas, de qualquer modo, um tema aparentemente simples quando tratado de forma original sempre surpreende.

Os Evangelhos, uma tradução

Por: Renata de Albuquerque

Já está disponível para venda a nova tradução de Os Evangelhos, realizada por Marcelo Musa Cavallari. “Uma Tradução”, que complementa o título, é quase que um alerta para o leitor. Esta não é a única tradução possível d’Os Evangelhos, mas uma delas. E o que esta, que sai em coedição da Ateliê Editorial  com a Mnēma, tem de diferente, é a característica de ler o texto sob uma ótica mais literária que estritamente religiosa.

E esta não é a única novidade. A edição bilíngue, com apresentação de João Angelo Oliva Neto, é a estréia da Mnēma no mercado editorial. A seguir, o tradutor e jornalista Marcelo Musa Cavallari – que estudou grego e latim na Universidade de São Paulo para poder ler, no original, o Novo Testamento e as obras dos escritores do cristianismo antigo e medieval – que em 2010 traduziu O Livro da Vida de Santa Teresa D’Ávila e é  autor de Catolicismo (Editora Bella), fala sobre a obra:

Como surgiu a ideia de realizar a tradução d’Os Evangelhos?

Marcelo Musa Cavallari: Eu decidi estudar grego, há quase quarenta anos, por causa dos Evangelhos, para poder lê-los no original. Quando comecei a ser capaz de lê-los, ainda que de forma incipiente, fiquei fascinado com o texto que se ia revelando. Ele me parecia muito mais interessante e instigante do que eu, que só o conhecia traduzido, imaginaria. Era uma paisagem totalmente inesperada. Passei a frequentar esses textos como um explorador que volta à ilha inóspita e distante, mas que lhe é mais íntima e mais cara do que a terra em que nasceu e cresceu. Tudo me interessava, as palavras, o idioma, a moldura histórica em que se passou a história que eles contam e a história da escrita e publicação deles. De certa forma, a ideia de traduzir os Evangelhos nunca surgiu, propriamente. Surgiu a oportunidade de fazê-lo. Como se alguém perguntasse ao explorador onde ele tinha passado esses anos todos. Minha tradução é uma forma de dar conta disso: onde passei esses anos todos.

Marcelo Musa Cavallari, em foto de Olivia Cavallari

Por que dar ênfase no caráter literário, já que o religioso seria o mais comum?

MMC: Exatamente por isso. Jesus Cristo é a personagem mais importante que já viveu sobre a Terra. Contar sua história, entendê-lo e à doutrina que ensinou, são a mais importante tarefa a que se destinou a civilização ocidental. O tamanho da tarefa acaba ofuscando o fato de que os autores dos Evangelhos escreveram obras literárias. Obras, portanto, que se justificam e acontecem no momento da leitura. Como obras de arte que são, não estão prontas até que tenham sido lidas, e lidas como experiência do leitor. Não basta que sejam a história de Jesus, é preciso que sejam a história de Jesus contada do modo como os evangelistas a contam. A fruição do texto no momento da leitura é a experiência fundante de todo o resto: pensar sobre Jesus e sua doutrina. Como em qualquer obra poética, para abusar um pouco do termo (já que os Evangelhos são consistentemente considerados prosa), não se trata só do que os textos significam, mas do que eles são. Como um astrônomo que, ofuscado pela complexidade do que estuda, se atolasse nos livros e computadores e esquecesse de olhar para o céu. O caráter literário, de obra de arte, o caráter estético dos Evangelhos é o céu. Em mais de um sentido, aliás.

Sua tradução parece ser bastante peculiar se comparada às traduções “tradicionais”, que levam em conta apenas o aspecto sagrado dos textos.  Qual a razão dessa escolha para que o texto parecesse novo aos olhos do leitor, inclusive aquele que já presume conhecer o texto? De que maneira foi possível colocar essa “novidade” de um texto tão conhecido em prática?

MMC: Os textos antigos, escritos em línguas que já ninguém fala, têm uma história. Eles entram nas línguas em que não foram escritos, línguas que nem existiam quando eles foram escritos, como o português. Com o tempo vai se estabelecendo uma tradição dos tradutores e dos demais intérpretes dos textos antigos como são os Evangelhos. Palavras vão se especializando e, se são boas para dar conta de uma parte do problema, sua especialização acaba obscurecendo uma parte do sentido. Minha estratégia básica foi buscar o sentido que as palavras gregas tinham quando os evangelistas as escolheram, e não o sentido que vieram a ter com o tempo e com o uso dos Evangelhos como guia do modo de vida dos seguidores de Jesus. A palavra “anjo” por exemplo. A rigor ela não aparece nos Evangelhos. O que aparece é a palavra grega ággelos, que significava núncio, mensageiro. Como ao longo dos Evangelhos ággelos sempre tem o sentido de mensageiro de Deus, surgiu a palavra “anjo”, que designa especificamente um ser espiritual a serviço de Deus. Esse ser não tinha um nome especial no grego dos Evangelhos. Tem em português por causa da tradição dos tradutores. Por isso evitei a palavra anjo e voltei ao núncio que o autor do texto tinha em mente quando usou o ággelos do grego. A mesma coisa vale para palavras como apóstolo, pecado, fé.

O aspecto sagrado das Escrituras influenciou seu trabalho de tradução? Se sim, de que maneira?

MMC: O sagrado, até etimologicamente, é aquilo que foi retirado da ordem comum da existência. O templo, espaço sagrado, é um lugar em que não se entra da mesma maneira que se entra em casa ou nos outros lugares públicos. Um dia sagrado é um dia em que não se vive como nos outros dias, não se trabalha, por exemplo. Os Evangelhos são textos diferentes de quaisquer outros. Não se os deve ler com os mesmos olhos que se leem mesmo os grandes textos da humanidade. Assim, não se os deve traduzir como se traduziriam outros textos. Para mim, isso se manifestou na convicção de que esses textos são intocáveis. Lê-los, traduzi-los, pensar neles é sempre um esforço insuficiente de chegar perto de algo íntegro de que só se veem, sempre, inelutavelmente, partes. Traduzir a Escritura Sagrada é, sempre, um sublime fracasso.

Quais foram os maiores desafios da tradução?

MMC: Não se deixar intimidar pela enormidade dos textos. Não se deixar paralisar pela responsabilidade. Não se deixar atemorizar pela quase insanidade da decisão e confiar que Palavra de Deus há de achar seu caminho mesmo que seja através de mim.

O senhor considera cada um dos quatro textos obras “separadas” ou entende-os como uma só narrativa (por terem apenas um protagonista, como sugere o Prof. João Ângelo, no Prefácio)? De que maneira este dado impactou no trabalho de tradução?

MMC: A narrativa, a história que eles contam, é uma só: a história de Jesus de Nazaré. Mas eles são obras inteiramente separadas. Como toda obra de arte, eles se bastam e se justificam, cada um separadamente. Se justificam pelo ponto de vista que adotam para narrar a mesma história, pelo que escolhem enfatizar ou até deixar de lado dessa história. Pelo prisma pelo qual olham para essa história. O impacto disso no tradutor é o esforço para se manter atento ao que está no texto. Traduzir o que está escrito do modo como está escrito. O tradutor tem que ter a humildade de saber que não é ele quem diz alguma coisa, e sim o autor do texto. É preciso esquecer, como método de trabalho, aquilo que se sabe sobre a história de Jesus, se desapegar da imagem de Jesus que se tem, e se ater ao que cada um dos evangelistas disse com os termos que escolheu, com o tom que usou, como o ritmo que decidiu dar ao desenrolar das frases e dos trechos.

O Prof. João Ângelo diz, no Prefácio, sobre estes textos, que “os usos e as práticas obliteraram a letra”. De que maneira, em sua tradução, o senhor buscou “iluminar a letra”?

MMC: Busquei fazer o texto voltar ao primeiro plano. O texto com suas arestas, suas estranhezas, com sua beleza rude e perigosa. Talvez eu não tenha buscado iluminar a letra, mas sim tenha buscado apagar algumas luzes excessivas que se acenderam com os usos e as práticas. O escritor James Baldwin uma vez disse que “o propósito da arte é desnudar as perguntas escondidas pelas respostas”. Os Evangelhos se tornaram excessivamente familiares. Quase como algo para o que não é mais necessário olhar. Fala-se, mesmo entre crentes, dos valores dos Evangelhos, como se o que importasse fossem qualidades abstratas que se pudessem depreender dos textos. Eu busquei deixar soar em português aquilo que está no texto grego, mesmo o que, no limite, não se tenha certeza do que significa. Nunca se entendem os Evangelhos completamente. Nenhuma tradução, nenhuma interpretação, nenhuma exegese é capaz disso. Os Evangelhos não se esgotam naquilo que se diz deles. É preciso deixá-los falar por si. É preciso voltar a eles. Minha tradução é a tentativa de percorrer um dos caminhos de volta a eles.

Novidade: Hidra Vocal

O que vem por aí? Muita gente tem feito esta pergunta, querendo saber sobre quais os próximos lançamentos da Ateliê e sobre o que esperar para o futuro. Como muitas novidades devem chegar em breve, para satisfazer a curiosidade dos nossos leitores – ou para aguçá-la ainda mais – o Blog da Ateliê resolveu fazer uma série de entrevistas com autores de obras que a editora deve lançar em breve.

Desta vez, entrevistamos com os organizadores do livro Hidra Vocal, que será em breve lançado. Marcelo Lachat é professor do Departamento de Letras da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP). Ele é Doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP), com pós-doutorado pela UNIFESP. Maria do Socorro Fernandes de Carvalho, professora de Literatura da UNIFESP, é Doutora em Literatura Portuguesa pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), com pós-doutorados pela USP e ULisboa. Já a professora de Literaturas de Língua Inglesa na Universidade Federal de São Paulo, Lavinia Silvares, é Doutora e pós-doutora pela USP. Leia a seguir:

Marcelo Lachat

Qual o tema do livro?

Resposta: O livro Hidra Vocal é uma coletânea de textos que discutem como os variados campos artísticos se articulam com o âmbito da retórica e da poética – duas importantes disciplinas que, desde a chamada “Antiguidade Clássica”, formularam preceitos para as produções discursivas e artísticas em diversas línguas, espaços geográficos e momentos históricos. Desse modo, o tema do livro perpassa diferentes práticas de representação a fim de investigar as relações entre retórica, poética e as artes.

Por que homenagear o Prof. João Adolfo Hansen com essa obra? Qual a importância de homenageá-lo?

R: O professor João Adolfo Hansen foi pioneiro nos estudos de retórica e poética no Brasil, sobretudo em suas relações com o campo hoje dito “literário”. Desde a década de 1980, Hansen tem produzido obras importantíssimas acerca do assunto, como o livro A Sátira & O Engenho: Gregório de Matos e a Bahia do Século XVII (Ed. Ateliê/Unicamp, vencedor do Prêmio Jabuti em 1990), em que realiza um estudo profundo a respeito da produção poética do Brasil colônia. Além da relevância de sua obra, a homenagem ao professor Hansen se dá também como reconhecimento de sua imensa generosidade intelectual, traço que sempre encantou e animou seus orientandos, colegas e alunos.   

Maria do Socorro Fernandes Carvalho

Quais os destaques do livro em sua opinião?

R: A relevância deste livro consiste no fato de ele ser um significativo panorama dos estudos sobre retórica e poética no Brasil, reunindo trabalhos de professores/pesquisadores de diferentes universidades brasileiras: USP, UNIFESP, UESB e UFSM. Além disso, a obra conta também com textos de dois grandes professores estrangeiros: Isabel Almeida (Universidade de Lisboa) e Roger Chartier (Collège de France).

Lavinia Silvares

O livro traz a fala do próprio Professor em um evento na Unifesp. Que evento é esse e de que forma a fala do professor incentivou a elaboração do volume?  

R: O livro resulta do encontro de estudiosos brasileiros e estrangeiros em um evento sobre retórica e poética, realizado na Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade Federal de São Paulo (EFLCH-UNIFESP) em setembro de 2018: o I Panorama dos Estudos Poéticos e Retóricos no Brasil. Abarcando um amplo escopo temático e temporal, os trabalhos apresentados ao longo de três dias versaram sobre poesia, música, narrativas em prosa, arquitetura e outras artes e campos do saber em sua relação com as técnicas retóricas e poéticas. Contando com a presença de grandes pesquisadores e professores, o encontro também homenageou os trabalhos acadêmicos do professor João Adolfo Hansen, fundamentais para o desenvolvimento dos estudos retóricos e poéticos no Brasil. Assim, nesta obra, reúnem-se textos inéditos produzidos pelo professor Hansen e pelos conferencistas convidados, consistindo ela em um arco de reflexões contemporâneas acerca de retórica, poética, história, arte e cultura em diferentes matizes e nuances teóricas e críticas.

Orações Insubordinadas: aforismos para uma leitura rápida e divertida

Segundo o dicionário, aforismos são textos curtos e sucintos, de estilo fragmentário, relacionados a uma reflexão de natureza prática ou moral. Com base nessa definição, o publicitário piauiense Carlos Castelo, fundador do grupo Língua de Trapo, escreveu Orações Insubordinadas – Aforismos de Escárnio e Maldizer. O livro traz as frases curtas e cortantes, de autoria do próprio Castelo, que causam riso e reflexão ao mesmo tempo. A seguir, ele conversa com o Blog da Ateliê:

O que o levou a escrever Orações Insubordinadas – Aforismos de Escárnio e Maldizer?

Carlos Castelo: Desde muito jovem me interessei pelas formas breves. Primeiro foram os provérbios. Gostava de toda a sabedoria que eles traziam em sentenças tão curtas. Depois, com 14 anos, li o Meditações, do Marco Aurélio. E assim fui seguindo, conhecendo outros autores, até que descobri o frasismo de humor: Barão de Itararé, Don Rosse Cavaca, Nelson Rodrigues, Dirceu, Millôr – só para citar os brasileiros. Era natural que, um dia, eu passasse a criar minhas próprias frases e isso aconteceu a partir de 2007. Foi no site Castel-O-Rama, do Humor UOL. Ali comecei a produzir sistematicamente num link chamado Aboboral.A compilação dos anos em que escrevi o Aboboral fez nascer o Orações Insubordinadas.

Como foi feita a seleção dos seus aforismos?

CC: Eu guardava num arquivo todos aforismos que postava no Castel-O-Rama, e no meu Twitter, o @casteladas. O critério usado foi o de cortar as frases sobre fatos passageiros, do dia a dia, e optar pelas frases atemporais. Justamente para não deixar o livro datado. Creio que funcionou, já que o Orações Insubordinadas continua sendo lido, e provoca riso e reflexão, há mais de 10 anos.

Em sua opinião, qual a força do aforismo? Para você, aforismos são atemporais ou podem perder relevância ao longo do tempo?

CC: A força do bom aforismo é a sua alta densidade. Ele contém muita informação, paradoxo, desconstrução ou originalidade em poucas palavras. Então, quando o leitor o decifra é como se detonasse uma explosão de prazer. Isto não é propriamente uma ideia minha, mas uma simplificação grosseira do que dizia Sigmund Freud em Os chistes e sua relação com o inconsciente. Se um aforismo será atemporal, ou perderá a relevância, vai depender da massa de sua densidade.

Seu livro teve a primeira edição lançada em 2009, mas ele continua causando riso. A que você deve essa permanência?

CC: Devo essa continuidade, como disse, ao critério de escolha das frases mais atemporais da minha produção. E também ao fato do aforismo ter se adaptado muito bem ao mundo da internet e suas redes sociais. Por sua brevidade e capacidade de estimular a discussão, ele é um gênero literário perfeito para a Grande Rede. Meu livro, portanto, chegou no momento certo, na hora em que passou-se a valorizar 140 caracteres como se fossem 140 páginas.

Os aforismos têm, em comum, o humor e a graça que causam. É possível identificar como se dá a construção desse efeito de humor que os aforismos causam no leitor?  

CC: Os aforismos de humor, que são os que escrevo, funcionam como o chamado humor “on-liner”. Normalmente possuem uma frase inicial que levanta a bola e, uma segunda, que faz o “saque” – o famoso “punchline”. Mas há muitas outras maneiras de se criar um aforismo. Podem ser lugares comuns refeitos, definições de neologismos, falas, diálogos, comparações, indagações, provocações, paródias de frases famosas e até microcontos. Ou seja, quase tudo pode ser um aforismo de humor, desde que ele faça rir e pensar.

Entrevista com Miguel Sanches Neto

O que vem por aí? Muita gente tem feito esta pergunta, querendo saber sobre quais os próximos lançamentos da Ateliê e sobre o que esperar para o futuro. Como muitas novidades devem chegar em breve, para satisfazer a curiosidade dos nossos leitores – ou para aguçá-la ainda mais – o Blog da Ateliê resolveu fazer uma série de entrevistas com autores de obras que a editora deve lançar em breve.

O primeiro entrevistado da série é Miguel Sanches Neto, autor de “Museu da Infância Eterna” e “Herdando uma Biblioteca” . Acompanhe:

Miguel Sanches Neto/Divulgação

O que é possível falar sobre os novos lançamentos?

Miguel Sanches Neto: Estes dois livros fazem parte de um projeto maior em que busquei uma seleção temática de minhas crônicas. Durante duas décadas, escrevi para jornais e revistas, quando ainda havia algum espaço para literatura, crônicas com um viés literário, e agora, aos 55 anos, estou concluindo a organização deste material. Então, o gênero é a crônica, mas uma crônica literária, mais interessada nas estruturas de memória e de linguagem do que em atualidades, por isso talvez funcionem melhor no suporte livro do que no formato jornal ou revista, espaço em que elas surgiram.

O que é possível dizer sobre Herdando Uma Biblioteca?

MSN: Herdando Uma Biblioteca é a segunda edição, bastante mudada e ampliada, de um conjunto de textos que eu havia publicado em 2004 pela editora Record. Interessante é que este livro foi pensando para a Ateliê e acabou saindo pela Record. Então, nesta edição, ele volta à sua casa original. É um volume de crônicas sobre como, vindo de uma família de analfabetos, eu tive que inventar a minha biblioteca, tive que acreditar que era, sim, possível uma vida intelectual ao lado dos livros. Este é meu único volume de crônicas que não foi publicado em jornais. Nasceu como projeto estruturado para livro, como se fosse um romance fragmentado de meu amor à biblioteca. Faz parte de uma área muito forte da Ateliê Editorial, a de livro sobre livros, que é um gênero à parte, que transcende os gêneros literários.

O que se pode adiantar sobre Museu da Infância Eterna?

MSN: É uma coletânea em torno das minhas memórias de infância em uma família muito pobre no interior do Paraná, em contraponto com minha memória de pai de duas crianças, Camila (hoje, advogada, com 25 anos) e Antônio (12 anos). Durante a infância deles, tentei registrar como uma criança vê e expressa o mundo. Estes volumes concluem uma série maior, as minhas “Crônicas Reunidas”.

O que motivou o senhor a escrevê-los?

MSN: Herdando uma biblioteca nasceu de uma afirmação de Anne Fadiman. Em Ex-libris: confissões de uma leitora comum, a autora dizia que todo escritor nasce da biblioteca paterna, das leituras das gerações familiares ou grupais que o antecedem. Eu pensei na hora: isso não vale para o Brasil, país em que a relação entre cultura popular e cultura erudita é muito estreita. Eu mesmo não tive nenhum livro em casa até meus 14, 15 anos. Minha família era de agricultores analfabetos ou pouco escolarizados. Então, resolvi contar a história das bibliotecas que nascem do nada, de encontros casuais com livros e pessoas. Já Museu da Infância Eterna é uma organização de textos produzidos em momentos muito diferentes de minha vida e para colunas que mantive nos meios de comunicação.

Coleção Bibliofilia: três volumes sobre o amor pelos livros

O livro é um dos mais fascinantes objetos produzidos pelo homem. Mesmo em nossa época atual marcada pelos avanços tecnológicos e novas mídias, o livro permanece sendo um artefato sem igual, e não dá mostras que irá desaparecer. Jovens seguem comprando livros, criando clubes de leitura e falando sobre seus autores e histórias preferidos em podcasts e canais no YouTube.  As bibliotecas reforçam sua vocação de centros comunitários de difusão cultural. As coleções de livros impressos seguem preenchendo prateleiras e os aspectos sensoriais do livro impresso – o cheiro, a sensação do papel ao toque, o conforto visual na leitura das letras impressas no papel – ainda não foram imitadas satisfatoriamente pelos dispositivos digitais. Afinal, o livro não precisa de conexão com a internet ou baterias a serem recarregadas.

Com os três livros da Coleção Bibliofilia, organizada por Marisa Midori Deaecto e Plínio Martins Filho, a Ateliê Editorial e as Edições Sesc São Paulo se unem para celebrar o prazer da leitura e a importância social, cultural, econômica e simbólica do livro. Apesar das transformações tecnológicas e sociais, que impactam a produção editorial, as formas de transmissão da linguagem escrita e seus mecanismos de recepção, o amor ao livro permanece. Para falar sobre a coleção, o Professor aposentado da Universidade de São Paulo João Adolfo Hansen respondeu a algumas perguntas para o Blog da Ateliê:

      A coleção é uma verdadeira celebração ao livro. Qual a importância simbólica dele, hoje, em nossa cultura e dentro do contexto atual do Brasil?

 João Adolfo Hansen: Na situação brasileira atual, em que o ministro da Educação é um asno e o Presidente um desclassificado ao quadrado, a valorização do livro é fundamental. Sem nenhum fetichismo, óbvio, é fundamental celebrar o livro como produto, monumento, instrumento e arma de cultura contra a barbárie fascista.

No volume “O que é um Livro”, o senhor fala da materialização da ideia em objeto. O livro enquanto objeto, em sua opinião, continua ocupando um lugar de destaque?

 JAH: O livro como objeto que condensa e divulga práticas simbólicas dos múltiplos campos da cultura pode ser materialmente produzido e reproduzido em vários meios e canais, desde uma página de papiro à tela de um computador. Nesse sentido, o livro continua ocupando lugar de destaque.

Em sua opinião, o livro digital e o livro de papel ocupam o mesmo espaço e têm a mesma importância?

 JAH: Não ocupam o mesmo espaço (e, sem trocadilho, hoje também por razões de espaço). E não sei se têm a mesma importância.  Provavelmente, o livro digital vai substituir o livro de papel- não sei se a totalidade dos livros de papel- mas grande parte deles.

O público que “consome” o livro físico mudou?

JAH: Acredito que mudou e está mudando a cada momento.

O livro, enquanto objeto, vai continuar a existir no futuro?

 JAH: Não sei se nessa forma material que tem hoje. Mas como mensagem e como condensação de referências de muitos e muitos campos da cultura deve continuar – provavelmente, em novos media, como a tela de um celular, de uma TV ou computador, desmaterializando-se mais e mais.

O livro também é constituído de leitores, e eles o leem de maneira diferente a cada época. O senhor poderia falar um pouco sobre esse assunto, por gentileza?

 JAH: O leitor é um indivíduo que se inclui numa sexualidade, num grupo, numa classe, numa profissão, num país, numa língua, numa cultura etc. A cada instante, a história de seu grupo e sua classe e país e língua e cultura etc. muda. Evidentemente, o leitor lê segundo os critérios que em seu tempo estabelecem, definem e garantem a inteligibilidade do que lê. Esses critérios mudam historicamente. Borges, num conto chamado “Pierre Menard, inventor do Quixote”, trata disso, propondo que o  enunciado  de Cícero, “A história, mestra da vida”, usado por Cervantes no primeiro volume do Dom Quixote, em 1605, não tem o mesmo significado e o mesmo sentido quando usado por Pierre Menard, em 1917, quando escreve o Dom Quixote e repete o enunciado, ipsis litteris, idêntico ao texto que Cervantes escreveu em 1605. Ou seja, a cultura muda segundo as determinações e os condicionamentos históricos.

Capa do volume O Que é um Livro?, parte da Coleção Bibliofilia

No volume, o senhor aborda questões como censura e controle de conteúdo, que parecem – infelizmente – questões muito atuais. De que maneira esse controle perpassou os tempos? A forma e a finalidade da censura são sempre as mesmas?

 JAH: A censura classifica formulações e imagens e práticas que contrariam e negam a doxa ou a opinião que um grupo, um partido, um Estado, uma igreja etc.  afirmam como “verdade”. A censura classifica formulações e imagens e práticas como inadequadas, indevidas, impróprias, incorretas, erradas, heréticas, indecentes, imorais, proibidas etc., caçando e cassando seu autor.  A prática da censura veta e nega versões e, com isso, nega a liberdade de pessoas e grupos. Evidentemente, ainda que a forma e a finalidade da censura sempre sejam as de desautorizar e impedir a liberdade de pensamento e ação e, muitas vezes, a finalidade de eliminar o autor de tal pensamento e ação, queimando-o numa fogueira, como fazia a Inquisição católica, ou fuzilando-o, como faziam nazistas e estalinistas, suas razões, seus meios e suas finalidades variam historicamente, assim como seus agentes e suas vítimas.  

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Jerusa Pires Ferreira: Uma leitura imediata

Leituras Imediatas é o último escrito de Jerusa Pires Ferreira, professora de pós-graduação em comunicação e semiótica da PUC-SP. A publicação traz textos “que giram em torno da ideia de mitopoéticas, no sentido de que constituem permanente recriação e ao mesmo tempo a levam a problematizar dicotomias para pensar manifestações da cultura”, como escreve Adriano C. A. e Sousa na quarta capa do livro. A seguir, ele fala ao Blog da Ateliê:

Qual sua relação com Jerusa Pires Ferreira?

Adriano Carvalho Araújo e Sousa: Eu sou um recém-doutor. Qualquer pessoa com menos de dez anos da conclusão não pode arvorar um posto de destaque. Contudo, posso dizer que até aqui minhas pesquisas são profundamente marcadas pela obra da professora Jerusa Pires Ferreira. Fui seu orientando de mestrado e doutorado e ela dizia publicamente que eu estava entre os melhores profissionais formados por ela. Mantínhamos estreita amizade, ao que ela sempre referia em tom jocoso, porque nem sempre é ideal ser amigo de um orientando. Estivemos em contato muito próximo ao menos nos últimos dez anos. Para  mim, o mais relevante disso tudo foi o constante aprendizado que tive com ela e outros intelectuais amigos seus, como Marlyse Meyer, Jacó Guinsburg, Vladimir Krysinski e obviamente Boris Schnaiderman. Agora, nada disso teria acontecido sem a sintonia de sensibilidades que tive com Jerusa, muito grande em termos de uma concepção de conhecimento alegre, exuberante e vivo, que transita entre linguagem e cultura.

Como foi o convite para escrever a quarta capa e a orelha do livro? – Você acompanhou o processo de escolha dos textos que compõem o livro? Como foi?

ACAS:  Bom, acredito ter sido por esses fatores que já mencionei. Fui convidado por seu editor, Plínio Martins, a redigir textos apresentando o livro Leituras Imediatas, cuja seleção acompanhei de perto. Mais ainda, pude auxiliar Jerusa no trabalho de revisá-los. Há um fato curioso, de bastidor. Jerusa teve auxílio do professor Jerzy Brzozowski, seu amigo da Universidade de Cracóvia, que na época atuava como visitante no Brasil, para separar folhetos da Índia, semelhantes ao nosso Cordel. Infelizmente, o material não entrou nesse livro, porque Jerusa entendia que não harmonizava com os demais.

O título do livro remete a leituras que, segundo a autora, “têm data bem definida e correspondem a posições de momento”. Qual a importância de perenizar em um livro tais posições? Essas posições não poderiam mudar com o tempo?

ACAS: Essa pergunta é muito boa, porque vai permitir um esclarecimento. É exatamente o oposto disso que o livro trata. Veja, quando Jerusa fala em “data bem definida” e “posições de momento” significa que não se pode calar em face do autoritarismo ignorante. É preciso voltar-se contra a arbitrariedade do extermínio, opor-se a um império que apaga violentamente o outro da história. Jerusa se refere aí ao extermínio de um lugar que é berço da civilização. A imagem é das mais nefastas: um ex-militar e secretário de defesa norte-americano pisando em tesouros da civilização mundial; um país sofre uma invasão destruidora, bárbara e consequentemente desestabilizadora daquela modernidade árabe. É um convite a questionar o que o discurso oficial julga ser “importante”. Então vamos tentar inverter o raciocínio em cima de sua pergunta: no caso específico da escritura de Jerusa, o mais frequente é o oposto de “dar importância”. Nada é importante. A questão toda é voltar-se para a possibilidade de contato com o outro, o que sofre um apagamento realizado por um olhar oficialesco e por vezes institucionalizado.

O trabalho de Jerusa volta-se para compreender, escrutinar e inclusive propor análises rigorosas de textos que normalmente são apagados pelo discurso oficial, seja ele o do capitalismo, seja o da academia. Eu insisto que os seus trabalhos, e principalmente sua forma arrojada (cria inclusive conceitos) para abordar esses que não têm voz, propiciam sempre novos elementos para um prosseguimento de novas reflexões sobre o que se convencionou chamar contemporâneo. É o oposto da perenidade, há sempre movimento. Um livro como esse procura aquilo que corresponde a colocar movimento nas palavras, aquilo que é uma reprodução em série de uma proposta que aborda linguagem e cultura, a serialização que o poeta popular imprime a partir de sua obra. O lugar de uma voz sempre repercutida. Esse é ponto de partida: são vozes sempre em movimento.

Jerusa Pires Ferreira fotografada por Ricardo Filho

Em comum, os textos têm a análise de assuntos ligados à cultura popular. Qual a importância dessa discussão, não apenas nos meios acadêmicos, mas também colocada na sociedade?

ACAS: A partir daqui, eu vou propor que pensemos o lugar desse pensamento, o que ele faz, que mecanismos coloca em ação, em vez de perguntar se ele é importante ou não. Pra mim, o que ressalta desse livro é a proposta ousada de dar voz a figuras normalmente julgadas como arcaísmos ou mesmo sob denominações como “cultura de massas”, “indústria cultural”, ou um campo específico de “cultura popular” que muitas vezes só serve para criar um exotismo. Nesse sentido, lembro de que nem todos os textos populares são bons ao olhar de Jerusa. Ela impõe uma análise bastante crítica e rigorosa sobre eles. Quanto à sociedade, as pesquisas em humanas levam a uma discussão sofisticada que encontra seu par em perguntas caras à antropologia e que traz a contribuição de um conceito como o de cultura das Bordas.

O estudo da literatura de cordel ocupa um espaço relevante no livro. Quais as contribuições da autora a respeito deste tema?

ACAS: Jerusa teve formação em Portugal, no instituto de Alta Cultura, onde teve mestres do porte de Maria de Lourdes Belchior Pontes (1923-1998) e Hernâni Cidade (1887-1975), os quais volta e meia viria mencionar em seus artigos e palestras. Também participou dos famosos Seminários de Semiótica em Urbino, Itália. Ambos estão na gênese do livro fundante que é Cavalaria em Cordel, responsável por pavimentar um projeto de sempre acompanhar essa produção. Paul Zumthor – a quem Jerusa gostava de se referir como um mestre – viria comentar o aspecto inovador de Cavalaria em Cordel em texto publicado na revista Critique (Paris, março de 1980): “As questões de toda ordem, colocadas pelo livro de Jerusa Pires Ferreira, ultrapassam o quadro da etnografia e importam para a definição funcional das tradições poéticas orais e sua complexa e movente relação com a escritura” (tradução de Jerusa). É um olhar sobre a tradução cultural, sobre a oralidade e o gesto em que linguagem e cultura encontram sua síntese máxima. Isso está dado desde sempre no trabalho desses artistas. Leituras Imediatas traz esse projeto do Cordel sob o olhar de sua confluência com a televisão, dominante na época, mas eu diria que oferece um belo aporte para os pesquisadores de relações entre Cordel e novas mídias.

Que lugar este livro ocupa no conjunto da obra de Jerusa Pires Ferreira?

ACAS: Bom, pensando o lugar que esse livro ocupa, lembro que Paul Zumthor diz em Escritura e Nomadismo, publicado pela Ateliê com tradução de Jerusa, que um grande pesquisador não deixa uma obra antes dos 56 anos. Talvez, o lugar que o livro de Jerusa ocupa face a barbárie em que vivemos, será o de apontar daqui a 50 anos, que o Brasil traz consigo uma cultura marcada, e aqui uso expressão de Zumthor, pela permanência da voz.

A voz é algo que nos distingue e permite pensar a tradução cultural presente na obra de nossos artistas, temos vários exemplos, o cineasta Júlio Bressane ou o músico Egberto Gismonti, um pianista de “sotaque cubano” que é João Donato ou um poeta como Leandro Gomes de Barros. É um processo de permanente reinvenção

Conheça melhor a obra de Jerusa Pires Ferreira

“Yaser”, de Eda Nagayama

Um livro que nasceu da experiência vivida com pessoas, em uma paisagem de guerra. Assim é Yaser, de Eda Nagayama, que alinhava com o fio da ficção a dura realidade da Palestina dos dias de hoje. Eda, que é escritora e atriz paulistana, doutoranda em Estudos Literários (FFLCH/USP), foi voluntária na Palestina, onde se sentia “inimiga por extensão”. Para contar sua experiência, escreveu Yaserh. “A escrita nasceu assim dessa necessidade de dar voz e visibilidade ao que vi, ouvi e testemunhei, de responder à minha própria ferida. Não sou uma ativista e minha maneira de agir foi através da palavra – gestada na solidão, povoada por essas pessoas, por Yaser e sua família em especial”, explica a autora ao Blog da Ateliê:  

O que a levou à Palestina? O que a motivou a realizar essa jornada?


Eda Nagayama: O meu interesse e desejo de visitar a Palestina já vinha de alguns anos. Em 2014 havia me informado sobre custos e a possibilidade de me voluntariar na Cisjordânia. A oportunidade concreta veio de uma maneira inesperada. Em 2016, estava na Polônia como parte de um programa de intercâmbio acadêmico sobre trauma cultural quando, numa conversa com uma professora de Sociologia sobre refugiados, comentei sobre a Palestina: “Ah, você gostaria de ir para a Palestina? Conheço um programa de voluntariado”. Ela então me apresentou para o coordenador local do EAPPI – Programa de Acompanhamento Ecumênico em Palestina e Israel, do Conselho Mundial das Igrejas (WCC). Fui aprovada e enviada como única representante da Polônia naquele período. Chegando lá, num grupo internacional com finlandeses, noruegueses, ingleses e colombianos, o mais bizarro era parecer japonesa, ser brasileira e ter sido enviada pela Polônia.

A minha motivação para ir para a Palestina estava inicialmente relacionada a Israel. Ainda adolescente, fui muito impactada pelo Holocausto e a Segunda Guerra. Aprofundei e estudei o tema e também um pouco de cultura e literatura judaicas. Quando tive um pouco mais de informação sobre a situação na Palestina, voltei a me sentir afetada diante da opressão, da complexa disputa que se dá em torno da terra e da água, das narrativas dominantes sobre os acontecimentos. A Palestina era uma indagação, uma perplexidade que só iria aumentar após ter visitado vários memoriais e campos de concentração: Auschwitz, Treblinka, Majdanek, Belzec, Gross-Rosen, Plaszów, Theresienstadt, Sachsenhausen. O incomensurável sofrimento e injustiça do passado poderiam constituir uma justificativa absoluta para a opressão e violência contra um outro? O que acontecia na Palestina em nome desse Estado para um povo sem terra, como se terra sem povo?

Que atividades você desenvolveu ali, durante o tempo em que esteve no local?

EN: O programa visava a observação de violações de direitos humanos na Cisjordânia, parcela maior do território do Estado Palestino, separada da Faixa de Gaza. Os participantes do programa eram divididos em grupos e diferentes localidades: Jerusalém, Belém, Hebron, Tulkarm, Colinas do Sul de Hebron, Vale do Jordão e Yanoun, para onde eu fui destinada. As atividades envolviam a visita aos vilarejos da região e o acompanhamento de incidentes como demolição de construções, expropriação de terras, detenção de crianças, agressões e danos a propriedades e plantio, restrição à livre circulação, toque de recolher e punição coletiva. Com a ajuda de um facilitador local, coletávamos relatos e informações sobre os incidentes e produzíamos relatórios que eram distribuídos a outras entidades com envolvimento na situação.

Outra atividade que realizávamos era a presença protetiva visando diminuir ou refrear atos contra a população palestina através da mera presença de estrangeiros. Três vezes por semana fazíamos o acompanhamento da entrada dos alunos de uma escola à beira de uma rodovia em área C, utilizada por israelenses e palestinos. Um grupo de soldados israelenses estava sempre de vigília, de maneira mais ou menos ostensiva, tendo detido meninos em algumas ocasiões sob a acusação de atirarem pedras. Essa atuação era sempre muito tensa e ambivalente – difícil saber se a presença podia realmente ser protetiva, se não poderia justamente acirrar os ânimos. Os soldados podiam detê-los numa demonstração de força? Os meninos podiam se sentir encorajados pela nossa presença? Não vi nenhum menino atirando pedras nem enfrentando soldados. Em compensação, vi soldados detendo meninos, fazendo provocações – também dirigidas a nós. Os palestinos eram o inimigo e, por extensão, nós também. Nunca estive nessa posição – senti medo, indignação, dúvida.

Eda Nagayama fotografada por Lailson Santos

Por que decidiu escrever um livro da experiência que teve na Palestina?

EN: A experiência foi muito impactante e voltei para o Brasil afetada – a tensão é constante e muito distinta daquela provocada pela violência aqui e não corresponde à imagem do conflito na mídia internacional, vinculada à Faixa de Gaza e às bombas do Hamas, aos terroristas e homens-bomba da Segunda Intifada (2000-2005). Apesar de estar em Jerusalém à época de um atentado, copycat dos ataques utilizando caminhões em Nice e Berlim em 2016, a tensão não advinha daí, da ameaça desse tipo de crime, mas da sensação de vulnerabilidade, de arbitrária opressão a que estavam sujeitos os palestinos. Ouvi muitos relatos de pessoas sem futuro nem sonhos, que só queriam ser deixadas em paz. O que acontece na Cisjordânia é, para mim, uma maneira muito perversa de aniquilar indivíduos e um povo. Não é preciso tirar-lhes a vida, mas apenas restringir e privá-la através do abuso e arbitrariedade de força, regras e restrições, a tal ponto de não mais ser entendida como tal. Vida? Que vida? A escrita nasceu assim dessa necessidade de dar voz e visibilidade ao que vi, ouvi e testemunhei, de responder à minha própria ferida. Não sou uma ativista e minha maneira de agir foi através da palavra – gestada na solidão, povoada por essas pessoas, por Yaser e sua família em especial.

Como conheceu Yaser e porque o escolheu para ser protagonista de seu livro?

EN: O vilarejo de Yanoun foi invadido em 2002 por colonos israelenses de assentamentos do entorno. Na época, havia aproximadamente 350 pessoas e foi então que o EAPPI começou através da presença de outsiders para que o vilarejo não fosse tomado e que ao menos parte das famílias pudesse retornar.

Hoje, os que restam não chegam a oitenta, todos parentes, já que era muito comum o casamento consanguíneo. Yaser morava na casa em frente à nossa e foi de sua família que estive mais próxima, podendo conhecer mais das tarefas diárias, da violência sofrida no passado, dos temores e incertezas do presente. Escolher Yaser como meu protagonista foi uma estratégia narrativa para criar mais coesão à diversidade de relatos e experiências, mas também uma forma de expressar meu afeto e respeito pela trajetória – sua e de sua família estendida, de seu povo.

A obra mistura ficção e relatos reais. Quais foram os desafios de equalizar esses dois registros?

EN: A maior questão é mesmo ética: tenho o direito de narrar? Posso “ocupar” Yaser – percorrer seus pensamentos e sentimentos, me apropriar da memória de eventos traumáticos? Foi uma fronteira difícil de constituir, encontrar a medida para que não predominasse o aspecto informativo ou denunciativo, e que o texto tivesse sensibilidade e qualidade literária. O livro, e também minha pesquisa de doutorado, refletem esse questionamento: quais os limites e decorrências da apropriação da realidade por uma alteridade, das distorções ficcionais produzidas por esse outro ao dar voz aos eventos?

Você já iniciou a elaboração do livro com o projeto de mesclar ficção na história real ou isso foi ocorrendo aos poucos, no processo de escrita?

EN: Eu comecei a escrever Yaser sabendo que iria “contaminar” a realidade de alguma ficção, não queria um relato jornalístico. Recebi a sugestão de adotar a minha perspectiva pessoal como voluntária para narrar os eventos. Não, não era isso de forma alguma. E, a princípio, não queria usar as palavras “judeu”, “israelense”, “palestino”, mas somente “um” e “outro” – adotando assim perspectivas relativas e não absolutas. Tal opção poderia gerar muita imprecisão e ambiguidade e assim comprometer justamente a legitimidade dos eventos, seu caráter testemunhal. Os palestinos deveriam ser os protagonistas – fundidos na figura de Yaser -, com um alinhavo ficcional mínimo. Não sei o que Yaser achou dessa sua versão, espero que possa se reconhecer e apreciar.

Quais foram suas inspirações para escrever o livro, do ponto de vista estético?

EN: Eu não sei se posso apontar inspirações literárias para escrever Yaser. A experiência predominou – em situações, paisagens e pessoas. Terra Prometida ou não, a Palestina é um lugar potente, umbigo do mundo que não permite que você permaneça isento ou que parta imune. E esse afetar foi e é fundamental para mim – que reside nos vazios e silêncios dos campos de concentração, que ecoa nas conversas que tive com refugiados ao longo dos anos – aqui em São Paulo, em abrigos na Itália, em um campo de refugiados na Grécia. A minha questão como escritora é encontrar narrativa para essa realidade de contundência, muitas vezes dolorosa e traumática. 

Paradeiro: o primeiro romance de Luís Bueno

Paradeiro é o romance de estreia de Luís Bueno e tem como um de seus cenários a cidade de São José dos Campos (SP) em épocas e com personagens distintos. O exercício de estilo desafiou o autor. “Os três planos da narrativa não se relacionam pelo enredo. Ao contrário, as personagens têm pouco ou nenhum conhecimento uma da outra”, afirma Bueno, que é Doutor em Teoria e História Literária pela Unicamp e professor de Literatura Brasileira na Universidade Federal do Paraná (UFPR).A seguir, ele fala com o Blog da Ateliê.

Por que do título Paradeiro?

Luís Bueno: A palavra tem uma ambivalência entre o permanente e o efêmero, passageiro, que está na base do romance. Na esteira dessa ambivalência, o título evoca um lugar ao mesmo tempo metafórico e geográfico em que se foi parar – mas parar até quando? Existe inclusive uma expressão, “paradeiro desconhecido”, que é o ápice dessa ambivalência porque fala de um lugar desconhecido em que alguém está, ou seja, é toda parte e lugar nenhum. É nessa ambivalência que o livro se funda.

O livro se passa em São José dos Campos. Por que dessa escolha?

LB: A história da cidade faz dela um paradeiro ideal para este romance, pois ela é emblemática  desse jogo entre efemeridade e permanência. Uma permanência curiosa, resultado das experiências individuais que se mantêm muitas vezes como resíduos quando a paisagem e a dinâmica de ocupação do espaço urbano mudaram drasticamente. Desde os anos 1960, tem sido uma cidade industrial – abriga fábricas enormes como a GM e a Embraer –, mas antes disso era uma cidade sanatorial na qual uma pequena população local se misturava com uma população flutuante constituída de tuberculosos em tratamento. É, aliás, como cidade sanatorial que ela aparece, aqui e ali, na literatura brasileira, mencionada em romances como Floradas na Serra, de Dinah Silveira de Queirós, ou Território Humano, de José Geraldo Vieira. Antes disso, aparece como cenário de bangue-bangue em Quincas Borba, numa passagem em que é mencionada para dizer mal de um personagem secundário, cujo  cunhado “dera um tiro de garrucha num delegado em São José dos Campos”. Mais recentemente foi o lado de cidade tecnológica que a tornou o cenário da resistência a zumbis na saga As Crônicas dos Mortos, de Rodrigo de Oliveira.

Em Paradeiro o que interessa é a relação entre essas várias cidades que são uma só, a dinâmica histórica de um lugar que muda radicalmente em poucas décadas, no qual também muda a experiência daqueles que vivem ali. Não é porque estamos no mesmo lugar e no mesmo tempo, expostos às mesmas mudanças, que nosso paradeiro é o mesmo.

Mas vale a pena lembrar que São José dos Campos não é o único cenário do livro: o Guarujá, que aliás também passou por uma transformação enorme, ainda que de outra natureza, no mesmo período, também é. Assim como, mais episodicamente, as cidades portuguesas de Leiria e Ruge Água.

Luís Bueno

Podemos dizer que a doença é um fio que liga os personagens, ainda que não necessariamente os defina. Qual a razão para trazer este tema à literatura?

LB: A doença de fato não define os personagens, mas os coloca numa posição privilegiada para reverem o que são. Um ditado diz que para morrer basta estar vivo, mas os vivos em geral não se ocupam tanto assim da morte. Doenças como a tuberculose antes do emprego dos antibióticos, o câncer e o Alzheimer até hoje, no entanto, colocam a vida em relação direta com a ideia de morte: não tem como escapar. Ora, a doença e a morte são experiências radicalmente pessoais que, ao mesmo tempo, são forçosamente partilhadas por todo mundo. A doença é elemento fundamental na criação de um tipo de relação específica entre indivíduos que interessa ao romance, uma relação que não nasce de um contato direto, mas de experiências comuns vividas por pessoas muito diferentes.

Há uma parte do romance que é epistolar. Como se deu a escolha de inserir esse gênero dentro de uma obra que não é apenas feita da troca de cartas?

LB: A forma epistolar ajuda a compor a caracterização de um dos protagonistas, um rapaz na faixa dos 20 anos que vai a São José dos Campos em 1938 para se tratar de uma tuberculose. Ele não é da cidade, não se integra a ela, então, como era usual, mantém correspondência com os amigos de fora, de onde sua vida deveria em tese ter continuado a transcorrer. As cartas concretizam essa situação e permitem que ele revise, nesse contato ao mesmo tempo tão precário e tão íntimo, suas amizades e suas crenças. A troca de correspondência é uma experiência que se transformou demais nas duas últimas décadas. Nosso tempo, afinal de contas, é o da comunicação imediata. No entanto, contrariando as aparências, o contato permanece cheio de ambiguidades, ainda precário e ao mesmo tempo íntimo.

O livro traz uma variedade de vozes, estilos, narradores e datas. Qual o desafio desse tipo de escrita?

LB: Juntamente com a estrutura geral dos capítulos, que giram em torno de um mote central, esse foi o maior desafio na elaboração do romance. Os três planos da narrativa não se relacionam pelo enredo. Ao contrário, as personagens têm pouco ou nenhum conhecimento uma da outra. Sua relação se dá num outro plano, naquilo que partilham mal sabendo que partilham. Para isso funcionar, seria preciso que cada plano fosse escrito de maneira distinta, de maneira que o leitor pudesse identificar cada um desses planos com facilidade. Era necessário também que não houvesse diferenças enormes de registro entre eles. Unidade e distinção ao mesmo tempo, assim como acontece, no plano do enredo, com as vidas que pouco e tudo têm a ver umas com as outras. Esse é o desafio difícil que procurei vencer. O leitor poderá verificar se deu tudo certo ou não.

Você teve uma preocupação com a fidelidade aos fatos históricos, ao escrever o romance, ou eles são apenas pano de fundo?

LB: Gosto de pensar que os “fatos históricos” integram a estrutura da narrativa, sendo mais que pano de fundo. Procurei ser preciso – sempre pensando na precisão que se pode esperar de um texto ficcional – porque isso contribui para que o leitor tenha uma impressão mais forte de realidade. E também porque me interessava que o livro se ligasse à realidade do lugar onde ele foi escrito e onde sua trama tem lugar.

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