Entrevistas

Um guia de viagem inusitado

O escritor e designer Gustavo Piqueira esteve na cidade de São Francisco do Pará em janeiro de 2020. Lá, fotografou todas as placas comerciais da cidade. O resultado é um documento que mais parece um mapa de viagem, com tiragem única de mil exemplares. “Ao desdobrar o enorme cartaz que exibe, condensado num intricado mosaico, todo o conteúdo do livro, o leitor é convidado a refletir sobre questões que vão da relação entre a linguagem visual e a mensagem da qual é portadora até o quanto um recorte do Brasil distante de seus centros econômicos é, de fato, representativo desse lugar ou não passa de um olhar concentrado somente naquilo que lá encontra de diferente e logo enquadra como exótico”, explica Piqueira.

Toda a cidade de São Francisco do Pará conforme encontrada no dia 12 de janeiro de 2020 é exatamente aquilo que seu título declara: uma cidade comum do Brasil que, num dia qualquer, recebeu o registro fotográfico de todas as suas placas comerciais. Todas. Sem nenhum filtro, nenhum recorte. Uma visão completa de uma cidade, sem juízo de valor ou de gosto. Um retrato de quais histórias seus habitantes contam para si mesmo, de como as contam.

A aparente neutralidade, contudo, é ilusória. Pois ao desdobrar o enorme cartaz que exibe, condensado num intricado mosaico, todo o conteúdo do livro, o leitor é convidado a refletir sobre questões que vão da relação entre a linguagem visual e a mensagem da qual é portadora até o quanto um recorte do Brasil distante de seus centros econômicos é, de fato, representativo desse lugar ou não passa de um olhar concentrado somente naquilo que lá encontra de diferente e logo enquadra como exótico. A seguir, o autor fala ao Blog Ateliê:

Como surgiu a ideia do livro-objeto?

Gustavo Piqueira: Penso que há algum tempo já me debruço sobre questões ao redor do tema central do livro, que são as definições sobre o que deve ou o que não deve ser admirado como “arte” ou “cultura” e, dentro desse assunto amplo, venho olhando para algumas manifestações daquilo que se convencionou chamar de “arte popular” — como em meu livro “Desvios” (WMF Martins Fontes/2018), sobre fachadas populares contemporâneas do sertão nordestino. Falando especificamente desta obra, o “Toda a cidade…”, ela nasceu inicialmente numa visita à ala de ex-votos da Casa Museu do Padre Cícero, em Juazeiro do Norte. Além dos já esperados entalhes de madeira, singelas representações de braços, pernas e cabeças curadas pela fé, encontrei uma boa quantidade de presentes de outra ordem — igualmente oferecidos por fiéis em agradecimento pelas graças alcançadas —, como fotos de motos estacionadas em frente à estátua do padre milagreiro, camisas de times de futebol (sobretudo a do Flamengo) e miniaturas de carros, entre elas a de um Porsche branco. Nenhum problema nisso: cada um sabe de seus desejos e aflições. O que me chamou mesmo a atenção foi o fato de que sempre que ex-votos são expostos, por exemplo, aqui em São Paulo — despidos de sua função religiosa e transformados exclusivamente em expressão cultural de um suposto Brasil profundo —, não se costuma incluir na mostra fotos de motocicletas, mantos rubro-negros ou Porsches brancos. Com certeza, não por falta de espaço nas salas expositivas. Então o que realmente enxergamos? Quais são essas vozes que não apenas organizam e escolhem a cultura a ser consumida como também ensinam ao espectador como consumi-la?

Por que ele foi feito durante uma viagem?

GP: Na verdade ele nasceu no meio de uma viagem, uma longa viagem de carro indo de Juazeiro do Norte a Belém. São Francisco do Pará não estava no roteiro inicial, foi escolhida em função do surgimento do projeto do livro, cuja ideia passava por escolher aleatoriamente uma cidade comum do Brasil que, num dia qualquer, recebeu o registro fotográfico de todas as suas placas comerciais sem nenhum filtro, sem nenhum recorte. Uma visão completa de uma cidade, sem juízo de valor ou de gosto. São Francisco do Pará se encaixava nos parâmetros que defini para o livro (em termos de população e atividade) e ficava relativamente próxima ao trajeto original da viagem, então foi a escolhida.

Lançar um livro feito durante uma viagem em meio a uma pandemia, que obriga a um distanciamento social, é de alguma maneira uma inspiração, um apelo à esperança de que esta fase vai passar? Qual o significado disso, para você?

GP: O livro estava feito antes da pandemia, então não existe relação direta. E creio que seu assunto é válido independentemente do impacto da pandemia (que vai passar, mas vai deixar marcas). Claro que, neste 2020, a chegada da pandemia interrompeu meus projetos de livro que envolviam viagens — dois deles foram seriamente prejudicados por isso — mas, por outro lado, fez nascerem outros que talvez não tivessem brotado não fosse o isolamento (ainda que nenhum deles seja sobre isolamento, pandemia ou algo diretamente ligado ao tema). 

Por que fotografar os letreiros especificamente?

GP: Não é uma maneira muito habitual de se retratar uma cidade, eu sei: normalmente escolhem-se suas edificações, sua paisagem natural ou sua gente. Mas porque não os letreiros? Afinal, eles são peças que unem mensagens em texto e imagens, elaboradas pelos próprios moradores da cidade para se comunicar com os demais moradores. Não são esses ótimos ingredientes para se compor um retrato consistente?

Que história esses letreiros contam?

GP: Creio que os letreiros comerciais contam histórias muito ricas, pois neles é possível encontrarmos quais as atividades  movimentam a cidade, quais os códigos visuais utilizados para comunicá-las (ou seja, qual o repertório visual daquela população), quais as técnicas utilizadas para produzi-los… Dá pra falar de local x global, dá pra falar de manualidade x digital… É um material de aparência prosaica mas que, a meu ver, abre caminho para reflexões das mais ricas.

Como é feito o acabamento do livro? São colagens feitas uma a uma?

GP: Sim, as etiquetas de título/autor são coladas uma a uma. O formato do livro brinca com aqueles antigos mapas impressos de viagem, vem daí a ideia para seu tamanho pequeno que se desdobra num grande cartaz.

Em sua opinião, o livro só interessa ao público ligado ao design ou também ao público em geral?

GP: Gostaria de acreditar que o interesse do livro transcende sua forma e alcança todos aqueles que, de algum modo, se interessam por refletir sobre as questões que coloquei, vinculadas a nossa própria percepção do Brasil, a nosso olhar sobre a produção dita “popular”, a pensar sobre quem escolhe o que consumimos com o rótulo de “cultura”…

Você já tem outros projetos de livro em mente? Pode falar sobre isso?

GP: Sim, tenho alguns. No começo de 2021 lançarei o quinto volume de minha coleção Gráfica Particular, “A Cidade sem nome de Torres-García” (Lote 42), além de um livro sobre a história de São Paulo, “A Pirâmide do Piques” (Edições Sesc) e “Domex“, uma história em quadrinhos (Editora Veneta). Esses são os que estão prontos já. Dos que farei, pela Ateliê, planejei com o Plinio de escrever e lançar, neste 2021 que chega, um volume para a coleção Artes do Livro, da qual já participei organizando/desenhando “William Morris – Sobre as Artes do Livro”, mas desta vez serei também o autor. Será mais um ano produtivo, espero.

Cinema Popular: política e resistência

Por Renata de Albuquerque

Em Por um Cinema Popular Leon Hirszman, Política e Resistência, o professor de cinema da Universidade Federal Fluminense, Reinaldo Cardenuto analisa a militância do cineasta carioca, um dos nomes mais importantes do cinema novo.  No livro, o autor retoma Que País é Este?, filme desaparecido que o cineasta dirigiu em 1976 e avalia as leituras que o cineasta fez sobre o país em sua obra, tomando como pano de fundo outras manifestações artísticas que fizeram resistência ao período da ditadura militar (1964-1985). A seguir, o Blog Ateliê conversa com Reinaldo Cardenuto:

Por que escolheu analisar a obra de Leon Hirszman no período de 1976 a 1981?

Reinaldo Cardenuto

Reinaldo Cardenuto: Quando iniciei as pesquisas para a realização do meu livro, eu não possuía uma definição tão clara acerca do período de tempo no qual concentraria os meus estudos. Originalmente, minha pretensão era analisar dois filmes nos quais Hirszman explicitava o seu posicionamento político antagônico à ditadura militar brasileira: ABC da greve, filmado em 1979, e Eles não usam black-tie, finalizado no ano de 1981. Tratam-se de dois longas-metragens que se voltam para a questão do movimento operário, que propõem leituras acerca do sindicalismo combativo que emergiu como força social de resistência no final da década de 1970. No decorrer das pesquisas, porém, foi ficando claro que a investigação em torno desses filmes exigiria um conhecimento geral sobre a trajetória artística de Leon Hirszman, assim como estudos acerca da história política e cultural do Brasil entre os anos de 1950 e 1980. Para pensar o filme Eles não usam black-tie, por exemplo, tornava-se fundamental refletir sobre a peça homônima que Gianfrancesco Guarnieri escreveu em 1956, em um contexto anterior à instauração da ditadura militar, partindo de tal conhecimento para analisar o processo criativo que levou Hirszman a adaptar e atualizar esse texto teatral em 1981. A partir da construção desse quadro geral em torno da história do Brasil e da obra de Hirszman, foi se tornando evidente que os filmes realizados pelo cineasta entre 1976 e 1981continham um traço mais explícito de militância contra o regime autoritário do período. Ainda que ele sempre tenha feito um cinema de engajamento político, atrelado às heranças do comunismo, foram nesses anos que sua obra demarcou, mais intensamente, uma resistência à ditadura militar. Em meio às pesquisas, a descoberta do material remanescente em torno do filme desaparecido Que país é este?, dirigido por Hirszman em 1976, confirmou que foi a partir de meados da década de 1970 que o cineasta voltou-se para um fazer cinematográfico atrelado à defesa de um frentismo político amplo em prol da redemocratização do Brasil. Em suma, posso dizer que meu livro investiga sobretudo a obra de Hirszman entre 1976 e 1981, propondo reflexões acerca de suas leituras do país, de suas experiências estéticas e de seu lugar no mundo, mas ao mesmo tempo expande a análise para a trajetória integral do cineasta.

O que essa obra de Hirszman traz que ilumina a relação entre arte e resistência durante a ditadura militar que outras obras/artistas não trazem?

RC: Durante os anos 1960 e 1970, a resistência contra a ditadura militar foi bastante heterogênea. Longe de ser um bloco uno e indistinto, ela se caracterizou por uma multiplicidade de projetos, de ações e de pensamentos. No decorrer de minhas pesquisas, com o intuito de melhor compreender o lugar político de Hirszman, eu me vi diante do desafio de traçar um panorama das resistências culturais existentes no período. Nesse sentido, acabei estudando manifestações artísticas diversas, a exemplo da contracultura, do teatro político da década de 1970 ou do cinema realizado pelo novo sindicalismo na região do ABC. Ainda que meu livro seja principalmente sobre Hirszman, o leitor encontrará em suas páginas informações sobre essas várias manifestações da cultura brasileira. Tal pluralidade da resistência, aliás, tornou-se um dos principais objetos de investigação do historiador Marcos Napolitano, cujos textos foram fundamentais para a minha pesquisa. Uma vez montado esse “painel das resistências”, foi ficando mais claro, para mim, o lugar de Hirszman na oposição ao regime autoritário. Se ele nada tinha a ver com o projeto da contracultura ou da marginália, ainda que tenha flertado com essa opção no ano de 1969, ao mesmo tempo a sua cinematografia aproximava-se intensamente da revisão política e estética promovida nos anos 1970 pelos dramaturgos oriundos do Teatro de Arena. Fui percebendo, com o tempo, as divergências e convergências de Hirszman com o campo cultural do período. Percebendo, por exemplo, que havia perspectivas distintas de resistência política e artística entre os cineastas que filmaram as greves operárias na região do ABC, sendo que o projeto fílmico de Renato Tapajós, atrelado diretamente às atividades sindicais metalúrgicas, diferia do projeto de Hirszman, um cineasta integrante do Partido Comunista Brasileiro. Por meio desses estudos comparativos, e de um grande investimento em pesquisas documentais, a perspectiva que mobilizava a resistência de Hirszman foi se apresentando. Filiado a vida toda ao PCB, proveniente do Cinema Novo e do Centro Popular de Cultura, o cineasta acreditou em uma arte que dialogasse criticamente com amplas camadas de público, voltando-se para a defesa do frentismo político como opção para o confronto contra a ditadura. A noção de frente ampla, de união das diversas forças sociais em oposição ao regime autoritário, foi aquilo que estimulou a militância artística de Hirszman, especialmente nos filmes realizados entre 1976 e 1981. Foi nesse lugar que ele se posicionou em prol da redemocratização do Brasil. Um lugar que não era apenas seu, mas que ele manifestou de modo singular em filmes como ABC da greve e Eles não usam black-tie.

Como o senhor define o “cinema popular” que dá título ao livro?

RC: O “cinema popular” que se encontra no título do livro remete sobretudo ao projeto criativo de Leon Hirszman. Por um lado, como um artista de herança marxista e que fez de sua obra um ato constante de engajamento político, Hirszman encontrou na classe popular a essência de sua criação cinematográfica. De filme a filme, nas ficções e documentários que ele realizou, o povo emerge quase sempre como instância protagônica para as leiturascríticassobre o Brasil, num constante desvelar das tragédias e resistências que marcam a condição dos oprimidos em nosso país. A cultura popular, a exemplo do samba de raiz carioca, apresenta-se continuamente na obra de Hirszman como manifestação de identidades comunitáriasem resistência às forças de opressão. Por outro lado, a ideia de “cinema popular” também se origina da aposta de Hirszman em um fazer artístico que permitisse diálogoscríticos com amplas camadas de público. Defensor do apuro formal, experimentando no decorrer da vida diversas possibilidades de realismo cinematográfico, o realizador procurou comunicar-se com os espectadores sem abrir mão de sua autoria criativa ou de práticas inventivas do ponto de vista estético. Em Eles não usam black-tie, por exemplo, a leitura crítica sobre o Brasil vem construída a partir de elementos de grande apelo de público, a exemplo do melodrama ou de uma experiência realista demarcadamente emocional. O título do livro, portanto, remete a essas perspectivas que mobilizaram Hirszman. O leitor, no entanto, encontrará nas páginas da publicação outras noções do que seria um “cinema popular” durante o regime militar. Projetos que por vezes entraram em disputa com o viés assumido por Leon Hirszman.

Leon Hirszman

Quando se fala em cinema político, há quem possa entender que a questão é muito mais de conteúdo que de forma. Do ponto de vista estético, quais foram as contribuições do cinema de Hirszman?

RC: Em parte, creio que essa pergunta já foi respondida na questão anterior. De modo algum, Hirszman foi um cineasta que compartilhou do pressuposto de que o conteúdo político de um filme é mais significativo do que as pesquisas estéticas no campo artístico. Penso que Leon buscou, insistentemente, um projeto cinematográfico no qual as leituras críticas do país se tornassem acessíveis ao público, sem com isso abrir mão de um apuro formal vinculado às heranças do realismo. Demarcando uma contrariedade às perspectivas estéticas tidas como herméticas, o cineasta reivindicou uma arte comunicativa, que alcançasse criticamente os espectadores, sem deixar de lado um investimento criativo e poético na qualidade formal. Seu filme de estreia, o curta-metragem Pedreira de São Diogo (1962), é um exemplo do que estou comentando: um curta-metragem de narrativa universal, a conter uma pedagogia revolucionária de luta contra a opressão, mas realizado em íntimo contato com a riqueza estética proveniente do cinema soviético de Sergei Eisenstein. Percorrer a obra ficcional de Hirszman é perceber um constante exercício criativo, feito com grande paixão e rigor técnico, a partir do qual o cineasta envolveu-se com múltiplas tradições do engajamento realista. Assim, enquanto S. Bernardo (1972) é uma obra tributária do realismo brechtiano, Eles não usam black-tie (1981) dialoga com o realismo oriundo do Teatro de Arena. Já no campo do documentário, com algumas exceções, Hirszman sempre buscou uma convivência entre registros poéticos da realidade social e o uso de vozes narrativas, politicamente pedagógicas, a instaurar leituras críticas sobre o país. Ainda que seja muito difícil sintetizar, em poucas palavras, a riqueza estética do cinema de Hirszman, penso que uma boa chave de leitura é essa noção de “equilíbrio” entre forma e conteúdo. O conteúdo precisa alcançar os espectadores, conscientizando-os politicamente, mas ao mesmo tempo a experiência estética não pode abdicar de suas autonomias criativase de seus gestospoéticos. Não à toa, em seus longas-metragens, Hirszman sempre nos surpreende com uma sequência fílmica altamente inventiva, a conter expressões singulares de poesia: a sequência da chuva em A falecida (1965), a vela se apagando em S. Bernardo ou as cenas de separação do feijão em Eles não usam black-tie. De fato, creio eu, a arte política não deve diminuir a qualidade estética em nome de seus engajamentos ideológicos.

Filmagens de Eles não usam black-tie

 
Em Por um Cinema Popular Leon Hirszman, Política e Resistência senhor destaca três eixos da dramaturgia de Hirszman: o retorno às representações politizadas do povo, a insistência no militante de esquerda como interlocutor do engajamento e o elogio à forma dramática realista, especialmente na chave emoção-conscientização. Algum desses eixos deixou um legado mais forte no cinema brasileiro? Hirszman foi o único de seu tempo a unir  essas características?
RC
: O que eu procuro demonstrar no livro é que vários artistas próximos ao comunismo, no decorrer da ditadura, voltaram-se para uma revisão de seus processos criativos. Ainda que vivessem uma forte crise em seus ideários revolucionários de juventude, decorrente da derrota política para a extrema direita que tomou o poder a partir de 1964, muitos artistas sentiram nos anos 1970 a necessidade de repensar seu fazer artístico para potencializá-lo como resistência ao autoritarismo. Da parte dos dramaturgos provenientes do Teatro de Arena, a exemplo de Gianfrancesco Guarnieri, Paulo Pontes e Vianinha, tal revisão resultou em três eixos. Primeiro, a recolocação da classe popular no centro de suas narrativas, posicionado-a nos palcos como mediação para a leitura acerca da tragédia política brasileira. Segundo, a manutenção do artista e intelectual de esquerda como sujeito social que detém o compromisso da militância em prol dos valores democráticos. E terceiro, a insistência em narrativas realistas, acessíveis e crítica à condição brasileira, que através da emoção dramática conscientizassem politicamente os espectadores. Tratava-se, para eles, de um afastamento das idealizações de juventude, das representações teleológicas do povo e da realidade nacional, sem com isso abdicar de um engajamento no campo cultural. O interessante é que Hirszman, cuja proximidade com os dramaturgos oriundos do Arena era intensa, acabou aderindo a esses eixos revisionistas que ocuparam parte do teatro político da década de 1970. Não à toa, essa tríade de questões encontra-se na origem do filme Eles não usam black-tie, justamente uma adaptação da peça escrita por Guarnieri no ano de 1956. No campo cinematográfico, ao que tudo indica, Hirszman foi quem mais aderiu às revisões propostas durante a ditadura pelos dramaturgos comunistas. Partilhavam, sem dúvida, uma mesma visão ideológica de mundo. Ainda que tais eixos sejam referentes a um projeto específico de arte, dentro de um contexto ditatorial, talvez seja instigante relembrar que na história do cinema brasileiro há uma farta herança relacionada às representações politizadas em torno da classe popular. Sem dúvida, quando evocamos cineastas contemporâneos como Affonso Uchôa, João Dumans, Kleber Mendonça Filho ou Renan Rovida, reencontramos, por meio de novas formulações estéticas, a permanência da classe popular como instância protagônica para a reflexão crítica de nossas (de)formações autoritárias. Seria complicado tecer uma ligação automática entre a obra de Hirszman e a desses realizadores, tal relação exigiria novas pesquisas, mas sem dúvida percebe-se que certas tradições de engajamento artístico sobrevivem reformuladas no contemporâneo.


Que País é Este? não é muito conhecido. Qual a importância dele dentro do contexto da obra de Hirszman e qual o impacto de colocá-la no centro da análise para entender esse artista?

RC: Que País é Este? é um documentário que Leon Hirszman realizou, entre 1976 e 1977, para a emissora televisiva RAI. Infelizmente, trata-se de um filme desaparecido. Ao que tudo indica, embora não seja uma informação totalmente confiável, a obra foi destruída durante um incêndio que ocorreu nos arquivos da emissora italiana. Por esse motivo, tornou-se uma parte desconhecida da trajetória artística de Hirszman. No entanto, durante os estudos para a composição do livro, eu acabei me deparando com fontes de pesquisa que permitiram ampliar o conhecimento acerca de um filme não mais existente. Investigações realizadas no Arquivo Edgard Leuenroth, da Unicamp, revelaram a sobrevivência de documentos originalmente pertencentes à Que país é este?. Tendo em mãos esse material, sobretudo uma transcrição integral e em italiano da banda sonora do filme, eu pude finalmente obter uma ideia mais precisa sobre o conteúdo outrora presente no documentário. Em Que país é este?, posicionando-se contraos discursos ditatoriais de enaltecimento à pátria e ao desenvolvimentismo conservador, Hirszman propunhauma revisão crítica da História do Brasil, evidenciando a (de)formação autoritária de uma nação na qual a classe popular é continuamente massacrada pelas forças políticas no poder. A partir de entrevistas com intelectuais atuantes no período, a exemplo de Alfredo Bosi e Fernando Henrique Cardoso, o documentário percorria a nossa história com o intuito de evidenciar a condição dos oprimidos em solo brasileiro. A condição de um povo que, a despeito de viver sob os efeitos perversos da violência e da precariedade social, insiste em construir formas de resistência contra a opressão. O interessante, e essa foi uma das principais descobertas da minha pesquisa em torno de Que país é este?, é que o documentário alcançava a contemporaneidade dos anos 1970, levantando questões acerca das possibilidades de atuação contra o regime autoritário. Após propor a revisão da história do país e de levantar críticas às condições insalubres do tempo presente, o filme de Hirszman esboçava um programa político de oposição à ditadura. Era a primeira vez que a obra do cineasta manifestava a defesa de um frentismo ideológico em prol da redemocratização brasileira, sugerindo que todos os opositores do regime deixassem suas diferenças de lado para se unir em um grande bloco de atuação. A canção que encerrava o filme, “Cordão”, de Chico Buarque, traduzia esta perspectiva assumida por Hirszman. O material remanescente de Que país é este?permitiu, portanto, a obtenção de novas pistas acerca do lugar político e cultural ocupado pelo cineasta na década de 1970. Também permitiu observar a convergência de Hirszman com os dramaturgos provenientes do Teatro de Arena, uma vez que algumas peças desse grupo eram citadas diretamente no filme. Descobertas como essa, que aqui descrevi em poucas palavras, tornam-se muito motivadoras para quem se envolve com pesquisas na área de história. Imagine só: o material sobrevivente de um filme desaparecido, há décadas armazenado em um acervo, tornou-se crucial para o estudo sobre a atuação política e o projeto artístico de um dos principais cineastas do país. Por esse motivo, nos anexos do livro, acabei incluindo uma versão completa (e comentada) da banda sonora de Que país é este?

Qual o legado da obra de Hirszman e como ela ecoa no Brasil de 2020?

RC: Sobre tal questão, se me permite, gostaria de citar uma breve passagem presente na parte final de meu livro. A obra de Leon “permanece viva enquanto objeto artístico a difundir sentimentos de aversão à violência de Estado e às formas de dominação ainda presentes em nossa sociedade. Por mais paradoxal que possa parecer, a filmografia de Hirszman, em especial ABC da greve e Eles não usam black-tie, encontra atualidade nos dias de hoje ao expor contradições nunca superadas, ao posicionar-se contra estruturas antidemocráticas que estavam em vigor no passado e adquirem outras roupagens no contexto contemporâneo. Das obras do cineasta, sobrevivem sentimentos relacionados a um desejo ainda vivo, ao anseio de que o país um dia suplante sua cultura autoritária em nome da consolidação efetiva do sistema democrático. Enquanto restarem expectativas de futuro, mesmo que marginais e despotencializadas, o cinema de Hirszman traduzirá aspirações políticas de transformação. A sua filmografia ganha atualidade, continua provocando inquietações, onde permanece em pé uma vontade de ruptura com as forças de dominação”.

“Esaú e Jacó”: uma superfície simples com significados complexos

A Ateliê acaba de lançar, na Coleção Clássicos Ateliê, Esaú e Jacó, o penúltimo livro de Machado de Assis, uma obra que até hoje suscita interesse e intriga os leitores e a crítica. Para falar sobre o lançamento, o Blog da Ateliê conversou com José De Paula Ramos Jr, doutor em Literatura Brasileira pela USP e professor da ECA. Ele é coordenador da Coleção Clássicos Ateliê e estabeleceu o texto e elaborou as notas de Esaú e Jacó. Acompanhe:

Como foi o processo de estabelecer o texto e as notas desta edição? Quais foram os principais desafios?

José De Paula Ramos Jr

José De Paula Ramos Jr: O romance Esaú e Jacó, de Machado de Assis, é publicado em 1904 pela editora Garnier, que nesse mesmo ano lança a segunda edição da obra.  A terceira é póstuma, de 1917, pela mesma editora Garnier. Assim, a segunda edição vem a ser dotada de autenticidade, legitimidade e genuinidade, pois o texto expressa a última vontade autoral explícita. Por essa razão, serviu de texto de base para a edição Ateliê, mas foi feita a colação com a lição textual da primeira edição. A lição contida na edição crítica do romance (Civilização Brasileira / MEC, 1977) serviu como texto de controle. A edição Ateliê corrige erros, atualiza o texto, segundo o Acordo Ortográfico de 1990, apresenta profusas notas explicativas, que contribuem para a inteligibilidade do texto, em favor, sobretudo, do leitor em formação, e contém um rico e agudo estudo, escrito por Paulo Franchetti, professor da Unicamp, especialmente para a edição Ateliê.

Esaú e Jacó é um dos livros de Machado de Assis que mais atingiram o “sucesso de público” quando lançado (prova disso são as duas edições que ele teve no mesmo ano). O senhor acredita que ele ainda é um romance que pode agradar ao público do século XXI?

JDPRJ: Esaú e Jacó é um clássico tão respeitável quanto Memórias Póstumas de Brás Cubas e Dom Casmurro. Trata-se de uma obra perene. Isso significa que ela ultrapassa a fronteira histórica em que foi escrita e é sempre atual.

Apesar da sinopse simples, o senhor acredita que há uma complexidade em Esaú e Jacó? De que maneira isso se coloca na obra?

JDPRJ: Na superfície, Esaú e Jacó contém, de fato, um enredo simples: a história da desavença entre dois irmãos gêmeos, que brigam desde o útero até a idade adulta, são a antítese um do outro, inclusive politicamente, a despeito da grande semelhança física, apaixonam-se pela mesma mulher, que hesita entre os dois, adoece e morre, sem que haja escolhido um deles, que permanecem irreconciliáveis até o fim da narrativa. No entanto, essa superfície aparentemente simples contém significados complexos, que são percebidos por uma leitura atenta aos efeitos de sentido construídos pelo texto –alusões eruditas, comentários do narrador, a intertextualidade, a paródia, a alegoria, a ironia e o humor. Os que percebem coisas como essas encontram um prazer muito maior na leitura.

Aires, que reaparece no livro seguinte de Machado (Memorial de Aires) repõe a questão do “narrador problemático” que perpassa parte da obra de Machado. Afinal, em sua avaliação, ele é narrador ou apenas personagem da obra?

JDPRJ: Em Esaú e Jacó, o conselheiro Aires se desdobra em narrador e personagem. Narra em primeira pessoa e interage com os protagonistas e com personagens secundárias.

José Veríssimo fala da “novidade” em Esaú e Jacó: “O seu principal encanto talvez esteja no contador. Cada livro dele, de parte o estilo, traz uma novidade. A de Esaú e Jacó é a do assunto, que tem, do modo por que é exposto, toda a figura de um fato novo” (trecho da apresentação da edição da Ateliê). Em sua opinião, qual é essa “novidade” de Esaú e Jacó, já que a história de Pedro e Paulo (como indica o título do romance) tem traços tão antigos quanto as histórias bíblicas? 

JDPRJ: Sim, o romance contém elementos de uma vasta tradição cultural e literária, mas esses elementos são atualizados na escrita de Machado de Assis, o que confere o “frescor” de que fala José Veríssimo. Aliás, por ser um clássico, mantém esse frescor nos dias atuais.

Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis

No universo da crítica literária, muito se debate sobre qual é e onde se localiza no texto o “Realismo” de Esaú e Jacó e se ele deve ser tomado “a contrapelo”. Qual sua análise sobre o assunto?

JDPRJ: Machado manteve distanciamento crítico em relação aos cânones do Realismo, principalmente em relação à corrente do Naturalismo. Em suas obras, posteriores a 1881, Machado, usualmente, faz paródias irônicas do cientificismo expresso nas obras literárias quer do Realismo, quer do Naturalismo. Para Machado, a representação artística da vida não deveria se sujeitar à camisa de força do materialismo cientificista, mas libertar a imaginação ao ponto de inventar um defunto autor (um morto que escreve) nas Memórias Póstumas de Brás Cubas, como estratégia imaginativa para melhor configurar a realidade psíquica e social. Nesse sentido, podemos admitir como realistas as obras de Machado posteriores a 1881, mas de um realismo sui generis, pois não renuncia à imaginação, à fantasia e, mesmo, ao maravilhoso, como no caso das Memórias Póstumas de Brás Cubas.

Conheça outros títulos da Coleção Clássicos Ateliê

Cor para sublimar a dor

“As Fontes Primárias de uma História Natural da Paleta do Artista”, de Philip Ball foi traduzido por Roberto Oliveira e disponibilizado gratuitamente, no formato de e-book, no site da Ateliê Editorial. O e-book traz história das cores nas pinturas antigas. Do que eram feitas as tintas na era pré-industrial? Com projeto gráfico de Gustavo Piqueira e Samia Jacintho/Casa Rex, As Fontes Primárias de uma História Natural da Paleta do Artista, Philip Ball dedica um capítulo para cada cor primária (vermelho, amarelo e azul), contando histórias e curiosidades, em uma leitura fluida, leve e cheia de informação. A seguir, o tradutor e escritor Roberto Oliveira (que também é médico, bacharel em direito e pesquisa sobre Bioética e Mídia) fala sobre a obra:

O que o motivou a traduzir a obra?

Roberto Oliveira: A tradução de As Fontes Primárias… deve-se a uma descoberta feita nos últimos anos quando comecei a fazer a pesquisa iconográfica para ilustrar A Visita da Peste, livro escrito em co-autoria com Jerusa Pires Ferreira e que deve ser lançado brevemente pela Ateliê Editorial. À medida que avançávamos nos textos sombrios da peste, fui encontrando obras de arte de um colorido vivíssimo, como se fossem marcas de uma tentativa de superação/sublimação do sofrimento, sobretudo, mas não só, pela celebração da salvação e misericórdia divinas. A partir daí, surgiu o interesse pela pesquisa das cores e seu impacto psicológico, que remeteu como um engenho faustiano à Teoria das Cores de Goethe, autor presente na Visita da Peste e do qual Jerusa era uma grande especialista. Em paralelo, foi crescendo a curiosidade, como médico e pesquisador, pela obtenção e uso de pigmentos e corantes, que, desde o século XIX, vêm revolucionar o isolamento de vírus e bactérias e também a síntese de novos fármacos, a partir da anilina, dando origem a grandes laboratórios como a Bayer (Bayer Farbenfabrik – Bayer Indústria de Corantes), AGFA (Aktiengesellschaft für AnilinfabrikationSociedade para a Fabricação de Anilina), BASF (Badisch Anilin und Soda Fabrik – Indústria de Anilina e Soda da Região de Baden) e a Hoechst (Hoechst Farbwerke – Hoechst Indústria de Corantes).

Por que decidiu colocá-la à disposição gratuitamente?

RO: Disponibilizar uma obra sem custos para o público em geral é, em primeiro lugar, o prazer de dividir uma descoberta com o maior número possível de interessados, inclusive, alunos de artes gráficas, editoração e afins, áreas que se constituem hoje em um de meus interesses. Devo dizer que para isso concorreram muito as discussões com o Plínio Martins, na sua dupla ou tripla função de professor da Escola de Comunicação da USP, editor experiente e apaixonado por artes gráficas. Por fim, me pareceria um contrassenso não disponibilizar gratuitamente a tradução, uma vez que o texto original foi lançado em uma publicação eletrônica britânica gratuita, The Public Domain, que se apresenta como concentrada “em obras que todos são livres para desfrutar, compartilhar e construir sem restrições”.

Por que escolheu a Ateliê Editorial para disponibilizar a obra?

RO: A competência do editor e seu empenho na busca de obras originais foi determinante para a escolha, independente da tradição que a editora pudesse ter em e-books. Em suma, me parece que a tradição possa fazer o hábito, mas não o monge.

O tema “cores primárias” pode parecer até mesmo simples, mas a abordagem que Philip Ball oferece no livro é bastante singular. O que o senhor destaca como mais interessante nessa obra? Durante a primeira leitura, o que mais o impactou nela?

RO: O texto tem vários pontos interessantes, por exemplo,  a relação do pintor com seus materiais e a importância decisiva destes para a obtenção de determinados resultados. Tal  observação pode caber em qualquer bom estudo de pigmentos como material de uma dada atividade profissional. Porém, a referência a materiais como o mínio faz pensar em questões tão diversas como a história da química e envenenamentos criminosos ou casuais, especialmente, quando se sabe que médicos, pintores e perfumistas integravam no Medievo a mesma guilda mas, se faltar tal informação, basta ler O Nome da Rosa ou uma biografia de pintores, como Cândido Portinari. Porém, de fato, na primeira leitura, o que mais me atraiu não foi o perigo, mas a beleza das ilustrações.

Em sua opinião, o que mais vai surpreender o leitor nesta obra?

RO: Acredito que este estudo possa interessar a uma variedade de leitores e, assim, fica impossível, como em qualquer texto ou obra de arte, saber o que mais irá agradar ou surpreender a cada um, mas, de qualquer modo, um tema aparentemente simples quando tratado de forma original sempre surpreende.

Os Evangelhos, uma tradução

Por: Renata de Albuquerque

Já está disponível para venda a nova tradução de Os Evangelhos, realizada por Marcelo Musa Cavallari. “Uma Tradução”, que complementa o título, é quase que um alerta para o leitor. Esta não é a única tradução possível d’Os Evangelhos, mas uma delas. E o que esta, que sai em coedição da Ateliê Editorial  com a Mnēma, tem de diferente, é a característica de ler o texto sob uma ótica mais literária que estritamente religiosa.

E esta não é a única novidade. A edição bilíngue, com apresentação de João Angelo Oliva Neto, é a estréia da Mnēma no mercado editorial. A seguir, o tradutor e jornalista Marcelo Musa Cavallari – que estudou grego e latim na Universidade de São Paulo para poder ler, no original, o Novo Testamento e as obras dos escritores do cristianismo antigo e medieval – que em 2010 traduziu O Livro da Vida de Santa Teresa D’Ávila e é  autor de Catolicismo (Editora Bella), fala sobre a obra:

Como surgiu a ideia de realizar a tradução d’Os Evangelhos?

Marcelo Musa Cavallari: Eu decidi estudar grego, há quase quarenta anos, por causa dos Evangelhos, para poder lê-los no original. Quando comecei a ser capaz de lê-los, ainda que de forma incipiente, fiquei fascinado com o texto que se ia revelando. Ele me parecia muito mais interessante e instigante do que eu, que só o conhecia traduzido, imaginaria. Era uma paisagem totalmente inesperada. Passei a frequentar esses textos como um explorador que volta à ilha inóspita e distante, mas que lhe é mais íntima e mais cara do que a terra em que nasceu e cresceu. Tudo me interessava, as palavras, o idioma, a moldura histórica em que se passou a história que eles contam e a história da escrita e publicação deles. De certa forma, a ideia de traduzir os Evangelhos nunca surgiu, propriamente. Surgiu a oportunidade de fazê-lo. Como se alguém perguntasse ao explorador onde ele tinha passado esses anos todos. Minha tradução é uma forma de dar conta disso: onde passei esses anos todos.

Marcelo Musa Cavallari, em foto de Olivia Cavallari

Por que dar ênfase no caráter literário, já que o religioso seria o mais comum?

MMC: Exatamente por isso. Jesus Cristo é a personagem mais importante que já viveu sobre a Terra. Contar sua história, entendê-lo e à doutrina que ensinou, são a mais importante tarefa a que se destinou a civilização ocidental. O tamanho da tarefa acaba ofuscando o fato de que os autores dos Evangelhos escreveram obras literárias. Obras, portanto, que se justificam e acontecem no momento da leitura. Como obras de arte que são, não estão prontas até que tenham sido lidas, e lidas como experiência do leitor. Não basta que sejam a história de Jesus, é preciso que sejam a história de Jesus contada do modo como os evangelistas a contam. A fruição do texto no momento da leitura é a experiência fundante de todo o resto: pensar sobre Jesus e sua doutrina. Como em qualquer obra poética, para abusar um pouco do termo (já que os Evangelhos são consistentemente considerados prosa), não se trata só do que os textos significam, mas do que eles são. Como um astrônomo que, ofuscado pela complexidade do que estuda, se atolasse nos livros e computadores e esquecesse de olhar para o céu. O caráter literário, de obra de arte, o caráter estético dos Evangelhos é o céu. Em mais de um sentido, aliás.

Sua tradução parece ser bastante peculiar se comparada às traduções “tradicionais”, que levam em conta apenas o aspecto sagrado dos textos.  Qual a razão dessa escolha para que o texto parecesse novo aos olhos do leitor, inclusive aquele que já presume conhecer o texto? De que maneira foi possível colocar essa “novidade” de um texto tão conhecido em prática?

MMC: Os textos antigos, escritos em línguas que já ninguém fala, têm uma história. Eles entram nas línguas em que não foram escritos, línguas que nem existiam quando eles foram escritos, como o português. Com o tempo vai se estabelecendo uma tradição dos tradutores e dos demais intérpretes dos textos antigos como são os Evangelhos. Palavras vão se especializando e, se são boas para dar conta de uma parte do problema, sua especialização acaba obscurecendo uma parte do sentido. Minha estratégia básica foi buscar o sentido que as palavras gregas tinham quando os evangelistas as escolheram, e não o sentido que vieram a ter com o tempo e com o uso dos Evangelhos como guia do modo de vida dos seguidores de Jesus. A palavra “anjo” por exemplo. A rigor ela não aparece nos Evangelhos. O que aparece é a palavra grega ággelos, que significava núncio, mensageiro. Como ao longo dos Evangelhos ággelos sempre tem o sentido de mensageiro de Deus, surgiu a palavra “anjo”, que designa especificamente um ser espiritual a serviço de Deus. Esse ser não tinha um nome especial no grego dos Evangelhos. Tem em português por causa da tradição dos tradutores. Por isso evitei a palavra anjo e voltei ao núncio que o autor do texto tinha em mente quando usou o ággelos do grego. A mesma coisa vale para palavras como apóstolo, pecado, fé.

O aspecto sagrado das Escrituras influenciou seu trabalho de tradução? Se sim, de que maneira?

MMC: O sagrado, até etimologicamente, é aquilo que foi retirado da ordem comum da existência. O templo, espaço sagrado, é um lugar em que não se entra da mesma maneira que se entra em casa ou nos outros lugares públicos. Um dia sagrado é um dia em que não se vive como nos outros dias, não se trabalha, por exemplo. Os Evangelhos são textos diferentes de quaisquer outros. Não se os deve ler com os mesmos olhos que se leem mesmo os grandes textos da humanidade. Assim, não se os deve traduzir como se traduziriam outros textos. Para mim, isso se manifestou na convicção de que esses textos são intocáveis. Lê-los, traduzi-los, pensar neles é sempre um esforço insuficiente de chegar perto de algo íntegro de que só se veem, sempre, inelutavelmente, partes. Traduzir a Escritura Sagrada é, sempre, um sublime fracasso.

Quais foram os maiores desafios da tradução?

MMC: Não se deixar intimidar pela enormidade dos textos. Não se deixar paralisar pela responsabilidade. Não se deixar atemorizar pela quase insanidade da decisão e confiar que Palavra de Deus há de achar seu caminho mesmo que seja através de mim.

O senhor considera cada um dos quatro textos obras “separadas” ou entende-os como uma só narrativa (por terem apenas um protagonista, como sugere o Prof. João Ângelo, no Prefácio)? De que maneira este dado impactou no trabalho de tradução?

MMC: A narrativa, a história que eles contam, é uma só: a história de Jesus de Nazaré. Mas eles são obras inteiramente separadas. Como toda obra de arte, eles se bastam e se justificam, cada um separadamente. Se justificam pelo ponto de vista que adotam para narrar a mesma história, pelo que escolhem enfatizar ou até deixar de lado dessa história. Pelo prisma pelo qual olham para essa história. O impacto disso no tradutor é o esforço para se manter atento ao que está no texto. Traduzir o que está escrito do modo como está escrito. O tradutor tem que ter a humildade de saber que não é ele quem diz alguma coisa, e sim o autor do texto. É preciso esquecer, como método de trabalho, aquilo que se sabe sobre a história de Jesus, se desapegar da imagem de Jesus que se tem, e se ater ao que cada um dos evangelistas disse com os termos que escolheu, com o tom que usou, como o ritmo que decidiu dar ao desenrolar das frases e dos trechos.

O Prof. João Ângelo diz, no Prefácio, sobre estes textos, que “os usos e as práticas obliteraram a letra”. De que maneira, em sua tradução, o senhor buscou “iluminar a letra”?

MMC: Busquei fazer o texto voltar ao primeiro plano. O texto com suas arestas, suas estranhezas, com sua beleza rude e perigosa. Talvez eu não tenha buscado iluminar a letra, mas sim tenha buscado apagar algumas luzes excessivas que se acenderam com os usos e as práticas. O escritor James Baldwin uma vez disse que “o propósito da arte é desnudar as perguntas escondidas pelas respostas”. Os Evangelhos se tornaram excessivamente familiares. Quase como algo para o que não é mais necessário olhar. Fala-se, mesmo entre crentes, dos valores dos Evangelhos, como se o que importasse fossem qualidades abstratas que se pudessem depreender dos textos. Eu busquei deixar soar em português aquilo que está no texto grego, mesmo o que, no limite, não se tenha certeza do que significa. Nunca se entendem os Evangelhos completamente. Nenhuma tradução, nenhuma interpretação, nenhuma exegese é capaz disso. Os Evangelhos não se esgotam naquilo que se diz deles. É preciso deixá-los falar por si. É preciso voltar a eles. Minha tradução é a tentativa de percorrer um dos caminhos de volta a eles.

Novidade: Hidra Vocal

O que vem por aí? Muita gente tem feito esta pergunta, querendo saber sobre quais os próximos lançamentos da Ateliê e sobre o que esperar para o futuro. Como muitas novidades devem chegar em breve, para satisfazer a curiosidade dos nossos leitores – ou para aguçá-la ainda mais – o Blog da Ateliê resolveu fazer uma série de entrevistas com autores de obras que a editora deve lançar em breve.

Desta vez, entrevistamos com os organizadores do livro Hidra Vocal, que será em breve lançado. Marcelo Lachat é professor do Departamento de Letras da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP). Ele é Doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP), com pós-doutorado pela UNIFESP. Maria do Socorro Fernandes de Carvalho, professora de Literatura da UNIFESP, é Doutora em Literatura Portuguesa pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), com pós-doutorados pela USP e ULisboa. Já a professora de Literaturas de Língua Inglesa na Universidade Federal de São Paulo, Lavinia Silvares, é Doutora e pós-doutora pela USP. Leia a seguir:

Marcelo Lachat

Qual o tema do livro?

Resposta: O livro Hidra Vocal é uma coletânea de textos que discutem como os variados campos artísticos se articulam com o âmbito da retórica e da poética – duas importantes disciplinas que, desde a chamada “Antiguidade Clássica”, formularam preceitos para as produções discursivas e artísticas em diversas línguas, espaços geográficos e momentos históricos. Desse modo, o tema do livro perpassa diferentes práticas de representação a fim de investigar as relações entre retórica, poética e as artes.

Por que homenagear o Prof. João Adolfo Hansen com essa obra? Qual a importância de homenageá-lo?

R: O professor João Adolfo Hansen foi pioneiro nos estudos de retórica e poética no Brasil, sobretudo em suas relações com o campo hoje dito “literário”. Desde a década de 1980, Hansen tem produzido obras importantíssimas acerca do assunto, como o livro A Sátira & O Engenho: Gregório de Matos e a Bahia do Século XVII (Ed. Ateliê/Unicamp, vencedor do Prêmio Jabuti em 1990), em que realiza um estudo profundo a respeito da produção poética do Brasil colônia. Além da relevância de sua obra, a homenagem ao professor Hansen se dá também como reconhecimento de sua imensa generosidade intelectual, traço que sempre encantou e animou seus orientandos, colegas e alunos.   

Maria do Socorro Fernandes Carvalho

Quais os destaques do livro em sua opinião?

R: A relevância deste livro consiste no fato de ele ser um significativo panorama dos estudos sobre retórica e poética no Brasil, reunindo trabalhos de professores/pesquisadores de diferentes universidades brasileiras: USP, UNIFESP, UESB e UFSM. Além disso, a obra conta também com textos de dois grandes professores estrangeiros: Isabel Almeida (Universidade de Lisboa) e Roger Chartier (Collège de France).

Lavinia Silvares

O livro traz a fala do próprio Professor em um evento na Unifesp. Que evento é esse e de que forma a fala do professor incentivou a elaboração do volume?  

R: O livro resulta do encontro de estudiosos brasileiros e estrangeiros em um evento sobre retórica e poética, realizado na Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade Federal de São Paulo (EFLCH-UNIFESP) em setembro de 2018: o I Panorama dos Estudos Poéticos e Retóricos no Brasil. Abarcando um amplo escopo temático e temporal, os trabalhos apresentados ao longo de três dias versaram sobre poesia, música, narrativas em prosa, arquitetura e outras artes e campos do saber em sua relação com as técnicas retóricas e poéticas. Contando com a presença de grandes pesquisadores e professores, o encontro também homenageou os trabalhos acadêmicos do professor João Adolfo Hansen, fundamentais para o desenvolvimento dos estudos retóricos e poéticos no Brasil. Assim, nesta obra, reúnem-se textos inéditos produzidos pelo professor Hansen e pelos conferencistas convidados, consistindo ela em um arco de reflexões contemporâneas acerca de retórica, poética, história, arte e cultura em diferentes matizes e nuances teóricas e críticas.

Orações Insubordinadas: aforismos para uma leitura rápida e divertida

Segundo o dicionário, aforismos são textos curtos e sucintos, de estilo fragmentário, relacionados a uma reflexão de natureza prática ou moral. Com base nessa definição, o publicitário piauiense Carlos Castelo, fundador do grupo Língua de Trapo, escreveu Orações Insubordinadas – Aforismos de Escárnio e Maldizer. O livro traz as frases curtas e cortantes, de autoria do próprio Castelo, que causam riso e reflexão ao mesmo tempo. A seguir, ele conversa com o Blog da Ateliê:

O que o levou a escrever Orações Insubordinadas – Aforismos de Escárnio e Maldizer?

Carlos Castelo: Desde muito jovem me interessei pelas formas breves. Primeiro foram os provérbios. Gostava de toda a sabedoria que eles traziam em sentenças tão curtas. Depois, com 14 anos, li o Meditações, do Marco Aurélio. E assim fui seguindo, conhecendo outros autores, até que descobri o frasismo de humor: Barão de Itararé, Don Rosse Cavaca, Nelson Rodrigues, Dirceu, Millôr – só para citar os brasileiros. Era natural que, um dia, eu passasse a criar minhas próprias frases e isso aconteceu a partir de 2007. Foi no site Castel-O-Rama, do Humor UOL. Ali comecei a produzir sistematicamente num link chamado Aboboral.A compilação dos anos em que escrevi o Aboboral fez nascer o Orações Insubordinadas.

Como foi feita a seleção dos seus aforismos?

CC: Eu guardava num arquivo todos aforismos que postava no Castel-O-Rama, e no meu Twitter, o @casteladas. O critério usado foi o de cortar as frases sobre fatos passageiros, do dia a dia, e optar pelas frases atemporais. Justamente para não deixar o livro datado. Creio que funcionou, já que o Orações Insubordinadas continua sendo lido, e provoca riso e reflexão, há mais de 10 anos.

Em sua opinião, qual a força do aforismo? Para você, aforismos são atemporais ou podem perder relevância ao longo do tempo?

CC: A força do bom aforismo é a sua alta densidade. Ele contém muita informação, paradoxo, desconstrução ou originalidade em poucas palavras. Então, quando o leitor o decifra é como se detonasse uma explosão de prazer. Isto não é propriamente uma ideia minha, mas uma simplificação grosseira do que dizia Sigmund Freud em Os chistes e sua relação com o inconsciente. Se um aforismo será atemporal, ou perderá a relevância, vai depender da massa de sua densidade.

Seu livro teve a primeira edição lançada em 2009, mas ele continua causando riso. A que você deve essa permanência?

CC: Devo essa continuidade, como disse, ao critério de escolha das frases mais atemporais da minha produção. E também ao fato do aforismo ter se adaptado muito bem ao mundo da internet e suas redes sociais. Por sua brevidade e capacidade de estimular a discussão, ele é um gênero literário perfeito para a Grande Rede. Meu livro, portanto, chegou no momento certo, na hora em que passou-se a valorizar 140 caracteres como se fossem 140 páginas.

Os aforismos têm, em comum, o humor e a graça que causam. É possível identificar como se dá a construção desse efeito de humor que os aforismos causam no leitor?  

CC: Os aforismos de humor, que são os que escrevo, funcionam como o chamado humor “on-liner”. Normalmente possuem uma frase inicial que levanta a bola e, uma segunda, que faz o “saque” – o famoso “punchline”. Mas há muitas outras maneiras de se criar um aforismo. Podem ser lugares comuns refeitos, definições de neologismos, falas, diálogos, comparações, indagações, provocações, paródias de frases famosas e até microcontos. Ou seja, quase tudo pode ser um aforismo de humor, desde que ele faça rir e pensar.

Entrevista com Miguel Sanches Neto

Por Renata de Albuquerque

O que vem por aí? Muita gente tem feito esta pergunta, querendo saber sobre quais os próximos lançamentos da Ateliê e sobre o que esperar para o futuro. Como muitas novidades devem chegar em breve, para satisfazer a curiosidade dos nossos leitores – ou para aguçá-la ainda mais – o Blog da Ateliê resolveu fazer uma série de entrevistas com autores de obras que a editora deve lançar em breve.

O primeiro entrevistado da série é Miguel Sanches Neto, autor de “Museu da Infância Eterna” e “Herdando uma Biblioteca” . Acompanhe:

Miguel Sanches Neto/Divulgação

O que é possível falar sobre os novos lançamentos?

Miguel Sanches Neto: Estes dois livros fazem parte de um projeto maior em que busquei uma seleção temática de minhas crônicas. Durante duas décadas, escrevi para jornais e revistas, quando ainda havia algum espaço para literatura, crônicas com um viés literário, e agora, aos 55 anos, estou concluindo a organização deste material. Então, o gênero é a crônica, mas uma crônica literária, mais interessada nas estruturas de memória e de linguagem do que em atualidades, por isso talvez funcionem melhor no suporte livro do que no formato jornal ou revista, espaço em que elas surgiram.

O que é possível dizer sobre Herdando Uma Biblioteca?

MSN: Herdando Uma Biblioteca é a segunda edição, bastante mudada e ampliada, de um conjunto de textos que eu havia publicado em 2004 pela editora Record. Interessante é que este livro foi pensando para a Ateliê e acabou saindo pela Record. Então, nesta edição, ele volta à sua casa original. É um volume de crônicas sobre como, vindo de uma família de analfabetos, eu tive que inventar a minha biblioteca, tive que acreditar que era, sim, possível uma vida intelectual ao lado dos livros. Este é meu único volume de crônicas que não foi publicado em jornais. Nasceu como projeto estruturado para livro, como se fosse um romance fragmentado de meu amor à biblioteca. Faz parte de uma área muito forte da Ateliê Editorial, a de livro sobre livros, que é um gênero à parte, que transcende os gêneros literários.

O que se pode adiantar sobre Museu da Infância Eterna?

MSN: É uma coletânea em torno das minhas memórias de infância em uma família muito pobre no interior do Paraná, em contraponto com minha memória de pai de duas crianças, Camila (hoje, advogada, com 25 anos) e Antônio (12 anos). Durante a infância deles, tentei registrar como uma criança vê e expressa o mundo. Estes volumes concluem uma série maior, as minhas “Crônicas Reunidas”.

O que motivou o senhor a escrevê-los?

MSN: Herdando uma biblioteca nasceu de uma afirmação de Anne Fadiman. Em Ex-libris: confissões de uma leitora comum, a autora dizia que todo escritor nasce da biblioteca paterna, das leituras das gerações familiares ou grupais que o antecedem. Eu pensei na hora: isso não vale para o Brasil, país em que a relação entre cultura popular e cultura erudita é muito estreita. Eu mesmo não tive nenhum livro em casa até meus 14, 15 anos. Minha família era de agricultores analfabetos ou pouco escolarizados. Então, resolvi contar a história das bibliotecas que nascem do nada, de encontros casuais com livros e pessoas. Já Museu da Infância Eterna é uma organização de textos produzidos em momentos muito diferentes de minha vida e para colunas que mantive nos meios de comunicação.

Coleção Bibliofilia: três volumes sobre o amor pelos livros

O livro é um dos mais fascinantes objetos produzidos pelo homem. Mesmo em nossa época atual marcada pelos avanços tecnológicos e novas mídias, o livro permanece sendo um artefato sem igual, e não dá mostras que irá desaparecer. Jovens seguem comprando livros, criando clubes de leitura e falando sobre seus autores e histórias preferidos em podcasts e canais no YouTube.  As bibliotecas reforçam sua vocação de centros comunitários de difusão cultural. As coleções de livros impressos seguem preenchendo prateleiras e os aspectos sensoriais do livro impresso – o cheiro, a sensação do papel ao toque, o conforto visual na leitura das letras impressas no papel – ainda não foram imitadas satisfatoriamente pelos dispositivos digitais. Afinal, o livro não precisa de conexão com a internet ou baterias a serem recarregadas.

Com os três livros da Coleção Bibliofilia, organizada por Marisa Midori Deaecto e Plínio Martins Filho, a Ateliê Editorial e as Edições Sesc São Paulo se unem para celebrar o prazer da leitura e a importância social, cultural, econômica e simbólica do livro. Apesar das transformações tecnológicas e sociais, que impactam a produção editorial, as formas de transmissão da linguagem escrita e seus mecanismos de recepção, o amor ao livro permanece. Para falar sobre a coleção, o Professor aposentado da Universidade de São Paulo João Adolfo Hansen respondeu a algumas perguntas para o Blog da Ateliê:

      A coleção é uma verdadeira celebração ao livro. Qual a importância simbólica dele, hoje, em nossa cultura e dentro do contexto atual do Brasil?

 João Adolfo Hansen: Na situação brasileira atual, em que o ministro da Educação é um asno e o Presidente um desclassificado ao quadrado, a valorização do livro é fundamental. Sem nenhum fetichismo, óbvio, é fundamental celebrar o livro como produto, monumento, instrumento e arma de cultura contra a barbárie fascista.

No volume “O que é um Livro”, o senhor fala da materialização da ideia em objeto. O livro enquanto objeto, em sua opinião, continua ocupando um lugar de destaque?

 JAH: O livro como objeto que condensa e divulga práticas simbólicas dos múltiplos campos da cultura pode ser materialmente produzido e reproduzido em vários meios e canais, desde uma página de papiro à tela de um computador. Nesse sentido, o livro continua ocupando lugar de destaque.

Em sua opinião, o livro digital e o livro de papel ocupam o mesmo espaço e têm a mesma importância?

 JAH: Não ocupam o mesmo espaço (e, sem trocadilho, hoje também por razões de espaço). E não sei se têm a mesma importância.  Provavelmente, o livro digital vai substituir o livro de papel- não sei se a totalidade dos livros de papel- mas grande parte deles.

O público que “consome” o livro físico mudou?

JAH: Acredito que mudou e está mudando a cada momento.

O livro, enquanto objeto, vai continuar a existir no futuro?

 JAH: Não sei se nessa forma material que tem hoje. Mas como mensagem e como condensação de referências de muitos e muitos campos da cultura deve continuar – provavelmente, em novos media, como a tela de um celular, de uma TV ou computador, desmaterializando-se mais e mais.

O livro também é constituído de leitores, e eles o leem de maneira diferente a cada época. O senhor poderia falar um pouco sobre esse assunto, por gentileza?

 JAH: O leitor é um indivíduo que se inclui numa sexualidade, num grupo, numa classe, numa profissão, num país, numa língua, numa cultura etc. A cada instante, a história de seu grupo e sua classe e país e língua e cultura etc. muda. Evidentemente, o leitor lê segundo os critérios que em seu tempo estabelecem, definem e garantem a inteligibilidade do que lê. Esses critérios mudam historicamente. Borges, num conto chamado “Pierre Menard, inventor do Quixote”, trata disso, propondo que o  enunciado  de Cícero, “A história, mestra da vida”, usado por Cervantes no primeiro volume do Dom Quixote, em 1605, não tem o mesmo significado e o mesmo sentido quando usado por Pierre Menard, em 1917, quando escreve o Dom Quixote e repete o enunciado, ipsis litteris, idêntico ao texto que Cervantes escreveu em 1605. Ou seja, a cultura muda segundo as determinações e os condicionamentos históricos.

Capa do volume O Que é um Livro?, parte da Coleção Bibliofilia

No volume, o senhor aborda questões como censura e controle de conteúdo, que parecem – infelizmente – questões muito atuais. De que maneira esse controle perpassou os tempos? A forma e a finalidade da censura são sempre as mesmas?

 JAH: A censura classifica formulações e imagens e práticas que contrariam e negam a doxa ou a opinião que um grupo, um partido, um Estado, uma igreja etc.  afirmam como “verdade”. A censura classifica formulações e imagens e práticas como inadequadas, indevidas, impróprias, incorretas, erradas, heréticas, indecentes, imorais, proibidas etc., caçando e cassando seu autor.  A prática da censura veta e nega versões e, com isso, nega a liberdade de pessoas e grupos. Evidentemente, ainda que a forma e a finalidade da censura sempre sejam as de desautorizar e impedir a liberdade de pensamento e ação e, muitas vezes, a finalidade de eliminar o autor de tal pensamento e ação, queimando-o numa fogueira, como fazia a Inquisição católica, ou fuzilando-o, como faziam nazistas e estalinistas, suas razões, seus meios e suas finalidades variam historicamente, assim como seus agentes e suas vítimas.  

Conheça outros títulos de João Adolfo Hansen

Jerusa Pires Ferreira: Uma leitura imediata

Leituras Imediatas é o último escrito de Jerusa Pires Ferreira, professora de pós-graduação em comunicação e semiótica da PUC-SP. A publicação traz textos “que giram em torno da ideia de mitopoéticas, no sentido de que constituem permanente recriação e ao mesmo tempo a levam a problematizar dicotomias para pensar manifestações da cultura”, como escreve Adriano C. A. e Sousa na quarta capa do livro. A seguir, ele fala ao Blog da Ateliê:

Qual sua relação com Jerusa Pires Ferreira?

Adriano Carvalho Araújo e Sousa: Eu sou um recém-doutor. Qualquer pessoa com menos de dez anos da conclusão não pode arvorar um posto de destaque. Contudo, posso dizer que até aqui minhas pesquisas são profundamente marcadas pela obra da professora Jerusa Pires Ferreira. Fui seu orientando de mestrado e doutorado e ela dizia publicamente que eu estava entre os melhores profissionais formados por ela. Mantínhamos estreita amizade, ao que ela sempre referia em tom jocoso, porque nem sempre é ideal ser amigo de um orientando. Estivemos em contato muito próximo ao menos nos últimos dez anos. Para  mim, o mais relevante disso tudo foi o constante aprendizado que tive com ela e outros intelectuais amigos seus, como Marlyse Meyer, Jacó Guinsburg, Vladimir Krysinski e obviamente Boris Schnaiderman. Agora, nada disso teria acontecido sem a sintonia de sensibilidades que tive com Jerusa, muito grande em termos de uma concepção de conhecimento alegre, exuberante e vivo, que transita entre linguagem e cultura.

Como foi o convite para escrever a quarta capa e a orelha do livro? – Você acompanhou o processo de escolha dos textos que compõem o livro? Como foi?

ACAS:  Bom, acredito ter sido por esses fatores que já mencionei. Fui convidado por seu editor, Plínio Martins, a redigir textos apresentando o livro Leituras Imediatas, cuja seleção acompanhei de perto. Mais ainda, pude auxiliar Jerusa no trabalho de revisá-los. Há um fato curioso, de bastidor. Jerusa teve auxílio do professor Jerzy Brzozowski, seu amigo da Universidade de Cracóvia, que na época atuava como visitante no Brasil, para separar folhetos da Índia, semelhantes ao nosso Cordel. Infelizmente, o material não entrou nesse livro, porque Jerusa entendia que não harmonizava com os demais.

O título do livro remete a leituras que, segundo a autora, “têm data bem definida e correspondem a posições de momento”. Qual a importância de perenizar em um livro tais posições? Essas posições não poderiam mudar com o tempo?

ACAS: Essa pergunta é muito boa, porque vai permitir um esclarecimento. É exatamente o oposto disso que o livro trata. Veja, quando Jerusa fala em “data bem definida” e “posições de momento” significa que não se pode calar em face do autoritarismo ignorante. É preciso voltar-se contra a arbitrariedade do extermínio, opor-se a um império que apaga violentamente o outro da história. Jerusa se refere aí ao extermínio de um lugar que é berço da civilização. A imagem é das mais nefastas: um ex-militar e secretário de defesa norte-americano pisando em tesouros da civilização mundial; um país sofre uma invasão destruidora, bárbara e consequentemente desestabilizadora daquela modernidade árabe. É um convite a questionar o que o discurso oficial julga ser “importante”. Então vamos tentar inverter o raciocínio em cima de sua pergunta: no caso específico da escritura de Jerusa, o mais frequente é o oposto de “dar importância”. Nada é importante. A questão toda é voltar-se para a possibilidade de contato com o outro, o que sofre um apagamento realizado por um olhar oficialesco e por vezes institucionalizado.

O trabalho de Jerusa volta-se para compreender, escrutinar e inclusive propor análises rigorosas de textos que normalmente são apagados pelo discurso oficial, seja ele o do capitalismo, seja o da academia. Eu insisto que os seus trabalhos, e principalmente sua forma arrojada (cria inclusive conceitos) para abordar esses que não têm voz, propiciam sempre novos elementos para um prosseguimento de novas reflexões sobre o que se convencionou chamar contemporâneo. É o oposto da perenidade, há sempre movimento. Um livro como esse procura aquilo que corresponde a colocar movimento nas palavras, aquilo que é uma reprodução em série de uma proposta que aborda linguagem e cultura, a serialização que o poeta popular imprime a partir de sua obra. O lugar de uma voz sempre repercutida. Esse é ponto de partida: são vozes sempre em movimento.

Jerusa Pires Ferreira fotografada por Ricardo Filho

Em comum, os textos têm a análise de assuntos ligados à cultura popular. Qual a importância dessa discussão, não apenas nos meios acadêmicos, mas também colocada na sociedade?

ACAS: A partir daqui, eu vou propor que pensemos o lugar desse pensamento, o que ele faz, que mecanismos coloca em ação, em vez de perguntar se ele é importante ou não. Pra mim, o que ressalta desse livro é a proposta ousada de dar voz a figuras normalmente julgadas como arcaísmos ou mesmo sob denominações como “cultura de massas”, “indústria cultural”, ou um campo específico de “cultura popular” que muitas vezes só serve para criar um exotismo. Nesse sentido, lembro de que nem todos os textos populares são bons ao olhar de Jerusa. Ela impõe uma análise bastante crítica e rigorosa sobre eles. Quanto à sociedade, as pesquisas em humanas levam a uma discussão sofisticada que encontra seu par em perguntas caras à antropologia e que traz a contribuição de um conceito como o de cultura das Bordas.

O estudo da literatura de cordel ocupa um espaço relevante no livro. Quais as contribuições da autora a respeito deste tema?

ACAS: Jerusa teve formação em Portugal, no instituto de Alta Cultura, onde teve mestres do porte de Maria de Lourdes Belchior Pontes (1923-1998) e Hernâni Cidade (1887-1975), os quais volta e meia viria mencionar em seus artigos e palestras. Também participou dos famosos Seminários de Semiótica em Urbino, Itália. Ambos estão na gênese do livro fundante que é Cavalaria em Cordel, responsável por pavimentar um projeto de sempre acompanhar essa produção. Paul Zumthor – a quem Jerusa gostava de se referir como um mestre – viria comentar o aspecto inovador de Cavalaria em Cordel em texto publicado na revista Critique (Paris, março de 1980): “As questões de toda ordem, colocadas pelo livro de Jerusa Pires Ferreira, ultrapassam o quadro da etnografia e importam para a definição funcional das tradições poéticas orais e sua complexa e movente relação com a escritura” (tradução de Jerusa). É um olhar sobre a tradução cultural, sobre a oralidade e o gesto em que linguagem e cultura encontram sua síntese máxima. Isso está dado desde sempre no trabalho desses artistas. Leituras Imediatas traz esse projeto do Cordel sob o olhar de sua confluência com a televisão, dominante na época, mas eu diria que oferece um belo aporte para os pesquisadores de relações entre Cordel e novas mídias.

Que lugar este livro ocupa no conjunto da obra de Jerusa Pires Ferreira?

ACAS: Bom, pensando o lugar que esse livro ocupa, lembro que Paul Zumthor diz em Escritura e Nomadismo, publicado pela Ateliê com tradução de Jerusa, que um grande pesquisador não deixa uma obra antes dos 56 anos. Talvez, o lugar que o livro de Jerusa ocupa face a barbárie em que vivemos, será o de apontar daqui a 50 anos, que o Brasil traz consigo uma cultura marcada, e aqui uso expressão de Zumthor, pela permanência da voz.

A voz é algo que nos distingue e permite pensar a tradução cultural presente na obra de nossos artistas, temos vários exemplos, o cineasta Júlio Bressane ou o músico Egberto Gismonti, um pianista de “sotaque cubano” que é João Donato ou um poeta como Leandro Gomes de Barros. É um processo de permanente reinvenção

Conheça melhor a obra de Jerusa Pires Ferreira