Entrevistas

“O Retorno de Bennu”: prosa poética de Majela Colares

Bennu corresponde à Fênix mitológica. “Foi o grito da ave Bennu na criação do mundo que marcou o início dos tempos”, explica Majela Colares na nota que precede o livro “O Retorno de Bennu”, recém-lançado pela Ateliê Editorial. O poeta e contista cearense vive em Recife. Já publicou em português e teve obras traduzidas para o alemão e catalão. “O Retorno de Bennu” traz ao leitor poesia em prosa, aforismos, versos livres e uma poesia caudalosa, que inspira o leitor. A seguir, ele fala sobre o lançamento para o Blog da Ateliê:

Por que a escolha de Bennu, criatura pouco conhecida (em comparação a Fênix, por exemplo), para dar título ao livro?

Majela Colares: Vejo atualmente a humanidade vivendo uma existência caótica, um mundo caótico. Os elevados valores e princípios humanos degenerando-se, a vida correndo em extrema fragilidade, alimentada por valores iníquos, mergulhada em uma futilidade irritante de profunda angústia. Uma cegueira mórbida, alienada… A automação do Homem espraiando-se em todos os sentidos. Tudo é supérfluo, descartável, inconsistente. O livro “O Retorno de Bennu” tenta levar o leitor a uma reflexão sobre os verdadeiros valores humanos; o significado e sentido atuais da vida. A humanidade precisa reumanizar-se. Enxerguei em Bennu – por sua fascinante originalidade, além de nos remeter aos primórdios das mais antigas civilizações, no caso o Egito, e fundamentalmente por sua enigmática História Mitológica – o melhor símbolo para representar este processo de revitalização do humano… (Essa grande e bela metáfora).  Segundo a mitologia egípcia, Bennu (ave sagrada) ressurgia a cada 500 anos com a missão de provocar o renascimento do Homem. Bennu surgia, induzia essa transformação no ser humano e depois desaparecia, após um processo de auto-combustão, para ressurgir novamente 500 anos depois, emergindo das suas próprias cinzas. Penso que a humanidade, os princípios e ideais humanos, como Bennu, precisam mergulhar em um processo auto-regenerativo em busca da vital essência humana, no intuito de alcançar o verdadeiro sentido da vida. Uma vida com mais sensatez e beleza. É para esta renovação de pensamento, reflexivo e transformador, que nos quer despertar “O Retorno de Bennu”.

 

Qual seu contato com a cultura egípcia e de que maneira ela está refletida neste livro?

M.C: O meu contato com a cultura egípcia resume-se apenas a leituras sobre sua História e sua Mitologia; uma leitura em nada profunda. Não sou nenhum especialista em egiptologia. São leituras dispersas… por ser um admirador daquele antigo povo e seus incríveis conhecimentos artísticos e científicos, suas dimensões culturais. Esta cultura está refletida no livro “O Retorno de Bennu” por ser um dos berços da nossa civilização. A mitológica Bennu e o rio Nilo inserem, simbolicamente, a cultura egípcia no conteúdo do livro, mais especificamente explicita no poema “O Retorno de Bennu”, que naturalmente dá título ao livro.

 

Majela Colares fotografado por Társio Pinheiro

Como foi o processo de escolha dos textos que compõem este livro?

M.C: A estrutura de “O Retorno de Bennu” foi rigorosamente pensada. Todos os textos revelam um conteúdo questionador e reflexivo sobre a condição e natureza humanas; uns mais outros menos, mas todos seguem este fio condutor. O teor fundamental do contexto do livro visa despertar no leitor, sinalizar, ainda que o mínimo possível, um sentimento transformador, que o leve a pensar no modelo de vida, imposto pelas regras, conceitos e paradigmas do mundo atual, instigando-o a uma revitalização da essência original do Homem. Todo esse redescobrimento do humano, impulsionado pelo amor, sentimento mais elevado da nossa natureza, conduzido pela linguagem poética. Portanto, o amor e a poesia, em todas as suas formas possíveis, servindo como luz renascedora da humanidade.

 

 

O leitor que abre “O Retorno de Bennu” se depara com trechos de diversos escritores, em prosa e poesia. Entretanto, todos os trechos parecem trazer à tona a questão dos “interstícios”(para usar um termo de Lispector), do intervalo no qual tudo se cria (como escreve Machado: “seria preciso fixar o relâmpago”) e da solidão dessa criação (“ser poeta é minha maneira de estar sozinho”, segundo Pessoa). De que maneira esses temas permeiam sua produção poética reunida neste volume?

M.C: Os trechos de outros autores ao longo do livro servem de epígrafes. Todos esses textos/epigrafes revelam uma ligação muito forte com o livro, com o conteúdo, a estética, a mensagem, tanto no sentido poético quanto no sentido material exposto pelo livro como um todo. Claro que os textos que compõem este volume também são influenciados, em forma e imagens, pelos citados autores.  Apenas o texto/epígrafe de Pessoa traduz um pouco a filosofia de vida do autor: “ser poeta é minha maneira de estar sozinho”.

 

E mais: de que maneira elas se relacionam com a marca do renascimento (essa mensagem de Bennu)?

M.C: A maioria dos textos/epigrafes são trechos de poemas, os trechos em prosa a exemplo das epígrafes de Machado de Assis, Clarice Lispector, Baudelaire e Otávio Paz, exalam um profundo e consistente teor poético; pura prosa poética. Como disse anteriormente, “O Retorno de Bennu” aponta para um renascimento da humanidade, impulsionado pelo sentimento do amor em todos os sentidos possíveis, sob a luz metafórica e transformadora da poesia. Então, se todos os textos/epigrafes possuem elevado teor poético, fica clara a relação com a mensagem que o livro busca passar para o leitor.

 

O livro divide-se em “Percepções”, “Alumbramentos”, “Confluências” e “Lampejos”. A que se deve essa divisão?

M.C: Essa divisão em forma de subtítulos seve como estrutura estética do livro. Todos os subtítulos possuem uma afinidade, ainda que subjetiva, com cada parte da obra. A mais evidente é “Percepções”, composta por cinco textos em prosa poética, sendo cada texto relacionado a um dos nossos sentidos: visão, paladar, tato, audição e olfato.

 

Como lembra Alexei Bueno, “Alumbramentos” é a única parte do livro composta completamente por versos.Como a prosa poética enriquece a poesia (e vice-versa) e o que se pode esperar dessa convivência, em um mesmo volume, em textos de um mesmo autor?

M.C: Escrever prosa é arte difícil e rara, escrever prosa poética é arte rara e mais difícil ainda. Em primeiro lugar a poesia enriquece a prosa; alcançando o texto o status  de prosa poética, esse texto em prosa ganha outra dimensão, a de poesia em prosa. Tudo é muito difícil! Acredito que dei aos textos em prosa poética, a mesma dimensão e qualidade dos poemas escritos em versos. Assim, penso, que por estarem no mesmo nível tanto os textos em prosa poética quanto os textos escritos puramente em versos, a convivência de ambos os estilos em um mesmo volume será muito natural e enriquecedora. Será uma leitura até mais agradável.

Rosa Luxemburgo: Crise e Revolução

Filósofa e economista, nascida no final do século XIX, quando às mulheres era dado quase nenhum espaço no cenário sociopolítico, Rosa Luxemburgo ficou por sua militância revolucionária ligada à Social Democracia da Polônia e ao partido social democrata alemão. Militante socialista, tem ideias consideradas revolucionárias para seu tempo. Em Rosa Luxemburgo: Crise e Revolução, a historiadora Rosa Rosa Gomes examina as atas do congresso do partido (SPD), clareando para o leitor em qual contexto a filósofa e economista formula suas ideias. No volume, ela também faz um resumo das teses de Rosa Luxemburgo e das críticas e anticríticas sobre as teorias da autora que se sucederam. A seguir, ela fala sobre o lançamento para o Blog da Ateliê:

Por que seu interesse em Rosa Luxemburgo? Como ele surgiu?

Rosa Rosa Gomes: Surgiu durante a graduação, quando fiz um trabalho para uma disciplina sobre o livro que acabei estudando no mestrado, A Acumulação do Capital (principal trabalho de Rosa Luxemburgo).

Como foi o trabalho com as atas do Congresso do Partido? Como teve acesso a esse material, quanto tempo demorou para estudá-lo?

RRG: Comecei a fazer meu projeto de pesquisa para estudar a teoria econômica de Rosa Luxemburgo e a ideia era entender como ela desenvolveu essa teoria com o passar do tempo. Demorei uns meses até que encontrei digitalizadas no site alemão da Fundação Friedrich Ebert (Friedrich Ebert Stiftung) todas as atas do Congresso do Partido Social-Democrata Alemão (SPD) antes da I Guerra Mundial. Protokoll des Parteitages.

Depois que comecei de fato a pesquisa primeiro me dediquei a uma bibliografia básica sobre o tema e me debrucei um ano sobre temas de algumas das atas. Apesar de ter acesso a todas, ficou claro no decorrer do processo que eu não conseguiria analisar todas, integralmente. Escolhi então aquelas que eram de anos importantes para a história do SPD, de acordo com a bibliografia, e que tinham temas de pauta relevantes também para entender o desenvolvimento do pensamento de Rosa Luxemburgo, e de sua ação política. Fiz uma seleção de temas e anos, portanto, e tudo que foi analisado encontra-se no livro.

 

O que esses documentos lhe mostraram?

RRG: Eles tornaram visível e concreta a ligação entre política e economia no pensamento e na atuação de Rosa Luxemburgo. Daí a importância de estudar as discussões nos Congressos do SPD e artigos publicados na época pela autora. Dessa forma, foi possível entender as motivações de Rosa Luxemburgo em sua obra econômica e o desenvolvimento de seu pensamento para chegar a essa síntese.

Lincoln Secco afirma, no prefácio, que você “refaz a ligação do que estava separado”. Como foi esse processo? Qual seu ponto de partida e sua hipótese primeira de pesquisa?

RRG: A ideia era entender de que forma, na atividade concreta, a política e a economia não se separavam no pensamento de Rosa Luxemburgo, por isso estudar as discussões no SPD que ajudarem a esclarecer inclusive os interlocutores de Luxemburgo em diversos textos. Inicialmente, iria focar em comparar a brochura Reforma Social ou Revolução? com o livro A Acumulação do Capital e entender as aproximações e diferenças. Quando encontrei as atas dos congressos, abriram-se muitos caminhos e ainda há muito a ser explorado na documentação. A hipótese era que a divisa socialismo ou barbárie sempre esteve presente na obra de Luxemburgo, como afirma Norma Geras. A leitura de outros textos como os de Michael Löwy e Isabel Loureiro apresentaram outra perspectiva. Ao fim, compreendo que há Rosa Luxemburgo vai formulando a possibilidade da barbárie ao longo da década de 1910 até que ela se apresenta inteiramente após a votação dos créditos de guerra no SPD. A pesquisa mostrou quais foram os acontecimentos históricos que levaram Rosa Luxemburgo a formular essas ideias e acho que o livro apresenta isso.

Rosa Rosa Gomes em foto de Amanda Giglio

Michel Löwy escreve, na contracapa: ”a autora não deixa de criticar, em certos momentos, argumentos fatalistas ou economicistas de Rosa Luxemburgo”. Você sabia, desde o início da importância e da necessidade dessa crítica?  

RRG: Não. A crítica veio ao longo da pesquisa. Rosa Luxemburgo já é muito crítica à esquerda e à direita, então, mesmo apontando problemas, tive foco nas suas contribuições para pensar o desenvolvimento do capitalismo.

 

Em sua opinião, a obra de Rosa Luxemburgo continua atual? O que se pode aprender com ela? Que questões atuais podem ser respondidas a partir das teorias da economista?

RRG: A teoria econômica de Rosa Luxemburgo fala sobre a expansão do capital sobre áreas não capitalistas. Em sua época uma expansão geográfica. Atualmente, ainda há espaço para isso, mas há também a expansão sobre os direitos dos trabalhadores, aumentando o grau de exploração. Mas principalmente, Luxemburgo fala do militarismo e seu papel fundamental para a manutenção desse modo de produção. Assim, sua teoria é de extrema importância para pensarmos os arranjos econômicos atuais.

 

As manifestações de 2013 e a atual polarização no cenário político-ideológico brasileiro  podem ser entendidas à luz das teorias de Rosa Luxemburgo? De que maneira isso pode ocorrer?

RRG: A teoria econômica de Luxemburgo não pode ser desvinculada da política, e esse é um ponto central no livro. Assim, sua teoria econômica acaba por definir dois horizontes sociais, ou a revolução socialista ou a barbárie. O cenário de polarização mundial pode ser entendido como uma tentativa desesperada do capital de voltar a acumular e avançando ferozmente sobre direitos e áreas ainda não totalmente dominadas. O que gera inclusive um colapso ambiental, além do social. A teoria econômica de Luxemburgo e sua militância política, especialmente na década de 1910, alertavam sobre a possibilidade da barbárie e sua proximidade com o acirramento das contradições. A disputa continua sendo por acumular capital. No entanto, hoje, há um embate feroz com a extrema concentração da riqueza e a impossibilidade de acumular mesmo com o aprofundamento da barbárie: guerras, genocídios, miséria.

Em sua opinião, qual a maior contribuição de seu livro, em termos de pesquisa desse tema e dessa autora tão importante?

RRG: A pesquisa com as atas dos congressos do SPD, sem dúvida, é a maior contribuição do livro. É uma documentação pouco, ou nada, estudada no Brasil, também pela dificuldade da língua, mas que traz muitas informações sobre os debates internos da social-democracia alemã, o maior partido socialista da época. A partir desses debates, é possível inclusive pensar na trajetória de outros partidos de esquerda e pensar, talvez, o que não fazer.

Conheça a obra 

Cordel recebe título de patrimônio cultural brasileiro

IPHAN reconhece a literatura rimada de origem oral

O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) acaba de conceder à literatura de cordel o reconhecimento de Patrimônio Cultural Brasileiro. O título é uma forma de dar ao gênero, que já sofreu preconceito, reconhecimento oficial. O cordel, que tem origem na tradição oral, é bastante popular no nordeste. Para falar sobre o tema, o Blog da Ateliê entrevistou Mark Curran, brasilianista e professor aposentado de língua portuguesa e estudos brasileiros na Arizona State University. Ele é autor do livro Retrato do Brasil em Cordel e, enquanto pesquisador, teve contato com nomes como Manuel Cavalcanti Proença (primeiro orientador para a pesquisa sobre a tese do Ph.D. no Brasil, em 1966), Orígenes Lessa, Luís da Câmara Cascudo, Sebastião Nunes Batista e Ariano Suassuna. Foi este último que o aconselhou a usar o termo cordel em uma publicação, ainda nos anos 1970. “Dediquei toda a vida profissional de professor e escritor ao cordel, e sua influência na literatura erudita e a história do Brasil. Estou muito feliz a saber a ‘novidade’ do reconhecimento recente pelo IPHAN”, afirma.

Qual a importância desse reconhecimento do IPHAN para o Cordel?

Mark Curran: Acho, sem dúvida, que é um importante passo para a literatura de cordel.  Desde “uma literatura de pouco prestígio” até ser reconhecida como parte importante da herança cultural nacional! (Nós, sabíamos deste valor desde o princípio. Ver os livros seminais da Fundação Casa de Rui Barbosa, por exemplo, e todos meus.) Para onde vai o reconhecimento, não sei.   O “cordel” hoje em dia tem traços semelhantes ao cordel que conheci naquela época, mas a sociedade, a tecnologia, o público leitor, o próprio formato de uma parte do novo cordel, a maneira de escrever e vender e espalhar os livrinhos, tudo isso mudou. Naturalmente. Passou meio século de vida brasileira.

Na opinião do senhor, o cordel ainda é, de certa forma, “marginalizado” como literatura?

MC: É uma pergunta também meio complicada: ninguém pode duvidar a importância das raízes da literatura popular em verso do Nordeste, nem de seus grandes romances e folhetos “clássicos” e nem dos muitos poetas de mais talento.  O que posso dizer é que uma porção dos grandes escritores eruditos brasileiros do século XX via o valor do cordel e até o utilizaram nos seus livros (ver meu livro de 1973, A Literatura de Cordel e estudos sobre José Lins do Rego, Ariano Suassuna, Dias Gomes, João Cabral de Melo Neto, Jorge Amado, e talvez o mais importante de todos, João Guimarães Rosa – embora este não utilizasse o cordel mesmo, mas compartilhou o que chamei o “substrato” temática do mesmo. É de assustar uma olhada temática de “Grande Sertão: Veredas” e o cordel). Suspeito que o interesse de hoje em dia tem algo de “moda,” de seguir a “onda,” isso sem conhecer ou mesmo importar a entender o verdadeiro valor do gênero de cordel.  O interessado tem uma tarefa grande e um grande desafio: procurar os livros importantes e lê-los. Marginalizado hoje em dia?  Somente os poetas de hoje em dia podem dizer. Marginalizado no passado?  Com certeza, claro com a exceção dos estudiosos e escritores já mencionados.

Qual a importância do cordel, historicamente, para a literatura brasileira?

MC: Foi um importante elemento de inspiração para aqueles já mencionados, e isso, só isso, basta para provar seu valor.  Para a literatura de hoje em dia, não posso comentar. Mais uma vez, é difícil ser totalmente humilde, dediquei quase 50 anos e várias pesquisas a este assunto, escrevi os resultados, e estes aparecem em vários de meus livros.  Considero, mesmo  sendo de 2010, Retrato do Brasil em Cordel a melhor fonte minha para isso.

O que mudou na literatura de cordel nas últimas décadas, desde que ele se tornou um tema mais enfocado pela mídia? Essa exposição midiática tem influência sobre os cordéis?

MC:  Não estando no Brasil, não posso comentar, mas tenho a impressão, e é só isso, que a mídia criou o que acabo de chamar “cordel à moda.” Quer dizer, uma apreciação ou um conhecimento bastante superficial. Como falei, para realmente entender a literatura popular em verso, tem que voltar às raízes e ler as histórias em verso e obras dos estudiosos mestres como Leonardo Mota, Luís da Câmara Cascudo, etc.  Por outro lado, se a mídia cria a “presença” de cordel para as massas de hoje em dia pelos novos meios de comunicação (social media) ótimo! Quem saberá serão os poetas de hoje em dia.

Atualmente, como é o cenário da produção cordelística no Brasil? Ainda pode ser considerada uma forma inovadora de literatura?

MC: O cenário de produção hoje em dia? Só sei o que sei pelo Facebook. Assis Angelo, grande autoridade sobre o cordel em São Paulo, disse tempos atrás que a produção de, digamos, 2005-2018 rivalizava aquela dos anos 1960.  Sei que o computador e a impressora ao lado “salvou” os poetas para poder produzir romances e folhetos sem o alto custo da velha tipografia. Sei que hoje em dia há temas novos, formatos novos, produções mais finas.

Quem são os principais nomes do cordel atualmente e quais os principais temas abordados?

MC: Os veteranos que conheço são Gonçalo Ferreira da Silva no Rio de Janeiro; José Costa Leite em Condado, Pernambuco; J. Borges em Pernambuco; e Marcelo Soares em Timbaúba, Paraíba. Os novos que só conheço pela Internet são Ariovaldo Viana, Klevisson Viana, Marco Haurélio e outros.

Antologia de poemas de Luci Collin reúne mais de três décadas de poesia

Por: Renata de Albuquerque

Ensaísta, ficcionista, poeta. Tradutora, professora universitária de Literaturas e Língua Inglesa, bacharel em música (piano e percussão Clássica). Leitora de Jorge de Lima e T.S.Elliot, entre muitos outros. Essa é uma pequena amostra de tudo o que interessa a Luci Collin,  que começou a publicar poesia aos 17 anos e segue, ainda hoje, trazendo sua produção ao público. É essa diversidade que a Antologia Poética 1984-2018 (uma coedição entre as editoras de livros Kotter e Ateliê Editorial) traz ao leitor. É sobre isso que a autora fala, a seguir:

 

A escolha dos poemas para a Antologia foram feitas pelo Sálvio Nienkotter e pelo Marcos Pamplona, mas você teve papel importante na seleção final. Como foram escolhidos esses poemas?

Luci Collin: O processo foi muito bem cuidado pelos editores, que leram com muita atenção toda a minha produção poética (com poemas publicados desde 1984), selecionaram os poemas e depois me apresentaram a seleção. Então, em um segundo momento, eu pude também participar, apontando aqueles poemas que não estavam nessa seleta inicial e que eu, principalmente pelo “histórico individual” de cada poema, gostaria de ter na Antologia. O resultado ficou muito orgânico pois corresponde a três leituras, três olhares críticos diferentes. O resultado me surpreendeu – é algo especial ver nascer um livro formado de outros livros.

 

Há dois períodos de “lacuna” na publicação de sua poesia: 1984-1991 e 1997-2012. A que se devem essas lacunas?

LC: Estive, durante esses períodos, envolvida com literatura sim, mas de outras maneiras: ingressei na carreira de magistério superior na UFPR (em 1999, lecionando Literaturas de Língua Inglesa), cursei um doutorado na USP sobre a obra de Gertrude Stein, organizei antologias e traduzi vários poetas (como Gary Snyder e Jerome Rothenberg) e publiquei vários artigos e ensaios em jornais e revistas literárias. Mas, sobretudo, estive publicando ficção. De 1997 a 2011 publiquei cinco livros de contos e um romance e por esses motivos, estive afastada da publicação de poesia.

Luci Collin

Ao publicar uma antologia e revisitar sua obra, que mudanças você notou na sua própria poesia?

LC: Essa questão das mudanças, olhar para a sua produção e perceber quantas coisas foram sendo alteradas ao longo do tempo, é uma emoção enorme. É uma experiência de confronto não só com o seu estilo inicial e com as temáticas que foram  exploradas, mas também com a sua própria relação com o fazer poético ao longo da sua vida. São mais de trinta anos de percepções registrados por meio da palavra. Reunir esses poemas na Antologia funcionou como uma visita, um mergulho mesmo na minha própria trajetória de expressão pela poesia. E tem aqueles poemas que permaneceram importantes ao longo dos anos, que a gente ainda quer mostrar e dividir com os leitores. É como reescrever-se, recontar-se. A princípio, uma voz tímida, frágil e mais ligada ao experimentalismo; com o passar dos anos, uma maior definição do meu timbre, do meu estilo e da medida mais livre do meu poetizar – é isso a Antologia.

 

 

Jussara Salazar chama a atenção, na contracapa do livro, para a questão do estranhamento colocado na sua obra. Como se dá essa construção, no seu fazer poético? É uma construção consciente?

LC: Acredito que as características que acabam marcando a produção de um poeta são muito espontâneas, são como o correspondente de sua voz, de sua personalidade literária sob forma de poemas. A construção acaba se processando um misto de marca individual (talvez um pouco intuitiva) com labor (esse sim, consciente). Nunca reneguei nada do que escrevi e gosto de mostrar os poemas iniciais como expressões primeiras de alguém tentando se expressar de um modo sincero e livre, tentando manter uma fidelidade aos seus próprios anseios com a poesia, num registro de espanto e amorosidade. Às vezes isso causa mesmo um estranhamento, mas eu permaneci com essa perspectiva de chamar o leitor para que construamos, juntos, o poema.

No prefácio, Sálvio Nienkotter chama a atenção para a influência do concretismo na sua obra. Como isso acontece? Além desta, quais são suas outras influências literárias?

LC: Começo a escrever em uma Curitiba da década de 1980, muito influenciada pela presença de Paulo Leminski e da tradição a que ele se ligou, como a dos irmãos Campos. Assim, flertei com o concreto no primeiro livro. Já no segundo livro de poesia, tendo iniciado meus estudos de zen-budismo, passei a uma poesia ainda imagética, mas menos concreta, com a visualidade trabalhada de forma diferente. E, gradualmente, fui me afastando do concreto e do experimental. Com 17 anos, idade em que escrevi o Estarrecer, naturalmente estava sob muitas influências e era imitativa. Eu lia muito Jorge de Lima, Ferreira Gullar, os expressionistas alemães, poesia marginal, poesia beat. Aos poucos fui incluindo poesia francesa e portuguesa, mais autores contemporâneos e, sempre os modernistas como T. S. Eliot, Marianne Moore e William Carlos Williams.

 

De que maneira sua formação em música influencia sua poesia?

LC: Acredito que de um modo substancial porque minha vivência de anos como musicista me fez conceber o texto como literário e musical ao mesmo tempo, um texto em que aparecem elementos comuns às duas linguagens: a rítmica, o fraseado, a melodiosidade. E a interpretação de uma partitura é uma experiência de transporte de códigos para elaboração de uma trama emocional que é muito próxima ao uso que a poesia faz da poeticidade. Aliás, há, inclusive, quem considere que a essência de todas as artes é a poeticidade.

 

Além da Antologia, há outro livro recém-lançado organizado por você: Ao Vires Isto. Pode falar um pouco sobre este livro para os leitores do Blog Ateliê, por favor?

LC: Esse livro é a realização de um grande sonho que era reunir em uma publicação vários ensaístas investigando e discutindo a produção da escritora norte-americana modernista Gertrude Stein. Stein foi uma pensadora revolucionária que influenciou não só a literatura, mas as artes em geral. Nesse livro, organizado pela Profa. Dra. Daniella Aguiar, da Universidade Federal de Uberlândia; pelo Prof. Dr. João Queiroz, da Universidade Federal de Juiz de Fora; e por mim, da Universidade Federal do Paraná, reunimos vários ensaios sob o viés da tradução e da intermidialidade. Colaboraram nesta publicação nomes especialíssimos como Marjorie Perloff, Jerome Rothenberg, Edson Zampronha, Dirce W. do Amarante e Augusto de Campos. O livro representa um importante material crítico sobre Stein – algo que praticamente inexistia no mercado brasileiro até então. E a edição é um primor. Quem se interessa por Modernidade, tradução, intermidialidade seguramente se encantará com o Ao vires isto.

Conheça outras coedições Kotter/Ateliê Editorial

“A Nebulosa” volta às prateleiras, depois de 150 anos

Joaquim Manuel de Macedo é conhecido por romances como A Moreninha. Mas quem lê outros títulos do autor, como A Luneta Mágica, consegue entrever que há muito mais do que o um “Romantismo” estrito em sua obra. A Nebulosa, “talvez o melhor poema-romance do romantismo [brasileiro]”, segundo Antonio Candido é uma dessas obras que resistem a classificações. O texto ficou mais de um século e meio fora de circulação e agora volta às prateleiras, com apresentação de Ângela Maria Gonçalves da Costa, que fala a respeito nesta entrevista:

 

O livro é tema de sua tese. Por que escolheu esse tema?

Ângela Maria Gonçalves da Costa: Escolhi esse tema por ser um poema esquecido pela crítica acadêmica e estar há anos fora do mercado editorial, sendo raros seus leitores, devido às dificuldades de acesso à obra. Me interessou também em A Nebulosa a problemática que o poema traz, já que está longe das exigências da produção de uma literatura nacionalista. É um poema mais próximo dos sentimentos universalistas e da vertente ultrarromântica. Um canto nórdico medieval produzido em terras tropicais no século XIX.

Como foi feita a pesquisa e que desafios ela impôs?

AMGC: A pesquisa começou com a procura da resposta para uma indagação: Por que um poema de sucesso extraordinário na época da publicação e nos anos posteriores acabou caindo no esquecimento? Com a curiosidade aguçada, alguns livros de história literária brasileira foram consultados para buscar informações sobre o poema. Um comentário elogioso de Antônio Candido, dizendo que “talvez fosse o melhor poema-romance do Romantismo” deu pista de que estava no caminho certo. O interesse foi aumentando. A pesquisa se estendeu para bibliotecas públicas e particulares de Campinas, São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais para encontrar a obra. Foram encontrados cinco exemplares da 1ª edição e nove exemplares da 2ª edição, número satisfatório para uma obra não editada há um século e meio, o que levou a pensar na hipótese de tiragem alta e com prestígio na época. Depois do contato com o poema, a próxima fase foi pesquisar a fortuna crítica existente, ou seja, qualquer notícia ou comentário sobre o poema que apareceram em periódicos, cursos e histórias literárias entre os séculos XIX e XXI. Me deparei com vários desafios, como entender o porquê da obra cair no esquecimento, o que levou Macedo a enveredar pela poesia e destoar de outros poemas que apareceram na mesma época. Entretanto, merece destaque a busca pela localização de algumas críticas ao poema que Galante de Souza, nos anos vinte, dizia existir. Segundo ele, no Jornal A Atualidade, em 1860, Bernardo Guimarães escreveu uma série de censuras na Parte Literária do referido jornal, no entanto lamentava não ter localizado nenhum exemplar. Tânia Serra também deu notícia dessas críticas, mas garantiu não ter encontrado nenhuma informação. A busca a esse periódico durou meses e nenhuma pista. Quando já pensava em desistir, estava pesquisando no arquivo Edgard Leuenroth, na Unicamp, quando as sete partes da crítica de Bernardo Guimarães apareceram na minha frente, em ótimo estado de conservação. Foi muito gratificante.

 

Ângela Maria Gonçalves da Costa

A senhora aponta uma ligação desta obra com a poesia celta. Tendo sido escrita em um momento de valorização da “cor nacional”, não seria surpreendente se a obra tivesse passado despercebida (ou negativamente criticada) no momento de sua publicação; mas não foi isso o que ocorreu. O que, em sua opinião, levou A Nebulosa a ter tão boa recepção crítica no primeiro momento?

AMGC: Primeiramente, a obra foi dedicada ao imperador Pedro II, lida e patrocinada no Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, local de divulgação da literatura, ciência e política na época. O local era parte de um grande projeto que implicava, além do fortalecimento da monarquia e do Estado, a própria unificação nacional, que seria também cultural. No entanto, a aceitação da oferta ao imperador e a posterior publicação custeada por ele não significava que a obra obteria sucesso. O monarca incentivava, mas a obra deveria caminhar por si só. E A Nebulosa seguiu seu caminho como um poema de rara beleza. O fato de não possuir um caráter nacional – ao menos não da maneira como se compreendia o nacional naquele momento – não afetou a sua boa recepção. Apesar da nacionalidade na literatura brasileira provar a atualidade do poema e a sua inserção nos modelos do que se esperava ser uma poesia brasileira naquele momento, havia também um outro grupo de pensamento na época que acreditava que a poesia poderia ser nacional, mesmo quando abusava do subjetivismo lírico, quando se tratava de uma poesia reflexiva, que analisava os pensamentos e sentimentos, tal qual o que se encontrava em A Nebulosa. Antônio Candido afirmou que, ao lado do nacionalismo, havia no romantismo a miragem da Europa, o norte brumoso. A Nebulosa se insere nessa vertente de temática mais universal. A atmosfera nebulosa, soturna, a descrição da natureza orgânica, o dilaceramento interior das personagens dementes de paixão, brancas e pálidas como “neve” e “cristal” transportados para a imaginação tropical, nos sugere um poema escrito na contramão do projeto nacionalista, mas ainda assim ovacionado pela crítica e pelos leitores em geral.

 

A Nebulosa é uma obra que praticamente ficou desaparecida por mais de um século. Quais são as hipóteses para que isso tenha acontecido?

AMGC: Depois de duas edições no século XIX A Nebulosa praticamente desapareceu das prateleiras de livrarias e bibliotecas. Em 2006 foram localizados cinco exemplares da primeira edição e nove da segunda. Dois fatores podem ter contribuído para isso. Um deles se deve ao esparsamento das críticas em periódicos e histórias literárias. No século XX contamos apenas quinze, menos da metade do que foi produzido no XIX. O último comentário de fôlego data de 1863, por Ferdinand Wolf. Depois disso um longo silêncio até 1882, ano da morte do autor. No século XX, apenas algumas pequenas notas, de tempos em tempos, excetuando Antônio Candido, em 1957, que se debruça na análise do poema na sua Formação da Literatura Brasileira. Os livros didáticos ou obras que interessam ao público universitário nem sequer citam o poema de Macedo, tornando-o desconhecido tanto para estudantes como para estudiosos da obra de Macedo ou do romantismo. Outro fator para o desaparecimento de A Nebulosa pode estar relacionado com o caminho escolhido pelo autor. No seu necrológio, em 1882, um crítico, ao fazer o inventário do autor, assim diz: [A Nebulosa] pode considerar-se como a última corda de sua lira, como o último trabalho que ele fez dominado unicamente por preocupações literárias” (Gazeta de Notícias, Rio de Janeiro, 12 de abril de 1882). Macedo foi o representante oficial da literatura romântica e sua popularidade se deve à sua primeira fase, mais romântica. O romance, nessa época, passou a ter um público cada vez mais crescente e encontra o seu lugar na literatura brasileira. O Macedinho, como era popularmente conhecido, para satisfazer a exigência desse público, chegou a publicar entre 1867 e 1870 nada menos que dez títulos! Assim, é possível que com essa fecundidade numérica e um público ávido por romances ou até reedições – Vicentina estava na terceira edição em 1870 – as editoras se empenhassem na circulação dessas obras em detrimento de novas edições de A Nebulosa.

 

Joaquim Manuel de Macedo.

Joaquim Manuel de Macedo é popularmente conhecido por A Moreninha. Para além da questão do gênero literário, que surpresas a leitura de A Nebulosa reserva ao leitor?

AMGC: A Nebulosa pode surpreender não só pelo tema e versos fáceis, mas pela expressão natural dos sentimentos. O poema narra a história de um amor impossível. Essa impossibilidade seria tema recorrente do ultrarromantismo, no entanto, o amor desprezado e o efeito da paixão são desenvolvidos como sentimentos contrastantes no homem e na alma feminina. A mulher é representada como o arquétipo da mulher fatal, que sem misericórdia recusa o amor do Trovador, demonstrando vontade e poder de decisão, ao contrário do papel remissivo comumente dado a ela na literatura europeia. O leitor encontrará no poema toda a matéria romântica, como o gosto pelo passado, o medievalismo, o mistério e o horror, os elementos fantásticos, folclóricos e populares, as elegias de caráter rústico, o pitoresco das bruxarias e malefícios, as fadas e feitiçarias, a poesia tumular, o amor e a morte, a fusão de gêneros e a ingenuidade de sentimentos exacerbados. O que pode surpreender na leitura de A Nebulosa é a percepção de que todas essas características são próprias da poesia ossiânica e medieval e se encontram entranhadas no poema de Macedo.

 

Em sua opinião, esta nova edição de A Nebulosa pode ajudar o leitor (e os críticos) do século XXI a (re)descobrir a obra? Ela ainda é uma leitura impactante, que oferece matéria prima para novas críticas e estudos?

AMGC: A terceira edição de A Nebulosa tanto pode ajudar o leitor quanto os críticos de hoje a redescobrirem a obra há muito esquecida no ossuário do romantismo. O poema é importante enquanto fato estético e como fato da historiografia literária. Sua leitura permite ao leitor entrar num mundo romântico e conhecer os conceitos fundamentais do romantismo: a beleza da morte e seu caráter de fatalidade, a comunicabilidade entre os elementos e os seres, a vida e a morte, a dor e a paixão, um canto fúnebre que sugere uma existência mais bela e essencial, resultando num dos mais belos do romantismo brasileiro. Com o restabelecimento da obra, a crítica literária terá instrumentos que possibilitarão o entendimento total do poema e a constatação de sua importância para a história literária. A publicação de A Nebulosa poderá contribuir para que a crítica e leitores atuais possam apreciar essa obra de grande interesse para o conhecimento mais amplo do romantismo no Brasil, bem como da hoje obscura face poética de Joaquim Manuel de Macedo.

Conheça outros títulos da Coleção Clássicos Ateliê

Irradiações da Literatura Grega na cultura ocidental

Por: Renata de Albuquerque

Dizer que a Grécia é o berço da cultura ocidental é quase um clichê. Mas, você já parou para pensar de que maneira os clássicos gregos ecoam até os nossos dias? O professor, escritor e tradutor Donaldo Schüler não apenas pensou, como estudou a fundo e compartilha esse conhecimento com os leitores no livro Literatura Grega: Irradiações. Ele é Doutor em Letras e Livre-Docente pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), onde foi professor de língua e literatura gregas. A seguir, ele fala sobre seu mais novo livro ao Blog da Ateliê:

Como surgiu a ideia do livro?

Donaldo Schüler: A ideia vem de longe. Interessa-me a Literatura Comparada, a relação do que se escreve hoje com o que escreviam os gregos. A comparação revela continuidades, interrupções, diferenças. A literatura é construída por nossos interesses. Se lemos Homero, ele entra na esfera das nossas preocupações. Homero é autor vivo. Os leitores lhe dão vida.

O que levou em conta para escolher os autores gregos citados no livro?

DS: A seleção dos autores antigos já foi feita há muitos séculos. Noventa por cento do que os gregos escreveram está perdido. Estamos diante de ruínas. Cada geração constrói a sua própria Grécia. Enquanto refazemos a Grécia com o que resta, nós nos construímos a nós mesmos. A ênfase é dada por nossas preferências. Como estamos ligados à época em que escrevemos, o momento participa de nossas escolhas, nem sempre podemos dar conta da seleção  que fazemos. Dos autores mais recentes, figuram aqueles que entram no horizonte  dos nossos interesses.

Donaldo Schüler

Como foi feito o trabalho de realizar uma “ponte” entre os autores gregos e os autores mais “recentes”, como Machado de Assis, Borges, Guimarães Rosa e Shakespeare?

DS: Os autores que você cita são leitores de textos antigos. Quando Shakespeare põe em cena personagens de outros tempos, ele discute questões do seu tempo. Quem encena Shakespeare hoje está atento ao que acontece agora. O palco é um lugar de muitas ressonâncias. Os heróis buscados no sertão brasileiro preservam traços dos heróis de outros tempos. Mesmo a leitura de autores atuais nos leva às origens. Os textos de Machado de Assis conectam o Brasil com o mundo.

Sob que aspecto é possível dizer que a herança grega é ressignificada por autores mais atuais?

DS: Os gregos estão presentes mesmo quando  nossa atenção não está voltada a eles. Quando pensamos, afirmamos ou negamos o que eles pensaram. Eles são nossos interlocutores. Assim os preservamos vivos. O mundo se amplia quando ultrapassamos o que nos cerca. Nunca somos herdeiros passivos. O que não conquistamos não nos pertence.

Há algo na literatura grega que ainda persiste intocado? Ou: existem “irradiações” sem outras intervenções externas, que mantenham os conceitos inalterados desde a Grécia Antiga?

DS: O tempo modifica tudo.  O que experimentamos acontece pela primeira vez. Aquilo que não tocamos nos escapa.  Vivemos dias acelerados. Muitas são as vozes que advertem o excesso de informações. Se não decidimos parar para pensar, para meditar, para escrever, as informações  nos dilaceram. Paramos para viver.

Em sua opinião, qual a “irradiação” mais interessante enfocada pelo livro e por quê?

DS: O que escrevemos se divide no interesse dos leitores, a irradiação acontece assim. O leitor é ativo. O leitor desmonta e remonta o que lê. O leitor participa da invenção. Significativo é o texto que leva a inventar. O texto provoca, o interesse é a participação do leitor.

 

Conheça mais sobre a obra de Donaldo Schüler

Cinematografia: a poesia da narrativa em movimento

Por: Renata de Albuquerque

Cinematografia é a técnica de projetar imagens estáticas  e sequenciais em uma tela, com velocidade suficiente para dar movimento a elas. As imagens presentes nos 90 poemas de Paulo Lopes Lourenço reunidos em Cinematografia criam narrativas a partir desse conceito. Ilustrado por Fernando Lemos, este é o primeiro livro de poemas de Lopes Lourenço lançado no Brasil. Os textos aqui reunidos foram quase todos escritos durante a estada do autor no país – ele foi Cônsul Geral de Portugal em São Paulo entre 2012 e 2018. A seguir, o autor fala ao Blog da Ateliê:

 

Que autores o influenciam como poeta?

Paulo Lopes Lourenço: Há muito ecletismo nas minhas referências, tanto nas literárias quanto nas plásticas ou visuais, que de resto são até mais marcantes do que as influências sobre os processos de escrita. A tradição poética portuguesa não me passou ao lado, claro, mas seria impossível ignorar anos e anos de paixão pelos clássicos russos ou pela literatura contista americana, ou até mesmo a “escrita automática”. E embora eu escreva de facto poesia, o que escrevo parece radicar mais nas artes visuais, em especial na fotografia e no cinema. Nesse sentido, tanto me sinto impelido a partir de uma peça do Brancusi, quanto por um romance do Scott Fitzgerald, um quadro do Hopper ou por uma canção indy bem escrita. O teatro e o cinema foram uma presença constante enquanto crescia.

 

O que este livro tem de diferente de seus livros anteriores?

PLL: O período que o livro cobre é biográfica e literariamente de transição. Nele se procurou uma certa condição de apaziguamento interior, um armistício íntimo entre o que procuro na escrita – uma liberdade mais irrestrita, a generosa transigência plástica das palavras, a sua possível transmutação estética – com um desejo de honestidade verbal. Nesse sentido, este é um livro mais sereno, mais convalescido, mas também menos inocente, sempre se auto-testando.

 

Por que a escolha do título Cinematografia?

PLL: Este livro poderia ter-se chamado Crónicas dos Primeiros Dias Velhos, expressão que aliás dá nome a um dos poemas da coletânea agora lançada. Cinematografia, porém, tem a vantagem de oferecer uma senha de acesso mais clara sobre o que proponho ao leitor e de algum modo me reconciliar com a ideia que sempre cultivei sobre o processo da escrita: uma fórmula, simultaneamente mais rica e mais limitada, de fazer cinema. Estes poemas poderiam ser fotogramas, fabricados visuais ou instalações. E embora contenham, também, uma experiência narrativa precisa e oculta, eles são a minha coleção particular e pessoal de curtas metragens.

 

Como foi feita a seleção dos poemas que fazem parte deste volume? Eles foram escritos especialmente ou selecionados dentro de universo mais amplo?

PLL: Estes poemas foram escritos nos últimos 7 a 8 anos, formando dois corpos distintos, onde coexistem temas diversos, mas no essencial unidos por uma certa procura de coerência: um mais antigo (e mais curto) e outro mais recente (e mais amplo). Ao longo dos últimos dois ou três anos, começou a surgir a ideia de os publicar como uma peça única que pudesse juntar dois períodos distintos de escrita e, ao fazê-lo, desvendar uma espécie de rito de passagem, de caminho interior consumado, mais reconciliado consigo próprio e, talvez por isso, um pouco mais irônico. Essa transição é, acredito, muito clara para quem lê o livro em sequência.

 

Este é seu primeiro livro publicado no Brasil, escrito durante o período em que morou em São Paulo e lançado no momento em que se despede de sua função como cônsul no país. De que maneira isto afeta a poesia deste livro, os personagens que fazem parte dele, os temas que de ele trata?

PLL: É inegável que muitos dos textos foram escritos nestes últimos 6 anos e que a minha estada aqui os marcou. Não é aliás por acaso que dedico o livro também a São Paulo, a que retribuo de modo muito sincero pelos anos gratos que aqui vivi. E sendo embora verdade que esta cidade tem uma densidade e um lastro próprios que fazem dela intensamente cinematográfica, seria exagerado porém dizer que ela afetou a razão de ser do livro. Ele teria acontecido provavelmente sem São Paulo, embora não lhe pudesse ser indiferente. Longe disso.

Ilustração de Fernando Lemos

A paisagem urbana de São Paulo é parte do cenário de Cinematografia? Como a cidade está presente no livro?

PLL: Há apenas um curto poema alusivo no livro que procura sintetizar o magnetismo da cidade a partir de um olhar conciso e despojado, mas quanto mais falamos sobre S.Paulo, mais corremos o risco de não lhe fazer justiça. Sempre me fascinei pela beleza anônima que se revela inesperadamente numa grande urbe. De uma forma ou de outra, porém, interessa-me mais o ponto de vista do que aquilo que se vê. Interessa-me mais a frase do que o sujeito.

 

No prefácio do livro, Manuel da Costa Pinto escreve: “Paisagens, ruas, casas, interiores, móveis e utensílios imantados de lembranças são, mais do que “correlato objetivo” (o procedimento fundamental da poesia moderna identificado por Eliot), coordenadas espaciais: como no cinema – entendido aqui como arte de esculpir o tempo –, colocam os seres em situação, transformando-os porém em aparição destinada a logo desaparecer, a irmanar-se às coisas”. Como o senhor idealizou esculpir essas imagens de maneira a colocá-las em movimento, criando essa cinematografia?

PLL: Foi de fato como Manuel Costa Pinto que me dei conta pela primeira vez dessa tentação cenográfica, como se de alguma forma eu convocasse figurantes com um determinado propósito cênico, para compor um quadro, uma paisagem ou uma cena, mas que não vingam além do desejo descritivo ou onírico que os anima. De certa forma, embora se tratem de poemas totalmente narrativos (há sempre uma história, um olhar, um pensamento, uma alusão ou até mesmo um axioma ensaiado por detrás de cada um dos textos), a sua natureza é a de uma abstração plástica. Nesse sentido, uma personagem tem a mesma importância que um substantivo ou uma imagem. Por trás de cada composição fotográfica ou de cada encenação, uma narrativa alusiva, um conto em miniatura ou até um esboço de novela – mas o que eu quero provavelmente compartilhar mesmo é a anti-história que se esconde por detrás dessa aparente – e ainda assim convicta – narrativa. É a contra-narrativa que eu busco. É o adjetivo que eu quero contar. Como no cinema, o que me interessa mais é o plano e o movimento da câmera.

“Cenas em Jogo” conecta literatura, psicanálise e cinema

Por: Renata de Albuquerque

“Cenas em Jogo” é o título do livro que traz ao público o resultado do Doutorado do psicanalista, escritor e professor Renato Tardivo. No estudo, ele retoma a intersecção entre psicanálise, cinema e literatura, abordando diversos títulos, como Abril Despedaçado, O Cheiro do Ralo e Linha de Passe. Todas as obras analisadas por Tardivo são brasileiras e carregam consigo uma afinidade temática: “liberdade e opressão, ressignificação da lei e perversão, realidade e ficção, entre outras”. A seguir, o autor fala sobre o lançamento ao Blog da Ateliê:

O livro é resultado da sua tese de Doutorado. Que adaptações foram feitas ao texto original para transformá-lo em livro?

Renato Tardivo: Muito poucas. Desde a minha dissertação de mestrado, também publicada em livro pela Ateliê, percebi que desenvolvia uma escrita ensaística que, conquanto procurasse certo rigor acadêmico, tinha por objetivo principal ser acessível e comunicar-se com o leitor. Nesse sentido, a forma das análises está em íntima conexão com seu conteúdo, uma vez que, mais importante do que defender uma tese junto a este ou àquele grupo, procuro sempre uma forma autoral de expressão e, portanto, de abertura ao diálogo. De forma resumida, é a esta perspectiva que, ao fim do livro, dou o nome de “poético-crítica”.

O título do livro “Cenas em Jogo” remete ao “Jogo de Cena” de Eduardo Coutinho, que também faz parte do livro. De que maneira a problematização da ficção se coloca em “Cenas em Jogo”? Por que essa referência à obra de Coutinho e qual o impacto dela na sua obra?

RT: O capítulo em que me debruço sobre o filme “Jogo de Cena” é, do meu ponto de vista, um dos mais importantes do trabalho, uma espécie de clímax, porque, nele, discuto os temas principais da pesquisa e é a partir dele que o trabalho caminha para um desfecho. É nesta seção do livro, por exemplo, que destaco uma espécie de colapso provocado pela profusão de imagens, informações, discursos, isto é, certa banalização entre a realidade e o artifício. Como resistência a essa conjuntura, talvez a principal mensagem de “Jogo de Cena” seja convocar o espectador a viver o sobressalto inerente à ambiguidade entre ficção e realidade, o que não significa tomar puramente uma pela outra, mas impactar e ser impactado de modo a ampliar as experiências acerca de si e do outro. Dessa perspectiva, ficção e realidade se alimentam reciprocamente e contribuem para construções mais autênticas.

Como se deu a escolha dos títulos que seriam enfocados em sua tese? O que você levou em consideração para eleger cada um?

Renato Tardivo

RT: A escolha não foi imediata. Ao começar o doutorado, tinha consciência de que queria terminá-lo refletindo minha própria tomada de contato com obras literárias e cinematográficas, na interface da arte com a psicanálise. Mas não tinha clareza de como atingir esse objetivo. Foi então que percebi que se tratava de uma pesquisa de processo e que deveria retomar obras com as quais havia entrado em contato nos últimos anos, seja em sala de aula, em debates ou palestras. Por isso, também, retomar o trabalho anterior com o romance Lavoura Arcaica e o filme homônimo, que é o ponto de partida desse processo. Quando defini o corpus, notei que havia uma coerência temática entre as obras, embora diversas à aparência: liberdade e opressão, ressignificação da lei e perversão, realidade e ficção. Daí encontrei um campo fértil para refletir em que medida as leituras acrescentavam sentidos às obras e, reversivelmente, em que medida as obras acrescentavam sentidos à leitura, isto é, em que medida a tomada de contato com as obras pôde construir e fundamentar uma perspectiva de leitura.

Estudos que envolvam a intersecção dos campos da literatura, psicanálise e cinema não são exatamente uma novidade. Por outro lado, esta parece ser uma fonte inesgotável de pesquisa.  De que forma sua obra contribui para esse cenário?

RT: De fato, não são poucos os trabalhos que articulam os campos da literatura, do cinema e da psicanálise. No entanto, grande parte deles parece se apropriar das obras de arte a fim de validar conceitos da psicanálise, fazendo das obras mero receptáculo de teoria psicanalítica, sem contribuições à arte e à própria psicanálise. Em outra direção, encampando a perspectiva da psicanálise implicada, a partir do campo delineado por João A. Frayze-Pereira, orientador da minha pesquisa, procurei me aproximar das obras assumindo o potencial criativo e inventivo da psicanálise e, assim, buscando ampliar as possibilidades de sentido às obras e às leituras que se voltam a elas. Há, nessa medida, certa autonomia entre os ensaios.

Em sua opinião, qual foi o “achado”, a constatação, a “descoberta” mais interessante desse estudo?   

RT: Operar no plano da estética em diálogo com a psicanálise me permitiu desenvolver, no último capítulo do livro, aspectos caros à relação autor-leitor-obra, como “entre o vivido e o imaginado”, “realidade, ideologia, ficção” e minha proposta de “perspectiva poético-crítica”. Mas, sobretudo, mais do que chegar a um “achado”, espero que o trabalho tenha funcionado, parafraseando o esteta Luigi Pareyson, como “um fazer que, enquanto faz, inventa o modo de fazer”.

Conheça a obra de Renato Tardivo

“Konstantinos Kaváfis – 60 poemas” ganha nova edição

A literatura grega não é feita apenas de textos do período clássico da Idade Antiga. Autores mais recentes também reservam ao leitor experiências literárias impactantes, como é o caso de Konstantinos Kaváfis (1863 – 1933), considerado um dos mais importantes escritores cuja produção foi elaborada em grego moderno. Autor de mais de 150 poemas, teve sua obra reunida apenas postumamente.

 “Konstantinos Kaváfis – 60 poemas”, tem seleção e notas de Trajano Vieira, um dos mais importantes pesquisadores da cultura helênica no Brasil. Na obra, o leitor tem a oportunidade de entrar em contato com um universo esteticamente rico e provocador. A seguir, Trajano Vieira fala ao Blog da Ateliê sobre o livro:

Que alterações foram feitas em relação à primeira edição?

Trajano Vieira: A segunda edição mantém exatamente os princípios que nortearam a primeira: tentar apresentar ao leitor, através da linguagem poética, algo da expressividade estética de um autor extraordinário.

Como se deu o processo de tradução dos poemas para esta antologia, à época da primeira edição? Houve ajustes para esta segunda edição?

TV: O processo de tradução foi uma decorrência do processo de leitura dos poemas do autor. Aqueles textos que me tocavam mais, eu os tentava traduzir. Preservei as traduções que, pelo menos para o meu gosto, atingiram alguma qualidade estética. As demais, deletei. De um modo geral, costumo trabalhar assim: só consigo traduzir obras que, no processo de leitura, me motivam a vertê-las. Isso não é garantia de sucesso, apenas um princípio de trabalho.

 

No prefácio do livro, o senhor fala da poesia fantasmagórica e do exotismo dos personagens de Kaváfis. Poderia, por gentileza, falar um pouco sobre isso para os leitores que não conhecem esse autor?

TV: Trata-se da atmosfera que prevalece nos poemas de Kaváfis. Seus personagens são avessos ao banal e previsível. Normalmente suas atitudes sugerem naturezas excêntricas. Parecem viver num universo deslocado, em que não é mais possível realizar suas fantasias. Daí o tema da morte ser tão recorrente em sua produção. Quase nada do tempo histórico vale a pena ser vivido. O imaginário refinado se expande e domina as ações dos personagens. Um dos parâmetros fortes dessa experiência é o ideal clássico, o tom contemplativo avesso ao utilitarismo e à redundância cotidiana.

 

Konstantinos Kaváfis

O senhor destaca ainda a dimensão estética da linguagem de Kaváfis. O que se pode dizer a respeito disso?

TV: Destacam-se, em sua linguagem, o coloquialismo e o distanciamento da elocução, num padrão verbal de elevadíssimo domínio formal, fazendo às vezes pensar em T. S. Eliot. A erudição do autor se evidencia em seu conhecimento profundo da tradição greco-latina. Muito do desespero que se depreende de situações que ele representa se deve à constatação de que certo gosto literário se perdeu irremediavelmente na modernidade. Registre-se, entretanto, que sua poesia é tributária, por outro lado, de um forte traço da produção moderna: a ironia.

 

Como se dá a inserção de elementos teatrais na poesia do autor grego?

TV: Normalmente, através da configuração de um personagem exótico, que parece histórico, mas não é. Esse personagem desenvolve comportamento incomum diante de uma situação. Tal aspecto que denominaríamos ficcional prende a atenção do leitor, surpreendido com a imprevisibilidade da ação. A beleza é um parâmetro central para esse tipo de personagem, não só a beleza de certa forma física, mas a que se busca num determinado estado de espírito, impossível de perdurar ou até mesmo de se provar. Algumas vezes, fica no ar a sugestão de que nada vale a pena, porque até o êxtase mais intenso não passa de uma quimera na temporalidade transitória.

 

Existe um elemento de coloquialismo na poesia de Kaváfis que permitiria fazer uma aproximação deste poeta com a poesia de Drummond. O senhor pode falar brevemente a respeito, por favor?

TV: Haroldo de Campos, em sua tradução notável do poema mais famoso de Kaváfis, “À espera dos bárbaros”, introduz, num certo momento, uma expressão de um poema de Drummond, correlata ao do poeta neogrego. A aproximação seria possível justamente por causa da confluência de ironia e registro coloquial, presente nos dois autores. Certa visão sobre a trágica experiência humana, um reflexo da percepção da brevidade da vida, é outro aspecto que poderia aproximar os dois autores. Contudo, as figuras emblemáticas da poesia de Kaváfis nada têm a ver com as representações de Drummond. A luxúria que retoma certa visão do classicismo tardio é algo que afasta o primeiro escritor do segundo. A melancolia diante da vulgaridade dos fatos cotidianos leva Kaváfis a outra direção, em que os personagens se arriscam e se excedem em sua incontida sensualidade. Esse tipo de risco é menos presente em Drummond, que se retrai muitas vezes diante da potencialidade do desastre.

 

O senhor considera que há um elemento de ironia na poesia de Kaváfis? Como ela se coloca na obra?

TV: A ironia está presente sobretudo no comportamento de personagens que cultivam a hiperestesia, diante da qual os fenômenos cristalizados pelo senso comum num certo contexto não têm nenhuma importância. É da ausência de ilusão sobre a positividade dos fatos históricos que nasce a ironia extremamente sutil com que o autor constrói a experiência incomum. Registre-se, contudo, que sua linguagem é bastante precisa. Ela não padece de indefinições redundantes, nem de evasões de transes surrealistas.

 

Conheça a obra de Trajano Vieira

 

Um mito, duas versões

Por: Renata de Albuquerque

Trajano Vieira é um dos mais reconhecidos pesquisadores da literatura grega no Brasil. Com uma bagagem de décadas de estudo e dedicação ao tema, ele preparou, exclusivamente para a Ateliê Editorial, a tradução de duas versões da tragédia Electra: uma de Sófocles; outra de Eurípedes. O desejo de vingar a morte do pai desdobra-se, em cada autor, com características próprias, que vão da tensão ao humor. A seguir, o Doutor em literatura grega pela USP, livre docente e professor do IEL,  na Unicamp, fala sobre seu Electra(s):

 

Qual a importância em reunir as duas “Electra” em só volume? Esta é uma iniciativa inédita?

Trajano Vieira: O objetivo maior da publicação num único volume das duas Electra, que apresentam o mesmo mito, foi dar ao leitor a oportunidade de comparar o diferente tratamento conferido ao tema por dois poetas trágicos com características bastante distintas: Sófocles e Eurípides. Desconheço a existência de projetos tradutórios com a mesma motivação. Creio que não há, pelo menos entre nós.

Quais os desafios da tradução para compor um volume como esse? As traduções foram realizadas especialmente para este volume ou já haviam sido feitas anteriormente e foram apenas reunidas?

TV: As duas traduções foram pensadas em função da publicação da Ateliê. Os desafios que obras dessa magnitude impõem ao tradutor são inúmeros. Destacaria, entre outros, a necessidade de encontrar uma coerência formal em português, que dialogue com aspectos centrais da linguagem do original. Se o resultado é positivo ou não, cabe ao leitor avaliar. Contudo, deve-se considerar a relevância ou não do gesto tradutório. Nesse tipo de trabalho, o tradutor se arrisca ao buscar formulações que escapem dos sentidos cristalizados nos dicionários e nas gramáticas. Esses instrumentais são ponto de partida e não de chegada, como costuma ocorrer em traduções escolares convencionais.

 

A bibliografia sobre as Electra(s) é vasta. Para este trabalho especialmente, quais foram as referências utilizadas e por quê?

TV: Eis uma questão de difícil resposta. Como você observa, a bibliografia sobre as duas tragédias é imensa. Até por dever de ofício, por causa da minha atividade de professor na Unicamp, procuro me manter atualizado sobre as publicações especializadas, dando preferência àquelas que abordam questões poéticas e retóricas. Acabo privilegiando os ensaios com qualidade estilística e procuro me distanciar dos que exibem argumentação esquemática e perfunctoriamente acadêmica. Estes últimos trabalhos dão muitas vezes a impressão de estar fazendo uma grande descoberta científica, quando na verdade revelam apenas o uso nem sempre significativo de uma vírgula ou de um ponto e vírgula. Entre os especialistas de tragédia que admiro muito, não só pela agudeza e erudição, como pela elegância da escrita, mencionaria Bernard Knox.

 

Quais são os principais pontos de contato entre os textos de Sófocles e Eurípides?

TV: O principal ponto de contato entre ambos decorre das características de fundo do gênero trágico. Refiro-me à questão do destino e de sua inesperada reviravolta, cujos efeitos nefastos exibem a fragilidade da experiência humana. O personagem atua como senhor de sua história e descobre, ao final, que outros aspectos foram responsáveis por sua forma de agir e de enxergar a vida. Normalmente isso ocorre tarde demais, quando o cenário negativo conduz o herói à própria destruição.

 

O que os distancia mais?

TV: A concepção de linguagem e do próprio gênero trágico afasta os dois escritores. A grosso modo, apenas para situar o leitor que desconhece os autores, pode-se dizer que em Sófocles prevalece o tom sereno e a abordagem clássica do acontecimento trágico. Eurípides é sobretudo moderno e chega a introduzir elementos cômicos em sua obra (notem-se, por exemplo, as características acentuadamente simplórias do marido oficial de Electra…), dando a impressão, muitas vezes, de que seu projeto procura ir além do gênero trágico tradicional. Há um aspecto dramático na Electra de Eurípides que antecipa certos traços romanescos.

 

De que maneira o senhor recomenda a leitura, para que as diferenças e semelhanças fiquem mais claras para o leitor? Cena a cena ou cada peça em sua totalidade?

TV: Cada um de nós deve descobrir o modo mais adequado de realizar a própria leitura. Eu prefiro ler integralmente cada uma das obras, para, num segundo momento, retomar trechos marcantes e estabelecer paralelos.

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