Editorial Ateliê

Homenagem a Gilberto Braga – Leia o prefácio escrito pelo autor para a obra ‘Novelas, Espelhos e um Pouco de Choro’, publicada pela Ateliê

Gilberto Braga

Na última terça-feira, 26 de outubro, faleceu o autor de novelas Gilberto Braga, aos 75 anos. Braga assinou os sucessos Vale Tudo, Celebridades, Paraíso Tropical e Dancin’ Days.

A Ateliê Editorial lamenta a morte do escritor e relembra o texto de prefácio, escrito por ele, para a obra Novelas, Espelhos e um Pouco de Choro. O livro retrata sobre a televisão, essa caixinha de mistérios que conquistou lares de todo o Brasil. Os autores dos contos são roteiristas da Rede Globo. Cada um aborda um aspecto do tema, com estilo próprio e determinado ângulo de visão. O que dá unidade ao conjunto é a identificação com o leitor: todos os textos tratam de histórias que assistimos ou de que ouvimos falar. Todas elas nos pertencem porque, de alguma maneira, participamos delas.

A obra, publicada em 2001, contou com a contribuição de Alessandro Marson, Claudio Barbuto, Dora Castellar, Lúcio Manfredi, Maria Helena Alvim, Patricia Castilho, Paulo Cursino, Renato Modesto, Renê Belmonte, Rosani Madeira, Rubens Rewald, Thelma Guedes. Saiba mais sobre a obra no site da Ateliê Editorial (CLIQUE AQUI).

Leia na íntegra o prefácio escrito por Gilberto Braga:

Com uma tomada de eletricidade e uma antena, a televisão invade os mais remotos cantos do Brasil e neles se instala. Ameaçando de morte culturas locais ou abrindo-lhes as portas para o mundo global? Perguntas a que só o futuro poderá responder, mas eu já vou apostando na segunda alternativa. Estes contos podem fazer vocês pensarem neste assunto e vários outros de igual interesse. Li o livro não como autor de novelas, mas como o leitor de Machado, João Ubaldo ou Maupassant que sempre fui. Quer dizer, sem experiência técnica alguma e apenas a autoridade de um leigo que aprecia a literatura sem nunca ter-se por ela aventurado. Talvez tenha tido ainda mais prazer pelo fato de os contos tratarem de experiências com ou na televisão, e eu afinal de contas sou do ramo. Mas, pensando melhor, nem necessariamente tanto mais prazer assim, porque em matéria de novela boa parte do Brasil é do ramo. A turma escolhida pelo Flavio é das boas. A principal qualidade deste livro é, a meu ver, a sua unidade na diversidade. Todos os contos tratam de histórias referentes à televisão, coisas que todos nós ou vivemos, ou lemos, ou ouvimos contar, mas nos pertencem porque – de uma forma ou de outra – delas participamos. E diversos porque cada um aborda um aspecto, num estilo diferente e de um ângulo inesperado. Um momento, um detalhe, um elemento psicológico que muitas vezes nos passou despercebido, mas que, lido agora, nos parece muito vívido e muito nosso.


Nem me lembrava da primeira vez em que vi televisão até ler a descrição toda graça e leveza que um dos contos faz do momento que foi a criação do mundo para a autora, quando em seu universo cinzento de criança começaram a brilhar as cores do seu primeiro aparelho. Nem sei, na verdade, se meu próprio caminho foi dos mais difíceis na televisão, mas achei muita graça ao ver como é fácil embaralhar as coisas e perder a direção, lendo a descrição de um dos autores de seu percurso de devoto a inimigo das novelas: trocando e destrocando de alma com seus personagens; arruinando na vida real o que fazia sucesso na tela e vice-versa.


Outro conto diz, logo em seu princípio: “O problema é que eu sou péssimo pra desenvolver personagens. Antes de virar roteirista de televisão, quase todos os meus contos tinham como personagem principal um intelectual baixinho, complexado e patético, ou seja, eu…” Amostrinha grátis que me exime de falar da vivacidade do texto. Só faltando acrescentar que envolve tudo numa pontinha de filosofia e, para nós, humildes discípulos de Félix Cagnet, o pinguinho de filosofia que se puder arrebanhar já é lucro.


“A palavra é desesperançada. Concretamente desesperançada”, e a partir daí ainda um outro conto vai aos poucos
explicando aos futuros roteiristas deste país tão grande, ou aos já cansados, como é dura a passagem de uma cena vivida – ou pensada, sonhada – para uma cena escrita. O que um conhecido meu chama de “transubstanciação” e que só agora, depois de transubstanciar por tantos anos, compreendi por que isto exige tanto suor e tanto Lexotan…


Vou ficando por aqui para não contar o fim do filme, que fica muito melhor se vocês lerem o livro. Só uma palavra ao meu amigo Flavio: parabéns. Ainda não posso saber se você conseguiu fazer dessa turma roteiristas mas pelo menos não tocou nos contistas excelentes que eles já traziam dentro de si. Ou não os teria escolhido

27 de outubro, dia de Graciliano Ramos

Graciliano Ramos

E eu vou ficar aqui, às escuras, até não sei que hora, até que, morto de fadiga, encoste a cabeça à mesa e descanse uns minutos. (S. Bernardo).

No dia 27 de outubro de 1892 nasceu, em Quebrangulo, no Alagoas, Graciliano Ramos, um dos maiores escritores da Literatura Brasileira. Autor dos clássicos Vida Secas, Angústia, S. Bernardo, Infância, Memórias do Cárcere, entre outros. Um dos grandes nomes do romance nacional, faleceu no dia 20 de março de 1953, no Rio de Janeiro.

Capa do livro ‘Graciliano na Terra de Camões’

A Ateliê Editorial publicou, em outubro deste ano, a obra Graciliano na Terra de Camões – Difusão, Recepção e Leitura (1930-1950), de Thiago Mio Salla. O livro apresenta diferentes facetas da recepção e da divulgação da obra do autor de Vidas Secas e, por extensão, do romance de 1930 brasileiro, em Portugal ao longo dos anos de 1930, 1940 e 1950. Trata-se de um período singular, marcado, entre outros aspectos:  pela ampliação, em termos editoriais, da indústria do livro brasileira, o que teria dado início a um processo irreversível de inversão da influência tipográfica entre Portugal e Brasil;  pela emergência, no âmbito artístico, do neorrealismo luso e pela singular presença, em terras portuguesas, da literatura brasileira, algo nunca antes observado no intercâmbio literário entre os dois países; em termos políticos e culturais, pelo esforço de aproximação formal entre os governos de Getúlio e Salazar, que celebraram o emblemático acordo de 1941, voltado à promoção de “íntima” cooperação artística e intelectual entre as duas nações.

No mesmo mês também aconteceu a live de lançamento do livro. Além do autor, o encontro virtual exibido no canal no Youtube da Ateliê Editorial contou com a participação de Ieda Lebensztayn, Ricardo Ramos Filho, Luís Bueno e com a mediação de Luciana A. Marques. Assista abaixo:

O AUTOR

Thiago Mio Salla é doutor em Ciências da Comunicação e em Letras pela Universidade de São Paulo. Enquanto docente e pesquisador da Escola de Comunicações e Artes da USP e do Programa de Pós-Graduação em Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa da FFLCH/USP, dedica-se às áreas de Literatura Brasileira, Teorias e Práticas da Leitura e Editoração. Entre outros trabalhos, publicou o livro Garranchos – Textos Inéditos de Graciliano Ramos (Record, 2012) e Graciliano Ramos e a Cultura Política (Edusp, 2017), bem como, em parceria com Ieda Lebensztayn, as obras Cangaços (Record, 2014) e Conversas (Record, 2014), ambas também a respeito do autor de Angústia.

Thiago Mio Salla é professor do Departamento: Jornalismo e Editoração – CJE . Foto: Cecília Bastos/USP Imagem

Trecho da obra ‘Crise em Crise’, de Paulo Franchetti, sobre José Paulo Paes

Nos últimos anos, a vida de José Paulo Paes se confundia, para mim, com a sua poesia. Sobrepunha-se a ela, na verdade. Desde que, em 1992, seis anos antes da sua morte, publicou em livro um dos seus poemas mais conhecidos, “À Minha Perna Esquerda”. Era uma coisa pungente: o poeta, face à necessidade de amputação de uma perna, tinha escrito um poema carregado de ironia e morbidez. Era desses versos que me lembrava perfeitamente bem. Talvez por ter conhecido o poeta, numa das vária vezes que veio à Unicamp. Talvez porque sua análise ocupasse mais de um terço das 46 páginas do longo ensaio introdutório de Arrigucci, que precede os poemas.

(Trecho do texto Amor/Humor/Horror, presente na obra Crise em Crise – Notas sobre Poesia e Crítica no Brasil Contemporâneo, de Paulo Franchetti).

Conheça a obra no site da Ateliê Editorial (CLIQUE AQUI).

José Paulo Paes

Leia um trecho da introdução da obra ‘Elegia Grega Arcaica: Uma Antologia’, de Giuliana Ragusa e Rafael Brunhara, coedição Ateliê e Mnêma

PRÉ-VENDA da obra Elegia Grega Arcaica: Uma Antologia, de Giuliana Ragusa e Rafael Brunhara, uma coedição Ateliê Editorial e Editora Mnêma.

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(O livro estará disponível em 08/11/2021)

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Leia abaixo um trecho da introdução da obra:

O gênero elegíaco e sua terminologia


Este livro trata do alvorecer do gênero denominado “elegia” no Ocidente, na Grécia arcaica, período cujo início é colocado no século VIII a.C., e o término, na conclusão das guerras entre gregos e persas, em 479 a.C., cujo último confronto se deu na Batalha de Plateia. A elegia, de que hoje restam fragmentos – alguns com aparência de completude, se não completos de fato –, foi um dos gêneros poéticos mais cultivados na Grécia e em Roma, em cada lugar tendo assumido características bem particulares.


Modernamente, no entanto, por “elegia” entendemos um subgênero da poesia lírica regulado por uma especialização do conteúdo: em geral, poesia de tema triste, amiúde dada à lamentação fúnebre e às reflexões melancólicas. Carlos Drummond de Andrade, por exemplo, em seu poema “Elegia 1938”, mostra um “eu” que pratica atos sem sentido e professa sua inadequação e insignificância diante de um novo concerto social e econômico que se desenhava então, matando individualidades e anulando a possibilidade de qualquer vínculo com o mundo. Ainda que inove no conteúdo, o poeta brasileiro lida com a expectativa do seu leitor quanto a um gênero consagrado – chamar a seu poema “elegia” é antecipar o caráter melancólico, lamentoso e, até mesmo, fúnebre dos versos:


[…]

Amas a noite pelo poder de aniquilamento que encerra

e sabes que, dormindo, os problemas te dispensam de morrer.

Mas o terrível despertar prova a existência da Grande Máquina

e te repõe, pequenino, em face de indecifráveis palmeiras.


Entretanto, a elegia tinha na Grécia certa autonomia em relação aos demais gêneros dito “líricos” na nomenclatura moderna, e nem sempre foi entendida univocamente no correr dos tempos, tendo passado por diversos desenvolvimentos até chegar à sua feição atual. A complexidade e longevidade da elegia fizeram dela o objeto de interesse de pesquisadores das mais diversas áreas: da teoria poética, da história literária, da crítica filológica e da literatura comparada.


Pode-se afirmar que duas tradições florescem concomitantemente para a explicação do termo “elegia” no Ocidente: uma entende o vocábulo em conotação substantiva, definindo um gênero poético que viria a ser conceituado e especializado no âmbito das letras latinas e desenvolvido na literatura europeia. Paralelamente, outra tradição entende a elegia em sentido adjetivo: é elegíaco o discurso de índole reflexiva, nostálgica e emotiva. Com essa adjetivação, “elegíaco” definirá um tipo específico de elocução, de sentimento ou de situação, e passará a integrar o rol de subgêneros líricos.

Elegia Grega Arcaica: Uma Antologia apresenta o que para nós é o alvorecer desta tradição poética, cuja recepção até hoje se estende, e os seus principais poetas, no original e em rigorosas traduções de Rafael Brunhara e Giuliana Ragusa. Acompanham-nas textos introdutórios, bem como alentados comentários sobre as nuances poéticas do original e o contexto histórico, linguístico e cultural subjacente a cada poema – esforço raro em antologias deste tipo –, num convite tanto ao leitor contemporâneo de poesia, quanto ao estudante que se inicia nos estudos clássicos.

Das elegias da Grécia Arcaica (sécs. VIII – V a.C.) ouvimos, entre outras, as vozes de Sólon, criticando os excessos das oligarquias e pavimentando a trilha à democracia; de Tirteu, Calino e Simônides, enaltecendo homens comuns ao status de guerreiros épicos; de Arquíloco, dizendo que melhor do que ser épico é estar vivo; de Mimnermo, celebrando o mundo de Afrodite e seus prazeres; de Teógnis, mostrando as alianças, traições e afetos que agitam um mundo em transformação. Como gênero poético destacadamente versátil, a elegia nos permite conhecer os mais variados aspectos da existência do indivíduo na pólis.

Giuliana Ragusa e Rafael Brunhara são autores da obra ‘Elegia Grega Arcaica: Uma Antologia’

Começou a PRÉ-VENDA da obra Elegia Grega Arcaica: Uma Antologia, de Giuliana Ragusa e Rafael Brunhara, uma coedição Ateliê Editorial e Editora Mnêma.

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(O livro estará disponível em 08/11/2021)
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CONHEÇA OS AUTORES

Giuliana Ragusa

Giuliana Ragusa é Professora Associada (Livre-Docente) de Língua e Literatura Grega na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (DLCV) da Universidade de São Paulo, onde ingressou como docente em 2004, e foi aluna de graduação e de pós (1995-2008). Fez estágio de doutorado (Capes, 2006-2007) e pós-doutorado (Fapesp, 2012-2013) nos EUA (University of Wisconsin, Madison). Tem publicado trabalhos científicos e de divulgação científica continuamente. Dos livros, destacam-se ‘Fragmentos de uma deusa’ (Editora da Unicamp, 2005, apoio Fapesp, Prêmio Jabuti 2006, Teoria/Crítica Literária), ‘Lira, mito e erotismo’ (Editora da Unicamp, 2010, apoio Fapesp, Prêmio Capes – Menção Honrosa, 2009), ‘Lira grega: antologia de poesia arcaica’ (Hedra, 2013), e a 2ª edição revista, atualizada e ampliada, bilíngue, ‘Safo de Lesbos. Hino a Afrodite e outros poemas’ (Hedra, 2021). Integrante do PPG-Letras Clássicas, tem orientado trabalhos de iniciação científica, mestrado e doutorado, centrados na poesia grega arcaica e clássica. E tem se interessado pela recepção dos clássicos, mais recentemente.

Rafael Brunhara

Rafael Brunhara é Professor Adjunto de Língua e Literatura Grega na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, onde atua desde 2013. É Bacharel (2010), mestre (2012) e doutor (2017) em Letras Clássicas pela Universidade de São Paulo. É autor de ‘As Elegias de Tirteu’ (2014) e de diversos artigos científicos e trabalhos de divulgação em poesia grega antiga.

PRÉ-VENDA da obra ‘Elegia Grega Arcaica: Uma Antologia’, de Giuliana Ragusa e Rafael Brunhara, coedição Ateliê e Mnêma

Capa do livro

Começou a PRÉ-VENDA da obra Elegia Grega Arcaica: Uma Antologia, de Giuliana Ragusa e Rafael Brunhara, uma coedição Ateliê Editorial e Editora Mnêma.

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Elegia Grega Arcaica: Uma Antologia apresenta o que para nós é o alvorecer desta tradição poética, cuja recepção até hoje se estende, e os seus principais poetas, no original e em rigorosas traduções de Rafael Brunhara e Giuliana Ragusa. Acompanham-nas textos introdutórios, bem como alentados comentários sobre as nuances poéticas do original e o contexto histórico, linguístico e cultural subjacente a cada poema – esforço raro em antologias deste tipo –, num convite tanto ao leitor contemporâneo de poesia, quanto ao estudante que se inicia nos estudos clássicos.

Das elegias da Grécia Arcaica (sécs. VIII – V a.C.) ouvimos, entre outras, as vozes de Sólon, criticando os excessos das oligarquias e pavimentando a trilha à democracia; de Tirteu, Calino e Simônides, enaltecendo homens comuns ao status de guerreiros épicos; de Arquíloco, dizendo que melhor do que ser épico é estar vivo; de Mimnermo, celebrando o mundo de Afrodite e seus prazeres; de Teógnis, mostrando as alianças, traições e afetos que agitam um mundo em transformação. Como gênero poético destacadamente versátil, a elegia nos permite conhecer os mais variados aspectos da existência do indivíduo na pólis.

AUTORES

Giuliana Ragusa é Professora Associada (Livre-Docente) de Língua e Literatura Grega na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (DLCV) da Universidade de São Paulo, onde ingressou como docente em 2004, e foi aluna de graduação e de pós (1995-2008). Fez estágio de doutorado (Capes, 2006-2007) e pós-doutorado (Fapesp, 2012-2013) nos EUA (University of Wisconsin, Madison). Tem publicado trabalhos científicos e de divulgação científica continuamente. Dos livros, destacam-se Fragmentos de uma deusa (Editora da Unicamp, 2005, apoio Fapesp, Prêmio Jabuti 2006, Teoria/Crítica Literária), Lira, mito e erotismo (Editora da Unicamp, 2010, apoio Fapesp, Prêmio Capes – Menção Honrosa, 2009), Lira grega: antologia de poesia arcaica (Hedra, 2013), e a 2ª edição revista, atualizada e ampliada, bilíngue, Safo de Lesbos. Hino a Afrodite e outros poemas (Hedra, 2021). Integrante do PPG-Letras Clássicas, tem orientado trabalhos de iniciação científica, mestrado e doutorado, centrados na poesia grega arcaica e clássica. E tem se interessado pela recepção dos clássicos, mais recentemente.

Rafael Brunhara é Professor Adjunto de Língua e Literatura Grega na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, onde atua desde 2013. É Bacharel (2010), mestre (2012) e doutor (2017) em Letras Clássicas pela Universidade de São Paulo. É autor de As Elegias de Tirteu (2014) e de diversos artigos científicos e trabalhos de divulgação em poesia grega antiga.

Trecho da obra ‘Crise em Crise’, de Paulo Franchetti, sobre ‘A Máquina do Mundo Repensada’, de Haroldo de Campos

Haroldo de Campos

O poema a máquina do mundo repensada tem três partes, sendo composto em versos decassílabos dispostos em terça-rima. A primeira parte retoma a representação da “máquina do mundo” em Dante, Camões e Drummond. A segunda expõe os desenvolvimentos da física e da cosmologia moderna (Galileu, Newton, Einstein e Poincaré), que permitiriam superar o modelo ptolomaico presente na construção metafórica daqueles poetas. Na terceira, que tem cerca de metade da extensão total do poema, o poeta propõe erguer-se à contemplação do universo concebido segundo a teoria do Big-Bang.


A forma estrófica, a divisão ternária, a emulação dos modelos e a vontade de apresentar uma visão totalizadora do mundo mostram que o poema é de matriz épica e que A Divina Comédia é sua referência principal. Como a Comédia, este poema se abre no momento do desvio da estrada estreita. Mas, enquanto Dante a perde sem perceber e o seu poema é o relato do périplo necessário à sua reconquista, o poeta de A Máquina, que confessa ser agnóstico e se declara presa da acídia generalizada no fim do milênio, quer voluntariamente extraviar-se da senda monótona do seu tempo, invejando, como antídotos, o perigo e a oportunidade de heroísmo que reconhece no universo de Dante e de Camões. (trecho do texto “Funções e Disfunções da Máquina do Mundo”, de Paulo Franchetti, publicado no livro ‘Crise em Crise: notas sobre a poesia concreta e crítica no Brasil Contemporâneo).

Confira mais sobre a obra no site da Ateliê Editorial.

“Aproveitei o resto do último dia para vagar outra vez pelo deserto” – Leia um trecho da obra ‘A Mão do Deserto’, de Paulo Franchetti

Estrada do deserto do Atacama (Foto de Paulo Franchetti)

“Ao planejar a viagem, eu só tinha desejado uma coisa: ficar sozinho, com a minha moto, a maior parte do tempo”. Este foi o mote de Paulo Franchetti e que deu origem ao livro A Mão do Deserto, publicado pela Ateliê Editorial. De forma literária e de um relato preciso desde o planejamento da viagem, passando pelo trajeto de 11 mil quilômetros, até o final da jornada, o autor nos leva junto na garupa em uma narrativa imersiva e emocional, colaborando para um itinerário de espaço e tempo, do humano e máquina, da imensidão da paisagem da América do Sul, de um estrangeiro em busca de um desafio a duas rodas. Confira mais sobre a obra no site da Ateliê Editorial (Clique aqui).

Estrada do Andes (Foto de Paulo Franchetti)

Leia um trecho da obra:

Aproveitei o resto do último dia para vagar outra vez pelo deserto. Quando era jovem, dediquei-me por algum tempo à prática da meditação. O que então me ensinaram era que eu precisava esvaziar a mente. Parar o pensamento, concentrar-me na respiração. O mais perto que cheguei desse objetivo foi pela redução da consciência ao ruído do ar entrando e saindo dos pulmões. Ou entoando o mesmo mantra monótono, tornado automático pela repetição continuada. Mesmo assim, nos estágios iniciais, muitas frases surgiram sem que eu soubesse de onde. Fragmentos de conversas de outras pessoas, talvez ouvidos e guardados ao longo de um dia desatento, e o tormento da livre associação, quando palavras indesejadas apontavam para algo que não parecia inteiramente visível. Quem fala?, era uma pergunta que surgia, mas que eu tinha de evitar. Depois, ultrapassado esse portal de teste, reinava solitário o vaivém do ar no seu trajeto das narinas aos pulmões. Até ser interrompido por um descuido, uma intromissão indesejada de alguma lembrança ou preocupação. Então era preciso recomeçar.

Andar de moto me pareceu uma experiência mais próxima do que eu tinha vivido na meditação. O ruído do motor embala o pensamento e o faz finalmente dormitar. Então somente o ouvido desperto o segue, a mão o estimula e controla, a voz interior o imita. Sobrevém depois um equilíbrio estranho entre quietação e movimento, olhar externo e introspecção, e por instantes mais longos ou mais curtos nunca se sabe ao certo, apaga-se a conversa interior.

Na Mão do Deserto (Foto de Paulo Franchetti)

Na obra, Franchetti aborda a sua aventura solitária, sobre uma motocicleta, até o Atacama, além de ser uma vontade própria de desbravar, também, o deserto íntimo. “Eu tinha idealizado a viagem para que fosse também (ou principalmente) uma viagem interior”, o que prova que não é apenas um livro de viagem, mas a evocação das memórias junto às instigações que despertam as histórias de um motociclista entre as maravilhas das paisagens aos reveses enfrentados na viagem.

Na Mão do Deserto (Foto de Paulo Franchetti)

A Mão do Deserto é um livro GPS com destino traçado, mas de percursos vislumbrantes de um amante da literatura e da motocicleta. O leitor é conduzido com celeridade narrativa, mas nunca ultrapassando a boa leitura, entrando de vez na história, viajando pelos lugares monumentais, conhecendo personagens memoráveis e relatos emotivos, combinando, enfim, um ponto de encontro com o autor.

Na Mão do Deserto (Foto de Paulo Franchetti)

O AUTOR

Paulo Franchetti foi professor titular no Departamento de Teoria Literária da Unicamp e presidente da editora da mesma universidade por muitos anos. Publicou pela Ateliê Editorial os livros de estudos literários: Estudos de Literatura Brasileira e Portuguesa e Crise em Crise – Notas sobre Poesia e Crítica no Brasil Contemporâneo. Publicou também o livro de ficção O Sangue dos Dias Transparentes e A Mão do Deserto (memória de viagem), além dos livros de poesia: Deste Lugar,  Memória Futura, ente outros. Seu livro de haicais, Oeste, representa uma das mais admiráveis experiências na recente poesia brasileira. Para a coleção Clássicos Ateliê organizou também O Primo Basílio, Dom Casmurro, Iracema, O Cortiço, A Cidade e as Serras, Clepsidra e Esaú e Jacó.

Paulo Franchetti

Leia um trecho da obra ‘Em Busca do Paraíso Perdido: As Utopias Medievais’, de Hilário Franco Júnior

Leia um trecho da obra Em Busca do Paraíso Perdido: As Utopias Medievais, do premiado historiador Hilário Franco Júnior, publicado em parceria da Ateliê Editorial com a Editora Mnêma. A venda é exclusiva pelo site da Editora Mnêma, com desconto: de R$180,00 》》》Por R$99,00 (envio a partir de 30/10).

ACESSE AQUI

Leia abaixo um trecho:

Também nas relações de gênero manifestava-se o desejo cátaro de igualitarismo. Enquanto o catolicismo interditava o sacerdócio às mulheres argumentando que sua impureza impede o contato com o sagrado, o catarismo pensava de forma diferente. Aceitava ministras mulheres por considerar que elas estavam tomadas pelo Espírito Santo tanto quanto seus colegas masculinos, de maneira que podiam administrar o sacramento da seita (consolament ou consolamentum) e ser objeto do melioramentum (três reverências ou genuflexões que os crentes realizavam diante dos ministros exatamente para venerar o Espírito Santo que neles se encontrava). Em função disso parece ter sido alta a proporção de “boas mulheres”, o que leva um estudo a concluir que a heresia cumpria papel de “nivelamento social”.

A crença cátara na metempsicose, observa René Nelli, também foi importante para tanto: porque a alma podia migrar de um homem para uma mulher e vice-versa, ficavam anuladas “as desigualdades postuladas pela misoginia”; porque a alma podia migrar de um nobre para um camponês e vice-versa, isso esvaziava “toda superioridade de nascimento” e “arruinava a noção de hereditariedade”33. A alma podia mesmo passar de corpo humano para corpo animal, ficando nessa condição mais afastada da salvação, já que somente humanos podem receber o batismo de fogo (isto é, do Espírito Santo) que salva, o consolament. Como quer que seja, o certo é que os cátaros aceitavam a existência da igualdade natural entre os humanos, vendo na conduta de alguns mandando em outros o resultado da intervenção de Lúcifer, criador de reis, condes e imperadores.

O LIVRO

Desde meados do século passado ampliaram-se muitos nossos conhecimentos sobre a Idade Média, na qual se reconhece a matriz da civilização ocidental cristã. Mas ainda subsistem múltiplas facetas interessantes a explorar, uma delas a produção utópica da época, que a historiografia tende a negar.

De um lado, argumenta-se não ser possível falar em utopia antes de Tomás More ter criado a palavra, no começo do século XVI. De outro lado, afirma-se que as pessoas da Idade Média pensavam demais na perfeição do Além para poderem imaginar uma sociedade perfeita nesta vida.

O livro que o leitor terá em mãos mostra, contudo, com refinamento conceitual e erudição, que houve várias utopias na Idade Média, cuja compreensão ajuda a lançar luz sobre não poucos aspectos do Ocidente atual.

O AUTOR

HILÁRIO FRANCO JÚNIOR é professor de pós-graduação de história social na Universidade de São Paulo. Obteve o pós-doutorado em história medieval na École des Hautes Études en Sciences Sociales, na França. Recebeu dois prêmios Jabuti. Tem diversos livros publicados, sempre focando temas medievais. Publicou pela Ateliê Dante – O Poeta do Absoluto e Cocanha – Várias Faces de uma Utopia.