Renata Albuquerque

“A Cidade e As Serras”, de Eça de Queirós

A Cidade e As Serras é um livro póstumo de Eça de Queirós: foi lançado em 1901, após a morte do escritor. É um dos mais importantes títulos do autor português, inclusive do ponto de vista do exercício estético. Pode até ser classificado como pós-realista, já que combina aspectos realistas, impressionistas e expressionistas, por exemplo. O romance questiona os valores da sociedade urbana portuguesa (como já acontecera antes em outros romances de Eça, como A Ilustre Casa de Ramires) e fala sobre o impacto do capitalismo nessa sociedade. Ainda assim, se tomarmos por base outros romances do autor, como O Primo Basílio, percebe-se uma certa reconciliação com alguns valores da sociedade portuguesa, fortemente combatidos em outras obras.

Como o próprio título denuncia, A Cidade e As Serras – baseado no conto Civilização, escrito por Eça em 1892 –, fala da dicotomia entre campo e cidade, tendo como ponto de partida a história do abastado francês Jacinto de Tormes, contada por seu amigo, o narrador (português) Zé Fernandes. Jacinto mora em uma mansão, com telégrafo, telefone, elevador e outros aparelhos muito tecnológicos para o cenário do início do século XX. Ele recebe em sua casa o amigo Zé Fernandes, que vem rever o amigo depois de um longo intervalo de tempo.  

Esse é um romance especular. Ou seja, tudo na estrutura do romance é de certa forma, espelhado, a começar pelo número da propriedade do protagonista: 202. Mas o espelhamento se espalha pela obra, na comparação entre campo e cidade; na lembrança de juventude em comparação ao momento presente, por exemplo.

A tecnologia e a modernidade são aspectos importantes para Jacinto. “A felicidade dos indivíduos, como a das nações, se realiza pelo ilimitado desenvolvimento da mecânica e da erudição”, afirma. Ele cria, na juventude, uma espécie de equação (que também pode ser um elemento lido como especular), segundo a qual

“Suma Ciência X Suma Potência = Suma Felicidade”.

Este preceito irá guiar a narrativa de A Cidade e as Serras.

Enredo

Eça de Queirós

Quando chega a Paris para visitar Jacinto, Zé Fernandes acaba por se inebriar pela cidade e sua atmosfera. Apaixona-se pela prostituta Madame Colombe, tornando-se um “selvagem” e contrariando a teoria de Jacinto de que esta seria uma característica do homem do campo. Vários são os episódios do romance que tentam desmontar a teoria de Jacinto – um alerta para que o leitor a veja de maneira crítica. Um exemplo disso é a solidão e a frágil saúde de Jacinto – a despeito do fato de que ele esteja morando na cidade mais desenvolvida de então, com acesso à medicina e às melhores condições de tratamentos de saúde.  

Durante a visita de Zé Fernandes, Jacinto precisa voltar a Tormes, para tratar dos danos ocorridos em uma propriedade sua. Esse retorno ajuda a melhorar o quadro de frágil saúde do protagonista. Mas aqui também Eça de Queirós coloca críticas em seu romance. A vida no campo não é apenas bucólica e perfeita. O leitor se depara com cenas de pobreza e dificuldades dos camponeses.

Em Tormes, Jacinto encontra Joaninha, prima de Zé Fernandes, com quem se casa. Ao mostrar que Jacinto encontra a “suma felicidade” longe da cidade, Zé Fernandes conclui que a tecnologia nem sempre é a razão da felicidade.

“Entreatos”: monólogos de inspiração fantástica

Marcelo Castel Cid já escreveu um romance chamado Os Unicórnios e organizou a Antologia Fantástica da Literatura Antiga. De certa forma, sua literatura flerta com o fantástico. Agora, ele lança Entreatos, em que bebe nessa fonte para criar monólogos inventados para personagens bíblicas que marcam presença no Livro dos Atos dos Apóstolos. A seguir, ele fala sobre seu novo livro para o Blog da Ateliê:

Como surgiu a ideia de escrever Entreatos?

Marcelo Castel Cid: Surgiu à primeira leitura do Novo Testamento, há muitos anos. O Livro dos Atos me impressionou particularmente, já naquela época.

Qual a origem de seu interesse pelo Livro dos Atos dos Apóstolos?

MCC: Não sei se essa informação é tão relevante, mas digo mesmo assim: não sou uma pessoa religiosa. Meu interesse pelos Atos se deu por seu valor literário e humano. Lendo a história dos primeiros cristãos, eu me pegava fascinado pela maneira como um obscuro culto oriental foi ganhando corações e mentes tão rapidamente, e em dois meios culturais muito diversos – entre os judeus monoteístas e entre os gregos e romanos politeístas. E isso aconteceu de uma maneira definitiva, como sabemos, uma vez que muitos, logo depois da conversão, já estavam dispostos a dar a vida pela nova religião. Isso em si é muito misterioso. Por mais que haja mal-entendidos ou ficção nos Atos, ter a certeza, como temos, de que tantos enfrentaram o martírio para testemunhar a verdade que sentiam nas palavras de um homem “do povo”, que seria também divino, torna a leitura uma experiência tocante.

 O seu conhecimento prévio da Bíblia – e do Livro dos Atos dos Apóstolos – foi “suficiente” para escrever Entreatos ou foi necessário voltar a essa parte da Bíblia para compor sua obra? Como se deu esse processo?

 MCC: Eu escrevi meus relatos com o livros dos Atos sempre à minha frente, mas não só. Li outros livros de história bíblica e cultural, além, é claro, de misturar várias narrativas numa só. Por exemplo, meu Dionísio Areopagita é uma mistura do relato bíblico com os textos de e sobre o Pseudo-Dionísio Areopagita, um místico do século V ou VI. Historicamente, não podem ser a mesma pessoa, mas literariamente é um recurso interessante misturar essas histórias.

Marcelo Castel Cid

No Prólogo, você escreve: “Claro, seria possível contar uma ou outra história com maior liberdade, usando a narrativa bíblica apenas como ponto de partida para outras divagações (como alguns autores já fizeram – por exemplo, Danilo Kis em maravilhosa narrativa sobre Simão Mago) – mas isso levaria “a intenção do texto” ao outro extremo – divergir da fonte, o que não é, por si só, um bom empreendimento literário”. Pode, por gentileza, explicar esse trecho ao leitor?

MCC: Com isso eu quis dizer que, na maior parte, segui o arco narrativo da Bíblia. Não quis contar uma “história alternativa”, como um daqueles livros ou filmes que imaginam “o que teria acontecido se…”. Acho o texto dos Atos muito literário por si só – a conversão de Paulo, por exemplo, é tão incrível que só pode ser real, miticamente real, pelo menos, mas sabemos que também historicamente…

Sei que muitos autores poderiam escrever boas histórias imaginando Paulo desistindo de tudo ainda no caminho de Damasco, e chegando a morrer um velho judeu ortodoxo, rememorando a história de Jesus – que poderia ter acabado já nesses primeiros anos, se ele não tivesse se tornado um apóstolo da fé que antes perseguia. Enfim, eu quis escrever “entre as linhas” do texto bíblico, não contra elas, especificamente.

Quão desafiador foi o processo de composição de Entreatos?

MCC: A escrita em si foi rápida, mas cada texto apresentou uma dificuldade específica. Acho que o texto mais difícil de escrever, e com o qual eu fiquei menos satisfeito, foi o do centurião Cornélio – simplesmente porque eu não consigo entender como e por que um centurião romano arriscaria tudo para abraçar uma obscura seita judaica do primeiro século. Acho que ninguém consegue entender isso, na verdade… No entanto, sabemos que isso aconteceu, tanto que em poucas gerações o cristianismo se tornou a religião oficial do Império Romano.

Os personagens enfocados em Entreatos não são personagens “célebres” para o grande público. Essa escolha se deu com que finalidade?

MCC: As histórias dos Atos são boas, quase todas elas. Acho que o grande público conhece as principais, as de Pedro e Paulo, por exemplo. Várias personagens aparecem em cenas muito curtas, apesar de memoráveis, que outro autor poderia desenvolver em contos ou mesmo num romance. Eu escolhi aquelas que tinham algum desenvolvimento dramático mais ou menos completo, seja no texto bíblico, seja pela tradição.  Por exemplo, isso não está dito nos Atos, mas sabemos que o procônsul Lúcio Gálio (que na Bíblia tem uma atitude de indiferença com os cristãos) era irmão do filósofo Sêneca – o que abre várias possibilidades narrativas. Teria ele inveja do irmão? Seria ele também próximo ao imperador Nero? Seria ele também meio filósofo, meio estoico, e por isso propenso ao cristianismo? Aliás, os antigos cristãos achavam que o próprio Sêneca poderia ter sido cristão, até sobrevivem algumas cartas (naturalmente apócrifas) que ele teria trocado com o apóstolo Paulo.

Conheça a obra de Marcelo Castel Cid

Thelma Guedes, poeta, contista e autora de novelas

A literatura faz parte da minha vida desde que me entendo por gente”, diz Thelma Guedes. Nascida no Rio de Janeiro, foi em São Paulo que ela cursou Letras, na USP. E lá também cursou o Mestrado, cujo ponto de partida foi o primeiro livro da escritora Pagu (Patricia Galvão), Parque Industrial. Do Mestrado nasceu Pagu, Literatura e Revolução, em 2003.

Um ano antes, porém, Thelma havia encontrado Walcyr Carrasco, autor da Globo com quem colaborou em diversos projetos, como O Sítio do Picapau Amarelo e nas novelas Esperança e Chocolate Com Pimenta. Em 2006, Thelma inicia sua parceria com Duca Rachid, com quem escreveu novelas emocionantes como Joia Rara e Cordel Encantado, que receberam variados prêmios.

Agora, Thelma Guedes estreia, também em parceria com Duca Rachid, Órfãos da Terra, nova novela das seis da Rede Globo. Mas, nestas mais de duas décadas de história, ainda houve tempo para que ela escrevesse também contos e poesia. A Ateliê Editorial tem muito orgulho ter, em seu catálogo, três dos livros de Thelma Guedes, uma autora múltipla, que cria para a TV, faz poesia e escreve contos. Tudo com uma maestria ímpar.

Conheça, a seguir, alguns livros de Thelma Guedes, autora de Órfãos da Terra:  

Pagu, Literatura e Revolução

Este livro analisa as dimensões estéticas e políticas de Parque Industrial, romance de Patrícia Galvão (Pagu) publicado no início dos anos 1930. Na época, a obra foi rejeitada pelos intelectuais, inclusive os de esquerda. Ainda hoje, ela é relegada pela crítica e pela historiografia literária a um papel secundário dentro do modernismo brasileiro. Com sensibilidade e conhecimento de causa, a autora deste ensaio recupera os méritos desse romance proletário e aquilo que, nele, permanece atual.

Novelas, Espelhos e um Pouco de Choro

Um livro sobre a televisão, essa caixinha de mistérios que conquistou lares de todo o Brasil. Os autores dos contos aqui reunidos são roteiristas da Rede Globo. Cada um aborda um aspecto do tema, com estilo próprio e determinado ângulo de visão. O que dá unidade ao conjunto é a identificação com o leitor: todos os textos tratam de histórias que assistimos ou de que ouvimos falar. Todas elas nos pertencem porque, de alguma maneira, participamos delas. O prefácio é de Gilberto Braga.

Cidadela Ardente

Os dezenove contos que compõem o primeiro livro de Thelma Guedes são flagrantes do dia a dia, recortes de momentos decisivos e situações-limite. Os temas fundantes da sensibilidade humana – desejo, medo, solidão e morte – são a matéria literária essencial da autora. Mais do que estopins do sofrimento, eles são tratados aqui como processos desintegradores da própria consciência. É o que faz desta obra uma experiência perturbadora, que leva o leitor a um percurso de inquietações e perplexidades.

“Fascinação”: do teatro ao livro, quase 30 anos depois

Flavio de Souza é muito conhecido por seu trabalho para crianças, como “Rá-Tim-Bum” e “Mundo da Lua”. Ele também foi roteirista de programas de humor como “Sai de Baixo”. Já Luci Collin é poeta, ficcionista e tradutora. O encontro entre os dois poderia parecer inusitado à primeira vista, mas foi esse encontro que gerou Fascinação, volume em coedição Kotter e Ateliê Editorial, que traz para o registro do livro o texto que foi sucesso nos palcos brasileiros nos anos 1990. Mas não se trata de uma simples transposição. O trabalho de Flavio e Luci ampliou o texto original, criando para o leitor uma experiência diferente daquela vista pelo espectador no teatro. O Blog da Ateliê falou com os autores sobre Fascinação. Como eles mesmos explicam, no livro, é difícil reconhecer as contribuições individuais. Por isso, eles falam em conjunto ao Blog:

Fascinação: peça ou livro?

Fascinação foi montada nos anos 90 em São Paulo. Desde então, Flavio tinha a ideia de fazer um livro com a mesma história, e sempre teve vontade de fazer essa nova versão com uma escritora. Foi só no século seguinte, quando se mudou para Curitiba, que encontrou a pessoa ideal para ter como partner nesta empreitada. Foi na capital paranaense que eles se conheceram.

Quis o destino que eles se encontrassem num palco, durante um evento literário logo após o carnaval de 2017, e que Luci fosse justamente a pessoa escolhida para fazer uma pergunta para Flavio, logo após os cinco escritores participantes terem lido um trecho de uma de suas obras. Assim que Luci leu um conto escrito por ela, Flavio soube que tinha achado a escritora que procurava desde 1994.

O livro foi escrito a quatro. Além de expandir tanto em quantidade de palavras quanto em profundidade, a história começa semelhante e antes do fim do primeiro terço, se distancia da original.

O humor de Fascinação

O texto da peça já tinha humor, que foi aproveitado com grande eficiência por Marisa Orth, a atriz que estrelou a montagem. Como foi feita por dois escritores que têm o humor presente em quase tudo que escrevem, a transposição foi inevitável. Cada frase divertida escrita por um foi completada, emendada, melhorada, exatificada pelo outro, em sucessivas idas e vindas do pingue-pongue que foi a escrita deste livro.

O convite inicial para Luci foi que ela escrevesse a “correnteza de consciência” que na peça aparecia como um texto em off, gravado pela atriz, que eram trechos de anotações em um diário. Esses pequenos trechos seriam expandidos e mostrariam o pensamento essencialmente feminino. Esse plano inicial foi abandonado logo no início. Flavio escreveu pedaços da narração da atriz e Luci escreveu diálogos entre a atriz e seu marido, além de pensamentos do marido e do outro personagem masculino, num abandono do plano para a feitura do livro e uma mistura completa, desapegada e abusada de raciocínios, ideias, parágrafos, frases, palavras, já que, além de incluir palavras, frases e parágrafos, cada um eliminava palavras, frases, parágrafos de trechos escritos pelo outro sem nenhuma cerimônia e, surpreendentemente, por tratar-se de dois escritores, esses cortes não causavam indignação.

O resultado é que a maior parte das frases são colagens feitas aos poucos de palavras escritas pela Luci e pelo Flavio, e nenhum dos dois pode reconhecer com certeza todas as suas contribuições.

Flavio e Luci: escrita a quatro mãos

Atualidade do texto

Fascinação foi escrita ainda nos anos 1980. Mas o assunto continua atual. Há “piadas” sobre assédio que não “estavam na moda” nos anos 80, mas os relacionamentos não mudaram quase nada desde então, aliás, desde que Eva e Adão se encontraram pela primeira vez.

A parte inicial da trama é a mesma. Uma grande dama do teatro e da televisão brasileira acorda uma noite e se vê raptada… ou não…

Remontagem nos palcos

Por enquanto, não há nenhum plano de levar fascinação novamente aos palcos. Mas se acontecer, com certeza será uma nova versão, muito melhor que a montada em 1994.

Conheça outras obras publicadas pela Ateliê

Octávio Brandão: pioneiro marxista no Brasil

Octávio Brandão é um nome muito conhecido dos pesquisadores brasileiros que se debruçam sobre a política do início do século XX. Comunista de primeira hora, o intelectual alagoano foi ativista e militante, sendo pioneiro na difusão do marxismo no Brasil. Ele escreveu obras importantes – mas pouco lidas – como Agrarismo e Industrialismo, Canais e Lagoas, Veda do Mundo Novo e Rússia Proletária. Em Octávio Brandão e as Matrizes Intelectuais do Marxismo no Brasil, Felipe Castilho de Lacerda vai além da biografia do alagoano e traz ao público um estudo sobre a obra desse intelectual. A seguir, Lacerda fala sobre seu novo livro ao Blog da Ateliê:

Qual a importância de Octávio Brandão para a história política do Brasil?

Felipe Castilho de Lacerda: Octávio Brandão tem uma grande importância, em primeiro lugar, por ter feito parte do primeiro grupo dirigente do Partido Comunista do Brasil, fundado em 25 de março de 1922 – mesmo que esse primeiro grupo dirigente considerasse, por vezes, a data fundacional do partido o dia 7 de novembro de 1921, quando se fundou o Grupo Comunista do Rio de Janeiro, que alimentou a ideia de fundar o Partido Comunista alguns meses mais tarde. Esse fato é essencial, porque o Partido Comunista foi a agremiação mais longeva da história do país, tendo papel fundamental na cultura, na política e na formação intelectual do Brasil. Octávio Brandão também exerceu um papel de destaque por ter redigido e publicado aquela que é considerada a primeira interpretação marxista da realidade brasileira, o livro Agrarismo e Industrialismo – ainda que eu reforce em meu trabalho que o mesmo autor já esboçara uma tentativa de interpretação dessa mesma realidade em um livro anterior, publicado em 1924, intitulado Rússia Proletária. De toda forma, essa questão também é capital, e isso por dois motivos. Em primeiro lugar, porque o ideólogo do PCB tornou-se o iniciador brasileiro de uma grande cultura de pensamento, que foi o marxismo, ou melhor, os diversos marxismos que fincaram raiz na tradição intelectual brasileira. Em segundo lugar porque, a partir dos contatos de Octávio Brandão e de seus correligionários de partido – principalmente figuras como Astrojildo Pereira, Paulo e Fernando de Lacerda, Rodolfo Coutinho, Antonio Bernardo Canellas, Everardo Dias, entre outros –, com a direção da Internacional Comunista, ele se colocou a tarefa de produzir uma interpretação da realidade brasileira que guiasse os passos de sua agremiação rumo à transformação social. Isso é fundamental para a história das esquerdas ao longo de todo o século XX. A importância que aquelas e aqueles militantes davam para uma relação íntima entre teoria e prática foi fundacional para a história das esquerdas, e talvez mesmo para toda a história das relações entre intelectualidade e política no século que acabamos de deixar para trás. É preciso lembrar que toda a reflexão política no Brasil dos anos 1910-1920 era baixíssima; mesmo as classes dominantes, com toda a estrutura que sempre têm à sua disposição, não fora, antes do PCB, capaz de elaborar um programa que alimentasse suas organizações; por isso mesmo os partidos na Primeira República eram todos fisiológicos e regionais, organizavam apenas grupos de interesses imediatos e não tinham produção ideológica propriamente dita. O PCB de Astrojildo Pereira e Octávio Brandão fundou uma nova cultura política no país, a qual se tornaria espécie de espelho para todas as outras agremiações, independente de sua tendência ideológica.

Felipe Castilho de Lacerda

Por que se interessou em estudar a biografia e o trabalho intelectual de Octávio Brandão?

FCL: Dois motivos que me dirigiram à trajetória de Octávio Brandão foram os principais: em primeiro lugar, eu estava ainda na graduação em História na USP e comecei a estudar o tenentismo. Em dado momento, cujo ano não me recordo mais, assisti a uma palestra do intelectual Milton Pinheiro, que citava um certo livro, escrito por um comunista alguns meses após a Revolução Paulista de 1924, que buscava interpretá-la por meio de uma tentativa de apropriação do marxismo. Tratava-se justamente da obra de Octávio Brandão, Agrarismo e Industrialismo, publicada, por fim em 1926. Pensei, é óbvio, “preciso ler esse livro!” Mais tarde, comecei a estudar História do Livro com a grande especialista nessa área, Marisa Midori Deaecto, que se tornou a minha grande mestra em todos os aspectos da carreira e da vida. A simultaneidade dos dois acontecimentos me fez pensar: “Ora, Agrarismo e Industrialismo é um livro, não é?!” E decidi, assim, entrar na história política das e dos comunistas brasileiras (os) pelos métodos indicados pela História do Livro, da Edição e da Leitura.

A partir daí, comecei a ler e ler… e me encantei com a trajetória daquele filho de Viçosa das Alagoas, que buscara escrever uma espécie de Os Sertões, de Euclides da Cunha, voltado para o espaço geográfico e social de sua terra, de onde nasceu o livro Canais e Lagoas, lançado no Rio de Janeiro em 1919. Fugido da perseguição política, Octávio Brandão desembarcou no capital federal à época, o Rio, ligou-se ao movimento anarquista, casou-se com um poeta de relativo sucesso, Laura da Fonseca e Silva, que muito jovem, participara de salões literários como o de Olavo Bilac, e publicou diversos folhetos de agitação política anarquista. O anarquismo daqueles anos é algo absolutamente instigante. Mais tarde, Octávio Brandão ligou-se ao grupo de anarquistas que aderiram à ideologia e à organização da Internacional Comunista, dedicou-se à difusão daqueles novos ideias, por meio do que chamavam agitação e propaganda, ou “agitprop” e essa foi certamente uma enorme contribuição de Octávio Brandão. O meu estudo se restringe aos anos 1920, mas em 1931, Octávio Brandão e sua esposa Laura são banidos do Brasil, junto às três filhas, passam pela Alemanha e vão viver na União Soviética, como funcionários da Internacional Comunista. Laura falece em 1942, de câncer, em meio ao esforço de guerra soviética e Octávio Brandão volta mais tarde ao Brasil. Mas o que mais me interessou mesmo foram aquelas produções ideológicas de Octávio Brandão nos anos 1920. Para as estudiosas e estudiosos do comunismo, Octávio Brandão é figura conhecida, mas a imensa maioria não leu de fato seus livros, menos ainda outras obras além de Agrarismo e Industrialismo, quando li obras como Canais e Lagoas, Veda do Mundo Novo ou Rússia Proletária, pensei: “Aqui existe muita coisa que explica o processos intelectual daquele autor que é conhecido por um livro, de escrita bastante simplista, que é Agrarismo e Industrialismo”. Por isso, imaginei que fazer esse estudo voltado para aqueles livros e a trajetória de seu autor “em perspectiva” poderia dar alguma contribuição, mesmo que modesta, para a historiografia política brasileira.

Quanto tempo demorou a pesquisa e quais foram os maiores desafios?

FCL: A pesquisa que resultou no livro Octávio Brandão e as Matrizes Intelectuais do Marxismo no Brasil, publicado pela Ateliê, é fruto de minha dissertação de mestrado, defendida no programa de História Econômica da USP, financiado pela Capes e sob a orientação da professora Marisa Midori Deaecto. Dessa forma, o grosso da pesquisa levou o tempo médio de um curso de mestrado, cerca de dois anos e meio a três anos. Deve ter levado um pouco mais, pois eu já começara antes a coleta de fontes, ainda ao longo da graduação em História, quando realizei uma pesquisa em nível de bacharelado. Talvez cerca de quatro anos. É certo que eu poderia dizer que durou muito mais, décadas mesmo, pois tudo que alguém escreve recebe o espírito da autora e do autor, seu complexo de experiências de uma vida toda.

A coleta de fontes em arquivos com o Edgard Leuenroth, da Unicamp, o Cedem, da Unesp, ou a Biblioteca Edgard Carone, do Museu Republicano Convenção de Itu, extensão do Museu Paulista da USP, e mesmo no Centro de Difusión e Investigación en las Culturas de Izquierdas (CeDInCI), em Buenos Aires, demandou bastante esforço, tempo e paciência, mas foi algo relativamente tranquilo e prazeroso, especialmente pela grande ajuda e amabilidade de todas e todos que me receberam nessas instituições. O maior desafio mesmo foi o de um jovem aprendiz em nível de mestrado aprender a pesquisar e analisar fontes, compreender como recortar e definir muito bem seu objeto, para não se perder completamente diante de uma grande quantidade de fontes coletadas e se desesperar: “O que faço agora com isso?!” Mas esse é o desafio de toda e todo investigador(a) que se inicia nas práticas acadêmicas.

Retrato de Octávio Brandão publicado em seu livro de estreia, Canais e Lagoas, de 1919. Acervo Biblioteca Florestan Fernandes da FFLCH-USP.

Octávio Brandão estudou Farmácia. De que maneira a formação acadêmica influenciou a produção intelectual dele?

FCL: A formação de Octávio Brandão foi marcante; e eu diria em duas esferas diferentes. Ele se formou na Escola de Farmácia do Recife. Não era uma instituição tradicional como a famosa Faculdade de Direito da mesma cidade. Isso significou que ele, apesar de fazer parte de um grupo social com privilégios (já que até 1930, 70% da população brasileira era analfabeta), não passou pelos espaços tradicionais de consagração da intelectualidade nacional. Formou, desse modo, parte de uma espécie de segundo escalão da intelligentsia, o que contribuiu em parte para uma carreira sem grandes reconhecimentos. Seu estudo durou três anos e a escolha foi influenciada por seus familiares (o alagoano era órfão de pai e de mãe desde criança) e possibilitou, acima de tudo, que ele provesse seu sustento com a abertura de boticas farmacêuticas tanto no Nordeste, quanto, mais tarde, no Rio de Janeiro.

Mas também se pode observar sua formação a partir do ponto de vista de outra esfera da existência, a do conteúdo mesmo de suas produções. Com seus estudos, ele se interessou pela História Natural, pela Física, pelas ciências da natureza, em resumo. Logo depois, estudou, de forma autodidata, geologia e mineralogia. Esses fatores marcam sobremaneira sua visão de mundo, seus instrumentos mentais, pois, logo em seguida, ele publicará o estudo que tenta unir “ciência e poesia”, com inspiração declarada e direta a Euclides da Cunha. Mas, o pensamento voltado para as ciências naturais continuará marcando seu pensamento mesmo mais tarde, quando se torna comunista e inicia a empreitada de “conhecer” o marxismo. Basta pensar no tipo esquemático de construção das ideias que o leva a, de Canais e Lagoas a Agrarismo e Industrialismo, conceber os processos sociais a partir do conceito de “ciclos”. Isso é marcante e constitui parcela das matrizes intelectuais de seu pensamento e, por que não?, do marxismo brasileiro em seu alvorecer.

Quais são as “matrizes intelectuais de um pensamento que se forma por camadas e em tempos sincrônicos?”, como escreve Marisa Midori Deaecto no prefácio da edição?

FCL: As principais matrizes intelectuais de Octávio Brandão, as quais, por associação, poderiam ser consideradas as próprias matrizes intelectuais do marxismo brasileiro nos albores, foram aquela espécie de “nacionalismo” em gestação, de matriz cientificista e calcada num forte regionalismo; o que apelidei a herança euclidiana. A cultura política anarquista de fins dos anos 1910 e início dos 1920, quando Octávio Brandão, imerso no movimento libertário do Rio de Janeiro, publicou uma série de pequenos folhetos de defesa do anarquismo; ali, ele constituiu uma matriz de pensamento, compartilhada, aliás, por vários de seus correligionários, que apontava para o que poderíamos chamar uma “romantismo libertário”, com forte inspiração no ideário do grupo francês Clarté, de Henri Barbusse, de negação à modernidade capitalista. Por fim, a marca de sua matriz intelectual no momento de transição da postura anarquista à comunista, foi a apropriação do ideário da Internacional Comunista, seja pelo conjunto de material propagandístico chegado da União Soviética, França, Argentina ou Uruguai – o que chamei a rede mundial de circulação de impressos comunistas –, o que explorei no primeiro capítulo do livro, seja pelo contato direto com a direção da Internacional Comunista, que trocava informações, influenciava as análises e solicitava dados para a construção de um programa para o partido. Este último é um aspecto fundamental, poucas vezes notado e que busquei esclarecer no terceiro capítulo da obra.

O que levou Brandão a militar na esquerda brasileira?

FCL: Várias explicações podem ser buscadas para o engajamento. É certo: nunca sabemos o que leva, de fato, as pessoas à militância por um ideal. Podem ser motivos da ordem da tradição familiar, aspectos éticos e morais, acasos na vida… além do mais, toda e todo memorialista, ao apresentar os caminhos percorridos na vida, encontra um ou vários momentos que marcaram sua formação. Octávio Brandão assim o faz em seu livro de memórias, Combates e Batalhas. Mas tendo a acreditar que o que une a todas e a todos que se atiram no ativismo esteja no nível dos sentimentos, pois compartilha-se, apesar das infinitas divergências no seio dos grupos e movimentos de esquerda, revolucionários, de luta contra as opressões e explorações, um ódio comum às formas de autoritarismo e injustiça que se observam ou que se vivenciam ao longo da vida, bem como um amor incondicional à justiça e à igualdade. Entre as duas coisas, a crença de que outro mundo é possível, e só é possível por meio da luta.

Qual o legado de sua produção intelectual e como ela se reflete até hoje em nosso país?

FCL: Octávio Brandão deixou uma obra que deve ser vista do ponto de vista da propaganda política. Isso mesmo antes de adentrar o Partido Comunista do Brasil. Sua obra de divulgação anarquista era bastante básica, mas muito interessante para se contar a história do anarquismo brasileiro. Acho que esse é um ponto bem interessante, pois tenho uma forte inclinação para o anarquismo e creio que ainda se pode aprender muito ao se estudar a história dessa tendência do pensamento revolucionário.

Capa de “Canais e Lagoas”

Mas sua obra de estreia, Canais e Lagoas, e também sua produção após à adesão ao comunismo também possuem importância. Naquela obra de estreia, o alagoano já falava sobre a importância do petróleo e a ação do imperialismo com vistas a colocar as mãos nas jazidas que ele julgava existirem naquele momento. Hoje, o entreguismo da elite que se apossou do governo após o golpe de 2016 e as eleições tragicômicas de um candidato (hoje presidente), que não pode abrir a boca em público, pois seus próprios aliados sabem que dali não pode sair nada de bom, voltam, uma vez mais, a entregar ao capital estrangeiro as riquezas naturais de um país cuja população parece aceitar de bom grado falsas soluções para sua miséria real.

O que podemos aprender com a obra de Octávio Brandão e como ela pode ser lida no Brasil de hoje, que elegeu Jair Bolsonaro? De que maneira a obra de Brandão nos ajuda a entender esta realidade?

FCL: Quando penso no legado ou no que se pode aprender com a obra de Octávio Brandão, creio que se deve expandir um pouco a concepção que temos de obra. Pois o que meu trabalho buscou demonstrar é que a produção intelectual de Octávio Brandão era de fato bastante básica, mas que suas características possuíam um sentido no conjunto do contexto político e intelectual do momento em que foi produzida. Assim, para além de alguns ensinamentos que podem vir da leitura de seu livros – como a caracterização de mesquinha elite colonizada de nosso país ou o papel do imperialismo em uma região que vive à sombra da posição geopolítica dos Estados Unidos da América –, sua principal contribuição foi em termos da propaganda política e do que os comunistas chamavam de agitação e propaganda. Isto é, do esforço em divulgar seus ideais e investir o sangue e o suor na formação política daquelas e daqueles que decidem, por motivos os mais diversos, lutar do seu lado da trincheira. O governo de Jair Bolsonaro, e da elite fardada que tenta guiá-lo e adestrá-lo na arte da opressão política e social, se é risível em suas manifestações no espaço público, comporta apenas um riso de canto de boca, pois se trata do conluio do que há de pior em toda a formação histórica brasileira: o entreguismo neoliberal de uma elite colonizada e o escravismo brutal das elites e classes médias, que não são capazes de ver a gente explorada e oprimida ter sequer uma migalha para confortar o estômago dolorido de fome, preferindo jogar a nação do desfiladeiro e vê-la afundar num lamaçal infinito.

Talvez a obra de Octávio Brandão, entendida nesse sentido lato, possa nos ajudar a compreender que haverá sempre mulheres e homens dispostos a se atirar contra a escravocracia brasileira de longuíssima duração, pois seu futuro pessoal, o de todo o país e, em última análise, o da humanidade, depende da destruição do parasitismo elitista.

Nesse contexto, é compreensível que, apesar da espera repressão político-ideológica que nos ameaça dia a dia, o interesse pelo marxismo venha se renovando. Nessa esteira, a curiosidade pelas matrizes intelectuais do marxismo brasileiro podem ser um item de interesse para intelectuais, estudantes, militantes e todas e todos que se interessem pelo pensamento realmente crítico. Se assim for, a obra de Octávio Brandão certamente terá lugar nas estantes dessas pessoas e poderá propiciar alguns ensinamentos.

Conheça outros livros da Ateliê Editorial sobre política

Março é mês de poesia!

Quem ama ler, lembra: março é mês da poesia. Mas você sabe por quê o terceiro mês do ano é considerado o mais poético deles? A razão é que em março são comemoradas duas datas tradicionalmente ligadas à poesia. Até 2015, no dia 14, era comemorado o Dia Nacional da Poesia. E, até hoje, o dia 21 de março é o Dia Mundial da Poesia.

Foi em 1999 que a XXX Conferência Geral da UNESCO determinou que 21 de março fosse considerado o Dia Mundial da Poesia, em uma ação para apoiar a diversidade de línguas existentes no mundo por meio da expressão poética.  Desde então, a data é celebrada pelo mundo afora.

Já o dia 14 de março é a data de aniversário de Castro Alves, poeta romântico brasileiro, nascido em 1847, muito conhecido por sua produção poética ligada a temas como o abolicionismo e crítica social, que marcaram a Terceira Geração do Romantismo Brasileiro. Para o crítico Afrânio Peixoto, ele foi “o maior poeta brasileiro, lírico e épico”, o que por si só já justificaria a escolha da data. Castro Alves escreveu, entre outros, Espumas Flutuantes, sua obra lírica mais significativa. Entretanto, em 2015, foi sancionada a Lei 13.131, que institui como 31 de outubro o Dia Nacional da Poesia, em homenagem à data de nascimento de Carlos Drummond de Andrade.

Qualquer que seja a data, entretanto, de uma coisa a gente tem certeza: poesia é fundamental para a vida. Por isso, hoje, fazemos uma seleta de poemas aqui, no Blog da Ateliê:

O “adeus” de Teresa

A vez primeira que eu fitei Teresa,

Como as plantas que arrasta a correnteza,

A valsa nos levou nos giros seus

E amamos juntos E depois na sala

“Adeus” eu disse-lhe a tremer co’a fala


E ela, corando, murmurou-me: “adeus.”

Uma noite entreabriu-se um reposteiro. . .

E da alcova saía um cavaleiro

Inda beijando uma mulher sem véus

Era eu Era a pálida Teresa!

“Adeus” lhe disse conservando-a presa


E ela entre beijos murmurou-me: “adeus!”



Passaram tempos sec’los de delírio

Prazeres divinais gozos do Empíreo

… Mas um dia volvi aos lares meus.

Partindo eu disse – “Voltarei! descansa!. . . “

Ela, chorando mais que uma criança,



Ela em soluços murmurou-me: “adeus!”


Quando voltei era o palácio em festa!

E a voz d’Ela e de um homem lá na orquesta

Preenchiam de amor o azul dos céus.

Entrei! Ela me olhou branca surpresa!

Foi a última vez que eu vi Teresa!


E ela arquejando murmurou-me: “adeus!”

Castro Alves, Espumas Flutuantes

Livro Viva Vaia

DIÁLOGO A DOIS

“A Angústia, Augusto, esse leão de areia…”

(Décio Pignatari)

– A Angústia, Augusto, esse leão de areia Que se abebera em tuas mãos de tuas mãos E que desdenha a fronte que lhe ofertas

(Em tuas mãos de tuas mãos por tuas mãos)

E há de chegar paciente ao nervo dos teus olhos, É o Morto que se fecha em tua pele?

O Expulso do teu corpo no teu corpo? A Pedra que se rompe dos teus pulsos? A Areia areia apenas mais o vento?

– A Angústia, Pignatari, Oleiro de Ouro, Esse leão de areia digo este leão

(Ah! o longo olhar sereno em que nos empenhamos, Que é como se eu me estrangulasse com os olhos)

De sangue:

Eu mesmo, além do espelho.

Augusto de Campos, Viva Vaia

ESPELHAR

espelho espelho meu

existe alguém mais

eu

do que

eu

?

Luci Collin, Antologia Poética 1984-2018

III

era o dia em que o sol escurecia pesaroso da morte do Senhor,

quando sem dar por mim, sem nem supor,

teu belo olhar, Senhora, me prendia.

inútil precaver-me parecia

e, desatento aos golpes de amor, segui, de mim seguro: e minha dor

na dor universal assim nascia.

achou-me amor de todo desarmado, aberta a via dos olhos até o peito,

tornado pelas lágrimas num charco.

não parece ter sido grande feito

ferir-me amor com flecha nesse estado

e a ti armada nem mostrar o arco.

Petrarca, Cancioneiro

CIRCE

Porque eu os amava

me encerraram aqui

nesta ilha

neste corpo

Transformo-os

no seu melhor

mas não posso beber

do meu próprio veneno

Por anos esperei

no topo deste penhasco

Ele não voltou:

ensinem-me algo do seu mundo

que eu ainda não saiba

Leila Guenther, Viagem a Um Deserto Interior

Morada

Voltei a escrever para ti

agora que me esqueceste

no intuito de regressar

à esperança que aí me levou,

onde já não moras.

Paulo Lopes Lourenço, Cinematografia

Sem Título

Ser poeta é viver em permanente estado

de(s)atenção

Que importa a luz acesa

a porta aberta

o leite derramando

no fogão?

(mas

o gotejar da torneira:

pulsação)

Marise Hansen, Porta-retratos

Fala D João  3

mais  de pessoa sabe

quem  de peçonha sabe

mocho  a noite  cobreavas

espertando os olhos  da coruja

em pedra  avoenga

meu  gume  afiara

à alva  a cabeça

Évora verá

Hélio Cabral, Fala D. João

Leia mais poesia

Escritoras de livros: literatura para além do Dia Internacional da Mulher

8 de março é Dia Internacional da Mulher. O significado desse dia tem mudado muito, conforme percebemos que as mulheres não precisam (nem devem) ser segregadas como algo à parte da sociedade. Não se trata de comemorar, mas de marcar a importância de promover direitos e igualdade entre homens e mulheres.

Em uma sociedade machista e patriarcal, durante séculos a mulher foi silenciada e colocada em um papel de subserviência. Muitas vezes, restava a elas apenas se expressar em cartas a familiares ou parentes; cartas que muitas vezes nem mesmo chegavam aos seus destinos. Os diários também são um importante documento histórico dessa realidade e, assim, escrever passa a ser uma atividade “consentida” às mulheres, ainda que, mesmo hoje em dia, se nos propusermos a fazer uma lista dos escritores que conhecemos, provavelmente o número de homens será bem maior que o de mulheres. É por isso que hoje o Blog Ateliê se dedica a mostrar alguns dos títulos publicados pela editora que foram escritos por mulheres. Acompanhe:

Antologia Poética – Luci Collin

Esta coedição com a Kotter reúne poemas escritos entre 1984 e 2018. A autora é ensaísta, ficcionista, poeta. Tradutora, professora universitária de Literaturas e Língua Inglesa, bacharel em música (piano e percussão Clássica). Leitora de Jorge de Lima e T.S.Elliot, entre muitos outros. Essa é uma pequena amostra de tudo o que interessa a Luci Collin,  que começou a publicar poesia aos 17 anos e segue, ainda hoje, trazendo sua produção ao público. 

Yaser – Eda Nagayama

Um livro que nasceu da experiência vivida com pessoas, em uma paisagem de guerra. Assim é Yaser, de Eda Nagayama, que alinhava com o fio da ficção a dura realidade da Palestina dos dias de hoje. Eda, que é escritora e atriz paulistana, doutoranda em Estudos Literários (FFLCH/USP), foi voluntária na Palestina, onde se sentia “inimiga por extensão”. Para contar sua experiência, escreveu Yaser. “A escrita nasceu assim dessa necessidade de dar voz e visibilidade ao que vi, ouvi e testemunhei, de responder à minha própria ferida. Não sou uma ativista e minha maneira de agir foi através da palavra – gestada na solidão, povoada por essas pessoas, por Yaser e sua família em especial”, explica a autora.

Casas Importadoras de Santos e seus Agentes

Casas Importadoras de Santos e seus Agentes – Carina Marcondes Ferreira Pedro

A obra de Carina Marcondes Ferreira Pedro originou-se de uma preocupação em melhor compreender os fluxos de importação de bens de consumo – de objetos domésticos a materiais de construção, de “chita até locomotiva” – que caracterizaram o processo de internacionalização das últimas décadas do século XIX. A opção de pesquisa foi “colocar-se” bem junto à sua entrada na Província, depois Estado de São Paulo, no Porto de Santos. As casas importadoras, que se instalavam estrategicamente nas imediações do Porto, constituíram o “posto de observação” da autora. A ação de seus agentes importadores, o fio condutor que a levou pelos caminhos percorridos. 

Paulinho da Viola e o Elogio do Amor – Eliete Eça Negreiros

O livro apresenta uma reflexão sobre a representação do amor na obra do compositor e sua inscrição no âmbito da tradição do pensamento e da lírica ocidental. Através das canções criadas e cantadas por ele, a autora revisita poetas e pensadores como Safo, Platão, Aristóteles, Montaigne, Freud, Walter Benjamin e Octavio Paz.
Eliete destaca três modalidades do amor na lírica violiniana: o amor breve, o amor melancólico e o amor feliz e vê no aspecto meditativo das canções uma espécie de educação sentimental na medida em que Paulinho da Viola descreve e reflete sobre os estados de apaixonamento.

Viagem a um Deserto Interior – Leila Guenther

“Se a arte não parece ter gênero, as experiências o têm: chegam aos poemas de nossos dias vozes marcadas por um espanto de vida a um tempo estoico e dilacerado, ressurgido de incêndios, vingando um calar histórico. Urro e desprezo podem acalantar a criatura ofendida, as inquietudes podem se abrigar numa forma zen, a paisagem contemplada pode guardar uma guerra dentro. São forças da voz de Leila Guenther, que movem quem a ouça”, escreve Alcides Villaça sobre o livro. 

O Quarto Livro dos Fatos e Ditos Heroicos do Bom Pantagruel

O Quarto Livro dos Fatos e Ditos Heroicos do Bom Pantagruel – Élide Valarine Oliver (trad)

O Quarto Livro dos Fatos e Ditos Heroicos do Bom Pantagruel, o mais radicalmente satírico de toda a obra de Rabelais, reflete, na história de sua publicação, os perigos aos quais o próprio Rabelais se expôs, no fim da vida. Uma primeira edição parcial foi publicada em 1548, em Lyon. Em 1552, sai a edição definitiva, em Paris. Ao mesmo tempo, correm boatos de que Rabelais havia sido levado “acorrentado” à prisão. Nada se prova, mas o famoso médico e escritor desaparece, e morrerá, em circunstâncias desconhecidas, no ano seguinte. Teria presumíveis 70 anos, ou talvez mesmo 59. O livro tem como pressuposto continuar as aventuras do Terceiro Livro, onde Panurge busca resolver a dúvida se deve casar-se ou não.

Silêncios no Escuro – Maria Viana

O primeiro livro que Maria Viana escreveu para adultos quase chegou à maioridade antes de seu publicado. Passaram-se 17 anos desde que a autora mineira – que escreve livros infantis e didáticos e organizou diversas antologias – escreveu o conto que dá título ao volume. A autora relata que só se deu conta de que a morte e o silêncio são os fios condutores de todos os contos do livro Silêncios no Escuro depois de tê-los reunidos. Personagens que não falam habitam histórias que os levam de um extremo a outro (morte e vida; tristeza e alegria), costuradas por uma narrativa escrita por alguém que se define como uma leitora voraz que gosta de “contar histórias”.

“Dom Casmurro” de Machado de Assis

Por Renata de Albuquerque*

“Traiu ou não traiu?”

“Olhos de cigana oblíqua e dissimulada”

“Capitu amava Bentinho?”

É incrível que um romance publicado no fim do século XIX ainda hoje, em pleno século XXI, ainda pareça ser tão popular, ao menos na superfície. Afinal, até quem nunca abriu uma página de Dom Casmurro já ouviu falar em ao menos uma dessas frases. Claro que muito disso se deve  ao fato de que Dom Casmurro, romance de Machado de Assis, publicado em 1899, tornou-se um clássico da literatura brasileira, solicitado em inúmeras provas de pré-vestibular como uma leitura obrigatória – o que o fez obrigatório também no currículo do Ensino Médio, desde que as pessoas escolhiam entre o “Clássico”, “Normal” e “Científico”. Talvez por isso também muita gente não consiga se encantar com a história contada por Bento de Albuquerque Santiago, o Casmurro do título, que na infância era chamado de Bentinho. Afinal,  nada do que é obrigatório parece interessante.  

Mas, por trás dessa obrigatoriedade que o vestibular “exige”, há um livro genial, construído com muita perspicácia, por um autor que faz da ironia sua melhor ferramenta de critica social, que constrói personagens complexos e que pode fazer com que o leitor tenha uma das experiências literárias mais interessantes de sua vida.

Dom Casmurro, que na infância fora chamado de Bentinho, narra o romance em primeira pessoa. Logo no segundo capítulo (depois de explicar o apelido, dado por um poeta) ele explica a razão que o leva a escrever aquele romance: “atar as duas pontas da vida”, rememorando sua existência. Entretanto, logo se vê que o ponto central da narrativa é o ciúme que Bentinho sente por Capitu.

Dom Casmurro, de Machado de Assis

Bentinho e Capitu

Vizinhos. Assim são Bentinho e Capitu, duas crianças que convivem no Rio de Janeiro, por volta de 1857. Ele, mais abastado, é órfão de pai e mora com a mãe, dona Glória, o tio Cosme, a prima Justina e o agregado José Dias. Capitu, apelido de Capitolina, é filha de Dona Fortunata e Pádua. Capitu e Bentinho tornam-se amigos, mas apesar de nutrirem um sentimento que vai além da amizade, Bentinho é enviado ao seminário, onde conhece Ezequiel Escobar, de quem torna-se amigo. Mais tarde, Bentinho sai do seminário, vai estudar Direito e  casa-se com Capitu. Escobar também se casa com Sancha, amiga de Capitu. Nasce Ezequiel, filho de Capitu – e que Bento Santiago desconfia ser fruto de uma relação entre ela e Escobar (já que o nome da criança é dado em homenagem ao amigo).

O ciúme leva Bentinho a separar-se de Capitu, que vai com o filho para a Europa, onde morre. O filho volta, tenta reatar com Bentinho,  mas também morre. O amigo Escobar morre afogado no mar.

Tantas mortes são a razão pela qual as dubiedades – que tornam o romance tão genial – possível. Com todos mortos, só Bentinho (que narra a história) foi testemunha dela. E, com isso, pode contar o que melhor lhe convier.

A traição de Capitu

A dubiedade que marca o romance (a forma como é narrado, os interditos, a complexidade psicológica de Bentinho e Capitu, o comportamento singular do agregado José Dias)  é a chave para entender que a velha pergunta “traiu ou não traiu?” não é a parte que interessa a Machado de Assis.

Com Dom Casmurro, o escritor constrói uma obra muito maior do que seria se fosse dedicada a levar o leitor a descobrir se houve ou não infidelidade. O grande jogo consiste na chance que o autor dá ao leitor de desconfiar desse narrador (que deixa pistas de sua inconstância e nos dá motivos para tal desconfiança ao longo de todo o romance).

É bom dizer que nem sempre essa dúvida existiu. Apenas em 1960 (portanto mais de sessenta anos depois da publicação da primeira edição de Dom Casmurro), a pesquisadora Helen Caldwell trouxe a público seu estudo O Otelo Brasileiro de Machado de Assis, em que defende a inocência de Capitu tomando por base indícios do próprio texto machadiano. Tudo isso explica porque Dom Casmurro é um livro imenso, talvez um dos mais importantes da literatura mundial. E ajuda a explicar porque, para além da obrigatoriedade escolar, ele merece ser lido por quem deseja tornar-se um leitor mais experiente, mergulhando nas águas fundas do raro estilo machadiano, cheio de humor e uma fina e aguda ironia, que coloca o leitor no como parte atuante do jogo narrativo.

Conheça outros títulos da Coleção Clássicos Ateliê

*Jornalista, Mestre em Literatura Brasileira pela FFLCH/USP, autora da Dissertação Senhoras de Si: o Querer e o Poder de Personagens Femininas nos Primeiros Contos de Machado de Assis.

Auto da Barca do Inferno, de Gil Vicente

Por: Renata de Albuquerque*

Uma das mais importantes obras do dramaturgo português Gil Vicente – considerado o pai do teatro português – o Auto da Barca do Inferno (ou Auto da Moralidade) foi escrita em 1517 e encenada, pela primeira vez, em 1531. O texto faz parte da trilogia das barcas, composta por esta e por outros dois textos, Auto da Barca do Purgatório e Auto da Barca da Glória.

Devido à sua importância histórica para a literatura, o Auto da Barca do Inferno foi escolhido para ser o primeiro título de uma coleção criada pela Ateliê Editorial ainda nos primeiros anos de existência da editora. A ideia da coleção “Clássicos para o Vestibular” era oferecer aos alunos do ensino médio uma edição de qualidade de um livro clássico, que é sempre solicitado nas provas. O livro traz o texto na íntegra, precedido de um texto introdutório que traz análise do enredo, da linguagem, dos personagens, do contexto histórico e do autor. Logo depois, a coleção passou a chamar-se “Clássicos Ateliê”. Afinal, não são apenas os estudantes que merecem ler uma edição bem cuidada de um clássico. Inicialmente, a coleção era coordenada por Ivan Teixeira, professor livre-docente da ECA/USP e professor titular de Literatura Brasileira na FFLCH/USP. Depois do falecimento de seu criador, em 2013, a coleção passou a ser coordenada pelo professor José de Paula Ramos, doutor em Literatura Brasileira pela USP e professor da ECA, da mesma universidade.

Auto da Barca do Inferno

Por ser um auto de moralidade, a peça, de um só ato, é uma alegoria do Juízo Final, uma sátira à sociedade portuguesa do século XVI. O vocabulário – muito distante da maneira como falamos hoje – pode parecer um obstáculo ao entendimento. Mas, se ultrapassado, o texto se revela divertido, com uma comicidade envolvente.

O enredo é simples. Dois barqueiros – o Anjo e o Diabo – estão em um porto, em que recebem, cada um em sua barca, as almas dos passageiros, para transportá-las para o outro mundo. O Diabo convida cada alma para fazer parte de sua barca. O Anjo autoriza ou não outras almas a viajar em sua própria barca. Vai para  céu quem durante a vida seguiu os preceitos divinos. Vai para o inferno quem foi avarento, mesquinho ou cometeu outros pecados.

Os personagens – que são, na verdade, representações de tipos sociais – apresentam-se diante do espectador como em um desfile. Sua história vai definir seu destino. Apenas o parvo e os quatro cavaleiros, mártires da Igreja, que dedicaram a vida ao cristianismo, conseguem embarcar rumo à paz eterna na barca do paraíso.

Cada personagem representa um aspecto da sociedade portuguesa. O Fidalgo, por exemplo, é o tirano representante da nobreza. O Parvo simboliza o povo português, temente a Deus e de bom coração. O Judeu representa as pessoas que não são fieis à fé cristã. O Frade desobedece o voto de castidade e, por isso, também vai para o inferno. Figuras como o Onzeneiro, o Corregedor e o Procurador são alegorias dos burocratas que usam o poder político a seu favor.

É interessante notar que o Diabo fala e age com uma fina ironia e que, muitas vezes, suas intervenções parecem ser a voz do próprio autor. Já o Sapateiro, ainda que tenha-se confessado antes de morrer não conquista o céu – o Diabo o leva porque ele roubava seus clientes.

Gil Vicente

Gil Vicente

Nascido por volta de 1465, em Guimarães, o poeta Gil Vicente é considerado o pai do teatro português. Autor de um teatro popular – apesar de estar no ambiente da Corte Portuguesa – foi um entretenimento para a família real, mesmo contendo diversas críticas ao poder. O teatro de Gil Vicente é caracterizado pela sátira crítica.

Pai de cinco filhos – dois do primeiro casamento e três do segundo, contraído após a morte da primeira esposa – estudou na Universidade de Salamanca, na Espanha. Um dos primeiros registros com seu nome data de 1502, quando encena “Auto da Visitação” ou “Monólogo do Vaqueiro”, em homenagem ao nascimento do príncipe D. João, futuro D. João III. Em 1511 foi nomeado vassalo do rei e mais tarde, mestre da balança da Casa da Moeda (1513). Faleceu por volta de 1536, provavelmente em Évora.

Conheça outros títulos da Coleção Clássicos Ateliê

*Jornalista, Mestre em Literatura Brasileira pela FFLCH/USP, autora da Dissertação Senhoras de Si: o Querer e o Poder de Personagens Femininas nos Primeiros Contos de Machado de Assis.

“Yaser”, de Eda Nagayama

Um livro que nasceu da experiência vivida com pessoas, em uma paisagem de guerra. Assim é Yaser, de Eda Nagayama, que alinhava com o fio da ficção a dura realidade da Palestina dos dias de hoje. Eda, que é escritora e atriz paulistana, doutoranda em Estudos Literários (FFLCH/USP), foi voluntária na Palestina, onde se sentia “inimiga por extensão”. Para contar sua experiência, escreveu Yaserh. “A escrita nasceu assim dessa necessidade de dar voz e visibilidade ao que vi, ouvi e testemunhei, de responder à minha própria ferida. Não sou uma ativista e minha maneira de agir foi através da palavra – gestada na solidão, povoada por essas pessoas, por Yaser e sua família em especial”, explica a autora ao Blog da Ateliê:  

O que a levou à Palestina? O que a motivou a realizar essa jornada?


Eda Nagayama: O meu interesse e desejo de visitar a Palestina já vinha de alguns anos. Em 2014 havia me informado sobre custos e a possibilidade de me voluntariar na Cisjordânia. A oportunidade concreta veio de uma maneira inesperada. Em 2016, estava na Polônia como parte de um programa de intercâmbio acadêmico sobre trauma cultural quando, numa conversa com uma professora de Sociologia sobre refugiados, comentei sobre a Palestina: “Ah, você gostaria de ir para a Palestina? Conheço um programa de voluntariado”. Ela então me apresentou para o coordenador local do EAPPI – Programa de Acompanhamento Ecumênico em Palestina e Israel, do Conselho Mundial das Igrejas (WCC). Fui aprovada e enviada como única representante da Polônia naquele período. Chegando lá, num grupo internacional com finlandeses, noruegueses, ingleses e colombianos, o mais bizarro era parecer japonesa, ser brasileira e ter sido enviada pela Polônia.

A minha motivação para ir para a Palestina estava inicialmente relacionada a Israel. Ainda adolescente, fui muito impactada pelo Holocausto e a Segunda Guerra. Aprofundei e estudei o tema e também um pouco de cultura e literatura judaicas. Quando tive um pouco mais de informação sobre a situação na Palestina, voltei a me sentir afetada diante da opressão, da complexa disputa que se dá em torno da terra e da água, das narrativas dominantes sobre os acontecimentos. A Palestina era uma indagação, uma perplexidade que só iria aumentar após ter visitado vários memoriais e campos de concentração: Auschwitz, Treblinka, Majdanek, Belzec, Gross-Rosen, Plaszów, Theresienstadt, Sachsenhausen. O incomensurável sofrimento e injustiça do passado poderiam constituir uma justificativa absoluta para a opressão e violência contra um outro? O que acontecia na Palestina em nome desse Estado para um povo sem terra, como se terra sem povo?

Que atividades você desenvolveu ali, durante o tempo em que esteve no local?

EN: O programa visava a observação de violações de direitos humanos na Cisjordânia, parcela maior do território do Estado Palestino, separada da Faixa de Gaza. Os participantes do programa eram divididos em grupos e diferentes localidades: Jerusalém, Belém, Hebron, Tulkarm, Colinas do Sul de Hebron, Vale do Jordão e Yanoun, para onde eu fui destinada. As atividades envolviam a visita aos vilarejos da região e o acompanhamento de incidentes como demolição de construções, expropriação de terras, detenção de crianças, agressões e danos a propriedades e plantio, restrição à livre circulação, toque de recolher e punição coletiva. Com a ajuda de um facilitador local, coletávamos relatos e informações sobre os incidentes e produzíamos relatórios que eram distribuídos a outras entidades com envolvimento na situação.

Outra atividade que realizávamos era a presença protetiva visando diminuir ou refrear atos contra a população palestina através da mera presença de estrangeiros. Três vezes por semana fazíamos o acompanhamento da entrada dos alunos de uma escola à beira de uma rodovia em área C, utilizada por israelenses e palestinos. Um grupo de soldados israelenses estava sempre de vigília, de maneira mais ou menos ostensiva, tendo detido meninos em algumas ocasiões sob a acusação de atirarem pedras. Essa atuação era sempre muito tensa e ambivalente – difícil saber se a presença podia realmente ser protetiva, se não poderia justamente acirrar os ânimos. Os soldados podiam detê-los numa demonstração de força? Os meninos podiam se sentir encorajados pela nossa presença? Não vi nenhum menino atirando pedras nem enfrentando soldados. Em compensação, vi soldados detendo meninos, fazendo provocações – também dirigidas a nós. Os palestinos eram o inimigo e, por extensão, nós também. Nunca estive nessa posição – senti medo, indignação, dúvida.

Eda Nagayama fotografada por Lailson Santos

Por que decidiu escrever um livro da experiência que teve na Palestina?

EN: A experiência foi muito impactante e voltei para o Brasil afetada – a tensão é constante e muito distinta daquela provocada pela violência aqui e não corresponde à imagem do conflito na mídia internacional, vinculada à Faixa de Gaza e às bombas do Hamas, aos terroristas e homens-bomba da Segunda Intifada (2000-2005). Apesar de estar em Jerusalém à época de um atentado, copycat dos ataques utilizando caminhões em Nice e Berlim em 2016, a tensão não advinha daí, da ameaça desse tipo de crime, mas da sensação de vulnerabilidade, de arbitrária opressão a que estavam sujeitos os palestinos. Ouvi muitos relatos de pessoas sem futuro nem sonhos, que só queriam ser deixadas em paz. O que acontece na Cisjordânia é, para mim, uma maneira muito perversa de aniquilar indivíduos e um povo. Não é preciso tirar-lhes a vida, mas apenas restringir e privá-la através do abuso e arbitrariedade de força, regras e restrições, a tal ponto de não mais ser entendida como tal. Vida? Que vida? A escrita nasceu assim dessa necessidade de dar voz e visibilidade ao que vi, ouvi e testemunhei, de responder à minha própria ferida. Não sou uma ativista e minha maneira de agir foi através da palavra – gestada na solidão, povoada por essas pessoas, por Yaser e sua família em especial.

Como conheceu Yaser e porque o escolheu para ser protagonista de seu livro?

EN: O vilarejo de Yanoun foi invadido em 2002 por colonos israelenses de assentamentos do entorno. Na época, havia aproximadamente 350 pessoas e foi então que o EAPPI começou através da presença de outsiders para que o vilarejo não fosse tomado e que ao menos parte das famílias pudesse retornar.

Hoje, os que restam não chegam a oitenta, todos parentes, já que era muito comum o casamento consanguíneo. Yaser morava na casa em frente à nossa e foi de sua família que estive mais próxima, podendo conhecer mais das tarefas diárias, da violência sofrida no passado, dos temores e incertezas do presente. Escolher Yaser como meu protagonista foi uma estratégia narrativa para criar mais coesão à diversidade de relatos e experiências, mas também uma forma de expressar meu afeto e respeito pela trajetória – sua e de sua família estendida, de seu povo.

A obra mistura ficção e relatos reais. Quais foram os desafios de equalizar esses dois registros?

EN: A maior questão é mesmo ética: tenho o direito de narrar? Posso “ocupar” Yaser – percorrer seus pensamentos e sentimentos, me apropriar da memória de eventos traumáticos? Foi uma fronteira difícil de constituir, encontrar a medida para que não predominasse o aspecto informativo ou denunciativo, e que o texto tivesse sensibilidade e qualidade literária. O livro, e também minha pesquisa de doutorado, refletem esse questionamento: quais os limites e decorrências da apropriação da realidade por uma alteridade, das distorções ficcionais produzidas por esse outro ao dar voz aos eventos?

Você já iniciou a elaboração do livro com o projeto de mesclar ficção na história real ou isso foi ocorrendo aos poucos, no processo de escrita?

EN: Eu comecei a escrever Yaser sabendo que iria “contaminar” a realidade de alguma ficção, não queria um relato jornalístico. Recebi a sugestão de adotar a minha perspectiva pessoal como voluntária para narrar os eventos. Não, não era isso de forma alguma. E, a princípio, não queria usar as palavras “judeu”, “israelense”, “palestino”, mas somente “um” e “outro” – adotando assim perspectivas relativas e não absolutas. Tal opção poderia gerar muita imprecisão e ambiguidade e assim comprometer justamente a legitimidade dos eventos, seu caráter testemunhal. Os palestinos deveriam ser os protagonistas – fundidos na figura de Yaser -, com um alinhavo ficcional mínimo. Não sei o que Yaser achou dessa sua versão, espero que possa se reconhecer e apreciar.

Quais foram suas inspirações para escrever o livro, do ponto de vista estético?

EN: Eu não sei se posso apontar inspirações literárias para escrever Yaser. A experiência predominou – em situações, paisagens e pessoas. Terra Prometida ou não, a Palestina é um lugar potente, umbigo do mundo que não permite que você permaneça isento ou que parta imune. E esse afetar foi e é fundamental para mim – que reside nos vazios e silêncios dos campos de concentração, que ecoa nas conversas que tive com refugiados ao longo dos anos – aqui em São Paulo, em abrigos na Itália, em um campo de refugiados na Grécia. A minha questão como escritora é encontrar narrativa para essa realidade de contundência, muitas vezes dolorosa e traumática.