Renata Albuquerque

Quando e por que o novo “vira” velho – e vice-versa

Marise Hansen*

Quando provocado sobre a suposta superação do Modernismo dos anos 1920 e 1930, Carlos Drummond de Andrade respondeu com ironia, referindo-se à Geração de 1945 como o “novo”, e a si mesmo e seus pares como os “antigos”:

“Este é o “novo” que se oferece hoje em substituição ao “antigo”, também chamado “modernista”. (Revista Orfeu, número 6, Rio de Janeiro, 1948)

Essa e outras polêmicas são recolhidas e explicitadas por Vagner Camilo, crítico literário e professor de Literatura Brasileira da USP, no recém-lançado Modernidade entre Tapumes: da Poesia Social à Inflexão Neoclássica na Lírica Brasileira Moderna. As querelas literárias são apenas uma face do movimento pendular que se verifica na primeira metade do século XX na poesia modernista brasileira e que, muito mais que dicotômico, é complexo e dialético, pois não se reduz a uma “sucessão de rupturas”, já que pode – e deve – ser visto também como “sucessão de continuidades”.

Fases e gerações se sucedem, “novíssimos” se justapõem a “novos”, e dessa dinâmica decorrem paradoxos, como o que se verifica na chamada Geração de 1945, cuja “modernidade” consistiria numa superação, justamente, do Modernismo, entendido como vanguarda. Essa complexidade é analisada de forma panorâmica e, ao mesmo tempo, rigorosa, na empreitada de largo fôlego realizada por Camilo.

Em parte, o livro desdobra o estudo anterior sobre a trajetória de Drummond (Da rosa do povo à rosa das trevas, Ateliê Editorial), mas, sobretudo, é fruto de pesquisa historiográfica vasta sobre a lírica brasileira (in)surgida e consolidada no século XX. Em doze densos capítulos, o autor percorre a poesia modernista para revelar como, por quê, e até mesmo se – os poetas do pós-II Guerra constituíram uma geração modernista, com projeto estético comum e definido. Para tanto, ele soma, ao amplo aporte teórico, cartas, depoimentos, artigos das revistas da época, ilustrações, além dos textos literários propriamente ditos.

Se os dois capítulos iniciais são dedicados a Drummond, por ser ele epítome de um movimento que vai dos antecedentes da II Guerra até a Guerra Fria, passando pela poesia de participação social, os demais mantêm o rigor analítico ao tratarem da poesia de Jorge de Lima, Murilo Mendes, Augusto Meyer, José Paulo Moreira da Fonseca, Dantas Motta e João Cabral de Melo Neto. Na abordagem, o crítico mobiliza conceitos e problemas fundamentais para o entendimento do jogo de forças que se estabelece quando programas poéticos clamam para si o caráter de inovação, mesmo os que propõem o “retorno à ordem”, como os surgidos no pós-guerra. Assim, campo literário, imagem do autor, prestígio da poesia e do poeta, determinações históricas, comunicação com o leitor, geração, grupo, são tópicos esmiuçados que levam a uma reflexão sobre os porquês da emersão de uma “arrière-garde” na poesia modernista, metaforizada na substituição dos salões e cafés pelos clubes literários. No que diz respeito ao conceito de “geração”, por exemplo, parte-se da questão sobre como estabelecer um perfil geracional, e mesmo sobre como definir o conceito. A respeito da “Geração de 1945”, percorrem-se as proposições e composições de grupo estabelecidas por Alfredo Bosi, Afrânio Coutinho, Péricles Eugênio da Silva Ramos, João Cabral de Melo Neto, Gilberto Mendonça Telles, Carlos Felipe Moisés, Domingos Carvalho da Silva e Sérgio Milliet. Vale destacar também os capítulos dedicados às influências de Valéry, Eliot e Rilke; a problematização feita por Sérgio Buarque de Holanda acerca da poesia do período e das leituras feitas sob os princípios do New Criticism; o estudo do soneto e o interesse que sobre essa forma demonstraram os modernistas, inclusive heroicos, como Mário de Andrade.

Se, por um lado, os capítulos têm certa autonomia, podendo ser lidos como estudos sobre os autores, textos, problematizações e polêmicas mencionadas, por outro, mantêm articulação entre si e concorrem para uma surpreendente consideração do poema “A um hotel em demolição”, último de A vida passada a limpo (1959), de Carlos Drummond de Andrade. No longo poema, que trata da ruína do Hotel Avenida, demolido para dar lugar ao Edifício Avenida Central, Drummond erige um monumento que reúne memória e reflexão crítica, passado e presente, universal e particular, transcendente e histórico. Na medida em que mescla, além dessas, as referências a provincianismo e cosmopolitismo, hábitos urbanos e sociedade rural, esfera pública e privada, o poeta faz de seu “retrato” do hotel uma verdadeira alegoria do país. Camilo não só aponta essa representação como, indo além, vê no poema uma alegoria da própria trajetória da poesia modernista que veio sendo analisada nos onze capítulos anteriores. Tal interpretação se revela coerente e instigante não só pelo caminho percorrido com acuidade até então, mas também pela análise dos elementos constitutivos do poema, que reúne formas fixas e tradicionais, trazendo inclusive um soneto incrustado, sintaxe discursiva e fragmentada ou experimental, à maneira concretista, léxico vernáculo e neológico. Não por acaso, o autor vê “A um hotel em demolição” como poema emblemático que dá fecho não só ao livro de Drummond, como também à fase classicizante do poeta, e até mesmo a uma “modernidade”, representada pelo grandioso hotel, a ser substituída por outra.

O que o autor apresenta, portanto, como “narrativa histórico-crítica plausível” da lírica brasileira da primeira metade do século XX, prova-se, ao fim da leitura, incursão obrigatória para quem queira entender não só a poesia produzida por nossos autores modernistas, mas a dinâmica das sucessões geracionais e a dialética a ser considerada quando se trata de tradição e ruptura.

*Marise Soares Hansen é doutora em Literatura Brasileira pela FFLCH-USP, com tese sobre João Guimarães Rosa, pesquisadora, ensaísta e professora de Literatura Brasileira na mesma universidade. 
Poeta, publicou Porta-retratos  pela Ateliê Editorial. Para essa editora, também elaborou prefácio e notas para a obra A Ilustre Casa de Ramires, de Eça de Queirós. 

“A Forma do Livro” é tema de debate

Tereza Bettinardi*

Novembro foi o mês em que lemos e debatemos no Clube do Livro do Design o livro A Forma do Livro – Ensaios sobre Tipografia e Estética do Livro, escrito pelo tipógrafo e designer alemão Jan Tschichold (1902–1974). A escolha deste livro para encerrar esta primeira temporada do Clube não foi por acaso. Além da minha relação pessoal com o tema [trabalhando com design editorial há quase 15 anos], este livro também é um excelente ponto de partida para discutir a fascinante biografia de Tschichold.

Tschichold foi, em momentos distintos, um expoente das duas grandes correntes estéticas que dominaram a tipografia do século XX: a ousada “nova tipografia” e os princípios da tipografia clássica, orientada pelas convenções seculares em vigor desde a Renascença. Depois de ser perseguido pelo regime nazista e partir para o exílio na Suíça, Tschichold também trabalhou na reformulação do design da série de livros de bolso da editora Penguin.

A Forma do Livro

Nesta coletânea de ensaios, escritos de 1937 até sua morte, Tschichold reconsidera seus postulados da juventude e volta-se ao estudo e reflexão a respeito da tipografia tradicional e aos layouts de composição simétrica. O livro só seria traduzido para o inglês, por Robert Bringhurst (autor de Elementos do estilo tipográfico), em 1991, e publicado no Brasil em 2007. Em mais de vinte textos críticos sobre temas gerais da prática do design gráfico e especificidades tipográficas, Tschichold procura sistematizar a intuição, descrevendo vigorosamente os parâmetros de qualidade de uma boa composição. Para ele, somente um impresso que honra a tradição do livro europeu é capaz de emergir de prateleiras e mais prateleiras de modismos injustificados. Ou seja, o design de qualidade teria origem na pesquisa histórica e na análise científica de tudo que já foi feito. E a inovação pela inovação não passaria de um capricho.

Como bem apontou a designer Flora de Carvalho, no texto enviado aos participantes do Clube na newsletter, em diversas passagens, a leitura de A Forma do Livro pode se tornar um exercício angustiante: “é possível chegar a esse nível de experiência e precisão? Ainda mais depois de 2020, o ano da abolição do planejamento? Para evitar a crise, sugiro que você pense nestes ensaios como fábulas de uma época distante, na qual era possível alcançar algum tipo de controle”. Neste sentido, tal constatação foi quase que unânime entre os participantes.

No entanto, é inegável o valor do esforço e determinação do tipográfico alemão em registrar, documentar e refletir sobre os diversos elementos que compõem uma página: a relação entre tamanho da página e mancha de texto, margens e alinhamento, corpo e entrelinha, espaço entre palavras e entre letras, forma e contraforma, branco e preto, papel e tinta. Como bem analisou Flora de Carvalho: “como bom explorador, Tschichold dedicou grande parte de sua carreira a observar e descrever as relações de proporção que encontrou em sua jornada – como Darwin observando Galápagos, ou Galileu olhando para o céu” que complementa: “os textos de Tschichold servem para nós, designers do século 21, como ponto de ancoragem ou de partida, porque associam criatividade a método, e não a genialidade. Segundo esses textos, o terror da página em branco, seria diluído se considerássemos combinações e estratégias preexistentes”. 

Durante os últimos meses, formamos um grupo com mais de 300 pessoas, entre designers, educadores, estudantes e entusiastas do design e da comunicação visual. Pudemos entrar em contato com realidades muito distintas: de São Luís, Porto Alegre, Recife, Salvador, Belo Horizonte, São Paulo, Rio de Janeiro… e aprendemos a ouvir e discordar respeitosamente. Mais do que um grupo de apaixonados pela profissão e pelo ofício de projetar, este grupo também serviu como uma valiosa rede de apoio e troca durante o isolamento. Os livros — tais como as importantíssimas contribuições de Tschichold — foram apenas um ponto de partida… e esperamos que as descobertas e trocas não acabem.

*Designer gráfica, criadora do Clube do Livro do Design

Uma livraria em meio às flores

Emília Amaral,  doutora pela Unicamp e professora de Literatura, é autora de O Leitor Segundo G.H. – Uma Análise do Romance A Paixão Segundo G.H. de Clarice Lispector

Apaixonada por livros, ela acaba de abrir sua própria livraria, a Livraria Jardim das Delícias, na cidade de Holambra, em sociedade com a irmã, Dinda Amara. A seguir, ela conta o que a levou a esse empreendimento.

Qual foi sua motivação para abrir uma livraria em um contexto em que a leitura se dá, cada vez mais, por meios digitais?

Emília Amaral: Na verdade, acho que o livro de papel não está competindo com o virtual, haja vista os relatos de abertura de novas livrarias, inclusive com vendas excelentes, que temos visto em todo o país. No Brasil, onde o nível de leitura é tão baixo, não podemos prescindir de ambos os tipos de livros, pois há possíveis leitores para eles.

Por que escolheu a cidade de Holambra?

EA: Holambra era uma cidade de vários indícios de gente interessada em leitura, mas não tinha livraria. Hoje, tem, e, pelo movimento, merecia mesmo. Além de ser uma linda cidade, centrada em produção e venda de flores, seus habitantes sempre estão em busca de novas atividades.

As sócias da Livraria Jardim das Delícias, em Holambra

Quando a livraria foi inaugurada?

EA: Devido à pandemia, não houve inauguração oficial, mas estamos trabalhando com bastante vigor e boas surpresas, há mais de dois meses. 

Que tipo de livros são os focos da livraria? Infantis, didáticos, literatura em geral?

EA: Sim. Literatura brasileira, literatura universal, teoria e crítica literária, biografias, ciências humanas, etc, além do que você colocou. Somos uma livraria-sebo, por isso temos produtos com assuntos, apresentações e custos variados. Atendemos muito pela internet e aceitamos doações.

Seu objetivo é também fazer da livraria um espaço de convívio para a comunidade de leitores da cidade? A ideia é realizar eventos presenciais e/ou online?

EA: Sim. Queremos criar um espaço cultural que seja reconhecido pela cidade. Temos atividades de cineclube, clube de leitura, palestras, lançamentos de livros, exposições, aulas etc. No fim de 2020, coordenei uma vivência da literatura de Clarice Lispector; tema de meu doutorado, para um grupo de seis pessoas. Foi bem interessante.

Quais são os desafios de abrir uma livraria no atual cenário pandêmico? E, por outro lado, como uma livraria pode contribuir para melhorar este cenário?

EA: O paradoxo é apenas aparente. Na pandemia, as pessoas buscam se interiorizar, procurar novos valores para sua vida, descortinar novos horizontes. Para isso, os livros, as revistas, muitas vezes indicados pela internet, são essenciais. Soube até de um aumento de vendas e de abertura de livrarias, nesse período.

Serviço

Livraria Jardim das Delícias

Avenida Solidagos, 218 – Morada das Flores – Holambra

@livrariajardimdasdelicias

Vendas on-line: dindi03uol.com.br

Várias Histórias, contos de Machado de Assis

Renata de Albuquerque*

A edição da Ateliê de Várias Histórias tem apresentação e notas de José de Paula Ramos Jr e ilustrações de Sérgio Kon.

Este é o quinto livro de contos de Machado de Assis, lançado em livro no ano de 1896. Isso significa que, antes dele, já haviam sido lançadas obras fundamentais como Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881) e Quincas Borba (publicado em formato de folhetim entre 1886 e 1891; e reunido em livro em 1892). Essas informações ajudam o leitor a entender que Várias Histórias é um livro de contos especialmente instigante, escrito por um escritor já maduro e disposto também a experimentar e a provocar o leitor.

São, ao todo, 16 contos: A Cartomante, Entre Santos, Uns Braços, Um Homem Célebre, A Desejada das Gentes, A Causa Secreta, Trio em Lá Menor, Adão e Eva, O Enfermeiro, O Diplomático, Mariana, Conto de Escola, Um Apólogo, D. Paula, Viver! e O Cônego ou Metafísica do Estilo. Entre eles, muitos são bastante famosos e figuram em diversas coletâneas dedicadas ao autor.

Um Apólogo é uma lição de concisão, uma das mais importantes características do conto. A disputa entre uma agulha e a linha que costuram um vestido de uma dama vai muito além da “lição de moral” típica do gênero. É, além disso, uma crítica sócio-política construída com cuidado e muitos subentendidos.

A Desejada das Gentes traz um Conselheiro (escrito antes do famoso Aires) que se lembra da “divina” Quintília, que havia sido disputada por ele com João Nóbrega: uma aposta entre amigos que é pretexto para que Machado crie mais uma de suas personagens femininas complexas e inesquecíveis.

Uns Braços é um texto que presenteia o leitor com ambiguidade e interdito. Nada (ou quase nada) está à mostra. O ambiente doméstico parece dar pouca abertura para um universo mais amplo, mas a imaginação do jovem Inácio e os braços de d. Severina, sua anfitriã, casada com Borges, leva o leitor a buscar, intrigado, em cada sinal sutil da narrativa, algo que frequentemente lhe foge: a atração de Inácio por d. Severina parece um estudo para o que depois viria a ser A Missa do Galo (de Páginas Recolhidas, lançado em 1899).

Enquanto isso, A Causa Secreta traz elementos de suspense, terror, loucura e é quase um thriller, cheio de personagens complexos psicologicamente que instigam a curiosidade do leitor para tentar entender todo aquele ambiente incômodo que, de alguma forma atrai a atenção.

Outra figura feminina inesquecível e misteriosa de Várias Histórias é D. Paula, personagem-título de um conto que, na superfície, é apenas mais uma história romântica que, se lido em profundidade e com cuidado, revela um jogo de poder que personagens muito singulares usam para defender seus próprios interesses.

Várias Histórias, enfim, é um exemplo acabado de que Machado de Assis parecia estar sempre atento ao resultado de sua obra como um todo, ao que desejava alcançar com cada texto ficcional e como, de certa maneira, testava situações e personagens que, com o passar do tempo, ia aprimorando.

*Jornalista, Mestre em Literatura Brasileira pela FFLCH/USP, autora da Dissertação Senhoras de Si: o Querer e o Poder de Personagens Femininas nos Primeiros Contos de Machado de Assis.

Conheça outros títulos da Coleção Clássicos Ateliê

As viagens do texto

Alex Sens*

Comecei a escrever ficção aos treze anos de idade, depois de ler muito e sentir que eu também podia contar uma história que ainda não tinha descoberto ou que, na minha jovem e ingênua vida literária, nunca fora escrita. Publiquei meu primeiro livro aos vinte, depois de participar de antologias e escrever textos esparsos por encomenda. Na época, o processo de produção de um livro me parecia muito simples e lógico, uma linha traçada sem desvios com começo, meio e fim: escrever, enviar o original para uma editora, ter o original corrigido de todos os erros e então publicado. Voilà! O livro era isso, o resultado de uma série de poucas etapas de cuja parte das funções cabia a mim. Certo? Não exatamente.

Foto de Alex Sens, tirada em uma livraria de Barcelona

Eu sabia que havia muito trabalho envolvido, que existia ali uma espessura densa e invisível por trás do livro finalizado, do objeto livro. No entanto, não sabia de suas inúmeras camadas e do quanto elas são importantes, ou melhor, do quanto são essenciais — por vezes, mais burocráticas, mais profundas e mais lentas do que a própria escrita. Porque a essência do livro enquanto objeto não é abstrata, tampouco romântica; ela é, antes de tudo, fruto de um longo trabalho em conjunto, organizado entre funcionalidades que, compostas, buscam um resultado comum. É a comunicação entre todas as partes envolvidas no processo de criação do objeto livro que vai produzir esse resultado. O livro é um bolo: cada ingrediente tem uma função para que ele exista, e o leitor fica sempre com a melhor fatia quando decodifica seus símbolos, lançando sobre esse bolo a luz da sua própria interpretação e encontrando nele um canal de fuga, de alegria ou de encontro.

Para uma criança ou para um adolescente que não lê, para qualquer um distante desse meio de produção, os livros nascem prontos, estão lá, simplesmente existem como existe o movimento dos ponteiros no relógio, a comida no prato, a televisão em frente ao sofá, a carteira na sala de aula, os cabelos brancos na cabeça do avô, ou, coisas mais naturais, como o dia e a noite, o Sol e a Lua, as águas do Rhône ou a lava do Kilauea. Quem vê a coisa, não pensa sobre a coisa: ela é — ao menos num primeiro momento. Pensando sobre o livro, somos atravessados não só pelo tempo, mas por uma longa cadeia de funções necessárias para que ele exista.

Com o passar dos anos (e me parece estranhamente sintomático não conseguir escrever isso sem esboçar um risinho nervoso), aprendi muito sobre o mundo editorial e livreiro, mas preciso e quero aprender muito mais. Escrevo há quase duas décadas, mas só nos últimos dez ou doze anos fui me inserindo melhor nessa área, me dividindo naturalmente, de forma orgânica e incontornável. A divisão consistiu, e ainda consiste, entre o Alex Sens que cria — escrevendo, colocando “escritor”, com um orgulho quase acintoso, na primeira página da declaração do imposto de renda, indo a eventos literários, tentando prêmios e aprendendo que tudo tem seu tempo de ampulheta quando se trata da linguagem e da criação literária como vocação — e o Alex Sens que revisa — corrigindo, reparando nas bordas, se cortando com as farpas dos erros, preparando o texto, sugerindo, apontando, que percebe com o olhar os ruídos entre as palavras. Às vezes, eles se confundem, se fundem, se aglutinam, trabalham juntos. Outras vezes, brigam entre si e precisam ficar separados.

Então, da escrita literária, daquilo que me escolheu antes da minha própria escolha, eu passei a revisar. Sempre revisei meus próprios textos como uma etapa da própria escrita, como um verniz para as palavras. Eu via a revisão como uma lapidação, um aperfeiçoamento do texto bruto. Em parte, ela o é. Mas mais do que isso, a revisão e a preparação de um texto são formas de aprimorar a viabilidade da comunicação entre autor e leitor. Depois que um escritor entrega seu original a uma editora, é papel do editor, do revisor e do preparador cuidar desse original, tentar diferentes roupas, vernizes, lapidações e até sonoridades. Também essas coisas cabem ao escritor, mas esses profissionais existem como uma espécie de terceiro olho, que vai enxergar coisas que ele, o escritor, já não consegue ver, tão acostumado ele está com a história — e muitas vezes perfeitamente acomodado nela. São esses terceiros olhos que vão limpar uma série de vícios, repetições, ecos, erros e às vezes iluminar passagens obscurecidas pela própria familiaridade do autor com sua obra. Depois, ele lê a prova, já revisada, aprova ou desaprova, e só então libera seu texto para a diagramação, que será a aparência do livro, relê outra vez e todos esses olhares, todas essas camadas, essas intervenções, seguem para a gráfica, onde tudo será concretizado, transformado em objeto palpável. Obviamente, a ordem das camadas, o tempo e a espessura de cada uma, dependem do método de cada editor, da fórmula de cada profissional, da ansiedade de cada autor.

Mercado, processos editoriais, análise, setor comercial, projeto gráfico, indexação, ISBN são alguns dos poucos e mais básicos termos do universo editorial, sem falar em gralhas, pastéis, print, remissiva e tantos outros que entram no processo de revisão e de preparação de um original, atravessando todos os envolvidos. Ninguém que esteja do lado de fora desse cosmos da publicação precisa de fato conhecer estes termos, compreender o processo que, muitos anos depois, descobri não ser apenas uma linha traçada sem desvios com começo, meio e fim, mas uma espiral em movimento, uma linha labiríntica e quase infinita, um corpo vivo, multifuncional e onidirecional. Este corpo, que é o processo de publicação, não termina quando o livro está editado e exposto nas livrarias, guardando no coração de suas páginas, ali próximo à costura e à cola, o perfume do papel impresso que libera nos leitores mais do que um prazer afetivo, um prazer ancestral (desde a oralidade na contação de histórias); não, este corpo não tem fim: depois de publicado, um livro ainda mexe com uma imensa cadeia que envolve livreiros, distribuidores, armazenamentos, logísticas, empregos, direitos autorais, e talvez, às vezes, alguns bons acidentes de percurso, como prêmios, traduções e adaptações audiovisuais — outro corpo que dele nasce e se ramifica numa nova cadeia, poderosa e essencial para a cultura de um povo.

*Escritor, nascido no ano de 1988 em Florianópolis, SC, e radicado em Minas Gerais. Publicou Esdrúxulas, pequeno livro de contos de humor negro e realismo mágico, seguido pelo livro artesanal Trincada. Teve contos e poemas publicados em sete coletâneas e em revistas literárias virtuais, assim como resenhas de livros, entrevistas e críticas em sites de jornalismo cultural. O Frágil Toque dos Mutilados (Autêntica Editora, 2015), seu romance de estreia, venceu o Prêmio Governo de Minas Gerais de Literatura 2012 na categoria Jovem Escritor.

Um guia de viagem inusitado

O escritor e designer Gustavo Piqueira esteve na cidade de São Francisco do Pará em janeiro de 2020. Lá, fotografou todas as placas comerciais da cidade. O resultado é um documento que mais parece um mapa de viagem, com tiragem única de mil exemplares. “Ao desdobrar o enorme cartaz que exibe, condensado num intricado mosaico, todo o conteúdo do livro, o leitor é convidado a refletir sobre questões que vão da relação entre a linguagem visual e a mensagem da qual é portadora até o quanto um recorte do Brasil distante de seus centros econômicos é, de fato, representativo desse lugar ou não passa de um olhar concentrado somente naquilo que lá encontra de diferente e logo enquadra como exótico”, explica Piqueira.

Toda a cidade de São Francisco do Pará conforme encontrada no dia 12 de janeiro de 2020 é exatamente aquilo que seu título declara: uma cidade comum do Brasil que, num dia qualquer, recebeu o registro fotográfico de todas as suas placas comerciais. Todas. Sem nenhum filtro, nenhum recorte. Uma visão completa de uma cidade, sem juízo de valor ou de gosto. Um retrato de quais histórias seus habitantes contam para si mesmo, de como as contam.

A aparente neutralidade, contudo, é ilusória. Pois ao desdobrar o enorme cartaz que exibe, condensado num intricado mosaico, todo o conteúdo do livro, o leitor é convidado a refletir sobre questões que vão da relação entre a linguagem visual e a mensagem da qual é portadora até o quanto um recorte do Brasil distante de seus centros econômicos é, de fato, representativo desse lugar ou não passa de um olhar concentrado somente naquilo que lá encontra de diferente e logo enquadra como exótico. A seguir, o autor fala ao Blog Ateliê:

Como surgiu a ideia do livro-objeto?

Gustavo Piqueira: Penso que há algum tempo já me debruço sobre questões ao redor do tema central do livro, que são as definições sobre o que deve ou o que não deve ser admirado como “arte” ou “cultura” e, dentro desse assunto amplo, venho olhando para algumas manifestações daquilo que se convencionou chamar de “arte popular” — como em meu livro “Desvios” (WMF Martins Fontes/2018), sobre fachadas populares contemporâneas do sertão nordestino. Falando especificamente desta obra, o “Toda a cidade…”, ela nasceu inicialmente numa visita à ala de ex-votos da Casa Museu do Padre Cícero, em Juazeiro do Norte. Além dos já esperados entalhes de madeira, singelas representações de braços, pernas e cabeças curadas pela fé, encontrei uma boa quantidade de presentes de outra ordem — igualmente oferecidos por fiéis em agradecimento pelas graças alcançadas —, como fotos de motos estacionadas em frente à estátua do padre milagreiro, camisas de times de futebol (sobretudo a do Flamengo) e miniaturas de carros, entre elas a de um Porsche branco. Nenhum problema nisso: cada um sabe de seus desejos e aflições. O que me chamou mesmo a atenção foi o fato de que sempre que ex-votos são expostos, por exemplo, aqui em São Paulo — despidos de sua função religiosa e transformados exclusivamente em expressão cultural de um suposto Brasil profundo —, não se costuma incluir na mostra fotos de motocicletas, mantos rubro-negros ou Porsches brancos. Com certeza, não por falta de espaço nas salas expositivas. Então o que realmente enxergamos? Quais são essas vozes que não apenas organizam e escolhem a cultura a ser consumida como também ensinam ao espectador como consumi-la?

Por que ele foi feito durante uma viagem?

GP: Na verdade ele nasceu no meio de uma viagem, uma longa viagem de carro indo de Juazeiro do Norte a Belém. São Francisco do Pará não estava no roteiro inicial, foi escolhida em função do surgimento do projeto do livro, cuja ideia passava por escolher aleatoriamente uma cidade comum do Brasil que, num dia qualquer, recebeu o registro fotográfico de todas as suas placas comerciais sem nenhum filtro, sem nenhum recorte. Uma visão completa de uma cidade, sem juízo de valor ou de gosto. São Francisco do Pará se encaixava nos parâmetros que defini para o livro (em termos de população e atividade) e ficava relativamente próxima ao trajeto original da viagem, então foi a escolhida.

Lançar um livro feito durante uma viagem em meio a uma pandemia, que obriga a um distanciamento social, é de alguma maneira uma inspiração, um apelo à esperança de que esta fase vai passar? Qual o significado disso, para você?

GP: O livro estava feito antes da pandemia, então não existe relação direta. E creio que seu assunto é válido independentemente do impacto da pandemia (que vai passar, mas vai deixar marcas). Claro que, neste 2020, a chegada da pandemia interrompeu meus projetos de livro que envolviam viagens — dois deles foram seriamente prejudicados por isso — mas, por outro lado, fez nascerem outros que talvez não tivessem brotado não fosse o isolamento (ainda que nenhum deles seja sobre isolamento, pandemia ou algo diretamente ligado ao tema). 

Por que fotografar os letreiros especificamente?

GP: Não é uma maneira muito habitual de se retratar uma cidade, eu sei: normalmente escolhem-se suas edificações, sua paisagem natural ou sua gente. Mas porque não os letreiros? Afinal, eles são peças que unem mensagens em texto e imagens, elaboradas pelos próprios moradores da cidade para se comunicar com os demais moradores. Não são esses ótimos ingredientes para se compor um retrato consistente?

Que história esses letreiros contam?

GP: Creio que os letreiros comerciais contam histórias muito ricas, pois neles é possível encontrarmos quais as atividades  movimentam a cidade, quais os códigos visuais utilizados para comunicá-las (ou seja, qual o repertório visual daquela população), quais as técnicas utilizadas para produzi-los… Dá pra falar de local x global, dá pra falar de manualidade x digital… É um material de aparência prosaica mas que, a meu ver, abre caminho para reflexões das mais ricas.

Como é feito o acabamento do livro? São colagens feitas uma a uma?

GP: Sim, as etiquetas de título/autor são coladas uma a uma. O formato do livro brinca com aqueles antigos mapas impressos de viagem, vem daí a ideia para seu tamanho pequeno que se desdobra num grande cartaz.

Em sua opinião, o livro só interessa ao público ligado ao design ou também ao público em geral?

GP: Gostaria de acreditar que o interesse do livro transcende sua forma e alcança todos aqueles que, de algum modo, se interessam por refletir sobre as questões que coloquei, vinculadas a nossa própria percepção do Brasil, a nosso olhar sobre a produção dita “popular”, a pensar sobre quem escolhe o que consumimos com o rótulo de “cultura”…

Você já tem outros projetos de livro em mente? Pode falar sobre isso?

GP: Sim, tenho alguns. No começo de 2021 lançarei o quinto volume de minha coleção Gráfica Particular, “A Cidade sem nome de Torres-García” (Lote 42), além de um livro sobre a história de São Paulo, “A Pirâmide do Piques” (Edições Sesc) e “Domex“, uma história em quadrinhos (Editora Veneta). Esses são os que estão prontos já. Dos que farei, pela Ateliê, planejei com o Plinio de escrever e lançar, neste 2021 que chega, um volume para a coleção Artes do Livro, da qual já participei organizando/desenhando “William Morris – Sobre as Artes do Livro”, mas desta vez serei também o autor. Será mais um ano produtivo, espero.

Cinema Popular: política e resistência

Em Por um Cinema Popular Leon Hirszman, Política e Resistência, o professor de cinema da Universidade Federal Fluminense, Reinaldo Cardenuto analisa a militância do cineasta carioca, um dos nomes mais importantes do cinema novo.  No livro, o autor retoma Que País é Este?, filme desaparecido que o cineasta dirigiu em 1976 e avalia as leituras que o cineasta fez sobre o país em sua obra, tomando como pano de fundo outras manifestações artísticas que fizeram resistência ao período da ditadura militar (1964-1985). A seguir, o Blog Ateliê conversa com Reinaldo Cardenuto:

Por que escolheu analisar a obra de Leon Hirszman no período de 1976 a 1981?

Reinaldo Cardenuto

Reinaldo Cardenuto: Quando iniciei as pesquisas para a realização do meu livro, eu não possuía uma definição tão clara acerca do período de tempo no qual concentraria os meus estudos. Originalmente, minha pretensão era analisar dois filmes nos quais Hirszman explicitava o seu posicionamento político antagônico à ditadura militar brasileira: ABC da greve, filmado em 1979, e Eles não usam black-tie, finalizado no ano de 1981. Tratam-se de dois longas-metragens que se voltam para a questão do movimento operário, que propõem leituras acerca do sindicalismo combativo que emergiu como força social de resistência no final da década de 1970. No decorrer das pesquisas, porém, foi ficando claro que a investigação em torno desses filmes exigiria um conhecimento geral sobre a trajetória artística de Leon Hirszman, assim como estudos acerca da história política e cultural do Brasil entre os anos de 1950 e 1980. Para pensar o filme Eles não usam black-tie, por exemplo, tornava-se fundamental refletir sobre a peça homônima que Gianfrancesco Guarnieri escreveu em 1956, em um contexto anterior à instauração da ditadura militar, partindo de tal conhecimento para analisar o processo criativo que levou Hirszman a adaptar e atualizar esse texto teatral em 1981. A partir da construção desse quadro geral em torno da história do Brasil e da obra de Hirszman, foi se tornando evidente que os filmes realizados pelo cineasta entre 1976 e 1981continham um traço mais explícito de militância contra o regime autoritário do período. Ainda que ele sempre tenha feito um cinema de engajamento político, atrelado às heranças do comunismo, foram nesses anos que sua obra demarcou, mais intensamente, uma resistência à ditadura militar. Em meio às pesquisas, a descoberta do material remanescente em torno do filme desaparecido Que país é este?, dirigido por Hirszman em 1976, confirmou que foi a partir de meados da década de 1970 que o cineasta voltou-se para um fazer cinematográfico atrelado à defesa de um frentismo político amplo em prol da redemocratização do Brasil. Em suma, posso dizer que meu livro investiga sobretudo a obra de Hirszman entre 1976 e 1981, propondo reflexões acerca de suas leituras do país, de suas experiências estéticas e de seu lugar no mundo, mas ao mesmo tempo expande a análise para a trajetória integral do cineasta.

O que essa obra de Hirszman traz que ilumina a relação entre arte e resistência durante a ditadura militar que outras obras/artistas não trazem?

RC: Durante os anos 1960 e 1970, a resistência contra a ditadura militar foi bastante heterogênea. Longe de ser um bloco uno e indistinto, ela se caracterizou por uma multiplicidade de projetos, de ações e de pensamentos. No decorrer de minhas pesquisas, com o intuito de melhor compreender o lugar político de Hirszman, eu me vi diante do desafio de traçar um panorama das resistências culturais existentes no período. Nesse sentido, acabei estudando manifestações artísticas diversas, a exemplo da contracultura, do teatro político da década de 1970 ou do cinema realizado pelo novo sindicalismo na região do ABC. Ainda que meu livro seja principalmente sobre Hirszman, o leitor encontrará em suas páginas informações sobre essas várias manifestações da cultura brasileira. Tal pluralidade da resistência, aliás, tornou-se um dos principais objetos de investigação do historiador Marcos Napolitano, cujos textos foram fundamentais para a minha pesquisa. Uma vez montado esse “painel das resistências”, foi ficando mais claro, para mim, o lugar de Hirszman na oposição ao regime autoritário. Se ele nada tinha a ver com o projeto da contracultura ou da marginália, ainda que tenha flertado com essa opção no ano de 1969, ao mesmo tempo a sua cinematografia aproximava-se intensamente da revisão política e estética promovida nos anos 1970 pelos dramaturgos oriundos do Teatro de Arena. Fui percebendo, com o tempo, as divergências e convergências de Hirszman com o campo cultural do período. Percebendo, por exemplo, que havia perspectivas distintas de resistência política e artística entre os cineastas que filmaram as greves operárias na região do ABC, sendo que o projeto fílmico de Renato Tapajós, atrelado diretamente às atividades sindicais metalúrgicas, diferia do projeto de Hirszman, um cineasta integrante do Partido Comunista Brasileiro. Por meio desses estudos comparativos, e de um grande investimento em pesquisas documentais, a perspectiva que mobilizava a resistência de Hirszman foi se apresentando. Filiado a vida toda ao PCB, proveniente do Cinema Novo e do Centro Popular de Cultura, o cineasta acreditou em uma arte que dialogasse criticamente com amplas camadas de público, voltando-se para a defesa do frentismo político como opção para o confronto contra a ditadura. A noção de frente ampla, de união das diversas forças sociais em oposição ao regime autoritário, foi aquilo que estimulou a militância artística de Hirszman, especialmente nos filmes realizados entre 1976 e 1981. Foi nesse lugar que ele se posicionou em prol da redemocratização do Brasil. Um lugar que não era apenas seu, mas que ele manifestou de modo singular em filmes como ABC da greve e Eles não usam black-tie.

Como o senhor define o “cinema popular” que dá título ao livro?

RC: O “cinema popular” que se encontra no título do livro remete sobretudo ao projeto criativo de Leon Hirszman. Por um lado, como um artista de herança marxista e que fez de sua obra um ato constante de engajamento político, Hirszman encontrou na classe popular a essência de sua criação cinematográfica. De filme a filme, nas ficções e documentários que ele realizou, o povo emerge quase sempre como instância protagônica para as leiturascríticassobre o Brasil, num constante desvelar das tragédias e resistências que marcam a condição dos oprimidos em nosso país. A cultura popular, a exemplo do samba de raiz carioca, apresenta-se continuamente na obra de Hirszman como manifestação de identidades comunitáriasem resistência às forças de opressão. Por outro lado, a ideia de “cinema popular” também se origina da aposta de Hirszman em um fazer artístico que permitisse diálogoscríticos com amplas camadas de público. Defensor do apuro formal, experimentando no decorrer da vida diversas possibilidades de realismo cinematográfico, o realizador procurou comunicar-se com os espectadores sem abrir mão de sua autoria criativa ou de práticas inventivas do ponto de vista estético. Em Eles não usam black-tie, por exemplo, a leitura crítica sobre o Brasil vem construída a partir de elementos de grande apelo de público, a exemplo do melodrama ou de uma experiência realista demarcadamente emocional. O título do livro, portanto, remete a essas perspectivas que mobilizaram Hirszman. O leitor, no entanto, encontrará nas páginas da publicação outras noções do que seria um “cinema popular” durante o regime militar. Projetos que por vezes entraram em disputa com o viés assumido por Leon Hirszman.

Leon Hirszman

Quando se fala em cinema político, há quem possa entender que a questão é muito mais de conteúdo que de forma. Do ponto de vista estético, quais foram as contribuições do cinema de Hirszman?

RC: Em parte, creio que essa pergunta já foi respondida na questão anterior. De modo algum, Hirszman foi um cineasta que compartilhou do pressuposto de que o conteúdo político de um filme é mais significativo do que as pesquisas estéticas no campo artístico. Penso que Leon buscou, insistentemente, um projeto cinematográfico no qual as leituras críticas do país se tornassem acessíveis ao público, sem com isso abrir mão de um apuro formal vinculado às heranças do realismo. Demarcando uma contrariedade às perspectivas estéticas tidas como herméticas, o cineasta reivindicou uma arte comunicativa, que alcançasse criticamente os espectadores, sem deixar de lado um investimento criativo e poético na qualidade formal. Seu filme de estreia, o curta-metragem Pedreira de São Diogo (1962), é um exemplo do que estou comentando: um curta-metragem de narrativa universal, a conter uma pedagogia revolucionária de luta contra a opressão, mas realizado em íntimo contato com a riqueza estética proveniente do cinema soviético de Sergei Eisenstein. Percorrer a obra ficcional de Hirszman é perceber um constante exercício criativo, feito com grande paixão e rigor técnico, a partir do qual o cineasta envolveu-se com múltiplas tradições do engajamento realista. Assim, enquanto S. Bernardo (1972) é uma obra tributária do realismo brechtiano, Eles não usam black-tie (1981) dialoga com o realismo oriundo do Teatro de Arena. Já no campo do documentário, com algumas exceções, Hirszman sempre buscou uma convivência entre registros poéticos da realidade social e o uso de vozes narrativas, politicamente pedagógicas, a instaurar leituras críticas sobre o país. Ainda que seja muito difícil sintetizar, em poucas palavras, a riqueza estética do cinema de Hirszman, penso que uma boa chave de leitura é essa noção de “equilíbrio” entre forma e conteúdo. O conteúdo precisa alcançar os espectadores, conscientizando-os politicamente, mas ao mesmo tempo a experiência estética não pode abdicar de suas autonomias criativase de seus gestospoéticos. Não à toa, em seus longas-metragens, Hirszman sempre nos surpreende com uma sequência fílmica altamente inventiva, a conter expressões singulares de poesia: a sequência da chuva em A falecida (1965), a vela se apagando em S. Bernardo ou as cenas de separação do feijão em Eles não usam black-tie. De fato, creio eu, a arte política não deve diminuir a qualidade estética em nome de seus engajamentos ideológicos.

Filmagens de Eles não usam black-tie

 
Em Por um Cinema Popular Leon Hirszman, Política e Resistência senhor destaca três eixos da dramaturgia de Hirszman: o retorno às representações politizadas do povo, a insistência no militante de esquerda como interlocutor do engajamento e o elogio à forma dramática realista, especialmente na chave emoção-conscientização. Algum desses eixos deixou um legado mais forte no cinema brasileiro? Hirszman foi o único de seu tempo a unir  essas características?
RC
: O que eu procuro demonstrar no livro é que vários artistas próximos ao comunismo, no decorrer da ditadura, voltaram-se para uma revisão de seus processos criativos. Ainda que vivessem uma forte crise em seus ideários revolucionários de juventude, decorrente da derrota política para a extrema direita que tomou o poder a partir de 1964, muitos artistas sentiram nos anos 1970 a necessidade de repensar seu fazer artístico para potencializá-lo como resistência ao autoritarismo. Da parte dos dramaturgos provenientes do Teatro de Arena, a exemplo de Gianfrancesco Guarnieri, Paulo Pontes e Vianinha, tal revisão resultou em três eixos. Primeiro, a recolocação da classe popular no centro de suas narrativas, posicionado-a nos palcos como mediação para a leitura acerca da tragédia política brasileira. Segundo, a manutenção do artista e intelectual de esquerda como sujeito social que detém o compromisso da militância em prol dos valores democráticos. E terceiro, a insistência em narrativas realistas, acessíveis e crítica à condição brasileira, que através da emoção dramática conscientizassem politicamente os espectadores. Tratava-se, para eles, de um afastamento das idealizações de juventude, das representações teleológicas do povo e da realidade nacional, sem com isso abdicar de um engajamento no campo cultural. O interessante é que Hirszman, cuja proximidade com os dramaturgos oriundos do Arena era intensa, acabou aderindo a esses eixos revisionistas que ocuparam parte do teatro político da década de 1970. Não à toa, essa tríade de questões encontra-se na origem do filme Eles não usam black-tie, justamente uma adaptação da peça escrita por Guarnieri no ano de 1956. No campo cinematográfico, ao que tudo indica, Hirszman foi quem mais aderiu às revisões propostas durante a ditadura pelos dramaturgos comunistas. Partilhavam, sem dúvida, uma mesma visão ideológica de mundo. Ainda que tais eixos sejam referentes a um projeto específico de arte, dentro de um contexto ditatorial, talvez seja instigante relembrar que na história do cinema brasileiro há uma farta herança relacionada às representações politizadas em torno da classe popular. Sem dúvida, quando evocamos cineastas contemporâneos como Affonso Uchôa, João Dumans, Kleber Mendonça Filho ou Renan Rovida, reencontramos, por meio de novas formulações estéticas, a permanência da classe popular como instância protagônica para a reflexão crítica de nossas (de)formações autoritárias. Seria complicado tecer uma ligação automática entre a obra de Hirszman e a desses realizadores, tal relação exigiria novas pesquisas, mas sem dúvida percebe-se que certas tradições de engajamento artístico sobrevivem reformuladas no contemporâneo.


Que País é Este? não é muito conhecido. Qual a importância dele dentro do contexto da obra de Hirszman e qual o impacto de colocá-la no centro da análise para entender esse artista?

RC: Que País é Este? é um documentário que Leon Hirszman realizou, entre 1976 e 1977, para a emissora televisiva RAI. Infelizmente, trata-se de um filme desaparecido. Ao que tudo indica, embora não seja uma informação totalmente confiável, a obra foi destruída durante um incêndio que ocorreu nos arquivos da emissora italiana. Por esse motivo, tornou-se uma parte desconhecida da trajetória artística de Hirszman. No entanto, durante os estudos para a composição do livro, eu acabei me deparando com fontes de pesquisa que permitiram ampliar o conhecimento acerca de um filme não mais existente. Investigações realizadas no Arquivo Edgard Leuenroth, da Unicamp, revelaram a sobrevivência de documentos originalmente pertencentes à Que país é este?. Tendo em mãos esse material, sobretudo uma transcrição integral e em italiano da banda sonora do filme, eu pude finalmente obter uma ideia mais precisa sobre o conteúdo outrora presente no documentário. Em Que país é este?, posicionando-se contraos discursos ditatoriais de enaltecimento à pátria e ao desenvolvimentismo conservador, Hirszman propunhauma revisão crítica da História do Brasil, evidenciando a (de)formação autoritária de uma nação na qual a classe popular é continuamente massacrada pelas forças políticas no poder. A partir de entrevistas com intelectuais atuantes no período, a exemplo de Alfredo Bosi e Fernando Henrique Cardoso, o documentário percorria a nossa história com o intuito de evidenciar a condição dos oprimidos em solo brasileiro. A condição de um povo que, a despeito de viver sob os efeitos perversos da violência e da precariedade social, insiste em construir formas de resistência contra a opressão. O interessante, e essa foi uma das principais descobertas da minha pesquisa em torno de Que país é este?, é que o documentário alcançava a contemporaneidade dos anos 1970, levantando questões acerca das possibilidades de atuação contra o regime autoritário. Após propor a revisão da história do país e de levantar críticas às condições insalubres do tempo presente, o filme de Hirszman esboçava um programa político de oposição à ditadura. Era a primeira vez que a obra do cineasta manifestava a defesa de um frentismo ideológico em prol da redemocratização brasileira, sugerindo que todos os opositores do regime deixassem suas diferenças de lado para se unir em um grande bloco de atuação. A canção que encerrava o filme, “Cordão”, de Chico Buarque, traduzia esta perspectiva assumida por Hirszman. O material remanescente de Que país é este?permitiu, portanto, a obtenção de novas pistas acerca do lugar político e cultural ocupado pelo cineasta na década de 1970. Também permitiu observar a convergência de Hirszman com os dramaturgos provenientes do Teatro de Arena, uma vez que algumas peças desse grupo eram citadas diretamente no filme. Descobertas como essa, que aqui descrevi em poucas palavras, tornam-se muito motivadoras para quem se envolve com pesquisas na área de história. Imagine só: o material sobrevivente de um filme desaparecido, há décadas armazenado em um acervo, tornou-se crucial para o estudo sobre a atuação política e o projeto artístico de um dos principais cineastas do país. Por esse motivo, nos anexos do livro, acabei incluindo uma versão completa (e comentada) da banda sonora de Que país é este?

Qual o legado da obra de Hirszman e como ela ecoa no Brasil de 2020?

RC: Sobre tal questão, se me permite, gostaria de citar uma breve passagem presente na parte final de meu livro. A obra de Leon “permanece viva enquanto objeto artístico a difundir sentimentos de aversão à violência de Estado e às formas de dominação ainda presentes em nossa sociedade. Por mais paradoxal que possa parecer, a filmografia de Hirszman, em especial ABC da greve e Eles não usam black-tie, encontra atualidade nos dias de hoje ao expor contradições nunca superadas, ao posicionar-se contra estruturas antidemocráticas que estavam em vigor no passado e adquirem outras roupagens no contexto contemporâneo. Das obras do cineasta, sobrevivem sentimentos relacionados a um desejo ainda vivo, ao anseio de que o país um dia suplante sua cultura autoritária em nome da consolidação efetiva do sistema democrático. Enquanto restarem expectativas de futuro, mesmo que marginais e despotencializadas, o cinema de Hirszman traduzirá aspirações políticas de transformação. A sua filmografia ganha atualidade, continua provocando inquietações, onde permanece em pé uma vontade de ruptura com as forças de dominação”.

A Voz e o Tempo

Por: Renata de Albuquerque

Vencedor do Prêmio Jabuti de Psicologia e Psicanálise 2009, A Voz e o Tempo – Reflexões para Jovens Terapeutas acaba de ganhar uma terceira edição. A novidade é um posfácio, escrito pelo autor, Roberto Gambini, no qual ele faz a reflexão/provocação: Com que direito pode um analista declarar a verdade sobre seu paciente?”. No texto, a partir de sua experiência junguiano, Gambini escreve sobre como lida com o poder que a palavra que o analista tem para seus pacientes.

Ele lembra que a psicanálise foi concebida como talking cure – a cura resultante da conversa e que esse contexto já mostra muito sobre a importância das palavras no processo – e sobre a relevância das palavras do terapeuta.

“A questão aqui é o que o terapeuta diz, baseado em quê, como diz, e desempenhando que tipo de papel que por acaso creia ter-lhe sido de alguma forma atribuído, e através de cujo desempenho recebe ele seus proventos. Como reage ele a esse apelo de quem o procura, às vezes formulado claramente, outras vezes pronunciado como uma insinuação, um subtexto?”, pergunta-se (ou pergunta ao leitor?) Gambini.

Mas, para além da voz, está o tempo. O psicanalista (assim como o artista, conforme nos lembra, no prefácio, Adélia Bezerra de Meneses), cria elos com o tempo. É este tempo que matura as reflexões do terapeuta e suas elaborações teóricas, todas feitas a partir do prisma único de sua subjetividade e da relação que estabelece cada paciente seu. “(…) a decantação de leituras e estudos, construção de caminhos absolutamente não corriqueiros para se pensar a terapia e a vida, e sobretudo, algo que radica na empiria e que é fruto da interação com o paciente, no seu oficiar quotidiano do consultório, em sintonização rente à subjetividade do outro”, escreve  Meneses, antes de concluir: “A Voz e o Tempo condensa aquilo que é o cerne, o caroço, o essencial para alguém que se entrega à sua atividade como a um destino”.

Para um livro escrito por um terapeuta para terapeutas, este tem foi feito a partir de um fato muito singular. Nas palavras de Gambini, o livro “nasceu falado”, fruto de palestras e de depoimentos que Gambini concedeu a Adélia Bezerra de Meneses e Enrico Lippolis, dez anos depois das palestras que originaram a primeira parte do livro.

Nos escritos originados das falas, Gambini fala de como se aproximou de Jung, de sua trajetória, de como seu trabalho como professor abriu as portas para seu trabalho como analista e de outras questões que podem contribuir com jovens terapeutas, como o ofício do terapeuta, os desafios da transferência e a importância de exercitar a escuta – e como, tão importante quanto ela, torna-se, na trajetória de Gambini, o diálogo. O livro traz ainda uma carta com a interpretação do Dr. Karl Heinrich Fierz a um teste tipológico de Jung ao qual o autor submeteu-se nos anos 70. Todos esses elementos, somados, oferecem um panorama interessante sobre as idéias de Gambini, sobre seu fazer terapêutico e são, para os jovens terapeutas que se dispõem a ler a obra, uma experiência certamente enriquecedora.

“Esaú e Jacó”: uma superfície simples com significados complexos

A Ateliê acaba de lançar, na Coleção Clássicos Ateliê, Esaú e Jacó, o penúltimo livro de Machado de Assis, uma obra que até hoje suscita interesse e intriga os leitores e a crítica. Para falar sobre o lançamento, o Blog da Ateliê conversou com José De Paula Ramos Jr, doutor em Literatura Brasileira pela USP e professor da ECA. Ele é coordenador da Coleção Clássicos Ateliê e estabeleceu o texto e elaborou as notas de Esaú e Jacó. Acompanhe:

Como foi o processo de estabelecer o texto e as notas desta edição? Quais foram os principais desafios?

José De Paula Ramos Jr

José De Paula Ramos Jr: O romance Esaú e Jacó, de Machado de Assis, é publicado em 1904 pela editora Garnier, que nesse mesmo ano lança a segunda edição da obra.  A terceira é póstuma, de 1917, pela mesma editora Garnier. Assim, a segunda edição vem a ser dotada de autenticidade, legitimidade e genuinidade, pois o texto expressa a última vontade autoral explícita. Por essa razão, serviu de texto de base para a edição Ateliê, mas foi feita a colação com a lição textual da primeira edição. A lição contida na edição crítica do romance (Civilização Brasileira / MEC, 1977) serviu como texto de controle. A edição Ateliê corrige erros, atualiza o texto, segundo o Acordo Ortográfico de 1990, apresenta profusas notas explicativas, que contribuem para a inteligibilidade do texto, em favor, sobretudo, do leitor em formação, e contém um rico e agudo estudo, escrito por Paulo Franchetti, professor da Unicamp, especialmente para a edição Ateliê.

Esaú e Jacó é um dos livros de Machado de Assis que mais atingiram o “sucesso de público” quando lançado (prova disso são as duas edições que ele teve no mesmo ano). O senhor acredita que ele ainda é um romance que pode agradar ao público do século XXI?

JDPRJ: Esaú e Jacó é um clássico tão respeitável quanto Memórias Póstumas de Brás Cubas e Dom Casmurro. Trata-se de uma obra perene. Isso significa que ela ultrapassa a fronteira histórica em que foi escrita e é sempre atual.

Apesar da sinopse simples, o senhor acredita que há uma complexidade em Esaú e Jacó? De que maneira isso se coloca na obra?

JDPRJ: Na superfície, Esaú e Jacó contém, de fato, um enredo simples: a história da desavença entre dois irmãos gêmeos, que brigam desde o útero até a idade adulta, são a antítese um do outro, inclusive politicamente, a despeito da grande semelhança física, apaixonam-se pela mesma mulher, que hesita entre os dois, adoece e morre, sem que haja escolhido um deles, que permanecem irreconciliáveis até o fim da narrativa. No entanto, essa superfície aparentemente simples contém significados complexos, que são percebidos por uma leitura atenta aos efeitos de sentido construídos pelo texto –alusões eruditas, comentários do narrador, a intertextualidade, a paródia, a alegoria, a ironia e o humor. Os que percebem coisas como essas encontram um prazer muito maior na leitura.

Aires, que reaparece no livro seguinte de Machado (Memorial de Aires) repõe a questão do “narrador problemático” que perpassa parte da obra de Machado. Afinal, em sua avaliação, ele é narrador ou apenas personagem da obra?

JDPRJ: Em Esaú e Jacó, o conselheiro Aires se desdobra em narrador e personagem. Narra em primeira pessoa e interage com os protagonistas e com personagens secundárias.

José Veríssimo fala da “novidade” em Esaú e Jacó: “O seu principal encanto talvez esteja no contador. Cada livro dele, de parte o estilo, traz uma novidade. A de Esaú e Jacó é a do assunto, que tem, do modo por que é exposto, toda a figura de um fato novo” (trecho da apresentação da edição da Ateliê). Em sua opinião, qual é essa “novidade” de Esaú e Jacó, já que a história de Pedro e Paulo (como indica o título do romance) tem traços tão antigos quanto as histórias bíblicas? 

JDPRJ: Sim, o romance contém elementos de uma vasta tradição cultural e literária, mas esses elementos são atualizados na escrita de Machado de Assis, o que confere o “frescor” de que fala José Veríssimo. Aliás, por ser um clássico, mantém esse frescor nos dias atuais.

Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis

No universo da crítica literária, muito se debate sobre qual é e onde se localiza no texto o “Realismo” de Esaú e Jacó e se ele deve ser tomado “a contrapelo”. Qual sua análise sobre o assunto?

JDPRJ: Machado manteve distanciamento crítico em relação aos cânones do Realismo, principalmente em relação à corrente do Naturalismo. Em suas obras, posteriores a 1881, Machado, usualmente, faz paródias irônicas do cientificismo expresso nas obras literárias quer do Realismo, quer do Naturalismo. Para Machado, a representação artística da vida não deveria se sujeitar à camisa de força do materialismo cientificista, mas libertar a imaginação ao ponto de inventar um defunto autor (um morto que escreve) nas Memórias Póstumas de Brás Cubas, como estratégia imaginativa para melhor configurar a realidade psíquica e social. Nesse sentido, podemos admitir como realistas as obras de Machado posteriores a 1881, mas de um realismo sui generis, pois não renuncia à imaginação, à fantasia e, mesmo, ao maravilhoso, como no caso das Memórias Póstumas de Brás Cubas.

Conheça outros títulos da Coleção Clássicos Ateliê

Cor para sublimar a dor

“As Fontes Primárias de uma História Natural da Paleta do Artista”, de Philip Ball foi traduzido por Roberto Oliveira e disponibilizado gratuitamente, no formato de e-book, no site da Ateliê Editorial. O e-book traz história das cores nas pinturas antigas. Do que eram feitas as tintas na era pré-industrial? Com projeto gráfico de Gustavo Piqueira e Samia Jacintho/Casa Rex, As Fontes Primárias de uma História Natural da Paleta do Artista, Philip Ball dedica um capítulo para cada cor primária (vermelho, amarelo e azul), contando histórias e curiosidades, em uma leitura fluida, leve e cheia de informação. A seguir, o tradutor e escritor Roberto Oliveira (que também é médico, bacharel em direito e pesquisa sobre Bioética e Mídia) fala sobre a obra:

O que o motivou a traduzir a obra?

Roberto Oliveira: A tradução de As Fontes Primárias… deve-se a uma descoberta feita nos últimos anos quando comecei a fazer a pesquisa iconográfica para ilustrar A Visita da Peste, livro escrito em co-autoria com Jerusa Pires Ferreira e que deve ser lançado brevemente pela Ateliê Editorial. À medida que avançávamos nos textos sombrios da peste, fui encontrando obras de arte de um colorido vivíssimo, como se fossem marcas de uma tentativa de superação/sublimação do sofrimento, sobretudo, mas não só, pela celebração da salvação e misericórdia divinas. A partir daí, surgiu o interesse pela pesquisa das cores e seu impacto psicológico, que remeteu como um engenho faustiano à Teoria das Cores de Goethe, autor presente na Visita da Peste e do qual Jerusa era uma grande especialista. Em paralelo, foi crescendo a curiosidade, como médico e pesquisador, pela obtenção e uso de pigmentos e corantes, que, desde o século XIX, vêm revolucionar o isolamento de vírus e bactérias e também a síntese de novos fármacos, a partir da anilina, dando origem a grandes laboratórios como a Bayer (Bayer Farbenfabrik – Bayer Indústria de Corantes), AGFA (Aktiengesellschaft für AnilinfabrikationSociedade para a Fabricação de Anilina), BASF (Badisch Anilin und Soda Fabrik – Indústria de Anilina e Soda da Região de Baden) e a Hoechst (Hoechst Farbwerke – Hoechst Indústria de Corantes).

Por que decidiu colocá-la à disposição gratuitamente?

RO: Disponibilizar uma obra sem custos para o público em geral é, em primeiro lugar, o prazer de dividir uma descoberta com o maior número possível de interessados, inclusive, alunos de artes gráficas, editoração e afins, áreas que se constituem hoje em um de meus interesses. Devo dizer que para isso concorreram muito as discussões com o Plínio Martins, na sua dupla ou tripla função de professor da Escola de Comunicação da USP, editor experiente e apaixonado por artes gráficas. Por fim, me pareceria um contrassenso não disponibilizar gratuitamente a tradução, uma vez que o texto original foi lançado em uma publicação eletrônica britânica gratuita, The Public Domain, que se apresenta como concentrada “em obras que todos são livres para desfrutar, compartilhar e construir sem restrições”.

Por que escolheu a Ateliê Editorial para disponibilizar a obra?

RO: A competência do editor e seu empenho na busca de obras originais foi determinante para a escolha, independente da tradição que a editora pudesse ter em e-books. Em suma, me parece que a tradição possa fazer o hábito, mas não o monge.

O tema “cores primárias” pode parecer até mesmo simples, mas a abordagem que Philip Ball oferece no livro é bastante singular. O que o senhor destaca como mais interessante nessa obra? Durante a primeira leitura, o que mais o impactou nela?

RO: O texto tem vários pontos interessantes, por exemplo,  a relação do pintor com seus materiais e a importância decisiva destes para a obtenção de determinados resultados. Tal  observação pode caber em qualquer bom estudo de pigmentos como material de uma dada atividade profissional. Porém, a referência a materiais como o mínio faz pensar em questões tão diversas como a história da química e envenenamentos criminosos ou casuais, especialmente, quando se sabe que médicos, pintores e perfumistas integravam no Medievo a mesma guilda mas, se faltar tal informação, basta ler O Nome da Rosa ou uma biografia de pintores, como Cândido Portinari. Porém, de fato, na primeira leitura, o que mais me atraiu não foi o perigo, mas a beleza das ilustrações.

Em sua opinião, o que mais vai surpreender o leitor nesta obra?

RO: Acredito que este estudo possa interessar a uma variedade de leitores e, assim, fica impossível, como em qualquer texto ou obra de arte, saber o que mais irá agradar ou surpreender a cada um, mas, de qualquer modo, um tema aparentemente simples quando tratado de forma original sempre surpreende.