Renata Albuquerque

Dia da Literatura Brasileira

Maio já começa com uma data muito especial para quem ama livros. O Dia da Literatura Brasileira é comemorado em primeiro de maio, em homenagem ao aniversário de José de Alencar, que nasceu nesse dia em 1829 em Fortaleza, no Ceará. Ao longo dos anos, a data tornou-se uma bela celebração em que leitores expressam sua admiração pela literatura que lemos em nossa língua materna, na qual é possível entender muito além de palavras, mas sentimentos e sensações. A literatura escrita em português tem a capacidade de nos conectar com uma essência que a literatura traduzida nem sempre consegue. Afinal, ela fala sobre nossa cultura, sobre nossos parâmetros e crenças. Do delírio de Baleia ao delírio de Brás Cubas, prosa, poesia, teatro e outros gêneros nos unem e nos encantam.

Para celebrar essa data tão importante, fazemos uma seleção de títulos de literatura brasileira para todos os gostos:

Iracema

O livro de José de Alencar, autor que inspirou o Dia da Literatura Brasileira, fala sobre a fundação do Brasil. É uma alegoria da colonização do país, e a protagonista simboliza a união entre o homem e a natureza. Embora seja escrito em prosa, o romance revela a enorme identidade de José de Alencar com a poesia romântica.

Somente nos Cinemas

Jorge Ialanji Filholini faz uma mistura quase impossível: a literatura, o cinema, a vida – com todos os seus prazeres, dúvidas e dores – e a morte. Temos aqui um escritor cuja crueldade é aterradora. E bela, o que torna tudo ainda mais perigoso. Os contos começam como filmes, apresentam a situação, as personagens e, quando você está distraído, Jorge atira. Para matar. E nada do que você imagina é o que de fato acontece. Não é um livro de contos, é um livro de suspense. 

Obras Poéticas de Alvarenga Peixoto

A poesia de um dos inconfidentes menos conhecidos reunida em um só volume. São 40 poemas, incluindo inéditos. Uma obra complexa e multifacetada – tanto assim que os poemas foram usados tanto pela defesa quanto pela acusação no processo da Inconfidência. “Caio Cesar Esteves de Souza recusa-se reconstituir os poemas de Alvarenga Peixoto a partir de uma collatio codicum que lhe permitiria alçar-se ao suposto original ou arquétipo da tradição, apresentando-nos por conta dessa negação um poeta e uma poesia mais pujantes e múltiplos”.

Paradeiro

Paradeiro, romance de estreia de Luís Bueno, foi aclamado pela crítica ao vencer o Prêmio Literário Biblioteca Nacional na categoria romance. No livro, o autor traz à tona questões como doença e morte, experiências radicalmente transformadoras da existência humana. O livro tem uma estrutura incomum, que instiga o leitor. Paradeiro tem como um de seus cenários a cidade de São José dos Campos. Mas, o romance acontece em épocas diferentes e a ação envolve personagens distintos. 

Macunaíma

Um clássico da literatura brasileira em uma edição para colecionadores. A tiragem é limitada e numerada. Gustavo Piqueira, da Casa Rex, um dos mais premiados designers gráficos do País, é o responsável pelo projeto gráfico e ilustrações da edição. Piqueira, conhecido por testar os limites do livro impresso, chegou ao formato “dobra-desdobra”, que permite uma leitura tanto “bem comportada”, quanto “uma espécie de pavão escandaloso de papel”, como ele mesmo define, mutabilidade que tem relação com a própria natureza da obra de Mário de Andrade. São 16 ilustrações impressas em serigrafia e coladas manualmente no livro.

O Língua

O primeiro estranhamento do leitor acontece na capa. Língua é substantivo masculino? Sim. Neste caso, o termo é usado para indicar o intérprete que mediava as relações entre portugueses e índios, ainda durante o século XVI no Brasil. O romance de Eromar Bomfim alterna narradores para contar a história de Leonel, filho da índia Ialna e de Antônio Pereira, fazendeiro e padre. 

Entreatos

Nestes Entreatos, Marcelo Castel Cid dá voz, em monólogos de inspiração fantástica, a personagens fascinantes do livro de Atos dos Apóstolos. Algumas delas figuram no texto bíblico em apenas umas poucas linhas, mas há gerações têm cativado as imaginações, como o mago Simão, o centurião Cornélio, o profeta Ágabo e o areopagita Dionísio. Nesses relatos, essas personagens revelam de voz própria suas inspirações, dúvidas, motivações e temores. Sem pretender mudar a História, os textos lhe insinuam outras profundidades.

Tropicália Alegoria, Alegria: nova edição

Publicado orginalmente ainda na década de 1970, Tropicália – Alegoria, Alegria tornou-se um dos mais importantes estudos sobre um dos movimentos culturais que mudou o Brasil. Agora o livro chega à sua 5ª edição. E, para celebrar mais este marco, o Blog da Ateliê entrevista o autor da obra, Celso Favaretto, professor e pesquisador que, em1968, graduou-se em Filosofia pela PUC de Campinas e atualmente é professor de Filosofia da USP. 

A primeira edição do livro é de 1979 e, de lá para cá, muita coisa mudou no Brasil. Em sua opinião, qual a razão do interesse pela Tropicália se manter por tanto tempo?

Celso Favaretto: O interesse sobre a tropicália deve-se ao fato de que a exposição crítica que ela efetuou das “relíquias do Brasil”- que a modernização que vinha se efetuando no Brasil naquela época não produzia modificações nas estruturas sociais, econômicas, políticas e culturais tradicionais e arcaicas, antes era uma composição do arcaico e do moderno – a que Hélio Oiticica no texto “Brasil diarreia” denominou “conviconivência” – ainda é atual.  O  tropicalismo inventou uma modalidade experimental de expressão artística e  de crítica cultural que dava conta da heterogeneidade e multiplicidade cultural que caracteriza o Brasil, e da convivência das disparidades e desigualdades.

Neste momento pandêmico, importantes nomes da Tropicália – Gilberto Gil, Caetano Veloso, Gal Costa e outros – têm feito lives. Em sua opinião, esse tipo de iniciativa renova o interesse ou contribui para “ressignificar” a Tropicália? Ou, por outra: qual o alcance da Tropicália hoje?

CF: A presença desses artistas foi sempre contínua e atuante, sem nunca terem se ausentado das questões sociais, políticas e culturais. Não se trata atualmente de ressignificar a tropicália, porque ela foi própria de uma dada situação histórica, e hoje os termos em jogo são outros. Esses artistas nunca reivindicaram uma “aplicação” da atitude tropicalista a outros momentos históricos, no que estiveram e nisso sempre estiveram certos. A tropicália permanece como indicação do que pode ser uma inventiva modalidade de expressão artística e cultural que capta os signos fortes, os sintomas, das disfunções que determinavam e determinam uma complexa situação social e política. Digamos que permanece como um modo “exemplar” de articulação entre o artístico e o histórico, mas que não pode ser repetido e menos ainda simplesmente tomado como forma artística consagrada. É exemplo de que a resposta a uma dada situação exige a invenção de atitudes, procedimentos, operações  e efetuações com os materiais à disposição em cada momento.

A antropofagia é um dos mais importantes conceitos ligados ao tropicalismo. Em sua opinião, esse conceito continua sendo importante para entender a cultura brasileira?  Por quê?

CF: A antropofagia oswaldiana apareceu como um pensamento muito apropriado para entender a heterogeneidade e a multiplicidade da formação cultural brasileira. Valoriza, assim, a ambivalência na caracterização da originalidade cultural brasileira. Como fica claro na sua atenção à alteridade (“só me interessa o que não é meu; lei do antropófago, lei do civilizado”);  a valorização do processo cultural conjuntivo (“a floresta e a escola”). O tropicalismo valorizou e colocou nas suas produções artísticas esse processo conjuntivo e ambivalente em outra situação histórica. Reagiu às propostas em circulação de, ou valorizar a cultural “nacional” ou de sucumbir à imposição da crescente voga da indústria cultural, da chamada “cultura de massa”. Considerava que a valorização da heterogeneidade e  multiplicidade na constituição cultural seria o processo  mais condizente com a efetivação da modernidade, desde que a assimilação e a apropriação de referências culturais modernas e das  tradicionais fosse afetivada em simultaneidade. A criticidade  dessa s operações estaria, esteve, na nova maneira artística de compor, em que se articulavam todo tipo de experimentalismo artístico e  materiais culturais diversos.  Este procedimento foi desenvolvido de lá para cá em muitas direções, ora mais ora menos  eficazes  no resultado artístico e  como crítica social.

A estética Tropicalista, cheia de  cores, alegria e vibração ainda faz sentido no Brasil de 2021? Ela ainda interessa aos jovens? O que ela pode nos ensinar?

CF: O tropicalismo, como já disse, foi uma expressão artística e uma atitude cultural nascida das contradições de um momento histórico preciso, os anos 60. As condições atuais são outras, mesmo que o país não tenha avançado quanto às questões relativas às desigualdades de todo tipo. Mas a situação é outra, nesta situação toda determinada pela lógica cultural do capitalismo avançado. Não é possível uma dialetização da situação brasileira como a que punha como exigência naquele tempo, quando apesar da repressão e censura implantadas pelo golpe civil-militar de 64, ainda havia indeterminação quanto aos rumos do país; portanto havia a expectativa de um possível histórico. Hoje temos um país dominado e devastado, com a crescente erradicação da heterogeniedade e multiplicidade cultural, como possíveis da nossa história. A tropicália permanece, contudo, como  signo de que  em um momento de perigo pode surgir uma iluminação. A tropicália hoje permanece com a força de um gesto simbólico de insurgência.

O filme traz o livro para dentro de seus olhos: 20 anos de “Lavoura Arcaica”

Renato Tardivo*

1.

Jamais me esquecerei de uma conversa com um amigo na época em que cursávamos a faculdade de Psicologia. Eu estava entusiasmado com as possibilidades compreendidas na interface da estética, fenomenologia e psicanálise, e expunha a ele alguns elementos desse campo que gostaria de pesquisar em uma iniciação científica. Lá pelas tantas, o amigo disparou, certeiro: “Cara, você já viu o filme Lavoura Arcaica?”.

Eu não havia visto ainda. Anos antes, perdera a oportunidade de vê-lo no cinema. Combinamos, então, meu amigo e eu, de passarmos em uma locadora na semana seguinte para assistir ao filme juntos. A surpresa desagradável foi descobrir que, até aquele momento, Lavoura Arcaica não havia sido disponibilizado em dvd. Pouco tempo depois, li o romance de Raduan Nassar pela primeira vez, e fiquei com a certeza de que trabalharia com aquele universo, na literatura e no cinema.

Havia naquela certeza algo no mínimo curioso: escolhi pesquisar um filme a que ainda não havia assistido e, mais, um filme a respeito do qual não tinha a menor ideia, uma vez que o romance de Raduan Nassar me parecia inadaptável para o cinema. Hoje considero a escolha, além de curiosa, também bonita: procurar avidamente pelo dvd em diversas locadoras da cidade já era, sem que eu pudesse suspeitar, assistir ao filme. 

2.

Em 2021, Lavoura Arcaica, primeiro longa-metragem do cineasta Luiz Fernando Carvalho, completa 20 anos. O filme é um marco do cinema brasileiro. Entre suas inúmeras qualidades, merece destaque o potencial de resistência que emana do lirismo artesanalmente conduzido pelo diretor.

Para escrever o livro de Raduan com luz na tela, o cineasta e a equipe isolaram-se na fazenda em que seriam realizadas as filmagens, de modo a viverem em comunidade, durante quatro meses, os papéis da família de ascendência libanesa sobre a qual se abateria um desfecho trágico. Carvalho afirmou diversas vezes que eles não tinham propriamente um roteiro; tinham um livro. Tratava-se de emprestar o corpo às palavras, ao mesmo tempo em que se o deixava afetar por elas, como se todo o processo estivesse alojado nas próprias linhas do romance.

No livro Sobre o filme Lavoura Arcaica, Luiz Fernando Carvalho afirma: “Sinto que me reconheci ali, entende? Me oferendei também, sabe como é? Eu cheguei e falei assim: ‘Ó… criei um pacto com aquele texto ali’”. Para sustentar esse pacto, o diretor teria de lançar mão de um método. Não por acaso, ele se embasou em Antonin Artaud e sua teoria do duplo, da linguagem invertida, em que se trabalha eminentemente com sensações. Daí a pertinência de terem vivido por tanto tempo em comunidade: para limpar as representações. De acordo com Artaud, o emissor é, ao mesmo tempo, a coisa que ele emite e o receptor da mensagem. Mais que uma aventura, trata-se de verdadeiro transe de linguagem.

Transe que é fundante do universo de Lavoura Arcaica. No romance, André, o narrador-protagonista, revive a história de sua família no instante mesmo em que a rememora. A estrutura de que ele não consegue se desvencilhar é a mesma contra a qual se insurge: André é o filho que parte, mas volta; desafia o pai, mas cede; escancara o discurso endogâmico da família, mas reclama os seus direitos no incesto concretizado com a irmã. E, finalmente, sofre a dor de um tempo impiedoso, mas se reencontra com tudo aquilo ao costurar os estilhaços do que restou em um depoimento. O romance, nessa medida, é a leitura realizada pelo narrador-protagonista do texto que está sendo escrito.

Analogamente, no filme o olhar que se volta para a história é um olhar de quem reflete o acontecimento trágico e irrecuperável. A obra de Carvalho é o olhar lançado à história que está sendo contada. O olho que vê é o olho que vive. É o olho que narra. Assim, se no livro André organiza o que restou de sua trajetória em um texto cujo fluxo se endereça – quando já é tarde demais – ao pai, Iohána, na obra de Luiz Fernando Carvalho o compromisso é com o texto de Raduan Nassar: é ao romance que o filme se endereça.

O olhar do cineasta, que parte da palavra, procura – antes de tudo e a todo momento – retornar a ela. A leitura do romance, marcado por metáforas sensíveis, leva o diretor a captar elementos visíveis para transportá-los, transformados em texto fílmico, novamente ao invisível. O filme traz o livro para dentro de seus olhos.

3.

Minha pesquisa de iniciação científica, durante a graduação em Psicologia, daria origem a uma dissertação de mestrado que, ao ser concluída, seria publicada em livro: Porvir que Vem Antes de Tudo – Literatura  e Cinema Em Lavoura Arcaica. Desde então, por uma série de motivos, sempre retorno ao universo de Lavoura Arcaica – na verdade, nunca o abandonei – e, nos últimos anos, tive o privilégio de conhecer ainda mais de perto o trabalho de Luiz Fernando Carvalho.

Em tempos tão difíceis – e tão precisados de obras com as dele –, o cineasta segue se dedicando a uma série de projetos. O próximo a nascer provavelmente será o filme A Paixão Segundo G. H., a partir do romance homônimo de Clarice Lispector. Mas virão outros.

Há quem diga que, entre os próximos projetos, há um filme que marcaria um novo capítulo da parceria entre Nassar e Carvalho. Caso isso se confirme, a obra seria, em certa medida, um desdobramento do primeiro pacto do cineasta com o escritor, mas também um merecido presente aos 20 anos do filme Lavoura Arcaica, fruto desse mesmo pacto. Afinal, como diz André: “Estamos indo sempre para casa”.

 * Psicanalista, escritor e professor colaborador do Instituto de Psicologia da USP. Autor, entre outros, do ensaio “Porvir que vem antes de tudo – literatura e cinema em ‘Lavoura arcaica’” (Ateliê/Fapesp) e do romance “No instante do céu” (Reformatório).

Educar para o Imponderável

A pandemia expôs a fragilidade humana. Mas, já antes dela, exclusão social, problemas ambientais, políticos e sociais já eram graves problemas que precisávamos enfrentar todos os dias. E, mesmo sendo, a um só tempo, causa e consequência desse cenário, será que a humanidade ocupa o lugar de protagonismo que lhe é devido, pensando sobre esses problemas e tentando encontrar saídas para eles? Em seu novo livro, Educar para o Imponderável – Uma Ética da Aventura, Luís Carlos de Menezes discute como educar os jovens para ocupar esse lugar de protagonismo. A seguir, ele fala a respeito com o Blog da Ateliê:

Qual a razão de escolher o tema deste livro? O que o atrai neste assunto?

Luís Carlos de Menezes: Percebendo um futuro cada vez menos previsível, me questionei como isso influiria no preparar para viver. Concluí que seria preciso equipar jovens para enfrentar o inédito, e o livro convida educadores para isso. Mas conceber e realizar isso não foi simples nem imediato, e sim um processo complexo e extenso.

O livro foi escrito antes da pandemia do novo coronavírus. O que,  caso fosse possível, o senhor reescreveria à luz desta nova realidade pandêmica em que vivemos?

LCM: A pandemia só realça uma das incertezas, a ambiental, e revela quanto, diante dela, nós humanos somos frágeis. É indiscutível que que ela enfatiza o “imponderável” do título, que é dominante em nosso presente.  Por isso, não reescrevi o livro, simplesmente ressaltei quanto é delicado e essencial um convívio harmônico com meio.

 De que maneira a incerteza fomenta a aventura humana, pensando do ponto de vista da educação?

LCM: Estudantes que entendam como conquistas de uma etapa histórica pode levar a sua superação questionarão melhor seu próprio tempo. E como os avanços na produção medieval promoveram a economia de mercado, perguntarão o que resultará da atual revolução tecnológica. Assim, o passado deve inspirar questionamentos, em lugar de ser mera cultura do que se memoriza.

Que elementos os educadores e a escola devem levar em conta para poder oferecer uma formação mais ética, para formar cidadãos mais críticos e protagonistas de sua própria história?

LCM: No percurso da aventura humana, miséria, violência e degradação do meio resultam de ações humanas, de que somos partícipes. A educação ética, explicitando isso, é formação para corresponsabilidade, no âmbito pessoal imediato ou no social.

E a escola com essa perspectiva é espaço de participação em lugar de mera absorção de saberes.

A tecnologia pode ser usada como um instrumento dessa educação para o imponderável?

LCM: O emprego das modernas tecnologias mais do que essencial é inevitável, tanto nas comunicações, quanto na produção. Se não forem empregadas para a paz e para a igualdade, continuarão servindo à violência e à exclusão. E vale lembrar que o domínio das tecnologias é recurso e finalidade na educação contemporânea.

O livro traz a ideia de que a incerteza é um motor para a aventura humana. Entretanto, a mesma incerteza também gera medo e, por vezes, paralisia. Como nos desvencilharmos do caminho da paralisia e fazer com que a incerteza nos mova em direção à uma ação mais consciente de nosso papel no mundo?

LCM: Há problemas que parecem tão grandes que podem parecer estar além de nossas possibilidades. Mas o que pode impor medo e inação é o autoritarismo armamentista, socialmente insensível e ambientalmente irresponsável. Diante disso, a promoção e a defesa de uma democracia participativa e socialmente solidária constituem o principal desafio.

Degradação ambiental, concentração de renda, violência, autoritarismo: em sua opinião ainda é possível parar a escalada da barbárie por meio da educação?  Que medidas urgentes podem (e devem) ser tomadas para garantir um futuro mais harmônico?

LCM: A escola é o equipamento social fundamental, e nela educadores conscientes não são substituíveis por sistemas. Não basta lamentar as injustiças e mazelas do passado e do presente, sendo preciso mobilizar ações para evitá-las E se não for mostrado como a aventura humana pode inspirar uma ética, educar será reproduzir o que gerou o impasse.

Há quem diga que a pandemia poderá “transformar” comportamentos e relações humanas, talvez nos tornando mais conscientes de nosso lugar no mundo, da necessidade da preservação ambiental, do cultivo da gentileza para com os outros. Qual sua opinião a respeito disso?

LCM: O mundo na “pós-pandemia” será tão difícil quanto na própria, em que miséria e desigualdade já estão agravadas. Como toda crise, esta envolve riscos e oportunidades, questões abertas a serem reveladas na educação. A expectativa expressa no livro é de formar uma juventude lúcida, que se motive a superar os riscos e explorar as oportunidades.

“Os Maias”: um romance clássico, moderno e atemporal

O século XXI acabara de começar quando a TV brasileira transportou os espectadores para Portugal do século XIX. Foi isso o que aconteceu em janeiro de 2001, quando estreou na TV Globo a minissérie “Os Maias”, baseada no romance homônimo de Eça de Queirós. Escrita por Maria Adelaide Amaral, com colaboração de João Emanuel Carneiro e Vincent Villari, a produção foi dirigida por Luiz Fernando Carvalho, que pouco antes finalizara as filmagens de Lavoura Arcaica.

Os Maias, publicado em 1888, conta a história da família Maia. Em dezoito capítulos, cheios de ironia e crítica social, o leitor conhece a história de três gerações diferentes. Na TV, um grande elenco foi escalado: Ana Paula Arósio, Fábio Assunção, Walmor Chagas, Selton Mello e Marília Pêra, entre outros, marcaram presença. Mas não era apenas o elenco que chamava a atenção. A estética elegante e elaborada da minissérie contribuiu para fazer dela uma marco na TV brasileira, que agora, duas décadas depois, volta a ser exibida no Globoplay. para celebrar a data, a Ateliê acaba de lançar uma nova edição do romance, que estava esgotado. “Procurei filmar com a pena do Eça”, afirma o diretor Luiz Fernando Carvalho, que falou com o Blog Ateliê sobre a obra:

O que o levou a aceitar a direção de “Os Maias”? Foi um convite recebido ou a proposta do projeto partiu de você? 

Luiz Fernando Carvalho: “Os Maias” me foi apresentado assim que retornei à televisão, logo após o termino das filmagens de Lavoura arcaica. Como já conhecia o romance, fiquei tocado pela enorme coincidência em relação ao Lavoura arcaica, já que, independente de suas linguagens específicas, ambos tratam o incesto como aspecto central da obra. A decadência da sociedade portuguesa, a crítica ácida aos costumes da aristocracia europeia e a visão anticlerical do Eça me pareciam sintetizados na paixão trágica entre irmãos. 

Quando você fez a primeira leitura do romance? Quais são suas lembranças e impressões dessa primeira leitura e que aspectos dessa experiência você pôde imprimir na direção da minissérie?  

LFC: Minha primeira leitura foi marcada pelo encantamento com uma prosa magistral. Extremamente sofisticada sem ser esnobe, mas com enorme rigor de detalhes em todas as passagens. Então foi exatamente este caminho que me propus desde o início, um diálogo com a atmosfera do romance, traçando uma ponte entre o realismo e a tragédia. Sabemos que Eça, de início, procurava escrever uma obra extremamente realista, abolindo por completo o estilo relambido do período, chegando mesmo a se dedicar a criar uma comédia dos costumes da elite portuguesa. Eis que no meio do processo da escrita, o tom trágico da história dos irmãos se impôs e o escritor foi arrastado para a outra margem. Talvez este bordado equilibrado entre crítica social e tragédia seja o elemento que mais me orientou na realização da minissérie. Há algo de teatral e operístico nas entrelinhas, uma dimensão trágica do destino, ao mesmo tempo em que nos deparamos com reflexões encharcadas por uma melancolia risonha do querido Ega (João da Ega, personagem de Selton Mello na série).

Você tem algum personagem ou situação favoritos no romance?

LFC: Trata-se de uma obra muralista. O que dizer de Ega – alter ego mais brilhante da história da literatura ocidental? Maria Monforte, Afondo e Pedro da Maia, Carlos Eduardo e Maria Eduarda, e todo aquele mar de personagens ao redor que, por menor que sejam suas participações, o escritor jamais abandona suas complexidades e dramas humanos. Os Maias é um tratado sobre a psicologia humana, não apenas do século XIX. Moderno e atemporal, será sempre um clássico atual em qualquer tempo.

Qual conceito você usou para criar a estética da minissérie?

LFC: Trabalhei a partir dos pintores impressionistas, desde José Malhoa ao Sargent. Mas não queria nada imitativo, ou mesmo que o período histórico soasse demonstrativo, explicativo. Por outro lado, sabemos que existe uma enorme distância entre o mundo conceitual e a prática em si, quando nós, equipe e elenco, iniciamos o processo de levantar as personagens das folhas do romance. Seria então impossível buscar uma excelência estética sem a colaboração sensível de toda a equipe e elenco. Entre tantas colaborações, considero os figurinos da Beth Filipeck parte fundamental para compreensão do mundo interior das personagens. Filipeck foi muito além, criando uma espécie de segunda pele com os trajes, refletindo um conjunto enorme de sentimentos através de cores, formas e texturas. 

Houve algum grande desafio nesse trabalho?

LFC: Quando trabalho a partir de uma obra literária, meu desafio maior é fazer com que a imaginação continue sendo imaginação, sem que se corra o risco de rebaixa-la à uma mera forma de representação. É como se tivesse que pensar assim: já te tenho que filmar, que não se mate a imaginação. 

Luís Fernando Veríssimo escreve que a minissérie “quase inaugura uma arte inédita”. A que você atribui esse impacto visual que a série causou?

LFC: Tudo na vida são tentativas. Nunca tenho certeza ou regra para nada no campo artístico. Procuro não ter, não quero ter. Mas a cada autor se faz necessário encontrar um método sobre o qual se vai aproximar. No caso de Os Maias, pensava em Proust e Fernando Pessoa, em um olhar do Tempo como entidade acima de todos nós, acima das sociedades, culturas, leis ou sonhos de cada um daqueles personagens. Essa premissa de que a narrativa estaria sendo elaborada em termos formais através do olhar do Tempo talvez tenha humanizado um pouco a narrativa televisiva. Eliminei o que considerava um excesso de equipamentos e tecnologia. Em termos técnicos, trabalhei com apenas uma câmera – reforçando a presença de um olhar como testemunha subjetiva e não como mero registro mecanizado. No mais, foram tentativas atrás de tentativas seguidas por enormes insatisfações, limites imensos impostos pelo meio que tentei reagir artisticamente, e sei bem que fui vencido muitas vezes.  

Vinte anos depois, como “Os Maias” ainda pode surpreender o público? 

LFC: Observando com os olhos de hoje, onde, na imensa maioria dos casos, as possibilidades narrativas surgem comandadas por um modelo único ditado pelas plataformas de streaming, Os Maias, através de uma adaptação corajosa, busca na origem literária suas coordenadas fundadoras. Deste encontro, emerge uma dramaturgia que representa uma libertação artística consistente e consciente. Acentuando este amor pela prosa do Eça, Maria Adelaide Amaral, propôs um caminho que será sempre novo e autêntico.  Por outro lado, somos seres incompletos, não? Os séculos avançam, as ciências, as tecnologias, mas algo no fundo de nossa alma humana permanece preso ao mistério. Talvez seja esta a mensagem que o Eça nos traz, nos surpreendendo sempre: somos feitos de mistério. Corremos em busca do amor, do encantamento, da felicidade, mas tanto as vitórias quanto as ruínas, tudo, absolutamente tudo, pertence ao mistério.

Cocanha: utopia que atravessa o tempo

Cocanha é um lugar utópico. Uma terra imaginária onde há fartura, ociosidade, juventude e liberdade, algo que mobiliza as pessoas através dos séculos, qualquer que seja sua origem geográfica. Por isso, a lenda, que surgiu na França, ganhou o mundo e tem até uma versão brasileira. Em Cocanha – Várias Faces de Uma Utopia, o professor, doutor e livre-docente em história medieval pela USP, Hilário Franco Júnior reúne várias versões desta história. A seguir, ele conversa sobre o livro com o Blog Ateliê:

Como surgiu seu interesse pelo tema? 

Hilário Franco Júnior: Há vários anos, no decurso de pesquisa sobre outro tema, encontrei um curioso poema francês medieval descrevendo uma terra fabulosa, uma espécie de mundo de ponta-cabeça, chamado país da Cocanha. Como esse texto foi traduzido, adaptado e transformado em imagem ao longo de vários séculos, sinal de sua popularidade, pareceu-me interessante reunir grande parte desse material para o público brasileiro.  

Quais são as novidades que esta atual edição traz? 

HFJ: Além de aspectos materiais (novo formato, nova capa, melhor qualidade das imagens), as traduções foram revistas e em certos pontos modificadas, algumas indicações bibliográficas foram atualizadas.  

Cocanha é uma utopia de várias culturas, em várias línguas. A que o senhor atribui essa variedade? Por que tantos povos, em diferentes épocas, buscavam utopias semelhantes? Se tomadas em conjunto, as  Cocanhas são complementares em algum aspecto? 

HFJ: A rigor, toda utopia em qualquer época busca a mesma coisa: superar um presente julgado deficiente imaginando no lugar um mundo supostamente melhor. Como cada época tem, é claro, seus próprios problemas, cada utopia sonha com soluções específicas. Mas se tomarmos um bloco civilizacional com características muito próximas, caso de sociedades pré-industriais como as vistas no livro, suas utopias serão assemelhadas, embora nas diferenças de enfoque ou na ênfase de certos aspectos encontremos material de reflexão histórica e antropológica muito rico.   

O que as diversas Cocanhas, dos mais variados países, têm de diferente? 

HFJ: Justamente a resposta específica ao contexto que reelabora o motivo literário ou iconográfico cocaniano. Por exemplo, a versão inglesa de fins do século XIII é obra de um franciscano que parodia os monges cistercienses, ou seja, o poema revela uma forte disputa ideológica entre uma religiosidade nova, urbana, laica (a dos franciscanos) frente a outra tradicional, rural, clerical (a dos cistercienses). Outro exemplo poderia ser uma gravura italiana de meados do século XVII, A Cocanha das Mulheres, que no plano imaginário inverte a misoginia que ainda predominava na Europa e extrapola o prestígio feminino maior no norte italiano que em outras regiões europeias.    

O que a Cocanha brasileira tem que outras não têm? 

HFJ: No essencial, nada. Nos detalhes, é uma adaptação do país imaginário (no folheto de cordel chamado País de São Saruê) às condições históricas do nordeste brasileiro. Por exemplo, enquanto os relatos europeus falam em riacho de vinho tinto e branco, o cantador paraíbano refere-se a açudes de vinho quinado; aqueles dizem que na Cocanha há árvores que produzem tortas e omeletes, este imagina o mato dando feijão.   

Por favor, explique brevemente a relação entre a Cocanha e o carnaval. 

HFJ: Podemos responder com a fórmula sintética e precisa de um historiador da cultura moderna, o inglês Peter Burke: “a Cocanha é uma visão da vida como um longo Carnaval, e o Carnaval é uma Cocanha passageira”.                                                                                                                             

 Cocanha  remete a um lugar utópico. Em tempos que parecem distópicos (quando há uma pandemia e parte da população insiste em negar a ciência; quando a crise econômica impede a abundância), qual a contribuição de um livro como este? 

HFJ: Espero que seja instigar a reflexão sobre os desejos humanos e seus limites, a comparação desses sonhos em épocas diversas do passado e no presente, e em especial a compreensão do relativismo inerente a todas as coisas humanas: a Cocanha é utopia para muitos, mas também é distopia para outros. Além disso tudo, também é possível ler  o livro como uma antologia literária, com peças do século XIII ao XX plenas de  alegoria, metáfora, ironia, humor.    

A Nebulosa: Poesia de Joaquim Manuel De Macedo

A seguir, o Blog da Ateliê reproduz o texto de Talvanes Faustino, que mantém o Blog do Pensar Poético, sobre “A Nebulosa”:

A edição de A Nebulosa de Joaquim Manuel De Macedo é aberta por um belíssimo ensaio introdutório da Drª Ângela Maria Gonçalves Da Costa, onde já nas primeiras linhas nos oferece um pouco da recepção calorosa, que o delicado, belo e escuro poema obteve no momento de sua primeira publicação; o Correio Mercantil apresenta o poema de Macedo, como o mais belo de todos os tempos modernos. Mais recente, Candinho disse talvez ser este o mais belo exemplar do poema-romance do romantismo brasileiro. Como veremos mais adiante, nem só de elogios viveu o poema de Macedo, agora, nos ocupemos de conhecer um pouco mais sobre o autor.

Joaquim Manuel De Macedo nasceu no dia de São João, à 24 de junho de 1820 em Itaboraí no Rio de Janeiro e foi um escritor brasileiro identificado com a escola romântica, seu livro de maior sucesso é A Moreninha, romance de 1844, a obra é até hoje, publicada e é de fácil acesso aos leitores brasileiros. Macedo, além de escrever romances e poesias, também têm obras nas áreas da dramaturgia e jornalismo.  Manuel faleceu no dia 11 de março de 1882, aos 61 anos.

Em A Nebulosa, único poema na obra de Joaquim, são trabalhados temas sensíveis mesmo nos dias atuais, o que eu imagino que entre um suspiro e outro, o que há de mais mórbido neste poema tenha passado desapercebido. O romantismo, especialmente o romantismo dos filiados ao mal do século, tem um gosto pelo macabro, e o poema de Macedo parece fazer um cortejo a este grupo de poetas, quando desde o começo, o leitor é inserido em uma atmosfera escura, mórbida, pesadamente triste e fortemente depressiva. A professora Ângela Maria diz que “esse canto fúnebre nos remete a uma existência além da vida, porém mais bela e essencial, um tema caro ao romantismo.”

Apesar desse, possível cortejo, o nome principal deste grupo de poetas que formam, aquilo que chamamos de “segunda geração romântica” o poeta Álvares de Azevedo, foi um crítico da obra ao dizer que faltou senso patriótico ao seu autor, pela ausência de cor local (COSTA, 2018, p. 15 na nota de rodapé) o que chama a atenção é que o autor que faz a crítica também tem uma obra com poucas cores brasileiras, aqui a professora Ângela faz a seguinte observação:

O poema-romance de Macedo talvez possa ser lido como resposta à acirrada polêmica entre Alencar e Gonçalves de Magalhães, com a participação do imperador, […] em torno do projeto de nacionalização da literatura e da possibilidade da elaboração de uma obra épica nacional. É portanto, importante refletir que A Nebulosa foi bem recebida pela crítica e pelo leitor brasileiro, pois vinha na contramão do debate que se colocava como central no momento político, cultural e literário da nação. Isso pressupõe uma concepção de literatura que abrange posturas distintas  e mesmo contraditórias, pois seguir os modelos europeus era considerado a um só tempo servilismo e exemplaridade. 

A Nebulosa, é um poema que narra um amor impossível, mas diferente do que pôde ser visto em Iracema de José de Alencar, onde o casal apaixonado era separado por mundos distintos. Neste poema o casal de protagonistas e separado pela vontade da própria mulher, que no leito de morte de sua mãe jurara não amar “jamais” e esta é a resposta que dá as investidas do seu homem ob… apaixonado. O que acabou sendo uma referência ao famoso poema de Edgar Allan Poe, “O Corvo” nele a ave carniceira responde somente uma coisa “nevermore”.  O poema ganha contornos do que nós, hoje, chamamos de comédia romântica quando é retirada a última bruma, que acaba por revelar, o último elo entre as personagens que formam o trio de protagonistas.

A Nebulosa é um poema belíssimo, com passagens que me fizeram, por vezes, suspirar e estreitar o livro entre minhas mãos. É um texto curto, que rapidamente pode ser lido. A edição tem muitas notas de rodapé que servem de muito bom apoio ao leitor, além disso, o texto introdutório da professora Ângela é muito esclarecedor. Recomendo efusivamente, e a todos boa leitura.

Literatura em movimento

Por: Renata de Albuquerque

Transpor obras literárias para o cinema é um assunto polêmico. As “adaptações” nem sempre são bem recebidas e muitos leitores apaixonados não economizam críticas ao que veem na tela. Só por isso, já é necessária uma dose de coragem para enfrentar um projeto como esse. No caso do diretor Luiz Fernando Carvalho, a coragem e a sensibilidade se refletem nas escolhas de transpor para as telas obras que não parecem “óbvias” para essa finalidade. De Machado de Assis (Capitu) a Ariano Suassuna (A Pedra do Reino), passando por Eça de Queirós (Os Maias), Carvalho levou à TV aberta uma estética apurada e inovadora, incomum nesse meio. No cinema (Lavoura Arcaica), sua arte se mostra aos espectadores como uma epifania estética que nos provoca a sair do “modo automático”. “A cada dia, se faz mais e mais necessário aos artistas se prepararem para resistir e reagir à hegemonia das regras de um padrão único, reivindicando modos próprios de ler e reler a literatura e o mundo”, acredita. 

Para Carvalho, a literatura é a origem que forma, com o cinema, um binômio fundamental. “Estamos falando sobre imaginação, o ato de imaginar, que é um direito civilizatório”, diz, aludindo a Antonio Candido em “O Direito à Literatura” (Vários Escritos).  Neste texto, Candido defende que ninguém pode viver sem literatura. “Não há povo e não há homem que possa viver sem ela, isto é, sem a possibilidade de entrar em contato com alguma espécie de fabulação”, afirma o crítico.  É bom lembrar que, para Candido, esse direito a poder estar em contato com (ou mesmo a criar) uma narrativa artística e ficcional não tem a ver com “alta cultura”: a fabulação pode ter como fonte tanto a TV quanto o romance, assim como qualquer outra expressão artística. 

Em sua trajetória como diretor de teledramaturgia, Carvalho dedica-se a oferecer ao espectador novas possibilidades narrativas a cada realização, onde reafirma a importância de dar voz ao que destoa, sublinhando o valor das diferenças para tentar desfazer a ideia de uma linguagem absoluta. “Além de excludente, o mercado é uma máquina de domesticação que insiste em conter arestas e identidades, transformando a multiplicidade em um ser único e obediente, consumidor silencioso daquilo que lhe é apresentado e pronto. Mas não! Somos todos muito singulares. Dar voz a essas diferenças, alimentar sonhos e desejos, ir além da visão burguesa do ‘macho-branco sempre no comando’, será a nossa salvação como artistas, mas, principalmente, como civilização.” – provoca o diretor, que, em sua próxima obra, se debruça sobre uma literatura que expõe a falência do modelo patriarcal burguês através de uma mulher em crise após sua ruptura amorosa.

Clarice

Carvalho finaliza o filme “A Paixão Segundo G.H.”, transcriação para as telas do romance de Clarice Lispector lançado em 1964. Se a pandemia não o tivesse impedido, o filme – que tem Maria Fernanda Cândido no papel de G.H. – teria sido lançado no ano em que se comemorou o centenário da escritora. Na obra, G.H. é uma escultora bem sucedida da burguesia carioca que, após demitir a empregada, decide arrumar ela mesma a casa começando pela “calda” do apartamento: o quarto de empregada. Lá, se depara com o inseto repugnante: uma barata. Refém de seus fantasmas moralizantes, G.H. é arrastada para dentro de um universo desconhecido e que a leva a descobertas metafísicas após confrontar-se consigo mesma.

Na nota de abertura, Clarice Lispector escreve que, apesar de ser “um livro qualquer”, ficaria feliz se ele fosse lido apenas por leitores de “alma já formada”: que sabem que a aproximação de algo se dá de maneira penosa. Para Luiz Fernando Carvalho, A Paixão Segundo G.H. traça um diálogo intenso com seu filme anterior, Lavoura Arcaica (Raduan Nassar). Tanto um quanto o outro são experiências estéticas elaboradas a partir da literatura, negando radicalmente a intermediação de um roteiro adaptado.    

Talvez por isso, além do filme A Paixão Segundo G.H., o diretor vai lançar, como aconteceu em Lavoura Arcaica, um livro sobre o filme. Ainda que não sejam livros de natureza semelhante, ambos podem ser entendidos como um desdobramento do diálogo entre literatura e cinema, que reunirá ensaios de especialistas a respeito da obra cinematográfica e seu cruzamento com o romance de Clarice Lispector. Entre os nomes confirmados para a edição, que será publicada pela Ateliê Editorial, estão, entre outros, a professora de literatura e biógrafa Nádia Battella Gotlib, o professor de cinema Ismail Xavier, a escritora Marilene Felinto e o psicanalista Renato Tardivo. A organização é da autora e pesquisadora Ilana Feldman. No ano em que se comemoram os vinte anos da estreia do filme Lavoura Arcaica e da exibição de Os Maias (que estará disponível no Globoplay), Luiz Fernando Carvalho continua transpondo para as telas obras que nos libertam e ao mesmo tempo instigam espectadores de “alma já formada”.   

Poesia: seleta de poemas do livro Pequeno Palco

Março é o mês da poesia: dia 14, temos o Dia Nacional da Poesia e, uma semana depois, no dia 21, é o Dia Internacional da Poesia. Por isso, a Ateliê não poderia deixar de celebrar as datas e, neste ano, nosso presente para você são alguns textos escolhidos de Pequeno Palco, o novo livro de Ricardo Lima, que também é autor de Desconhecer e Pétala de Lamparina. Este é o sétimo livro de Ricardo, que trata de temas como a infância, a morte e o amor, entre outros e que tem ilustrações de Lygia Eluf. A seguir, você acompanha alguns textos do livro:

Poemas

todos de um certo modo
cavam um pequeno palco
em algum momento da vida


não serve pra nada
não aumenta nem diminui
não prega a paz nem dá um tiro


no circo do trabalho
no almoço em família
ou no botequim


em algum lugar sem a menor importância
cava-se o pequeno palco

lá somos os mais ridículos
no nosso pequeno palco
somos piores do que somos.

enquanto o sonho queima os olhos
no ar um gato mia em colo distante


a alegria da louça lavada
e enxuta no calor da tarde


o sol respinga na toalha
de uma mesa lisa
estreita
sem história

uma cortina
ainda sem cor.

a luz que amanhece sem voz é baça
névoa e dura
como dores musculares misturadas com angústia


uma manhã sem sol precisa de perícia
para saber quem colocou música tão alta
no poço do elevador


quem prendeu e quem mandou soltar
a triste rotina da estatística
as tantas mortes mordidas por tiro
e no poder um abençoado por deus.

ter tanto a preservar
quanto a amazônia
tem de mata e de medo
tem de longe e de dentro de mim


aquele com a dor queimado
conhece a chuva que não vai chegar

na contramão
o que desconhece o destino
do barco na descida
não sabe sequer usar os remos.

Ficou com vontade de ler mais?

A propósito de Leon Hirszman, por Walnice Nogueira Galvão

O Blog da Ateliê reproduz texto da Professora Emérita da FFLCH-USP sobre "Por Um Cinema Popular", livro de Reinaldo Cardenuto, publicado no GGN

O Blog da Ateliê reproduz texto da  Professora Emérita da FFLCH-USP sobre “Por Um Cinema Popular”, livro de Reinaldo Cardenuto, publicado no GGN

Nos filmes que realizou, 5 longas e 11 curtas, dá para ver que estava sempre em busca de algo – o que o título do livro já implica.

Acabo de receber e de ler, com muito proveito,  Por um cinema popular- Leon Hirszman, política e resistênciade Reinaldo Cardenuto, publicado pela AteliêUma beleza de trabalho, dando a devida importância  a esse cineasta da linha de frente do Cinema Novo e do Centro Popular de Cultura (CPC), cuja morte precoce veio ceifar um projeto estético e político de envergadura.

Nos filmes que realizou, 5 longas e 11 curtas, dá para ver que estava sempre em busca de algo – o que o título do livro já implica. E isso desde os primeiros, entre eles Imagens do inconsciente, em que foi registrar a obra da Dra. Nise da Silveira  em hospício no Rio que acolhia os mais destituídos. A psiquiatra aboliu práticas brutais como o eletrochoque e a lobotomia, tratando os doentes mentais pela arte, criando o Museu e vindo a revelar Artur Bispo do Rosário. Ou então Nelson Cavaquinho, onde o cineasta assesta a câmera sobre um sambista exemplar. Ou ainda o ABC da greve, no qual cuida de ir ao encontro da nova classe operária que então surgia, os metalúrgicos do ABC. Como grande filme de ficção, faria São Bernardo, com base no romance de Graciliano Ramos. O sucesso nacional e internacional chegaria com Eles não usam black-tie (1981), sobre uma greve, afinal derrotada, de trabalhadores. Prêmios por toda parte, inclusive o Leão de Ouro em Veneza. A este filme, e à polêmica que suscitou no seio da esquerda, inclusive as querelas partidáriaso livro dedica sua maior porção. O nunca desmentido apego de Leon ao povo aparece com clareza em Deixa que eu falo (2007), documentário que Eduardo Escorel, seu montador em três filmes, lhe dedicou.

Brinda-se ainda o leitor com o roteiro literário reconstituído de Que país é este?, documentário encomendado pela RAI – RádioTV Italiana, hoje desaparecidoVale a pena ventilar um pouco as circunstâncias em que Leon veio do Rio de Janeiro a São Paulo, para me entrevistar. De nem tudo me lembro, mas parece que veio na esteira de Ruy Guerra, com quem eu colaborara, quando pedira os materiais de No calor da hora para o roteiro de um filme sobre Euclides da Cunha e a Guerra de Canudos. Vargas Llosa estava apalavrado com Ruy Guerra, mas acabaria por retirar desses materiais um romance e desistiria de escrever o roteiro. E o projeto coletivo  nunca se concretizou. Leopoldo M. Bernucci, em História de un malentendido , rastreia cada passo do romance até os materiais de origem. Soavam cômicas as  declarações bombásticas de Vargas Llosa sobre os anos que consumira na Biblioteca do Congresso em Washington, pesquisando… Os envolvidos na rasteira morriam de rir.  Ruy Guerra acha mais cômico ainda quando o escritor, que nunca ouvira falar nem em Euclides nem em Canudos, declara o quanto era um fã desde a juventude. Quem conta a história desse malogro é a alentada biografia de Ruy Guerra, escrita por Vavy Pacheco Borges.

Avessa a entrevistas, disse a Leon que, ao contrário, queria propor outras pessoas, quando até então, numa perspectiva bem carioca, ele só tinha convocado Maria da Conceição Tavares e Fernando Henrique Cardoso. Ele ouviu meus argumentos, discutiu pouco e acabou por concordar. É claro que selecionei cuidadosamente quem iria depor sobre o Brasil horrendo em que vivíamos em 1976. Estando Antonio Candido indisponível,  pedi pessoalmente a estes três colegas da USP, da oposição à ditadura, que dessem entrevistas: Alfredo Bosi, Fernando Novais e Sergio Buarque de Holanda.

Servi de motorista levando Leon e equipe para fazer as filmagens, na casa de cada um deles. O impacto dos entrevistados sobre ele era visível. A surpresa de Leon foi sobretudo por topar com gente séria e não com intelectuais midiáticos, dispostos a referendar os donos do poder e das emissoras de TV. O filme se resumiu a esses cinco cntrevistados.

O documentário não mais existe, nem sequer nos arquivos da RAI, mas o livro traz bons resumos.  Leon comenta que a RAI nunca exibiu o filme alegando que não era turístico… De fato, posso garantir que não era mesmo. Nenhum trabalho de Leon era.

Walnice Nogueira Galvão é Professora Emérita da FFLCH-USP