Renata Albuquerque

“Os Maias”: um romance clássico, moderno e atemporal

O século XXI acabara de começar quando a TV brasileira transportou os espectadores para Portugal do século XIX. Foi isso o que aconteceu em janeiro de 2001, quando estreou na TV Globo a minissérie “Os Maias”, baseada no romance homônimo de Eça de Queirós. Escrita por Maria Adelaide Amaral, com colaboração de João Emanuel Carneiro e Vincent Villari, a produção foi dirigida por Luiz Fernando Carvalho, que pouco antes finalizara as filmagens de Lavoura Arcaica.

Os Maias, publicado em 1888, conta a história da família Maia. Em dezoito capítulos, cheios de ironia e crítica social, o leitor conhece a história de três gerações diferentes. Na TV, um grande elenco foi escalado: Ana Paula Arósio, Fábio Assunção, Walmor Chagas, Selton Mello e Marília Pêra, entre outros, marcaram presença. Mas não era apenas o elenco que chamava a atenção. A estética elegante e elaborada da minissérie contribuiu para fazer dela uma marco na TV brasileira, que agora, duas décadas depois, volta a ser exibida no Globoplay. para celebrar a data, a Ateliê acaba de lançar uma nova edição do romance, que estava esgotado. “Procurei filmar com a pena do Eça”, afirma o diretor Luiz Fernando Carvalho, que falou com o Blog Ateliê sobre a obra:

O que o levou a aceitar a direção de “Os Maias”? Foi um convite recebido ou a proposta do projeto partiu de você? 

Luiz Fernando Carvalho: “Os Maias” me foi apresentado assim que retornei à televisão, logo após o termino das filmagens de Lavoura arcaica. Como já conhecia o romance, fiquei tocado pela enorme coincidência em relação ao Lavoura arcaica, já que, independente de suas linguagens específicas, ambos tratam o incesto como aspecto central da obra. A decadência da sociedade portuguesa, a crítica ácida aos costumes da aristocracia europeia e a visão anticlerical do Eça me pareciam sintetizados na paixão trágica entre irmãos. 

Quando você fez a primeira leitura do romance? Quais são suas lembranças e impressões dessa primeira leitura e que aspectos dessa experiência você pôde imprimir na direção da minissérie?  

LFC: Minha primeira leitura foi marcada pelo encantamento com uma prosa magistral. Extremamente sofisticada sem ser esnobe, mas com enorme rigor de detalhes em todas as passagens. Então foi exatamente este caminho que me propus desde o início, um diálogo com a atmosfera do romance, traçando uma ponte entre o realismo e a tragédia. Sabemos que Eça, de início, procurava escrever uma obra extremamente realista, abolindo por completo o estilo relambido do período, chegando mesmo a se dedicar a criar uma comédia dos costumes da elite portuguesa. Eis que no meio do processo da escrita, o tom trágico da história dos irmãos se impôs e o escritor foi arrastado para a outra margem. Talvez este bordado equilibrado entre crítica social e tragédia seja o elemento que mais me orientou na realização da minissérie. Há algo de teatral e operístico nas entrelinhas, uma dimensão trágica do destino, ao mesmo tempo em que nos deparamos com reflexões encharcadas por uma melancolia risonha do querido Ega (João da Ega, personagem de Selton Mello na série).

Você tem algum personagem ou situação favoritos no romance?

LFC: Trata-se de uma obra muralista. O que dizer de Ega – alter ego mais brilhante da história da literatura ocidental? Maria Monforte, Afondo e Pedro da Maia, Carlos Eduardo e Maria Eduarda, e todo aquele mar de personagens ao redor que, por menor que sejam suas participações, o escritor jamais abandona suas complexidades e dramas humanos. Os Maias é um tratado sobre a psicologia humana, não apenas do século XIX. Moderno e atemporal, será sempre um clássico atual em qualquer tempo.

Qual conceito você usou para criar a estética da minissérie?

LFC: Trabalhei a partir dos pintores impressionistas, desde José Malhoa ao Sargent. Mas não queria nada imitativo, ou mesmo que o período histórico soasse demonstrativo, explicativo. Por outro lado, sabemos que existe uma enorme distância entre o mundo conceitual e a prática em si, quando nós, equipe e elenco, iniciamos o processo de levantar as personagens das folhas do romance. Seria então impossível buscar uma excelência estética sem a colaboração sensível de toda a equipe e elenco. Entre tantas colaborações, considero os figurinos da Beth Filipeck parte fundamental para compreensão do mundo interior das personagens. Filipeck foi muito além, criando uma espécie de segunda pele com os trajes, refletindo um conjunto enorme de sentimentos através de cores, formas e texturas. 

Houve algum grande desafio nesse trabalho?

LFC: Quando trabalho a partir de uma obra literária, meu desafio maior é fazer com que a imaginação continue sendo imaginação, sem que se corra o risco de rebaixa-la à uma mera forma de representação. É como se tivesse que pensar assim: já te tenho que filmar, que não se mate a imaginação. 

Luís Fernando Veríssimo escreve que a minissérie “quase inaugura uma arte inédita”. A que você atribui esse impacto visual que a série causou?

LFC: Tudo na vida são tentativas. Nunca tenho certeza ou regra para nada no campo artístico. Procuro não ter, não quero ter. Mas a cada autor se faz necessário encontrar um método sobre o qual se vai aproximar. No caso de Os Maias, pensava em Proust e Fernando Pessoa, em um olhar do Tempo como entidade acima de todos nós, acima das sociedades, culturas, leis ou sonhos de cada um daqueles personagens. Essa premissa de que a narrativa estaria sendo elaborada em termos formais através do olhar do Tempo talvez tenha humanizado um pouco a narrativa televisiva. Eliminei o que considerava um excesso de equipamentos e tecnologia. Em termos técnicos, trabalhei com apenas uma câmera – reforçando a presença de um olhar como testemunha subjetiva e não como mero registro mecanizado. No mais, foram tentativas atrás de tentativas seguidas por enormes insatisfações, limites imensos impostos pelo meio que tentei reagir artisticamente, e sei bem que fui vencido muitas vezes.  

Vinte anos depois, como “Os Maias” ainda pode surpreender o público? 

LFC: Observando com os olhos de hoje, onde, na imensa maioria dos casos, as possibilidades narrativas surgem comandadas por um modelo único ditado pelas plataformas de streaming, Os Maias, através de uma adaptação corajosa, busca na origem literária suas coordenadas fundadoras. Deste encontro, emerge uma dramaturgia que representa uma libertação artística consistente e consciente. Acentuando este amor pela prosa do Eça, Maria Adelaide Amaral, propôs um caminho que será sempre novo e autêntico.  Por outro lado, somos seres incompletos, não? Os séculos avançam, as ciências, as tecnologias, mas algo no fundo de nossa alma humana permanece preso ao mistério. Talvez seja esta a mensagem que o Eça nos traz, nos surpreendendo sempre: somos feitos de mistério. Corremos em busca do amor, do encantamento, da felicidade, mas tanto as vitórias quanto as ruínas, tudo, absolutamente tudo, pertence ao mistério.

Cocanha: utopia que atravessa o tempo

Cocanha é um lugar utópico. Uma terra imaginária onde há fartura, ociosidade, juventude e liberdade, algo que mobiliza as pessoas através dos séculos, qualquer que seja sua origem geográfica. Por isso, a lenda, que surgiu na França, ganhou o mundo e tem até uma versão brasileira. Em Cocanha – Várias Faces de Uma Utopia, o professor, doutor e livre-docente em história medieval pela USP, Hilário Franco Júnior reúne várias versões desta história. A seguir, ele conversa sobre o livro com o Blog Ateliê:

Como surgiu seu interesse pelo tema? 

Hilário Franco Júnior: Há vários anos, no decurso de pesquisa sobre outro tema, encontrei um curioso poema francês medieval descrevendo uma terra fabulosa, uma espécie de mundo de ponta-cabeça, chamado país da Cocanha. Como esse texto foi traduzido, adaptado e transformado em imagem ao longo de vários séculos, sinal de sua popularidade, pareceu-me interessante reunir grande parte desse material para o público brasileiro.  

Quais são as novidades que esta atual edição traz? 

HFJ: Além de aspectos materiais (novo formato, nova capa, melhor qualidade das imagens), as traduções foram revistas e em certos pontos modificadas, algumas indicações bibliográficas foram atualizadas.  

Cocanha é uma utopia de várias culturas, em várias línguas. A que o senhor atribui essa variedade? Por que tantos povos, em diferentes épocas, buscavam utopias semelhantes? Se tomadas em conjunto, as  Cocanhas são complementares em algum aspecto? 

HFJ: A rigor, toda utopia em qualquer época busca a mesma coisa: superar um presente julgado deficiente imaginando no lugar um mundo supostamente melhor. Como cada época tem, é claro, seus próprios problemas, cada utopia sonha com soluções específicas. Mas se tomarmos um bloco civilizacional com características muito próximas, caso de sociedades pré-industriais como as vistas no livro, suas utopias serão assemelhadas, embora nas diferenças de enfoque ou na ênfase de certos aspectos encontremos material de reflexão histórica e antropológica muito rico.   

O que as diversas Cocanhas, dos mais variados países, têm de diferente? 

HFJ: Justamente a resposta específica ao contexto que reelabora o motivo literário ou iconográfico cocaniano. Por exemplo, a versão inglesa de fins do século XIII é obra de um franciscano que parodia os monges cistercienses, ou seja, o poema revela uma forte disputa ideológica entre uma religiosidade nova, urbana, laica (a dos franciscanos) frente a outra tradicional, rural, clerical (a dos cistercienses). Outro exemplo poderia ser uma gravura italiana de meados do século XVII, A Cocanha das Mulheres, que no plano imaginário inverte a misoginia que ainda predominava na Europa e extrapola o prestígio feminino maior no norte italiano que em outras regiões europeias.    

O que a Cocanha brasileira tem que outras não têm? 

HFJ: No essencial, nada. Nos detalhes, é uma adaptação do país imaginário (no folheto de cordel chamado País de São Saruê) às condições históricas do nordeste brasileiro. Por exemplo, enquanto os relatos europeus falam em riacho de vinho tinto e branco, o cantador paraíbano refere-se a açudes de vinho quinado; aqueles dizem que na Cocanha há árvores que produzem tortas e omeletes, este imagina o mato dando feijão.   

Por favor, explique brevemente a relação entre a Cocanha e o carnaval. 

HFJ: Podemos responder com a fórmula sintética e precisa de um historiador da cultura moderna, o inglês Peter Burke: “a Cocanha é uma visão da vida como um longo Carnaval, e o Carnaval é uma Cocanha passageira”.                                                                                                                             

 Cocanha  remete a um lugar utópico. Em tempos que parecem distópicos (quando há uma pandemia e parte da população insiste em negar a ciência; quando a crise econômica impede a abundância), qual a contribuição de um livro como este? 

HFJ: Espero que seja instigar a reflexão sobre os desejos humanos e seus limites, a comparação desses sonhos em épocas diversas do passado e no presente, e em especial a compreensão do relativismo inerente a todas as coisas humanas: a Cocanha é utopia para muitos, mas também é distopia para outros. Além disso tudo, também é possível ler  o livro como uma antologia literária, com peças do século XIII ao XX plenas de  alegoria, metáfora, ironia, humor.    

A Nebulosa: Poesia de Joaquim Manuel De Macedo

A seguir, o Blog da Ateliê reproduz o texto de Talvanes Faustino, que mantém o Blog do Pensar Poético, sobre “A Nebulosa”:

A edição de A Nebulosa de Joaquim Manuel De Macedo é aberta por um belíssimo ensaio introdutório da Drª Ângela Maria Gonçalves Da Costa, onde já nas primeiras linhas nos oferece um pouco da recepção calorosa, que o delicado, belo e escuro poema obteve no momento de sua primeira publicação; o Correio Mercantil apresenta o poema de Macedo, como o mais belo de todos os tempos modernos. Mais recente, Candinho disse talvez ser este o mais belo exemplar do poema-romance do romantismo brasileiro. Como veremos mais adiante, nem só de elogios viveu o poema de Macedo, agora, nos ocupemos de conhecer um pouco mais sobre o autor.

Joaquim Manuel De Macedo nasceu no dia de São João, à 24 de junho de 1820 em Itaboraí no Rio de Janeiro e foi um escritor brasileiro identificado com a escola romântica, seu livro de maior sucesso é A Moreninha, romance de 1844, a obra é até hoje, publicada e é de fácil acesso aos leitores brasileiros. Macedo, além de escrever romances e poesias, também têm obras nas áreas da dramaturgia e jornalismo.  Manuel faleceu no dia 11 de março de 1882, aos 61 anos.

Em A Nebulosa, único poema na obra de Joaquim, são trabalhados temas sensíveis mesmo nos dias atuais, o que eu imagino que entre um suspiro e outro, o que há de mais mórbido neste poema tenha passado desapercebido. O romantismo, especialmente o romantismo dos filiados ao mal do século, tem um gosto pelo macabro, e o poema de Macedo parece fazer um cortejo a este grupo de poetas, quando desde o começo, o leitor é inserido em uma atmosfera escura, mórbida, pesadamente triste e fortemente depressiva. A professora Ângela Maria diz que “esse canto fúnebre nos remete a uma existência além da vida, porém mais bela e essencial, um tema caro ao romantismo.”

Apesar desse, possível cortejo, o nome principal deste grupo de poetas que formam, aquilo que chamamos de “segunda geração romântica” o poeta Álvares de Azevedo, foi um crítico da obra ao dizer que faltou senso patriótico ao seu autor, pela ausência de cor local (COSTA, 2018, p. 15 na nota de rodapé) o que chama a atenção é que o autor que faz a crítica também tem uma obra com poucas cores brasileiras, aqui a professora Ângela faz a seguinte observação:

O poema-romance de Macedo talvez possa ser lido como resposta à acirrada polêmica entre Alencar e Gonçalves de Magalhães, com a participação do imperador, […] em torno do projeto de nacionalização da literatura e da possibilidade da elaboração de uma obra épica nacional. É portanto, importante refletir que A Nebulosa foi bem recebida pela crítica e pelo leitor brasileiro, pois vinha na contramão do debate que se colocava como central no momento político, cultural e literário da nação. Isso pressupõe uma concepção de literatura que abrange posturas distintas  e mesmo contraditórias, pois seguir os modelos europeus era considerado a um só tempo servilismo e exemplaridade. 

A Nebulosa, é um poema que narra um amor impossível, mas diferente do que pôde ser visto em Iracema de José de Alencar, onde o casal apaixonado era separado por mundos distintos. Neste poema o casal de protagonistas e separado pela vontade da própria mulher, que no leito de morte de sua mãe jurara não amar “jamais” e esta é a resposta que dá as investidas do seu homem ob… apaixonado. O que acabou sendo uma referência ao famoso poema de Edgar Allan Poe, “O Corvo” nele a ave carniceira responde somente uma coisa “nevermore”.  O poema ganha contornos do que nós, hoje, chamamos de comédia romântica quando é retirada a última bruma, que acaba por revelar, o último elo entre as personagens que formam o trio de protagonistas.

A Nebulosa é um poema belíssimo, com passagens que me fizeram, por vezes, suspirar e estreitar o livro entre minhas mãos. É um texto curto, que rapidamente pode ser lido. A edição tem muitas notas de rodapé que servem de muito bom apoio ao leitor, além disso, o texto introdutório da professora Ângela é muito esclarecedor. Recomendo efusivamente, e a todos boa leitura.

Literatura em movimento

Por: Renata de Albuquerque

Transpor obras literárias para o cinema é um assunto polêmico. As “adaptações” nem sempre são bem recebidas e muitos leitores apaixonados não economizam críticas ao que veem na tela. Só por isso, já é necessária uma dose de coragem para enfrentar um projeto como esse. No caso do diretor Luiz Fernando Carvalho, a coragem e a sensibilidade se refletem nas escolhas de transpor para as telas obras que não parecem “óbvias” para essa finalidade. De Machado de Assis (Capitu) a Ariano Suassuna (A Pedra do Reino), passando por Eça de Queirós (Os Maias), Carvalho levou à TV aberta uma estética apurada e inovadora, incomum nesse meio. No cinema (Lavoura Arcaica), sua arte se mostra aos espectadores como uma epifania estética que nos provoca a sair do “modo automático”. “A cada dia, se faz mais e mais necessário aos artistas se prepararem para resistir e reagir à hegemonia das regras de um padrão único, reivindicando modos próprios de ler e reler a literatura e o mundo”, acredita. 

Para Carvalho, a literatura é a origem que forma, com o cinema, um binômio fundamental. “Estamos falando sobre imaginação, o ato de imaginar, que é um direito civilizatório”, diz, aludindo a Antonio Candido em “O Direito à Literatura” (Vários Escritos).  Neste texto, Candido defende que ninguém pode viver sem literatura. “Não há povo e não há homem que possa viver sem ela, isto é, sem a possibilidade de entrar em contato com alguma espécie de fabulação”, afirma o crítico.  É bom lembrar que, para Candido, esse direito a poder estar em contato com (ou mesmo a criar) uma narrativa artística e ficcional não tem a ver com “alta cultura”: a fabulação pode ter como fonte tanto a TV quanto o romance, assim como qualquer outra expressão artística. 

Em sua trajetória como diretor de teledramaturgia, Carvalho dedica-se a oferecer ao espectador novas possibilidades narrativas a cada realização, onde reafirma a importância de dar voz ao que destoa, sublinhando o valor das diferenças para tentar desfazer a ideia de uma linguagem absoluta. “Além de excludente, o mercado é uma máquina de domesticação que insiste em conter arestas e identidades, transformando a multiplicidade em um ser único e obediente, consumidor silencioso daquilo que lhe é apresentado e pronto. Mas não! Somos todos muito singulares. Dar voz a essas diferenças, alimentar sonhos e desejos, ir além da visão burguesa do ‘macho-branco sempre no comando’, será a nossa salvação como artistas, mas, principalmente, como civilização.” – provoca o diretor, que, em sua próxima obra, se debruça sobre uma literatura que expõe a falência do modelo patriarcal burguês através de uma mulher em crise após sua ruptura amorosa.

Clarice

Carvalho finaliza o filme “A Paixão Segundo G.H.”, transcriação para as telas do romance de Clarice Lispector lançado em 1964. Se a pandemia não o tivesse impedido, o filme – que tem Maria Fernanda Cândido no papel de G.H. – teria sido lançado no ano em que se comemorou o centenário da escritora. Na obra, G.H. é uma escultora bem sucedida da burguesia carioca que, após demitir a empregada, decide arrumar ela mesma a casa começando pela “calda” do apartamento: o quarto de empregada. Lá, se depara com o inseto repugnante: uma barata. Refém de seus fantasmas moralizantes, G.H. é arrastada para dentro de um universo desconhecido e que a leva a descobertas metafísicas após confrontar-se consigo mesma.

Na nota de abertura, Clarice Lispector escreve que, apesar de ser “um livro qualquer”, ficaria feliz se ele fosse lido apenas por leitores de “alma já formada”: que sabem que a aproximação de algo se dá de maneira penosa. Para Luiz Fernando Carvalho, A Paixão Segundo G.H. traça um diálogo intenso com seu filme anterior, Lavoura Arcaica (Raduan Nassar). Tanto um quanto o outro são experiências estéticas elaboradas a partir da literatura, negando radicalmente a intermediação de um roteiro adaptado.    

Talvez por isso, além do filme A Paixão Segundo G.H., o diretor vai lançar, como aconteceu em Lavoura Arcaica, um livro sobre o filme. Ainda que não sejam livros de natureza semelhante, ambos podem ser entendidos como um desdobramento do diálogo entre literatura e cinema, que reunirá ensaios de especialistas a respeito da obra cinematográfica e seu cruzamento com o romance de Clarice Lispector. Entre os nomes confirmados para a edição, que será publicada pela Ateliê Editorial, estão, entre outros, a professora de literatura e biógrafa Nádia Battella Gotlib, o professor de cinema Ismail Xavier, a escritora Marilene Felinto e o psicanalista Renato Tardivo. A organização é da autora e pesquisadora Ilana Feldman. No ano em que se comemoram os vinte anos da estreia do filme Lavoura Arcaica e da exibição de Os Maias (que estará disponível no Globoplay), Luiz Fernando Carvalho continua transpondo para as telas obras que nos libertam e ao mesmo tempo instigam espectadores de “alma já formada”.   

Poesia: seleta de poemas do livro Pequeno Palco

Março é o mês da poesia: dia 14, temos o Dia Nacional da Poesia e, uma semana depois, no dia 21, é o Dia Internacional da Poesia. Por isso, a Ateliê não poderia deixar de celebrar as datas e, neste ano, nosso presente para você são alguns textos escolhidos de Pequeno Palco, o novo livro de Ricardo Lima, que também é autor de Desconhecer e Pétala de Lamparina. Este é o sétimo livro de Ricardo, que trata de temas como a infância, a morte e o amor, entre outros e que tem ilustrações de Lygia Eluf. A seguir, você acompanha alguns textos do livro:

Poemas

todos de um certo modo
cavam um pequeno palco
em algum momento da vida


não serve pra nada
não aumenta nem diminui
não prega a paz nem dá um tiro


no circo do trabalho
no almoço em família
ou no botequim


em algum lugar sem a menor importância
cava-se o pequeno palco

lá somos os mais ridículos
no nosso pequeno palco
somos piores do que somos.

enquanto o sonho queima os olhos
no ar um gato mia em colo distante


a alegria da louça lavada
e enxuta no calor da tarde


o sol respinga na toalha
de uma mesa lisa
estreita
sem história

uma cortina
ainda sem cor.

a luz que amanhece sem voz é baça
névoa e dura
como dores musculares misturadas com angústia


uma manhã sem sol precisa de perícia
para saber quem colocou música tão alta
no poço do elevador


quem prendeu e quem mandou soltar
a triste rotina da estatística
as tantas mortes mordidas por tiro
e no poder um abençoado por deus.

ter tanto a preservar
quanto a amazônia
tem de mata e de medo
tem de longe e de dentro de mim


aquele com a dor queimado
conhece a chuva que não vai chegar

na contramão
o que desconhece o destino
do barco na descida
não sabe sequer usar os remos.

Ficou com vontade de ler mais?

A propósito de Leon Hirszman, por Walnice Nogueira Galvão

O Blog da Ateliê reproduz texto da Professora Emérita da FFLCH-USP sobre "Por Um Cinema Popular", livro de Reinaldo Cardenuto, publicado no GGN

O Blog da Ateliê reproduz texto da  Professora Emérita da FFLCH-USP sobre “Por Um Cinema Popular”, livro de Reinaldo Cardenuto, publicado no GGN

Nos filmes que realizou, 5 longas e 11 curtas, dá para ver que estava sempre em busca de algo – o que o título do livro já implica.

Acabo de receber e de ler, com muito proveito,  Por um cinema popular- Leon Hirszman, política e resistênciade Reinaldo Cardenuto, publicado pela AteliêUma beleza de trabalho, dando a devida importância  a esse cineasta da linha de frente do Cinema Novo e do Centro Popular de Cultura (CPC), cuja morte precoce veio ceifar um projeto estético e político de envergadura.

Nos filmes que realizou, 5 longas e 11 curtas, dá para ver que estava sempre em busca de algo – o que o título do livro já implica. E isso desde os primeiros, entre eles Imagens do inconsciente, em que foi registrar a obra da Dra. Nise da Silveira  em hospício no Rio que acolhia os mais destituídos. A psiquiatra aboliu práticas brutais como o eletrochoque e a lobotomia, tratando os doentes mentais pela arte, criando o Museu e vindo a revelar Artur Bispo do Rosário. Ou então Nelson Cavaquinho, onde o cineasta assesta a câmera sobre um sambista exemplar. Ou ainda o ABC da greve, no qual cuida de ir ao encontro da nova classe operária que então surgia, os metalúrgicos do ABC. Como grande filme de ficção, faria São Bernardo, com base no romance de Graciliano Ramos. O sucesso nacional e internacional chegaria com Eles não usam black-tie (1981), sobre uma greve, afinal derrotada, de trabalhadores. Prêmios por toda parte, inclusive o Leão de Ouro em Veneza. A este filme, e à polêmica que suscitou no seio da esquerda, inclusive as querelas partidáriaso livro dedica sua maior porção. O nunca desmentido apego de Leon ao povo aparece com clareza em Deixa que eu falo (2007), documentário que Eduardo Escorel, seu montador em três filmes, lhe dedicou.

Brinda-se ainda o leitor com o roteiro literário reconstituído de Que país é este?, documentário encomendado pela RAI – RádioTV Italiana, hoje desaparecidoVale a pena ventilar um pouco as circunstâncias em que Leon veio do Rio de Janeiro a São Paulo, para me entrevistar. De nem tudo me lembro, mas parece que veio na esteira de Ruy Guerra, com quem eu colaborara, quando pedira os materiais de No calor da hora para o roteiro de um filme sobre Euclides da Cunha e a Guerra de Canudos. Vargas Llosa estava apalavrado com Ruy Guerra, mas acabaria por retirar desses materiais um romance e desistiria de escrever o roteiro. E o projeto coletivo  nunca se concretizou. Leopoldo M. Bernucci, em História de un malentendido , rastreia cada passo do romance até os materiais de origem. Soavam cômicas as  declarações bombásticas de Vargas Llosa sobre os anos que consumira na Biblioteca do Congresso em Washington, pesquisando… Os envolvidos na rasteira morriam de rir.  Ruy Guerra acha mais cômico ainda quando o escritor, que nunca ouvira falar nem em Euclides nem em Canudos, declara o quanto era um fã desde a juventude. Quem conta a história desse malogro é a alentada biografia de Ruy Guerra, escrita por Vavy Pacheco Borges.

Avessa a entrevistas, disse a Leon que, ao contrário, queria propor outras pessoas, quando até então, numa perspectiva bem carioca, ele só tinha convocado Maria da Conceição Tavares e Fernando Henrique Cardoso. Ele ouviu meus argumentos, discutiu pouco e acabou por concordar. É claro que selecionei cuidadosamente quem iria depor sobre o Brasil horrendo em que vivíamos em 1976. Estando Antonio Candido indisponível,  pedi pessoalmente a estes três colegas da USP, da oposição à ditadura, que dessem entrevistas: Alfredo Bosi, Fernando Novais e Sergio Buarque de Holanda.

Servi de motorista levando Leon e equipe para fazer as filmagens, na casa de cada um deles. O impacto dos entrevistados sobre ele era visível. A surpresa de Leon foi sobretudo por topar com gente séria e não com intelectuais midiáticos, dispostos a referendar os donos do poder e das emissoras de TV. O filme se resumiu a esses cinco cntrevistados.

O documentário não mais existe, nem sequer nos arquivos da RAI, mas o livro traz bons resumos.  Leon comenta que a RAI nunca exibiu o filme alegando que não era turístico… De fato, posso garantir que não era mesmo. Nenhum trabalho de Leon era.

Walnice Nogueira Galvão é Professora Emérita da FFLCH-USP

Massao Ohno, Editor: resenha de Livros que eu Li

Massao Ohno, Editor, foi considerado um dos 50 melhores livros de 2020 pela Revista Quatro Cinco Um. Ohno foi um dos maiores editores do país, deixando sua ideia e marca que influenciou o mercado editorial independente. A seguir, o Blog da Ateliê reproduz o texto do Blog Livros que Li, no qual o professor de física da UFSM, Aguinaldo Medici Severino, compartilha suas impressões de leitura:

Esse é o livro mais bonito que li neste ano. É um livro que rende homenagem a um dos melhores artífices brasileiros, o editor, designer, tipógrafo, experimentador, artista gráfico e pensador das artes, Massao Ohno, paulista filho de imigrantes japoneses, que viveu entre 1936 e 2010. É um livro que evoca aqueles curtos períodos onde parece que o Brasil é um país normal, com alguma chance de evoluir, transformar-se, florescer, não essa fossa séptica mental e moral à qual normalmente retornamos, inexoravelmente. Massao começou a trabalhar com artes gráficas em meados dos anos 1950. De editor artesanal, que até custeava os primeiros trabalhos de jovens promissores poetas, Masso Ohno tornou-se em cinco décadas um dos mais respeitados editores brasileiros, referência única em qualidade de produção gráfica, fusão harmônica entre a forma dos livros e seu conteúdo, criatividade e originalidade. O resultado desta vida, os livros que editou com seus parceiros artistas, são livros arte, livros objeto, avant la lettre, já se sabe. Lê-se e vê-se este volume com um espanto perene nos olhos. Nele encontramos o que no Brasil fez-se de melhor, na poesia, nas artes plásticas, no cinema, na cultura. Os poetas que ele editou (Claudio Willer, Jorge Mautner, Carlos Vogt, Mario Chamie, Hilda Hilst, Olga Savary, Lêdo Ivo, Carlos Nejar, Paulo Mendes Campos, Vinícios de Moraes – para citar só dez dentre dezenas de outros) foram apresentados em volumes ilustrados por artistas plásticos geniais (João Suzuki, Wesley Duke Lee, Manabu Mabe, Tide Hellmeister, Arcângelo Ianelli, Mira Schendel, Tomie Otake, Carlos Vizioli, Millôr Fernandes, Cyro del Nero – novamente, citando apenas uns poucos). Ohno também colaborou vários outros respeitados editores (Roswitha Kempf, João Farkas, Ênio Silveira), formou jovens talentos e foi um ativo divulgador da cultura e da língua japonesa no Brasil.

Esse volume foi idealizado por José Armando Pereira da Silva, respeitado historiador da arte. Seu meticuloso levantamento da produção editorial de Massao Ohno foi feito em colaboração com a secretaria de cultura e as bibliotecas públicas da cidade de São Paulo, consumiu quase quinze anos e fez com que hoje estejam disponíveis para consulta, depositados na Biblioteca Mário de Andrade, aproximadamente 650 livros. O resultado do rastreamento de José Armando indica um número ligeiramente maior, listando 777 livros editados por Ohno, entre 1959 a 2010. No volume estão reproduzidas um quarto das sempre belas capas das obras, mas os textos que contextualizam cada fase da carreira de Ohno também são muito bons. Todo um panorama da arte e cultura brasileira da segunda metade do século passado se desvela. Nem preciso acrescentar que é um livro muito bem editado pela Ateliê. Ao folheá-lo, fui garimpando mentalmente as pequenas joias que estão entre meus guardados, não mais que dez delas, coisas de T. S. Eliot e James Joyce, Hilda Hilst e Paul Valéry, Augusto e Haroldo de Campos, Olga Savary e Bashô). Livro para se desfrutar, ler e reler, alegrar os dias, purgar-nos destes aziagos dias de pandemia. Evoé, Massao Ohno, miglior fabbro, evoé. Vale! 

Se quiser acompanhar outros textos do blog Livros que Li, o endereço é http://guinamedici.blogspot.com/

Augusto de Campos completa 90 anos de poesia

Por Renata de Albuquerque*

Augusto de Campos completa 90 anos neste fevereiro em que não houve carnaval. O poeta fez sua estreia literária há exatos 50 anos com O Rei Menos o Reino. E, no ano que vem, o essencial Viva Vaia completa meio século desde sua primeira publicação. Mas as efemérides não são simples comemorações de fatos estáticos, de datas comemorativas passadas. Augusto de Campos e sua poesia vivem o agora, no sentido mais radical da contemporaneidade.

Suas críticas ao governo atual são apenas um dos exemplos que mostram que o poeta não é “apenas” um artista que vive de glórias passadas, mas, ao contrário, que continua alimentando-se de uma inquietação profunda, que transborda em sua obra, como já transbordava na juventude, em poemas como “Greve” (1962) e em suas escolhas como tradutor: Ezra Pound, e.e.cummings, Vladimir Maiakovski, Jorge Luís Borges e Gertrude Stein, entre tantos outros. Para o poeta, traduzir é recriar em outra língua. E essa visão artística também tem ecos profundos na tradição brasileira de tradução, que aponta saídas inusitadas e ao mesmo tempo tão genuinamente brasileiras a expressões estrangeiras, sem abrir mão do estilo.

Poesia Concreta

A natureza de sua obra – a poesia concreta, cujo manifesto Noigandres marcou de maneira profunda a poesia brasileira – trazia a literatura para perto das artes plásticas, gráficas e visuais, além de criar vínculos com a palavra falada muito antes dos podcasts e do Youtube existirem. Tanto assim que Viva Vaia, em sua edição atual, acompanha um CD, mídia que pode tornar-se streaming a qualquer tempo, sem abrir mão do conteúdo que provocou sua existência. Um artista multimídia antes mesmo de o termo surgir.

Livro Viva Vaia

Grandes movimentos artísticos brasileiros ou foram resgatados por Augusto de Campos (como o Modernismo) ou foram, de certa forma, chancelados por ele (Caetano Veloso conta que mostrava a Augusto de Campos larga parte de sua produção tropicalista). Em seus 90 anos, artistas tão diversos quanto Arnaldo Antunes, Tom Zé, Adriana Calcanhoto prestam sua homenagem ao poeta, em diversos eventos (inclusive virtuais).

Sua conta no Instagram (@poetamenos) tem mais de 23 mil seguidores – uma mostra de que a idade não é razão para não se renovar. Nela, o poeta faz experimentações verbivocovisuais que apontam para o futuro, com uma curiosidade de quem, definitivamente, não quer parar no tempo de seus 90 anos.

*Jornalista, Mestre em Literatura Brasileira pela FFLCH/USP, autora da Dissertação Senhoras de Si: o Querer e o Poder de Personagens Femininas nos Primeiros Contos de Machado de Assis.

Pequeno Palco: uma leitura rápida, mas profunda

Nesta entrevista ao Blog da Ateliê, o poeta Ricardo Lima fala de seu sétimo livro, a coletânea Pequeno Palco. Este é seu terceiro livro pela Ateliê, editora pela qual já lançou Pétala de Lamparina (2010) e Desconhecer (2015). Ricardo, que é jornalista e coordenador editorial da Editora da Unicamp, conta nesta entrevista como construiu sua obra mais recente e sobre quais temas ele se debruça neste livro de leitura rápida – razão pela qual é possível ao leitor ter uma noção panorâmica e completa da obra, que reflete a visão do autor sobre a realidade atual. “Tudo só tende a piorar, mas precisamos ter esperança”, diz o poeta na entrevista a seguir:

Os poemas reunidos neste livro foram escritos no decorrer de seis anos. Como foi o processo de reunir esse material? Como escolher o que entraria e o que seria excluído da seleção?

Ricardo Lima: Este é o meu sétimo livro e todos foram escritos e publicados sem pressa, em média a cada 4 ou 5 anos. São agrupamentos pequenos, a minha maior coletânea tem 40 poemas. Com exceção de um livro (Pétala de Lamparina) os poemas vão sendo escritos sem programa, sem cobrança, sem rotina. Tem semana que escrevo três noites seguidas. Depois fico meses sem pensar nisso. A seleção é feita depois de muitas e muitas leituras, os que não agradam 100% vão ficando de escanteio, esperando solução ou já descartados para a pasta “pequeno palco – não publicados”. Uma coletânea enxuta permite a leitura em uma sentada. Em 20 minutos o leitor atravessou aqueles 30 poemas e acho que isso possibilita uma apreciação mais adequada do conjunto.

Quais são os principais temas que perpassam os poemas do livro?

RL: São os de sempre. Morte, vida, infância, amor, tempo… esses temas mais comuns da poesia. Só escrevo sobre isso. O que pode ser apontado como diferente neste livro é a presença de alguns poemas com temática mais social, para ficarmos numa definição simples. Mas não vejo nada de excepcional nisso. É claro que o tema social deveria aparecer em poemas escritos nos dias de hoje, nesse caos que é o início do século 21.

O título do livro remete ao poema de abertura, cujos versos finais dizem: “no nosso pequeno palco/somos piores do que somos.” De que maneira este “clima” permeia os outros poemas do livro?

RL: Este final é pessimista. Talvez este seja o clima que perpasse outros poemas, mas não todos. O que também não é de se estranhar, tendo em vista este país conturbado, desgovernado, conduzido pelo mal.

A sinopse do livro no site da editora informa que “Em sua nova coletânea, Ricardo Lima retoma o estilo minimalista e lírico dos livros anteriores, porém trata a miséria agressiva dos dias atuais com versos mais diretos, numa linguagem menos elíptica”. A “miséria agressiva dos dias atuais” pode ter vários entendimentos: a situação da saúde, da economia, da sociedade… entretanto, os poemas reunidos em Pequeno Palco são anteriores ao cenário da pandemia pela qual o mundo passa. Por isso, cabem aqui duas perguntas: que miséria era aquela de quando os poemas foram escritos? Como aquela miséria ecoa no momento atual pelo qual passamos?

RL: A miséria é a que já está plantada no mundo bem antes da pandemia. A miséria dos afogados no Mediterrâneo e a miséria dos que não se afogaram no Mediterrâneo. A miséria humana que cria abismos e abismos e abismos. Mas, como disse na resposta anterior, o pessimismo permeia alguns ou muitos poemas do livro, mas não todos. Tudo só tende a piorar, mas precisamos ter esperança. Usei como epígrafe o primeiro parágrafo do livro O amante de Lady Chaterly, publicado em 1928: “Nossa época é essencialmente trágica, por isso nos recusamos a vê-la tragicamente. O cataclismo já aconteceu e nos encontramos em meio às ruínas, começando a construir novos pequenos habitats, a adquirir novas pequenas esperanças. É trabalho difícil: não temos mais pela frente um caminho aberto para o futuro, mas contornamos ou passamos por cima dos obstáculos. Precisamos viver, não importa quantos tenham sido os céus que desabaram.”

Alvarenga Peixoto: uma poesia de “contradições esperadas”

Em entrevista ao Blog Ateliê, o tradutor Caio Cesar Esteves de Souza, autor de Obras Poéticas de Alvarenga Peixoto, fala da descoberta de poemas inéditos do carioca que foi figura conhecida da Inconfidência Mineira mas cuja poesia tem sido pouco estudada no Brasil. O livro é fruto de seus estudos para o Mestrado – atualmente desenvolve seu doutorado em Romance Languages and Literatures na Harvard University (EUA). Souza, que já apresentou os resultados de suas pesquisas em diversos congressos no Brasil, Portugal, Itália, Polônia e EUA e tem uma coluna no Estado da Arte, do Estadão, defende que a obra de Alvarenga é, apesar de concisa (são apenas 40 poemas), complexa e multifacetada – tanto assim que os poemas foram usados tanto pela defesa quanto pela acusação no processo da Inconfidência. Essas características, segundo o estudioso, fazem dela um ótimo ponto de partida para o estuda da literatura do período. Leia abaixo a entrevista:

Há quem considere Alvarenga Peixoto um autor “menor” se colocado lado a lado com seus pares, como Cláudio Manuel da Costa e Tomás Antônio Gonzaga. Por que debruçar-se sobre a obra deste poeta do XVIII? O que despertou seu interesse?

Caio Cesar Esteves de Souza: Realmente, o Alvarenga Peixoto é considerado um autor “menor” do século XVIII justamente por conta de sua obra ser muito reduzida em número (apenas 34 poemas eram conhecidos até a publicação desta edição, que agora expande esse corpus para 40 textos) e por nunca ter publicado um livro de poesia em vida. Ao mesmo tempo, o próprio século XVIII é considerado por alguns estudiosos um período “menor” na história literária brasileira, uma espécie de entre-séculos, cuja função é apenas negar o dito “barroco” do século XVII ou antecipar o indianismo romântico do século XIX. E para outros estudiosos, sobretudo fora do Brasil, a literatura brasileira é uma literatura “menor” se comparada a outras, devendo ser entendida sempre como parte integrante de uma “literatura latino-americana” maior, escrita majoritariamente em espanhol.

Quando a gente coloca tudo isso em perspectiva, fica claro que a grandeza ou pequenez de qualquer autor e obra sempre diz mais sobre os pontos cegos dos críticos que se debruçam sobre eles do que sobre o próprio objeto de estudo. O meu interesse pelo Alvarenga Peixoto surgiu justamente do desinteresse dos outros estudiosos. Achei curioso que ninguém houvesse publicado um trabalho de fôlego sobre esses poemas desde 1960 – e ainda mais curioso que todos soubessem quem ele era sem nunca ter efetivamente lido sua poesia. Então, fui ler e notei que ela era boa. Foi a partir daí que decidi, em fins de 2014, que dedicaria alguns anos ao estudo desses poemas – para entendê-los melhor, mas também para entender melhor o silêncio dos nosso tempo sobre eles.

Em tendo estudado a obra de Alvarenga Peixoto, que argumentos podem ser colocados para (lembrando que foi inconfidente) “livrá-lo da acusação” de poeta menor?

CCES: Acho que não é necessário livrá-lo dessa acusação, porque ser produto de um poeta “menor” é justamente o que faz a obra atribuída a Alvarenga Peixoto ser tão interessante. Nesses 40 poemas, encontramos sonetos com temática amorosa; poemas elogiando as reformas de D. José I e de seu ministro, o Marquês de Pombal; outros poemas elogiando a rainha D. Maria I, que era oposta às reformas desenvolvidas por Pombal alguns anos antes; poemas sobre homens poderosos da colônia, produzindo uma tensão entra sua pátria (as Minas Gerais e, por extensão, o Brasil) e a sua nação (Portugal); poemas reafirmando a submissão brasileira a Portugal etc. Encontramos, nessa poesia atribuída a Alvarenga Peixoto, todas as contradições que esperamos encontrar ao estudar a segunda metade do século XVIII luso-brasileiro. É uma poesia que foi usada como prova de acusação contra o seu autor e, também, como parte de seu discurso de defesa no processo da inconfidência mineira. Eu honestamente acredito que a obra de Alvarenga Peixoto oferece o melhor conjunto de poemas para que o leitor perceba que as letras luso-brasileiras do século XVIII não podem ser facilmente reduzidas a meia dúzia de lemas árcades e a rótulos vazios como “barroco tardio” ou “pré-romantismo”. Ela é complexa, multifacetada, e resiste constantemente a esse tipo de caracterização. O fato de ser composta apenas por 40 poemas faz com que essa complexidade fique ainda mais evidente para o leitor. Acho que isso faz de Alvarenga Peixoto um excelente ponto de partida para o estudo do século XVIII luso-brasileiro.

 De que maneira o fato de Alvarenga Peixoto ter sido inconfidente impacta a obra dele e, além disso, a leitura que fazemos dela?

 CCES: Bom, aqui temos duas questões. O fato de Alvarenga Peixoto ter participado ativamente como um dos líderes do conjunto das reuniões que foi posteriormente chamado de Inconfidência Mineira, ou Conjuração de Minas, faz com que alguns leitores o imaginem como uma figura libertária, progressista, disposta a enfrentar o poder da metrópole por amor à pátria etc. Um nacionalista de uma nação que ainda não existia. Quando esses leitores se deparam com a sua poesia, ficam frustrados, porque não encontram nos poemas esse ideal que produziram em seu imaginário. A insuficiência, evidentemente, não é do poeta.

Boa parte da poesia atribuída a Alvarenga Peixoto foi composta antes de toda a questão política que culminou em seu degredo para Angola, onde viria a morrer. E a temática dos poemas nunca é explicitamente separatista. O que se nota – e quem apontou isso de forma consistente pela primeira vez, até onde tenho conhecimento, foi João Adolfo Hansen em um ensaio publicado em 2006 – é que em alguns poemas de Alvarenga Peixoto, como no “Canto Genetlíaco”, que fez ao batizado do filho de um poderoso das Minas Gerais, há uma tensão entre a origem de homens “valorosos” (nascidos no Brasil) e a sua subordinação à coroa portuguesa. Em outras palavras, é possível notarmos que a relação entre nação (Portugal) e pátria (Brasil), que fundamenta o processo da colonização brasileira, se apresenta como um problema, uma tensão pontual nessa poesia. Não é à toa que um fragmento de ode do Alvarenga Peixoto foi anexado às provas de acusação no processo da Inconfidência. Também não é gratuito que Alvarenga tenha escolhido anexar poemas em louvor à rainha D. Maria I ao discurso de seu advogado de defesa. Não devemos ler a poesia de Alvarenga Peixoto como uma “poesia inconfidente”; mas tampouco devemos nos furtar de perceber o aspecto político e contraditório de alguns desses versos – às vezes produzindo uma tensão entre colônia e metrópole, às vezes propondo a subordinação do Brasil a Portugal.

Como foi feito o trabalho de “garimpar” manuscritos e originais de Alvarenga Peixoto?

CCES: Como o Alvarenga Peixoto passou uma boa parte de sua vida em Portugal, quase todos os poemas que conhecemos dele estão registrados em livros manuscritos guardados em arquivos em Lisboa, Coimbra, Évora e Porto. Então, seguindo as instruções que Manuel Rodrigues Lapa, o último editor de Alvarenga Peixoto (1960) tinha deixado em seu livro, segui a Portugal para ler esses manuscritos e impressos. O que notei imediatamente é que a própria ideia de original não fazia sentido ali. Todos os textos estão registrados em vários escritos em cópias diversas preservados nesses arquivos. Não sabemos a partir de onde essas cópias foram feitas – se usavam manuscritos do autor, ou se a partir de performances orais esses copistas memorizavam os textos e depois os copiavam em papel. O contato com todos esses escritos me fez notar que, em vez de tentar comparar as várias versões desses poemas para imaginar o que teria sido a versão original, eu deveria inverter essa relação e valorizar cada uma dessas cópias como o que elas de fato são: fragmentos da História preservados em papel. A partir disso, produzi esta edição que é radicalmente diferente de todas as outras que foram feitas das obras poéticas de Alvarenga Peixoto. Em vez de esconder as incongruências, as dificuldades de leitura e os “acidentes” dos manuscritos, decidi trazê-los todos aos leitores, para que eles possam ter acesso a essa multiplicidade de vozes que se escondem no pó dos arquivos e que costumam ser apagadas em edições “definitivas” de obras completas.

Caio Cesar Esteves de Souza

Como foram descobertos os seis inéditos reunidos neste volume?

CCES: Essa descoberta foi quase um acidente de percurso. Após passar meses em Portugal revirando todos os livros manuscritos a que tive acesso, virando milhares de páginas manuscritas uma a uma na esperança de encontrar algum inédito, estava resignado à ideia de que não havia mais nenhum inédito preservado de Alvarenga Peixoto. Voltei ao Brasil, escrevi a minha dissertação e, poucos meses antes de ter que depositá-la, fui à Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin, da USP, para dar uma última olhada em uma coleção de manuscritos que estava catalogada de forma estranha. No catálogo, lia apenas “Flores do Parnaso [século XVIII]”, sem nenhuma descrição – isso já foi alterado, evidentemente. Chegando lá, me deparei com 5 livros de poemas manuscritos, com uma grafia do século XVIII. Então, decidi repetir o processo, olhando página por página de cada um dos cinco tomos, só para garantir que não haveria nada inédito ali. Parece história de pescador, mas os seis últimos poemas do último livro se intitulavam Galeria de Almeno. Eu já ia fechar o livro, pois não me interessava por nenhum Almeno, mas li ao lado a inscrição em francês “Autrement dit Alvarenga” [também conhecido como Alvarenga], com uma inscrição feita a lápis por Rubens Borba de Morais: “Peixoto”. Por muito pouco esses poemas não continuaram inéditos por mais alguns anos. Trabalho arquivístico sempre tem um quê de acaso nessas descobertas.

Foi feita alguma checagem de autenticidade para “comprovar” a autoria?

CCES: Foram feitas várias checagens, mas não com o sentido de comprovar autoria como geralmente se pensa. É pouquíssimo importante saber se o homem Alvarenga Peixoto efetivamente escreveu ou deixou de escrever um ou outro poema. Quase toda a poesia que lhe é atribuída não tem qualquer comprovação de autoria nesse sentido – e esse é o caso da maior parte dos poetas dessa época. Até muito recentemente, a autoria não era uma categoria tão fundamental para a produção, circulação e recepção de poesia como é hoje.

As questões que precisavam ser checadas eram várias; dentre elas: 1. esses poemas já foram publicados anteriormente? 2. Se sim, eles foram atribuídos a qual autor? 3. Há referências textuais internas que impeçam a leitura desses textos como atribuídos a Alvarenga Peixoto? Como não encontrei qualquer publicação anterior desses textos e não há qualquer passagem textual que tornasse inviável atribuí-los a Alvarenga Peixoto (por exemplo, uma referência a acontecimentos históricos posteriores à sua morte), não havia motivos para não acatar o que o manuscrito determinava como sua autoria.

Eu penso em Alvarenga Peixoto e qualquer outro autor anterior ao século XIX não como a mão que escreve, mas como a mão que é escrita pelos poemas. Se um manuscrito atribui determinado poema a determinado autor, ele produz esse autor a partir da reprodução do texto. Textos e escritos produzem autores, não o contrário.  

 Ler Alvarenga Peixoto no século XXI: quais são os desafios disso? E o que essa obra do XVIII diz a nós, no XXI?

 CCES: O principal desafio para ler Alvarenga Peixoto no século XXI é desnaturalizar o que pensamos que sabemos sobre essa poesia antes da leitura. É realmente nos aproximarmos desses textos abertos ao que eles tenham a dizer, e não tentando buscar ali o que já supomos que dirão. Outro desafio considerável é entendermos que a originalidade, que para nós é uma qualidade fundamental na poesia, não tem grande importância antes do século XIX. Um excelente poeta no século XVIII luso-brasileiro é aquele que sabe escrever poemas seguindo os lugares-comuns daquele gênero de poesia e superando todos os outros grandes poetas que se dedicaram ao mesmo gênero e aos mesmos lugares-comuns anteriormente. Escrever poesia era um jogo, em que você demonstra que é melhor poeta que os outros por saber seguir as regras com maior habilidade que os demais. Se o leitor quiser buscar originalidade ali como busca em poemas do século XX e XXI, não encontrará e pensará ser insuficiência da poesia o que na verdade é defeito de leitura.

Para que uma obra diga algo, é necessário que antes estejamos dispostos a ouvi-la. Não acho que os poemas de Alvarenga Peixoto necessariamente tenham qualquer tipo de mensagem aos leitores do século XXI. Mas o contato com eles, o processo de leitura atenta, cuidadosa e interessada, vai demonstrar a necessidade de entendermos esses poemas como um Outro. A poesia de Alvarenga Peixoto foi escrita por alguém (ou alguéns) de outro tempo, para outros leitores, seguindo outros critérios de composição e leitura. Uma vez que os leitores de hoje entendam isso, o próximo passo seria entender que eles também são Outros. Essa poesia produz os leitores do século XXI como outros em relação a si. O contato do leitor atual com textos para os quais ele não detém os pressupostos de interpretação faz com que ele tenha que aceitar a sua própria insuficiência e possa se ver como uma alteridade. E em um tempo de intolerância, negacionismo, estupidez e mediocridade como o nosso, a capacidade de lidar com aquilo que é outro e de entender que nós não somos a medida de todas as coisas me parece fundamental. A leitura das obras poéticas de Alvarenga Peixoto pode ser um bom ponto de partida para isso também.