Renata Albuquerque

O Primo Basílio, de Eça de Queirós

O Primo Basílio é talvez a mais conhecida das obras de Eça de Queirós no Brasil. Adaptada para o cinema e a televisão, o romance realista  publicado em 1878 relata o triângulo amoroso de  Luísa, seu marido Jorge e o primo dela, Basílio, em uma trama que coloca luz na hipocrisia da sociedade burguesa lisboeta da época.

Luísa e Jorge têm boa condição financeira e um casamento morno, apesar dos presentes que ele dá a ela. Ele é engenheiro e, durante uma viagem que faz a trabalho, o primo de Luísa, Basílio, vai visitá-la. Reacende-se então um romance entre os ex-namorados da época da adolescência. Luísa é retratada como uma mulher sonhadora, leitora de romances românticos que se ilude com a chegada do primo. Eles vivem uma paixão intensa que ao longo do tempo também arrefece.

Nesse contexto, a criada Juliana é o contraponto realista da protagonista. Ao perceber que Luísa e Basílio têm um caso (e que inclusive se encontram em um quarto alugado especialmente para os amantes), Juliana passa a chantagear a patroa, depois de ter descoberto cartas trocadas entre os primos. Luísa sugere a Basílio que fujam para Paris, mas ele a deixa em Lisboa.

Então, Luísa é humilhada por Juliana e obrigada a oferecer presentes à empregada, inclusive substituindo-a nas tarefas domésticas. Quando Jorge volta de viagem, percebe algo estranho e diferente na relação entre a esposa e a subalterna, pois as chantagens de Juliana são cada vez maiores. Para tentar se livrar do problema, Luísa pede ajuda a um amigo, Sebastião, que ameaça Juliana e retoma as cartas que ela havia interceptado. Entretanto, a seguir, Juliana morre.

Enquanto isso, Luísa também adoece e Jorge descobre, na correspondência da mulher, uma carta de Basílio. Para poupar a mulher de alguma notícia negativa que pudesse ter chegado na carta, Jorge decide abrir a correspondência. Assim, descobre do caso entre os primos. Confronta Luísa sobre a situação e ela, então, também morre.

Análise

O Primo Basílio é, em essência, uma crítica ao Romantismo e a tudo o que ele exalta: a idealização do amor romântico de que “padece” Luísa é o que a leva a morrer, em última instância. Mas Eça de Queirós não deixa também de criticar a burguesa da época, sua mediocridade, a beatice de fachada, o conservadorismo e a vida de aparências são alvos constantes do romance. Até o amor devoto de Jorge é ridicularizado e transformado em sofrimento pela esposa traidora.

Assim, o romance se alinha ao Realismo: a influência que o ambiente exerce sobre as personagens, a irracionalidade ligada à sexualidade (traço presente no Naturalismo) e uma ironia cruel e inteligente.  

O foco narrativo é em terceira pessoa. O narrador é onisciente e o tempo, cronológico (apesar dos flashbacks em que a sonhadora Luísa lembra do casamento e das doces promessas dos primeiros tempo com Jorge e também com Basílio).

Conheça outros livros da Coleção https://www.atelie.com.br/publicacoes/colecoes/colecao-classico-atelie/

Caligramas: seleta de poemas de Guillaume Apollinaire

Por Renata de Albuquerque

“Caligrama”: palavra que se origina da mistura entre “ideograma” e “caligrafia” é o título de um dos mais importantes livros de poemas de Guillaume Apollinaire, que acaba de ser relançado. Em sua origem, o termo já revela a vocação de ir além da palavra escrita e expressar seus significados também pela forma – que sugerem desenhos.

O caligrama, ao unir imagem e palavra, explode em significado, como lembra Véronique Dahlet no prefácio da edição: “ Erupção dentro da unidade da palavra, cujo desmantelamento ocorre em prol da materialidade tipográfica; erupção na linearidade narrativa do discurso, criando ilhas textuais circundadas pelos brancos que preenchem o papel de sintaxe; erupção, enfim, da visibilidade na legibilidade e do figurativo na ordem do signo linguístico”.

É o desafio de traduzir “para além da palavra” que Álvaro Faleiros assume ao decidir transpor estes textos de Apollinaire do francês ao português em Caligramas. Afinal, além de lidos, eles  precisam ser “vistos” para que sejam compreendidos por inteiro, dentro de seu contexto histórico e proposta artística. Além do ritmo e das rimas, as imagens e o espaço gráfico precisam fazer sentido e complementam-se em metáforas. E aí mora a genialidade do trabalho.

A seguir, alguns exemplos do trabalho de Álvaro Faleiros que estão em Caligramas:

O Bom Crioulo

O Blog da Ateliê traz aos leitores o texto de Arthur Virmond de Lacerda Neto sobre “Bom Crioulo”, o primeiro romance brasileiro a abordar a homossexualidade masculina no Brasil pós-abolicionista e republicano. O texto original está no link https://arthurlacerda.wordpress.com/2016/09/19/bom-crioulo/

Intitula-se “Bom Crioulo” o romance do cearense Adolfo Caminha,  cujo tema consiste na relação amorosa e sexual havida entre o protagonista,  Amaro, Bom Crioulo de alcunha, e o jovem Aleixo, “um belo marinheirito de olhos azuis, muito querido por todos e de quem diziam-se cousas”.

Embarcadiços ambos, conhecem-se a bordo, onde Amaro interessa-se por Aleixo e desenvolve por ele uma relação de proteção que se transforma em um vínculo de amor e em convivência marital, ao passarem a coabitar em um quarto de pensão, no Rio de Janeiro.

Singelíssimo e destituído de lances significativos, o entrecho do livro  termina com o assassínio de Aleixo por Amaro, em um rompante de ciúmes deste, por haver aquele se afeiçoado a uma mulher.

Para mais da relação afetiva, o livro descreve, explicitamente, a homossexualidade do protagonista, como no passo em que ele sente-se dominado pelo “desejo de unir-se ao marujo como se ele fora do outro sexo, de possui-lo, de tê-lo junto de si, de amá-lo, de gozá-lo!”.

Em uma fase inicial, Amaro hesita em satisfazer ao seu  desejo. Pondera que, sendo marinheiro de baixa graduação, “outros de categoria superior praticavam quase todas as noites ali mesmo sobre o convés”, o ato de “carnalidade grega” porque ansiava e que, afinal, satisfez à bordo, o que o levou a compreender “nitidamente que só no homem, no próprio homem, ele podia encontrar aquilo que debalde procurara nas mulheres”.

Descoberto o que lhe gratificava os sentidos, Bom Crioulo “não se contentava em possui-lo [a Aleixo] a qualquer hora do dia ou da noite, queria muito mais, obrigava-o a excessos, fazia dele um escravo, uma “mulher à toa”, propondo quanta extravagância lhe vinha à imaginação”.

Certa feita, Aleixo suplicou-lhe: “Basta!”, ao que Amaro replicou-lhe: “Não, não! Um bocadinho mais…”

Publicado em 1895, em um tempo em que a sexualidade correspondia a um tabu generalizado; em que, acerca dela, abundavam a incompreensão e o desconhecimento, na maioria das pessoas e em que a homofobia existia em grau elevado, a concepção,  a redação e a publicação de “Bom Crioulo” equivaleram a atos de desassombro do autor, que não temeu as reações adversas do público leitor:  causaram indignação as cenas de homossexualidade explícita e, por décadas, foi livro proibido em bibliotecas escolares e públicas. Consta que, ao tempo, a Armada em peso leu-o e revoltou-se com as suas descrições explícitas e, certamente, com as referências à homossexualidade como realidade comum nos navios.

Durante o Estado Novo (1937-1945), a Marinha solicitou ao governo que obstasse a distribuição da segunda edição do livro, cujos exemplares recolheram-se, sob a alegação, inteiramente falsa, de tratar-se de obra comunista.

Nos anos de 1950, a crítica literária Lúcia Miguel Pereira acusava Adolfo Caminha de mau gosto, por tratar de um “tema abjeto” com minúcias desnecessárias.

Transcorreram oitenta e cinco anos até que, na década 80, surgissem novas edições e traduções suas nos Estados Unidos, na Alemanha, na França e no México. Mesmo assim, uma resenha dele, da autoria Léo Ribeiro, foi recusada, em 1983, pelo Jornal da Tarde (de São Paulo), porque o tema desagradava aos seus proprietários.

Republicado em 2008 e 2009, no Brasil, deixou de representar uma raridade bibliográfica e já não escadandaliza como antanho. No futuro, não escandalizará de todo, quando as pessoas houverem aprendido a entender a natureza humana e a respeitar as diversas formas como se manifestam os seus semelhantes, em relação à sexualidade e não só. Assim, a reação do público leitor a “Bom crioulo” serve de indicador do estado da mentalidade acerca do uranismo e da liberdade sexual: se, no passado, e por décadas, sofreu reprovação e ocultamento, equivalerá a índice de maturidade da psicologia coletiva a sua aceitação como descrição de uma parte dos impulsos e dos sentimentos normais e naturais das pessoas.

Nos últimos anos, Nélson de Carvalho publicou “O terceiro travesseiro”, narrativa verídica de uma relação homoafetiva, emocionante por vezes, porém pobre, mesmo medíocre, na sua realização literária. Com um enredo comparativamente simples e com um volume de texto menor, Adolfo Caminha produziu uma obra superior àquela.

Conheça este e outros livros da Coleção Clássicos Ateliê

A Farsa de Inês Pereira, de Gil Vicente

“Farsa” é o nome que se dá ao gênero teatral que explicita a caricatura sobre personagens e situações. O resultado é uma crítica aos costumes de um tempo e de um grupo social. Esse foi o gênero escolhido por Gil Vicente ao escrever um texto sobre a máxima “Mais vale um asno que me leve que um cavalo que me derrube”.

O desafio teria sido lançado quando, acusado de plágio, o autor aceitou a proposta de escrever a respeito de um mote escolhido por outras pessoas, para que, com isso, pudesse provar sua originalidade e capacidade enquanto autor. A provocação gerou, então, o que é considerado por muitos o texto mais complexo e divertido desse autor nascido em 1465, em Évora (Portugal) e considerado o pai do teatro português.

Em “Farsa de Inês Pereira”, apresentada pela primeira vez ao Rei D. João III, no ano de 1523, Gil Vicente denuncia hábitos e costumes amorais e até degradantes da sociedade portuguesa, em um tom que beira o jocoso. Até hoje a peça diverte e arranca risadas de espectadores e leitores. Ao contrário de outras peças escritas pelo autor, nesta não há uma “lição de moral”, com punição explícita da personagem.

Resumo

Inês Pereira é uma jovem na idade de se casar. Ela é pressionada pela mãe, com a ajuda da alcoviteira Lianor Vaz, a conseguir um marido adequado, que a sustente financeiramente. Mas Inês sonha que seu marido queira se divertir tanto quanto ela, que saiba tocar viola. Inês espera, com o casamento, fugir das obrigações do trabalho doméstico.

O primeiro pretendente é Pero Marques, um camponês rico que, quando vai à casa de Inês, comporta-se de uma maneira que ela acha ridícula, sem nenhum traquejo ou refinamento social. Ela dispensa o pretendente e aceita a proposta de Brás da Mata, feita por intermédio dos judeus Latão e Vidal. Brás da Mata é um escudeiro cujo objetivo é dar o golpe do baú em Inês Pereira. Por isso, age com refinamento e acaba por conquistar a jovem.

Já casada, Inês passa a sofrer nas mãos do marido e percebe a armadilha em que caiu. Trancada em casa, sua única ocupação é costurar e lamentar o que lhe aconteceu. O marido vai para a guerra, onde morre. Viúva, Inês casa-se com Pero Marques. Algum tempo depois, reencontra um antigo namorado seu, chamado de ermitão, e ambos marcam um encontro. Inês pede a Pero que a leve ao local marcado e, com isso, engana o marido, que a leva nas costas para o compromisso, sem perceber que estava sendo enganado. Daí justifica-se o mote “mais vale um asno que me carregue que um cavalo que me derrube”.

Análise

“Farsa de Inês Pereira” foi encenada pela primeira vez em uma época de decadência da monarquia feudal e ascensão do mercantilismo. Esse embate socioeconômico ecoa na obra de Gil Vicente.

Inês Pereira é a personagem por meio da qual Gil Vicente critica a frivolidade da burguesia portuguesa da época, que desejava apartar-se da rusticidade do campo. Brás da Mata é o personagem que representa a “esperteza” condenável, o galanteador ambicioso. Já Pero Marques é o camponês inocente e ingênuo.

Por ser um texto dramatúrgico, não tem foco narrativo, mas rubricas que indicam detalhes das cenas, e diálogos que ajudam o leitor a entender cada personagem. O foco principal da crítica desta obra é a decadência dos valores e da formação da família e, Portugal naquela época.  

Conheça outros títulos da Coleção Clássicos Ateliê

Jerusa Pires Ferreira: Uma leitura imediata

Leituras Imediatas é o último escrito de Jerusa Pires Ferreira, professora de pós-graduação em comunicação e semiótica da PUC-SP. A publicação traz textos “que giram em torno da ideia de mitopoéticas, no sentido de que constituem permanente recriação e ao mesmo tempo a levam a problematizar dicotomias para pensar manifestações da cultura”, como escreve Adriano C. A. e Sousa na quarta capa do livro. A seguir, ele fala ao Blog da Ateliê:

Qual sua relação com Jerusa Pires Ferreira?

Adriano Carvalho Araújo e Sousa: Eu sou um recém-doutor. Qualquer pessoa com menos de dez anos da conclusão não pode arvorar um posto de destaque. Contudo, posso dizer que até aqui minhas pesquisas são profundamente marcadas pela obra da professora Jerusa Pires Ferreira. Fui seu orientando de mestrado e doutorado e ela dizia publicamente que eu estava entre os melhores profissionais formados por ela. Mantínhamos estreita amizade, ao que ela sempre referia em tom jocoso, porque nem sempre é ideal ser amigo de um orientando. Estivemos em contato muito próximo ao menos nos últimos dez anos. Para  mim, o mais relevante disso tudo foi o constante aprendizado que tive com ela e outros intelectuais amigos seus, como Marlyse Meyer, Jacó Guinsburg, Vladimir Krysinski e obviamente Boris Schnaiderman. Agora, nada disso teria acontecido sem a sintonia de sensibilidades que tive com Jerusa, muito grande em termos de uma concepção de conhecimento alegre, exuberante e vivo, que transita entre linguagem e cultura.

Como foi o convite para escrever a quarta capa e a orelha do livro? – Você acompanhou o processo de escolha dos textos que compõem o livro? Como foi?

ACAS:  Bom, acredito ter sido por esses fatores que já mencionei. Fui convidado por seu editor, Plínio Martins, a redigir textos apresentando o livro Leituras Imediatas, cuja seleção acompanhei de perto. Mais ainda, pude auxiliar Jerusa no trabalho de revisá-los. Há um fato curioso, de bastidor. Jerusa teve auxílio do professor Jerzy Brzozowski, seu amigo da Universidade de Cracóvia, que na época atuava como visitante no Brasil, para separar folhetos da Índia, semelhantes ao nosso Cordel. Infelizmente, o material não entrou nesse livro, porque Jerusa entendia que não harmonizava com os demais.

O título do livro remete a leituras que, segundo a autora, “têm data bem definida e correspondem a posições de momento”. Qual a importância de perenizar em um livro tais posições? Essas posições não poderiam mudar com o tempo?

ACAS: Essa pergunta é muito boa, porque vai permitir um esclarecimento. É exatamente o oposto disso que o livro trata. Veja, quando Jerusa fala em “data bem definida” e “posições de momento” significa que não se pode calar em face do autoritarismo ignorante. É preciso voltar-se contra a arbitrariedade do extermínio, opor-se a um império que apaga violentamente o outro da história. Jerusa se refere aí ao extermínio de um lugar que é berço da civilização. A imagem é das mais nefastas: um ex-militar e secretário de defesa norte-americano pisando em tesouros da civilização mundial; um país sofre uma invasão destruidora, bárbara e consequentemente desestabilizadora daquela modernidade árabe. É um convite a questionar o que o discurso oficial julga ser “importante”. Então vamos tentar inverter o raciocínio em cima de sua pergunta: no caso específico da escritura de Jerusa, o mais frequente é o oposto de “dar importância”. Nada é importante. A questão toda é voltar-se para a possibilidade de contato com o outro, o que sofre um apagamento realizado por um olhar oficialesco e por vezes institucionalizado.

O trabalho de Jerusa volta-se para compreender, escrutinar e inclusive propor análises rigorosas de textos que normalmente são apagados pelo discurso oficial, seja ele o do capitalismo, seja o da academia. Eu insisto que os seus trabalhos, e principalmente sua forma arrojada (cria inclusive conceitos) para abordar esses que não têm voz, propiciam sempre novos elementos para um prosseguimento de novas reflexões sobre o que se convencionou chamar contemporâneo. É o oposto da perenidade, há sempre movimento. Um livro como esse procura aquilo que corresponde a colocar movimento nas palavras, aquilo que é uma reprodução em série de uma proposta que aborda linguagem e cultura, a serialização que o poeta popular imprime a partir de sua obra. O lugar de uma voz sempre repercutida. Esse é ponto de partida: são vozes sempre em movimento.

Jerusa Pires Ferreira fotografada por Ricardo Filho

Em comum, os textos têm a análise de assuntos ligados à cultura popular. Qual a importância dessa discussão, não apenas nos meios acadêmicos, mas também colocada na sociedade?

ACAS: A partir daqui, eu vou propor que pensemos o lugar desse pensamento, o que ele faz, que mecanismos coloca em ação, em vez de perguntar se ele é importante ou não. Pra mim, o que ressalta desse livro é a proposta ousada de dar voz a figuras normalmente julgadas como arcaísmos ou mesmo sob denominações como “cultura de massas”, “indústria cultural”, ou um campo específico de “cultura popular” que muitas vezes só serve para criar um exotismo. Nesse sentido, lembro de que nem todos os textos populares são bons ao olhar de Jerusa. Ela impõe uma análise bastante crítica e rigorosa sobre eles. Quanto à sociedade, as pesquisas em humanas levam a uma discussão sofisticada que encontra seu par em perguntas caras à antropologia e que traz a contribuição de um conceito como o de cultura das Bordas.

O estudo da literatura de cordel ocupa um espaço relevante no livro. Quais as contribuições da autora a respeito deste tema?

ACAS: Jerusa teve formação em Portugal, no instituto de Alta Cultura, onde teve mestres do porte de Maria de Lourdes Belchior Pontes (1923-1998) e Hernâni Cidade (1887-1975), os quais volta e meia viria mencionar em seus artigos e palestras. Também participou dos famosos Seminários de Semiótica em Urbino, Itália. Ambos estão na gênese do livro fundante que é Cavalaria em Cordel, responsável por pavimentar um projeto de sempre acompanhar essa produção. Paul Zumthor – a quem Jerusa gostava de se referir como um mestre – viria comentar o aspecto inovador de Cavalaria em Cordel em texto publicado na revista Critique (Paris, março de 1980): “As questões de toda ordem, colocadas pelo livro de Jerusa Pires Ferreira, ultrapassam o quadro da etnografia e importam para a definição funcional das tradições poéticas orais e sua complexa e movente relação com a escritura” (tradução de Jerusa). É um olhar sobre a tradução cultural, sobre a oralidade e o gesto em que linguagem e cultura encontram sua síntese máxima. Isso está dado desde sempre no trabalho desses artistas. Leituras Imediatas traz esse projeto do Cordel sob o olhar de sua confluência com a televisão, dominante na época, mas eu diria que oferece um belo aporte para os pesquisadores de relações entre Cordel e novas mídias.

Que lugar este livro ocupa no conjunto da obra de Jerusa Pires Ferreira?

ACAS: Bom, pensando o lugar que esse livro ocupa, lembro que Paul Zumthor diz em Escritura e Nomadismo, publicado pela Ateliê com tradução de Jerusa, que um grande pesquisador não deixa uma obra antes dos 56 anos. Talvez, o lugar que o livro de Jerusa ocupa face a barbárie em que vivemos, será o de apontar daqui a 50 anos, que o Brasil traz consigo uma cultura marcada, e aqui uso expressão de Zumthor, pela permanência da voz.

A voz é algo que nos distingue e permite pensar a tradução cultural permanente presente na obra de nossos artistas, seja um cineasta como Júlio Bressane ou um músico como Egberto Gismonti, um pianista como João Donato ou um poeta como Leandro Gomes de Barros.

Conheça melhor a obra de Jerusa Pires Ferreira

“Conto Até Dez”: uma raridade que pode chegar às mãos de leitores apaixonados por livros

Quem ama livros, sabe que  quanto mais raros, mais exclusivos, maior é nossa vontade em colecioná-los. Conto Até Dez é exatamente assim. O livro foi lançado em 2005 para celebrar os dez anos de existência da Ateliê Editorial – fundada em 1995. Mas, ele nunca foi comercializado: foi apenas distribuído para alguns sortudos e sortudas que o receberam como presente durante a festa de comemoração da primeira década da Ateliê, que aconteceu na Pinacoteca do Estado e durante a qual foram lançados, concomitantemente, dez novos livros do catálogo da editora.

Desde então, Conto Até Dez virou item de colecionador. Organizado por Marcelino Freire (autor de Angu de Sangue e organizador da Coleção LêProsa), o pequeno e raro volume reúne textos inéditos e exclusivos de Ademir Assunção, Bruno Zeni, Gil Perini, Ivana Arruda Leite, Márcia Denser, Moacyr Godoy Moreira, Nelson de Oliveira, Paulo Franchetti, Paulo Ribeiro e Rodrigo de Faria e Silva.

Na apresentação do volume, Cláudio Giordano ressalta a importância da editora se debruçar sobre o livro enquanto objeto (“livros sobre livros”, um tema muito caro à editora ainda hoje, que é uma de suas marcas registradas). Discutir a história, a função e a arte do livro faz parte, ainda hoje, de uma das preocupações da editora.   

Agora, quase quinze anos depois de sua primeira aparição, o raríssimo Conto Até Dez volta a circular. Mas, mais uma vez, ele será dado de presente. Para conseguir um exemplar deste volume exclusivo, basta adquirir um dos títulos da Coleção LêProsa (promoção por tempo limitado).

“Somente nos Cinemas”: contos de Jorge Ialanji Filholini

Somente nos Cinemas, o novo livro de contos de Jorge Ialanji Filholini, é o mais recente lançamento da Coleção LêProsa, da Ateliê Editorial, que enfoca a literatura de autores brasileiros contemporâneos. A coleção é coordenada por Marcelino Freire, também organizador da Balada Literária e autor de Angu de Sangue. A seguir, o autor fala ao Blog da Ateliê:

Como foi o processo de criar Somente nos Cinemas? Quanto tempo levou para escrever o livro, como escolheu os contos que dele fazem parte?

Jorge Ialanji Filholini:  O começo de tudo foi quando escrevi o conto “Bianca Movies”, acredito que foi em 2017. Gostei muito da elaboração da narrativa que, no decorrer da leitura, vai intercalando entre o casal de protagonistas e suas diferenças de gostos, principalmente em relação aos filmes. E isso é tão gostoso: a troca de apreço pela arte. Descobrindo aos poucos naquela caminhada pelas ruas da madrugada de São Carlos. A personagem Bianca foi criada a partir do meu amor pelo cinema, uma aventura com ela em seus vários signos cinematográficos. Eu amava passear pelos corredores das locadoras de vídeos. Passar pelas estantes, pegar as caixas e escolher qual filme será assistido no fim de semana. E quis colocar um pouco disso tudo nela. Nesse desenvolvimento do conto, senti a vontade de ampliar as temáticas que envolvessem filmes, atores, cenógrafos, roteiristas, cinéfilos e pequenos detalhes relacionados à sétima arte. O que pensariam. Em quais situações poderia colocá-los. O cinema estaria ali à espreita da minha escrita. Os contos foram surgindo iguais aos trailers de cinema. Um por um com uma ideia pronta para ser desenvolvida, tornando-se um longa, um desenrolar da película no projetor. Depois era só montar e colocar para exibição.

Qual sua relação com cinema? De que maneira ele o inspira e faz parte da sua vida?

JIF: O cinema foi a primeira arte com que eu tive contato. Desde criança, aquelas imagens iam processando na minha mente e eu sem entender nada. No decorrer da maturidade, ia ao cinema sozinho. Trocava um esconde-esconde, um futebol de rua, uma pipa, por uma bela sessão de cinema.  Em São Carlos, os ingressos eram muito baratos no começo do século. Eu assistia dois ou três filmes por dia. Acabava uma sessão e já entrava em outra. Era uma sensação boa. Eu e aquela história sobre relações humanas. Absurdos ou não. Fantasia. Eu era um intrometido cinematográfico. Queria entrar nas vidas daqueles personagens, daquelas tramas. Foram surgindo as inspirações. Os cortes de cenas, os diálogos, os detalhes em que o plano da câmera lhe joga, o suspense. A elaboração dos cenários. Aquele enquadramento marcante. A minha mente é uma câmera rodando 24h por dia em um filme pessoal que, de certa maneira, torna-se imperdível e em cartaz pelo resto da vida.

 Quais são os filmes e diretores de cinema que você admira e de que maneira eles estão em Somente nos Cinemas?

JIF: Primeiro, logo na epígrafe, com a fenomenal Agnès Varda: “Cinema é luz e tempo”. Tenho enorme admiração pelo o seu trabalho com documentários, mas tenho paixão por “Cléo, das 5 às 7”. A luminosidade e o tempo que a personagem de Corinne Marchand desenvolve é uma aula sobre o cotidiano e de como ele transcende em nossas fases ordinárias.

São tantos cineastas que admiro que, se citar aqui, ficaria faltando outros tantos. Por isso, dedico o livro para as cineastas e os cineastas do Brasil. Foram tão essenciais no meu amor cinematográfico. Impossível não se emocionar com a sequência final do julgamento em “O caso dos irmãos Naves”. Pegar carona com a trupe mambembe de “Bye Bye, Brasil”. Subir as escadarias do Paço em “O pagador de promessas”. Sentir arrepio das lágrimas ao assistir a cena de Regina Casé dentro da piscina em “Que horas ela volta”. As tantas facetas de Paulo Miklos em “O Invasor”. Um jovem João Miguel se despedindo de seu amigo alemão na estação de trem no sertão em “Cinema, Aspirinas e Urubus”. Caminhar com Corisco num cangaço fantástico em “Deus e o Diabo na Terra do Sol”. Estão estes e muitos dialogam com o meu cinema. O cinema que vem a partir de mim, do meu olhar de amante de filmes. E Somente nos Cinemas está montado em sua linguagem literocinematográfica.

Jorge Ialanji Filholin fotografado por Ciete Silvério/Agência Foto

Na orelha do livro, Fernanda D’Umbra escreve que você faz uma mistura “quase impossível”: a literatura, o cinema, a vida e a morte. Entretanto, há muitos casos em que cinema e literatura se misturam; em que vida e morte são complementares. Em sua opinião, o que há de diferente nesta mistura que você propõe?

JIF: A Fernanda foi uma das primeiras leitoras do meu primeiro livro “Somos mais limpos pela manhã”, publicado em 2016 pelo Selo Demônio Negro. E, no término de sua leitura, ela escreveu um depoimento e uma crítica tão maravilhosos sobre os contos que, sem dúvida, eu gostaria de ter um texto seu em um futuro livro meu. O que deu certo, o maravilhoso texto de orelha da Fernanda em Somente nos Cinemas sintetiza muito do meu pensamento sobre o cinema e como ele está colado no meu cotidiano e escrita. Ela descreve: “Os olhos filmam, os ouvidos constroem o áudio, o cérebro edita e o coração que se vire. E, se a vida se passa basicamente dentro da nossa cabeça, tudo é ficção. Deus! A realidade não existe”. Para mim, esta é a definição que quis propor e, se for diferente, os leitores é que projetarão isso em uma tela branca dentro da cabeça. Eu apenas dei o play na ficção banal que é a vida.

E não poderia deixar de fora os olhares plurais dos parceiros de elenco que me ajudaram na construção de todo Somente nos Cinemas. A visão artística de Lourenço Mutarelli em sua elaboração da capa, maravilhosamente por meio de colagens. O texto de prefácio da querida e brilhante Cristina Judar, uma leitura essencial para a finalização do livro e, também, de duas pessoas que muito me incentivaram na escrita, mesmo por campos diferentes. Um, o da ficção, que foi Marcelino Freire; e outro, pela leitura e apontamento acadêmico, o amigo e professor Jorge Vicente Valentim, competente e emocionalmente exposto no posfácio do meu livro.

De que maneira a linguagem cinematográfica “contagiou” (ou foi transposta para) a escrita de seus contos neste livro?

JIF: Eu gosto do cotidiano. Gosto de colocar os meus personagens em situações degradantes. O absurdo transformando a narrativa. Gosto dos cortes cinematográficos e isto é fascinante transpor em meus contos. As letras são os planos se encaixando no filme e formando uma história onde o montador, o diretor, o roteirista, o ator, estão todos em mim.

O livro é apenas para leitores cinéfilos? Ou: existem camadas de leitura que apenas os cinéfilos poderão compreender na leitura do livro?

JIF: Somente nos Cinemas é um convite para se entrar em meu mundo cinematográfico e literário. As portas da sala de exibição estão abertas. É só sentar e apreciar a leitura ou, melhor, a sessão. 

Conheça a Coleção LêProsa

Plinio Martins recebe prêmio na Balada Literária 2019

Em seu XIV ano, a Balada Literária homenageia o educador e pensador Paulo Freire. O evento acontece em São Paulo entre os dias 4 e 8 de setembro. No domingo, Dia Mundial da Alfabetização, o já tradicional Prêmio Donizete Galvão, em memória do jornalista e escritor falecido em 2014, será recebido por quatro personalidades que estiveram presentes na educação do país. Serão agraciados com o prêmio a educadora ANA MAE BARBOSA, para a editora GITA K. GUINSBURG, para o editor PLÍNIO MARTINS FILHO e para o professor de literaturas da UFSCar JORGE VICENTE VALENTIM.

O evento ocorrerá no domingo, 8 de setembro, a partir das 14h30, no Centro Cultural b_arco (Rua Dr. Virgílio de Carvalho Pinto, 426). Para o criador e curador da Balada Literária, o escritor Marcelino Freire, premiar os quatro são “A educação movida pela curiosidade e pelo profundo amor. Na leitura do mundo e o mundo da leitura, que estes mestres e mestras merecidamente dedicaram as suas vidas a passar adiante as palavras e ensinamentos à sociedade”. A programação completa da Balada Literária pode ser conferida no site oficial: www.baladaliteraria.com.br

Um brasileiro à procura de sua identidade

Aurora Bernardini*

A seguir, o Blog da Ateliê reproduz a resenha de Aurora Bernardini sobre O Língua para o número 30 da Revista Qorpus. Agradecemos a gentileza da revista em permitir o compartilhamento deste material:

Eromar Bomfim, autor do livro de que vamos falar, nasceu em Formosa do Rio Preto (BA). Filho de comerciantes, aos 13 anos de idade, mudou-se com a família para São Paulo. Estudou Letras na USP, com pós-graduação em literatura brasileira. Publicou com sucesso o romance O Olho da Rua, pela Nankin Editorial, em 2007, e Coisas do Diabo Contra, pela Ateliê Editorial, em 2013 e, agora, O Língua, também pela Ateliê Editorial, sua obra prima.

É justamente da união de coisas bem sabidas (bem vividas) e tramas bem imaginadas que nasce o encanto desse O Língua, que poderia se chamar Um brasileiro à procura de sua identidade, ou “ o primeiro brasileiro”, como quer Eromar. Ele explica, em trecho de carta pessoal do autor enviado à resenhista em maio de 2019:


“Os personagens são do século XVII, embora vivam até hoje como ancestrais que se manifestam aos líderes no ritual de Toré que existe nos nossos dias em núcleos caboclos no submédio São Francisco. Este, dos artifícios que usei , é esboçado no primeiro capítulo, norteado pela ideia de que na transformação há permanência.

Os personagens indígenas são tapuias do Nordeste, notadamente povos que habitavam a Bahia, no chamado “sertão de dentro”. Distinguiam-se dos povos tupis e tupinambás do litoral e foram chamados tapuias que significa “língua travada”. Falavam várias línguas, sendo o kiriri uma das mais amplas, possuindo subdivisões.

As batalhas no enredo são reais, mas a efabulação sobre como ocorreram é fictícia. A destruição do mocambo de Geremoabo, por exemplo, comandada por Fernão Carrilho, é real. Mas eu a narrei como imaginei, seguindo a psicologia de meus personagens. A geografia é real, mas com muitos nomes atualizados. Fauna e flora são típicas da região. Retratei-as segundo meu conhecimento e experiência, além de alguma pesquisa. Li obras da história colonial tradicional, teses universitárias, bem como obras etnográficas. Os gerais do Rio Preto, onde vivem meus narradores, eu conheço. Mas é importante ressaltar que meu personagem central, Leonel, é um mameluco. Não é mais índio, mas também não é branco. É o primeiro brasileiro. Foi pensando nele que fiz essa história. Meus narradores são fictícios, salvo Aleixo. Existiu um certo Aleixo, insubordinado, no século XVII. Reais são alguns dos personagens brancos, como padre Roland é Padre João de Barros. Deles aproveitei o papel que desempenharam na invasão, mas imaginei toda a trama que os envolve. O mesmo fiz com o militar Domingos Rodrigues Carvalho. Mas a nenhum deles dei voz. Apenas contracenam com meus personagens que são oriundos da camada sofrida da população.”


O eixo da trama são as caçadas que os homens brancos (leia-se: súditos do rei de Portugal) fazem a índios e negros fugidos, suas selvagerias e seus engodos, e a resistência (leia-se: fuga) desses, para escapar à submissão e à morte. Mas cada personagem tem sua história que é magistralmente contada por alguns dos protagonistas principais e da qual citaremos alguns exemplos. Um deles, o que começa a relatar nas primeiras páginas e volta a fazê-lo nas últimas, na sala do dono da casa, onde se reúnem os narradores, é uma mulher. A índia anaió, Ialna, que, mal chegada à puberdade, é violada pelo padre, membro da aldeia missionária e tem um filho, o mameluco Urutu, mais tarde batizado como Leonel pelo padre João de Barros, o jesuíta que o levou consigo, fugindo dos fazendeiros destruidores das aldeias dos padres, e que tem o dom de aprender várias línguas com a maior facilidade, daí ser chamado O Língua, e ter, muitas vezes, a função de intérprete. “Nunca mais vi esse rapaz andar com outros meninos, que eram mais desgarrados e varavam por aqueles brejos atrás de uma fruta, de um mel, de um passarinho. Tinha ficado muito diferente dos outros, os que desobedeciam às regras dos padres, e por isso viviam recebendo chicotadas deles” (BONFIM, 2018, p. 51), conta Ascuri, o indio anaió que “viu Urutu crescer e virar o que virou” (BONFIM, 2018, p. 35) e que vivia com duas mulheres, Cipassé e a bonita Yacui, mais tarde cobiçada pelo padre João.

“No mesmo dia que os padres deixaram São Francisco Xavier, os homens do grande sesmeiro Garcia entraram na aldeia… Os padres tinham ido embora. Vendo-se sozinhos, os sapoiás abandonaram as cabanas e caíram nos matos. Em pequenos grupos ou desgarrados, todos se dispersaram em rumos diferentes” (BONFIM, 2018, p. 60), conta Ascuri.

Outro indiozinho, que cresce na casa dos meninos índios na cidade de Salvador, onde os padres da Igreja o batizaram como Aleixo, relata: “Fiquei conhecido na cidade de Salvador e nos sertões. Na cidade conheci uns negros. De noite eles saíam, sorrateiros, da casa de seus senhores. Junto com eles, roubávamos artigos nos armazéns. Facões, enxadas, panos. Vinham outros e carregavam para os mocambos. Um dia fomos descobertos. Os negros apanharam até não poder mais. Me botaram na cadeia. Depois de uns dias fui degredado para a cidade do Rio de Janeiro por ordem do governador.” (BONFIM, 2018, p. 61). Aleixo consegue fugir e vai bater nas Minas Gerais, onde os povos estavam em luta contra os fazendeiros. Sobe, depois, para a Bahia, sempre sob ordens de prisão. Quando Fernão Carrilho, “o governador da horda de assassinos… que partia para matar negro como quem vai almoçar e que tinha gosto de matar tanto os negros tapanhuns como os índios da terra” (BONFIM, 2018, p. 62) foi para Canabrava, com ordem para retirar os melhores guerreiros para lutar contra Geremoabo, os padres assinalaram quatro dos seus. Eram três moritises e mais Leonel. Aleixo estava lá e ficou amigo de Leonel e, depois, os dois se irmanaram com Gabiroba, um mocambeiro que conseguira escapar. Aleixo vai lutar para destruir o quilombo de Geremoabo porque não tem outra saída, já que Fernão Carrilho tinha diploma legal para recrutar coercitivamente quem ele quisesse e ainda pesava sobre Aleixo um mandado de prisão; Leonel vai porque, por lei, os aldeamentos missionários eram obrigados a fornecer índios para guerrear ao lado das expedições militares contra outros índios (esta foi, aliás, a razão do assassinato do líder indígena Cristóvão, pois ele se negou a entregar seus cento e vinte guerreiros ao paulista Baião Parente, contratado para destruir povos indígenas). Gabiroba era um escravo fugido que havia se refugiado em Geremoabo.

Esta era a bandeira de Carrilho: “… Eu trago aqui regimento e poder de juntar nessa campanha, tanto brancos como pretos, negros da terra como vocês, e mulatos, e todo gênero de gente que seja capaz de jornada para destruir os mocambos de negros fugidos e salteadores em Geremoabo, e onde mais se encontrarem esses seminários de hereges e ateísta.” (BONFIM, 2018, p. 65). Só que, aos poucos, umas coisas ia pensando Aleixo, que iam entrando na sua cabeça e saindo, “como o rio que corre escondido por baixo das pedras: está ali e não está… Depois seriam os índios também, os perseguidos. O perseguidor é que não mudava: era sempre o branco, sedento de terras para seu gado, sedento de metais amarelos, sedento de pólvora do salitre, sedento de negros para o trabalho, sedento de índios para sua defesa, sedento do ventre das mulheres índias para seus haréns, sedento das meninas negras para gerar mais negro. E o índio que recusasse tinha o mesmo destino que o negro tinha: a morte debaixo dos olhos mudos do governador e do padre.” (BONFIM, 2018, p. 70).

Eromar Bomfim, fotografado por Hemerson Celtic

Depois do ataque aos negros fugidos, que é um dos momentos mais lancinantes do livro, encontram-se os três, Aleixo, Gabiroba e Leonel, feridos, mas ainda vivos, e decidem fugir da tropa e, após perambular sem rumo, vão em busca de outro mocambo, com gente. As aventuras se sucedem: suçuaranas, piabinhas, as sete moças virgens se banhando, com quem eles passam dias felizes (deixando-as grávidas da prole que irá repovoar Natuba). Até que eles encontram, às margens do rio Natuba, na Missão com o mesmo nome, o índio Cristóvão, com cento e vinte guerreiros aos quais se juntam, para resistir aos ataques dos brancos. Natuba é arrasada, Cristóvão é esquartejado, Aleixo é remetido à cadeia, Gabiroba o ajuda a evadir-se e Leonel é levado como intérprete a serviço de sua majestade. Novas fugas, até que Aleixo é comprado por um amo, para cultivo de suas hortas. Padres do Santo Ofício perseguindo Gabiroba, Leonel, em Salvador se entregando à bebida, Aleixo e Gabiroba, munidos de amuletos, fugindo para Rio Preto.

Agora a voz retorna de novo a Ialna que relata poeticamente suas vicissitudes, suas lutas, suas perdas, e o anseio que nunca a abandona de voltar a encontrar seu filho, enquanto ela também segue para o leito do Rio Preto. Lá se instalando decide que é a hora de reencontrar Urutu, é a hora que seu filho deixe o mundo do pai para voltar ao da mãe, “esse filho que foi a semente que produziu a sociedade do Brasil. Agora, a planta que cresce carrega o mesmo mal da semente. É por isso que até hoje estamos assim.” (BONFIM, 2018, p. 175). Incumbe Gabiroba, que é o dono da casa onde todos se encontram, e mais dois vizinhos, amigos de Gabiroba, de ir até Salvador e lhe trazer o filho de volta. Depois de muitas buscas acabam encontrando-o no Largo de Jesus. Preparam a viagem de volta que é empreendida com grande alegria. Iam passando pela Reserva Florestal de Marimbondo, lugar onde “dorme o espírito de muitos povos, e o ouvido atento ainda ouve suas vozes, indiferente a toda novidade desses tempos…” (BONFIM, 2018, p. 188) quando se deram conta que Leonel havia desaparecido.

“Quando eu fui levar a notícia para Ialna, eu ia escabreado, sem saber o que dizer a ela…”, (BONFIM, 2018, p. 190) desespera-se Gabiroba – “Eu sei. Ele já está comigo. E o espírito de tudo que vive novamente se manifesta, e quem vê se alegra pode dançar” (BONFIM, 2018, p. 190). Assim falou Ialna, por meio desse enigma, cuja solução talvez esteja no texto que Darcy Ribeiro nos legou em seu livro O povo brasileiro, obra de uma vida:

“Todos nós, brasileiros, somos carne da carne daqueles pretos e índios supliciados. Todos nós, brasileiros, somos, por igual, a mão possessa que os supliciou. A doçura mais terna e a crueldade mais atroz aqui se conjugaram para fazer de nós a gente sentida e sofrida que somos e a gente insensível e brutal que também somos.”

*Escritora, pintora, tradutora. Possui doutorado em Letras (USP) e é professora titular da Universidade de São Paulo (USP). Departamento de Letras Orientais (DLO), Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH), Universidade São Paulo (USP).

Sôbô – Uma Saga da Imigração Japonesa

Por: Renata de Albuquerque

O Brasil e o Japão têm uma longa e sólida História juntos. Primeiro, no início do século XX, os japoneses começaram a chegar ao Brasil. Depois, já no final do mesmo século, descendentes de japoneses nascidos no Brasil atravessaram o oceano em direção contrária a de seus pais e avós. Hoje, são mais de 1,5 milhões de japoneses e descendentes vivendo no Brasil.

Tudo começou em 1908. No dia 18 de junho, o navio Kasato Maru chegou no Porto de Santos trazendo 793 pessoas que haviam partido, 52 dias antes, do Porto de Kobe, região central do Japão. Grande parte dos imigrantes – não só os vindos no Kasatu Maru – fixou-se em São Paulo e transformou a capital paulista na maior colônia japonesa do mundo fora do Japão.

Sôbô – Uma Saga da Imigração Japonesa, livro que acaba de ganhar uma nova edição da Ateliê, narra parte desta história, contada pelo autor, Tatsuzô Ishikawa, que, em 1930, embarcou para o Brasil no navio La Plata Maru, como imigrante individual com auxílio do governo. Com este livro, que descreve a imigração japonesa no Brasil, Tatsuzô ganhou o primeiro prêmio Akutagawa – o prêmio literário de maior valor no Japão, instituído em 1935. O livro tem tradução de Maria F. Tomimatsu, Monica Okamoto e Takao Namekata.

Sôbô é um retrato de algo que chocou seu ator: as condições em que os japoneses migraram para o Brasil. A vida no Japão estava difícil – e endureceria ainda mais no período da Segunda Guerra. O livro originou um estilo que consagrou Tatsuzô: o romance social. Como explica o jornalista Sakae Ishikawa no prefácio do livro, o estilo de Tatsuzô, seu pai, é o de “perguntar ao mundo em forma de romance”.

Tudo começa na hospedagem em que os imigrantes ficavam em Kobe. Ele descreve não  apenas o lugar, mas a expectativas das pessoas que esperavam pela viagem que poderia levá-las a um lugar melhor. A segunda parte da narrativa dedica-se à viagem em si. Já a terceira parte fala da chegada ao Brasil, com ênfase na população de trabalhadores rurais.

O título do livro já explica muito do que seria essa saga. Sôbô é uma palavra composta por dois ideogramas. “Sô remete a Sôsei, ‘povo’, ou ‘cor de capim’, ‘apressar-se’, ‘envelhecer’. Bô, a ‘imigrante’, ‘povo subjugado’. O imigrante é comparado ao capim ou erva daninha, como algo desprezível”, explica Marilia Kubota.

A escolha desse viés para retratar os imigrantes japoneses é uma inovação de Tatsukô. Grande parte da literatura sobre o assunto se debruça sobre a individualidade, a tradição cultural do antigo Japão e a vida da classe média alta urbana. Poucos dão espaço ao trabalhador rural e as dificuldades por quais passam: a barreira da língua, dos costumes e até mesmo da alimentação em um país tão distante e diferente.

Apesar de, nos anos 30, ter ficado apenas cerca de seis meses no Brasil, Tatsuzô – que faleceu em 1985 – guardou lembranças do país por toda sua vida e retratou-as com maestria em Sôbô.