Renata Albuquerque

“O Guarani”, de José de Alencar

Os personagens são conhecidos. Ceci, a mocinha, apaixona-se por Peri, o índio. O romance é tão famoso que atravessou o século e é citado até na canção de Caetano Veloso, “Um Índio”. E, se é tão conhecido, certamente as razões vão além da importância que ele tem nas listas de obras de leitura obrigatória para o vestibular. Por isso, a Ateliê lança a reedição do romance O Guarani, de José de Alencar, que tem prefácio e notas de Eduardo Vieira Martins e ilustrações de Luciana Rocha.

Lançado originalmente em 1857, o romance é um típico representante da fase indianista do romantismo brasileiro, que buscava as fontes de referência de identidade nacional. Na Europa, a busca pelas “raízes nacionais” também era uma característica do período, mas por aqui, essa identidade passava pela representação idealizada dos povos nativos. Em  O Guarani, Peri é um índio forte, de caráter ilibado, com forte senso ético e moral. 

Enredo e personagens

A história se inicia em 1604. O livro é narrado em terceira pessoa e conta a história de D. Antônio de Mariz, que teria sido um dos fundadores da cidade do Rio de Janeiro e é pai de Cecília (apelidada Ceci), e constrói uma grande casa, nos moldes das antigas fortalezas medievais, seguindo um código de vassalagem semelhante ao da Idade Média – e que justifica a lealdade a Portugal. Dentre os moradores da casa, está Loredano, ex-religioso que abusa da cordialidade de Mariz e planeja raptar Ceci.

Aqui, aliás, já se podem notar traços sobre a busca da raiz nacional do romantismo no Brasil com o romantismo europeu: a vassalagem, as raízes político-sociais e a interferência da Igreja no continente Europeu estão retratadas aqui, mas, no romance brasileiro, a questão-chave é a identidade indianista.

O vilão Loredano, entretanto, não conta que Ceci é protegida do índio Peri, que havia salvado a moça de um acidente e, por isso, conquista a amizade dela e de seu pai. Diogo, irmão de Ceci, mata por acidente uma índia aimoré e esses fatos desencadeiam uma guerra entre os aimorés e a família Mariz e coloca Peri em uma situação delicada, já que ele estava vivendo na casa dos Mariz após salvar Ceci. Ao mesmo tempo, Álvaro Sá, amigo da família, também se encanta por Ceci, que continua a ser alvo de Loredano.  

Para tentar acabar com a guerra, Peri se envenena e vai à guerra, sabendo que o aimorés eram canibais e, planejando ser capturado  e devorado pelos índios, tinha a intenção de envenená-los também, matando-os e acabando com a disputa.  É justamente Álvaro quem descobre o plano de Peri e o impede da ação. Mas, a propriedade da família é incendiada e Mariz acaba por pedir que Peri se batize, afim de que ele possa fugir com Ceci e continuar protegendo a amada. E ambos somem no horizonte.

Tudo em O Guarani é idealizado: o índio forte e disposto a fazer um sacrifício sublime pela amada branca, europeia, rica, loura e frágil, uma mocinha inatingível e com aura sagrada. O amor devocional do índio puro – que, ao fim se batiza – se contrapõe à maldade explícita e quase diabólica do ex-religioso; o “amor” que Loredano sente por Ceci, que é diminuído por ser unicamente carnal.

O Coruja: romance de formação às avessas

Apesar de não fazer parte da lista de livros mais famosos do maranhense, O Coruja merece atenção do leitor interessado em conhecer o que existia na literatura brasileira do  século XIX “para além dos clássicos” já consagrados pela crítica. A. A Ateliê acaba de lançar uma edição desse título, que faz parte da Coleção Clássicos Ateliê, com apresentação e posfácio de Maria Schtine Viana. A seguir, ela fala sobre a obra com o Blog Ateliê:

O que a levou a estudar O Coruja?

Maria Schtine Viana

Maria Schtine Viana: Essa história já tem mais de uma década. Em 2009, quando estava em busca de um tema para estudar no mestrado, li a obra completa de Aluísio Azevedo, pois queria pesquisar o Naturalismo. A ideia inicial era trabalhar com O Cortiço, O Homem e  O Coruja. Na entrevista de avalição do projeto no Instituto de Estudos Brasileiros (IEB-USP), onde fiz o mestrado, os professores sinalizaram que Aluísio Azevedo merecia mesmo um estudo de fôlego, mas eu deveria fazer uma redução no corpus. A certa altura da conversa, falei sobre O Coruja e do impacto que tive ao ler esse romance. Acho que aquela conversa foi determinante, pois quando falei sobre O Coruja, senti meu próprio entusiasmo latente.

Depois, já sob a orientação do professor Fernando Paixão, lá no IEB, à medida em que lia e relia o romance para desenvolver essa pesquisa, mais compreendia que não só estava diante de um romance de grande envergadura, pela abrangência dos temas tratados na obra; mas também que era um romance pouco lido e estudado até então. Além disso, as raras edições da obra não eram boas. Durante os três anos do mestrado, comprei todas as edições que encontrei desta e de outras obras pouco conhecidas de Aluísio Azevedo, como O Japão. Fui montando esse acervo, que me ajudou muito, não só na redação da dissertação, mas também  na escrita a nota biográfica do pósfacio desta edição da Ateliê, que contém também informações  bibliográficas do escritor.

O Coruja não é das obras mais conhecidas de Aluísio Azevedo (por exemplo, O Cortiço é um livro que está sempre na lista dos livros de vestibular). Quais razões, em sua opinião, fazem dele um livro “menos lido” e “menos conhecido”?

MSV: Então, como disse anteriormente, este livro ainda não foi muito estudado e tem poucas edições. De maneira geral, os estudiosos costumam dividir a obra de Aluísio Azevedo em dois segmentos. De um lado, estariam as de indiscutível qualidade literária, caso d’O mulato, O Cortiço, O Homem e Casa de Pensão; de outro, os livros produzidos ao “correr da pena”, destinados às folhas matutinas e, portanto, escritos para atender à demanda dos leitores de jornais. Acho que essa divisão contribuiu para que grande parte dos romances, relegada a esse segundo agrupamento, despertasse pouco interesse de estudo por parte da crítica. No caso da obra O Coruja, alguns estudiosos a condenam; outros consideram suas qualidades, mas ainda assim lamentam o fato de ela ter sido escrita apressadamente para ser publicada em folhetim. Entretanto, o que se percebe é que o romance sequer foi lido, pois a crítica, de maneira geral, é bastante repetitiva quando se refere a essa obra de Aluísio Azevedo, como aponto no ensaio de apresentação nesta edição da Ateliê.

Trabalhei durante muitos anos como editora e acredito que o editor deve não apenas lançar novos autores, mas também iluminar obras ou escritores que de alguma forma ficaram na prenumbra ou esquecidos. Então, quando recebi o convite do Plínio Martins e do José de Paula Ramos Jr. para essa edição d’ O Coruja, fiquei muito entusiasmada, pois seria uma oportunidade para lançar luz sobre  uma obra pouco lida e, portanto, desconhecida de um escritor já consagrado pela crítica e pelo público leitor.

No seu prefácio para a da edição da Ateliê você fala sobre O Coruja ser um romance de formação “às avessas”. Poderia, por gentileza, falar brevemente sobre isso?

MSV: O termo Bildungsroman foi empregado pela primeira vez associado ao romance de Goethe, Os Anos de Aprendizado de Wilhelm Meister. Desde então, criou-se um signo literário de longa permanência na história da literatura, tendo em vista obras construídas em torno da formação do protagonista, ou romance de formação. Em Os anos de peregrinação de Wilhelm Meister, escrito por Goethe trinta anos depois, encontramos seu protagonista exercendo uma atividade prática como médico. Isso revela como o ideal de formação filosófico-humanista, apresentado no primeiro romance, é modificado para acompanhar uma transformação histórica.

Na literatura brasileira do século XIX, diferentemente do que se pode constatar nos países europeus, o romance de formação não encontrou muita ressonância. No entanto, O Coruja é um romance de formação, pois aborda a vida de duas personagens, André e Teobaldo desde a vida escolar, no internato, até a maturidade. Ainda que a trajetória das personagens centrais seja bastante diferente do percurso do protagonista goethiano. Teobaldo está longe de ter a energia e autodeterminação de Meister. O diletantismo da personagem aluisiana não lhe permite dedicar-se à sua formação plena e tampouco se especializar na profissão que escolhe na juventude, pois não chega a concluir o curso de Medicina. No entanto, apesar da dificuldade em dedicar-se a qualquer ofício, graças à sua origem aristocrática e às relações sociais, muitas vezes escusas, que estabelece com pessoas do seu meio, consegue alcançar um posto político significativo. Mas, ao final do romance, se dá  conta da própria mediocridade.

André, por sua vez, a despeito de todos os seus esforços como intelectual, não consegue furar o bloqueio social. É estudioso e aplicado, mas sua falta de graça e excessiva timidez impedem-no de passar nos exames, embora soubesse todas as matérias. Consegue economizar para comprar uma escola, onde aplicaria suas ideias inovadoras sobre educação, contudo a relação com Teobaldo, para com quem se sente um eterno devedor, o impossibilita de realizar seus planos. No seu caso, a educação sentimental tampouco se realiza, já que não consegue desposar Inezinha. Única possibilidade afetiva que a vida lhe acenara.

Ao ler as duas primeiras partes do romance, até pode-se supor que a solidariedade estabelecida nos anos iniciais de convivência entre os amigos se estenderá nos posteriores, de maneira a contribuir para que o processo formativo de ambos seja bem-sucedido, mas essa possibilidade é desfeita na última parte da obra. Por isso, pode-se dizer que o pretenso processo formativo das duas personagens se vê malogrado, tanto quando analisamos a trajetória delas como ao observarmos os aspectos formais utilizados na construção narrativa.

A meu ver, O Coruja pode ser lido como um romance de formação, urdido sob o prisma do grotesco, considerando-se as forças históricas que dominavam à época. André é intelectual que, por mais que se esforce não consegue escrever a sua tão sonhada História do Brasil e nem construir uma escola de acordo com seus ideários pedagógicos.  Nessa obra, Aluísio Azevedo não só aclimatou o Naturalismo à realidade brasileira, usando fartamente  categorias do grotesco, como escreveu um romance de formação às avessas, subvertendo também o ideário postulado por Goethe. Talvez essa fosse a única possibilidade em um país escravocrata, às vésperas da Proclamação da República, que pouco significou em termos de mudanças estruturais. Essas hipóteses foram defendidas por mim na já referida investigação.

Entretanto, há muitas outras possibilidades de leitura. Os desastres provocados pelo fato de o personagem André ter como ideário a bondade, por exemplo. Elemento que Franklin de Oliveira apontou em um panorama que fez a obra de Aluísio Azevedo. Ele considera que O Coruja constitui ponto de transcendental importância na ficção brasileira, justamente porque Aluísio coloca como um dos temas centrais do romance “o problema da bondade que gera desastres”.  Todavia, esses novos olhares sobre a obra só poderão acontecer se ela for lida, conhecida e comentada e esta nova edição poderá contribuir neste sentido.

Você pode falar um pouco desta edição?

MSV: Ainda não foi realizado nenhum estabelecimento de texto como o apresentado nesta edição da Ateliê, para o qual utilizamos como base um exemplar editado em 1898, mas realizando cuidadoso cotejo com o folhetim, publicado do dia 2 de junho a 12 de outubro, de 1885, no jornal O Paiz. Desta maneira, pôde-se incluir trechos que foram suprimidos na edição da Martins Fontes, que foi usada por muitos editores em lançamentos posteriores. Em alguns casos, essas supressões chegavam a comprometer o entendimento do texto.

Sob a orientação e em colaboração com o professor José de Paula Ramos Júnior, docente do Departamento de Jornalismo e Editoração da ECA, USP, durante o estabelecimento do texto foi realizado cuidadoso processo de análise com o intuito não apenas de corrigir erros tipográficos, omissões de trechos, mudança de sílabas palavras ou períodos, mas, sobretudo, estabelecer o texto de acordo com o usus scribendi do escritor e da época. Portanto, respeitou-se o critério estilístico pessoal que orientava, por exemplo, o uso das vírgulas. Em favor da legibilidade do texto, foram feitas correções para não prejudicar o entendimento ou padronizar construções semelhantes em que a virgulação variava, mas sem prejudicar o estilo do autor.

Além disso, esta edição contém notas explicativas para esclarecer vocábulos raros ou em desuso, expressões de época, palavras em línguas estrangeiras, elucidar fatos históricos ou contribuir para a identificação de personalidades da época, como também referendar alguns critérios usados durante o estabelecimento do texto. Desta maneira, esperamos contribuir para dirimir os obstáculos à fruição da leitura e favorecer o entendimento desse romance ainda tão pouco estudado de Aluísio Azevedo.

Dia da Língua Portuguesa

10 de junho de 1579 (ou 1580): data da morte do poeta Luís de Camões, um dos mais importantes nomes da literatura em língua portuguesa, autor de Os Lusíadas e de sonetos que, mais de 400 anos depois, ainda são conhecidos de cor por muita gente (a Legião Urbana, por exemplo, imortalizou versos do português em canções).  Esse é o motivo de, a cada 10 de junho, ser comemorado o Dia da Língua Portuguesa. Mas, você sabia que há outras duas datas para a mesma celebração?

5 de maio é o Dia Internacional da Língua Portuguesa (Dia da Lusofonia), celebrado por todos os países da CPLP – Comunidade de Países de Língua Portuguesa. A data foi estabelecida oficialmente em 2009. Mas, aqui no Brasil, a data ainda tem outro marco: 5 de novembro é o Dia nacional da Língua Portuguesa, instituído em 2006 em homenagem à data de nascimento de Ruy Barbosa, membro fundador da Academia Brasileira de Letras.

 Como se vê, não faltam datas ou motivos para celebrar a nossa língua. Mas, neste ano, aproveitando o 10 de junho, resolvemos fazer uma seleção de títulos escritos em português para inspirar você!

Sonetos de Camões

Mais de 50 sonetos, redondilhas, odes e uma canção compões esta coletânea comentada e anotada por  Izeti F. Torralvo e Carlos C. Minchillo e ilustrada por Hélio Cabral.  Nela, o leitor ainda pode acompanhar uma biografia de camões e ter acesso a informações contidas nas notas de rodapé.

Bom Crioulo

Escrito por Adolfo Caminha, este é o primeiro romance brasileiro a abordar a homossexualidade masculina no Brasil pós-abolicionista e republicano. O ensaio de apresentação desta edição analisa o romance e comenta sua recepção, levando em conta os modos enviesados e produtivos pelos quais a herança de um escritor como Émile Zola rendeu frutos, nas circunstâncias brasileiras. Ilustrado por Kaio Romero, tem apresentação e notas de Salete de Almeida Cara.

O Guarani

Clássico da literatura brasileira, publicado durante o Segundo Reinado. A obra é um marco na representação dos valores patriarcais da época. O enredo gira em torno da relação entre Ceci, a filha de um desbravador português, e Peri, um índio goitacá. A edição tem prefácio e notas de Eduardo Vieira Martins e ilustrações de Luciana Rocha.

O Coruja

Este romance de Aluísio Azevedo é uma história em que há algo de patético, trágico e alegórico. Este “romance de formação às avessas” conta a história dos amigos de infância André e Teobaldo, com suas características diametralmente opostas. O estabelecimento do texto e notas são de  José de Paula Ramos Jr. e Maria Schtine Viana, também responsável pela apresentação e pelo posfácio do volume, que é ilustrado por Kaio Romero.

Mensagem

Esta edição de Mensagem traz ao leitor brasileiro, pela primeira vez, o texto dessa obra-prima rigorosamente estabelecido. Deve-se isso ao esforço de António Apolinário Lourenço, professor da Universidade de Coimbra e prestigiado estudioso da obra de Fernando Pessoa. Com seu ensaio de apresentação da obra e as notas que agrega aos poemas, António Apolinário Lourenço oferece aos leitores uma orientação tão segura quanto esclarecedora para resolver tantas dificuldades de compreensão, decorrentes da rica e complexa simbologia de Mensagem. As ilustrações são de Kaio Romero.

Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá

Esta obra de Lima Barreto é um caso raro na literatura brasileira. Apesar de escrito por um dos mais importantes autores nacionais, é um livro pouco lido, pouco conhecido, pouco estudado e pouco editado. O início do século XX é marcado pela modernização do Rio de Janeiro, inclusive do ponto de vista de costumes. Gonzaga de Sá é um funcionário que não consegue se adaptar às novidades e, enquanto contempla as mudanças na paisagem urbana reflete sobre a alienação humana.  O livro tem apresentação de notas de Marcos Scheffel.

O Coruja, de Aluísio Azevedo

Era 1885 quando Aluísio Azevedo começou a publicar O Coruja, em folhetim, no jornal O Paiz. A versão da Mont’Alverne surgiu dois anos depois. Mas, ao contrário de outros textos de Azevedo, que se tornaram clássicos da literatura brasileira, como O Cortiço e O Mulato, O Coruja é uma obra menos conhecida do público. Talvez porque faça parte da lista de obras do autor escritas para serem folhetins, feitos especialmente para leitores de jornal.

Apesar de não fazer parte da lista de livros mais famosos do maranhense, O Coruja merece atenção do leitor interessado em conhecer o que existia na literatura brasileira do  século XIX “para além dos clássicos”. A Ateliê acaba de lançar uma edição desse título, que faz parte da Coleção Clássicos Ateliê, com apresentação e posfácio de Maria Schtine Viana.

Aluísio Azevedo, em imagem da Academia Brasileira de Letras

Análise do enredo

André, um menino do interior de Minas Gerais, é um órfão considerado feio e desajeitado. Por isso, é apelidado de O Coruja. Mas, a despeito da aparência física, tem uma personalidade e um caráter fortes e um bom coração. Por considerar as outras pessoas sempre superiores a si – talvez por ter um complexo de inferioridade desenvolvido por ser visto como feio – acaba renunciando às suas próprias vontades para ajudar aos outros. Ele conhece Teobaldo, filho de um homem poderoso, no internato. Mais tarde, ambos partem para o Rio de Janeiro para finalizar os estudos. Teobaldo fica órfão e casa-se com uma moça rica, em uma união de aparências. Enquanto isso, André começa a poupar para abrir uma escola, um dos planos que o próprio Teobaldo interrompe sempre que surge um problema em sua vida – o que desvia André de seu planejamento. André ajuda o amigo sempre que ele está em apuros, passando por necessidades. Mas Teobaldo não se corrige.

Considerado por alguns críticos um “romance de formação às avessas”. “O Coruja constitui uma ‘educação sentimental’, romance de aprendizagem, mas não da personagem que dá título à narrativa: o Coruja é figura secundária, ainda que relevante pelo papel que desempenha. O ‘Herói’ é Teobaldo Henrique de Albuquerque”, escreve Massaud Moisés.

A forma como constrói o romance faz com que o leitor entenda claramente o que Aluísio Azevedo quer dizer com a história narrada em O Coruja. Ele fala sobre a dicotomia entre aparência e essência; sobre como as pessoas vestem máscaras sociais para tentar se adequar; em oposição àqueles que, tendo um bom coração e caráter ilibado, nem sempre conquistam o que desejam nem são reconhecidos por seus pares.  

Para dar mais ênfase àquilo que pretende destacar, o autor carrega nas tintas, um procedimento que também pode ser notado em outras obras suas. André é bom, prestativo, bondoso. Teobaldo é interesseiro, busca sempre ter conforto com o mínimo esforço.

Dia do Vestibulando: Dicas de leitura

Nesta semana, comemorou-se o Dia do Vestibulando. São milhares de estudantes, no Brasil todo, que a cada ano se preparam para tentar ingressar em uma faculdade, escolhendo uma profissão por meio da qual muitos deles querem ajudar a mudar o mundo. Mas, para isso, é preciso ter uma formação intelectual ampla, que os ajude a interpretar o mundo, a fazer conexões e observar criticamente a realidade ao seu redor.

Por isso, para além das listas de leitura obrigatória dos vestibulares, os livros devem sempre acompanhar aqueles que têm a intenção de deixar sua marca no mundo. Por isso, hoje, o Blog da Ateliê sugere uma lista de livros que, independente de estarem nas listas dos vestibulares, merecem a leitura dos jovens estudantes:

Publicado orginalmente ainda na década de 1970, Tropicália – Alegoria, Alegria tornou-se um dos mais importantes estudos sobre um dos movimentos culturais que mudou o Brasil. Agora o livro chega à sua 5ª edição. O autor reconstitui os nexos entre as composições, os arranjos e as cenas que caracterizam os gestos particulares dos tropicalistas. Explica também as tendências gerais do movimento e mostra como ele desenhou uma nova estética para a música brasileira.

Os significados – e o enigma – da obra literária não devem jamais ser pacificados por uma “leitura de acomodação”. Esse é o princípio que rege os ensaios desta coletânea, divididos em cinco partes. A partir das associações que puxam o leitor para fora do livro, a memória faz ecoar outras reflexões, outras leituras, outras memórias… Assim se vai constituindo o texto de ecos infinitos a que se costuma chamar de crítico ou ensaístico, tradição que Leituras Desarquivadas representa e revigora.

Você conhece a história das cores nas pinturas antigas? Do que eram feitas as tintas na era pré-industrial? Um texto instigante de Philip Ball, traduzido por Roberto de Oliveira (médico e professor da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro. É organizador do livro A Visita da Peste, juntamente com Jerusa Pires Ferreira, futuro lançamento da Ateliê Editorial). Com projeto gráfico de Gustavo Piqueira e Samia Jacintho/Casa Rex, em As Fontes Primárias de uma História Natural da Paleta do Artista, Philip Ball dedica um capítulo para cada cor primária (vermelho, amarelo e azul), contando histórias e curiosidades, em uma leitura fluida, leve e cheia de informação.

Assim como “não se compra um livro pela capa” – ditado popular que nos lembra sobre o quanto podemos nos enganar com o que está aparente – nem sempre é possível “comprar um livro pelo título”. É o que acontece com este Herdando uma Biblioteca, de Miguel Sanches Neto, que reúne crônicas leves e, ao mesmo tempo, emocionantes sobre a relação apaixonada com os livros.

Paradeiro, romance de estreia de Luís Bueno, foi aclamado pela crítica ao vencer o Prêmio Literário Biblioteca Nacional na categoria romance. No livro, o autor traz à tona questões como doença e morte, experiências radicalmente transformadoras da existência humana. O livro tem uma estrutura incomum, que instiga o leitor. Paradeiro tem como um de seus cenários a cidade de São José dos Campos. Mas, o romance acontece em épocas diferentes e a ação envolve personagens distintos. O exercício de estilo desafiou o autor. “Os três planos da narrativa não se relacionam pelo enredo. Ao contrário, as personagens têm pouco ou nenhum conhecimento uma da outra”, afirma Bueno.

Somente nos Cinemas, livro de contos de Jorge Ialanji Filholini, é um lançamento da Coleção LêProsa, da Ateliê Editorial, que enfoca a literatura de autores brasileiros contemporâneos. A coleção é coordenada por Marcelino Freire, também organizador da Balada Literária e autor de Angu de Sangue.

Para vestibulandos e não-vestibulandos que querem entender melhor porque um livro se torna um clássico, a pedida é a Coleção Clássicos Ateliê, criada e formatada para que todos possam compreender – e gostar – dos maiores clássicos. Muitos títulos fazem parte das listas dos mais importantes vestibulares do Brasil. Outros, convidam à leitura prazerosa, por pura diversão!

Lançamentos Ateliê 2021

Já é maio. O ano está passando muito rápido, mas muita coisa já aconteceu. Na Ateliê, já tivemos lançamentos e reimpressões. Uma das mais esperadas e comentadas é a Divina Comédia, de Dante Alighieri, que está em pré-venda. Mas, antes que a metade do ano chegue, decidimos fazer uma lista de tudo o que já aconteceu em 2021 na editora, para que você possa ter, em um só lugar, compiladas, as novidades até agora. Confira!

Caio Cesar Esteves de Souza compilou, nas Obras Poéticas de Alvarenga Peixoto, poemas inéditos do carioca que foi figura conhecida da Inconfidência Mineira mas cuja poesia tem sido pouco estudada no Brasil. O livro é fruto de seus estudos para o Mestrado. Para ele, a obra de Alvarenga é, apesar de concisa (são apenas 40 poemas), complexa e multifacetada – tanto assim que os poemas foram usados tanto pela defesa quanto pela acusação no processo da Inconfidência.

Os Maias, publicado em 1888 por Eça de Queirós, conta a história da família Maia. Em dezoito capítulos, cheios de ironia e crítica social, o leitor conhece a história de três gerações diferentes. O autor disseca a sociedade portuguesa de sua época, que ele se esmera em expor para apontar os males e a degeneração. Veem-se assim, no grande quadro social anatomizado pelo realismo de Eça de Queirós: o clero e a sua influência danosa ao pensamento e modo de vida portugueses; as moléstias sociais das média e alta burguesias lisboetas, com seus inúmeros e desastrosos casos de adultério; os ambientes literários e políticos, sua corrupção e tacanhice intelectual. 

A pandemia expôs a fragilidade humana. Mas, já antes dela, exclusão social, problemas ambientais, políticos e sociais já eram graves problemas que precisávamos enfrentar todos os dias. E, mesmo sendo, a um só tempo, causa e consequência desse cenário, será que a humanidade ocupa o lugar de protagonismo que lhe é devido, pensando sobre esses problemas e tentando encontrar saídas para eles? Em seu novo livro, Educar para o Imponderável – Uma Ética da Aventura, Luís Carlos de Menezes discute como educar os jovens para ocupar esse lugar de protagonismo. 

Cocanha é um lugar utópico. Uma terra imaginária onde há fartura, ociosidade, juventude e liberdade, algo que mobiliza as pessoas através dos séculos, qualquer que seja sua origem geográfica. Por isso, a lenda, que surgiu na França, ganhou o mundo e tem até uma versão brasileira. Em Cocanha – Várias Faces de Uma Utopia, o professor, doutor e livre-docente em história medieval pela USP, Hilário Franco Júnior reúne várias versões desta história. 

O Livro das Origens: Uma Leitura Descomprometida do Gênesis, como diz o título, busca ser uma leitura imparcial do Gênesis da Bíblia cristã. O texto bíblico é analisado, na medida do possível, como narrativa autorreferente, livre da carga exegética de natureza semântica, sectária, erudita ou confessional. O leitor terá a atenção chamada a todo instante para a literalidade da narração, com suas incoerências e contradições.
Documento literário histórico, o Gênesis terá sofrido a irremediável influência de mitos e de textos literários religiosos de civilizações a ele anteriores ou dele coetâneos. O presente texto detém-se constantemente nesse aspecto intercultural e literário.

Em comemoração aos 700 anos da morte de Dante Alighieri (1265-1321),  a Ateliê Editorial reedita a Divina Comédia, uma das obras-primas da literatura mundial. E reedita mantendo o texto e o projeto gráfico inovador da edição anterior. Além de trazer de volta a primorosa tradução do erudito italiano João Trentino Ziller publicada originalmente em 1953, em Minas Gerais – a presente reedição do poema oferece as ilustrações de Sandro Botticelli, perdidas durante séculos e identificadas somente na década de 1980.

E então, qual destas você quer na sua estante?

2021: 700 anos da morte de Dante

Era 13 de setembro de 1321 quando a cidade de Ravenna, na Itália, testemunhou a morte do poeta Dante Alighieri, considerado um dos pais da poesia e da língua italiana. Dante, um dos maiores ícones culturais do Ocidente, morreu há exatos 700 anos. E, para rememorar a data e reiterar a importância do artista, muitas iniciativas estão acontecendo neste 2021, mesmo com todas as restrições impostas pela pandemia do novo coronavírus.

Não é para menos. Considerado genial por gênios como Victor Hugo, o poeta florentino escreveu a Divina Comédia, uma obra prima da literatura universal, que serviu como base para a língua italiana moderna e consolidou o modo medieval de interpretar o mundo.  

Além de escritor, Dante tinha conhecimentos em medicina e farmácia, tendo lutado em batalhas como a do Campaldino. Toda essa atividade não o fez deixar de lado outra, também importante: a atividade política, uma herança familiar. Casou-se com Gemma, filha de Messe Manetto Donati, ainda que sua musa – como sabem os leitores da Divina Comédia – seja Beatriz (provavelmente Beatrice Portinari), por quem nutriu um amor platônico.   

Celebrações

Ao redor de todo o mundo, os 700 anos da morte de Dante tem movimentado o cenário cultural. Por exemplo, desde 14 de setembro de 2020, acontece diariamente, em frente ao túmulo do poeta em Ravenna, na Itália, a leitura de um canto da Divina Comédia, seu mais importante livro. São mais de 200 dias de leituras feitas por voluntários que se inscrevem para celebrar a obra do poeta italiano (apenas em 25 de dezembro não houve leitura).

O projeto aceita leituras nas mais diversas línguas, como italiano, russo, português, francês, persa e mandarim. Para participar lendo um canto, é necessário enviar um email para [email protected] . Se o objetivo for apenas acompanhar a leitura, isso pode ser feito no Facebook ou Youtube. Pelo número de dias que a iniciativa acontece, a obra já pôde ser lida por inteiro mais de duas vezes, mas não há previsão de quando essa leitura terminará.

Outra iniciativa que mostra a relevância de Dante e de sua obra é a criação de uma cópia da Divina Comédia em ouro e titânio para ser lançada ao espaço – esses são os únicos materiais capazes de resistir ao espaço aberto. Essa versão ficará flutuando como uma verdadeira testemunha da vida e da cultura humanas. Além disso, astronautas da ISS devem assinar uma Divina Comédia que, ao voltar à terra, será transformada em 700 exemplares numerados e certificados, só para colecionadores interessados em literatura e ciência.

Aqui na Ateliê Editorial, nós também encontramos nossa maneira de celebrar. Estamos relançando a edição bilíngue e em capa dura da Divina Comédia, traduzida por João Trentino Ziller; com apresentação de João Adolfo Hansen e com ilustrações de Sandro Botticelli. As notas à Comédia de Botticelli são de Henrique Xavier.

Dia da Literatura Brasileira

Maio já começa com uma data muito especial para quem ama livros. O Dia da Literatura Brasileira é comemorado em primeiro de maio, em homenagem ao aniversário de José de Alencar, que nasceu nesse dia em 1829 em Fortaleza, no Ceará. Ao longo dos anos, a data tornou-se uma bela celebração em que leitores expressam sua admiração pela literatura que lemos em nossa língua materna, na qual é possível entender muito além de palavras, mas sentimentos e sensações. A literatura escrita em português tem a capacidade de nos conectar com uma essência que a literatura traduzida nem sempre consegue. Afinal, ela fala sobre nossa cultura, sobre nossos parâmetros e crenças. Do delírio de Baleia ao delírio de Brás Cubas, prosa, poesia, teatro e outros gêneros nos unem e nos encantam.

Para celebrar essa data tão importante, fazemos uma seleção de títulos de literatura brasileira para todos os gostos:

Iracema

O livro de José de Alencar, autor que inspirou o Dia da Literatura Brasileira, fala sobre a fundação do Brasil. É uma alegoria da colonização do país, e a protagonista simboliza a união entre o homem e a natureza. Embora seja escrito em prosa, o romance revela a enorme identidade de José de Alencar com a poesia romântica.

Somente nos Cinemas

Jorge Ialanji Filholini faz uma mistura quase impossível: a literatura, o cinema, a vida – com todos os seus prazeres, dúvidas e dores – e a morte. Temos aqui um escritor cuja crueldade é aterradora. E bela, o que torna tudo ainda mais perigoso. Os contos começam como filmes, apresentam a situação, as personagens e, quando você está distraído, Jorge atira. Para matar. E nada do que você imagina é o que de fato acontece. Não é um livro de contos, é um livro de suspense. 

Obras Poéticas de Alvarenga Peixoto

A poesia de um dos inconfidentes menos conhecidos reunida em um só volume. São 40 poemas, incluindo inéditos. Uma obra complexa e multifacetada – tanto assim que os poemas foram usados tanto pela defesa quanto pela acusação no processo da Inconfidência. “Caio Cesar Esteves de Souza recusa-se reconstituir os poemas de Alvarenga Peixoto a partir de uma collatio codicum que lhe permitiria alçar-se ao suposto original ou arquétipo da tradição, apresentando-nos por conta dessa negação um poeta e uma poesia mais pujantes e múltiplos”.

Paradeiro

Paradeiro, romance de estreia de Luís Bueno, foi aclamado pela crítica ao vencer o Prêmio Literário Biblioteca Nacional na categoria romance. No livro, o autor traz à tona questões como doença e morte, experiências radicalmente transformadoras da existência humana. O livro tem uma estrutura incomum, que instiga o leitor. Paradeiro tem como um de seus cenários a cidade de São José dos Campos. Mas, o romance acontece em épocas diferentes e a ação envolve personagens distintos. 

Macunaíma

Um clássico da literatura brasileira em uma edição para colecionadores. A tiragem é limitada e numerada. Gustavo Piqueira, da Casa Rex, um dos mais premiados designers gráficos do País, é o responsável pelo projeto gráfico e ilustrações da edição. Piqueira, conhecido por testar os limites do livro impresso, chegou ao formato “dobra-desdobra”, que permite uma leitura tanto “bem comportada”, quanto “uma espécie de pavão escandaloso de papel”, como ele mesmo define, mutabilidade que tem relação com a própria natureza da obra de Mário de Andrade. São 16 ilustrações impressas em serigrafia e coladas manualmente no livro.

O Língua

O primeiro estranhamento do leitor acontece na capa. Língua é substantivo masculino? Sim. Neste caso, o termo é usado para indicar o intérprete que mediava as relações entre portugueses e índios, ainda durante o século XVI no Brasil. O romance de Eromar Bomfim alterna narradores para contar a história de Leonel, filho da índia Ialna e de Antônio Pereira, fazendeiro e padre. 

Entreatos

Nestes Entreatos, Marcelo Castel Cid dá voz, em monólogos de inspiração fantástica, a personagens fascinantes do livro de Atos dos Apóstolos. Algumas delas figuram no texto bíblico em apenas umas poucas linhas, mas há gerações têm cativado as imaginações, como o mago Simão, o centurião Cornélio, o profeta Ágabo e o areopagita Dionísio. Nesses relatos, essas personagens revelam de voz própria suas inspirações, dúvidas, motivações e temores. Sem pretender mudar a História, os textos lhe insinuam outras profundidades.

Tropicália Alegoria, Alegria: nova edição

Publicado orginalmente ainda na década de 1970, Tropicália – Alegoria, Alegria tornou-se um dos mais importantes estudos sobre um dos movimentos culturais que mudou o Brasil. Agora o livro chega à sua 5ª edição. E, para celebrar mais este marco, o Blog da Ateliê entrevista o autor da obra, Celso Favaretto, professor e pesquisador que, em1968, graduou-se em Filosofia pela PUC de Campinas e atualmente é professor de Filosofia da USP. 

A primeira edição do livro é de 1979 e, de lá para cá, muita coisa mudou no Brasil. Em sua opinião, qual a razão do interesse pela Tropicália se manter por tanto tempo?

Celso Favaretto: O interesse sobre a tropicália deve-se ao fato de que a exposição crítica que ela efetuou das “relíquias do Brasil”- que a modernização que vinha se efetuando no Brasil naquela época não produzia modificações nas estruturas sociais, econômicas, políticas e culturais tradicionais e arcaicas, antes era uma composição do arcaico e do moderno – a que Hélio Oiticica no texto “Brasil diarreia” denominou “conviconivência” – ainda é atual.  O  tropicalismo inventou uma modalidade experimental de expressão artística e  de crítica cultural que dava conta da heterogeneidade e multiplicidade cultural que caracteriza o Brasil, e da convivência das disparidades e desigualdades.

Neste momento pandêmico, importantes nomes da Tropicália – Gilberto Gil, Caetano Veloso, Gal Costa e outros – têm feito lives. Em sua opinião, esse tipo de iniciativa renova o interesse ou contribui para “ressignificar” a Tropicália? Ou, por outra: qual o alcance da Tropicália hoje?

CF: A presença desses artistas foi sempre contínua e atuante, sem nunca terem se ausentado das questões sociais, políticas e culturais. Não se trata atualmente de ressignificar a tropicália, porque ela foi própria de uma dada situação histórica, e hoje os termos em jogo são outros. Esses artistas nunca reivindicaram uma “aplicação” da atitude tropicalista a outros momentos históricos, no que estiveram e nisso sempre estiveram certos. A tropicália permanece como indicação do que pode ser uma inventiva modalidade de expressão artística e cultural que capta os signos fortes, os sintomas, das disfunções que determinavam e determinam uma complexa situação social e política. Digamos que permanece como um modo “exemplar” de articulação entre o artístico e o histórico, mas que não pode ser repetido e menos ainda simplesmente tomado como forma artística consagrada. É exemplo de que a resposta a uma dada situação exige a invenção de atitudes, procedimentos, operações  e efetuações com os materiais à disposição em cada momento.

A antropofagia é um dos mais importantes conceitos ligados ao tropicalismo. Em sua opinião, esse conceito continua sendo importante para entender a cultura brasileira?  Por quê?

CF: A antropofagia oswaldiana apareceu como um pensamento muito apropriado para entender a heterogeneidade e a multiplicidade da formação cultural brasileira. Valoriza, assim, a ambivalência na caracterização da originalidade cultural brasileira. Como fica claro na sua atenção à alteridade (“só me interessa o que não é meu; lei do antropófago, lei do civilizado”);  a valorização do processo cultural conjuntivo (“a floresta e a escola”). O tropicalismo valorizou e colocou nas suas produções artísticas esse processo conjuntivo e ambivalente em outra situação histórica. Reagiu às propostas em circulação de, ou valorizar a cultural “nacional” ou de sucumbir à imposição da crescente voga da indústria cultural, da chamada “cultura de massa”. Considerava que a valorização da heterogeneidade e  multiplicidade na constituição cultural seria o processo  mais condizente com a efetivação da modernidade, desde que a assimilação e a apropriação de referências culturais modernas e das  tradicionais fosse afetivada em simultaneidade. A criticidade  dessa s operações estaria, esteve, na nova maneira artística de compor, em que se articulavam todo tipo de experimentalismo artístico e  materiais culturais diversos.  Este procedimento foi desenvolvido de lá para cá em muitas direções, ora mais ora menos  eficazes  no resultado artístico e  como crítica social.

A estética Tropicalista, cheia de  cores, alegria e vibração ainda faz sentido no Brasil de 2021? Ela ainda interessa aos jovens? O que ela pode nos ensinar?

CF: O tropicalismo, como já disse, foi uma expressão artística e uma atitude cultural nascida das contradições de um momento histórico preciso, os anos 60. As condições atuais são outras, mesmo que o país não tenha avançado quanto às questões relativas às desigualdades de todo tipo. Mas a situação é outra, nesta situação toda determinada pela lógica cultural do capitalismo avançado. Não é possível uma dialetização da situação brasileira como a que punha como exigência naquele tempo, quando apesar da repressão e censura implantadas pelo golpe civil-militar de 64, ainda havia indeterminação quanto aos rumos do país; portanto havia a expectativa de um possível histórico. Hoje temos um país dominado e devastado, com a crescente erradicação da heterogeniedade e multiplicidade cultural, como possíveis da nossa história. A tropicália permanece, contudo, como  signo de que  em um momento de perigo pode surgir uma iluminação. A tropicália hoje permanece com a força de um gesto simbólico de insurgência.

O filme traz o livro para dentro de seus olhos: 20 anos de “Lavoura Arcaica”

Renato Tardivo*

1.

Jamais me esquecerei de uma conversa com um amigo na época em que cursávamos a faculdade de Psicologia. Eu estava entusiasmado com as possibilidades compreendidas na interface da estética, fenomenologia e psicanálise, e expunha a ele alguns elementos desse campo que gostaria de pesquisar em uma iniciação científica. Lá pelas tantas, o amigo disparou, certeiro: “Cara, você já viu o filme Lavoura Arcaica?”.

Eu não havia visto ainda. Anos antes, perdera a oportunidade de vê-lo no cinema. Combinamos, então, meu amigo e eu, de passarmos em uma locadora na semana seguinte para assistir ao filme juntos. A surpresa desagradável foi descobrir que, até aquele momento, Lavoura Arcaica não havia sido disponibilizado em dvd. Pouco tempo depois, li o romance de Raduan Nassar pela primeira vez, e fiquei com a certeza de que trabalharia com aquele universo, na literatura e no cinema.

Havia naquela certeza algo no mínimo curioso: escolhi pesquisar um filme a que ainda não havia assistido e, mais, um filme a respeito do qual não tinha a menor ideia, uma vez que o romance de Raduan Nassar me parecia inadaptável para o cinema. Hoje considero a escolha, além de curiosa, também bonita: procurar avidamente pelo dvd em diversas locadoras da cidade já era, sem que eu pudesse suspeitar, assistir ao filme. 

2.

Em 2021, Lavoura Arcaica, primeiro longa-metragem do cineasta Luiz Fernando Carvalho, completa 20 anos. O filme é um marco do cinema brasileiro. Entre suas inúmeras qualidades, merece destaque o potencial de resistência que emana do lirismo artesanalmente conduzido pelo diretor.

Para escrever o livro de Raduan com luz na tela, o cineasta e a equipe isolaram-se na fazenda em que seriam realizadas as filmagens, de modo a viverem em comunidade, durante quatro meses, os papéis da família de ascendência libanesa sobre a qual se abateria um desfecho trágico. Carvalho afirmou diversas vezes que eles não tinham propriamente um roteiro; tinham um livro. Tratava-se de emprestar o corpo às palavras, ao mesmo tempo em que se o deixava afetar por elas, como se todo o processo estivesse alojado nas próprias linhas do romance.

No livro Sobre o filme Lavoura Arcaica, Luiz Fernando Carvalho afirma: “Sinto que me reconheci ali, entende? Me oferendei também, sabe como é? Eu cheguei e falei assim: ‘Ó… criei um pacto com aquele texto ali’”. Para sustentar esse pacto, o diretor teria de lançar mão de um método. Não por acaso, ele se embasou em Antonin Artaud e sua teoria do duplo, da linguagem invertida, em que se trabalha eminentemente com sensações. Daí a pertinência de terem vivido por tanto tempo em comunidade: para limpar as representações. De acordo com Artaud, o emissor é, ao mesmo tempo, a coisa que ele emite e o receptor da mensagem. Mais que uma aventura, trata-se de verdadeiro transe de linguagem.

Transe que é fundante do universo de Lavoura Arcaica. No romance, André, o narrador-protagonista, revive a história de sua família no instante mesmo em que a rememora. A estrutura de que ele não consegue se desvencilhar é a mesma contra a qual se insurge: André é o filho que parte, mas volta; desafia o pai, mas cede; escancara o discurso endogâmico da família, mas reclama os seus direitos no incesto concretizado com a irmã. E, finalmente, sofre a dor de um tempo impiedoso, mas se reencontra com tudo aquilo ao costurar os estilhaços do que restou em um depoimento. O romance, nessa medida, é a leitura realizada pelo narrador-protagonista do texto que está sendo escrito.

Analogamente, no filme o olhar que se volta para a história é um olhar de quem reflete o acontecimento trágico e irrecuperável. A obra de Carvalho é o olhar lançado à história que está sendo contada. O olho que vê é o olho que vive. É o olho que narra. Assim, se no livro André organiza o que restou de sua trajetória em um texto cujo fluxo se endereça – quando já é tarde demais – ao pai, Iohána, na obra de Luiz Fernando Carvalho o compromisso é com o texto de Raduan Nassar: é ao romance que o filme se endereça.

O olhar do cineasta, que parte da palavra, procura – antes de tudo e a todo momento – retornar a ela. A leitura do romance, marcado por metáforas sensíveis, leva o diretor a captar elementos visíveis para transportá-los, transformados em texto fílmico, novamente ao invisível. O filme traz o livro para dentro de seus olhos.

3.

Minha pesquisa de iniciação científica, durante a graduação em Psicologia, daria origem a uma dissertação de mestrado que, ao ser concluída, seria publicada em livro: Porvir que Vem Antes de Tudo – Literatura  e Cinema Em Lavoura Arcaica. Desde então, por uma série de motivos, sempre retorno ao universo de Lavoura Arcaica – na verdade, nunca o abandonei – e, nos últimos anos, tive o privilégio de conhecer ainda mais de perto o trabalho de Luiz Fernando Carvalho.

Em tempos tão difíceis – e tão precisados de obras com as dele –, o cineasta segue se dedicando a uma série de projetos. O próximo a nascer provavelmente será o filme A Paixão Segundo G. H., a partir do romance homônimo de Clarice Lispector. Mas virão outros.

Há quem diga que, entre os próximos projetos, há um filme que marcaria um novo capítulo da parceria entre Nassar e Carvalho. Caso isso se confirme, a obra seria, em certa medida, um desdobramento do primeiro pacto do cineasta com o escritor, mas também um merecido presente aos 20 anos do filme Lavoura Arcaica, fruto desse mesmo pacto. Afinal, como diz André: “Estamos indo sempre para casa”.

 * Psicanalista, escritor e professor colaborador do Instituto de Psicologia da USP. Autor, entre outros, do ensaio “Porvir que vem antes de tudo – literatura e cinema em ‘Lavoura arcaica’” (Ateliê/Fapesp) e do romance “No instante do céu” (Reformatório).