Marcelino Freire comemora 30 anos na cidade de São Paulo, tendo Ateliê como a sua primeira editora: “Estou muito orgulhoso das escolhas que eu fiz”

Marcelino construiu a sua escrita, encontrando temas para o desenvolvimento de seu trabalho literário e apreendendo as vivências de modo a colocar em páginas de marcantes obras

Por Jorge Ialanji Filholini

O escritor Marcelino Freire celebra os seus 30 anos na cidade de São Paulo. Nascido em Sertânia, interior de Pernambuco, em 1967, passando a infância em Paulo Afonso, na Bahia, e vivendo até os 24 anos no Recife, capital pernambucana, o trajeto de Marcelino fincou o corpo e desejos em 1991 na cidade da garoa na noite de 13 de julho. Chegando via ônibus da empresa São Geraldo, o jovem ainda se lembrava que, naquele momento em que pisou no solo da Rodoviária do Tietê, fazia um frio de 10 graus e um cansaço bom de sonho realizado: “todas essas cidades fazem o meu bagageiro literário. Sem contar este ‘não-lugar’, esse deslocamento que também é presente no que eu escrevo. Uma palavra minha está sempre em movimento, está sempre em migração. Eu não deixo de ser um retirante. Completei 30 anos de êxodo”.

Com o seu olhar migrante, Marcelino construiu a sua escrita, encontrando temas para o desenvolvimento de seu trabalho literário e apreendendo as vivências de modo a colocar em páginas de marcantes obras. A Ateliê Editorial foi a sua primeira casa de publicação, com as obras EraOdito (1998, reeditada pela Ateliê em 2002), Angu de Sangue (2000) e BaléRalé (2003), assim como na organização da antologia Os Cem Menores Contos Brasileiros do Século (2004), Marcelino jamais esqueceu das pessoas que acreditaram em seus textos e contribuíram na concretização de seus primeiros livros: “João Alexandre [Barbosa] foi um excelente interlocutor. Acreditou no livro. Inclusive, algumas pessoas não gostavam do título ‘Angu de Sangue’. Perguntei ao João Alexandre. Ele me respondeu: ‘seu título é bom. Porque não é calmo. Nunca comece calmo’. Um grande mestre, a quem devo muito. Plinio [Martins Filho] continua sendo um amigo, um ouvido sempre aberto, um coração atento. É gratidão eterna, entende? Sem contar toda a equipe da Ateliê Editorial. Devo muito a Ateliê”.

Para um escritor, além das palavras, os números também fazem parte de sua incansável atividade pelas artes, São 54 anos de nascimento, 30 anos de São Paulo, 16 anos de Balada Literária – evento cultural criado pelo autor -, mais de 15 anos compartilhando a suas experiências em oficinas de escrita, Marcelino olha para o passado e dialoga com si mesmo: Eu agradeceria por, hoje, eu ter muito orgulho de mim. […] Estou aqui ao lado das escolhas que eu fiz. Estou muito orgulhoso das escolhas que eu fiz”. Orgulhosos somos nós por termos você, Marcelino, na literatura e na vida. Obrigado, queridão.

Confira abaixo a entrevista na íntegra com Marcelino Freire:

A Ateliê Editorial publicou os seus primeiros livros – eraOdito, Angu de Sangue e BaléRalé. Poderia contar como foi essa parceria editorial?

Marcelino Freire, em foto de Jorge Ialanji Filholini

Marcelino Freire:  Quem me levou à Ateliê Editorial foi o crítico literário João Alexandre Barbosa. Ele teve contato com um conto meu e me perguntou se eu tinha editora. Eu, à época, publicava de forma independente. Eu publicava os meus próprios livros. João Alexandre leu o meu Angu de Sangue e falou com Plinio Martins Filho. Plinio me recebeu com muita generosidade e atenção. Publicou o Angu de Sangue no ano 2000. Esse livro me colocou no meio literário, digamos. Foi minha grande estreia. João Alexandre e Plinio são os meus eternos padrinhos.

13 de julho marcou os 30 anos da sua chegada à cidade de São Paulo, o que você trouxe em seu bagageiro literário e que foi primordial para criação de seus textos?

MF Eu nasci em Sertânia, Pernambuco. Quando eu tinha três anos de idade, a minha família foi morar em Paulo Afonso, na Bahia. Quando eu achei que ficaria por lá, a família foi para o Recife. Daí, em 1991, vim para São Paulo. Sertânia veio morar comigo em São Paulo. A Bahia também. As pontes do Recife fizeram ponte com São Paulo. Ou seja: todas essas cidades fazem o meu bagageiro literário. Sem contar este “não-lugar”, esse deslocamento que também é presente no que eu escrevo. Uma palavra minha está sempre em movimento, está sempre em migração. Eu não deixo de ser um retirante. Completei 30 anos de êxodo.

Conte-nos como as presenças de João Alexandre Barbosa e Plinio Martins Filho foram essenciais para a publicação de Angu de Sangue?

MF De alguma forma eu respondo a isso na primeira pergunta, mas posso acrescentar que João Alexandre foi um excelente interlocutor. Acreditou no livro. Inclusive, algumas pessoas não gostavam do título Angu de Sangue. Perguntei ao João Alexandre. Ele me respondeu: “seu título é bom. Porque não é calmo. Nunca comece calmo”. Um grande mestre, a quem devo muito. Plinio continua sendo um amigo, um ouvido sempre aberto, um coração atento. É gratidão eterna, entende? Sem contar toda a equipe da Ateliê Editorial. Devo muito a Ateliê.

Você organizou, com o apoio da Ateliê Editorial, a antologia Os Cem Menores Contos Brasileiros do Século. Poderia falar como foi o processo de elaboração da obra?

MF Eu sempre gostei de micronarrativas. Colecionava microcontos em caderninhos. Aí em 2001 o professor Ítalo Moriconi organizou Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século. Eu disse: agora é a hora. Aí convidei cem escritoras e escritores brasileiros para fazerem contos de até 50 letras, sem contar o título. Saí convidando os autores e autoras. Até o Ítalo eu convidei para fazer um microprefácio. Participam do livro Lygia Fagundes Telles, Dalton Trevisan, Manoel de Barros, Millôr Fernandes… Plinio adorou a ideia e bancou essa minha maluquice. O livro hoje é referência para os estudos de microrrelatos na literatura brasileira.

O que o Marcelino escritor de hoje falaria para o Marcelino da época de escrita de Angu de Sangue?

MF Eu agradeceria por, hoje, eu ter muito orgulho de mim. Nós todos e todas fomos atravessados por uma pandemia. Estou faz tempo isolado na minha casa. Estou aqui ao lado das escolhas que eu fiz. Estou muito orgulhoso das escolhas que eu fiz. Obrigado, jovem. Continue aprontando, viu?

18 de julho: Dia do Trovador

Em 18 de julho comemora-se, no Brasil, o Dia do Trovador. O trovadorismo é considerado um dos primeiros movimentos literários da História, que aconteceu durante a Idade Média. A produção literária do período é conhecida como cantiga: as de “amor” e de “amigo”. O nome “cantiga” informa que esse tipo de poesia era acompanhada por instrumentos musicais. Quanto aos temas, a idealização amorosa e o culto ao catolicismo eram os mais comuns.

Mas, o que esse estilo literário tem a ver com o Brasil que, quando foi descoberto, não tinha nenhuma ligação com a literatura da Península Ibérica?  A resposta é o poeta Luiz Otávio, pseudônimo de Gilson de Castro, fundador e presidente perpétuo da União Brasileira de Trovadores. Carioca, nasceu em 1916 e morreu em 1977. Encantou-se pelo estilo e, nos anos 50, publica Meus Irmãos, os Trovadores, uma coletânea de trovas de autores de língua portuguesa. Ele foi um dos maiores incentivadores da trova, micro-poema feito com normas rígidas de estilo, no Brasil.

E, se este é um estilo raro, hoje a Ateliê lista alguns títulos que podem ajudar a homenagear o Dia do Trovador, com poesia e literatura de alta qualidade. Confira!

Do Formalismo Estético Trovadoresco

A tese de livre-docência de Segismundo Spina é o ponto alto de uma extensa vida acadêmica dedicada aos estudos de poesia medieval. O autor aponta para a existência de constantes estilísticas em todo o movimento lírico na Europa dos séculos XII, XIII e XIV. Essas invariáveis mostram a existência de um formalismo literário comum no velho continente, a despeito das especificidades de cada região.

Palmeirim de Inglaterra

A novela portuguesa de cavalaria Palmerim de Inglaterra foi escrita por Francisco de Moraes em 1544. O enredo está dividido em duas partes:  a primeira trata do nascimento e as primeiras aventuras dos irmãos gêmeos, Palmeirim e Floriano, filhos de D. Duardos e Flérida. A segunda, mostra os dois irmãos que saem pelo mundo, realizando façanhas  ao lado de companheiros e damas, até culminar na grande batalha final entre “turcos” e “cristãos”, na qual sucumbem muitos dos heróis cuja trajetória acompanhamos nas páginas iniciais. Feitos de guerra e feitos de amor dão um colorido especial ao objetivo maior: a defesa da cristandade.

A Idade Média no Cinema

Quais são os limites entre realidade e ficção nos filmes que retratam a cultura medieval? Os artigos deste livro trazem à tona essa questão e problematizam a verdade histórica do cinema. Os autores analisam diversos filmes sobre a Idade Média e concluem: toda obra trabalha com impressões do real, mas a avaliação do espectador determina a coerência do conjunto. Assim, tanto as intenções do diretor quanto as impressões do público contribuem para dar aquela dose de realismo necessária à fantasia.

O Velho da Horta, Auto da Barca do Inferno, Farsa de Inês Pereira 

As três peças reunidas nesta edição estão entre as mais representativas do teatro ibérico medieval. Apesar da diversidade de temas e estilos, todas elas se caracterizam pelo rigor poético e pela visão crítica em relação à sociedade da época. Essas obras contêm também humor refinado e aguda ironia, traços singulares de Gil Vicente. Segismundo Spina, professor emérito da USP, sintetiza no prefácio o que os críticos literários produziram nas últimas décadas sobre as obras do escritor português.

E Fizerom Taes Maravilhas… – Histórias de Cavaleiros e Cavalarias

De onde vem o gosto pelos romances ou novelas ou livros de cavalarias? Antes de tudo, de sua natureza fantasiosa – permeada de monstros, gigantes, fadas, castelos, animais estranhos, acontecimentos miraculosos, e de sua apologia do heroísmo guerreiro – com um exército de cavaleiros que, além de vassalos fiéis e imbatíveis, são em geral belos e perfeitos amantes. Mas esses ingredientes aliciantes, pura ficção, estão intrinsecamente plantados na História de seu tempo e são, por isso mesmo e como qualquer boa literatura, uma poderosa fonte de conhecimentos do Homem e da sociedade que o rodeia. Basta conferir a diversidade temática dos artigos reunidos neste livro.

Inverno: bom motivo para se aquecer e ler

O inverno chegou. Chás, chocolate quente, casacos, cachecóis e muitos livros para aquecer o coração. Anoitece mais cedo e se normalmente a vontade de sair já diminui, neste inverno 2021, quando a pandemia de coronavírus não está controlada, é ainda mais recomendável ficar em casa e aproveitar tudo o que o aconchego do lar tem a oferecer. Fazer bolos e pães para deixar a casa perfumada, criar ambientes acolhedores e escolher muito bem a companhia. A melhor delas, sem dúvida, é um bom livro.

Para inspirar você e dar uma forcinha nessa escolha, a Ateliê preparou uma lista de mais de cem títulos, com descontos de até 70%, para que você não tenha desculpa para não experimentar novos autores ou novos estilos neste inverno. Confira:

Cocanha

Cocanha é um lugar utópico. Uma terra imaginária onde há fartura, ociosidade, juventude e liberdade, algo que mobiliza as pessoas através dos séculos, qualquer que seja sua origem geográfica. Por isso, a lenda, que surgiu na França, ganhou o mundo e tem até uma versão brasileira. Em Cocanha – Várias Faces de Uma Utopia, o professor, doutor e livre-docente em história medieval pela USP, Hilário Franco Júnior reúne várias versões desta história. 

Dez Mitos sobre os judeus

No livro Dez Mitos sobre os Judeus, Maria Luiza Tucci Carneiro, historiadora da USP, analisa dez entre os mitos mais arraigados sobre os judeus, que têm contribuído para a persistência do antissemitismo. O tem como objetivo desvendar não só a imagem do povo judeu, como também entender como acontece o processo de manipulação da mentira e a compreensão da verdade nos mundos atuais. 

Feito Eu

Ao abrir as portas da memória autobiográfica, a escritora Elisa Nazarian resgata o mais íntimo que existe em todos nós: o campo dos afetos. Sem rodeios nem melodramas, ela nos conduz delicadamente a esse universo tão particular quanto universal, sem o qual não nos saberíamos humanos. Em Feito Eu, Elisa trata dos momentos cotidianos, às vezes perturbadores, e explora o amor no que ele tem de mais visceral e doloroso. Seu verso, límpido e pungente, consegue ser confessional sem se tornar piegas.

O Encanto de Narciso

Em seu novo livro, O Encanto de Narciso, o fotógrafo Boris Kossoy faz reflexões sobre temas que permeiam seu trabalho em textos curtos, densos e objetivos. Para além de registrar as imagens, aqui ele se debruça sobre seus significados e desdobramentos, “em busca de sua natureza e essência”, como ressalta o autor. Os textos foram escritos entre 2010 e 2018 e se organizam em seis capítulos: O Sistema e a Essência; Produção e Recepção; Desmontagem do Constructo; Fotografia e Memória; História da Fotografia; e Outras Dimensões da Fotografia.

Geórgicas

Geórgicas é um poema sobre as práticas e as técnicas de agricultura. Este assunto que aparenta não despertar interesse é o pretexto que Virgílio (70 a.C. – 19 a.C.) usa para tratar de temas grandiosos: a força do sentimento amoroso, as dificuldades humanas, o papel do trabalho. Para muitos, esta é a maior obra de Virgílio.

Esta edição traz o texto integral (os quatro “livros”) em versão bilíngue, comentado e anotado por integrantes do Grupo de Trabalho Odorico Mendes – que congrega docentes da Unicamp, USP, UNIFESP, UFMG e UNESP. A edição é organizada por Paulo Sérgio de Vasconcellos.

Quatro Ensaios sobre Oscar Niemeyer

Os quatro ensaios sobre Oscar Niemeyer aqui reunidos consistem em exercícios individuais que contribuem para a devida compreensão de uma obra cuja magnitude e inevitável proximidade ainda nos afastam de sua merecida e urgente reflexão. Os temas abordados nesse livro – a produção paulista, a repercussão internacional, a recepção crítica e os projetos de edifícios religiosos – são um convite à obra de Oscar Niemeyer.

Capas de Santa Rosa

Sobrecapa do livro “Capas de Santa Rosa”

Capas de Santa Rosa, de autoria de Luís Bueno, traz as capas criadas pelo artista plástico e designer Tomás Santa Rosa, que executou pinturas e gravuras, criou capas, ilustrações e projetos gráficos para livros, revistas e jornais, elaborou cenários e figurinos para o teatro.

O Poema dos Lunáticos

Obra mais famosa do escritor italiano Ermanno Cavazzoni, O Poema dos Lunáticos é, ao contrário do que sugere o título, um romance. O protagonista vive situações absurdas, permeadas por um humor nonsense. Influenciado por Kafka e Beckett, o autor oferece um novo ponto de vista sobre a realidade aparentemente lógica e racional que nos rodeia. O Poema dos Lunáticos aproximou Cavazzoni de Federico Fellini. O filme A Voz da Lua (1990), último longa do cineasta, foi inspirado no clima de lirismo e fantasia deste livro.

O Hóspede

Este livro de contos de Mário Higa, que tem a figura paterna como tema central. “O nascimento de uma voz própria, avançada, reveladora, no frequentemente repetitivo, tímido e desanimador cenário da literatura contemporânea”, aponta Rinaldo Gama.

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História de um Livro

O livro A Democracia na França, de François Guizot, foi lançado no início de 1849 e, rapidamente, ganhou inúmeras edições em diversas línguas e países europeus. Tendo estudado Direito na Universidade de Sorbonne, tornou-se o titular da cadeira de História Moderna. Em A Democracia na França, Guizot critica o que seriam os “exageros” democráticos, como, por exemplo, o sufrágio universal, além de condenar comunistas ateus. É a recepção desta obra – e seus reflexos – que a Doutora em História e professora da USP Marisa Midori Deaecto estudou em História de Um Livro, que acaba de ser lançado pela Ateliê Editorial.  A seguir, a autora fala sobre sua pesquisa:

O que a levou a estudar A Democracia na França?

Marisa Midori Deaecto: Em 2016, a história da democracia começou a me chamar a atenção. E Guizot coloca várias questões que hoje parecem muito atuais em seu A Democracia na França, por exemplo: será que o voto direto e universal é um bom negócio?; será que a população tem discernimento para escolher seus governantes? Comecei a pensar sobre como uma opinião começa a ocupar o lugar de um fato. Se, nesse livro do século XIX, ainda não é possível ver o surgimento de fake news, a forma como a opinião se apresenta como um fato está lá. O panfleto teve muita ajuda para ser traduzido; o debate político passou a ser notícia; a opinião começou a ocupar o centro das atenções. Esse debate que Guizot pretendia fazer, sobre a democracia, realizando uma torção para convencer a população de que aquele era um debate rico para a opinião pública, me parece algo muito atual; algo que vemos hoje no Brasil; e no mundo de modo geral.

De que maneira?

MMD: A articulação entre o livro e o jornal, o fazer político, nasce ali. Fazer uma voz ser predominante é um fenômeno contemporâneo relacionado ao surgimento dos jornais, ligados a partidos políticos e a ideologias. Algo só se torna universal porque aparece na grande imprensa. Aqui em São Paulo, se uma notícia não sai na Folha ou no Estadão, não existe. No Rio acontece o mesmo com o Globo. Mas agora é preciso também pensar em um circuito paralelo, das redes sociais, que amplifica as vozes e também plantam notícias falsas. Com as mídias impressas isso era mais difícil, mas quem disse que os fatos e as opiniões não adquiriam outra dimensão por meio da transmissão oral? Falamos de fenômenos semelhantes, mas dados em escalas e tempos muito diversos. O livro de Guizot se sustenta exatamente na relação entre a grande imprensa e os partidos políticos. Seis meses depois do lançamento, já existiam incontáveis edições. Mas esse livro não é um clássico, ele tem a função de fazer um jogo político.

Por que estudar a recepção crítica de um livro como este que, em suas próprias palavras, é “um libelo contra a República e a democracia”?

MMD: Eu queria entender como a coisa funciona do centro político da Europa. Marx é contemporâneo de Guizot, que era conservador: perseguiu socialistas estrangeiros e os mandou para o exílio porque tinha poder, tinha acesso a jornais, editoras… hoje, na França, Guizot é pouco conhecido. No entanto, tanto ele, quanto Thiers, Tocqueville e outros pensadores de seu tempo nos permitem entender o programa conservador, as matrizes liberais conservadoras.

O que isso tem a ver com o Brasil?

MMD: O que Guizot diz está relacionado à classe dominante brasileira, à questão da propriedade. Dar voto e voz a quem não tem propriedade significa colocar essa propriedade em risco. Ora, em 2016 ficou claro que a díade distribuição de renda e igualdade provocam medo. A classe dominante brasileira, em 2016, colocou o país em risco ao apoiar o impeachment. Sabemos que é um pensamento imediatista, mas é assim que funciona a regra do jogo político do ponto de vista da burguesia brasileira. Ela não consegue focar no futuro do país.  

Como foi o processo de elaboração de A Democracia na França? Como foi possível que ela tivesse tantas traduções? Essas traduções são semelhantes entre si?

MMD: Redação e tradução eram quase simultâneas. No caso da tradução inglesa o processo se deu de forma simultânea, efetivamente. Eu me ative às edições de janeiro a julho de 1849, quando o livro foi divulgado no Brasil, porque me interessei pelos efeitos imediatos, da primeira onda de difusão. Creio que haja mais de 48 edições, mas só incluí aquelas com as quais tomei contato. 

As traduções são muito diferentes na forma. Na Áustria, por exemplo, saíram duas edições, em folhetos muito frágeis. Na Alemanha, há do folheto à brochura. As traduções são muito diferentes. Na Polônia, por exemplo, há duas traduções, uma em alemão e outra em polonês. A tradução em polonês é uma versão livre do conteúdo. Não há nem mesmo o texto integral.

E na edição brasileira?

MMD: Aqui não vemos grandes diferenças. É um trabalho fiel ao conteúdo que Guizot escreveu. Eu fiz o cotejo em folhetim e livro, aprovado por Guizot. Ela é bem fiel ao original. O traço mais peculiar é a publicação de um folhetim político, que não era prática corrente no país. Este é um aspecto inédito e particular, pois não há outros textos com essa característica publicados. Isso mostra que havia, sim, no Brasil, uma campanha contrária ao socialismo, ao sufrágio universal e à democracia.

“O Guarani”, de José de Alencar

Os personagens são conhecidos. Ceci, a mocinha, apaixona-se por Peri, o índio. O romance é tão famoso que atravessou o século e é citado até na canção de Caetano Veloso, “Um Índio”. E, se é tão conhecido, certamente as razões vão além da importância que ele tem nas listas de obras de leitura obrigatória para o vestibular. Por isso, a Ateliê lança a reedição do romance O Guarani, de José de Alencar, que tem prefácio e notas de Eduardo Vieira Martins e ilustrações de Luciana Rocha.

Lançado originalmente em 1857, o romance é um típico representante da fase indianista do romantismo brasileiro, que buscava as fontes de referência de identidade nacional. Na Europa, a busca pelas “raízes nacionais” também era uma característica do período, mas por aqui, essa identidade passava pela representação idealizada dos povos nativos. Em  O Guarani, Peri é um índio forte, de caráter ilibado, com forte senso ético e moral. 

Enredo e personagens

A história se inicia em 1604. O livro é narrado em terceira pessoa e conta a história de D. Antônio de Mariz, que teria sido um dos fundadores da cidade do Rio de Janeiro e é pai de Cecília (apelidada Ceci), e constrói uma grande casa, nos moldes das antigas fortalezas medievais, seguindo um código de vassalagem semelhante ao da Idade Média – e que justifica a lealdade a Portugal. Dentre os moradores da casa, está Loredano, ex-religioso que abusa da cordialidade de Mariz e planeja raptar Ceci.

Aqui, aliás, já se podem notar traços sobre a busca da raiz nacional do romantismo no Brasil com o romantismo europeu: a vassalagem, as raízes político-sociais e a interferência da Igreja no continente Europeu estão retratadas aqui, mas, no romance brasileiro, a questão-chave é a identidade indianista.

O vilão Loredano, entretanto, não conta que Ceci é protegida do índio Peri, que havia salvado a moça de um acidente e, por isso, conquista a amizade dela e de seu pai. Diogo, irmão de Ceci, mata por acidente uma índia aimoré e esses fatos desencadeiam uma guerra entre os aimorés e a família Mariz e coloca Peri em uma situação delicada, já que ele estava vivendo na casa dos Mariz após salvar Ceci. Ao mesmo tempo, Álvaro Sá, amigo da família, também se encanta por Ceci, que continua a ser alvo de Loredano.  

Para tentar acabar com a guerra, Peri se envenena e vai à guerra, sabendo que o aimorés eram canibais e, planejando ser capturado  e devorado pelos índios, tinha a intenção de envenená-los também, matando-os e acabando com a disputa.  É justamente Álvaro quem descobre o plano de Peri e o impede da ação. Mas, a propriedade da família é incendiada e Mariz acaba por pedir que Peri se batize, afim de que ele possa fugir com Ceci e continuar protegendo a amada. E ambos somem no horizonte.

Tudo em O Guarani é idealizado: o índio forte e disposto a fazer um sacrifício sublime pela amada branca, europeia, rica, loura e frágil, uma mocinha inatingível e com aura sagrada. O amor devocional do índio puro – que, ao fim se batiza – se contrapõe à maldade explícita e quase diabólica do ex-religioso; o “amor” que Loredano sente por Ceci, que é diminuído por ser unicamente carnal.

O Coruja: romance de formação às avessas

Apesar de não fazer parte da lista de livros mais famosos do maranhense, O Coruja merece atenção do leitor interessado em conhecer o que existia na literatura brasileira do  século XIX “para além dos clássicos” já consagrados pela crítica. A. A Ateliê acaba de lançar uma edição desse título, que faz parte da Coleção Clássicos Ateliê, com apresentação e posfácio de Maria Schtine Viana. A seguir, ela fala sobre a obra com o Blog Ateliê:

O que a levou a estudar O Coruja?

Maria Schtine Viana

Maria Schtine Viana: Essa história já tem mais de uma década. Em 2009, quando estava em busca de um tema para estudar no mestrado, li a obra completa de Aluísio Azevedo, pois queria pesquisar o Naturalismo. A ideia inicial era trabalhar com O Cortiço, O Homem e  O Coruja. Na entrevista de avalição do projeto no Instituto de Estudos Brasileiros (IEB-USP), onde fiz o mestrado, os professores sinalizaram que Aluísio Azevedo merecia mesmo um estudo de fôlego, mas eu deveria fazer uma redução no corpus. A certa altura da conversa, falei sobre O Coruja e do impacto que tive ao ler esse romance. Acho que aquela conversa foi determinante, pois quando falei sobre O Coruja, senti meu próprio entusiasmo latente.

Depois, já sob a orientação do professor Fernando Paixão, lá no IEB, à medida em que lia e relia o romance para desenvolver essa pesquisa, mais compreendia que não só estava diante de um romance de grande envergadura, pela abrangência dos temas tratados na obra; mas também que era um romance pouco lido e estudado até então. Além disso, as raras edições da obra não eram boas. Durante os três anos do mestrado, comprei todas as edições que encontrei desta e de outras obras pouco conhecidas de Aluísio Azevedo, como O Japão. Fui montando esse acervo, que me ajudou muito, não só na redação da dissertação, mas também  na escrita a nota biográfica do pósfacio desta edição da Ateliê, que contém também informações  bibliográficas do escritor.

O Coruja não é das obras mais conhecidas de Aluísio Azevedo (por exemplo, O Cortiço é um livro que está sempre na lista dos livros de vestibular). Quais razões, em sua opinião, fazem dele um livro “menos lido” e “menos conhecido”?

MSV: Então, como disse anteriormente, este livro ainda não foi muito estudado e tem poucas edições. De maneira geral, os estudiosos costumam dividir a obra de Aluísio Azevedo em dois segmentos. De um lado, estariam as de indiscutível qualidade literária, caso d’O mulato, O Cortiço, O Homem e Casa de Pensão; de outro, os livros produzidos ao “correr da pena”, destinados às folhas matutinas e, portanto, escritos para atender à demanda dos leitores de jornais. Acho que essa divisão contribuiu para que grande parte dos romances, relegada a esse segundo agrupamento, despertasse pouco interesse de estudo por parte da crítica. No caso da obra O Coruja, alguns estudiosos a condenam; outros consideram suas qualidades, mas ainda assim lamentam o fato de ela ter sido escrita apressadamente para ser publicada em folhetim. Entretanto, o que se percebe é que o romance sequer foi lido, pois a crítica, de maneira geral, é bastante repetitiva quando se refere a essa obra de Aluísio Azevedo, como aponto no ensaio de apresentação nesta edição da Ateliê.

Trabalhei durante muitos anos como editora e acredito que o editor deve não apenas lançar novos autores, mas também iluminar obras ou escritores que de alguma forma ficaram na prenumbra ou esquecidos. Então, quando recebi o convite do Plínio Martins e do José de Paula Ramos Jr. para essa edição d’ O Coruja, fiquei muito entusiasmada, pois seria uma oportunidade para lançar luz sobre  uma obra pouco lida e, portanto, desconhecida de um escritor já consagrado pela crítica e pelo público leitor.

No seu prefácio para a da edição da Ateliê você fala sobre O Coruja ser um romance de formação “às avessas”. Poderia, por gentileza, falar brevemente sobre isso?

MSV: O termo Bildungsroman foi empregado pela primeira vez associado ao romance de Goethe, Os Anos de Aprendizado de Wilhelm Meister. Desde então, criou-se um signo literário de longa permanência na história da literatura, tendo em vista obras construídas em torno da formação do protagonista, ou romance de formação. Em Os anos de peregrinação de Wilhelm Meister, escrito por Goethe trinta anos depois, encontramos seu protagonista exercendo uma atividade prática como médico. Isso revela como o ideal de formação filosófico-humanista, apresentado no primeiro romance, é modificado para acompanhar uma transformação histórica.

Na literatura brasileira do século XIX, diferentemente do que se pode constatar nos países europeus, o romance de formação não encontrou muita ressonância. No entanto, O Coruja é um romance de formação, pois aborda a vida de duas personagens, André e Teobaldo desde a vida escolar, no internato, até a maturidade. Ainda que a trajetória das personagens centrais seja bastante diferente do percurso do protagonista goethiano. Teobaldo está longe de ter a energia e autodeterminação de Meister. O diletantismo da personagem aluisiana não lhe permite dedicar-se à sua formação plena e tampouco se especializar na profissão que escolhe na juventude, pois não chega a concluir o curso de Medicina. No entanto, apesar da dificuldade em dedicar-se a qualquer ofício, graças à sua origem aristocrática e às relações sociais, muitas vezes escusas, que estabelece com pessoas do seu meio, consegue alcançar um posto político significativo. Mas, ao final do romance, se dá  conta da própria mediocridade.

André, por sua vez, a despeito de todos os seus esforços como intelectual, não consegue furar o bloqueio social. É estudioso e aplicado, mas sua falta de graça e excessiva timidez impedem-no de passar nos exames, embora soubesse todas as matérias. Consegue economizar para comprar uma escola, onde aplicaria suas ideias inovadoras sobre educação, contudo a relação com Teobaldo, para com quem se sente um eterno devedor, o impossibilita de realizar seus planos. No seu caso, a educação sentimental tampouco se realiza, já que não consegue desposar Inezinha. Única possibilidade afetiva que a vida lhe acenara.

Ao ler as duas primeiras partes do romance, até pode-se supor que a solidariedade estabelecida nos anos iniciais de convivência entre os amigos se estenderá nos posteriores, de maneira a contribuir para que o processo formativo de ambos seja bem-sucedido, mas essa possibilidade é desfeita na última parte da obra. Por isso, pode-se dizer que o pretenso processo formativo das duas personagens se vê malogrado, tanto quando analisamos a trajetória delas como ao observarmos os aspectos formais utilizados na construção narrativa.

A meu ver, O Coruja pode ser lido como um romance de formação, urdido sob o prisma do grotesco, considerando-se as forças históricas que dominavam à época. André é intelectual que, por mais que se esforce não consegue escrever a sua tão sonhada História do Brasil e nem construir uma escola de acordo com seus ideários pedagógicos.  Nessa obra, Aluísio Azevedo não só aclimatou o Naturalismo à realidade brasileira, usando fartamente  categorias do grotesco, como escreveu um romance de formação às avessas, subvertendo também o ideário postulado por Goethe. Talvez essa fosse a única possibilidade em um país escravocrata, às vésperas da Proclamação da República, que pouco significou em termos de mudanças estruturais. Essas hipóteses foram defendidas por mim na já referida investigação.

Entretanto, há muitas outras possibilidades de leitura. Os desastres provocados pelo fato de o personagem André ter como ideário a bondade, por exemplo. Elemento que Franklin de Oliveira apontou em um panorama que fez a obra de Aluísio Azevedo. Ele considera que O Coruja constitui ponto de transcendental importância na ficção brasileira, justamente porque Aluísio coloca como um dos temas centrais do romance “o problema da bondade que gera desastres”.  Todavia, esses novos olhares sobre a obra só poderão acontecer se ela for lida, conhecida e comentada e esta nova edição poderá contribuir neste sentido.

Você pode falar um pouco desta edição?

MSV: Ainda não foi realizado nenhum estabelecimento de texto como o apresentado nesta edição da Ateliê, para o qual utilizamos como base um exemplar editado em 1898, mas realizando cuidadoso cotejo com o folhetim, publicado do dia 2 de junho a 12 de outubro, de 1885, no jornal O Paiz. Desta maneira, pôde-se incluir trechos que foram suprimidos na edição da Martins Fontes, que foi usada por muitos editores em lançamentos posteriores. Em alguns casos, essas supressões chegavam a comprometer o entendimento do texto.

Sob a orientação e em colaboração com o professor José de Paula Ramos Júnior, docente do Departamento de Jornalismo e Editoração da ECA, USP, durante o estabelecimento do texto foi realizado cuidadoso processo de análise com o intuito não apenas de corrigir erros tipográficos, omissões de trechos, mudança de sílabas palavras ou períodos, mas, sobretudo, estabelecer o texto de acordo com o usus scribendi do escritor e da época. Portanto, respeitou-se o critério estilístico pessoal que orientava, por exemplo, o uso das vírgulas. Em favor da legibilidade do texto, foram feitas correções para não prejudicar o entendimento ou padronizar construções semelhantes em que a virgulação variava, mas sem prejudicar o estilo do autor.

Além disso, esta edição contém notas explicativas para esclarecer vocábulos raros ou em desuso, expressões de época, palavras em línguas estrangeiras, elucidar fatos históricos ou contribuir para a identificação de personalidades da época, como também referendar alguns critérios usados durante o estabelecimento do texto. Desta maneira, esperamos contribuir para dirimir os obstáculos à fruição da leitura e favorecer o entendimento desse romance ainda tão pouco estudado de Aluísio Azevedo.