Ao vires isto isto vires ao vires isto

Katherine Funke*

Páginas mágicas, máginas págicas são o que se poderia esperar de um livro sobre Gertrude Stein, sim, Gertrude-rose-is-a-rose-is-a-rose-Stein, Gertrude-page-ages-Stein. Ainda mais um livro chamado Ao vires isto, título que (para olhos e ouvidos atentos), logo se espelha, multiplicado, em “isto vires, ao vires isto”, porque é um livro sobre Gertrude Stein, aquela (de ouvidos e de olhos atentos) que percebeu que As you like it, título de uma das peças de Shakespeare, abria as possibilidades de sentido para muito mais do que um significado, muito mais do que uma só combinação de sentidos.

            Livro de ensaios com vários autores organizado por um trio de pesquisadores da obra da escritora norte-americana considerada a Mãe do Modernismo, Ao vires isto (2018, 216 páginas) traz logo no título o mesmo gesto de brincar com a linguagem que marcou toda a literatura de Gertrude, desde as peças teatrais para adultos, passando pelos seus livros mais famosos – e até pelo mais complexo de todos  (Stanzas in meditations) – até os livros para crianças.

            Mas, e se não se chamasse Ao vires isto, este volume de nove ensaios ainda teria o efeito de nos fazer virar isto, isto é, de nos fazer mergulhar na leitura, como consegue, magicamente? A pergunta é inspirada no que William Shakespeare escreveu no ato II, cena II de Romeu e Julieta, sobre o que aconteceria com o perfume da rosa caso ela tivesse outro nome. Cena que, aliás – e isto ficamos sabendo por Luci Collin, neste livro – inspirou Gertrude Stein não só em sua frase mais conhecida (“Rose is a rose is a rose is a rose”), como por toda sua trajetória.

            O ensaio de Luci Collin, por sua vez, possui um efeito de centralidade ou núcleo para os demais, que ao redor dele ganham sentido, como em uma espiral. Isto porque Collin faz um breve retrospecto das relações entre Stein e Shakespeare. Esse elenco de relações de influência não só esclarece características primordiais do estilo da Mãe do Modernismo, como nos permite tentar pensar como ela pensava, olhar para as palavras com o mesmo encantamento, a mesma vontade de brincar.

            Intitulado “Uma rosa re-encarnada – Stein traduzindo Shakespeare”, o artigo de Luci Collin atravessa algumas das reflexões deixadas pela própria Gertrude em relação ao escritor inglês. Se suas vidas aconteceram separadas por três séculos, por outro lado as obras se encontram em muitos aspectos. Como, por exemplo, pelo gesto de subverter a narração linear do tempo e promover procedimentos de aceleração/retenção das ações, por exemplo, recontando uma cena muitas vezes, sem avançar.

            Para Gertrude, esta foi a base da ideia de “presente contínuo”, que a motivava a escrever sempre no presente, sempre como se a ação nunca acabasse. A também poeta e escritora paranaense Luci Collin nos apresenta a esta e a outras influências de Shakespeare ao longo da obra da escritora. Coloca em pauta, assim, as fase de sua obra e os procedimentos mais consolidados de Gertrude, como a insistência (não a repetição), a intenção de presentificação em detrimento à descrição, entre outros.

            A quem se interessa propriamente pelos procedimentos literários de Gertrude, sugiro que se comece a leitura por este artigo, e não pelo escolhido pelos editores, que trata das relações entre as obras de Duchamp e Stein. E que logo na sequência, se houver interesse mais exatamente por situar a obra de Gertrude Stein em circulação no contexto brasileiro, pule logo para o texto de Dirce Waltrick do Amarante sobre o volume infantil traduzido por ela e por Collin.

            O artigo de Dirce descreve os problemas da tradução de To Do: A Book of Alphabets and Birthays e que, gentilmente, traz a riqueza de transcrever de modo bilíngue aquilo de que fala. De lá, quem seguir o mesmo trajeto de interesses poderá querer partir para o artigo de Augusto de Campos posicionado ao final do volume, “Gertrude Stein e a melodia de timbres”. Ambos nos fazem ver e ouvir com mais nitidez algumas das badaladas dos sinos aludidas por Luci Collin, badaladas de quem já se meteu a traduzir uma das mais difíceis das modernistas.

            Com um total de nove artigos, o volume lança luzes sobre uma obra vasta, volumosa, que ainda não foi compreendida e nem mesmo completamente traduzida para o nosso português. É surpreendente, aliás, que existam nove consistentes e heterogêneos artigos como estes, convivendo no mesmo espaço-tempo de um livro, orbitando juntos como se fossem nove planetas ao redor do Sol.

Dois pares em branco

            A força de Ao vires isto é que nos faz lembrar de que (ainda) existe uma Gertrude Stein e que ela é, na verdade, muitas: não a portadora orgulhosa de uma máscara fixa, mas a caçadora das muitas possibilidades que exerceu em várias linguagens literárias. Quem tem medo de Gertrude é porque ainda não foi apresentado a alguns de seus achados mais belos, reunidos aqui neste livro por 18 mãos altamente qualificadas.

            Destaco ainda que o volume, embora sóbrio, foi editado de modo cuidadoso, em tipografia grande que promove uma leitura fluida e com as devidas referências bibliográficas apresentadas ao modo da pesquisa acadêmica. Dois pares de páginas estão em branco, como que para possibilitar anotações. Tudo isso deixa ressoando a ideia de que este não é um livro que, ao ser lido, se acabe em si mesmo. O que ele coloca em movimento, ao ser lido, não é só o que deixa ver, mas uma imensa energia em forma de sons e de sentidos. A edição traduz assim, para o próprio objeto livro, a ideia de presente contínuo da obra de Stein. Ela continua pulsando e se renovando, a cada vez que a estudamos. Ela continua, ao vires isto – esta resenha e, claro, o próprio livro.

*Katherine Funke é doutoranda e mestra em Literatura pela UFSC.

Federico Fellini, 100 anos

Em 20 de janeiro de 2020, o genial cineasta italiano Federico Fellini faria 100 anos. Artista de circo na infância, foi quadrinista, caricaturista e redator de revista. Mas foi no cinema que encontrou o caminho para expressar sua arte e arrebatar público e crítica com  seu cinema autoral. Tanto assim que virou adjetivo. Felliniano é um personagem (ou uma situação) inusitado, que carrega consigo uma estética ao mesmo tempo barroca.

Estreia no cinema em 1945, como roteirista de “Roma, Cidade Aberta”. A reflexão que Fellini propunha em suas obras é bastante densa e mostra o ser humano em toda sua fragilidade, mesmo quando o retrata no cotidiano mais prosaico: tudo parece ter uma atmosfera onírica.  

Seus primeiros filmes têm uma inspiração neorrealista, carregados de emoção, o que faz com que nós, espectadores, nos identifiquemos com eles. Em filmes como “Ginger e Fred” (1986), o desencanto toma conta do olhar, muitas vezes em narrativas de tom confessional. “A Doce Vida” (1960) imortalizou em nossas retinas uma das cenas mais icônicas do cinema, quando Anita Ekberg banha-se na Fontana Di Trevi ao lado de Marcello Mastroianni: desejo, hedonismo e lirismo andam juntos durante o passeio pela madrugada de Roma. Seu filme seguinte, “Oito e Meio” (1963), é uma profunda reflexão autobiográfica, com um lirismo quase inatingível e, ao mesmo tempo, cheio de humor.

Ao longo de sua obra, a narrativa deixa de ocupar um lugar central na obra do italiano – e é a beleza estética que assume o protagonismo. Ele dizia que a vida real não o interessava. “A fantasia é a zona erógena mais importante”, provocava. E criava cenas oníricas e líricas enquanto a Segunda Guerra ainda era uma ferida aberta na Itália dos anos 1950.

Seu último filme, “A Voz da Lua”, foi inspirado em O Poema Dos Lunáticos,  obra mais famosa do escritor italiano Ermanno Cavazzoni que é, na verdade, um romance. O clima de surrealismo retrata Ivo Salvini, um louco recém-saído de um hospício. Salvinio é interpretado por Roberto Begnini, que traz ao público o deslumbramento da novidade e a inocência ingênua do olhar de quem vê pela primeira vez o mundo (como nós o vemos diariamente). Talvez por isso, por onde passa, ele conquista a simpatia das pessoas. “A Voz da Lua” é uma grande alegoria, repleta de lirismo e sonho.

Em 1993, recebe o Oscar pelo conjunto da obra e, logo após celebrar 50 anos de casado com a atriz (e musa) Giulietta Masina, morre, aos 73 anos, em decorrência de um ataque cardíaco, deixando como legado uma das mais importantes obras cinematográficas da história.  

“Leituras Imediatas”, por Aurora Bernardini*

O livro  póstumo de Jerusa Pires Ferreira ( 1938-2019) , Leituras Imediatas (Ateliê, 2019) é o último mergulho no “Grande Texto” ao qual dedicou a maior parte de seus anos, O Cordel: Tradição e Vida.

É o “Grande painel da literatura popular em verso” que ela percorreu desde as projeções medievais do clássico Cavalaria em cordel ( sua dissertação de Mestrado – Hucitec, 1979- Edusp, 2016), até as periferias de cidades como a São Paulo, Cultura das bordas ( Ateliê, 2010), passando pelo misticismo de O livro de São Cipriano –  Uma legenda das massas ( sua tese de Livre docência – Perspectiva, 1992),  pelos Contos Russos no Sertão (Matrizes impressas do Oral- Ateliê, 2014) e etc.,  chegando a essas Leituras Imediatas ( Ateliê, 2019), que acaba de ser publicado.

Afora alguns folhetos  de cordel sobre as guerras contemporâneas, como a das Malvinas (1980) e do Golfo (1990) e outros, mais recentes,  – prova de sua atualidade — o que o livro de Jerusa acompanha é  a grande deslocação que há hoje no que se refere à recepção e à fatura desses folhetos. Os custos de produção, mesmo em edições de pequeno fôlego, as dificuldades de encontrar patrocinadores, mesmo garantindo-lhes a propaganda, leva muitos de seus autores a produzirem  para “turistas de cultura” ou sob encomenda, onde porém, com sua manobra “ arcaizante” , em vários níveis, conservam seu caráter de  oposição à literatura oficial, de contestação de valores sociais, mas não contra a lei do país.

No Programa Geral apresentado em Salvador pelo jornal Trovador, durante o II Congresso Nacional de trovadores e violeiros (1960), por exemplo, nota-se que ocorre, segundo Jerusa, o seguinte: “…mascara-se o habitual, sublima-se e tenta-se conseguir, através de um modelo de ordem hierárquica, a aprovação para uma espécie de ‘ impunidade’[…] pulsam-se anseios, problemas, posturas e expectativas de grupos sociais que não tem sido inscritos na ‘História da Cultura Brasileira’ a não ser como ‘ Folklore’.”

Infelizmente, diz Jerusa, esse termo foi assumindo a acepção corrente (norte-americana) de “cultura de massa”. Entretanto, diz Alejo Carpentier, citado por ela (p.101): “ Folclore – na América Latina, é uma palavra que deve ser pronunciada com um tom grave e fervoroso […] é preciso retornar às fontes do folclore” .

Ela mesma apresenta, nesse sentido, sua primeira conclusão:

“Tendo recolhido, recentemente, muito material para sistematizar, percebi o quanto está por fazer. Os trabalhos de mapear, recolher, registrar os produtores dessa literatura em todo o país, daquela tradicional, da efetiva nova e da circunstancial, de modo crítico e com o recurso de várias disciplinas, o convívio profundo com o tema, o conhecimento de uma retórica e de uma linguagem próprias deverá anteceder, a meu ver, os diagnósticos apressados que transformaram os estudos das chamadas culturas populares numa festa de enganos. E justamente toda uma produção oral/impressa popular, que é  uma das mais importantes e intensas manifestações culturais do Brasil, constituindo-se também em documento para a construção  de nossa condizente História Social “ (p.84)

Sua segunda conclusão já penetra tout court nos domínios do artístico. Dentro e fora da “arte popular” há alguns cordelistas que por seu estilo, por sua originalidade, por sua “ força de dizer” – por sua poética , enfim — , há tempo deveriam estar incluídos na História da Literatura Brasileira. Jerusa cita  vários, entre os  quais se destaca, indiscutivelmente, o paraibano Leandro Gomes de Barros ( 1865 -1918), segundo o próprio  Carlos Drummond de Andrade:  “o rei da poesia do sertão e do Brasil”.” Não seria a hora “ – diz Jerusa ( e dizemos nós, perpetuando sua memória) – “ de estudiosos, universitários, autores de Histórias da Literatura Brasileira, incluírem, em seus repertórios, um poeta dessa grandeza?”

* Escritora, pintora, tradutora. Possui doutorado em Letras (USP) e é professora titular da Universidade de São Paulo (USP). Departamento de Letras Orientais (DLO), Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH), Universidade São Paulo (USP).

Clepsidra, de Camilo Pessanha

Clepsidra é o único livro de poesias publicado em vida pelo escritor português Camilo Pessanha (1867 – 1926). O livro, um dos mais importantes da poesia portuguesa moderna, foi publicado pela primeira vez em 1920, por Ana de Castro Osório, por quem Camilo Pessanha era enamorado.

O título se refere a um antigo instrumento grego de medição do tempo, parecido com uma ampulheta mas que, em vez de areia, continha água. O tema dos poemas passam pela efemeridade da vida, a fragilidade humana e o desencanto perante o mundo. Mas, o que a diferencia de outras, que abordam assuntos correlatos, é a recusa ao sentimentalismo confessional. Pessanha inova, subvertendo os princípios da métrica tradicional – o que faz de maneira única, com apurado senso rítmico, linguagem fragmentada e o uso refinado de metáforas. Muitas vezes, parece que não há ligação aparente entre os poemas do volume e a razão disso é, em parte, devida à sua fragmentação estrutural proposital e, em parte, devida à construção de sua primeira edição.

Desde a organização, o volume tem uma problemática própria. A organização da primeira edição não obedece exatamente àquilo que o autor propunha, do ponto de vista estético. E, neste aspecto, a edição da Ateliê Editorial representa um ganho para o leitor: Paulo Franchetti, responsável pela organização, apresentação e notas do volume é um profundo estudioso da obra do autor português e, em suas pesquisas, teve acesso a um documento que sugeria parâmetros para a organização do volume, a partir de anotações próprias de Pessanha sobre as datas em que os poemas teriam sido compostos.

Com isso,  a organização dos poemas feita na edição de Clepsidra da Ateliê Editorial, se não é exatamente aquela desejada pelo autor, é mais próxima disso do que ouras edições existentes.

Leia, a seguir, alguns poemas de Clepsidra:

INSCRIÇÃO

Eu vi a luz em um país perdido.

A minha alma é lânguida e inerme.

Oh! Quem pudesse deslizar sem ruído!

No chão sumir-se, como faz um verme…


SONETO

Tatuagens complicadas do meu peito:

Troféus, emblemas, dois leões alados…

Mais, entre corações engrinaldados,

Um enorme, soberbo, amor-perfeito…

E o meu brasão… Tem de oiro, num quartel

Vermelho, um lis; tem no outro uma donzela,

Em campo azul, de prata o corpo, aquela

Que é no meu braço como que um broquel.

Timbre: rompante, a megalomania…

Divisa: um ai, — que insiste noite e dia

Lembrando ruínas, sepulturas rasas…

Entre castelos serpes batalhantes,

E águias de negro, desfraldando as asas,

Que realça de oiro um colar de besantes!


ESTÁTUA

Cansei-me de tentar o teu segredo:

No teu olhar sem cor, — frio escalpelo,

O meu olhar quebrei, a debatê-lo,

Como a onda na crista dum rochedo.

Segredo dessa alma e meu degredo

E minha obsessão! Para bebê-lo

Fui teu lábio oscular, num pesadelo,

Por noites de pavor, cheio de medo.

E o meu ósculo ardente, alucinado,

Esfriou sobre o mármore correto

Desse entreaberto lábio gelado…

Desse lábio de mármore, discreto,

Severo como um túmulo fechado,

Sereno como um pélago quieto.



OLVIDO

Desce por fim sobre o meu coração

O olvido. Irrevocável. Absoluto.

Envolve-o grave como véu de luto.

Podes, corpo, ir dormir no teu caixão.

A fronte já sem rugas, distendidas

As feições, na imortal serenidade,

Dorme enfim sem desejo e sem saudade

Das coisas não logradas ou perdidas.

O barro que em quimera modelaste

Quebrou-se-te nas mãos. Viça uma flor…

Pões-lhe o dedo, ei-la murcha sobre a haste…

Ias andar, sempre fugia o chão,

Até que desvairavas, do terror.

Corria-te um suor, de inquietação…

Conheça outros títulos da Coleção Clássicos Ateliê

Paradeiro: uma carta para Pedro

O escrito e psicanalista Renato Tardivo escreve uma “carta aberta” a Pedro, protagonista de Paradeiro, romance de Luís Bueno que recebeu o Prêmio Literário Biblioteca Nacional 2019

São Paulo, 26 de dezembro de 2019.

Caro Pedro,

Espero que me perdoe a intromissão. Não nos conhecemos; ou, para ser mais preciso, você não me conhece. Eu soube de eventos importantes da sua vida por meio do romance Paradeiro, escrito por Luís Bueno e do qual você, aos 23 anos, é um dos protagonistas. Presumo que você não tivera a oportunidade de ler o romance, levando em conta, inclusive, que ele seria publicado no longínquo 2018. O livro possui três camadas narrativas, por assim dizer. Uma delas traz como protagonista uma mulher madura, cujo nome não se menciona e que, ao descobrir tardiamente um câncer, decide (decide?) se suicidar. Boa parte dessa camada é narrada em primeira pessoa por essa mulher. Outra camada se ocupa da vida de Bibiana, uma senhora em estado de demência (e quanta sabedoria ela anuncia!). A maior parte dessa outra camada é narrada pela própria Bibiana em um texto sem pontuação – pretendo voltar a tratar disso nesta carta. E, por fim, perfaz o livro a seção que o traz como protagonista. Em toda essa camada, o leitor tem a oportunidade de conhecer uma série de cartas remetidas por você em 1938 a familiares e amigos, e, em algumas delas, ler suas críticas literárias encaminhadas à “Revista Acadêmica”. É assim que sua identidade se constitui no livro: dirigindo-se ao outro. Não é bonito? Por este motivo, Pedro, não me ocorreria outra forma de comentar o livro Paradeiro senão remetendo uma carta a você.     

Posso imaginar (não mais que imaginar) o baque que você sentiu ao receber o diagnóstico de tuberculose e, por causa disso, ter de se exilar em São José dos Campos para se submeter, naquele ano de 38, a um tratamento repleto de incertezas. Deixar o Rio e o convívio com Murilo Miranda, Moacyr Werneck e Carlos Lacerda, para citar apenas alguns de seus companheiros, não deve ter sido nada fácil. Sei disso, porque sua angústia se revela nas cartas. Talvez você tenha pressentido o que diria a protagonista (sem nome) do romance: “A morte é exatamente isso. Feder fortemente e ninguém sentir”. É curioso, não obstante, que o cheiro dela seja sentido, circunstância que atesta justamente a sua condição de viva. Também em suas cartas, Pedro, mais que a angústia, o que salta mesmo é sua vontade de viver e seguir discutindo os temas que tanto lhe interessavam: literatura e igualdade.

O romance Paradeiro, mais do que flertar com a morte, é um livro sobre a vida! Você acredita que (muito diferente da sua experiência, evidentemente) também eu tenho uma história em São José dos Campos? Como, nas férias da infância, eu viajava com a família para o litoral norte de São Paulo, São José ficava na metade do caminho. Passar por lá, então, era, por um lado, ruim: significava que ainda tínhamos pela frente metade do trajeto (que, de longo, eu ainda não sabia, não tinha nada). Mas era também a chance de comer no único McDonald’s que havia na região, e isso era, à época, o suficiente para me deixar animado. Como vê, eu não conhecia nada de São José dos Campos, o que dirá de sua acolhida aos tísicos? Sequer à praça Afonso Pena eu fora. Mas bons livros sobre a vida, como o é Paradeiro, estabelecem uma intimidade insuspeita com o leitor. Não é isso que também dizem as críticas que você publicava na “Acadêmica”?

E, por falar em intimidade, suponho que você jamais tenha conversado com Bibiana. Mas, e com a personagem sem nome? É possível (apenas possível) que, em algum momento da vida, ao menos um “bom dia” vocês tenham trocado. Eu creio que uma conversa entre vocês três seria tão enriquecedora! Mas isso não importa. Ao contrário, é a autonomia entre as três trajetórias e seus sutis pontos da tangência que fazem do romance um belo livro. E é assim mesmo que, sem que vocês três se encontrem propriamente, o encontro pode enfim ocorrer em sua máxima potência: no imaginário do leitor.

É difícil (e seria leviano da minha parte) afirmar quem é a personagem mais sofrida. Mas me ocorre que Bibiana, a mais velha entre os protagonistas, foi arrancada da mãe e da pátria na infância, casou-se ainda menina, casou-se de novo, viveu sob a opressão da tia e, se já não bastasse, perdeu dois filhos! Um deles você conheceu, sabia? Pois eu sei. Enfim, quanta dor e fome de vida. O entusiasmo com que você leu Vidas Secas, romance excepcional de Graciliano Ramos publicado enquanto você se tratava da tuberculose, quiçá também tome essa direção. De qualquer modo, creio que Bibiana seja a personagem mais mítica do romance. O discurso dela, sempre em letras minúsculas, não possui (como já anunciei) pontuação; não tem começo, não tem fim: é. A outra protagonista, que vaga entre São José e Jacareí por alguns dias em busca de dar cabo da própria vida, parece caminhar para esta descoberta, qual seja, a de que a vida, em ultimíssimo caso, não tem começo, não tem fim: é. Mas percebo que, agora, já exagero em minhas divagações.

Pedro, não poderia deixar, ainda, de registrar meus agradecimentos a você, por apresentar-me ao romance Amanhecer, de Lúcia Miguel Pereira, sobre o qual você escreveu na “Acadêmica”; obra que, em suas palavras, como Vidas Secas, “veio para envelhecer sempre nova”. Pois saiba que amanhã mesmo eu irei atrás do meu exemplar de Amanhecer. O que você muito provavelmente não soubesse é que esta imagem – o envelhecer sempre novo – costura a sua história, a de Bibiana e a da mulher cujo nome desconhecemos. Mas arrisco afirmar que você o intuiu, ou não teria dito em carta à sua mãe que São José dos Campos era o seu paradeiro: “O lugar onde vim parar é aquele em que eu pararia de vez. Mas não parei, e por isso parei por aqui”. Também eu paro por aqui.

Com o abraço do

Renato    

Retrospectiva 2019

Final de ano sempre é tempo de retrospectiva. Pensar no que passou, nos planos que conseguimos colocar em prática, nas leituras que conseguimos concluir. Esse balanço de final de ano é sempre importante e, de alguma forma, ajuda a fazer planos para o ano que virá.

Por isso, a Ateliê hoje entra no clima de final de ano e faz sua própria retrospectiva, para que você conheça tudo o que a editora publicou em 2019 e possa fazer um balanço do que já tem e do que ainda não tem. faça sua lista de desejos!

LANÇAMENTOS

Octávio Brandão e as Matrizes Intelectuais do Marxismo no Brasil

Octávio Brandão é um nome muito conhecido dos pesquisadores brasileiros que se debruçam sobre a política do início do século XX. Comunista de primeira hora, o intelectual alagoano foi ativista e militante, sendo pioneiro na difusão do marxismo no Brasil. Ele escreveu obras importantes – mas pouco lidas – como Agrarismo e IndustrialismoCanais e LagoasVeda do Mundo Novo e Rússia Proletária. Em Octávio Brandão e as Matrizes Intelectuais do Marxismo no Brasil, Felipe Castilho de Lacerda vai além da biografia do alagoano e traz ao público um estudo sobre a obra desse intelectual. 


Entreatos

Marcelo Castel Cid já escreveu um romance chamado Os Unicórnios e organizou a Antologia Fantástica da Literatura Antiga. De certa forma, sua literatura flerta com o fantástico. Em Entreatos, ele bebe nessa fonte para criar monólogos inventados para personagens bíblicas que marcam presença no Livro dos Atos dos Apóstolos. 


Eugênio Onêguin: Um Romance em Versos

O “romance em versos” Eugênio Onêguin é a expressão máxima do gênio de Aleksandr Púchkin (1799-1837), e representa para a literatura da Rússia o mesmo que Os Lusíadas, A Divina Comédia,  Dom Quixote e as peças de Shakespeare representam respectivamente para Portugal, a Itália, a Espanha e a Inglaterra.
Púchkin é considerado o fundador da literatura russa moderna, o maior ícone cultural da Rússia, e seu Eugênio Onêguin já foi chamado de “enciclopédia da vida russa”, de leitura obrigatória em escolas. A edição bilíngue foi traduzida pelo poeta e tradutor Alípio Correia de Franca Neto e pela pesquisadora russa Elena Vássina. O trabalho teve a consultoria de Bóris Schnaiderman, em um dos últimos trabalhos deste grande estudioso. 


Fascinação

Flavio de Souza é muito conhecido por seu trabalho para crianças, como “Rá-Tim-Bum” e “Mundo da Lua”. Ele também foi roteirista de programas de humor como “Sai de Baixo”. Já Luci Collin é poeta, ficcionista e tradutora. O encontro entre os dois poderia parecer inusitado à primeira vista, mas foi esse encontro que gerou Fascinação, volume em coedição Kotter e Ateliê Editorial, que traz para o registro do livro o texto que foi sucesso nos palcos brasileiros nos anos 1990. Mas não se trata de uma simples transposição. O trabalho de Flavio e Luci ampliou o texto original, criando para o leitor uma experiência diferente daquela vista pelo espectador no teatro.


O Azul e o Mar

Eduardo de Campos Valadares selecionou poemas de três fases de Paul Valéry – Charmes, Clássicos e o longo poema “A Jovem Parca” – para compor este volume, chamado O Azul e o Mar, uma coedição com a Editora UFMG. Um trabalho de tradução que, segundo o tradutor, foi uma “festa da imaginação”, expressão que cria eco na “festa do intelecto” que, segundo o poeta francês, deve ser o poema.


Geometrias de Cosmos

Primeiro volume da série “A Trilogia da Invisibilidade”, o livro de Rodrigo Suzuki Cintra reúne poemas que são metáforas da invisibilidade, criando, nas palavras do autor, sentimentos e percepções que estão por trás das palavras.


Geórgicas

Um poema sobre as práticas e as técnicas de agricultura. Este assunto que aparenta não despertar interesse é o pretexto que Virgílio (70 a.C. – 19 a.C.) usa, em Geórgicas,  para tratar de temas grandiosos: a força do sentimento amoroso, as dificuldades humanas, o papel do trabalho. Para muitos, esta é a maior obra de Virgílio.


Os Índios na Constituição

Os povos indígenas são os primeiros habitantes das terras brasileiras. Quando os portugueses atracaram na costa brasileira, o território já era ocupado. Entretanto, faz apenas pouco mais de 30 anos que direitos fundamentais das populações indígenas foram garantidos pela Constituição de 1988. Para celebrar essas três décadas e manter a discussão sobre o tema atual, Camila Loureiro Dias (Doutora em História) e Artionka Capiberibe (Doutora em Antropologia) organizaram Os Índios na Constituição, volume que reúne depoimentos de pesquisadores e intelectuais que exerceram papéis chave na definição dos direitos indígenas na Constituição Cidadã e de alguns dos atuais protagonistas dessa luta. 


Inocência

Inocência foi lançado em 1872. Escrito por Alfredo Maria Adriano d’Escragnolle Taunay – o Visconde de Taunay – este romance regionalista traz para o leitor o ambiente do sertão e o comportamento do sertanejo, por meio da história de amor impossível entre Inocência e Cirino. Nesta edição da Ateliê Editorial, Inocência chega ao leitor repleta de notas de rodapé que ajudam a entender o contexto da obra, informações relevantes e outros dados que facilitam e aprofundam a leitura. Com apresentação de Jefferson Cano e ilustrações de Kaio Romero, Inocência tem estabelecimento de texto e notas de José de Paula Ramos Jr.


Leituras Imediatas

Leituras Imediatas é o último escrito de Jerusa Pires Ferreira, professora de pós-graduação em comunicação e semiótica da PUC-SP. A publicação traz textos “que giram em torno da ideia de mitopoéticas, no sentido de que constituem permanente recriação e ao mesmo tempo a levam a problematizar dicotomias para pensar manifestações da cultura”, como escreve Adriano C. A. e Sousa na quarta capa do livro.


Livro 7/8

Tanto quanto as bibliotecas, os arquivos e os museus, ou dos museus contidos nas bibliotecas, a REVISTA busca captar as pulsões políticas, as tensões econômicas e os estímulos culturais sentidos por seus principais agentes, no Brasil e no mundo. No momento em que as funções de museus e bibliotecas, na verdade, da educação e da cultura como um todo, são alvos de questionamentos, faz-se necessário refletir e reafirmar, por meio de projetos e vivências concretas, a importância fundamental dessas instituições na vida de uma nação.


Somente nos Cinemas

Somente nos Cinemas, o novo livro de contos de Jorge Ialanji Filholini, é o mais recente lançamento da Coleção LêProsa, da Ateliê Editorial, que enfoca a literatura de autores brasileiros contemporâneos. A coleção é coordenada por Marcelino Freire, também organizador da Balada Literária e autor de Angu de Sangue


Velhos Amigos

A publicação de Velhos Amigos é um acontecimento: depois de lançar Memória e Sociedade – Lembranças de Velhos, um dos mais originais e importantes ensaios sobre a memória individual e coletiva no Brasil, Ecléa Bosi volta ao tema, desta vez em abordagem literária.


Passos da Semiótica Tensiva

Este volume analisa o impacto das noções de andamento (rápido e lento) e tonicidade (tônica e átona) na semiótica narrativa e discursiva de Greimas. Na obra, Luiz Tatit promove algumas incursões descritivas no universo da linguagem verbal, na escrita literária de Guimarães Rosa e no mundo da canção.


REEDIÇÕES

Angu de sangue – 3a ed.

Em seu primeiro livro de contos, agora reeditado, Marcelino Freire faz um retrato realista e inusitado do submundo das grandes cidades. Os protagonistas são violentados pelas dores e frustrações de uma sociedade injusta, que os estigmatiza. 


Arquétipos Literários

O mitólogo e semioticista russo Eleazar Meletínski analisa neste livro os arquétipos, unidades primeiras da narrativa universal. Por meio dessa reflexão, o autor discute alguns conceitos de Freud e polemiza com outros estudiosos do assunto.


Caligramas

O título de um dos mais importantes livros de poemas de Guillaume Apollinaire, já revela a vocação de ir além da palavra escrita e expressar seus significados também pela forma – que sugerem desenhos.


Dez Mitos sobre os Judeus – 2a ed.

O livro de Maria Luiza Tucci Carneiro tem como objetivo desvendar não só a imagem do povo judeu, como também entender como acontece o processo de manipulação da mentira e a compreensão da verdade nos mundos atuais. 


Contos da Nova Cartilha – Primeiro Livro de Leitura

Em 1859, o autor de Guerra e Paz fundou uma escola rural para crianças. Seu método pedagógico era de cunho emotivo: o mestre não era uma figura autoritária, estudar era uma diversão. Contos da Nova Cartilha contém fábulas, histórias reais, contos folclóricos, descrições de paisagens e adivinhações que ele usava em suas aulas. Mais do que ensinar a ler, sua proposta era “educar para libertar”. Ao estimular a criatividade de seus alunos, Tolstói tinha plena consciência de que erguia um monumento.


Epigramas – 2a. ed.

Escrever em poucos caracteres para passar uma mensagem assertiva tornou-se popular com a criação do Twitter, há pouco mais de dez anos. Mas, esse recurso já era usado na Roma Antiga, há quase dois mil anos, por poetas como Marco Valério Marcial, considerado o pai do epigrama (forma poética breve, marcada pelo estilo satírico e engenhoso). A segunda edição de Epigramas chega ao público em brochura, mais prática e econômica.


Os Males do Tabaco

Além de exímio contista, Tchékhov estabeleceu novos padrões para a dramaturgia contemporânea. As oito peças reunidas nesta antologia, traduzidas diretamente do russo pelo professor Homero Freitas de Andrade, são pequenas pérolas de grande valor literário.


O Pai – 6. Ed.

A morte de Euclides da Cunha é um dos episódios mais trágicos da literatura brasileira. Sua esposa, Ana, tornou-se amante do cadete Dilermando de Assis. Ainda casada com Euclides, teve dois filhos de Dilermano. Em 1909, o escritor confronta o amante de Ana, mas este reage e mata o escritor. Ana e Dilermando, então, casam-se, mas se separam depois de cerca de uma década. O Pai, livro escrito por Dirce de Assis Cavalcante, conta como a autora descobriu que era “filha de um assassino”. Ela é a filha que o general Dilermando teve depois de se separar de Ana. 


Sôbô – Uma Saga da Imigração Japonesa

O livro narra parte da história que liga o Brasil ao Japão, contada pelo autor, Tatsuzô Ishikawa, que, em 1930, embarcou para o Brasil no navio La Plata Maru, como imigrante individual com auxílio do governo. Com este livro, que descreve a imigração japonesa no Brasil, Tatsuzô ganhou o primeiro prêmio Akutagawa – o prêmio literário de maior valor no Japão, instituído em 1935. O livro tem tradução de Maria F. Tomimatsu, Monica Okamoto e Takao Namekata.