Educar para o Imponderável

A pandemia expôs a fragilidade humana. Mas, já antes dela, exclusão social, problemas ambientais, políticos e sociais já eram graves problemas que precisávamos enfrentar todos os dias. E, mesmo sendo, a um só tempo, causa e consequência desse cenário, será que a humanidade ocupa o lugar de protagonismo que lhe é devido, pensando sobre esses problemas e tentando encontrar saídas para eles? Em seu novo livro, Educar para o Imponderável – Uma Ética da Aventura, Luís Carlos de Menezes discute como educar os jovens para ocupar esse lugar de protagonismo. A seguir, ele fala a respeito com o Blog da Ateliê:

Qual a razão de escolher o tema deste livro? O que o atrai neste assunto?

Luís Carlos de Menezes: Percebendo um futuro cada vez menos previsível, me questionei como isso influiria no preparar para viver. Concluí que seria preciso equipar jovens para enfrentar o inédito, e o livro convida educadores para isso. Mas conceber e realizar isso não foi simples nem imediato, e sim um processo complexo e extenso.

O livro foi escrito antes da pandemia do novo coronavírus. O que,  caso fosse possível, o senhor reescreveria à luz desta nova realidade pandêmica em que vivemos?

LCM: A pandemia só realça uma das incertezas, a ambiental, e revela quanto, diante dela, nós humanos somos frágeis. É indiscutível que que ela enfatiza o “imponderável” do título, que é dominante em nosso presente.  Por isso, não reescrevi o livro, simplesmente ressaltei quanto é delicado e essencial um convívio harmônico com meio.

 De que maneira a incerteza fomenta a aventura humana, pensando do ponto de vista da educação?

LCM: Estudantes que entendam como conquistas de uma etapa histórica pode levar a sua superação questionarão melhor seu próprio tempo. E como os avanços na produção medieval promoveram a economia de mercado, perguntarão o que resultará da atual revolução tecnológica. Assim, o passado deve inspirar questionamentos, em lugar de ser mera cultura do que se memoriza.

Que elementos os educadores e a escola devem levar em conta para poder oferecer uma formação mais ética, para formar cidadãos mais críticos e protagonistas de sua própria história?

LCM: No percurso da aventura humana, miséria, violência e degradação do meio resultam de ações humanas, de que somos partícipes. A educação ética, explicitando isso, é formação para corresponsabilidade, no âmbito pessoal imediato ou no social.

E a escola com essa perspectiva é espaço de participação em lugar de mera absorção de saberes.

A tecnologia pode ser usada como um instrumento dessa educação para o imponderável?

LCM: O emprego das modernas tecnologias mais do que essencial é inevitável, tanto nas comunicações, quanto na produção. Se não forem empregadas para a paz e para a igualdade, continuarão servindo à violência e à exclusão. E vale lembrar que o domínio das tecnologias é recurso e finalidade na educação contemporânea.

O livro traz a ideia de que a incerteza é um motor para a aventura humana. Entretanto, a mesma incerteza também gera medo e, por vezes, paralisia. Como nos desvencilharmos do caminho da paralisia e fazer com que a incerteza nos mova em direção à uma ação mais consciente de nosso papel no mundo?

LCM: Há problemas que parecem tão grandes que podem parecer estar além de nossas possibilidades. Mas o que pode impor medo e inação é o autoritarismo armamentista, socialmente insensível e ambientalmente irresponsável. Diante disso, a promoção e a defesa de uma democracia participativa e socialmente solidária constituem o principal desafio.

Degradação ambiental, concentração de renda, violência, autoritarismo: em sua opinião ainda é possível parar a escalada da barbárie por meio da educação?  Que medidas urgentes podem (e devem) ser tomadas para garantir um futuro mais harmônico?

LCM: A escola é o equipamento social fundamental, e nela educadores conscientes não são substituíveis por sistemas. Não basta lamentar as injustiças e mazelas do passado e do presente, sendo preciso mobilizar ações para evitá-las E se não for mostrado como a aventura humana pode inspirar uma ética, educar será reproduzir o que gerou o impasse.

Há quem diga que a pandemia poderá “transformar” comportamentos e relações humanas, talvez nos tornando mais conscientes de nosso lugar no mundo, da necessidade da preservação ambiental, do cultivo da gentileza para com os outros. Qual sua opinião a respeito disso?

LCM: O mundo na “pós-pandemia” será tão difícil quanto na própria, em que miséria e desigualdade já estão agravadas. Como toda crise, esta envolve riscos e oportunidades, questões abertas a serem reveladas na educação. A expectativa expressa no livro é de formar uma juventude lúcida, que se motive a superar os riscos e explorar as oportunidades.

“Os Maias”: um romance clássico, moderno e atemporal

O século XXI acabara de começar quando a TV brasileira transportou os espectadores para Portugal do século XIX. Foi isso o que aconteceu em janeiro de 2001, quando estreou na TV Globo a minissérie “Os Maias”, baseada no romance homônimo de Eça de Queirós. Escrita por Maria Adelaide Amaral, com colaboração de João Emanuel Carneiro e Vincent Villari, a produção foi dirigida por Luiz Fernando Carvalho, que pouco antes finalizara as filmagens de Lavoura Arcaica.

Os Maias, publicado em 1888, conta a história da família Maia. Em dezoito capítulos, cheios de ironia e crítica social, o leitor conhece a história de três gerações diferentes. Na TV, um grande elenco foi escalado: Ana Paula Arósio, Fábio Assunção, Walmor Chagas, Selton Mello e Marília Pêra, entre outros, marcaram presença. Mas não era apenas o elenco que chamava a atenção. A estética elegante e elaborada da minissérie contribuiu para fazer dela uma marco na TV brasileira, que agora, duas décadas depois, volta a ser exibida no Globoplay. para celebrar a data, a Ateliê acaba de lançar uma nova edição do romance, que estava esgotado. “Procurei filmar com a pena do Eça”, afirma o diretor Luiz Fernando Carvalho, que falou com o Blog Ateliê sobre a obra:

O que o levou a aceitar a direção de “Os Maias”? Foi um convite recebido ou a proposta do projeto partiu de você? 

Luiz Fernando Carvalho: “Os Maias” me foi apresentado assim que retornei à televisão, logo após o termino das filmagens de Lavoura arcaica. Como já conhecia o romance, fiquei tocado pela enorme coincidência em relação ao Lavoura arcaica, já que, independente de suas linguagens específicas, ambos tratam o incesto como aspecto central da obra. A decadência da sociedade portuguesa, a crítica ácida aos costumes da aristocracia europeia e a visão anticlerical do Eça me pareciam sintetizados na paixão trágica entre irmãos. 

Quando você fez a primeira leitura do romance? Quais são suas lembranças e impressões dessa primeira leitura e que aspectos dessa experiência você pôde imprimir na direção da minissérie?  

LFC: Minha primeira leitura foi marcada pelo encantamento com uma prosa magistral. Extremamente sofisticada sem ser esnobe, mas com enorme rigor de detalhes em todas as passagens. Então foi exatamente este caminho que me propus desde o início, um diálogo com a atmosfera do romance, traçando uma ponte entre o realismo e a tragédia. Sabemos que Eça, de início, procurava escrever uma obra extremamente realista, abolindo por completo o estilo relambido do período, chegando mesmo a se dedicar a criar uma comédia dos costumes da elite portuguesa. Eis que no meio do processo da escrita, o tom trágico da história dos irmãos se impôs e o escritor foi arrastado para a outra margem. Talvez este bordado equilibrado entre crítica social e tragédia seja o elemento que mais me orientou na realização da minissérie. Há algo de teatral e operístico nas entrelinhas, uma dimensão trágica do destino, ao mesmo tempo em que nos deparamos com reflexões encharcadas por uma melancolia risonha do querido Ega (João da Ega, personagem de Selton Mello na série).

Você tem algum personagem ou situação favoritos no romance?

LFC: Trata-se de uma obra muralista. O que dizer de Ega – alter ego mais brilhante da história da literatura ocidental? Maria Monforte, Afondo e Pedro da Maia, Carlos Eduardo e Maria Eduarda, e todo aquele mar de personagens ao redor que, por menor que sejam suas participações, o escritor jamais abandona suas complexidades e dramas humanos. Os Maias é um tratado sobre a psicologia humana, não apenas do século XIX. Moderno e atemporal, será sempre um clássico atual em qualquer tempo.

Qual conceito você usou para criar a estética da minissérie?

LFC: Trabalhei a partir dos pintores impressionistas, desde José Malhoa ao Sargent. Mas não queria nada imitativo, ou mesmo que o período histórico soasse demonstrativo, explicativo. Por outro lado, sabemos que existe uma enorme distância entre o mundo conceitual e a prática em si, quando nós, equipe e elenco, iniciamos o processo de levantar as personagens das folhas do romance. Seria então impossível buscar uma excelência estética sem a colaboração sensível de toda a equipe e elenco. Entre tantas colaborações, considero os figurinos da Beth Filipeck parte fundamental para compreensão do mundo interior das personagens. Filipeck foi muito além, criando uma espécie de segunda pele com os trajes, refletindo um conjunto enorme de sentimentos através de cores, formas e texturas. 

Houve algum grande desafio nesse trabalho?

LFC: Quando trabalho a partir de uma obra literária, meu desafio maior é fazer com que a imaginação continue sendo imaginação, sem que se corra o risco de rebaixa-la à uma mera forma de representação. É como se tivesse que pensar assim: já te tenho que filmar, que não se mate a imaginação. 

Luís Fernando Veríssimo escreve que a minissérie “quase inaugura uma arte inédita”. A que você atribui esse impacto visual que a série causou?

LFC: Tudo na vida são tentativas. Nunca tenho certeza ou regra para nada no campo artístico. Procuro não ter, não quero ter. Mas a cada autor se faz necessário encontrar um método sobre o qual se vai aproximar. No caso de Os Maias, pensava em Proust e Fernando Pessoa, em um olhar do Tempo como entidade acima de todos nós, acima das sociedades, culturas, leis ou sonhos de cada um daqueles personagens. Essa premissa de que a narrativa estaria sendo elaborada em termos formais através do olhar do Tempo talvez tenha humanizado um pouco a narrativa televisiva. Eliminei o que considerava um excesso de equipamentos e tecnologia. Em termos técnicos, trabalhei com apenas uma câmera – reforçando a presença de um olhar como testemunha subjetiva e não como mero registro mecanizado. No mais, foram tentativas atrás de tentativas seguidas por enormes insatisfações, limites imensos impostos pelo meio que tentei reagir artisticamente, e sei bem que fui vencido muitas vezes.  

Vinte anos depois, como “Os Maias” ainda pode surpreender o público? 

LFC: Observando com os olhos de hoje, onde, na imensa maioria dos casos, as possibilidades narrativas surgem comandadas por um modelo único ditado pelas plataformas de streaming, Os Maias, através de uma adaptação corajosa, busca na origem literária suas coordenadas fundadoras. Deste encontro, emerge uma dramaturgia que representa uma libertação artística consistente e consciente. Acentuando este amor pela prosa do Eça, Maria Adelaide Amaral, propôs um caminho que será sempre novo e autêntico.  Por outro lado, somos seres incompletos, não? Os séculos avançam, as ciências, as tecnologias, mas algo no fundo de nossa alma humana permanece preso ao mistério. Talvez seja esta a mensagem que o Eça nos traz, nos surpreendendo sempre: somos feitos de mistério. Corremos em busca do amor, do encantamento, da felicidade, mas tanto as vitórias quanto as ruínas, tudo, absolutamente tudo, pertence ao mistério.

Cocanha: utopia que atravessa o tempo

Cocanha é um lugar utópico. Uma terra imaginária onde há fartura, ociosidade, juventude e liberdade, algo que mobiliza as pessoas através dos séculos, qualquer que seja sua origem geográfica. Por isso, a lenda, que surgiu na França, ganhou o mundo e tem até uma versão brasileira. Em Cocanha – Várias Faces de Uma Utopia, o professor, doutor e livre-docente em história medieval pela USP, Hilário Franco Júnior reúne várias versões desta história. A seguir, ele conversa sobre o livro com o Blog Ateliê:

Como surgiu seu interesse pelo tema? 

Hilário Franco Júnior: Há vários anos, no decurso de pesquisa sobre outro tema, encontrei um curioso poema francês medieval descrevendo uma terra fabulosa, uma espécie de mundo de ponta-cabeça, chamado país da Cocanha. Como esse texto foi traduzido, adaptado e transformado em imagem ao longo de vários séculos, sinal de sua popularidade, pareceu-me interessante reunir grande parte desse material para o público brasileiro.  

Quais são as novidades que esta atual edição traz? 

HFJ: Além de aspectos materiais (novo formato, nova capa, melhor qualidade das imagens), as traduções foram revistas e em certos pontos modificadas, algumas indicações bibliográficas foram atualizadas.  

Cocanha é uma utopia de várias culturas, em várias línguas. A que o senhor atribui essa variedade? Por que tantos povos, em diferentes épocas, buscavam utopias semelhantes? Se tomadas em conjunto, as  Cocanhas são complementares em algum aspecto? 

HFJ: A rigor, toda utopia em qualquer época busca a mesma coisa: superar um presente julgado deficiente imaginando no lugar um mundo supostamente melhor. Como cada época tem, é claro, seus próprios problemas, cada utopia sonha com soluções específicas. Mas se tomarmos um bloco civilizacional com características muito próximas, caso de sociedades pré-industriais como as vistas no livro, suas utopias serão assemelhadas, embora nas diferenças de enfoque ou na ênfase de certos aspectos encontremos material de reflexão histórica e antropológica muito rico.   

O que as diversas Cocanhas, dos mais variados países, têm de diferente? 

HFJ: Justamente a resposta específica ao contexto que reelabora o motivo literário ou iconográfico cocaniano. Por exemplo, a versão inglesa de fins do século XIII é obra de um franciscano que parodia os monges cistercienses, ou seja, o poema revela uma forte disputa ideológica entre uma religiosidade nova, urbana, laica (a dos franciscanos) frente a outra tradicional, rural, clerical (a dos cistercienses). Outro exemplo poderia ser uma gravura italiana de meados do século XVII, A Cocanha das Mulheres, que no plano imaginário inverte a misoginia que ainda predominava na Europa e extrapola o prestígio feminino maior no norte italiano que em outras regiões europeias.    

O que a Cocanha brasileira tem que outras não têm? 

HFJ: No essencial, nada. Nos detalhes, é uma adaptação do país imaginário (no folheto de cordel chamado País de São Saruê) às condições históricas do nordeste brasileiro. Por exemplo, enquanto os relatos europeus falam em riacho de vinho tinto e branco, o cantador paraíbano refere-se a açudes de vinho quinado; aqueles dizem que na Cocanha há árvores que produzem tortas e omeletes, este imagina o mato dando feijão.   

Por favor, explique brevemente a relação entre a Cocanha e o carnaval. 

HFJ: Podemos responder com a fórmula sintética e precisa de um historiador da cultura moderna, o inglês Peter Burke: “a Cocanha é uma visão da vida como um longo Carnaval, e o Carnaval é uma Cocanha passageira”.                                                                                                                             

 Cocanha  remete a um lugar utópico. Em tempos que parecem distópicos (quando há uma pandemia e parte da população insiste em negar a ciência; quando a crise econômica impede a abundância), qual a contribuição de um livro como este? 

HFJ: Espero que seja instigar a reflexão sobre os desejos humanos e seus limites, a comparação desses sonhos em épocas diversas do passado e no presente, e em especial a compreensão do relativismo inerente a todas as coisas humanas: a Cocanha é utopia para muitos, mas também é distopia para outros. Além disso tudo, também é possível ler  o livro como uma antologia literária, com peças do século XIII ao XX plenas de  alegoria, metáfora, ironia, humor.    

A Nebulosa: Poesia de Joaquim Manuel De Macedo

A seguir, o Blog da Ateliê reproduz o texto de Talvanes Faustino, que mantém o Blog do Pensar Poético, sobre “A Nebulosa”:

A edição de A Nebulosa de Joaquim Manuel De Macedo é aberta por um belíssimo ensaio introdutório da Drª Ângela Maria Gonçalves Da Costa, onde já nas primeiras linhas nos oferece um pouco da recepção calorosa, que o delicado, belo e escuro poema obteve no momento de sua primeira publicação; o Correio Mercantil apresenta o poema de Macedo, como o mais belo de todos os tempos modernos. Mais recente, Candinho disse talvez ser este o mais belo exemplar do poema-romance do romantismo brasileiro. Como veremos mais adiante, nem só de elogios viveu o poema de Macedo, agora, nos ocupemos de conhecer um pouco mais sobre o autor.

Joaquim Manuel De Macedo nasceu no dia de São João, à 24 de junho de 1820 em Itaboraí no Rio de Janeiro e foi um escritor brasileiro identificado com a escola romântica, seu livro de maior sucesso é A Moreninha, romance de 1844, a obra é até hoje, publicada e é de fácil acesso aos leitores brasileiros. Macedo, além de escrever romances e poesias, também têm obras nas áreas da dramaturgia e jornalismo.  Manuel faleceu no dia 11 de março de 1882, aos 61 anos.

Em A Nebulosa, único poema na obra de Joaquim, são trabalhados temas sensíveis mesmo nos dias atuais, o que eu imagino que entre um suspiro e outro, o que há de mais mórbido neste poema tenha passado desapercebido. O romantismo, especialmente o romantismo dos filiados ao mal do século, tem um gosto pelo macabro, e o poema de Macedo parece fazer um cortejo a este grupo de poetas, quando desde o começo, o leitor é inserido em uma atmosfera escura, mórbida, pesadamente triste e fortemente depressiva. A professora Ângela Maria diz que “esse canto fúnebre nos remete a uma existência além da vida, porém mais bela e essencial, um tema caro ao romantismo.”

Apesar desse, possível cortejo, o nome principal deste grupo de poetas que formam, aquilo que chamamos de “segunda geração romântica” o poeta Álvares de Azevedo, foi um crítico da obra ao dizer que faltou senso patriótico ao seu autor, pela ausência de cor local (COSTA, 2018, p. 15 na nota de rodapé) o que chama a atenção é que o autor que faz a crítica também tem uma obra com poucas cores brasileiras, aqui a professora Ângela faz a seguinte observação:

O poema-romance de Macedo talvez possa ser lido como resposta à acirrada polêmica entre Alencar e Gonçalves de Magalhães, com a participação do imperador, […] em torno do projeto de nacionalização da literatura e da possibilidade da elaboração de uma obra épica nacional. É portanto, importante refletir que A Nebulosa foi bem recebida pela crítica e pelo leitor brasileiro, pois vinha na contramão do debate que se colocava como central no momento político, cultural e literário da nação. Isso pressupõe uma concepção de literatura que abrange posturas distintas  e mesmo contraditórias, pois seguir os modelos europeus era considerado a um só tempo servilismo e exemplaridade. 

A Nebulosa, é um poema que narra um amor impossível, mas diferente do que pôde ser visto em Iracema de José de Alencar, onde o casal apaixonado era separado por mundos distintos. Neste poema o casal de protagonistas e separado pela vontade da própria mulher, que no leito de morte de sua mãe jurara não amar “jamais” e esta é a resposta que dá as investidas do seu homem ob… apaixonado. O que acabou sendo uma referência ao famoso poema de Edgar Allan Poe, “O Corvo” nele a ave carniceira responde somente uma coisa “nevermore”.  O poema ganha contornos do que nós, hoje, chamamos de comédia romântica quando é retirada a última bruma, que acaba por revelar, o último elo entre as personagens que formam o trio de protagonistas.

A Nebulosa é um poema belíssimo, com passagens que me fizeram, por vezes, suspirar e estreitar o livro entre minhas mãos. É um texto curto, que rapidamente pode ser lido. A edição tem muitas notas de rodapé que servem de muito bom apoio ao leitor, além disso, o texto introdutório da professora Ângela é muito esclarecedor. Recomendo efusivamente, e a todos boa leitura.

Literatura em movimento

Por: Renata de Albuquerque

Transpor obras literárias para o cinema é um assunto polêmico. As “adaptações” nem sempre são bem recebidas e muitos leitores apaixonados não economizam críticas ao que veem na tela. Só por isso, já é necessária uma dose de coragem para enfrentar um projeto como esse. No caso do diretor Luiz Fernando Carvalho, a coragem e a sensibilidade se refletem nas escolhas de transpor para as telas obras que não parecem “óbvias” para essa finalidade. De Machado de Assis (Capitu) a Ariano Suassuna (A Pedra do Reino), passando por Eça de Queirós (Os Maias), Carvalho levou à TV aberta uma estética apurada e inovadora, incomum nesse meio. No cinema (Lavoura Arcaica), sua arte se mostra aos espectadores como uma epifania estética que nos provoca a sair do “modo automático”. “A cada dia, se faz mais e mais necessário aos artistas se prepararem para resistir e reagir à hegemonia das regras de um padrão único, reivindicando modos próprios de ler e reler a literatura e o mundo”, acredita. 

Para Carvalho, a literatura é a origem que forma, com o cinema, um binômio fundamental. “Estamos falando sobre imaginação, o ato de imaginar, que é um direito civilizatório”, diz, aludindo a Antonio Candido em “O Direito à Literatura” (Vários Escritos).  Neste texto, Candido defende que ninguém pode viver sem literatura. “Não há povo e não há homem que possa viver sem ela, isto é, sem a possibilidade de entrar em contato com alguma espécie de fabulação”, afirma o crítico.  É bom lembrar que, para Candido, esse direito a poder estar em contato com (ou mesmo a criar) uma narrativa artística e ficcional não tem a ver com “alta cultura”: a fabulação pode ter como fonte tanto a TV quanto o romance, assim como qualquer outra expressão artística. 

Em sua trajetória como diretor de teledramaturgia, Carvalho dedica-se a oferecer ao espectador novas possibilidades narrativas a cada realização, onde reafirma a importância de dar voz ao que destoa, sublinhando o valor das diferenças para tentar desfazer a ideia de uma linguagem absoluta. “Além de excludente, o mercado é uma máquina de domesticação que insiste em conter arestas e identidades, transformando a multiplicidade em um ser único e obediente, consumidor silencioso daquilo que lhe é apresentado e pronto. Mas não! Somos todos muito singulares. Dar voz a essas diferenças, alimentar sonhos e desejos, ir além da visão burguesa do ‘macho-branco sempre no comando’, será a nossa salvação como artistas, mas, principalmente, como civilização.” – provoca o diretor, que, em sua próxima obra, se debruça sobre uma literatura que expõe a falência do modelo patriarcal burguês através de uma mulher em crise após sua ruptura amorosa.

Clarice

Carvalho finaliza o filme “A Paixão Segundo G.H.”, transcriação para as telas do romance de Clarice Lispector lançado em 1964. Se a pandemia não o tivesse impedido, o filme – que tem Maria Fernanda Cândido no papel de G.H. – teria sido lançado no ano em que se comemorou o centenário da escritora. Na obra, G.H. é uma escultora bem sucedida da burguesia carioca que, após demitir a empregada, decide arrumar ela mesma a casa começando pela “calda” do apartamento: o quarto de empregada. Lá, se depara com o inseto repugnante: uma barata. Refém de seus fantasmas moralizantes, G.H. é arrastada para dentro de um universo desconhecido e que a leva a descobertas metafísicas após confrontar-se consigo mesma.

Na nota de abertura, Clarice Lispector escreve que, apesar de ser “um livro qualquer”, ficaria feliz se ele fosse lido apenas por leitores de “alma já formada”: que sabem que a aproximação de algo se dá de maneira penosa. Para Luiz Fernando Carvalho, A Paixão Segundo G.H. traça um diálogo intenso com seu filme anterior, Lavoura Arcaica (Raduan Nassar). Tanto um quanto o outro são experiências estéticas elaboradas a partir da literatura, negando radicalmente a intermediação de um roteiro adaptado.    

Talvez por isso, além do filme A Paixão Segundo G.H., o diretor vai lançar, como aconteceu em Lavoura Arcaica, um livro sobre o filme. Ainda que não sejam livros de natureza semelhante, ambos podem ser entendidos como um desdobramento do diálogo entre literatura e cinema, que reunirá ensaios de especialistas a respeito da obra cinematográfica e seu cruzamento com o romance de Clarice Lispector. Entre os nomes confirmados para a edição, que será publicada pela Ateliê Editorial, estão, entre outros, a professora de literatura e biógrafa Nádia Battella Gotlib, o professor de cinema Ismail Xavier, a escritora Marilene Felinto e o psicanalista Renato Tardivo. A organização é da autora e pesquisadora Ilana Feldman. No ano em que se comemoram os vinte anos da estreia do filme Lavoura Arcaica e da exibição de Os Maias (que estará disponível no Globoplay), Luiz Fernando Carvalho continua transpondo para as telas obras que nos libertam e ao mesmo tempo instigam espectadores de “alma já formada”.   

Poesia: seleta de poemas do livro Pequeno Palco

Março é o mês da poesia: dia 14, temos o Dia Nacional da Poesia e, uma semana depois, no dia 21, é o Dia Internacional da Poesia. Por isso, a Ateliê não poderia deixar de celebrar as datas e, neste ano, nosso presente para você são alguns textos escolhidos de Pequeno Palco, o novo livro de Ricardo Lima, que também é autor de Desconhecer e Pétala de Lamparina. Este é o sétimo livro de Ricardo, que trata de temas como a infância, a morte e o amor, entre outros e que tem ilustrações de Lygia Eluf. A seguir, você acompanha alguns textos do livro:

Poemas

todos de um certo modo
cavam um pequeno palco
em algum momento da vida


não serve pra nada
não aumenta nem diminui
não prega a paz nem dá um tiro


no circo do trabalho
no almoço em família
ou no botequim


em algum lugar sem a menor importância
cava-se o pequeno palco

lá somos os mais ridículos
no nosso pequeno palco
somos piores do que somos.

enquanto o sonho queima os olhos
no ar um gato mia em colo distante


a alegria da louça lavada
e enxuta no calor da tarde


o sol respinga na toalha
de uma mesa lisa
estreita
sem história

uma cortina
ainda sem cor.

a luz que amanhece sem voz é baça
névoa e dura
como dores musculares misturadas com angústia


uma manhã sem sol precisa de perícia
para saber quem colocou música tão alta
no poço do elevador


quem prendeu e quem mandou soltar
a triste rotina da estatística
as tantas mortes mordidas por tiro
e no poder um abençoado por deus.

ter tanto a preservar
quanto a amazônia
tem de mata e de medo
tem de longe e de dentro de mim


aquele com a dor queimado
conhece a chuva que não vai chegar

na contramão
o que desconhece o destino
do barco na descida
não sabe sequer usar os remos.

Ficou com vontade de ler mais?