Leitura

Março é mês de poesia!

Quem ama ler, lembra: março é mês da poesia. Mas você sabe por quê o terceiro mês do ano é considerado o mais poético deles? A razão é que em março são comemoradas duas datas tradicionalmente ligadas à poesia. Até 2015, no dia 14, era comemorado o Dia Nacional da Poesia. E, até hoje, o dia 21 de março é o Dia Mundial da Poesia.

Foi em 1999 que a XXX Conferência Geral da UNESCO determinou que 21 de março fosse considerado o Dia Mundial da Poesia, em uma ação para apoiar a diversidade de línguas existentes no mundo por meio da expressão poética.  Desde então, a data é celebrada pelo mundo afora.

Já o dia 14 de março é a data de aniversário de Castro Alves, poeta romântico brasileiro, nascido em 1847, muito conhecido por sua produção poética ligada a temas como o abolicionismo e crítica social, que marcaram a Terceira Geração do Romantismo Brasileiro. Para o crítico Afrânio Peixoto, ele foi “o maior poeta brasileiro, lírico e épico”, o que por si só já justificaria a escolha da data. Castro Alves escreveu, entre outros, Espumas Flutuantes, sua obra lírica mais significativa. Entretanto, em 2015, foi sancionada a Lei 13.131, que institui como 31 de outubro o Dia Nacional da Poesia, em homenagem à data de nascimento de Carlos Drummond de Andrade.

Qualquer que seja a data, entretanto, de uma coisa a gente tem certeza: poesia é fundamental para a vida. Por isso, hoje, fazemos uma seleta de poemas aqui, no Blog da Ateliê:

O “adeus” de Teresa

A vez primeira que eu fitei Teresa,

Como as plantas que arrasta a correnteza,

A valsa nos levou nos giros seus

E amamos juntos E depois na sala

“Adeus” eu disse-lhe a tremer co’a fala


E ela, corando, murmurou-me: “adeus.”

Uma noite entreabriu-se um reposteiro. . .

E da alcova saía um cavaleiro

Inda beijando uma mulher sem véus

Era eu Era a pálida Teresa!

“Adeus” lhe disse conservando-a presa


E ela entre beijos murmurou-me: “adeus!”



Passaram tempos sec’los de delírio

Prazeres divinais gozos do Empíreo

… Mas um dia volvi aos lares meus.

Partindo eu disse – “Voltarei! descansa!. . . “

Ela, chorando mais que uma criança,



Ela em soluços murmurou-me: “adeus!”


Quando voltei era o palácio em festa!

E a voz d’Ela e de um homem lá na orquesta

Preenchiam de amor o azul dos céus.

Entrei! Ela me olhou branca surpresa!

Foi a última vez que eu vi Teresa!


E ela arquejando murmurou-me: “adeus!”

Castro Alves, Espumas Flutuantes

Livro Viva Vaia

DIÁLOGO A DOIS

“A Angústia, Augusto, esse leão de areia…”

(Décio Pignatari)

– A Angústia, Augusto, esse leão de areia Que se abebera em tuas mãos de tuas mãos E que desdenha a fronte que lhe ofertas

(Em tuas mãos de tuas mãos por tuas mãos)

E há de chegar paciente ao nervo dos teus olhos, É o Morto que se fecha em tua pele?

O Expulso do teu corpo no teu corpo? A Pedra que se rompe dos teus pulsos? A Areia areia apenas mais o vento?

– A Angústia, Pignatari, Oleiro de Ouro, Esse leão de areia digo este leão

(Ah! o longo olhar sereno em que nos empenhamos, Que é como se eu me estrangulasse com os olhos)

De sangue:

Eu mesmo, além do espelho.

Augusto de Campos, Viva Vaia

ESPELHAR

espelho espelho meu

existe alguém mais

eu

do que

eu

?

Luci Collin, Antologia Poética 1984-2018

III

era o dia em que o sol escurecia pesaroso da morte do Senhor,

quando sem dar por mim, sem nem supor,

teu belo olhar, Senhora, me prendia.

inútil precaver-me parecia

e, desatento aos golpes de amor, segui, de mim seguro: e minha dor

na dor universal assim nascia.

achou-me amor de todo desarmado, aberta a via dos olhos até o peito,

tornado pelas lágrimas num charco.

não parece ter sido grande feito

ferir-me amor com flecha nesse estado

e a ti armada nem mostrar o arco.

Petrarca, Cancioneiro

CIRCE

Porque eu os amava

me encerraram aqui

nesta ilha

neste corpo

Transformo-os

no seu melhor

mas não posso beber

do meu próprio veneno

Por anos esperei

no topo deste penhasco

Ele não voltou:

ensinem-me algo do seu mundo

que eu ainda não saiba

Leila Guenther, Viagem a Um Deserto Interior

Morada

Voltei a escrever para ti

agora que me esqueceste

no intuito de regressar

à esperança que aí me levou,

onde já não moras.

Paulo Lopes Lourenço, Cinematografia

Sem Título

Ser poeta é viver em permanente estado

de(s)atenção

Que importa a luz acesa

a porta aberta

o leite derramando

no fogão?

(mas

o gotejar da torneira:

pulsação)

Marise Hansen, Porta-retratos

Fala D João  3

mais  de pessoa sabe

quem  de peçonha sabe

mocho  a noite  cobreavas

espertando os olhos  da coruja

em pedra  avoenga

meu  gume  afiara

à alva  a cabeça

Évora verá

Hélio Cabral, Fala D. João

Leia mais poesia

Escritoras de livros: literatura para além do Dia Internacional da Mulher

8 de março é Dia Internacional da Mulher. O significado desse dia tem mudado muito, conforme percebemos que as mulheres não precisam (nem devem) ser segregadas como algo à parte da sociedade. Não se trata de comemorar, mas de marcar a importância de promover direitos e igualdade entre homens e mulheres.

Em uma sociedade machista e patriarcal, durante séculos a mulher foi silenciada e colocada em um papel de subserviência. Muitas vezes, restava a elas apenas se expressar em cartas a familiares ou parentes; cartas que muitas vezes nem mesmo chegavam aos seus destinos. Os diários também são um importante documento histórico dessa realidade e, assim, escrever passa a ser uma atividade “consentida” às mulheres, ainda que, mesmo hoje em dia, se nos propusermos a fazer uma lista dos escritores que conhecemos, provavelmente o número de homens será bem maior que o de mulheres. É por isso que hoje o Blog Ateliê se dedica a mostrar alguns dos títulos publicados pela editora que foram escritos por mulheres. Acompanhe:

Antologia Poética – Luci Collin

Esta coedição com a Kotter reúne poemas escritos entre 1984 e 2018. A autora é ensaísta, ficcionista, poeta. Tradutora, professora universitária de Literaturas e Língua Inglesa, bacharel em música (piano e percussão Clássica). Leitora de Jorge de Lima e T.S.Elliot, entre muitos outros. Essa é uma pequena amostra de tudo o que interessa a Luci Collin,  que começou a publicar poesia aos 17 anos e segue, ainda hoje, trazendo sua produção ao público. 

Yaser – Eda Nagayama

Um livro que nasceu da experiência vivida com pessoas, em uma paisagem de guerra. Assim é Yaser, de Eda Nagayama, que alinhava com o fio da ficção a dura realidade da Palestina dos dias de hoje. Eda, que é escritora e atriz paulistana, doutoranda em Estudos Literários (FFLCH/USP), foi voluntária na Palestina, onde se sentia “inimiga por extensão”. Para contar sua experiência, escreveu Yaser. “A escrita nasceu assim dessa necessidade de dar voz e visibilidade ao que vi, ouvi e testemunhei, de responder à minha própria ferida. Não sou uma ativista e minha maneira de agir foi através da palavra – gestada na solidão, povoada por essas pessoas, por Yaser e sua família em especial”, explica a autora.

Casas Importadoras de Santos e seus Agentes

Casas Importadoras de Santos e seus Agentes – Carina Marcondes Ferreira Pedro

A obra de Carina Marcondes Ferreira Pedro originou-se de uma preocupação em melhor compreender os fluxos de importação de bens de consumo – de objetos domésticos a materiais de construção, de “chita até locomotiva” – que caracterizaram o processo de internacionalização das últimas décadas do século XIX. A opção de pesquisa foi “colocar-se” bem junto à sua entrada na Província, depois Estado de São Paulo, no Porto de Santos. As casas importadoras, que se instalavam estrategicamente nas imediações do Porto, constituíram o “posto de observação” da autora. A ação de seus agentes importadores, o fio condutor que a levou pelos caminhos percorridos. 

Paulinho da Viola e o Elogio do Amor – Eliete Eça Negreiros

O livro apresenta uma reflexão sobre a representação do amor na obra do compositor e sua inscrição no âmbito da tradição do pensamento e da lírica ocidental. Através das canções criadas e cantadas por ele, a autora revisita poetas e pensadores como Safo, Platão, Aristóteles, Montaigne, Freud, Walter Benjamin e Octavio Paz.
Eliete destaca três modalidades do amor na lírica violiniana: o amor breve, o amor melancólico e o amor feliz e vê no aspecto meditativo das canções uma espécie de educação sentimental na medida em que Paulinho da Viola descreve e reflete sobre os estados de apaixonamento.

Viagem a um Deserto Interior – Leila Guenther

“Se a arte não parece ter gênero, as experiências o têm: chegam aos poemas de nossos dias vozes marcadas por um espanto de vida a um tempo estoico e dilacerado, ressurgido de incêndios, vingando um calar histórico. Urro e desprezo podem acalantar a criatura ofendida, as inquietudes podem se abrigar numa forma zen, a paisagem contemplada pode guardar uma guerra dentro. São forças da voz de Leila Guenther, que movem quem a ouça”, escreve Alcides Villaça sobre o livro. 

O Quarto Livro dos Fatos e Ditos Heroicos do Bom Pantagruel

O Quarto Livro dos Fatos e Ditos Heroicos do Bom Pantagruel – Élide Valarine Oliver (trad)

O Quarto Livro dos Fatos e Ditos Heroicos do Bom Pantagruel, o mais radicalmente satírico de toda a obra de Rabelais, reflete, na história de sua publicação, os perigos aos quais o próprio Rabelais se expôs, no fim da vida. Uma primeira edição parcial foi publicada em 1548, em Lyon. Em 1552, sai a edição definitiva, em Paris. Ao mesmo tempo, correm boatos de que Rabelais havia sido levado “acorrentado” à prisão. Nada se prova, mas o famoso médico e escritor desaparece, e morrerá, em circunstâncias desconhecidas, no ano seguinte. Teria presumíveis 70 anos, ou talvez mesmo 59. O livro tem como pressuposto continuar as aventuras do Terceiro Livro, onde Panurge busca resolver a dúvida se deve casar-se ou não.

Silêncios no Escuro – Maria Viana

O primeiro livro que Maria Viana escreveu para adultos quase chegou à maioridade antes de seu publicado. Passaram-se 17 anos desde que a autora mineira – que escreve livros infantis e didáticos e organizou diversas antologias – escreveu o conto que dá título ao volume. A autora relata que só se deu conta de que a morte e o silêncio são os fios condutores de todos os contos do livro Silêncios no Escuro depois de tê-los reunidos. Personagens que não falam habitam histórias que os levam de um extremo a outro (morte e vida; tristeza e alegria), costuradas por uma narrativa escrita por alguém que se define como uma leitora voraz que gosta de “contar histórias”.

“A Relíquia”, de Eça de Queirós: humor e ironia em um clássico realista

Por Renata de Albuquerque*

Um romance realista cheio de ironia, humor e com um toque de cinismo. Assim é A Relíquia, romance de Eça de Queirós, publicado em 1887 em Portugal. O livro é narrado por Teodorico Raposo (Raposão), órfão de pai e mãe que, ainda criança, vai morar com sua tia, Dona Maria do Patrocínio (Titi), uma senhora beata, avara e casta. É ela quem controla a fortuna que o sobrinho herdará, no futuro.

As características da tia do narrador não são colocadas por acaso pelo autor. Eça de Queirós foi integrante da chamada Geração de 70 de Portugal, um grupo de artistas e intelectuais que desejava a renovação da  vida política e cultural portuguesa, que consideravam decadente. A obra Causas da decadência dos Povos Peninsulares nos últimos três séculos, de Antero de Quental, componente do grupo, propõe que são três os elementos que levam ao atraso científico e industrial e à decadência moral, econômica e social: o catolicismo, a monarquia absolutista e as conquistas ultramarinas. Em A Relíquia, Eça de Queirós lança mão de uma personagem beata para criticar a igreja católica e a sociedade portuguesa de então.

Enredo

A Relíquia narra as memórias de Teodorico Raposo, órfão cuja mãe morreu no dia seguinte ao parto (um sábado de aleluia) e que, por parte de pai, era neto de padre.  Tudo é contado com um forte tom de ironia. Por isso, o que está posto no romance deve ser lido com uma certa desconfiança do leitor. Graças a este recurso, a obra é uma leitura que agrada e diverte o leitor, pelo humor ácido e pelo cinismo. Teodorico narra as desventuras de viver com a tia e também suas aventuras em uma peregrinação à Terra Santa – viagem que Raposo realiza porque a tia não concordara em enviá-lo a Paris, cidade que Dona Maria do Patrocínio considerava um berço de vício e perdição. Titi pede ao sobrinho que lhe traga uma relíquia de Jerusalém.    

Na Terra Santa, Teodorico passa por uma experiência fantástica. Ele assiste pessoalmente a todo o sofrimento de Jesus Cristo e descobre que, em vez de ressuscitar, ele morreu de fato. Por causa deste episódio, muitos críticos acreditam que o romance fuja um pouco do realismo. Mas, no decorrer da trama, o realismo está fortemente presente.

Obviamente, entretanto, Teodorico não deixa de viver aventuras, ainda que em Jerusalém. Lá ele conhece Miss Mary, com quem tem um romance. Quando se separam, ela lhe dá como lembrança sua camisola, embrulhada em um pacote.

Para honrar a promessa que fez à tia – de trazer-lhe uma relíquia da Terra Santa – Teodorico trança uma falsa coroa de espinhos, que embrulha, de presente para Dona Maria do Patrocínio.

O narrador encontra, em seu caminho, uma mendiga e dá a ela a camisola de Miss Mary. Mas, em vez disso, confunde os pacotes e entrega-lhe a falsa coroa de espinhos. Ao voltar ao Brasil, entrega a camisola à tia que, então, deserda-o. Teodorico lamenta não ter convencido a tia de que aquela seria a camisola de Maria Madalena. Então, começa a vender “relíquias” de Jerusalém, que ele mesmo fabrica, mas o negócio declina com o tempo.

No final, Teodorico Raposo casa-se, torna-se pai e recebe a comenda de Cristo, sem, mesmo assim, deixar de pensar que poderia ter feito fortuna se tivesse dito uma mentira convincente  à tia beata.

Conheça outros títulos da Coleção Clássicos Ateliê


 
*Jornalista, Mestre em Literatura Brasileira pela FFLCH/USP, autora da Dissertação Senhoras de Si: o Querer e o Poder de Personagens Femininas nos Primeiros Contos de Machado de Assis.

Ano novo, livro novo: Novos títulos e reedições Ateliê

O novo ano acabou de chegar, mas que ama ler já fez ou está fazendo a lista de leituras de 2019. E você, o que planeja ler em 2019? Novidades, clássicos, autores nacionais ou estrangeiros?

Para muita gente, um clássico é uma grande novidade. Por isso, relançamentos de títulos são sempre bem vindos para que os novos leitores possam encontrar livros que muitos já consideram essenciais. Por isso, neste ano, a Ateliê vai lançar títulos novos e relançar títulos de sucesso, todos feitos com o mesmo carinho de sempre, perfeitos para os leitores que amam edições bem cuidadas que valorizam o texto sem deixar de privilegiar um lindo projeto editorial. Confira:

 

O Tempo Vivo da Memória – Ensaios de Psicologia Social, de Ecléa Bosi, acaba de ser reeditado. A autora torna atuais as ideias de pensadores como Bergson, Benjamin, Gandhi e Simone Weil, e convida o leitor a dialogar sobre o que a memória recupera, redime e inspira. Dentro dessa perspectiva, os clássicos ajudam a compreender o cotidiano das metrópoles de hoje, com suas contradições entre lembrança e esquecimento.

 

Preservação do Patrimônio Arquitetônico da Industrialização, De Beatriz Mugayar Kühl, também está voltando às prateleiras, devido à sua importância para os pesquisadores da área. O livro traz a releitura crítica de algumas teorias, de modo a conciliá-las às circunstâncias atuais e guiar as intervenções concretas nesses bens. O texto aprofunda, especificamente, algumas questões sobre a restauração do patrimônio industrial. Assim, a autora busca superar certas lacunas conceituais nos atuais debates sobre preservação no Brasil.

Michelângelo – Cinquenta Poemas, traduzido por Mauro Gama, traz textos de um dos maiores gênios da humanidade, em função de suas pinturas e esculturas. Poucos sabem, no entanto, que ele encontrou na poesia um modo de dar vida àquilo que só as palavras podem expressar. Neste livro, o escritor e crítico literário Mauro Gama traduz 50 poemas do artista renascentista para o português da mesma época. O propósito foi estabelecer uma analogia entre o contexto histórico do original italiano e a cultura lusófona do período.

Fragmentos do Narciso e Outros Poemas, traduzido por Júlio Castañon Guimarães, é uma coletânea composta pela tradução de poemas extraídos dos dois principais conjuntos poéticos de Paul Valéry, o Album de vers Anciens (1920) e Charmes (1922), de modo a mostrar diferentes momentos e centros de atenção de sua poesia. Ao se adotar para este conjunto o título de um dos poemas, Fragmentos do Narciso, chama-se a atenção para a tensão entre realidade, imaginação e discurso que percorre toda a obra poética e crítica de Valéry.

Olho Imóvel Pela Força da Harmonia, de William Wordsworth, é uma  coletânea cujos poemas extraem de vivências banais uma dimensão sublime e uma contemplação da ordem do mundo. Com esta edição bilíngue, soma-se ao virtuosismo técnico do poeta a sensibilidade estética das traduções de Alberto Marsicano e John Milton. Wordsworth  é um dos maiores expoentes do romantismo inglês. Sua obra, dotada de uma notável visualidade cinematográfica, influenciou nomes importantes do modernismo, como Fernando Pessoa.

Velhos Amigos, de Ecléa Bosi, traz pequenas narrativas sobre as lembranças de velhos operários, imigrantes e outros personagens anônimos da vida brasileira. As histórias, que se colocam entre o conto e a crônica, tratam de episódios de amigos e família, em tom bem humorado.  A apresentação do livro é de Adélia Prado e as ilustrações, de Odilon Moraes.

O Pai, de Dirce de Assis Cavalcanti, conta, pelos olhos da filha do cadete Dilermano de Assis – assassino de Euclides da Cunha –, como a autora descobriu sua história familiar. Pelos olhos de criança e depois adolescente, seguimos a dolorosa tomada de consciência de ser “a filha do assassino”. No decorrer do depoimento, acompanhamos como ela perdeu e recuperou a estima pelo pai, protagonista da tragédia. Neste ano em que Euclides da Cunha é o homenageado da FLIP, saber mais sobre essa história é uma boa pedida de leitura!

 

 

Euclides da Cunha: Uma Odisseia nos Trópicos, de Frederic Amory, abandona os mitos e dá destaque ao gênio sem separá-lo de suas misérias. O autor dedicou-se como poucos a entender a personalidade e as ideias do autor de Os Sertões. Para isso ele confrontou, de modo rigoroso e objetivo, as problemáticas fontes de informação sobre o escritor. Esta biografia aprofunda e esclarece aspectos da vida e da obra de Euclides da Cunha até então pouco estudados. Outro livro fundamental para quem quer ficar por dentro de tudo o que acontecerá na FLIP!

Nós e as Palavras: textos sobre literatura portuguesa despertam interesse de leitores e professores

Levar a reflexão literária da academia ao leitor de literatura. Esta é a ambição de Nós e as Palavras, organizado pelos professores Patrícia Cardoso, presidente da ABRAPLIP – Associação Brasileira de Professores de Literatura Portuguesa – e Luís Bueno (autor de Capas de Santa Rosa). O livro, que surgiu a partir da proposta temática do XXVI Congresso Internacional  da ABRALIP, reúne textos de vários autores sobre o ensino de literatura portuguesa, a obra de autores portugueses e a circulação da literatura portuguesa em outros países. A seguir, os organizadores falam sobre a obra ao Blog da Ateliê:

Como surgiu a ideia de reunir em livro as reflexões oriundas do Congresso da Abralip? 

Resposta: A ideia de publicar os textos apresentados pode-se dizer que é natural. O objetivo de um Congresso é apresentar novas abordagens e ampliar o debate. E essa ampliação só ocorre de fato quando se olha para um público maior do que aquele que pôde estar no congresso, seja o público acadêmico, dedicado à área, seja um público mais amplo, de interessados e leitores em geral.

Qual a importância dessa compilação, em sua opinião?

R: A publicação desta coletânea faz parte do esforço de manter o debate vivo. São as novas abordagens, as descobertas críticas, as reflexões sobre o passado que permitem que a crítica e o pensamento se renovem. E se, como acontece neste Nós e as Palavras, reúnem-se reflexões diversas, com perspectivas diferentes, ainda é melhor. É mais uma ação de pensar a literatura portuguesa no Brasil, o que significa pensar a constituição cultural do Brasil e sua integração nesse universo tão amplo como é o da lusofonia.

 

Em sua opinião, o livro é destinado apenas a pesquisadores da área ou pode atrair o público leigo? Neste caso, o que este público pode encontrar que o interesse no livro?

R: O livro busca interessar um público que não seja apenas o de especialistas. A reflexão sobre literatura, de maneira geral, tem sempre a ambição de chegar ao leitor de literatura, de não ficar restrita aos estudiosos. No caso deste livro, há vários elementos por meio dos quais se procura atingir esse objetivo. É assim que nele o interessado irá encontrar uma grande variedade de temas. Há textos que tratam de questões importantes da literatura portuguesa, como a literatura medieval, as obras do Padre Vieira, de Camilo Castelo Branco, Eça de Queirós, Fernando Pessoa, Agustina Bessa-Luís, literatura contemporânea e literatura infantil, por exemplo. Mas também há toda uma sessão dedicada ao ensino de literatura em geral e de literatura portuguesa especificamente, assim como um conjunto de reflexões sobre a circulação da literatura portuguesa em outros países. Um outro elemento que enriquece o livro e pode despertar o interesse é o fato de ele trazer a experiência não apenas de professores que atuam no Brasil, mas também de colegas que atuam em outros contextos, como França, Itália, Suécia e Portugal.

 

Eça de Queirós

A questão do “tudo está dito”, que permeia o volume, se por um lado pode sugerir que não há mais nada a ser dito, por outro abre caminhos e possibilidades de reinterpretação; de lançar um novo olhar sobre o que já está posto. Como esta questão é tratada no livro?

R: O livro explora o grande desafio da crítica literária como uma prática reflexiva que sistematicamente se depara com abordagens canônicas as quais, ao mesmo tempo que servem de referência, constituem verdadeiros empecilhos para que novos olhares se lancem sobre os objetos de estudo. Assim, escritos por estudiosos com orientações acadêmicas diversas, os artigos que integram Nós e as Palavras são bons exemplos de exercícios de crítica literária que buscam lançar olhares renovados sobre temas e autores de grande representatividade.

 

De que maneira o Brasil lê literatura portuguesa hoje? Que implicações culturais há nesta leitura?

R: De um modo geral, a consolidação da produção literária brasileira, associada a um discurso de defesa de uma completa autonomia do Brasil em relação à matriz portuguesa, fez decrescer no nosso país o interesse pela literatura produzida em Portugal. Portanto, aquele espírito de autonomia orientou um processo que acabou por levar não apenas os leitores mas os próprios escritores ao desconhecimento de autores e temas antes intrinsecamente ligados ao contexto brasileiro de produção, como é o caso de Camões, do padre António Vieira, de Camilo Castelo Branco e Eça de Queirós, entre tantos outros cujas obras contam-se entre as melhores produzidas no mundo. Trata-se, portanto, de uma perda no conhecimento de um repertório que muito contribui para compreender-se a própria cultura brasileira, o que  nela está em relação com a cultura portuguesa, a qual por razões históricas teve um papel determinante na formação da consciência literária entre nós. Os brasileiros foram-se distanciando de Portugal como essa matriz cultural. A prova de que a ignorância desses vínculos não representou seu efetivo apagamento é o que vem acontecendo nos últimos anos: no momento em que o país do fado transformou-se em destino turístico internacional, é com uma surpresa positiva que os brasileiros que o visitam ali se reconheçam. Este livro pretende contribuir para a consolidação desse reconhecimento de uma frutífera relação cultural através da literatura.

Quais são os principais “achados”, as novidades que este volume traz ao leitor? De que maneira sua leitura pode enriquecer o trabalho de professores da área de literatura (em geral)?  

R: O achado do livro é o próprio livro, como esforço de mapeamento da literatura portuguesa a partir de perspectivas variadas, de modo que a sua leitura se faça sem uma orientação fechada, restritiva. É a estratégia ideal para atrair tanto os que já conhecem os temas e autores abordados quanto aqueles que iniciam o percurso por essa literatura.

Leitura de Autores na Biblioteca Brasiliana

Imagine poder encontrar-se com seu autor predileto, em pessoa, e descobrir o que o fez tornar-se escritor. É esse encontro que o projeto “Leitura de Autores”, da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin (BBM) promove, mensalmente, desde o mês de setembro.

José Ramos de Paula, que participa do evento

A ideia do projeto, coordenado pelos professores da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP Plinio Martins Filho e Jean Pierre Chauvin é trazer autores para falarem aos leitores de suas experiências de leitura, como elas influenciaram em seu desenvolvimento pessoal e como, a partir delas, puderam tornar-se autores. Isso porque a leitura é a atividade fundamental que move uma biblioteca, que influencia o desenvolvimento das pessoas e que era uma “obsessão para Mindlin”, como lembra Martins.

Segundo a apresentação do projeto, “o evento visa a estimular o encontro de profissionais da palavra (em verso e prosa) com aqueles que já são aficionados por literatura, mas também leitores em potencial: alunos, pesquisadores, professores, escritores amadores etc.”.

Nesta primeira edição, já foram convidados Marcelino Freire (autor de “Angu de Sangue”, “Era O Dito” e “BaléRalé”, entre outros); Rodrigo Lacerda (“O Mistério do Leão Rampante”; “Tripé”) e Veronica Stigger (“Sul”; “Os Anões”).

Ainda em novembro acontece o último encontro de 2018, com o professor e poeta José de Paula Ramos Jr, responsável pela Coleção Clássicos Ateliê.

As inscrições para o projeto “Leitura de Autores” são gratuitas e podem ser feitas pelo e-mail bbm@usp.br.

Coleção Estudos Literários Ateliê: títulos que explicam o que está por trás da literatura

Trazer a produção acadêmica às mãos do público leitor. Esta talvez seja a maneira mais objetiva de explicar a razão pela qual a Coleção Estudos Literários da Ateliê foi criada, há quase duas décadas. É bastante comum que a produção acadêmica não consiga chegar ao leitor mais interessado em saber o que está para além daquilo que ele lê nos títulos mais importantes da literatura mundial: as influências de cada autor, a interpretação de cada obra, o significado de cada personagem.

O terreno dos estudos literários é fértil para unir campos distintos de conhecimento, como literatura, cinema, psicanálise, filosofia e tradução. Por isso, a Ateliê tem mais de cinquenta títulos deste selo, muitos deles publicados com o apoio da FAPESP – Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo.

São títulos variados, como Escritas do Desejo – Crítica Literária e Psicanálise, organizado por Yudith Rosenbaum e Cleusa Rios P. Passos. O livro reúne onze textos que propõe modos distintos de ler as relações críticas entre os dois campos, reafirmando, na esteira de Freud e Lacan, a “dimensão da subjetividade humana” na obra literária.

Outros títulos são dedicados à obra de um artista em especial, como é o caso de Olga Savary – Erotismo e Paixão, escrito por Marleine Paula Marcondes e Ferreira de Toledo. Ela se debruça sobre a obra savaryana priorizando dois de seus traços fundamentais: o erotismo e o patriotismo. A análise teve a colaboração da própria poeta, que concedeu entrevistas, participou de debates e disponibilizou depoimentos dados à imprensa nacional e estrangeira.

Cabo Verde – Literatura em Chão de Cultura, de Simone Caputo Gomes, enfoca a literatura do país e  as relações entre a literatura cabo-verdiana e a cultura crioula; e o diálogo entre essa literatura e outras artes, como a música, a pintura e a escultura.

Há também títulos que aproximam cinema e literatura, como Porvir que Vem Antes de Tudo – Literatura e Cinema em Lavoura Arcaica, de Renato Tardivo. No volume, o autor explica como livro (1975) e filme (2001) compõem um jogo peculiar de identidade e diferença.

 

 

Para que todo esse conhecimento não fique restrito a um círculo específico de pessoas dentro das universidades, os trabalhos acadêmicos ganham uma edição cuidadosa e um belo projeto gráfico para que levem um conteúdo rico, de maneira agradável, aos leitores. Assim, a coleção dá espaço à nova geração de pesquisadores brasileiros e permite o conhecimento de ideias originais e contemporâneas.

Conheça a Coleção Estudos Literários

 

Feliz Dia dos Professores

Essas figuras fazem parte do nosso dia a dia durante toda nossa infância e adolescência; elas nos ensinam ferramentas poderosas, como a leitura e a visão crítica; transmitem conhecimento formal que levaremos para a vida toda. Por isso, desejar “Feliz Dia dos Professores” é mais que uma homenagem protocolar; é algo que cada cidadão deveria fazer com sinceridade e gratidão.

Mas, o que seria de um professor sem livros, se são eles que oferecem a base do conhecimento que ele tão generosamente compartilha?  São os professores que nos incentivam a ler clássicos, a praticar cálculo em exercícios complexos, a entender a organização das células e dos planetas.

Mas, se nós lemos por estímulo deles – e com isso aprendemos tanto – a pergunta é: e eles, o que leem?

Neste ano, esta foi a pergunta que o Blog da Ateliê fez a dois professores para que, mais do que oferecer dicas de leitura, eles pudessem compartilhar suas experiências com outros professores, leitores do Blog.

 

Teoria e ficção

De títulos de ficção aos teóricos, a lista de “o que ler” fica maior a cada dia que passa para qualquer professor que queira se manter atualizado. Mas quais são os livros que merecem ser lidos e relidos?

Ayrthon Breder, graduado em Letras pela PUC-Rio e mestrando em Linguística pela mesma universidade, é professor voluntário de Redação no NEAd (Núcleo de Educação de Adultos/PUC-Rio) com aulas. “O principal livro fonte de minhas aulas de redação para alunos do ENEM é A arte de argumentar: gerenciando razão e emoção. Acredito que um bom professor ensina seus alunos a opinarem, a se colocarem presentes face às diversas situações da vida. A argumentação é importante nessa tarefa, pois ajuda o aluno, não só a discursar com mais propriedade, como também a ser um ouvinte crítico”, explica.

 

 

Já Sávio Lima Lopes, que além de professor do curso de Administração é também graduando em Letras, lembra que a ficção também pode ser usada em sala de aula. “No curso de Recursos Humanos, na aula de Comunicação Empresarial, li o conto “O caso da menina”, que está no livro Angu de Sangue. O objetivo era exemplificar ritmo e entonação das palavras, logo quando começamos a estudar prosódia Já é o terceiro livro do Marcelino Freire que leio”, afirma.

Mas, como também é aluno, ele completa: “Na graduação em Letras meu companheiro inseparável, tem sido Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, E que edição maravilhosa: ilustrada, com um ensaio incrível do Antônio Medina Rodrigues”, conclui.

A seguir, o Blog da Ateliê faz uma seleção para professor nenhum colocar defeito! Feliz Dia dos Professores!

Gramática Integral da Língua Portuguesa

Esta gramática se destina a todos aqueles que gostariam de conhecer melhor a maneira como funciona a língua portuguesa e resolver dúvidas sobre concordância, regência, ortografia, colocação etc., por meio de respostas simples, escritas em linguagem clara, despidas de complicações ou erudições. Por isso, esta gramática é útil tanto para alunos do ensino fundamental e médio quanto para quem cursa ou já cursou universidade e quer ter segurança ao escrever um e-mail, um relatório, uma apresentação, uma tese acadêmica, uma petição ou até mesmo um livro de ficção.

 

Sonetos de Camões

O desejo de plenitude amorosa, as dificuldades existenciais e a injustiça dos homens estão entre os grandes temas do Renascimento presentes na lírica de Camões. Ricos em antíteses e metáforas, seus sonetos estão entre as mais belas expressões literárias da língua portuguesa. A voz reflexiva que se ergue desses versos produz a elevação do espírito e o entusiasmo verbal. Esta edição traz os poemas mais representativos do acervo camoniano, comentados por dois experientes pr

ofessores de Literatura.

 

 

História da Língua Portuguesa

Esta coletânea traça, em detalhes, o percurso histórico da língua portuguesa. Os autores aqui reunidos abordam as mudanças da língua do século XII ao XX, a oposição entre o português europeu e o brasileiro, entre outros assuntos. Sem desmerecer os estudos descritivos, a obra mostra preocupações de caráter explicativo e discute questões que só a investigação histórica pode revelar. Cada um dos seis capítulos vem acompanhado de textos anotados, vocabulário crítico e bibliografia comentada.

 

A Nebulosa

A coleção Clássicos Ateliê oferece ao leitor a 3ª edição de A Nebulosa, poema narrativo de Joaquim Manuel de Macedo, após quase 150 anos fora de circulação. Grande sucesso editorial nas duas edições lançadas em vida do autor, no século XIX, A Nebulosa narra a trágica história de um amor impossível, configurada no âmbito da corrente da poesia romântica noturna e melancólica a que Álvares de Azevedo também se dedicou. Para Antonio Candido, A Nebulosa vem a ser “talvez o melhor poema-romance do romantismo [brasileiro]”. O texto desta edição, estabelecido rigorosamente com base no da segunda (1878?), em cotejo com o da primeira (1857), é introduzido por um precioso estudo crítico de Ângela Maria Gonçalves da Costa, doutora em Teoria e História Literária pela Unicamp, que dá minuciosa notícia da recepção crítica do poema e analisa seus principais aspectos de forma e conteúdo, no contexto da poética cultural do ultrarromantismo, em que se insere A Nebulosa. O volume conta com ilustrações do artista plástico Kaio Romero.

 

Jacques Derrida – Entreatos da Leitura e Literatura

Literatura e Filosofia. A partir desse encontro promovido pela obra de Jacques Derrida, cujos efeitos ainda incidem sobre o pensamento contemporâneo, este livro reúne artigos de Eneida Maria de Souza, Myriam Ávila, Evando Nascimento, Emílio Maciel, Maria Esther Maciel, Mónica Cragnolini, Roberto Said, Luiz Fernando Ferreira Sá, Ram Mandil, Nabil Araújo, Sérgio Luiz Prado Bellei, Gustavo Silveira Ribeiro e Roniere Menezes.

 

 

Poesia É Criação: Uma AntologiaPoesia é Criação: Uma Antologia

Almada Negreiros, que começa por dar corpo à Vanguarda em Portugal, é uma das figuras de artista mais importantes do século XX português, que atravessa em grande medida, com uma passagem de menos de um ano em Paris e outra de cinco anos em Madrid. Da sua arte de poeta, ficcionista, dramaturgo, desenhista, pintor ou conferencista há vinte e quatro exemplos alinhados nesta antologia, seguindo, com uma exceção, o critério cronológico. Mais que um princípio de simetria ou de arrumação por gêneros, aparecem assim de modo mais evidente as relações entre os textos, o nexo profundo que torna as diferentes artes o mesmo gesto essencial.

Figurações do Oitocentos: literatura romântica nas obras de autores brasileiros e europeus

Por: Carina Marcondes Ferreira Pedro*

O livro Figurações do Oitocentos, organizado por Paulo Motta Oliveira, coordenador do Grupo de Estudos Oitocentistas da Universidade de São Paulo, contém ensaios que discutem a literatura romântica nas obras de autores brasileiros e europeus. O leitor poderá saber mais sobre o trabalho de autores como Émile Zola, Abel Botelho, Camilo Castelo Branco, Machado de Assis, Eça de Queirós, José de Alencar e Jane Austen. Os ensaios foram divididos no livro em duas partes: “Entre Tempos e Culturas”, a primeira, e “Religião, História e Crítica”, a segunda.

A primeira parte inicia-se com o ensaio “Émile Zola e Abel Botelho: Dois Olhares, Distintas Nações”, de autoria de Paulo Motta Oliveira. Como recorte, Oliveira seleciona os romances “A Besta Humana” de Zola e o “Barão de Lavos” de Botelho para analisar as realidades das classes sociais de seus países. Nessa comparação, o autor encontra uma forte classe dominante na França e a ausência da mesma em Portugal.  O segundo ensaio “As viagens de Adelbert von Chamisso: Da Literatura à Ciência, da Alemanha ao Brasil”, de Karin Volobuef, trata da obra de Chamisso, autor pouco conhecido no Brasil, embora tenha tido uma breve passagem pelo país. A ensaísta observa que a narrativa do autor é rica e instigante, cheia de expressões poéticas, ao mesmo tempo em que é fluente e objetiva, como a de um homem da ciência ao narrar as intempéries vivenciadas em viagens marítimas.

O terceiro ensaio “As Primeiras Impressões são as que ficam? Jane Austen Retorna ao Cinema”, de Carla Alexandra Ferreira, aborda apagamentos ou relativizações que a obra de Austen sofreu ao ser adaptada para o cinema nos anos 2000. Apesar de alguns pontos fortes do filme “Orgulho e Preconceito”, como o reforço das diferenças sociais que existiam no contexto histórico de Austen, a obra cinematográfica celebra o romance em um nível muito além do apresentado pela escritora em seu livro. Daí a necessidade de situar historicamente temas como o casamento e o amor na obra de Austen.

Coração, Cabeça e Estômago, obra de Camilo Castelo Branco

A ensaísta Flavia Maria Corradin aborda no quarto ensaio “Camilo Castelo Branco Revisitado pela Moderna Dramaturgia” a obra desse autor, considerado o mais importante do romantismo português, por conta de sua originalidade. De acordo com a ensaísta, a intertextualidade está presente nas paródias, estilização e paráfrases de Branco. O último ensaio da primeira parte do livro, de autoria de Renata Soares Junqueira, “Máscaras, Transmutações e Outras Formas do Duplo no Moderno Teatro de Branquinho da Fonseca” diz respeito a esse autor, considerado um dos grandes modernistas portugueses, não somente nas produções literárias, contos e novelas, como também nas obras teatrais. Em suas ficções, a narrativa é marcada por poesia em prosa com personagens que incorporam princípios do romantismo, como o individualismo obsessivo.

 

Na segunda parte do livro, os dois primeiros ensaios discutem a questão da religião na sociedade oitocentista. O primeiro “Cristo Revisitado”, de Aparecida de Fátima Bueno, retoma a obra de Eça de Queiroz, analisando a crítica severa do autor à Igreja Católica do século XIX, com destaque para o romance A Relíquia. Queiroz apresenta um Cristo dessacralizado, que não esconde seus atos falhos, o oposto da visão institucional transmitida aos fiéis pela Igreja.

Eça de Queirós

A obra de Eça de Queiroz continua sendo analisada no segundo ensaio pela perspectiva do orientalismo, mas dessa vez acompanhada pela obra de Machado de Assis. De autoria de Osmar Pereira Oliva, o ensaio intitulado “Eça e Machado e as Reescritas do Livro de Gênesis” destaca em Eça de Queiroz a crítica severa ao clero e a adoção da teoria darwinista, a partir da releitura do Livro de Gênesis. Já em Machado de Assis, a análise da releitura do Livro de Gênesis contribui para identificar a visão deste autor sobre o Oriente, visto que a Bíblia é um texto “paradigmático da cultura oriental” e fundamental nas sociedades ocidentais.

No terceiro ensaio “Quando o Medo Vence o Amor. O Estabelecimento do Domínio Filipino em Oliveira Martins”, de Patrícia Cardoso, é discutida a presença do sebastianismo na obra do historiador Oliveira Martins, que o considera um fenômeno cultural lusitano. Tal fenômeno é utilizado para dar sentido ao passado em seus romances, como em “Febo Moniz”, em que o discurso historiográfico é permeado pela ficção. O quarto ensaio “Gonçalves Dias e a Burocracia Imperial: Favores e Afrontas”, de Wilton José Marques, trata do reconhecimento de Gonçalves Dias como um dos grandes intelectuais do Império e, simultaneamente, rastreia sua inserção no funcionalismo público do segundo reinado do Brasil. Dias queria ser reconhecido como poeta nacional pelos seus méritos literários e não pela via da “lisonja fácil”. A temática indianista é presente em seus poemas, que possuem um tom nacionalista e elementos “de uma nova escola literária”, como foi reconhecido por José de Alencar, seu contemporâneo.

Iracema, de José de Alencar

Iracema, de José de Alencar

O quinto ensaio “Papel da Crítica na Fixação do Indianismo: o Caso José de Alencar”, de Mirhiane Mendes de Abreu, discute o papel do escritor José de Alencar como crítico literário de indianistas contemporâneos, com destaque para as “Cartas sobre a Confederação dos Tamoios”, em que analisou o livro de José Gonçalves de Magalhães. O ensaio ainda destaca outros importantes debates literários com participação de José de Alencar, cuja temática principal era o problema linguístico na literatura local, considerado um dos aspectos controversos da instituição da literatura nacional brasileira. A presença da categoria nacional na retórica oitocentista é o destaque do sexto ensaio, “Retórica do Romantismo”, de Eduardo Vieira Martins. O ensaísta discorreu sobre cinco tratados de retórica: Lectures on rhetoric and belle letres, de autoria do escocês Hugh Blair, “Lições Elementares de Eloquência Nacional” e “Lições Elementares de Poética Nacional” do português Francisco Freire de Carvalho, “Lições de Eloquência Nacional” do padre pernambucano Miguel do Sacramento Lopes Gama e os “Elementos de Retórica Nacional”, de Junqueira Freire. Para Martins, a análise da retórica oitocentista permite uma releitura do romantismo a partir dos valores que orientavam as produções literárias da época, evitando o anacronismo na crítica realizada nos dias atuais.

 

* Historiadora, mestre em História Social pela Universidade de São Paulo e agente cultural na Secretaria de Cultura de Santos. É autora do livro Casas Importadoras de Santos e seus Agentes, publicado pela Ateliê Editorial, em 2015.

Ler livro, ser livre (a importância da leitura na formação do jovem leitor)

Por Renata de Albuquerque

Em abril, celebra-se o Dia Internacional do Livro Infantil. Para falar sobre a importância da leitura para crianças, o Blog da Ateliê entrevistou Marise Hansen. Ela é Professora de Literatura e subcoordenadora de Português no Colégio Bandeirantes. Mestre e doutoranda em Literatura Brasileira – USP, é autora de “Porta-retratos” e responsável pela apresentação e notas da edição de “A Ilustre Casa de Ramires”.

Qual a importância da leitura na infância?

Marise Hansen: A leitura na infância é tão importante quanto o se alimentar e o brincar. Estimula a imaginação, incrementa o repertório cultural, desenvolve a empatia. São histórias de “outros”, mas que a criança consegue imaginar como suas, guardado o limite de segurança da representação ficcional, e “viver” experiências e sentimentos que, do contrário, não viveria. Uma criança que lê tende a tornar-se um adulto mais empático, porque só a leitura propicia um “viver outra vida”, o ver o mundo sob outros olhos.

A partir de qual idade já se pode estimular esse hábito?

MH: Por experiência própria, porque fiz isto com meus dois filhos, penso que se deva estimular esse hábito desde a idade de meses. Quando o bebê já consegue segurar objetos, os livros devem ser colocados em suas mãos, e toda hora é hora de folhear páginas, imaginar situações e histórias, ver o mundo representado: na troca de fraldas, no banho (com os livros de plástico). Se o bebê leva o livro à boca, sem problemas, é seu modo de apreendê-lo, faz parte da fase oral. Aos poucos ele vai descobrindo que pode “devorar” o livro sem ser literalmente. Mas já está dado o primeiro passo para a familiaridade da criança com os livros. O primeiro presente que faço questão de dar aos filhos recém-nascidos de amigos é um livro, de pano, plástico, ou cartão grosso.

Como estimular o hábito da leitura? 

MH: Continuando a resposta anterior, o hábito da leitura deve ser estimulado desde cedo. A manipulação do objeto livro é fundamental, o bebê se diverte, sente prazer ao ver figuras e ouvir a voz dos pais se referindo a elas, contando uma história. Sem dúvida, a leitura em voz alta para a criança de qualquer idade é um momento decisivo, até “sagrado”, eu diria. Nada melhor do que silenciar uma TV e ouvir a apenas a voz do contador de histórias, ou contadores, porque as crianças muitas vezes participam ativamente da narração, seja perguntando, comentando, complementando ou até “corrigindo” a história! Comentam as ilustrações, o enredo, os valores envolvidos. Trata-se, portanto, de um momento em que se dão, simultaneamente: aproximação física e emocional com a criança; estímulo da imaginação a partir de tudo o que a história sugere, ou diz sem dizer integralmente; estímulo da percepção visual, com as ilustrações, e da auditiva, com a ênfase no dizer e no pronunciar. A meu ver, tudo isso junto é responsável por desenvolver na criança um tipo muito particular de inteligência, que costumo chamar de “inteligência poética”.

A escola estimula a leitura, mas por outro lado, como existem as “leituras obrigatórias”, muitas crianças e adolescentes acabam por não ter o hábito da leitura. O que os adultos (pais, professores, responsáveis, familiares) podem fazer para diminuir essa sensação de obrigatoriedade?

MH: Acho que deve haver quem mostre ao jovem leitor a pertinência e a atualidade das obras “obrigatórias”, via de regra, as “clássicas”. Se há quem as apresente, leia com eles (filhos, alunos) as páginas iniciais (normalmente, as mais difíceis, pois são a entrada num universo novo, inclusive quanto à linguagem), discuta algumas ideias, eles acabam se interessando, sim, a despeito da obrigatoriedade. Se você apenas “manda” ler, por exemplo, o Auto da barca do inferno, de Gil Vicente, obra de 1517, é uma coisa; se você lê trechos com os alunos, explorando a sonoridade do texto, o humor das falas e a atualidade dos temas (corrupção, preconceito, prepotência da elite), é outra, muito diversa. Algo que tem tido êxito na escola em que trabalho é associar a leitura dos clássicos a obras contemporâneas, compará-las, aproximá-las, identificar o conteúdo comum às questões humanas, independentemente da época em que foram escritas.

Os livros paradidáticos podem contribuir para que crianças cultivem o hábito da leitura? Que livros podem ser oferecidos a cada faixa etária?

MH: Eles não só podem, como devem contribuir para a criação e manutenção desse hábito, desde que lidos de modo significativo, compartilhado. O professor deve atuar como um mediador das leituras e discussões, não como alguém que “manda” ler para apenas fazer perguntas, fazer uma prova, verificar a leitura, o que até pode ser feito, mas não como objetivo primeiro. Na primeira infância devem ser oferecidos inicialmente os livros coloridos, bem ilustrados, com histórias simples, poucas personagens e cenas estimulantes, depois as fábulas e contos de fada, que tratam de valores, medos, emoções a partir de um universo fantasioso. Depois de consolidada a alfabetização, pode-se partir para os livros de aventura, e então para os que tratam do cotidiano de pré-adolescentes e adolescentes, ou biografias, que abordam conflitos, dilemas, tomadas de decisão.

Os professores que, por dever curricular, precisam trabalhar os clássicos em sala de aula, muitas vezes encontram uma barreira: os alunos não entendem o vocabulário (por conta da data em que os clássicos foram escritos) ou ficam resistentes ao conteúdo. Como lidar com esta situação e em vez de criar uma barreira, fazer com que os alunos possam aderir e entender a importância desses livros?

MH: Como diz Ana Maria Machado: “Clássico não é livro antigo e fora de moda. É livro eterno que não sai de moda”. O primeiro passo é o próprio professor se convencer disso. Se ele mesmo está convencido da atualidade e do sentido que a leitura de determinado clássico pode fazer, ele apresenta o livro como um verdadeiro convite, uma oportunidade, e não como uma obrigação. Se “um clássico é um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer”, de acordo com Ítalo Calvino, o aluno tem de ser estimulado, até desafiado, a atualizar seu sentido: como a sua leitura pode extrair do clássico aquilo que ele ainda não disse? Os alunos costumam apresentar hipóteses surpreendentes de leitura, quando se aborda o clássico sob essa perspectiva.

Conheça a obra de Marise Hansen