Leitura

“A Forma do Livro” é tema de debate

Tereza Bettinardi*

Novembro foi o mês em que lemos e debatemos no Clube do Livro do Design o livro A Forma do Livro – Ensaios sobre Tipografia e Estética do Livro, escrito pelo tipógrafo e designer alemão Jan Tschichold (1902–1974). A escolha deste livro para encerrar esta primeira temporada do Clube não foi por acaso. Além da minha relação pessoal com o tema [trabalhando com design editorial há quase 15 anos], este livro também é um excelente ponto de partida para discutir a fascinante biografia de Tschichold.

Tschichold foi, em momentos distintos, um expoente das duas grandes correntes estéticas que dominaram a tipografia do século XX: a ousada “nova tipografia” e os princípios da tipografia clássica, orientada pelas convenções seculares em vigor desde a Renascença. Depois de ser perseguido pelo regime nazista e partir para o exílio na Suíça, Tschichold também trabalhou na reformulação do design da série de livros de bolso da editora Penguin.

A Forma do Livro

Nesta coletânea de ensaios, escritos de 1937 até sua morte, Tschichold reconsidera seus postulados da juventude e volta-se ao estudo e reflexão a respeito da tipografia tradicional e aos layouts de composição simétrica. O livro só seria traduzido para o inglês, por Robert Bringhurst (autor de Elementos do estilo tipográfico), em 1991, e publicado no Brasil em 2007. Em mais de vinte textos críticos sobre temas gerais da prática do design gráfico e especificidades tipográficas, Tschichold procura sistematizar a intuição, descrevendo vigorosamente os parâmetros de qualidade de uma boa composição. Para ele, somente um impresso que honra a tradição do livro europeu é capaz de emergir de prateleiras e mais prateleiras de modismos injustificados. Ou seja, o design de qualidade teria origem na pesquisa histórica e na análise científica de tudo que já foi feito. E a inovação pela inovação não passaria de um capricho.

Como bem apontou a designer Flora de Carvalho, no texto enviado aos participantes do Clube na newsletter, em diversas passagens, a leitura de A Forma do Livro pode se tornar um exercício angustiante: “é possível chegar a esse nível de experiência e precisão? Ainda mais depois de 2020, o ano da abolição do planejamento? Para evitar a crise, sugiro que você pense nestes ensaios como fábulas de uma época distante, na qual era possível alcançar algum tipo de controle”. Neste sentido, tal constatação foi quase que unânime entre os participantes.

No entanto, é inegável o valor do esforço e determinação do tipográfico alemão em registrar, documentar e refletir sobre os diversos elementos que compõem uma página: a relação entre tamanho da página e mancha de texto, margens e alinhamento, corpo e entrelinha, espaço entre palavras e entre letras, forma e contraforma, branco e preto, papel e tinta. Como bem analisou Flora de Carvalho: “como bom explorador, Tschichold dedicou grande parte de sua carreira a observar e descrever as relações de proporção que encontrou em sua jornada – como Darwin observando Galápagos, ou Galileu olhando para o céu” que complementa: “os textos de Tschichold servem para nós, designers do século 21, como ponto de ancoragem ou de partida, porque associam criatividade a método, e não a genialidade. Segundo esses textos, o terror da página em branco, seria diluído se considerássemos combinações e estratégias preexistentes”. 

Durante os últimos meses, formamos um grupo com mais de 300 pessoas, entre designers, educadores, estudantes e entusiastas do design e da comunicação visual. Pudemos entrar em contato com realidades muito distintas: de São Luís, Porto Alegre, Recife, Salvador, Belo Horizonte, São Paulo, Rio de Janeiro… e aprendemos a ouvir e discordar respeitosamente. Mais do que um grupo de apaixonados pela profissão e pelo ofício de projetar, este grupo também serviu como uma valiosa rede de apoio e troca durante o isolamento. Os livros — tais como as importantíssimas contribuições de Tschichold — foram apenas um ponto de partida… e esperamos que as descobertas e trocas não acabem.

*Designer gráfica, criadora do Clube do Livro do Design

Uma livraria em meio às flores

Emília Amaral,  doutora pela Unicamp e professora de Literatura, é autora de O Leitor Segundo G.H. – Uma Análise do Romance A Paixão Segundo G.H. de Clarice Lispector

Apaixonada por livros, ela acaba de abrir sua própria livraria, a Livraria Jardim das Delícias, na cidade de Holambra, em sociedade com a irmã, Dinda Amara. A seguir, ela conta o que a levou a esse empreendimento.

Qual foi sua motivação para abrir uma livraria em um contexto em que a leitura se dá, cada vez mais, por meios digitais?

Emília Amaral: Na verdade, acho que o livro de papel não está competindo com o virtual, haja vista os relatos de abertura de novas livrarias, inclusive com vendas excelentes, que temos visto em todo o país. No Brasil, onde o nível de leitura é tão baixo, não podemos prescindir de ambos os tipos de livros, pois há possíveis leitores para eles.

Por que escolheu a cidade de Holambra?

EA: Holambra era uma cidade de vários indícios de gente interessada em leitura, mas não tinha livraria. Hoje, tem, e, pelo movimento, merecia mesmo. Além de ser uma linda cidade, centrada em produção e venda de flores, seus habitantes sempre estão em busca de novas atividades.

As sócias da Livraria Jardim das Delícias, em Holambra

Quando a livraria foi inaugurada?

EA: Devido à pandemia, não houve inauguração oficial, mas estamos trabalhando com bastante vigor e boas surpresas, há mais de dois meses. 

Que tipo de livros são os focos da livraria? Infantis, didáticos, literatura em geral?

EA: Sim. Literatura brasileira, literatura universal, teoria e crítica literária, biografias, ciências humanas, etc, além do que você colocou. Somos uma livraria-sebo, por isso temos produtos com assuntos, apresentações e custos variados. Atendemos muito pela internet e aceitamos doações.

Seu objetivo é também fazer da livraria um espaço de convívio para a comunidade de leitores da cidade? A ideia é realizar eventos presenciais e/ou online?

EA: Sim. Queremos criar um espaço cultural que seja reconhecido pela cidade. Temos atividades de cineclube, clube de leitura, palestras, lançamentos de livros, exposições, aulas etc. No fim de 2020, coordenei uma vivência da literatura de Clarice Lispector; tema de meu doutorado, para um grupo de seis pessoas. Foi bem interessante.

Quais são os desafios de abrir uma livraria no atual cenário pandêmico? E, por outro lado, como uma livraria pode contribuir para melhorar este cenário?

EA: O paradoxo é apenas aparente. Na pandemia, as pessoas buscam se interiorizar, procurar novos valores para sua vida, descortinar novos horizontes. Para isso, os livros, as revistas, muitas vezes indicados pela internet, são essenciais. Soube até de um aumento de vendas e de abertura de livrarias, nesse período.

Serviço

Livraria Jardim das Delícias

Avenida Solidagos, 218 – Morada das Flores – Holambra

@livrariajardimdasdelicias

Vendas on-line: dindi03uol.com.br

As viagens do texto

Alex Sens*

Comecei a escrever ficção aos treze anos de idade, depois de ler muito e sentir que eu também podia contar uma história que ainda não tinha descoberto ou que, na minha jovem e ingênua vida literária, nunca fora escrita. Publiquei meu primeiro livro aos vinte, depois de participar de antologias e escrever textos esparsos por encomenda. Na época, o processo de produção de um livro me parecia muito simples e lógico, uma linha traçada sem desvios com começo, meio e fim: escrever, enviar o original para uma editora, ter o original corrigido de todos os erros e então publicado. Voilà! O livro era isso, o resultado de uma série de poucas etapas de cuja parte das funções cabia a mim. Certo? Não exatamente.

Foto de Alex Sens, tirada em uma livraria de Barcelona

Eu sabia que havia muito trabalho envolvido, que existia ali uma espessura densa e invisível por trás do livro finalizado, do objeto livro. No entanto, não sabia de suas inúmeras camadas e do quanto elas são importantes, ou melhor, do quanto são essenciais — por vezes, mais burocráticas, mais profundas e mais lentas do que a própria escrita. Porque a essência do livro enquanto objeto não é abstrata, tampouco romântica; ela é, antes de tudo, fruto de um longo trabalho em conjunto, organizado entre funcionalidades que, compostas, buscam um resultado comum. É a comunicação entre todas as partes envolvidas no processo de criação do objeto livro que vai produzir esse resultado. O livro é um bolo: cada ingrediente tem uma função para que ele exista, e o leitor fica sempre com a melhor fatia quando decodifica seus símbolos, lançando sobre esse bolo a luz da sua própria interpretação e encontrando nele um canal de fuga, de alegria ou de encontro.

Para uma criança ou para um adolescente que não lê, para qualquer um distante desse meio de produção, os livros nascem prontos, estão lá, simplesmente existem como existe o movimento dos ponteiros no relógio, a comida no prato, a televisão em frente ao sofá, a carteira na sala de aula, os cabelos brancos na cabeça do avô, ou, coisas mais naturais, como o dia e a noite, o Sol e a Lua, as águas do Rhône ou a lava do Kilauea. Quem vê a coisa, não pensa sobre a coisa: ela é — ao menos num primeiro momento. Pensando sobre o livro, somos atravessados não só pelo tempo, mas por uma longa cadeia de funções necessárias para que ele exista.

Com o passar dos anos (e me parece estranhamente sintomático não conseguir escrever isso sem esboçar um risinho nervoso), aprendi muito sobre o mundo editorial e livreiro, mas preciso e quero aprender muito mais. Escrevo há quase duas décadas, mas só nos últimos dez ou doze anos fui me inserindo melhor nessa área, me dividindo naturalmente, de forma orgânica e incontornável. A divisão consistiu, e ainda consiste, entre o Alex Sens que cria — escrevendo, colocando “escritor”, com um orgulho quase acintoso, na primeira página da declaração do imposto de renda, indo a eventos literários, tentando prêmios e aprendendo que tudo tem seu tempo de ampulheta quando se trata da linguagem e da criação literária como vocação — e o Alex Sens que revisa — corrigindo, reparando nas bordas, se cortando com as farpas dos erros, preparando o texto, sugerindo, apontando, que percebe com o olhar os ruídos entre as palavras. Às vezes, eles se confundem, se fundem, se aglutinam, trabalham juntos. Outras vezes, brigam entre si e precisam ficar separados.

Então, da escrita literária, daquilo que me escolheu antes da minha própria escolha, eu passei a revisar. Sempre revisei meus próprios textos como uma etapa da própria escrita, como um verniz para as palavras. Eu via a revisão como uma lapidação, um aperfeiçoamento do texto bruto. Em parte, ela o é. Mas mais do que isso, a revisão e a preparação de um texto são formas de aprimorar a viabilidade da comunicação entre autor e leitor. Depois que um escritor entrega seu original a uma editora, é papel do editor, do revisor e do preparador cuidar desse original, tentar diferentes roupas, vernizes, lapidações e até sonoridades. Também essas coisas cabem ao escritor, mas esses profissionais existem como uma espécie de terceiro olho, que vai enxergar coisas que ele, o escritor, já não consegue ver, tão acostumado ele está com a história — e muitas vezes perfeitamente acomodado nela. São esses terceiros olhos que vão limpar uma série de vícios, repetições, ecos, erros e às vezes iluminar passagens obscurecidas pela própria familiaridade do autor com sua obra. Depois, ele lê a prova, já revisada, aprova ou desaprova, e só então libera seu texto para a diagramação, que será a aparência do livro, relê outra vez e todos esses olhares, todas essas camadas, essas intervenções, seguem para a gráfica, onde tudo será concretizado, transformado em objeto palpável. Obviamente, a ordem das camadas, o tempo e a espessura de cada uma, dependem do método de cada editor, da fórmula de cada profissional, da ansiedade de cada autor.

Mercado, processos editoriais, análise, setor comercial, projeto gráfico, indexação, ISBN são alguns dos poucos e mais básicos termos do universo editorial, sem falar em gralhas, pastéis, print, remissiva e tantos outros que entram no processo de revisão e de preparação de um original, atravessando todos os envolvidos. Ninguém que esteja do lado de fora desse cosmos da publicação precisa de fato conhecer estes termos, compreender o processo que, muitos anos depois, descobri não ser apenas uma linha traçada sem desvios com começo, meio e fim, mas uma espiral em movimento, uma linha labiríntica e quase infinita, um corpo vivo, multifuncional e onidirecional. Este corpo, que é o processo de publicação, não termina quando o livro está editado e exposto nas livrarias, guardando no coração de suas páginas, ali próximo à costura e à cola, o perfume do papel impresso que libera nos leitores mais do que um prazer afetivo, um prazer ancestral (desde a oralidade na contação de histórias); não, este corpo não tem fim: depois de publicado, um livro ainda mexe com uma imensa cadeia que envolve livreiros, distribuidores, armazenamentos, logísticas, empregos, direitos autorais, e talvez, às vezes, alguns bons acidentes de percurso, como prêmios, traduções e adaptações audiovisuais — outro corpo que dele nasce e se ramifica numa nova cadeia, poderosa e essencial para a cultura de um povo.

*Escritor, nascido no ano de 1988 em Florianópolis, SC, e radicado em Minas Gerais. Publicou Esdrúxulas, pequeno livro de contos de humor negro e realismo mágico, seguido pelo livro artesanal Trincada. Teve contos e poemas publicados em sete coletâneas e em revistas literárias virtuais, assim como resenhas de livros, entrevistas e críticas em sites de jornalismo cultural. O Frágil Toque dos Mutilados (Autêntica Editora, 2015), seu romance de estreia, venceu o Prêmio Governo de Minas Gerais de Literatura 2012 na categoria Jovem Escritor.

Um guia de viagem inusitado

O escritor e designer Gustavo Piqueira esteve na cidade de São Francisco do Pará em janeiro de 2020. Lá, fotografou todas as placas comerciais da cidade. O resultado é um documento que mais parece um mapa de viagem, com tiragem única de mil exemplares. “Ao desdobrar o enorme cartaz que exibe, condensado num intricado mosaico, todo o conteúdo do livro, o leitor é convidado a refletir sobre questões que vão da relação entre a linguagem visual e a mensagem da qual é portadora até o quanto um recorte do Brasil distante de seus centros econômicos é, de fato, representativo desse lugar ou não passa de um olhar concentrado somente naquilo que lá encontra de diferente e logo enquadra como exótico”, explica Piqueira.

Toda a cidade de São Francisco do Pará conforme encontrada no dia 12 de janeiro de 2020 é exatamente aquilo que seu título declara: uma cidade comum do Brasil que, num dia qualquer, recebeu o registro fotográfico de todas as suas placas comerciais. Todas. Sem nenhum filtro, nenhum recorte. Uma visão completa de uma cidade, sem juízo de valor ou de gosto. Um retrato de quais histórias seus habitantes contam para si mesmo, de como as contam.

A aparente neutralidade, contudo, é ilusória. Pois ao desdobrar o enorme cartaz que exibe, condensado num intricado mosaico, todo o conteúdo do livro, o leitor é convidado a refletir sobre questões que vão da relação entre a linguagem visual e a mensagem da qual é portadora até o quanto um recorte do Brasil distante de seus centros econômicos é, de fato, representativo desse lugar ou não passa de um olhar concentrado somente naquilo que lá encontra de diferente e logo enquadra como exótico. A seguir, o autor fala ao Blog Ateliê:

Como surgiu a ideia do livro-objeto?

Gustavo Piqueira: Penso que há algum tempo já me debruço sobre questões ao redor do tema central do livro, que são as definições sobre o que deve ou o que não deve ser admirado como “arte” ou “cultura” e, dentro desse assunto amplo, venho olhando para algumas manifestações daquilo que se convencionou chamar de “arte popular” — como em meu livro “Desvios” (WMF Martins Fontes/2018), sobre fachadas populares contemporâneas do sertão nordestino. Falando especificamente desta obra, o “Toda a cidade…”, ela nasceu inicialmente numa visita à ala de ex-votos da Casa Museu do Padre Cícero, em Juazeiro do Norte. Além dos já esperados entalhes de madeira, singelas representações de braços, pernas e cabeças curadas pela fé, encontrei uma boa quantidade de presentes de outra ordem — igualmente oferecidos por fiéis em agradecimento pelas graças alcançadas —, como fotos de motos estacionadas em frente à estátua do padre milagreiro, camisas de times de futebol (sobretudo a do Flamengo) e miniaturas de carros, entre elas a de um Porsche branco. Nenhum problema nisso: cada um sabe de seus desejos e aflições. O que me chamou mesmo a atenção foi o fato de que sempre que ex-votos são expostos, por exemplo, aqui em São Paulo — despidos de sua função religiosa e transformados exclusivamente em expressão cultural de um suposto Brasil profundo —, não se costuma incluir na mostra fotos de motocicletas, mantos rubro-negros ou Porsches brancos. Com certeza, não por falta de espaço nas salas expositivas. Então o que realmente enxergamos? Quais são essas vozes que não apenas organizam e escolhem a cultura a ser consumida como também ensinam ao espectador como consumi-la?

Por que ele foi feito durante uma viagem?

GP: Na verdade ele nasceu no meio de uma viagem, uma longa viagem de carro indo de Juazeiro do Norte a Belém. São Francisco do Pará não estava no roteiro inicial, foi escolhida em função do surgimento do projeto do livro, cuja ideia passava por escolher aleatoriamente uma cidade comum do Brasil que, num dia qualquer, recebeu o registro fotográfico de todas as suas placas comerciais sem nenhum filtro, sem nenhum recorte. Uma visão completa de uma cidade, sem juízo de valor ou de gosto. São Francisco do Pará se encaixava nos parâmetros que defini para o livro (em termos de população e atividade) e ficava relativamente próxima ao trajeto original da viagem, então foi a escolhida.

Lançar um livro feito durante uma viagem em meio a uma pandemia, que obriga a um distanciamento social, é de alguma maneira uma inspiração, um apelo à esperança de que esta fase vai passar? Qual o significado disso, para você?

GP: O livro estava feito antes da pandemia, então não existe relação direta. E creio que seu assunto é válido independentemente do impacto da pandemia (que vai passar, mas vai deixar marcas). Claro que, neste 2020, a chegada da pandemia interrompeu meus projetos de livro que envolviam viagens — dois deles foram seriamente prejudicados por isso — mas, por outro lado, fez nascerem outros que talvez não tivessem brotado não fosse o isolamento (ainda que nenhum deles seja sobre isolamento, pandemia ou algo diretamente ligado ao tema). 

Por que fotografar os letreiros especificamente?

GP: Não é uma maneira muito habitual de se retratar uma cidade, eu sei: normalmente escolhem-se suas edificações, sua paisagem natural ou sua gente. Mas porque não os letreiros? Afinal, eles são peças que unem mensagens em texto e imagens, elaboradas pelos próprios moradores da cidade para se comunicar com os demais moradores. Não são esses ótimos ingredientes para se compor um retrato consistente?

Que história esses letreiros contam?

GP: Creio que os letreiros comerciais contam histórias muito ricas, pois neles é possível encontrarmos quais as atividades  movimentam a cidade, quais os códigos visuais utilizados para comunicá-las (ou seja, qual o repertório visual daquela população), quais as técnicas utilizadas para produzi-los… Dá pra falar de local x global, dá pra falar de manualidade x digital… É um material de aparência prosaica mas que, a meu ver, abre caminho para reflexões das mais ricas.

Como é feito o acabamento do livro? São colagens feitas uma a uma?

GP: Sim, as etiquetas de título/autor são coladas uma a uma. O formato do livro brinca com aqueles antigos mapas impressos de viagem, vem daí a ideia para seu tamanho pequeno que se desdobra num grande cartaz.

Em sua opinião, o livro só interessa ao público ligado ao design ou também ao público em geral?

GP: Gostaria de acreditar que o interesse do livro transcende sua forma e alcança todos aqueles que, de algum modo, se interessam por refletir sobre as questões que coloquei, vinculadas a nossa própria percepção do Brasil, a nosso olhar sobre a produção dita “popular”, a pensar sobre quem escolhe o que consumimos com o rótulo de “cultura”…

Você já tem outros projetos de livro em mente? Pode falar sobre isso?

GP: Sim, tenho alguns. No começo de 2021 lançarei o quinto volume de minha coleção Gráfica Particular, “A Cidade sem nome de Torres-García” (Lote 42), além de um livro sobre a história de São Paulo, “A Pirâmide do Piques” (Edições Sesc) e “Domex“, uma história em quadrinhos (Editora Veneta). Esses são os que estão prontos já. Dos que farei, pela Ateliê, planejei com o Plinio de escrever e lançar, neste 2021 que chega, um volume para a coleção Artes do Livro, da qual já participei organizando/desenhando “William Morris – Sobre as Artes do Livro”, mas desta vez serei também o autor. Será mais um ano produtivo, espero.

A Voz e o Tempo

Por: Renata de Albuquerque

Vencedor do Prêmio Jabuti de Psicologia e Psicanálise 2009, A Voz e o Tempo – Reflexões para Jovens Terapeutas acaba de ganhar uma terceira edição. A novidade é um posfácio, escrito pelo autor, Roberto Gambini, no qual ele faz a reflexão/provocação: Com que direito pode um analista declarar a verdade sobre seu paciente?”. No texto, a partir de sua experiência junguiano, Gambini escreve sobre como lida com o poder que a palavra que o analista tem para seus pacientes.

Ele lembra que a psicanálise foi concebida como talking cure – a cura resultante da conversa e que esse contexto já mostra muito sobre a importância das palavras no processo – e sobre a relevância das palavras do terapeuta.

“A questão aqui é o que o terapeuta diz, baseado em quê, como diz, e desempenhando que tipo de papel que por acaso creia ter-lhe sido de alguma forma atribuído, e através de cujo desempenho recebe ele seus proventos. Como reage ele a esse apelo de quem o procura, às vezes formulado claramente, outras vezes pronunciado como uma insinuação, um subtexto?”, pergunta-se (ou pergunta ao leitor?) Gambini.

Mas, para além da voz, está o tempo. O psicanalista (assim como o artista, conforme nos lembra, no prefácio, Adélia Bezerra de Meneses), cria elos com o tempo. É este tempo que matura as reflexões do terapeuta e suas elaborações teóricas, todas feitas a partir do prisma único de sua subjetividade e da relação que estabelece cada paciente seu. “(…) a decantação de leituras e estudos, construção de caminhos absolutamente não corriqueiros para se pensar a terapia e a vida, e sobretudo, algo que radica na empiria e que é fruto da interação com o paciente, no seu oficiar quotidiano do consultório, em sintonização rente à subjetividade do outro”, escreve  Meneses, antes de concluir: “A Voz e o Tempo condensa aquilo que é o cerne, o caroço, o essencial para alguém que se entrega à sua atividade como a um destino”.

Para um livro escrito por um terapeuta para terapeutas, este tem foi feito a partir de um fato muito singular. Nas palavras de Gambini, o livro “nasceu falado”, fruto de palestras e de depoimentos que Gambini concedeu a Adélia Bezerra de Meneses e Enrico Lippolis, dez anos depois das palestras que originaram a primeira parte do livro.

Nos escritos originados das falas, Gambini fala de como se aproximou de Jung, de sua trajetória, de como seu trabalho como professor abriu as portas para seu trabalho como analista e de outras questões que podem contribuir com jovens terapeutas, como o ofício do terapeuta, os desafios da transferência e a importância de exercitar a escuta – e como, tão importante quanto ela, torna-se, na trajetória de Gambini, o diálogo. O livro traz ainda uma carta com a interpretação do Dr. Karl Heinrich Fierz a um teste tipológico de Jung ao qual o autor submeteu-se nos anos 70. Todos esses elementos, somados, oferecem um panorama interessante sobre as idéias de Gambini, sobre seu fazer terapêutico e são, para os jovens terapeutas que se dispõem a ler a obra, uma experiência certamente enriquecedora.

Cor para sublimar a dor

“As Fontes Primárias de uma História Natural da Paleta do Artista”, de Philip Ball foi traduzido por Roberto Oliveira e disponibilizado gratuitamente, no formato de e-book, no site da Ateliê Editorial. O e-book traz história das cores nas pinturas antigas. Do que eram feitas as tintas na era pré-industrial? Com projeto gráfico de Gustavo Piqueira e Samia Jacintho/Casa Rex, As Fontes Primárias de uma História Natural da Paleta do Artista, Philip Ball dedica um capítulo para cada cor primária (vermelho, amarelo e azul), contando histórias e curiosidades, em uma leitura fluida, leve e cheia de informação. A seguir, o tradutor e escritor Roberto Oliveira (que também é médico, bacharel em direito e pesquisa sobre Bioética e Mídia) fala sobre a obra:

O que o motivou a traduzir a obra?

Roberto Oliveira: A tradução de As Fontes Primárias… deve-se a uma descoberta feita nos últimos anos quando comecei a fazer a pesquisa iconográfica para ilustrar A Visita da Peste, livro escrito em co-autoria com Jerusa Pires Ferreira e que deve ser lançado brevemente pela Ateliê Editorial. À medida que avançávamos nos textos sombrios da peste, fui encontrando obras de arte de um colorido vivíssimo, como se fossem marcas de uma tentativa de superação/sublimação do sofrimento, sobretudo, mas não só, pela celebração da salvação e misericórdia divinas. A partir daí, surgiu o interesse pela pesquisa das cores e seu impacto psicológico, que remeteu como um engenho faustiano à Teoria das Cores de Goethe, autor presente na Visita da Peste e do qual Jerusa era uma grande especialista. Em paralelo, foi crescendo a curiosidade, como médico e pesquisador, pela obtenção e uso de pigmentos e corantes, que, desde o século XIX, vêm revolucionar o isolamento de vírus e bactérias e também a síntese de novos fármacos, a partir da anilina, dando origem a grandes laboratórios como a Bayer (Bayer Farbenfabrik – Bayer Indústria de Corantes), AGFA (Aktiengesellschaft für AnilinfabrikationSociedade para a Fabricação de Anilina), BASF (Badisch Anilin und Soda Fabrik – Indústria de Anilina e Soda da Região de Baden) e a Hoechst (Hoechst Farbwerke – Hoechst Indústria de Corantes).

Por que decidiu colocá-la à disposição gratuitamente?

RO: Disponibilizar uma obra sem custos para o público em geral é, em primeiro lugar, o prazer de dividir uma descoberta com o maior número possível de interessados, inclusive, alunos de artes gráficas, editoração e afins, áreas que se constituem hoje em um de meus interesses. Devo dizer que para isso concorreram muito as discussões com o Plínio Martins, na sua dupla ou tripla função de professor da Escola de Comunicação da USP, editor experiente e apaixonado por artes gráficas. Por fim, me pareceria um contrassenso não disponibilizar gratuitamente a tradução, uma vez que o texto original foi lançado em uma publicação eletrônica britânica gratuita, The Public Domain, que se apresenta como concentrada “em obras que todos são livres para desfrutar, compartilhar e construir sem restrições”.

Por que escolheu a Ateliê Editorial para disponibilizar a obra?

RO: A competência do editor e seu empenho na busca de obras originais foi determinante para a escolha, independente da tradição que a editora pudesse ter em e-books. Em suma, me parece que a tradição possa fazer o hábito, mas não o monge.

O tema “cores primárias” pode parecer até mesmo simples, mas a abordagem que Philip Ball oferece no livro é bastante singular. O que o senhor destaca como mais interessante nessa obra? Durante a primeira leitura, o que mais o impactou nela?

RO: O texto tem vários pontos interessantes, por exemplo,  a relação do pintor com seus materiais e a importância decisiva destes para a obtenção de determinados resultados. Tal  observação pode caber em qualquer bom estudo de pigmentos como material de uma dada atividade profissional. Porém, a referência a materiais como o mínio faz pensar em questões tão diversas como a história da química e envenenamentos criminosos ou casuais, especialmente, quando se sabe que médicos, pintores e perfumistas integravam no Medievo a mesma guilda mas, se faltar tal informação, basta ler O Nome da Rosa ou uma biografia de pintores, como Cândido Portinari. Porém, de fato, na primeira leitura, o que mais me atraiu não foi o perigo, mas a beleza das ilustrações.

Em sua opinião, o que mais vai surpreender o leitor nesta obra?

RO: Acredito que este estudo possa interessar a uma variedade de leitores e, assim, fica impossível, como em qualquer texto ou obra de arte, saber o que mais irá agradar ou surpreender a cada um, mas, de qualquer modo, um tema aparentemente simples quando tratado de forma original sempre surpreende.

A Nebulosa, de Joaquim Manuel de Macedo

Nesta resenha, Maria Louzada, do perfil de Instagram @vidabrevelivrosdemais, escreve sobre A Nebulosa:

Joaquim Manuel de Macedo (1820-1882) escreveu mais de vinte romances, entre eles o popularíssimo e delicioso romance de costumes da sociedade carioca: A Moreninha, seu primeiro livro, publicado em 1844. Ele nasceu em Itaboraí, formou-se em medicina, foi deputado, foi professor do Colégio Pedro II, fundou uma revista (“Revista Guanabara”) ao lado de Gonçalves Dias, e exerceu o ofício da pena, como se dizia em seus tempos que foram os do período imperial do Brasil. De talento versátil, escreveu, afora os romances, também: teatro, memórias, e enveredou pela poesia; aqui se destacando A Nebulosa (1857), que obteve enorme sucesso quando do seu lançamento, saudado pela crítica especializada de então como “obra primorosa”.

A Nebulosa é um poema em forma narrativa, composto de seis cantos e um epílogo, grande parte em versos decassílabos brancos, apurados em efeitos que nos conduzem à representação do Romantismo, escola literária de sua época.

O tom vai bem além da forma de apenas uma “harpa sonora” a que se refere casualmente no primeiro canto, pois, embora tenha o mar como cenário marcante, à narrativa poética se debruçando no que tange aos mistérios das ondulações das ondas, um Trovador (personagem central do poema) se insere na linguagem em metamorfose entre amor e melancolia, com efeitos dramáticos. Expondo um triângulo amoroso, a poesia lírica, os versos em tratamento metrificado expõem uma alma de história vívida num universo que se vai desenrolando quase onírico por entre fadas, por entre feiticeiras. A acuidade dos seus versos traz um quadro quase elegíaco, um mundo perdido, o exílio. Acima de tudo, o poema é dedicado em narrativa, antes de todas as divindades clamadas como musas do estilo, antes da métrica empregada, o poema é dedicado a contar de um amor, de uma paixão trágica que, como se expressa no canto VI da “Harpa Quebrada” nos versos LVI, antes do epílogo, na ênfase do amor assim definido como: “um desses beijos que uma vida pagam.”

A literatura na sua poética romântica aportou no Brasil criando uma identidade miticamente povoada por peregrinas, flores, pelo mancebo trovador, pela mãe que transcende em amor, uma influência que também vinha de terras longínquas, tentando encontrar um caminho que levasse ao âmago de uma terra própria, tropical que necessitava, antes de tudo, conhecer-se. Assim, neste seu momento, o autor Joaquim Manuel de Macedo formulou nos monólogos de seus personagens, nos seus diálogos e em suas longas e trabalhadas descrições a trágica angústia dos sentimentos que não conseguem ser resgatados, a dificuldade humana perante os próprios sentimentos, tudo em singular contraste com nossa exuberante natureza, onde em seus elementos mais puramente autênticos, reina em imagem, em som, em olfato tudo que faz transbordar: a dor, a paixão, a morte, a própria vida se espelhando. Divindades são evocadas, são chamadas das fontes naturais para dar voz muitas vezes a tudo o que se desenrola.

Os estudiosos de literatura brasileira encontrarão aqui aspectos de uma reflexão da obra minuciosa construída em oficio de escritor por Joaquim Manuel de Macedo, um de nossos melhores. Aos leitores, por entre o “correram anos” (do poema) desde a primeira edição da obra em 1857, e depois a segunda edição (pós 1878) pela Garnier, da Rua do Ouvidor, de um Rio de Janeiro histórico agora, ficam as possibilidades de extrair uma leitura ampla da primeira geração romântica da literatura brasileira inspirado em um profundo arcano de amor, e também, aqui, qualquer brecha do gótico que se insere singularmente para leituras atentas, este tão amplamente apreciado em nossos dias presentes.

A presente edição, a terceira, num novo milênio, com capricho, traz-nos um enriquecedor estudo crítico da obra pela doutora em Teoria e História Literária: Ângela Maria Gonçalves Da Costa, além de ilustrações do artista plástico Kaio Romero.  

Dia Nacional do Livro: uma celebração brasileira

Você sabe por que 29 de outubro é o Dia Nacional do Livro? É que, em 1810, a Real Biblioteca Portuguesa foi transferida para o Brasil e, em 29 de outubro foi fundada a primeira biblioteca brasileira, a Biblioteca Nacional. O acervo havia chegado dois anos antes, época em que a Família Real Portuguesa aportou em Salvador. No acervo, além de livros, havia medalhas, mapas, moedas e estampas que se tornaram parte da Biblioteca Nacional.

O primeiro livro editado no Brasil foi Marília de Dirceu, de Tomás Antônio Gonzaga. Para celebrar o Dia Nacional do Livro, a Ateliê preparou uma seleção especial:

Nós e as Palavras – Levar a reflexão literária da academia ao leitor de literatura. Esta é a ambição do volume organizado pelos professores Patrícia Cardoso, presidente da ABRAPLIP – Associação Brasileira de Professores de Literatura Portuguesa – e Luís Bueno (autor de Capas de Santa Rosa). O livro, que surgiu a partir da proposta temática do XXVI Congresso Internacional  da ABRALIP, reúne textos de vários autores sobre o ensino de literatura portuguesa, a obra de autores portugueses e a circulação da literatura portuguesa em outros países. 

 ParadeiroParadeiro, romance de estreia de Luís Bueno, foi aclamado pela crítica ao vencer o Prêmio Literário Biblioteca Nacional na categoria romance. No livro, o autor traz à tona questões como doença e morte, experiências radicalmente transformadoras da existência humana. O livro tem uma estrutura incomum, que instiga o leitor. Paradeiro tem como um de seus cenários a cidade de São José dos Campos. Mas, o romance acontece em épocas diferentes e a ação envolve personagens distintos. 

O Língua – O primeiro estranhamento do leitor acontece na capa. Língua é substantivo masculino? Sim. Neste caso, o termo é usado para indicar o intérprete que mediava as relações entre portugueses e índios, ainda durante o século XVI no Brasil. O romance de Eromar Bomfim alterna narradores para contar a história de Leonel, filho da índia Ialna e de Antônio Pereira, fazendeiro e padre.

História da Língua Portuguesa – Como a língua portuguesa mudou do século XII ao XX? Qual é a História da nossa língua? Esta obra mostra preocupações de caráter explicativo e discute questões que só a investigação histórica pode revelar. Cada um dos seis capítulos vem acompanhado de textos anotados, vocabulário crítico e bibliografia comentada.

Os Cem Menores Contos Brasileiros do Século

Organizado por Marcelino Freire, o livro parte do princípio de que, em tempos de Twitter, a linguagem tem de ser renovada, para ser ainda mais concisa e objetiva. O autor de Angu de Sangue convidou cem autores brasileiros (entre os quais Laerte, Manoel de Barros, Glauco Mattoso, Lygia Fagundes Telles, Millôr Fernandes e Marçal Aquino) paras escrever histórias de até 50 letras. O resultado são contos tão curtos quanto interessantes. Perfeito para quem tem apenas poucos minutos disponíveis, já que os contos podem ser lidos de maneira independente e não levam mais que alguns segundos para serem lidos.

E Fizerom Taes Maravilhas... – Histórias de Cavaleiros e Cavalarias
E Fizerom Taes Maravilhas… – Histórias de Cavaleiros e Cavalarias

De onde vem o gosto pelos romances ou novelas ou livros de cavalarias? Antes de tudo, de sua natureza fantasiosa – permeada de monstros, gigantes, fadas, castelos, animais estranhos, acontecimentos miraculosos, e de sua apologia do heroísmo guerreiro – com um exército de cavaleiros que, além de vassalos fiéis e imbatíveis, são em geral belos e perfeitos amantes. Mas esses ingredientes aliciantes, pura ficção, estão intrinsecamente plantados na História de seu tempo e são, por isso mesmo e como qualquer boa literatura, uma poderosa fonte de conhecimentos do Homem e da sociedade que o rodeia. Basta conferir a diversidade temática dos artigos reunidos neste livro.

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Dia dos Professores: Dicas de leitura

No Brasil, o Dia dos Professores é comemorado em 15 de outubro. Mas você sabe por quê? A razão é que, nesta data, no ano de 1827, D. Pedro II baixou um decreto segundo o qual era obrigatório que todas as vilas, lugarejos e cidades brasileiras tivessem suas “escolas de primeiras letras”. Ali, os meninos seriam ensinados a escrever, calcular e ler. Já as meninas ficariam restritas aos ensinamentos que lhes pudessem ser úteis na vida doméstica: bordar, cozinhar, cuidar da casa. Apesar dessa diferença incomensurável, que aos poucos, com o passar do tempo, foi sendo diminuída, a implantação dessa decisão foi de grande importância para a educação no país.

Mais de um século depois, em 1947, um professor teve a idéia de transformar a data em feriado escolar, pois o segundo semestre tinha poucas datas de descanso e essa seria bem-vinda (e com uma justa razão: homenagear os professores). Entretanto, foi apenas em 1963 que a data – um feriado escolar nacional – tornou-se um decreto federal.

Desde então, todos os anos, essa que é uma das belas profissões do mundo é celebrada no Brasil. Neste ano, para comemorar, a Ateliê preparou uma lista com dicas de leitura para professores dos mais variados gostos e interesses:

A Arte de Argumentar – Gerenciando Razão e Emoção

Este livro pode ajudar professores de todas as áreas do conhecimento, que pretendem melhorar os relacionamentos e aperfeiçoar as relações interpessoais por meio da criatividade e do trabalho em equipe.

 Sôbô – Uma Saga da Imigração Japonesa

Em 1930, Tatsuzô Ishikawa embarcou para o Brasil no navio La Plata Maru, como imigrante individual japonês, com auxílio do governo. Com este livro, que descreve a imigração japonesa no Brasil, Tatsuzô ganhou o primeiro prêmio Akutagawa – o prêmio literário de maior valor no Japão, instituído em 1935. O livro tem tradução de Maria F. Tomimatsu, Monica Okamoto e Takao Namekata. Uma opção de leitura para quem gosta de boas histórias que recontem a História.

Os Evangelhos – Uma Tradução

Textos conhecidos por seu caráter religioso traduzidos, diretamente do grego, com o objetivo de destacar o valor literário das escrituras. Esta nova tradução dos Evangelhos procura trazer ao frescor de um português literário contemporâneo a “surpresa e o encantamento” da leitura do original grego, como diz o próprio tradutor em sua apresentação. Para professores interessados em obras intelectualmente instigantes.

Velhos Amigos

Contos, poemas e crônicas se misturam nessa obra de Ecléa Bosi, que aqui faz uma abordagem literária sobre a memória individual e coletiva no Brasil. São lembranças reais de velhos operários, imigrantes e outros personagens anônimos da vida brasileira, organizadas em pequenas narrativas. Uma leitura que agrada a quem quer aliar o prazer da leitura ficcional ao conhecimento sociológico.

Geometrias de Cosmos

Primeiro volume da série “A Trilogia da Invisibilidade”, livro do professor Rodrigo Suzuki Cintra reúne poemas que são metáforas da invisibilidade, criando, nas palavras do autor, sentimentos e percepções que estão por trás das palavras. “Para mim, a poesia é a arte de fabricar, de simular, de blefar, de criar sentimentos”, explica Cintra. O livro é um convite aos professores que queiram “entrar no jogo” e perceber o invisível.

Massao Ohno, Editor

Massao Ohno foi um dos maiores editores do país, deixando sua ideia e marca que influenciou o mercado editorial independente. Este imenso trabalho gráfico pode ser acompanhado neste livro, escrito e organizado pelo pesquisador José Armando Pereira da Silva. A obra tem projeto gráfico de Gustavo Piqueira e Samia Jacintho e é uma excelente opção de leitura para professores que acreditam que livros também podem tratar de livros e serem visualmente belos.

Leia trechos de Museu da Infância Eterna

A infância é uma energia que nunca morre, um tempo idílico de boas lembranças, que nos remete à pureza e à inocência. Miguel Sanches Neto reuniu, neste Museu da Infância Eterna, crônicas sobre este tempo delicado, “que podem ser lidas como um eterno presente”. A seguir, você tem acesso a alguns trechos do livro:

“Mãe, pai e irmãos trabalhando sem lamúrias: aqueles eram anos de labor e alegria, de fé e fascínio, de suor e sono. Com o que ganhava, o menino podia comprar seu lanche, garrafas de sodinha e as bolinhas de gude, chamadas burcas. E Burca virá a ser o apelido de uma de suas paixões adolescentes, por causa de certos olhos negros como as bolinhas usadas nos jogos em quintais de terra”. (p.9)

“Meu avô usou chapéu a vida toda. Eu passava pela loja de sapatos ao lado da igreja matriz e via, nas vitrines de madeira escura, chapéus pretos, muito bonitos, e ficava esperando o dia em que também poderia ter o meu – o tempo estava emperrado na cidade, mas logo ela seria incorporada à civilização. Um dos prefeitos instalaria uma tevê na praça. A cidade entraria no presente, os hábitos mudariam, eu cresceria, ouvindo agora rock. Não deu tempo para eu usar chapéu”. (p. 39)

“Nessa idade e ainda me assustando com um barulho provavelmente
de raposa no forro – lembrei então que a casa é de laje e que raposas não são tão comuns assim. Acendi a luz da sala de tevê e encontrei um Papai Noel sentado em frente da lareira. Ele estava com a roupa rasgada e suja de carvão. Em toda a minha vida, nem quando eu acreditava em Papai Noel, ele me apareceu. Depois deixei de me fiar nessas bobagens e sempre fiz os presentes natalinos de minha filha chegarem acompanhados de nota fiscal em meu nome, o que era motivo de espanto e revolta entre os vendedores” (p.56).

“O que antes era cosmos se tornara caos. O caderno deixava de ser espaço para a ordenação do mundo e das ideias e assumia sua condição de muro, onde todos inscreviam uivos de raiva e de amor. E apareciam nos cadernos nomes de pessoas queridas, palavras sujas, riscos, garranchos, desenhos, principalmente desenhos – caricaturas entre os que tinham maior aptidão para os traços, e rudimentares casinhas com árvore e sol nascendo entre nós, carentes de qualquer vocação”. (p. 95)

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