Resenhas

A Nebulosa, de Joaquim Manuel de Macedo

Nesta resenha, Maria Louzada, do perfil de Instagram @vidabrevelivrosdemais, escreve sobre A Nebulosa:

Joaquim Manuel de Macedo (1820-1882) escreveu mais de vinte romances, entre eles o popularíssimo e delicioso romance de costumes da sociedade carioca: A Moreninha, seu primeiro livro, publicado em 1844. Ele nasceu em Itaboraí, formou-se em medicina, foi deputado, foi professor do Colégio Pedro II, fundou uma revista (“Revista Guanabara”) ao lado de Gonçalves Dias, e exerceu o ofício da pena, como se dizia em seus tempos que foram os do período imperial do Brasil. De talento versátil, escreveu, afora os romances, também: teatro, memórias, e enveredou pela poesia; aqui se destacando A Nebulosa (1857), que obteve enorme sucesso quando do seu lançamento, saudado pela crítica especializada de então como “obra primorosa”.

A Nebulosa é um poema em forma narrativa, composto de seis cantos e um epílogo, grande parte em versos decassílabos brancos, apurados em efeitos que nos conduzem à representação do Romantismo, escola literária de sua época.

O tom vai bem além da forma de apenas uma “harpa sonora” a que se refere casualmente no primeiro canto, pois, embora tenha o mar como cenário marcante, à narrativa poética se debruçando no que tange aos mistérios das ondulações das ondas, um Trovador (personagem central do poema) se insere na linguagem em metamorfose entre amor e melancolia, com efeitos dramáticos. Expondo um triângulo amoroso, a poesia lírica, os versos em tratamento metrificado expõem uma alma de história vívida num universo que se vai desenrolando quase onírico por entre fadas, por entre feiticeiras. A acuidade dos seus versos traz um quadro quase elegíaco, um mundo perdido, o exílio. Acima de tudo, o poema é dedicado em narrativa, antes de todas as divindades clamadas como musas do estilo, antes da métrica empregada, o poema é dedicado a contar de um amor, de uma paixão trágica que, como se expressa no canto VI da “Harpa Quebrada” nos versos LVI, antes do epílogo, na ênfase do amor assim definido como: “um desses beijos que uma vida pagam.”

A literatura na sua poética romântica aportou no Brasil criando uma identidade miticamente povoada por peregrinas, flores, pelo mancebo trovador, pela mãe que transcende em amor, uma influência que também vinha de terras longínquas, tentando encontrar um caminho que levasse ao âmago de uma terra própria, tropical que necessitava, antes de tudo, conhecer-se. Assim, neste seu momento, o autor Joaquim Manuel de Macedo formulou nos monólogos de seus personagens, nos seus diálogos e em suas longas e trabalhadas descrições a trágica angústia dos sentimentos que não conseguem ser resgatados, a dificuldade humana perante os próprios sentimentos, tudo em singular contraste com nossa exuberante natureza, onde em seus elementos mais puramente autênticos, reina em imagem, em som, em olfato tudo que faz transbordar: a dor, a paixão, a morte, a própria vida se espelhando. Divindades são evocadas, são chamadas das fontes naturais para dar voz muitas vezes a tudo o que se desenrola.

Os estudiosos de literatura brasileira encontrarão aqui aspectos de uma reflexão da obra minuciosa construída em oficio de escritor por Joaquim Manuel de Macedo, um de nossos melhores. Aos leitores, por entre o “correram anos” (do poema) desde a primeira edição da obra em 1857, e depois a segunda edição (pós 1878) pela Garnier, da Rua do Ouvidor, de um Rio de Janeiro histórico agora, ficam as possibilidades de extrair uma leitura ampla da primeira geração romântica da literatura brasileira inspirado em um profundo arcano de amor, e também, aqui, qualquer brecha do gótico que se insere singularmente para leituras atentas, este tão amplamente apreciado em nossos dias presentes.

A presente edição, a terceira, num novo milênio, com capricho, traz-nos um enriquecedor estudo crítico da obra pela doutora em Teoria e História Literária: Ângela Maria Gonçalves Da Costa, além de ilustrações do artista plástico Kaio Romero.  

O Lugar Mais Longe da Morte

Por: Renato Tardivo*

Museu da Infância Eterna, de Miguel Sanches Neto, reúne crônicas escritas entre 2003 e 2011. Como indica o título, o tema da infância, presentificado sobretudo nas memórias do cronista acerca de seus primeiros anos de vida e em sua experiência com os filhos, atravessa a coletânea.

De início, chama atenção a confluência entre o aspecto datado que, via de regra, marca o formato da crônica e a mistura de tempos que, liricamente, desenha a infância. Talvez por isso, alguns textos passem por excelentes contos. Lembro-me de ter experimentado algo parecido lendo as crônicas semanais de Carlos Heitor Cony.

Com efeito, “o escritor escolhe as palavras marcantes”, escreve Sanches Neto, marcando as diferenças entre as palavras utilizadas por seus pares e pelo cientista, pelo político, pelos apaixonados e pelo diplomata. Diferentemente destes, cuja linguagem, atendendo a demandas preestabelecidas, resulta esvaziada de sentido, o escritor aprende “seu abecê sempre pela via torta”, exercendo, assim, “uma fidelidade erótica à infância”.

Não é aleatório que alguns textos sejam envoltos por uma atmosfera onírica, quando não são expressão literal de um sonho, mas do qual se acorda para constatar que “aquelas pessoas passaram, nós mesmos, minha mulher e eu, já não somos como nas fotos. O mundo em que vivíamos morreu, legando-nos frágeis sinais”. Aí está a potência dessas crônicas que, como na definição de Roland Barthes a respeito da fotografia, soam “imagem viva de uma coisa morta”.

A esse propósito, a seguinte passagem pode ser lida como metáfora do livro: “Um caminho me levava ao passado, o outro me devolvia ao presente. Dividido entre os dois, sofria novo drama, saber a qual deles eu pertencia”. Haverá resposta para esse dilema? O cronista confessa que, na época em que sofria esse drama, começou a escrever. E, assim, passou a dar voz a esse sofrimento para encaminhá-lo transformado.

Eis o acervo desse museu: reeditar o drama que nos marca desde o nascimento por meio de tonalidades diferentes. Temos, aqui, um desfile de representações do que ficou para trás, e que nos impele a seguir. Afinal, “a infância […] é o lugar mais longe da morte aonde podemos chegar”. 

Conheça outros livros de Miguel Sanches Neto

*Psicanalista e escritor. Professor colaborador do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo. Autor, entre outros, do ensaio Porvir que Vem Antes de Tudo (Ateliê/Fapesp), da coletânea de contos Silente (7Letras) e do romance No Instante do Céu (Reformatório).

Esaú e Jacó: o penúltimo romance de Machado de Assis

Por Renata de Albuquerque*

Publicado pela primeira vez em 1904, Esaú e Jacó é o penúltimo romance de Machado de Assis. A Ateliê acaba de lançar a edição, dentro da Coleção Clássicos Ateliê, com texto fidedigno (estabelecido segundo a vontade do autor, em vida), com apresentação de Paulo Franchetti e notas de José de Paula Ramos Jr. As ilustrações são de Mariana Coan.

O título, retirado do episódio bíblico sobre o desentendimento de dois irmãos, dá pistas sobre como os personagens Pedro e Paulo (também irmãos) vão se comportar ao longo da narrativa. Mas, ao contrário da história bíblica, os irmãos do romance machadiano não têm uma razão explícita para brigas. O desentendimento seria “ab ovo” (desde o nascimento) e com dois objetos definidos: a disputa pelo amor de Flora e as questões políticas (Pedro é monarquista; Paulo é republicano).

Um narrador problemático

Se Bentinho (Dom Casmurro) ficou conhecido como um narrador não confiável, por contar em primeira pessoa a história de um suposto adultério (não confirmado), Machado de Assis refina a problemática do narrador em Esaú e Jacó. Supostamente ele seria narrado pelo Conselheiro Aires (que volta em Memorial de Aires, último romance do escritor carioca) por meio de seus “cadernos manuscritos” encontrados após a morte do personagem, conforme lemos na Advertência.

Mas, logo no início da obra, o capítulo XII, chamado “Esse Aires”, começa assim: “Esse Aires que aí aparece conserva ainda agora algumas virtudes daquele tempo, e quase nenhum vício”. Ora, o narrador não falaria de si mesmo nesse tom, pensa o leitor. A partir desse momento, Aires é também personagem do romance.

Então, afinal, quem seria o narrador?

Sílvia Maria Azevedo, em seu texto Esaú e Jacó: de rivalidades e progenitura, levanta a hipótese de Aires ser um narrador-transcritor, ou seja, alguém que teria lido os cadernos de Aires e transcrito a história dos irmãos gêmeos Pedro e Paulo. Assim, para quem transcreve, Aires seria também personagem, um aspecto que repõe a complexidade da obra machadiana para o leitor, que tem, aqui, mais algo com que se preocupar para além do enredo.  

Enredo

A história começa com a visita de d. Natividade – a mãe dos gêmeos – à cabocla do Castelo, para saber sobre o futuro dos filhos. Essa visita de certa forma remete o leitor ao episódio bíblico da vinda do Anjo Gabriel que anuncia à Maria um milagre. Mas, aqui, não é o Anjo que revela algo, mas a mulher grávida que vai em busca de respostas – um rebaixamento proposital, uma pista de quem nem tudo (ou nada) nessa história será divino.

O conflito entre ciência e religião; o debate de questões sociais e políticas perpassa todo o livro, colocando em xeque as certezas que o leitor porventura venha a ter: as disputas entre os irmãos não permite que se possa “escolher um lado”: não há vilões ou heróis em Esaú e Jacó. Tudo parece levar a uma grande indefinição.

Um exemplo disso é o fato de uma moça do século XIX, Flora, assumir que não consegue decidir-se entre seus dois pretendentes – os irmãos. Flora adoece e morre sem decidir-se, mas consegue que os gêmeos prometessem a ela dar um basta em suas discórdias. Ainda que indecisa, ela é quem decide pela paz entre os irmãos, que se estabelece durante um curto período. Depois, a paz volta a dar lugar à discórdia.

Não por acaso, a história da paz em nome de uma mulher à beira da morte se repete quando d. Natividade pede a eles, no leito de morte, que esqueçam as diferenças.

Tudo, em Esaú e Jacó, gira em torno da rivalidade dos irmãos. Pedro estuda Medicina; Paulo, Direito. e, como ela se intensifica a cada passagem, tal rivalidade parece ter a função de reforçar as semelhanças entre Pedro e Paulo – tão iguais fisicamente, com ideias tão distintas – defendidas de uma maneira tão parecida: o embate. Por exemplo, tanto Pedro quanto Paulo se elegem deputados – mas, cada um por um partido diferente. Assim, podemos entender Pedro e Paulo como a metonímia das ideias que defendem: República e Monarquia seriam regimes igualmente problemáticos, um tema que Machado tratava “a quente”, durante a transição entre um e outro.

*Jornalista, Mestre em Literatura Brasileira pela FFLCH/USP, autora da Dissertação Senhoras de Si: o Querer e o Poder de Personagens Femininas nos Primeiros Contos de Machado de Assis.

Herdando uma Biblioteca: uma declaração de amor aos livros

Por: Renata de Albuquerque*

Assim como “não se compra um livro pela capa” – ditado popular que nos lembra sobre o quanto podemos nos enganar com o que está aparente – nem sempre é possível “comprar um livro pelo título”. É o que acontece com este Herdando uma Biblioteca, de Miguel Sanches Neto, cuja segunda edição (revista e ampliada) acaba de sair pela Ateliê. Afinal, quem lê apenas o título imagina que o autor tenha recebido como legado uma coleção de livros.

Ao abrir o volume, descobrimos que não é isso exatamente o que aconteceu. As crônicas trazem reflexões sobre o mundo do livros e contam um pouco da trajetória do autor, filho de família modesta e pouco letrada do interior do Paraná. Na época, conta Sanches Neto, ele tinha quase nenhum contato com livros que não fossem os didáticos e, apesar disso, tornou-se um bibliófilo na vida adulta.

Mas, apesar de não ter herdado uma biblioteca, Sanches Neto nos conta, com delicadeza, como construiu a sua e que heranças ligadas ao livro trouxe desde a infância. Já os primeiros parágrafos emocionam qualquer leitor amante de livros. A maneira delicada, perspicaz e singela com que o autor conta passagens de sua história enquanto leitor fazem do volume uma verdadeira celebração ao mundo dos livros.

Ao contar fragmentos de sua história, Sanches Neto lembra a cada leitor de reconstruir, para si mesmo ou para os outros, a sua trajetória em meio aos livros. As idas à biblioteca pública, o único livro disponível em casa (uma Bíblia), os livros abandonados por uns e encontrados por outros, os livros ruins recebidos de amigos bons que perguntam nossa opinião que não podemos dar sinceramente.

 “É um volume de crônicas sobre como, vindo de uma família de analfabetos, eu tive que inventar a minha biblioteca, tive que acreditar que era, sim, possível uma vida intelectual ao lado dos livros. Este é meu único volume de crônicas que não foi publicado em jornais. Nasceu como projeto estruturado para livro, como se fosse um romance fragmentado de meu amor à biblioteca”, diz o autor.

Com uma escrita afetuosa, que traz à tona memórias valiosas de “amor à biblioteca”, Sanches Neto envolve o leitor em uma atmosfera idílica, recriando histórias que não se prendem apenas ao livro, mas ao universo que o permeia, como é o caso da deliciosa crônica “A Arte de Apontar Lápis”.

Muitas das importantes experiências pelas quais um leitor passa ao longo da vida estão nas páginas de Herdando uma Biblioteca, um livro que consegue ser, a um só tempo, uma história contada singularmente e um incentivo para que, ao fechar o livro, cada leitor torne-se autor de sua própria história, revivendo, nem que seja apenas na lembrança, as passagens que o fizeram amar os livros.

*Jornalista, Mestre em Literatura Brasileira pela FFLCH/USP, autora da Dissertação Senhoras de Si: o Querer e o Poder de Personagens Femininas nos Primeiros Contos de Machado de Assis.

No Dia do Psicólogo, livros sobre psicologia e psicanálise

Dia 27 de agosto é comemorado o Dia do Psicólogo, um profissional responsável pela manutenção da saúde mental, pelo estudo do comportamento humano e comprometido com a promoção dos direitos humanos e a transformação da realidade social.

Em 2020, quando passamos grande parte do tempo isolados de outras pessoas, por conta da pandemia do novo coronavírus, a importância desse profissional ganhou ainda mais evidência. A busca por esse tipo de atendimento subiu, com a possibilidade de realizar consultas online.

Na Ateliê, a área de psicologia e psicanálise merece destaque. São quase duas dezenas de títulos dedicados ao assunto, publicados ao longo da história da editora.  E, para comemorar o Dia do Psicólogo, selecionamos alguns títulos em destaque:

Proust, Poeta e Psicanalista

Philippe Willemart problematiza trechos da obra proustiana a partir da psicanálise. O livro analisa clássicos, como Em Busca do Tempo Perdido, e inclui manuscritos não disponíveis para o leitor brasileiro. Com esse riquíssimo material, o autor traça relações entre a criação literária (o poeta) e o conhecimento do homem (o psicanalista).

Arte, Dor – Inquietudes entre Estética e Psicanálise

Entender a percepção como fenômeno estético é o que motiva as reflexões deste livro. Os treze ensaios retomam ideias de Lyotard, Argan, Winnicott, Bachelard, Chauí, entre outros. No entanto, o pensamento de Frayze-Pereira gira em torno das obras de Freud, Merleau-Ponty e Foucault. Com eles, o autor mostra que a arte se faz no encontro de dois sentimentos: o da forma e o do mundo. A partir dessa conexão entre percepção e política, a obra lança nova luz sobre o entendimento humano.

Eugênio Montale – Criatividade Poética e Psicanálise

Marisa Pelella Mélega analisa textos do poeta italiano e de autores que fizeram de sua obra objeto de crítica. A partir dessas leituras, propõe sua própria hipótese interpretativa, com o aporte da psicanálise contemporânea. A autora encontra na poética de Montale subsídios para pensar a passagem do tempo, a finitude da vida, a angústia da separação e, sobretudo, a emoção como centro da experiência humana.

As Portas do Sonho

O sonho é “o mais antigo e complexo dos gêneros literários”: quem sonha é poeta da própria imaginação. Para além da interpretação psicanalítica, a autora vê no mundo onírico um modo de conhecer a cultura de um período histórico. É com essa perspectiva que ela estuda os sonhos na Grécia Antiga, como o de Penélope, na Odisseia, e os de Clitemnestra, nas tragédias de Sófocles e de Ésquilo. As imagens do livro ajudam a compor a análise, revelando aspectos importantes da sociedade grega – e da nossa.

Cores de Rosa

 “As cores são ações da luz. Ações e paixões”, diz Goethe. E é à reverberação de significados desta frase, antes poética que científica, que se quer vincular o título deste livro de ensaios sobre Grande Sertão: Veredas e alguns contos e novelas de Guimarães Rosa. Efetivamente, num recurso interpretativo, alguns de seus textos, objetos aqui de análise, são colorizados. As cores estão também presentes nas fotografias de Germano Neto, que povoam estas páginas: que essas fotos cumpram sua função de suporte imagético para o mundo do sertão, na sua realidade poética e geográfica – mesmo que saibamos, com Riobaldo, que “sertão: é dentro da gente.”

Aldo Manuzio: uma aventura chamada livro

Por Renata de Albuquerque*

A Ateliê Editorial acaba de reeditar Aldo Manuzio. Editor. Tipógrafo. Livreiro. O livro, cuja primeira edição é de 2004, estava esgotado e o fato de voltar às prateleiras deve ser comemorado. Afinal, mais que uma simples biografia de uma figura fundamental para o universo dos livros, a obra percorre e  analisa cuidadosamente as contribuições de Manuzio, mestre quinhentista (1450-1515).

O livro é escrito pelo historiador e pesquisador de projetos gráficos Enric Satué, que é historiador, teórico e crítico de projetos gráficos, além de projetista, investigador e divulgador de livros. O estudioso já publicou mais de uma dezena de livros, ganhou diversos prêmios e debruçou-se sobre a vida e obra de Manuzio, um nome central para a cultura do livro no mundo.

O livro como objeto físico tem mais de cinco séculos e meio de História, tendo sido pouco alterado estruturalmente desde sua criação. E as contribuições de Manuzio para este objeto de desejo, ainda que feitas no início da Idade Moderna, permanecem até hoje.

Aldo Manuzio

Ainda na Introdução, descobrimos que o autor considera apenas três invenções importantes para o livro que não tenham sido ideias de Manuzio: a tipologia estreita, encolhida e condensada (criada no século XIX); a publicação da fotografia em livro e o livro com texto linear (contribuição dada por Jan Tschichold). Logo no início da leitura, a sensação – que depois se confirma – é que, sem Manuzio, o livro não seria o que conhecemos hoje. É de Manuzio, por exemplo, a primeira publicação da História em tipografia cursiva. “Justamente na biblioteca do poeta Piero Bembo, Manuzio encontrou o legendário manuscrito autógrafo de Francesco Petrarca, que dizem ter utilizado para compor a primeira publicação da história em tipografia cursiva, editada em 1501”, explica Satué.

Aldo Manuzio. Editor. Tipógrafo. Livreiro analisa o livro como objeto, contempla a vida e obra de Manuzio e faz referências críticas à situação atual do livro. Conta, por exemplo, como Manuzio teria embarcado na aventura de tornar-se editor – com a ajuda financeira de Giovanni Francesco Pico della Mirandola, que investiu na ideia de seu professor e amigo.

Violinos e “efes”

Durante a leitura, descobrimos ainda que a tipografia cursiva teria “inspirado” os luthiers, criadores de violinos da cidade de Cremona, na Itália (país natal de Manuzio). “Será que a influência cultural das formas tipográficas aldinas, estendendo-se além de seus limites razoáveis, alcançou a música sinfônica, da qual os violinos são a parte substancial? Se assim for, toda a numerosa família das cordas traria no peito esse doce estigma aldino, de tal sorte que, ao contemplar uma grande orquestra sinfônica, poderíamos encontrar até setenta e cinco efes cursivos de diferentes tamanhos”, diz o texto.

Com quase 300 páginas, o livro fala de diagramação, História, projetos editoriais e muitos outros aspectos da editoração, em capítulos que abordam as variadas facetas de Manuzio: editor, tipógrafo e livreiro – e a obra que publicou. Traz ainda um capítulo especial com informações sobre o tempo em que Manuzio viveu, as pessoas com quem se relacionava – e como influenciou e foi influenciado por elas. Por fim,  Aldo Manuzio. Editor. Tipógrafo. Livreiro traz uma reflexão sobre o legado deste gênio, sendo de grande interesse para quem trabalha no mercado editorial ou mesmo para quem ama livros e quer saber um pouco mais sobre os aspectos formais desse objeto que, há mais de 500 anos, encanta e fascina leitores ao redor do mundo.

*Jornalista, Mestre em Literatura Brasileira pela FFLCH/USP, autora da Dissertação Senhoras de Si: o Querer e o Poder de Personagens Femininas nos Primeiros Contos de Machado de Assis.

Lira dos Vinte Anos

A Ateliê Editorial, neste momento de isolamento social, convidou alguns leitores para compartilharem suas impressões sobre alguns de seus livros prediletos. Com isso, pretendemos fortalecer uma comunidade de pessoas apaixonadas por livros, que sabem que eles podem ser uma excelente companhia em momentos como este. Este texto é de Talvanes Faustino*, que escreve sobre Lira dos Vinte Anos. Agradecemos a colaboração de Talvane e esperamos que todos apreciem a leitura!

No Solo Da Saudade Brotaram As Lembranças De Morrer Das Tripas Do Cadáver De Poeta Foi Feita A Lira Dos Vinte Anos

Quem nessa fronte que animava o gênio,

A rosa desfolhou da vida tua?

Onde o teu vulto gigantesco? Apenas

Resta uma ossada solitária e nua!

Machado de Assis

Manuel Antônio Álvares de Azevedo, Maneco, para seus amigos da Faculdade de Direito de São Paulo, nascido sob o signo de virgem no dia 12 de setembro de 1831. Neste mesmo ano, poucos meses antes do nascimento daquele que viria a ser uma das vozes poéticas mais importantes das letras nacionais, o então imperador do Brasil, Dom Pedro I, abdicava no dia 7 de abril do trono, em favor do seu filho Pedro II[1]. Em 1845 Álvares entra para o colégio Pedro II no Rio de Janeiro, então capital do império. Três anos mais tarde, o jovem bardo, entra para a Faculdade de Direito, lugar onde travaria relações de amizade com Bernardo Guimarães e Aureliano Lessa, que segundo seus biógrafos eram seus melhores amigos, por escolha de Coelho Neto (1864-1934). Álvares de Azevedo, tornou-se o patrono da cadeira número dois da Academia Brasileira de Letras[2] (ABL).

A Lira dos Vinte Anos é provavelmente a obra mais publicada de Álvares de Azevedo. Não é uma tarefa hercúlea encontrar edições desta belíssima obra: são inúmeras as opções e formatos. Assim como, não é impossível dizer, qual entre tantas, deve ser a preferência do leitor. A edição da Ateliê Editoral numa primeira mirada, não tem muito de especial. Mas, ao ler com mais atenção, vemos que nesta 4º edição há um ensaio introdutório a vida e obra de Álvares de Azevedo, a cargo do Dr. José Emílio Major Neto[3], que também fez as notas explicativas. São mais de 500 notas e estas servem como apoio ao leitor na busca pela compreensão da poesia do autor. Ao abrir o livro, nos deparamos com mais novidades, que tornam esta edição diferente de todas as outras que tive a oportunidade de ler. Esta é a primeira vez que vejo uma edição ilustrada da Lira dos Vinte Anos. As ilustrações ficaram a cargo de Ricardo Amadeo, suas ilustrações em preto e branco têm um charme muito especial e ajudam a vermos transformadas em imagem as belas palavras de Álvares de Azevedo. Para completar, temos uma cronologia da vida e obra do cantor da Lira, um vocabulário básico das palavras mais usadas e pequenos textos informativos sobre as influências de Álvares de Azevedo.

Numa resenha escrita por Machado de Assis, sobre o livro Lira Dos Vinte Anos, o velho bruxo, defende que estamos diante de um grande talento, mas que lhe faltou tempo, tempo não apenas para terminar os poemas que deixou incompletos, mas também, tempo para desenvolver sua poesia.

Aquela imaginação vivaz, ambiciosa, inquieta, receberia com o tempo as modificações necessárias; discernindo no seu fundo intelectual aquilo que era próprio de si, e aquilo que era apenas reflexo alheio, impressão da juventude, Álvares de Azevedo, acabaria por afirmar a sua individualidade poética. Era daqueles que o berço vota à imortalidade. (ASSIS, Resenha: Lira Dos Vinte Anos – Álvares de Azevedo, 2019)

Machado de Assis

Com isto Machado de Assis defende uma tese de que a pouca idade de Álvares de Azevedo e sua falta de experiência literária fizeram dele ainda um reflexo das suas influências. Machado fala obviamente de Lord Byron, poeta inglês e maior expressão do romantismo do seu país natal. Mas vale o destaque que Machado não perde de vista que Álvares é um “grande talento”. Mesmo ainda não tendo afirmado a sua individualidade, ele mostra na sua poesia que é destinado a imortalidade. Avançando na leitura vemos o Bruxo, tocar em outro tema caro, seria a sensibilidade demostrada nos poemas verdadeira?

O poeta português Fernando Pessoa, escreveu que “o poeta é um fingidor [..] que chega a fingir que é dor/ a dor que deveras sente” e esta palavra “dor” é sem dúvida uma das palavras com as quais podemos explicar a obra de Álvares de Azevedo. Avançando no texto do mestre, vemos que ele toca no tema da sinceridade da dor do Sr. Azevedo, “Nesses arroubos da fantasia, nessas correrias da imaginação, não se revelava somente um verdadeiro talento; sentia-se uma verdadeira sensibilidade. A melancolia de Azevedo era sincera” (ASSIS, Resenha: Lira Dos Vinte Anos – Álvares de Azevedo, 2019). E segue voltando a destacar a realmente lamentável falta de tempo que a existência deu ao poeta.

Álvares de Azevedo viveu pouco, mas viveu o suficiente para colocar seu nome no panteão das letras nacionais. Sua poesia que trata de temas tão íntimos e caros ao ser humano que, mesmo após 168 anos da sua morte, encontram nas almas de seus leitores, um solo fértil de saudade, onde brotam as flores das lembranças de morrer, regadas com as lágrimas descridas, que alimentam as tripas que formas as cordas das lira dos vinte anos e na suas cabeças, brilha a glória moribunda do poeta da morte, brilha, Álvares de Azevedo.

Bibliografia

ASSIS, M. D. (10 de Janeiro de 2019). Resenha: Lira Dos Vinte Anos – Álvares de Azevedo. Acesso em 28 de Maio de 2020, disponível em Blog Do Pensar Poético: https://pensarpoetico.wordpress.com/2019/01/10/resenha-lira-dos-vinte-anos-alvares-de-azevedo/#more-3438

ASSIS, M. D. (29 de Maio de 2020). ÁLVARES D’AZEVEDO (Poesias Diversas). Fonte: Machado De Assis UFSC: https://machadodeassis.ufsc.br/obras/poesias/POESIA,%20Poesias%20dispersas,%201855-1939.htm#%C3%81LVARESDAZEVEDO

AZEVEDO, Á. D. (2014). Lira Dos Vinte Anos. Cotia: Atiliê Editorial.


[1] Porém o pequeno príncipe não pôde assumir o trono por ter apenas 6 anos de idade. Como solução, se inicia o período regencial, que acaba em 1840 com o golpe da maioridade, voltando o poder para a dinastia Bragança, neste ano nosso poeta havia completado 9 primaveras.

[2] A cadeira da qual Álvares é patrono, segue atualmente ocupada pelo escritor Tarcísio Padilha.

[3] Doutor em Teoria Literária e Literatura Comparada pela USP (2007) e mestre em Teoria e História Literária pela UNICAMP (2001).

Talvanes Faustino

* Talvanes Faustino é natural de Maceió, Alagoas, graduando em História, porém, em processo de mudança para o curso de Letras, porque a literatura falou mais alto. É autor de livros de poesias e contos, todos publicados de forma independente. A primeira publicação é do livro Portal Da Escuridão Do Meu Olhar de 2012 e o último trabalho publicado é o conto “Pássaros e Morcegos” (2019). Além de Álvares de Azevedo, tem em autores como Machado de Assis, Victor Hugo, Graciliano Ramos e a influência e o aprendizado e o incentivo para continuar escrevendo.

Coração, Cabeça e Estômago: humor e crítica em um texto clássico

A Ateliê Editorial, neste momento de isolamento social, convidou alguns leitores para compartilharem suas impressões sobre alguns de seus livros prediletos. Com isso, pretendemos fortalecer uma comunidade de pessoas apaixonadas por livros, que sabem que eles podem ser uma excelente companhia em momentos como este. Este texto é de Camila Justo*, que escreve sobre Coração, Cabeça e Estômago, escrito por Camilo Castelo Branco em 1862 . Agradecemos a colaboração de Camila e esperamos que todos apreciem a leitura!

A leitura da novela satírica publicada em 1862, Coração, Cabeça e Estômago poderá nos ajudar a conhecer  Camilo Castelo Branco, o autor, e outros aspectos de sua obra.  Em relação à estrutura: apresenta um preâmbulo, sob forma de diálogo entre os amigos Faustino Xavier Novaes e o editor (provavelmente o próprio Camilo Castelo Branco) em torno de um amigo em comum, morto há seis meses. O editor em questão recebe a incumbência de organizar, revisar e publicar o livro de memórias do falecido Silvestre da Silva; e três partes , a saber: 

A primeira é intitulada CORAÇÃO e é a mais longa. Ela abarca boa parte do livro e vai de 1844 a 1854. Nela, Silvestre da Silva, apresenta-se como um saloio ingênuo, sonhador e cheio de esperança, que deixa sua pequena aldeia em Soutelo e migra para Lisboa, onde”inicia seu noviciado amoroso”. Nesse período, suas atitudes e decisões são norteadas pelos sentimentos e excessos de sua imaginação.

Ele ama (ou melhor, tenta amar, sete mulheres), mas sempre de forma instantânea (apaixona-se à primeira vista) e leviana, fortemente influenciado pelos romances e poesia românticos que ávida e irrefletidamente consome.

Silvestre tenta reproduzir a todo custo o estilo de vida e padrões de comportamento adotados por seus heróis e poetas românticos preferidos,  o que acaba desencadeando uma série de situações ridículas e jocosas e, ao mesmo tempo, dignas de reflexão. 

As mulheres pelas quais Silvestre se apaixona apresentam traços de caráter e personalidade semelhantes entre si, reproduzindo sempre os mesmos padrões de escolha de objeto amoroso: todas elas são frívolas, vaidosas, cínicas e interesseiras, e não hesitam em trocá-lo por homens endinheirados na primeira oportunidade.

Depois de sete decepções amorosas consecutivas, Silvestre ainda conhece outras duas mulheres: Paula, “a mulher que o mundo respeita” (é cínica, hipócrita e calculista, trai o conde com o qual se casa por conveniência), mas como é rica, a alta sociedade lisboeta faz vistas grossas ao caso extraconjugal que mantém com o mestre-escola e mesmo sendo adúltera é adorada em seu meio social; e a última é Marcolina, “a mulher que o mundo despreza”, foi aliciada e vendida pela mãe aos 14 anos de idade a um barão. 

Com a morte deste, Marcolina, casa-se com Augusto, um antigo amor, que após o casamento revela-se um homem violento, perdulário, libertino e jogador e dilapida o dinheiro obtido com venda das joias que a esposa recebera de presente. Desesperada e tendo de sustentar suas irmãs, vê-se obrigada a se prostituir. Marcolina e Silvestre se conhecem no Cais do Sodré, justamente no momento em que ela tencionava dar cabo de sua própria vida, pois havia contraído tuberculose e se sentia abandonada pela família.

Ao ouvir sua triste história, Silvestre se compadece da moça e a leva para sua aldeia natal em Soutelo, em busca de ares mais puros e benfazejos à sua debilitada saúde.

No leito de morte, Marcolina declara seu amor por Silvestre, que, ao mesmo tempo, se dá conta de também a amava, pois segundo ele, Marcolina era a mais verdadeira, pura, sincera e santa que “as mulheres que o mundo respeita”.

A segunda parte denomina-se CABEÇA (sede da inteligência, da razão, do cálculo, da consciência, do planejamento e da premeditação) e estende-se por cinco anos (1855-1860), em que Silvestre da Silva, entediado com a monotonia, a tristeza e fealdade de sua aldeia, muda-se para a cidade do Porto, onde passa a trabalhar como jornalista e se interessa pela política local.  

Faz duras críticas aos romances românticos franceses, questionando os padrões de beleza de suas heroínas, sempre pálidas, magras e frágeis a que as jovens procuravam imitar à custa de forçados jejuns e noites mal dormidas e que mulher portuense do passado tinha aspecto bonito, vistoso, saudável, era bem fornida de carne, tinha as faces coradas e mais disposição de ânimo. Silvestre acaba se envolvendo em uma série de confusões com figuras ilustres da sociedade portuense, denuncia sua hipocrisia, pondo a nu seus aspectos ridículos, degradantes e comezinhos, o que lhe trará sérios problemas financeiros e profissionais, e este será o motivo que o fará regressar definitivamente à aldeia onde nasceu.

Ilustração do livro Coração, Cabeça e Estômago, feita por Gustavo Piqueira

A terceira, e última parte denomina-se ESTÔMAGO (órgão que representa o instinto de sobrevivência, nossas necessidades básicas, instintivas tais como comer, beber, procriar, dormir). Nesse período,  que vai de 1860-1861, o protagonista procura uma vida bucólica, serena e isenta de preocupações.   Silvestre nos conta as razões por que se casou com Tomásia e como isto se deu.

Pode -se dizer que o título da novela é uma espécie de metáfora da trajetória de seu protagonista: no início é um saloio ingênuo, romântico, atrapalhado, cheio de esperanças, mas à medida que se decepciona com as mulheres com quem tenta se relacionar e com a sociedade em que se insere, deixa-se corromper pelo meio, tornando-se amargurado, cético, acomoda-se se ao status quo, tanto é verdade que morre de caquexia, empanzinado de tanto comer.

Por fim,  outro aspecto digno de nota é o modo como Camilo Castelo Branco satiriza o Romantismo, movimento estético e filosófico, a que num primeiro momento parece estar associado. Isto se evidencia pela maneira concisa, desidealizada, sem aqueles floreios retóricos, tão caros aos românticos, como  Silvestre da Silva, o narrador da novela nos descreve a personagem Tomásia.

Segundo ele, Tomásia é uma jovem rústica, “escura de inteligência”, não sabia ler nem escrever e era desprovida de vaidade. Porém, ao ler a novela, tem se a impressão de que ela era uma mulher sincera, de coração puro, inocente, sensata, trabalhadora, temente a Deus, forte tanto física quanto moralmente e o mais admirável, dotada de um senso prático incomum às mulheres do século XIX, sobretudo, se a compararmos àquelas que Silvestre conheceu nas cidades de Lisboa e Porto . 

Desta forma , cabe lembrar que no mesmo ano de publicação desta obra veio a lume a novela passional  Amor de Perdição, considerada tanto pelos críticos e historiadores literários quanto pelo público, a obra-prima de Camilo Castelo Branco, mas  a leitura de Coração, Cabeça e Estômago deixa claro que sua produção literária  é mais vasta e diversificada e não se restringe às histórias fatalistas, de amores impossíveis, infelizes, repleto de lances trágicos ou melodramáticos, como muitos manuais de literatura do Ensino Médio querem nos fazer crer.

*Graduada em Letras Português/Espanhol pela UNIVAP (Universidade do Vale do Paraíba 2003), especializada em Literatura pela UNITAU (Universidade de Taubaté 2008/2009).

Um clássico não merece um triste fim

A Ateliê Editorial, neste momento de isolamento social, convidou alguns leitores para compartilharem suas impressões sobre alguns de seus livros prediletos. Com isso, pretendemos fortalecer uma comunidade de pessoas apaixonadas por livros, que sabem que eles podem ser uma excelente companhia em momentos como este. Este texto é de Douglas Mendes Ornellas, que escreve sobre Triste Fim de Policarpo Quaresma. Agradecemos a colaboração de Douglas e esperamos que todos apreciem a leitura!

Algo que surpreende tanto pela qualidade de construção, quanto pela simplicidade e beleza não deve ser mantido como um segredo sob sete chaves, mas merece ser destacado e compartilhado. Assim como eu, acredito que muitos de vocês concordarão ainda mais quando esse “algo” se trata de um livro, certo? É exatamente esse o sentimento que tenho quando indico aos meus amigos, colegas de profissão e alunos as obras da Coleção Clássicos, da editora Ateliê Editorial.

Como um leitor assíduo, muito por conta da profissão e por formação como indivíduo, eu acho válido destacar aqui a imensa satisfação que senti ao adquirir algumas obras da coleção mencionada, dentre elas Bom Crioulo, de Adolfo Caminha, Quincas Borba, de Machado de Assis, O Cortiço, de Aluísio Azevedo. No entanto, detenho-me aqui acerca do romance que atualmente estou relendo e utilizando em sala de aula: Triste Fim de Policarpo Quaresma, de Lima Barreto (1881-1922).

Com sua primeira publicação em 1915, o romance deixou evidentes os motivos pelos quais faz parte (e com muito merecimento) do cânone da Literatura Brasileira. A obra, estudada como originária do período pré-modernista – um consenso entre estudiosos não como uma escola literária, mas como um momento precursor e importante que culminou no Modernismo Brasileiro – consegue se manter atual tanto no cenário de escrita literária, quanto no sociocultural.

A narrativa do grandioso Lima Barreto, ao contrário do que muitos leitores pensam quando vão “encarar” a leitura de um clássico, mostra-nos como é simples, do ponto de vista linguístico, e ao mesmo tempo complexa, ao adotar uma postura sensata e de riqueza crítica. Os contrastes, no entanto, não se limitam somente aos mencionados: as personagens são ricas, mesmo as secundárias, ao abordarem diferentes pontos de vista sobre a cidade, sobre as relações pessoais e acerca das construções sociais que ainda perduram e afetam a vida dos indivíduos fora das páginas.

Policarpo Quaresma, protagonista da obra, pode ser considerado a caricatura de um brasileiro com sentimento ufanista, grandiloquente, porém ingênuo em suas aspirações patrióticas, o que muitas vezes nos faz refletir, conforme a narrativa avança, sobre como a cegueira fanática, aquela que negligencia os problemas em nosso próprio espaço nacional, pode ser algo desolador para uma construção de mundo ideal. Além do emocional da personagem ser reafirmado em cada capítulo como cabisbaixo e introspectivo, a identidade de Quaresma também se mostra bem condensada sobre o que é o cidadão patriota: não se pode dizer que sua construção é baseada em indivíduos de uma determinada região ou que tenha características plurais, mas que, segundo o próprio narrador, “era tudo isso junto, fundido, reunido, sob a bandeira estrelada do Cruzeiro”.

Será difícil leitores contemporâneos não se identificarem com as personagens do romance ou não perceberam diálogos com o contexto brasileiro atual. Personagens como Ricardo Coração dos Outros, que incorpora o indivíduo marginalizado em busca de ascensão; Ismênia, com seus conflitos intimistas e o peso que carrega de uma construção tradicionalista e patriarcal; Olga, que serve como um contraponto – de certa forma – para a personagem mencionada anteriormente; General Albernaz, como uma crítica a um modelo que está em ruínas, mas que se faz presente por meio das narrativas – bem como tantos outros – representam também muito dos que conhecemos e pertencem ao nosso cotidiano.

Por fim, é importante evidenciar como a leitura da obra torna-se prazerosa e instigante e, em certos momentos, até mesmo incômoda num sentido positivo a cada página, a cada novo avançar das situações que giram em torno do Quaresma. Certamente, muitas reflexões saltarão das páginas diretamente para o imaginário do leitor que se permite ser tocado sutilmente pelas palavras e que encontra no ato de ler uma possibilidade de se inserir em um novo mundo – um mundo que não se contenta somente com o que é dado de maneira pronta, mas com o que pode ser criado, renovado.

*Douglas Mendes Ornellas é  leitor assíduo desde jovem. “Viciei no mundo da leitura logo nos primeiros anos escolares”, diz ele, que é graduado em Letras (Português e Literaturas) pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ. e mestre em Estudos Literários pela mesma instituição. É professor de Linguagens no Ensino Fundamental II e em Pré-Vestibular. “Acredito em uma Educação libertadora e em democratização da Literatura.

Paradeiro: uma carta para Pedro

O escrito e psicanalista Renato Tardivo escreve uma “carta aberta” a Pedro, protagonista de Paradeiro, romance de Luís Bueno que recebeu o Prêmio Literário Biblioteca Nacional 2019

São Paulo, 26 de dezembro de 2019.

Caro Pedro,

Espero que me perdoe a intromissão. Não nos conhecemos; ou, para ser mais preciso, você não me conhece. Eu soube de eventos importantes da sua vida por meio do romance Paradeiro, escrito por Luís Bueno e do qual você, aos 23 anos, é um dos protagonistas. Presumo que você não tivera a oportunidade de ler o romance, levando em conta, inclusive, que ele seria publicado no longínquo 2018. O livro possui três camadas narrativas, por assim dizer. Uma delas traz como protagonista uma mulher madura, cujo nome não se menciona e que, ao descobrir tardiamente um câncer, decide (decide?) se suicidar. Boa parte dessa camada é narrada em primeira pessoa por essa mulher. Outra camada se ocupa da vida de Bibiana, uma senhora em estado de demência (e quanta sabedoria ela anuncia!). A maior parte dessa outra camada é narrada pela própria Bibiana em um texto sem pontuação – pretendo voltar a tratar disso nesta carta. E, por fim, perfaz o livro a seção que o traz como protagonista. Em toda essa camada, o leitor tem a oportunidade de conhecer uma série de cartas remetidas por você em 1938 a familiares e amigos, e, em algumas delas, ler suas críticas literárias encaminhadas à “Revista Acadêmica”. É assim que sua identidade se constitui no livro: dirigindo-se ao outro. Não é bonito? Por este motivo, Pedro, não me ocorreria outra forma de comentar o livro Paradeiro senão remetendo uma carta a você.     

Posso imaginar (não mais que imaginar) o baque que você sentiu ao receber o diagnóstico de tuberculose e, por causa disso, ter de se exilar em São José dos Campos para se submeter, naquele ano de 38, a um tratamento repleto de incertezas. Deixar o Rio e o convívio com Murilo Miranda, Moacyr Werneck e Carlos Lacerda, para citar apenas alguns de seus companheiros, não deve ter sido nada fácil. Sei disso, porque sua angústia se revela nas cartas. Talvez você tenha pressentido o que diria a protagonista (sem nome) do romance: “A morte é exatamente isso. Feder fortemente e ninguém sentir”. É curioso, não obstante, que o cheiro dela seja sentido, circunstância que atesta justamente a sua condição de viva. Também em suas cartas, Pedro, mais que a angústia, o que salta mesmo é sua vontade de viver e seguir discutindo os temas que tanto lhe interessavam: literatura e igualdade.

O romance Paradeiro, mais do que flertar com a morte, é um livro sobre a vida! Você acredita que (muito diferente da sua experiência, evidentemente) também eu tenho uma história em São José dos Campos? Como, nas férias da infância, eu viajava com a família para o litoral norte de São Paulo, São José ficava na metade do caminho. Passar por lá, então, era, por um lado, ruim: significava que ainda tínhamos pela frente metade do trajeto (que, de longo, eu ainda não sabia, não tinha nada). Mas era também a chance de comer no único McDonald’s que havia na região, e isso era, à época, o suficiente para me deixar animado. Como vê, eu não conhecia nada de São José dos Campos, o que dirá de sua acolhida aos tísicos? Sequer à praça Afonso Pena eu fora. Mas bons livros sobre a vida, como o é Paradeiro, estabelecem uma intimidade insuspeita com o leitor. Não é isso que também dizem as críticas que você publicava na “Acadêmica”?

E, por falar em intimidade, suponho que você jamais tenha conversado com Bibiana. Mas, e com a personagem sem nome? É possível (apenas possível) que, em algum momento da vida, ao menos um “bom dia” vocês tenham trocado. Eu creio que uma conversa entre vocês três seria tão enriquecedora! Mas isso não importa. Ao contrário, é a autonomia entre as três trajetórias e seus sutis pontos da tangência que fazem do romance um belo livro. E é assim mesmo que, sem que vocês três se encontrem propriamente, o encontro pode enfim ocorrer em sua máxima potência: no imaginário do leitor.

É difícil (e seria leviano da minha parte) afirmar quem é a personagem mais sofrida. Mas me ocorre que Bibiana, a mais velha entre os protagonistas, foi arrancada da mãe e da pátria na infância, casou-se ainda menina, casou-se de novo, viveu sob a opressão da tia e, se já não bastasse, perdeu dois filhos! Um deles você conheceu, sabia? Pois eu sei. Enfim, quanta dor e fome de vida. O entusiasmo com que você leu Vidas Secas, romance excepcional de Graciliano Ramos publicado enquanto você se tratava da tuberculose, quiçá também tome essa direção. De qualquer modo, creio que Bibiana seja a personagem mais mítica do romance. O discurso dela, sempre em letras minúsculas, não possui (como já anunciei) pontuação; não tem começo, não tem fim: é. A outra protagonista, que vaga entre São José e Jacareí por alguns dias em busca de dar cabo da própria vida, parece caminhar para esta descoberta, qual seja, a de que a vida, em ultimíssimo caso, não tem começo, não tem fim: é. Mas percebo que, agora, já exagero em minhas divagações.

Pedro, não poderia deixar, ainda, de registrar meus agradecimentos a você, por apresentar-me ao romance Amanhecer, de Lúcia Miguel Pereira, sobre o qual você escreveu na “Acadêmica”; obra que, em suas palavras, como Vidas Secas, “veio para envelhecer sempre nova”. Pois saiba que amanhã mesmo eu irei atrás do meu exemplar de Amanhecer. O que você muito provavelmente não soubesse é que esta imagem – o envelhecer sempre novo – costura a sua história, a de Bibiana e a da mulher cujo nome desconhecemos. Mas arrisco afirmar que você o intuiu, ou não teria dito em carta à sua mãe que São José dos Campos era o seu paradeiro: “O lugar onde vim parar é aquele em que eu pararia de vez. Mas não parei, e por isso parei por aqui”. Também eu paro por aqui.

Com o abraço do

Renato