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Impressões de um leitor de Euclides da Cunha

Por Renata de Albuquerque

A FLIP já acabou, mas Euclides da Cunha (homenageado da 17ª edição da Festa) merece continuar na pauta. Por isso, hoje, o Blog Ateliê traz impressões de leituras de Felipe Tavares de Moraes sobre Euclides da Cunha, suas obras e os livros sobre o autor. Felipe é professor, formado em História, Mestre em Educação pela UFPA e Doutor em Educação pela USP e se considera um “leitor comum, não especialista na obra euclidiana”.  Entretanto, Euclides da Cunha despertou sua atenção já durante o Ensino Médio e ele nunca mais parou de ler as obras do carioca e as escritas sobre o autor.

“Nas aulas sobre os movimentos de contestação a recém implantada República, Canudos era mencionado como uma destas manifestações. (…). Os Sertões (era considerado), segundo os professores no Ensino Médio, uma das principais obras do pensamento brasileiro. Foi aí que fiquei curioso em lê-lo. Ingressei no curso de História, na Universidade Federal do Pará (UFPA), no qual tive a oportunidade de ler a obra, conhecer com mais profundidade a trajetória intelectual de Euclides da Cunha e as suas contribuições para pensar o Brasil e a Amazônia”, conta ele.

Felipe Tavares de Moraes

Sua formação em História permitiu que ele percebesse, em Euclides da Cunha, o desejo de entender o Brasil profundo, a realidade sertaneja “dos mais longínquos rincões amazônicos”, ainda que com um profundo pessimismo. “O sertão é uma categoria central no projeto intelectual de Euclides da Cunha, no qual civilizar o Brasil era civilizar o sertão. Por isso, urgia investigar o sertão”, acredita. Segundo ele, ler Os Sertões continua uma obra atual porque faz o leitor tomar contato com uma carnificina que guarda laços com a realidade atual do país.

O interesse por Euclides da Cunha adensou-se por causa de sua Tese de Doutorado, em que Felipe analisa a construção do seu pensamento social e educacional de José Veríssimo. “A minha hipótese é que José Veríssimo e Euclides da Cunha compartilhavam o mesmo instrumental analítico cientificista, porém suas análises eram orientadas por distintas experiências sociais, políticas e culturais, respectivamente, de um ‘natural’ (paraense) e de um ‘estrangeiro’ (fluminense) a região”.

Para os leitores que consideram a obra de Euclides da Cunha difícil, Felipe diz: é uma obra árida, com é típico de obras oitocentistas, um testemunho de um tempo histórico que, por meio da linguagem literária, jornalística e científica nos permitem acessar uma época cheia de dilemas, ambiguidades e ambivalências. “Não é uma linguagem fácil. Este desafio da linguagem, porém, não deve desencorajar o jovem leitor brasileiro contemporâneo. Nesse sentido, a edição do Os Sertões, da Ateliê Editorial, a meu ver, é a melhor disponível no mercado editorial brasileiro. O prefácio, a cronologia, as notas e o índice fazem desta edição uma das mais completas, sobretudo pelas notas críticas de rodapé que proporcionam uma imersão integral na leitura, evitando a consulta onipresente do dicionário e do google, e permitindo o contato com este outro tempo evocado nos significados e imagens do texto euclidiano”, diz.

Já sobre Euclides da Cunha: Uma Odisseia nos Trópicos, a biografia do escritor carioca, Felipe afirma que ela se destaca por ser um estudo rigoroso, que faz um levantamento documental sobre a vida e obra do autor de Os Sertões. Segundo ele, essa pode ser uma “bússola para aqueles que são marinheiros de primeira viagem na obra de Euclides da Cunha”. “O que mais me interessou na biografia de Amory é o capítulo dedicado a trajetória de Euclides na Amazônia, chamado ‘À Margem da História’, pois meus investimentos de pesquisa vão tratar exatamente deste período da sua vida. Nesse sentido, a biografia é excelente no levantamento de fontes relacionadas ao trabalho de Euclides na Amazônia”, conclui.

FLIP homenageia Euclides da Cunha

O autor homenageado da 17ª Festa Literária Internacional de Paraty – FLIP 2019 – é Euclides da Cunha. Durante o evento, acontecem várias atividades, encontros e reflexões sobre o autor de Os Sertões. A abertura, a cargo da crítica literária Walnice Nogueira Galvão, rememora a importância da obra de Euclides da Cunha para a cultura brasileira.

O carioca Euclides Rodrigues Pimenta da Cunha (1866-1909) foi militar, jornalista e escritor. Sua cobertura da Guerra de Canudos (1896-1897) foi compilada no volume Os Sertões, uma referência para a literatura pré-modernista brasileira e para o jornalismo de sua época – um livro reportagem que ainda desperta interesse.

Para entrar no clima da Festa, a Ateliê, durante a FLIP 2019, dá descontos em três livros de seu catálogo que são essenciais para entender a importância de Euclides da Cunha:

Sertões, Os – Campanha de Canudos, de Euclides da Cunha

Os Sertões – Esta é a edição mais completa do clássico de Euclides da Cunha. Além do texto rigorosamente restaurado conforme as fontes mais autorizadas, possui cerca de três mil notas, auxiliando o esclarecimento do difícil vocabulário euclidiano. É a primeira edição com minucioso e inédito índice onomástico de lugares e pessoas; acurada cronologia da vida e obra do autor; vinte e quatro páginas de iconografia, com informações desconhecidas sobre o assunto; e prefácio elucidativo do organizador, Prof. Leopoldo Bernucci, que aborda o problema das diferentes linguagens de Os Sertões e de suas qualidades artísticas.

Euclides da Cunha – Uma Odisseia nos Trópicos – Livro vencedor do Prêmio Jabuti, esta biografia escrita por Frederic Amory, traduzida por Geraldo Gerson de Souza e apresentada por Leopoldo Bernucci abandona os mitos e dá destaque ao gênio sem separá-lo de suas misérias. Assim, aprofunda e esclarece aspectos da vida e da obra de Euclides da Cunha até então pouco estudados.

O Pai – A morte de Euclides da Cunha é um dos episódios mais trágicos da literatura brasileira. Sua esposa, Ana, tornou-se amante do cadete Dilermando de Assis. Ainda casada com Euclides, teve dois filhos de Dilermano. Em 1909, o escritor confronta o amante de Ana, mas este reage e mata o escritor. Ana e Dilermando, então, casam-se, mas se separam depois de cerca de uma década. O Pai, livro escrito por Dirce de Assis Cavalcante, conta como a autora descobriu que era “filha de um assassino”. Ela é a filha que o general Dilermando teve depois de se separar de Ana. No decorrer do depoimento, acompanhamos como ela perdeu e recuperou a estima pelo pai, protagonista da tragédia.

“O Cortiço”, de Aluísio Azevedo

Um lugar com vida própria. Assim é O Cortiço, de Aluísio Azevedo, o mais exemplar romance realista-naturalista brasileiro. Nos romances naturalistas, como é o caso deste, o lugar define o caráter e a personalidade das pessoas que ali vivem. O autor maranhense (1857-1913) parte dessa premissa e cria uma obra de arte que traduz essas ideias aos transformar o cortiço onde se passa a ação no personagem principal do livro.

O naturalismo é uma estética que se baseia na percepção da realidade. Mas não tem o “verniz” do realismo e mostra, sem idealizações ou máscaras, a miséria humana: violência,  mesquinhez, crimes, sede por ascensão social, falta de caráter, patologias físicas e psíquicas. O que há de pior no caráter humano vem à tona na narrativa naturalista, cujo tom é de forte crítica social. A sexualidade não raro está ligada a adultério ou a práticas condenáveis pela moral social do século XIX.   

Em O Cortiço, Aluísio Azevedo mostra o lado mais marginal da sociedade carioca do século XIX, em um momento no qual a paisagem urbana sofria mudanças importantes, como o surgimento das primeiras favelas e a aglomeração das pessoas mais pobres em cortiços, nos subúrbios e morros, fora das áreas centrais. O autor, muito interessado em pintura e desenho, faz um verdadeiro retrato desse momento, não apenas da paisagem urbana, mas dos tipos humanos e de suas motivações mais sórdidas – sempre exagerando mas tintas, como é típico do naturalismo.

Personagens e enredo

Se o cortiço é o personagem principal do romance, os tipos que vivem ali não são menos interessantes. Tudo é narrado com um realismo impressionante. É quase possível sentir o mau cheiro do ambiente, ouvir as gritarias das brigas e perceber, com asco, tudo o que acontece ali. Um narrador em terceira pessoa, onisciente, aumenta a sensação do leitor de que tudo ali pode ser julgado e analisado sob um ponto de vista determinista.

O cortiço é construído pelo português João Romão, também dono de uma pedreira, onde trabalham Jerônimo. A ambição de João Romão por ascender socialmente não tem limites e ele, sem escrúpulos, utiliza de meios ilícitos para enriquecer. Inclusive, mente, dizendo à Bertoleza, sua amante, que ela é uma escrava alforriada, mas, quando lhe convém, a denuncia ao verdadeiro dono.

O também português Miranda torna-se vizinho do cortiço, mas ao contrário de João Romão, tem acesso à alta sociedade, o que desperta a atenção deste. João Romão passa a se aproximar de Miranda para tentar ascender socialmente e a disputa pelo espaço do terreno entre eles arrefece em nome de outros interesses: o casamento entre João Romão e Zulmira, filha de Miranda. Em nome desse acordo, João Romão denuncia Bertoleza, que é devolvida a seus donos. Na casa mais próspera, a moral também não é ilibada: a mulher de Miranda, Estela, é infiel ao marido.  

Quanto a Jerônimo, a princípio ele é um personagem  honesto, forte e de caráter nobre. Entretanto, depois de se envolver com Rita Baiana, acaba por assassinar o namorado dela, Firmo e abandona a esposa para viver com Rita, mulata que seduzia por sua maneira de dançar. Torna-se então relapso e decadente, enquanto a mulher que abandonou em troca de Rita, chamada Piedade, torna-se alcoólatra.  

A decadência de caráter (que, na tese do autor é provocada pelo ambiente em que os personagens vivem) também atinge Pombinha, moça virgem que espera a primeira menstruação para poder se casar. Ela é seduzida pela prostituta Léonie e passa a viver uma vida de “lascívia” (já que no século XIX a homossexualidade era considerada doentia).

Tudo, em O Cortiço, é justificado pelo clima e pelo ambiente em que os personagens vivem. O sol e o calor são motivos para a preguiça e a luxúria, confirmando teorias muito em voga na época em que o livro foi escrito.

O Cortiço, de Aluísio Azevedo, é parte da Coleção Clássicos Ateliê

#vempralivraria: campanha quer manter o livro no centro da discussão

Renata de Albuquerque

Uma ação aberta, “sem dono”. É assim que Paulo Tadeu, proprietário da Matrix Editora, define a campanha #vempralivraria, lançada em junho com o objetivo de alertar as pessoas para a importância da manutenção das livrarias para o mercado editorial brasileiro. “As peças são livres para serem postadas por qualquer pessoa. Para participar, basta compartilhar a imagem, usar a hashtag e, claro, ir a uma livraria para comprar um livro”, completa.  

O mercado editorial e as livrarias tornaram-se assuntos frequentes no fim de 2018, quando a informação sobre a recuperação judicial pedida pelas livrarias Saraiva e Cultura e o fechamento de lojas da Saraiva por todo o Brasil tomou os noticiários. O grande público, então, começou a conhecer melhor a realidade do mercado editorial brasileiro, que vem passando por um momento de enxugamento. A carta que Luiz Schwarcz postou no Blog da Companhia das Letras – uma das maiores e mais sólidas editoras do país – também mobilizou não só leitores assíduos, como também eventuais. O resultado foi um Natal em que muita gente optou por “dar livros de presente”, porque o alerta da crise havia sensibilizado consumidores. “O Alencar (Perdigão, livreiro da Livraria Quixote, em Belo Horizonte) me informou que a livraria recebeu novos clientes e que recuperou outros. Que aquele havia sido o melhor Natal dos últimos oito anos”, conta Pedro Queiroz, diretor da Editora GG, que havia ido a Minas Gerais.

Mas, aquele momento parecia estar passando e Queiroz resolveu tentar reavivá-lo. Telefonou, do aeroporto mineiro, para Paulo Tadeu, e falou com ele sobre uma iniciativa para reacender o interesse pelos livros. Assim nasceu a campanha #vempralivraria, que tem como objetivo chamar a atenção do público para a importância cultural de livros e livrarias. “Livro é para a gente aprender, se divertir, dar de presente. Comprar é o mais importante”, afirma Paulo Tadeu.

Ele considera que a concorrência é estimulante, pois leva empresas a adotarem novas e diferentes práticas. Em sua opinião, há espaço tanto para livrarias físicas quanto para o e-commerce. “Desejamos todos vida longa às livrarias. A campanha não tem métrica, não tem meta. Que seja um mantra. Nota não somos uma associação nem temos uma estrutura. Temos a boa intenção de colaborar e assim colaboramos… esperando que mais possam colaborar”, diz Queiroz.

Agora, a Ateliê Editorial se junta a essa campanha e convida você, que está lendo este texto, a fazer o mesmo, fazendo posts no whatsapp, republicando as artes da campanha (que estão ao longo deste post) nas redes sociais e, claro, comprando livros. #vempralivraria

Uma história de vida que poderia ser de novela

Por: Renata de Albuquerque

Abdulbaset Jarour tem apenas 29 anos, mas uma história de vida inspiradora e cheia de experiências. Em 2014 imigrou para o Brasil e aqui reconstruiu sua vida, tornando-se ativista pelos direitos dos refugiados e imigrantes.

Nascido em Alepo, a maior cidade da Síria, é filho de uma família grande: tem cinco irmãs e um irmão. Até 2009, quando tinha 19 anos, levava uma vida tranquila, como a de qualquer jovem de sua idade. Estudava, trabalhava e tinha planos de fazer faculdade de administração de empresas. Conseguiu licença do exército para continuar estudando mas, no ano seguinte, junto com os primeiros movimentos da Primavera Árabe, Abdul foi servir o exército.  “Até 2011 não tinha guerra, vivíamos em paz”, relembra. Nesse ano, entretanto, aconteceram manifestações, pedindo mais liberdade na Síria. Quatro pessoas foram mortas pelo regime de Bashar al-Assad em Deraa e os conflitos começaram a se espalhar pelo território sírio, chegando a Alepo.  

Abdulbaset Jarour

“Os conflitos pioravam a cada dia”, lembra Abdul. Ele foi obrigado pelo governo a permanecer no exército – que servia compulsoriamente, como acontece no Brasil – até que os conflitos acabassem.  “Se eu fugisse, seria considerado desertor, poderia ser perseguido e morto”,  afirma. Tornou-se motorista de um general do exército, perdeu amigos na guerra. Em 5 de março de 2013, em um ataque na cidade de Damasco, foi ferido na perna. Mas, ao sair do hospital, teve de voltar ao exército. Então, decidiu sair da Síria. Passou dois meses no Líbano e começou a pensar em morar longe dali, em países como o Canadá ou a Austrália. Foi então que soube que o Brasil estava liberando visto humanitário. Comprou as passagens de ida e volta (pois temia não se adaptar por aqui). “A gente não tinha informação de que o Brasil fosse um lugar bom para recomeçar a vida. Nossos antepassados vinham para a América do Sul no tempo das Guerras, mas não conhecíamos nada”, afirma.

Mas, mesmo sendo um destino desconhecido, o Brasil reservava boas surpresas para Abdul. “Quando cheguei aqui, minha vida mudou”, diz ele. Não que ele tenha encontrado fartura ou facilidade. “As pessoas diziam que eu tinha que me virar e eu achava estranho não ter acolhimento, mesmo tendo um visto humanitário. Eu sofri porque não sabia falar a língua e quase ninguém aqui falava inglês; eu não sabia nem onde era a Polícia Federal para ter documentação. Não tinha onde dormir nem trabalho. Me senti perdido, desanimei”, relembra.

No Brasil, aprendeu português em poucos meses sozinho. Conheceu africanos e árabes, começou a trabalhar e empreender: iniciou um hostel com um sócio para o público árabe. O negócio não deu certo, a saúde de Abdul se fragilizou; seu pai e seu cunhado morreram em um  ataque em território sírio. Mas, ele começou a se envolver com projetos para refugiados: o Sarau dos Refugiados e a Copa dos Refugiados (no torneio, ficou responsável pelo time da Síria). Trabalhou como tradutor voluntário, começou a fazer palestras sobre sua história, trajetória e a cultura árabe. Tornou-se tema de reportagens e documentários e, em 2018, recebeu um convite da Fundação Caritas, de São Paulo, para participar da novela Órfãos da Terra. “Compartilhei minha história com Thelma Guedes (autora de livros como Pagu, Literatura e Revolução) e Duca Rachid. Fui convidado a dar um workshop para a equipe, participei da abertura e ajudei a convidar pessoas ilustres da comunidade árabe para participarem da novela”, conta orgulhoso.

Em 2019, conseguiu mais uma proeza: trazer, para o Brasil, sua mãe, seu irmão e uma de suas irmãs. Agora,  eles vivem juntos em São Paulo.

Quer saber mais uma história sobre imigração? Conheça Yaser.

“Geometrias de Cosmos”: poesia de Rodrigo Suzuki Cintra

Primeiro volume da série “A Trilogia da Invisibilidade”, livro de Rodrigo Suzuki Cintra reúne poemas que são metáforas da invisibilidade, criando, nas palavras do autor, sentimentos e percepções que estão por trás das palavras. “Para mim, a poesia é a arte de fabricar, de simular, de blefar, de criar sentimentos”, explica Cintra, que é  filósofo, escritor e professor. Professor universitário, em seus artigos Cintra se debruça relações entre filosofia, política, arte e direito.  A seguir, ele fala ao Blog da Ateliê sobre sua estreia na poesia.

Qual a razão do título Geometrias de Cosmos, já que “O homem invisível é um geômetra”? 

Rodrigo Suzuki Cintra: Exatamente pelo fato do homem invisível ser um geômetra, e eu ser esse homem, que eu pude escrever um livro intitulado “Geometrias”! O título se refere ao meu modo de fazer poemas.

Penso no espaço das palavras no papel, na inversão de sentidos dos termos, em métricas improváveis que obedecem a regras que só eu posso ver, em rimas que se prolongam em expressões, qual equações, para fora do texto. Meu livro é um exagero de cálculo. Só que ele não pode matematizar sentimentos; esses estão para além das coordenadas e abscissas do mundo físico que habitamos. Os sentimentos que me interessam, que permeiam o “Geometrias de Cosmos”, estão no tempo da delicadeza, na sombra que o sol produz em uma flor.   

 O livro é o primeiro volume de uma série. Os outros volumes desta série já estão escritos? Qual o mote ou o fio condutor que ligará os volumes?

RSC: A série tem o seguinte título: “A Trilogia da Invisibilidade”. O volume “Geometrias de Cosmos” é o primeiro a ser publicado em formato livro. O segundo está sendo publicado em paralelo na internet com o título “A Galeria Invisível” e, por enquanto, está disponível no meu Blog (Blog do Rodrigo Suzuki Cintra) e no site da Revista Zagaia. O terceiro componente do projeto é um livro de ensaios, alguns deles já veiculados em revistas de literatura e jornais (Revista Sibila e jornal Valor Econômico).

O projeto “A Galeria Invisível” corresponde a um conjunto de ekphrasis de obras dadaístas e surrealistas. O exercício é de exatidão na descrição das obras de arte, conforme as regras da antiga técnica grega (ekphrasis), só que com o traçado, ritmo e imaginação próprios do dada e do surrealismo. Infelizmente, para a fruição correta do projeto, é preciso ter as obras em mente, com suas imagens juntas ao texto, para lermos seus capítulos. Como os direitos autorais somam montante vultoso, não é possível ainda no momento, publicar em formato livro esse exercício de escrita.

O mote central a conectar os três textos é a metáfora da invisibilidade. No “Geometrias de Cosmos”, trata-se de criar sentimentos e percepções que estão por trás das palavras. No “A Galeria Invisível”, inventar sentidos e significados que estão por trás das imagens. E, no livro de ensaios, fabricar conceitos nas lacunas de outros conceitos.    

Rodrigo Suzuki Cintra

De que maneira sua formação em filosofia influencia em seu fazer poético? 

RSC: Deleuze e Guattari, no livro “O que é a filosofia?”, dizem que “a filosofia é a arte de formar, de inventar, de fabricar conceitos.” Pois bem. Para mim, a poesia é a arte de fabricar, de simular, de blefar, de criar sentimentos.

Estudo filosofia e arte em geral. Percebi que ambas chegam nos lugares do conhecimento em que a razão e a emoção dão sentido a nossa existência. Mas, o que mais me influenciou, vindo de formação filosófica no estilo uspiano, foi um rigor na utilização das palavras.

No poema “O Delírio de Renatus Cartesius”, ou seja, a alucinação de René Descartes, que por sinal, além de filósofo foi matemático geômetra, tento filosofar, de maneira jocosa sobre o famoso cogito cartesiano, mas, se por um lado, respeito às palavras profundamente, como aprendi nos bancos da faculdade de filosofia, por outro lado, proponho que tenham significados escondidos nas sombras de sua enunciação. 

Este é seu primeiro livro de poesia, certo? Quais foram os desafios para escrevê-lo?

RSC: Publiquei livros acadêmicos antes desse novo projeto. Os desafios são bem diferentes dos que sempre enfrentei, quando o caso foi de escrever poemas:

  1. Encontrar tempo livre para a composição.
  2. A cada poema enfrentar, vez por vez, a angústia da folha em branco (começar sempre do zero).
  3. Escrever é reescrever. Isso pode ir ao infinito para os caprichosos e maníacos. Foi preciso aprender a fazer nascer o poema e depois enterrá-lo (nunca mais tocar e modificar o que já foi escrito e revisado). Existe toda uma arte para saber começar e, depois, em saber quando parar no fazer poético.
  4. Admitir, em algum momento, que a gente só é escritor se publica efetivamente aquele antigo projeto… Ou seja, sair da zona de invisibilidade.

Na abertura do livro, há uma imagem de Newton, de Blake. Além disso, há toda uma seção do livro chamada Shakespeariana e uma citação de Poe, que abre o volume. Qual sua ligação com a língua inglesa e a literatura produzida por anglófonos? 

RSC: A citação que abre o “Geometrias de Cosmos” é de E. A. Poe, uma tradução que fiz do poema “A dream within a dream” (Um sonho dentro de um sonho). Coloquei como epígrafe de todo o livro porque acredito que propicia uma tonalidade existencial, certa propensão, que muito me agrada induzir no leitor logo nas primeiras páginas. Se é verdade que a presença de autores de língua inglesa se faz notar com evidência, admito que a angustia da influência é maior ainda. Existe um poema intitulado “Assemblage nº0” no livro, por exemplo, que tenta criar significado a partir da Divina Comédia, de Dante (italiano) e de Um Lance de Dados, de Mallarmé (francês). Na verdade, é quase que como uma proposta intermediária de dois modos de fazer poesia.

Mas, de volta a pergunta, minha relação com a literatura inglesa é intensa. Estudei a obra de Shakespeare na Universidade de Cambridge e o título de minha tese de doutorado na USP é “Shakespeare e Maquiavel – a tragédia do Direito e da Política”. No “Geometrias” fiz um pastiche de T. S. Eliot no poema “O nome das mulheres”, transcriação de “O nome dos gatos”, desse autor que gosto tanto. Estou preparando um livro de traduções minhas de poetas de língua inglesa. Já estão na gaveta, traduzidos, alguns poemas de W. B. Yeats, W. H. Auden, e. e. cummings, W. Blake, D. Thomas entre outros.

Há no volume a seção “Mulheres Invisíveis”. Pode, por gentileza, falar um pouco sobre ela e como foi idealizada? 

RSC: São poemas, propostas hipotéticas, sobre algumas mulheres que passaram por minha história sentimental e que como estrelas passageiras, iluminaram e deram sentido por algum tempo a minha vida, mas, depois, se apagaram e desapareceram na escuridão de minha existência.  

O livro abre com um texto em que se misturam sonho e vigília; com uma reflexão sobre como o tempo impacta o período do sono. De que maneira isso se liga ao seu fazer poético (dado no trecho final: “No invisível das palavras, quando o lado detrás das letras sugere o sentido que o verso segredou, no compasso da escuridão que dá forma à luz, em algum lugar entre sombras de estrelas passageiras e o brilho eterno daquele sentimento, é o tempo da delicadeza: fundo a minha poética”)?

RSC: O livro começa na capa e termina na quarta-capa. Foi pensado em sua completude. Não é apanhado de poemas, ele se quer obra.       Os dois textos de abertura dos poemas, “O Tempo desses Poemas” e “O Espaço desses Poemas”, são prosas poéticas, escritas do meu jeito.

Agora, a reflexão entre sonho e vigília tem um motivo crepuscular. Somente escrevo de madrugada. É uma regra de composição. E, como podem ler no meu livro, uma boa regra para a leitura.

Estou mais vulnerável de madrugada, geralmente. Devia estar dormindo após o dia de trabalho, mas, é um excelente momento para sonhar as ilusões mais soltas. Dormir enquanto se está sonhando, me parece, nessas horas, um verdadeiro desperdício.

O fazer poético que proclamo, seguindo a pergunta enunciada, poderia ser o de olhar para o céu e ver as estrelas ao meio da escuridão da noite. Prefiro olhar para dentro, na escuridão de meus abismos, e encontrar alguns brilhos, mesmo que de estrelas passageiras. Daí…, começo a escrever.

Conheça outras obras de Rodrigo Suzuki Cintra

Romance em versos de Aleksandr Puchkin ganha nova tradução

Para comemorar os 220 anos de Puchkin, o Blog da Ateliê republica um texto de Irineu Franco Perpétuo escrito para O Estado de São Paulo*.

Uma das obras fundamentais da literatura russa, ‘Eugênio Onêguin’ é um desafio para tradutores e até Vladimir Nabokov sofreu para verter o livro

Irineu Franco Perpetuo*, Especial para o Estado

A pedra de toque da literatura russa está chegando ao Brasil pela metade. A Ateliê Editorial acaba de lançar o primeiro volume do seminal romance em versos Eugênio Onêguin, de Puchkin, em cuidadosa tradução de Alípio Correia de Franca Neto e Elena Vássina, uma edição bilíngue com o mais luxuoso revisor que qualquer livro dessa área poderia ter: o pai fundador dos estudos de russo no Brasil, e maior tradutor que já houve desse idioma para o português, Boris Schnaiderman (1917-2016).

Isso significa que temos os quatro primeiros dos oito capítulos do romance – a apresentação do personagem-título, a carta em que Tatiana se declara a ele e a posterior rejeição de Onêguin, com a ação interrompida às vésperas da funesta comemoração do dia do santo da moça. Felizmente, está prometido um segundo volume, que deve trazer não apenas a conclusão da obra, como apêndices com variantes do texto, a célebre e descartada Viagem de Onêguin, ensaios sobre a obra e um texto no qual os tradutores explicam os princípios teóricos e técnicas que nortearam suas escolhas.

Aleksandr Puchkin

Descendente de africanos, morto prematuramente em um duelo, Aleksandr Puchkin (1799-1837) é o caso mais flagrante de desequilíbrio na recepção literária de um escritor em sua terra natal e no Brasil. Se, por aqui, ele é bem menos reconhecido e festejado do que autores como Dostoievski, Tolstoi e Chekhov, na Rússia é objeto de culto e veneração – o “sol da poesia russa”, de importância equivalente a Shakespeare para os ingleses, Goethe para os alemães, Dante para os italianos, Camões e Cervantes para os ibéricos. “Puchkin é nosso tudo”, cravou o literato Apollon Grigoriev (1822-1864), em frase constantemente citada. Uma boa dimensão do peso e do significado de Puchkin para a cultura russa é dado no romance Parque Cultural, lançado no Brasil pela editora Kalinka, no qual Serguei Dovlatov (1941-1990) descreve, com ironia mordaz, sua experiência como guia de um parque temático inteiramente dedicado ao autor de Eugênio Onêguin.

Um dos motivos para a discrepância entre o reconhecimento de Puchkin na Rússia e fora dela é o fato de parte substancial de sua obra estar em versos, sempre mais difíceis de manterem a força ao serem vertidos para línguas estrangeiras. É o caso, por exemplo, de Onêguin, definido pelo crítico Vissarion Bielinski (1811-1848) como “enciclopédia da vida russa”, custando ao autor nove anos de trabalho. Em uma célebre análise, Roman Jakobson (1896-1982) disse que “cada imagem de Púchkin é de uma polissemia tão elástica, e de uma capacidade assimilatória tão espantosa, que ela se insere facilmente nos mais variados contextos”.

Embora tenha inspirado espetáculos de dança de John Cranko e Deborah Colker, um longa-metragem de Ralph Fiennes e a mais bela ópera de Tchaikovski, o romance em versos vem constituindo um desafio ingrato para tradutores de todos os idiomas. O mais monumental fracasso foi o de Vladimir Nabokov, perfeitamente bilíngue, que empreendeu uma monumental versão da obra para o inglês, cujas notas de rodapé e comentários ocupam mais de mil páginas – o tripo do texto traduzido. Com uma abordagem literalista, abrindo mão dos aspectos poéticos da obra, Nabokov realiza uma verdadeira “autópsia” do texto, indispensável aos estudiosos de Puchkin, mas sua tradução passa muito longe de recriar o encanto e a musicalidade propiciados pela leitura do original.

No Brasil, a Record lançou, em 2010, uma versão de Dário Moreira de Castro Alves, recebida com pouco alarde. Para ilustrar as diferenças entre aquela edição e a atual, reproduzimos o mesmo trecho da missiva de Tatiana a Onêguin. 

Na tradução anterior: “Mal tu entrastes, conheci./E a desmaiar, por dentro ardia,/Há de ser ele, já pensava!/Não é verdade que eu ouvia/Em plena calma o teu falar:/Quando eu aos pobres assistia/E, orando, alívio então pedia/Contra a angústia a me agitar?” E na versão nova: “Mal você entrou, soube de olhá-lo,/Senti calor, senti um abalo,/E disse mentalmente: ‘Ei-lo’/Não foi verdade?, eu escutá-lo?/Ter-me falado na quietude,/Ao dar aos pobres um regalo/E orar para ter algum final o/Anseio da alma na inquietude?”

Ricamente anotada, a tradução de Correia e Vássina compartilha reflexões trazidas por Nabokov e pelo minucioso estudo realizado pelo semioticista Iuri Lotman (1922-1993). Resta torcer para que o lançamento do segundo volume não tarde, para que os leitores brasileiros possam desfrutar da obra-prima de Púchkin na íntegra.

*IRINEU FRANCO PERPETUO É TRADUTOR E CRÍTICO

*O texto original pode ser lido aqui

Direitos Indígenas: uma questão de toda a sociedade

Os povos indígenas são os primeiros habitantes das terras brasileiras. Quando os portugueses atracaram na costa brasileira, o território já era ocupado. Entretanto, faz apenas pouco mais de 30 anos que direitos fundamentais das populações indígenas foram garantidos pela Constituição de 1988. Para celebrar essas três décadas e manter a discussão sobre o tema atual, Camila Loureiro Dias (Doutora em História) e Artionka Capiberibe (Doutora em Antropologia) organizaram Os Índios na Constituição, volume que reúne depoimentos de pesquisadores e intelectuais que exerceram papéis chave na definição dos direitos indígenas na Constituição Cidadã e de alguns dos atuais protagonistas dessa luta. A seguir, as organizadoras, professoras do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Estadual de Campinas, falam sobre o projeto e sobre a atualidade da questão indígena no Brasil:

Como nasceu a ideia do projeto? 

Artionka: O projeto do livro é uma decorrência direta do Fórum “30 Anos da Constituição e o capítulo ‘Dos Índios’ na Atual Conjuntura”, organizado por nós e realizado em junho de 2018, dentro de uma política da Unicamp de divulgação do conhecimento acadêmico e de aproximação da universidade com outros setores da sociedade.

Camila: A ideia do Fórum Permanente, por sua vez, nasceu junto com a formulação de um projeto de pesquisa, hoje financiado pela Fapesp, que busca compreender o processo político e intelectual de definição dos direitos indígenas na Constituição de 1988.

Foi uma visita ao acervo do CEstA (antigo Núcleo de História Indígena e do Indigenismo da USP, fundado pela professora Manuela Carneiro da Cunha), o que levou à ideia de realizar o Fórum. Lá encontramos um conjunto de documentos (folhetos, boletins, recortes de jornal, anotações pessoais, textos, formulários de proposição de emendas populares, entre outros) doados pela professora Manuela, que na época da Constituinte (1987-1988) era presidente da ABA, a Associação Brasileira de Antropologia, e fundadora da Comissão Pró-Índio – junto com o professor Dalmo Dallari, entre outros. Todas essas associações, e outras mais, tiveram um papel fundamental na mobilização social pelos direitos indígenas, desde o final da década de 1970. Algumas imagens de documentos desse acervo compõem o caderno de imagens do livro.

Ao mesmo tempo, estávamos no ano de 2018, quando a Constituição completava 30 anos e isso num contexto em que ela estava (e ainda está) sendo intensamente questionada, e em que o sentido do que nela está escrito tem sido disputado por forças políticas antagônicas. No caso dos direitos indígenas, entre aqueles que defendem os direitos de reserva e usufruto aos povos indígenas das terras que ocupam e aqueles que têm interesses comerciais nessas terras e nos seus recursos naturais.

Então surgiu a ideia de promover o encontro entre duas gerações de militantes pela causa indígena: os que atuaram na definição dos direitos indígenas durante a Constituinte e os que atuam na linha de frente, hoje, na defesa desses direitos. Assim seria possível aprender, pela história e pela memória, sobre o modo como os atuais direitos foram construídos, e isso nos seria um subsídio à nossa reflexão e atuação hoje.

O volume conta com depoimentos de pessoas que contribuíram para a definição dos direitos indígenas na Constituição de 1988. Como foi feita a escolha das pessoas que dariam os depoimentos ao livro?  

Camila Loureiro Dias, fotografada por Valério Paiva

Camila: O livro conta com os depoimentos de todos os que participaram do Fórum Permanente realizado na Unicamp e também com uma entrevista com o professor Dalmo Dallari, que não pôde participar do encontro, mas gentilmente aceitou conversar conosco. As pessoas convidadas a participar do Fórum são todas especialmente implicadas na causa, tanto há 30 anos como hoje, e falam de diferentes lugares. Ailton Krenak, nascido no Vale do Rio Doce, um intelectual iluminado, ilustre representante do movimento indígena, que fez uma memorável performance no Plenário em 1987 e hoje continua na luta depois de tantos reveses. Manuela Carneiro da Cunha, antropóloga e articuladora da mobilização política e intelectual que foi responsável pela redação dos dois artigos e que também continua ativa e combativa, pautando a maneira de encaminhar o debate. O professor Dalmo Dallari, jurista, quem dava nome, descrevia e ensinava os conceitos: direitos originários, tutela; e que emana hoje um otimismo invejável. Por fim, José Carlos Sabóia, deputado constituinte, que nos revela a maneira como eram negociados os direitos no Congresso sem os freios do politicamente correto. As duas jovens lideranças indígenas que também vieram conversar conosco são igualmente figuras de destaque no cenário. Samantha Juruna (filha do Mário Juruna), percorre o país mobilizando sobretudo as mulheres na luta por saúde e educação e preza pela participação indígena na política institucional. Já Eloy Terena é advogado e doutor em antropologia, notável competente assessor jurídico da Associação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB). Dessa forma temos um panorama do movimento social, da negociação política e do enquadramento jurídico da questão em dois momentos-chave: há 30 anos e hoje.

Artionka: A partir de meados dos anos 1990, o direito indígena constitucionalmente garantido começou a ser atacado e, nos últimos dez anos, esse ataque, conduzido principalmente por parlamentares ligados ao agronegócio, foi se tornando cada vez mais intenso, colocando em risco as conquistas de 1988. Sendo assim, o objetivo do Fórum foi também dar espaço para quem está, neste momento, buscando impedir a perda dos direitos conquistados e ouvir que estratégias têm sido assumidas para fazer frente principalmente ao ataque voraz sobre o artigo 231 da Constituição Federal, aquele que garante a terra indígena como direito originário.

O Fórum Permanente “30 Anos da Constituição e o capítulo ‘Dos Índios’ na Atual Conjuntura” foi a origem do livro, que foi lançado no “Fórum Permanente: Terras Indígenas e Interesses Nacionais”. Qual a correspondência entre os dois eventos?

Artionka Capiberibe fotografada por Gustavo Rossi

Artionka: No Fórum sobre os 30 anos da Constituição apareceram, nas falas e no debate, alguns temas correlacionados ao direito à terra indígena. Dentre eles, destacaram-se, por um lado, uma discussão sobre interesses nacionais, principalmente em relação a questões de fronteiras e de exploração de recursos naturais, e, por outro lado, uma diferença entre modelos de desenvolvimento. Nesse sentido, a discussão dos dois Fóruns está absolutamente imbricada, pois a questão sobre o direito à terra envolve os modos de conceber seus usos. Assim, o Fórum deste ano deu oportunidade de aprofundar alguns questionamentos surgidos no Fórum anterior.

É preciso destacar que as terras indígenas, junto com as Unidades de Conservação, Reservas Extrativistas e Comunidades Quilombolas são hoje os principais redutos de defesa dos diferentes ecossistemas que compõe o bioma brasileiro. São elas que têm contido o avanço do desmatamento produzido pela fronteira agrícola, ao mesmo tempo, as populações indígenas e tradicionais têm enfrentado a cobiça sobre as riquezas existentes em seu solo (como os recursos hídricos) e subsolo, minérios, sobretudo. Nessa matéria, há uma convergência entre o conhecimento indígena e o científico, ambos não cessam de demonstrar como o esgotamento do uso dos recursos naturais é danoso à continuidade da existência do planeta como um todo.

Camila: Os dois Fóruns buscam responder às questões que estão na pauta presente. O Fórum sobre direitos indígenas foi realizado em junho de 2018, antes, portanto, do período eleitoral. Naquele momento, os principais desafios aos povos indígenas vinham do Legislativo e do Judiciário. De lá para cá vivemos tudo o que vivemos e foi eleito um presidente que claramente se posiciona contra a demarcação de terras indígenas e a favor da exploração econômica das reservas florestais brasileiras. São intenções indubitavelmente antagônicas ao espírito da Constituição.

Se o Fórum de 2018 nos permitiu analisar o processo de definição dos direitos constitucionais indígenas, o Fórum de 2019 ampliou a questão ao propor que a demarcação de terras indígenas é também direito e interesse de todos os cidadãos brasileiros. Isto porque, comprovadamente, os povos indígenas preservam as florestas e possuem um conhecimento milenar da sua biodiversidade e das técnicas eficientes de manejo dela. E todos nós precisamos das florestas preservadas e do conhecimento indígena, para termos garantido de que, no próximo decênio, não vamos morrer de calor, de que vamos ter água para beber e que teremos o que comer.

O primeiro Fórum fornece subsídio de reflexão sobre os direitos indígenas às terras. Mas o segundo amplia a questão e a maneira de abordá-la, associando terras indígenas aos vários interesses que as circundam. E o Fórum de 2019 também assumiu uma outra dimensão: a defesa da Universidade pública, que está sendo moral e financeiramente atacada pelo mesmo poder executivo, mas que cumpre uma importante função social que é a de promover debates qualificados sobre temas que são importantes para toda a sociedade. Um dos momentos comoventes do encontro foi a fala da deputada Joênia Wapichana, ao nos contar sobre sua atuação na Câmara em defesa das universidades.

Acampamento Terra Livre (Brasília, 2019) fotografado por Artionka Capiberibe

Há um ano, quando o livro começou a ser realizado, qual era a situação dos índios no Brasil? 

Camila: Já faz muitos anos que os povos indígenas têm enfrentado desafios impostos por grupos que têm interesse em explorar comercialmente suas terras e os recursos naturais nela existentes, independentemente do lugar em que se situavam os últimos governos no espectro político. Desde 2004 os povos indígenas acampam em Brasília para exigir seus direitos. A situação veio piorando gradativamente e sob o governo Dilma já era muito difícil. Depois só continuou piorando. Há um ano, o que estava em debate era o sentido do que estava escrito na Constituição. Estávamos discutindo o parecer 001 da AGU, de julho de 2017, e o Projeto de Lei 490/2007 em tramitação na Câmara. Mas, ainda depois disso, foram trágicos os momentos das eleições em que o mero discurso de um candidato a presidência bastava para ampliar em pelo menos um terço os ataques a lideranças e comunidades, as invasões de terra, etc.

O que mudou desde então? 

Camila: Desde que assumiu o poder, o presidente Jair Bolsonaro tem promovido uma série de mudanças na estrutura do executivo que tem como objetivo paralisar o processo demarcação e rever as terras já demarcadas. O grupo militar que está no poder é claramente a favor da abertura das terras indígenas à exploração comercial e não esconde o objetivo de instituir uma política indigenista que retoma os valores anteriores à redemocratização e à Constituição de 1988. Ou seja, esse livro que é resultado do Fórum do ano passado vem em boa hora, pois precisamos saber o que eram os direitos indígenas antes e depois da Constituição.

Artionka: No espaço de um ano, houve uma mudança política significativa no país. O Brasil elegeu um presidente da República que é declaradamente anti-indígena, como se percebe no anúncio que fez, ainda na campanha eleitoral, de que, caso se elegesse, não haveria “nenhum centímetro a mais para demarcação” e de que ele iria aprovar uma lei em favor do armamento de produtores rurais, sinalizando para conflitos armados em torno da propriedade de terras o que atinge diretamente as populações indígenas em regiões sob pressão de atividades econômicas e que ainda não têm suas terras demarcadas, os Guarani e Kaiowá do Mato Grosso do Sul são um dos exemplos disso.

Buscando cumprir a primeira promessa, na reestruturação administrativa do governo –feita por meio da Medida Provisória-870 e, portanto, sujeita a aprovação do Congresso Nacional – o governo Bolsonaro retirou a Funai (Fundação Nacional do Índio) do Ministério da Justiça e a dividiu entre o Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos (MMFDH) e o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), ficando o setor de demarcação de terras na alçada do MAPA, que é conduzido por uma líder do agronegócio, ou seja, a raposa tomaria conta do galinheiro. Essa decisão gerou uma disputa política que reuniu o movimento indígena, o movimento dos indigenistas que trabalham na Funai e a Frente Parlamentar Mista em Defesa dos Direitos dos Povos Indígenas, articulada e coordenada pela deputada indígena Joênia Wapichana. Essa aliança conseguiu recentemente uma importante vitória, mudou o texto da MP-870, mantendo toda a Funai no Ministério da Justiça, agora a Medida Provisória segue para o Senado.

A grande mudança, em relação ao ano passado, me parece ser o deslocamento do local da disputa. Se antes o Congresso Nacional era o território prioritário de embate em torno de direitos e políticas públicas voltadas às populações indígenas, agora, a batalha principal se concentra no executivo.

Como a sociedade pode interferir nessa questão e qual a importância de preservar os direitos garantidos aos índios pela Constituição de 1988?

Camila: Os direitos dos índios têm sido ameaçados por vários grupos interessados na exploração comercial de suas terras e dos recursos naturais nelas existentes. Não somente o agronegócio, mas também mineradoras e garimpeiros, madeireiros, empreiteiras, traficantes de drogas e de pessoas, caçadores, pescadores, enfim, a lista é grande. A população das áreas urbanas ignora a realidade dos povos indígenas no Brasil. E a população das áreas rurais, em muitos lugares do Brasil, está em competição direta com esses povos.

O que isso tem a vem com os possíveis leitores desse livro? Por um lado, é bom lembrar que nossos padrões de consumo, tanto alimentar quanto tecnológico, fazem pressão sobre essas terras. Quando comemos carne, estamos comendo a floresta amazônica, e quando trocamos de celular estamos alimentando também a demanda pelos minérios que estão sob as terras indígenas. Portanto, a sociedade interfere nessas questões primeiro por meio dos seus hábitos cotidianos.

Por outro lado, essas terras comprovadamente desempenham papel estratégico para a preservação ambiental e, portanto, viabilidade do planeta. Além disso, as terras indígenas pertencem à União. São terras públicas. Ou seja, é importante para toda a sociedade que os direitos indígenas constitucionais sejam preservados.

Então, a população também pode interferir no processo começando por se perguntar quem se beneficia realmente da exploração comercial dos recursos ambientais das terras indígenas. É a toda população ou são apenas alguns grupos? É preciso também conhecer e aprender a respeitar esses povos. E é preciso, enfim, aliar-se a eles na luta pela preservação das suas terras e dos direitos que são de todos.

Acampamento Terra Livre (Brasília, 2019) fotografado por Artionka Capiberibe

Artionka: Quando o Estado se isenta de promover políticas que auxiliem no reconhecimento e valorização de populações minoritárias, quando ele se ausenta da responsabilidade sobre a existência e bem-estar dessas populações, ele transmite um recado: que não se deve a essas populações respeito, solidariedade, reconhecimento sobre sua importância para o conjunto da sociedade. Então, quando um ente do Estado, como o executivo, não só cruza os braços em relação às populações indígenas, mas destila um verdadeiro discurso de ódio contra elas, o efeito disso não pode ser outro se não o preconceito e a violência contra essas populações que ao longo da história de construção do país sempre foram menosprezadas e massacradas. A prova de que esse discurso de ódio tem um efeito prático são as crescentes ameaças e assassinatos de lideranças indígenas e o aumento vertiginoso das invasões de terras indígenas, desde o segundo turno da campanha eleitoral de 2018.

Os direitos sociais e sua garantia plena são fundamentais para que a sociedade tenha um norte sobre aquilo que é necessário e justo. Ao mesmo tempo, para que essa garantia se dê é preciso o apoio da sociedade. O livro, ao recuperar a memória da construção do capítulo “Dos Índios” e expor a luta pela sua garantia, é um meio importante de alerta sobre o respeito e o cuidado que este país deve historicamente às populações indígenas.

Nota: “A publicação do livro teve apoio do Programa de Pós-Graduação em História da Unicamp, com verba da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES). As atividades resultantes no livro e nos Fóruns Permanentes 2018 e 2019 receberam apoio da Pró-Reitoria de Pesquisa, da Pró-Reitoria de Ensino e Extensão e da Pró-Reitoria de Graduação da Unicamp, assim como da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), por meio de Projeto de Auxílio à Pesquisa (Camila Loureiro Dias, O Capítulo Dos Índios: direitos, história e historiografia (1988-2018), processo n. 2018/12386-4). As opiniões, hipóteses e conclusões ou recomendações expressas neste material são de responsabilidade das autoras e não necessariamente refletem a visão da FAPESP.”

Lançamentos Ateliê Editorial atendem aos mais diversos gostos

Um clássico da literatura russa com nova tradução; um volume que discute uma questão atualíssima da política; poesia francesa da melhor qualidade; ou monólogos inspirados em literatura fantástica e na Bíblia? Desde o início de 2019 até agora, os lançamentos da Ateliê Editorial parecem atender aos mais variados gostos, com títulos para leitores das mais diversas idades. Ainda há muito por vir, como a reedição de Velhos Amigos, de Eclea Bosi, por exemplo. Mas enquanto mais novidades não chegam, você confere quatro novos títulos da editora que já estão nas prateleiras:

O Azul e o Mar – Eduardo de Campos Valadares selecionou poemas de três fases de Paul Valéry – Charmes, Clássicos e o longo poema “A Jovem Parca” – para compor este volume, chamado O Azul e o Mar, uma coedição com a Editora UFMG. Um trabalho de tradução que, segundo o tradutor, foi uma “festa da imaginação”, expressão que cria eco na “festa do intelecto” que, segundo o poeta francês, deve ser o poema.

Leia um trecho:

O SILFO

Nem visto nem quisto

Eu sou o perfume

Breu e vagalume

De vento me visto!

Nem visto nem quisto

Genial ou acaso?

Enfim me conquisto

Encerrado o caso!

Nem ler nem reter?

Mais lúcido ser

Mais promessas falsas!

Nem visto nem quisto

Eis o nu que avisto

Entre duas calças!

Eugênio Onêguin – Romance em versos, escrito por Aleksandr Púchkin ganhou tradução de Elena Vássina e Alípio Correia de Franca Neto, com consultoria de Bóris Schnaiderman. A história do aristocrata entediado, que relaciona ficção e vida real, tornou-se um clássico da literatura russa, influenciando autores como Gógol, Dostoiévski, Tolstói e Tchekhov.

Leia um trecho:

III

Tendo servido com honra e garbo,

O pai só emprestava dinheiro,

Dava três bailes no ano e ao cabo

Torrou seu patrimônio inteiro.

A sorte guarda Eugênio Onêguin:

Para Madame foi entregue,

Então Monsieur a substituiu.

Infante inquieto, mas gentil.

Monsieur lAbbe, pobre francês,

Pra não afadigar a criança,

Em tudo a instruía com folgança,

Sem regras chatas, sisudez;

Birras causavam sua revolta

E a guiava ao Lietni Sad pra volta.

Entreatos – Marcelo Castel Cid, autor de Os Unicórnios e organizador da Antologia Fantástica da Literatura Antiga volta a fazer ficção flertando com a literatura fantástica. Desta vez, o resultado é Entreatos, um livro constituído por monólogos  inventados para personagens bíblicas que marcam presença no Livro dos Atos dos Apóstolos. “Eu escrevi meus relatos com o livros dos Atos sempre à minha frente, mas não só. Li outros livros de história bíblica e cultural, além, é claro, de misturar várias narrativas numa só”, afirma o autor. 

Leia um trecho:

Queres que eu repita minha doutrina? Seria tarefa difícil, pois que eu falava segundo a inspiração do momento, mesclando num único fôlego as proezas do  demiurgo ou dos anjos, as dinastias de emanações do verdadeiro Criador, passagens de Homero e de Heráclito, o obscuro, do Trismegisto, de nossos profetas. Como resultado dessa loucura com método, numa parte da terra honravam-me como o Filho de Deus, noutra como o Espírito Santo, noutra como a própria divindade feita homem. A Helena, porém, chamavam aqui Minerva ou Sofia, ali Eva primeva, acolá a Ovelha Desgarrada, aquela cuja alma por milênios tem vagado entre Potências.

Os Índios na Constituição – Pouco mais de 30 anos depois da promulgação da Constituição de 1988, conhecida como Constituição Cidadã – a primeira na História da República na qual os povos indígenas passaram a contar com um capítulo específico e tiveram seus direitos também foram reconhecidos –, o volume organizado por Camila Loureiro Dias e Artionka Capiberibe reúne depoimentos de pessoas que exerceram papéis importantes na definição dos direitos indígenas na Constituição e de alguns dos atuais protagonistas na luta pela sua manutenção face às diversas ações contemporâneas que visam a reduzi-los.

Leia um trecho:

Na década de 1970, o Plano de Integração da Amazônia é proclamado pelo governo; um plano de estradas, hidrelétricas, minérios – época em que se começa Carajás. O Programa Grande Carajás só aparece em 1980, mas já se começa a mineração do que será Carajás – e, para isso, constrói-se a Hidrelétrica de Tucuruí para fornecer eletricidade, estradas, enfim, tudo isso é feito depois de 1970 e nesse contexto. Evidente que esses interesses estavam presentes na Constituinte. E tivemos que engolir. Sobre o porquê de a gente ter tido que engolir tanto, vou mencionar em grandes linhas. José Carlos Sabóia vai falar das várias etapas da Constituição e dos arranjos que foram feitos.

Entrevista com o poeta Majela Colares

Majela Colares acaba de publicar O Retorno de Bennu, que leva ao leitor poesia em prosa, aforismos, versos livres e uma poesia caudalosa, que inspira o leitor. A seguir, o Blog republica uma entrevista que o autor concedeu ao “Poesia Diversa” , de Hilton Deives Valeriano

1) – Como ocorreu seu contato inicial com a poesia?

Meu contato inicial com a poesia ocorreu através dos Romances de Feira, hoje conhecidos por Cordéis, quando menino. Lia-os intensivamente. Era uma leitura sempre muito emocionante. Romance do Pavão Misterioso, Peleja do Cego Aderaldo e Zé Pretinho, A Batalha de Oliveiros com Ferrabraz, As Aventuras de João Grilo, A Morte dos Doze Pares de França, (uma versão da canção de Rolando em cordel), estes são os que mais marcaram minhas lembranças. Eram leituras que eu fazia às vezes solitariamente e em outros momentos lia, com muita empolgação, em voz alta, para os amigos. Outra forma de poesia que tive contato muito cedo, talvez antes mesmo dos cordéis, foi a Cantoria. O verso improvisado. Mestres do improviso como Antônio Nunes de França, Dimas Batista, Otacílio Batista, Pedro Bandeira, Diniz Vitorino, dentre outros, foram os primeiros que ouvi improvisando um Galope à beira-mar, um Martelo Alagoano, um Mourão voltado, um Quadrão Mineiro, um Desafio. Esse contato inicial foi com a poesia popular nordestina. Com o tempo, misturou-se a essa experiência popular, as leituras dos clássicos. Primeiramente Casimiro de Abreu, Álvares de Azevedo, Castro Alves, Olavo Bilac, Augusto dos Anjos, Camões…

2) – Como é seu procedimento ao escrever um poema?
Não existe um procedimento padrão. O poema emerge espontaneamente. Não escrevo poemas quando me encontro em estado emotivo, quer proveniente de uma situação agradável ou desagradável, (estado de inspiração), nem tão pouco em momentos puramente racionais (estado cerebral). O poema dá sinais… pisca o olho… sorri… no mais das vezes, de início, apenas capto a idéia. O momento de elaboração de um poema, em mim, acontece quando me aproximo o máximo dele, é uma sensação muito boa. É um estado que vai além da razão e da emoção, um estado que não sei definir… apenas percebo quando atinjo. Aí o poema começa a ganhar forma. Somente o que escrevo nesse estado que a mente alcança, para mim indefinido e imprescindível, é que considero poesia.

3) – O que é poesia para Majela Colares?
Conheço duas definições de poesia que acho maravilhosas. Uma afirma: “a poesia é a arte de dizer apenas com palavras o que apenas palavras não podem dizer”. A outra definição diz: “poesia é tirar de onde não tem e colocar onde não cabe”. São definições inteligentes que podem levar a outras. Eu nunca pensei em definir poesia. Poderia, no rastro das anteriores, afirmar: “poesia é algo que de forma alguma pode ser dito e, de repente, alguém diz”. Penso, no entanto, que poesia é muito mais do que isto. Enfim é algo indefinível.

Capa de “O Retorno de Bennu”

4) – Como você vê o atual panorama da poesia brasileira contemporânea? Quais poetas você destacaria?

O atual momento da poesia brasileira é muito rico e marcante, no entanto pouco explorado. Existem grandes poetas escrevendo na atualidade. Nomes que merecem muito mais respeito, admiração e divulgação… que deveriam estar em seus verdadeiros e devidos lugares. Existe também muita gente sendo aclamada de poeta, nomes bastante famosos, e tudo o que escrevem ou escreveram de poesia não tem absolutamente nada. São meramente produtos da mídia. Não citarei nomes… com certeza cometeria injustiça. Esta diferenciação de quem é poeta e quem não é, de quem realmente é grande poeta, ou não, o tempo cuidará de fazê-la.

5) – Sendo um representante da poesia nordestina, como você vê a relação entre tradição poética e movimentos de vanguarda?
Escrevo poesia por necessidade existencial. Para responder, às vezes, inconscientemente questionamentos que me surgem até em sonhos. Ou num sinal de transito. A estética do poema, penso ser fundamental e muito tenho trabalhado isso. A tradição poética é, a meu ver, elemento imprescindível para a construção de uma obra poética. Um movimento de vanguarda é importante na medida da qualidade poética, estética e de pensamento que venha apresentar como alternativa para um estilo já existente. Em meu primeiro livro Confissão de Dívida, encontra-se poemas concretos, poemas visuais, sonetos, oitavas camonianas, poemas em versos livres… no segundo livro Outono de Pedra, (que é um poema único, longo) encontra-se tudo isso e mais algumas passagens onde entra a estética do cantador-repentista nordestino. Tudo isso foi resultado de leituras e influencias. Mas com o passar do tempo tomei consciência do que realmente a poesia queria de mim. As influencias das vanguardas passaram e restaram apenas alguns bons experimentos. Hoje ainda adoto estéticas variadas, mas a minha grande preocupação e comprometimento esta com a inovação da linguagem poética, com a fundição do signo, a implosão da sintaxe. Quanto ao fato de ser um representante da poesia nordestina me orgulha muito, mas não enxergo a coisa bem assim. Penso que ao invés de representantes regionais: sulistas, nortistas, mineiros, paulistas, cariocas, nordestinos, existem representantes da poesia brasileira. Trabalho para ser um deles.

Majela Colares


6) – A inovação em termos de poesia é sempre necessária? Existe uma tradição perene em regiões especificas do nosso país, como o Grande Nordeste?

Se a inovação for pra melhor é necessária. Sempre será. Se analisarmos Manuel Bandeira, Jorge de Lima, Joaquim Cardozo e João Cabral de Melo Neto, (nordestinos), Mario Quintana, (gaucho) e Carlos Drummond Andrade, (mineiro), verificaremos que existem diferenças estéticas e temáticas, mas nenhuma se identifica mais com esta ou com aquela região. (Com exceção à temática de João Cabral). Penso não existir uma tradição perene em regiões específicas do nosso país.

7) – O que você diria como forma de conselho para aqueles que estão se iniciando na prática da poesia?

Que leiam muito, principalmente poesia… que o ato de leitura seja dez, vinte, cem vezes mais frequente do que o ato de escrever.