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Octávio Brandão: pioneiro marxista no Brasil

Octávio Brandão é um nome muito conhecido dos pesquisadores brasileiros que se debruçam sobre a política do início do século XX. Comunista de primeira hora, o intelectual alagoano foi ativista e militante, sendo pioneiro na difusão do marxismo no Brasil. Ele escreveu obras importantes – mas pouco lidas – como Agrarismo e Industrialismo, Canais e Lagoas, Veda do Mundo Novo e Rússia Proletária. Em Octávio Brandão e as Matrizes Intelectuais do Marxismo no Brasil, Felipe Castilho de Lacerda vai além da biografia do alagoano e traz ao público um estudo sobre a obra desse intelectual. A seguir, Lacerda fala sobre seu novo livro ao Blog da Ateliê:

Qual a importância de Octávio Brandão para a história política do Brasil?

Felipe Castilho de Lacerda: Octávio Brandão tem uma grande importância, em primeiro lugar, por ter feito parte do primeiro grupo dirigente do Partido Comunista do Brasil, fundado em 25 de março de 1922 – mesmo que esse primeiro grupo dirigente considerasse, por vezes, a data fundacional do partido o dia 7 de novembro de 1921, quando se fundou o Grupo Comunista do Rio de Janeiro, que alimentou a ideia de fundar o Partido Comunista alguns meses mais tarde. Esse fato é essencial, porque o Partido Comunista foi a agremiação mais longeva da história do país, tendo papel fundamental na cultura, na política e na formação intelectual do Brasil. Octávio Brandão também exerceu um papel de destaque por ter redigido e publicado aquela que é considerada a primeira interpretação marxista da realidade brasileira, o livro Agrarismo e Industrialismo – ainda que eu reforce em meu trabalho que o mesmo autor já esboçara uma tentativa de interpretação dessa mesma realidade em um livro anterior, publicado em 1924, intitulado Rússia Proletária. De toda forma, essa questão também é capital, e isso por dois motivos. Em primeiro lugar, porque o ideólogo do PCB tornou-se o iniciador brasileiro de uma grande cultura de pensamento, que foi o marxismo, ou melhor, os diversos marxismos que fincaram raiz na tradição intelectual brasileira. Em segundo lugar porque, a partir dos contatos de Octávio Brandão e de seus correligionários de partido – principalmente figuras como Astrojildo Pereira, Paulo e Fernando de Lacerda, Rodolfo Coutinho, Antonio Bernardo Canellas, Everardo Dias, entre outros –, com a direção da Internacional Comunista, ele se colocou a tarefa de produzir uma interpretação da realidade brasileira que guiasse os passos de sua agremiação rumo à transformação social. Isso é fundamental para a história das esquerdas ao longo de todo o século XX. A importância que aquelas e aqueles militantes davam para uma relação íntima entre teoria e prática foi fundacional para a história das esquerdas, e talvez mesmo para toda a história das relações entre intelectualidade e política no século que acabamos de deixar para trás. É preciso lembrar que toda a reflexão política no Brasil dos anos 1910-1920 era baixíssima; mesmo as classes dominantes, com toda a estrutura que sempre têm à sua disposição, não fora, antes do PCB, capaz de elaborar um programa que alimentasse suas organizações; por isso mesmo os partidos na Primeira República eram todos fisiológicos e regionais, organizavam apenas grupos de interesses imediatos e não tinham produção ideológica propriamente dita. O PCB de Astrojildo Pereira e Octávio Brandão fundou uma nova cultura política no país, a qual se tornaria espécie de espelho para todas as outras agremiações, independente de sua tendência ideológica.

Felipe Castilho de Lacerda

Por que se interessou em estudar a biografia e o trabalho intelectual de Octávio Brandão?

FCL: Dois motivos que me dirigiram à trajetória de Octávio Brandão foram os principais: em primeiro lugar, eu estava ainda na graduação em História na USP e comecei a estudar o tenentismo. Em dado momento, cujo ano não me recordo mais, assisti a uma palestra do intelectual Milton Pinheiro, que citava um certo livro, escrito por um comunista alguns meses após a Revolução Paulista de 1924, que buscava interpretá-la por meio de uma tentativa de apropriação do marxismo. Tratava-se justamente da obra de Octávio Brandão, Agrarismo e Industrialismo, publicada, por fim em 1926. Pensei, é óbvio, “preciso ler esse livro!” Mais tarde, comecei a estudar História do Livro com a grande especialista nessa área, Marisa Midori Deaecto, que se tornou a minha grande mestra em todos os aspectos da carreira e da vida. A simultaneidade dos dois acontecimentos me fez pensar: “Ora, Agrarismo e Industrialismo é um livro, não é?!” E decidi, assim, entrar na história política das e dos comunistas brasileiras (os) pelos métodos indicados pela História do Livro, da Edição e da Leitura.

A partir daí, comecei a ler e ler… e me encantei com a trajetória daquele filho de Viçosa das Alagoas, que buscara escrever uma espécie de Os Sertões, de Euclides da Cunha, voltado para o espaço geográfico e social de sua terra, de onde nasceu o livro Canais e Lagoas, lançado no Rio de Janeiro em 1919. Fugido da perseguição política, Octávio Brandão desembarcou no capital federal à época, o Rio, ligou-se ao movimento anarquista, casou-se com um poeta de relativo sucesso, Laura da Fonseca e Silva, que muito jovem, participara de salões literários como o de Olavo Bilac, e publicou diversos folhetos de agitação política anarquista. O anarquismo daqueles anos é algo absolutamente instigante. Mais tarde, Octávio Brandão ligou-se ao grupo de anarquistas que aderiram à ideologia e à organização da Internacional Comunista, dedicou-se à difusão daqueles novos ideias, por meio do que chamavam agitação e propaganda, ou “agitprop” e essa foi certamente uma enorme contribuição de Octávio Brandão. O meu estudo se restringe aos anos 1920, mas em 1931, Octávio Brandão e sua esposa Laura são banidos do Brasil, junto às três filhas, passam pela Alemanha e vão viver na União Soviética, como funcionários da Internacional Comunista. Laura falece em 1942, de câncer, em meio ao esforço de guerra soviética e Octávio Brandão volta mais tarde ao Brasil. Mas o que mais me interessou mesmo foram aquelas produções ideológicas de Octávio Brandão nos anos 1920. Para as estudiosas e estudiosos do comunismo, Octávio Brandão é figura conhecida, mas a imensa maioria não leu de fato seus livros, menos ainda outras obras além de Agrarismo e Industrialismo, quando li obras como Canais e Lagoas, Veda do Mundo Novo ou Rússia Proletária, pensei: “Aqui existe muita coisa que explica o processos intelectual daquele autor que é conhecido por um livro, de escrita bastante simplista, que é Agrarismo e Industrialismo”. Por isso, imaginei que fazer esse estudo voltado para aqueles livros e a trajetória de seu autor “em perspectiva” poderia dar alguma contribuição, mesmo que modesta, para a historiografia política brasileira.

Quanto tempo demorou a pesquisa e quais foram os maiores desafios?

FCL: A pesquisa que resultou no livro Octávio Brandão e as Matrizes Intelectuais do Marxismo no Brasil, publicado pela Ateliê, é fruto de minha dissertação de mestrado, defendida no programa de História Econômica da USP, financiado pela Capes e sob a orientação da professora Marisa Midori Deaecto. Dessa forma, o grosso da pesquisa levou o tempo médio de um curso de mestrado, cerca de dois anos e meio a três anos. Deve ter levado um pouco mais, pois eu já começara antes a coleta de fontes, ainda ao longo da graduação em História, quando realizei uma pesquisa em nível de bacharelado. Talvez cerca de quatro anos. É certo que eu poderia dizer que durou muito mais, décadas mesmo, pois tudo que alguém escreve recebe o espírito da autora e do autor, seu complexo de experiências de uma vida toda.

A coleta de fontes em arquivos com o Edgard Leuenroth, da Unicamp, o Cedem, da Unesp, ou a Biblioteca Edgard Carone, do Museu Republicano Convenção de Itu, extensão do Museu Paulista da USP, e mesmo no Centro de Difusión e Investigación en las Culturas de Izquierdas (CeDInCI), em Buenos Aires, demandou bastante esforço, tempo e paciência, mas foi algo relativamente tranquilo e prazeroso, especialmente pela grande ajuda e amabilidade de todas e todos que me receberam nessas instituições. O maior desafio mesmo foi o de um jovem aprendiz em nível de mestrado aprender a pesquisar e analisar fontes, compreender como recortar e definir muito bem seu objeto, para não se perder completamente diante de uma grande quantidade de fontes coletadas e se desesperar: “O que faço agora com isso?!” Mas esse é o desafio de toda e todo investigador(a) que se inicia nas práticas acadêmicas.

Retrato de Octávio Brandão publicado em seu livro de estreia, Canais e Lagoas, de 1919. Acervo Biblioteca Florestan Fernandes da FFLCH-USP.

Octávio Brandão estudou Farmácia. De que maneira a formação acadêmica influenciou a produção intelectual dele?

FCL: A formação de Octávio Brandão foi marcante; e eu diria em duas esferas diferentes. Ele se formou na Escola de Farmácia do Recife. Não era uma instituição tradicional como a famosa Faculdade de Direito da mesma cidade. Isso significou que ele, apesar de fazer parte de um grupo social com privilégios (já que até 1930, 70% da população brasileira era analfabeta), não passou pelos espaços tradicionais de consagração da intelectualidade nacional. Formou, desse modo, parte de uma espécie de segundo escalão da intelligentsia, o que contribuiu em parte para uma carreira sem grandes reconhecimentos. Seu estudo durou três anos e a escolha foi influenciada por seus familiares (o alagoano era órfão de pai e de mãe desde criança) e possibilitou, acima de tudo, que ele provesse seu sustento com a abertura de boticas farmacêuticas tanto no Nordeste, quanto, mais tarde, no Rio de Janeiro.

Mas também se pode observar sua formação a partir do ponto de vista de outra esfera da existência, a do conteúdo mesmo de suas produções. Com seus estudos, ele se interessou pela História Natural, pela Física, pelas ciências da natureza, em resumo. Logo depois, estudou, de forma autodidata, geologia e mineralogia. Esses fatores marcam sobremaneira sua visão de mundo, seus instrumentos mentais, pois, logo em seguida, ele publicará o estudo que tenta unir “ciência e poesia”, com inspiração declarada e direta a Euclides da Cunha. Mas, o pensamento voltado para as ciências naturais continuará marcando seu pensamento mesmo mais tarde, quando se torna comunista e inicia a empreitada de “conhecer” o marxismo. Basta pensar no tipo esquemático de construção das ideias que o leva a, de Canais e Lagoas a Agrarismo e Industrialismo, conceber os processos sociais a partir do conceito de “ciclos”. Isso é marcante e constitui parcela das matrizes intelectuais de seu pensamento e, por que não?, do marxismo brasileiro em seu alvorecer.

Quais são as “matrizes intelectuais de um pensamento que se forma por camadas e em tempos sincrônicos?”, como escreve Marisa Midori Deaecto no prefácio da edição?

FCL: As principais matrizes intelectuais de Octávio Brandão, as quais, por associação, poderiam ser consideradas as próprias matrizes intelectuais do marxismo brasileiro nos albores, foram aquela espécie de “nacionalismo” em gestação, de matriz cientificista e calcada num forte regionalismo; o que apelidei a herança euclidiana. A cultura política anarquista de fins dos anos 1910 e início dos 1920, quando Octávio Brandão, imerso no movimento libertário do Rio de Janeiro, publicou uma série de pequenos folhetos de defesa do anarquismo; ali, ele constituiu uma matriz de pensamento, compartilhada, aliás, por vários de seus correligionários, que apontava para o que poderíamos chamar uma “romantismo libertário”, com forte inspiração no ideário do grupo francês Clarté, de Henri Barbusse, de negação à modernidade capitalista. Por fim, a marca de sua matriz intelectual no momento de transição da postura anarquista à comunista, foi a apropriação do ideário da Internacional Comunista, seja pelo conjunto de material propagandístico chegado da União Soviética, França, Argentina ou Uruguai – o que chamei a rede mundial de circulação de impressos comunistas –, o que explorei no primeiro capítulo do livro, seja pelo contato direto com a direção da Internacional Comunista, que trocava informações, influenciava as análises e solicitava dados para a construção de um programa para o partido. Este último é um aspecto fundamental, poucas vezes notado e que busquei esclarecer no terceiro capítulo da obra.

O que levou Brandão a militar na esquerda brasileira?

FCL: Várias explicações podem ser buscadas para o engajamento. É certo: nunca sabemos o que leva, de fato, as pessoas à militância por um ideal. Podem ser motivos da ordem da tradição familiar, aspectos éticos e morais, acasos na vida… além do mais, toda e todo memorialista, ao apresentar os caminhos percorridos na vida, encontra um ou vários momentos que marcaram sua formação. Octávio Brandão assim o faz em seu livro de memórias, Combates e Batalhas. Mas tendo a acreditar que o que une a todas e a todos que se atiram no ativismo esteja no nível dos sentimentos, pois compartilha-se, apesar das infinitas divergências no seio dos grupos e movimentos de esquerda, revolucionários, de luta contra as opressões e explorações, um ódio comum às formas de autoritarismo e injustiça que se observam ou que se vivenciam ao longo da vida, bem como um amor incondicional à justiça e à igualdade. Entre as duas coisas, a crença de que outro mundo é possível, e só é possível por meio da luta.

Qual o legado de sua produção intelectual e como ela se reflete até hoje em nosso país?

FCL: Octávio Brandão deixou uma obra que deve ser vista do ponto de vista da propaganda política. Isso mesmo antes de adentrar o Partido Comunista do Brasil. Sua obra de divulgação anarquista era bastante básica, mas muito interessante para se contar a história do anarquismo brasileiro. Acho que esse é um ponto bem interessante, pois tenho uma forte inclinação para o anarquismo e creio que ainda se pode aprender muito ao se estudar a história dessa tendência do pensamento revolucionário.

Capa de “Canais e Lagoas”

Mas sua obra de estreia, Canais e Lagoas, e também sua produção após à adesão ao comunismo também possuem importância. Naquela obra de estreia, o alagoano já falava sobre a importância do petróleo e a ação do imperialismo com vistas a colocar as mãos nas jazidas que ele julgava existirem naquele momento. Hoje, o entreguismo da elite que se apossou do governo após o golpe de 2016 e as eleições tragicômicas de um candidato (hoje presidente), que não pode abrir a boca em público, pois seus próprios aliados sabem que dali não pode sair nada de bom, voltam, uma vez mais, a entregar ao capital estrangeiro as riquezas naturais de um país cuja população parece aceitar de bom grado falsas soluções para sua miséria real.

O que podemos aprender com a obra de Octávio Brandão e como ela pode ser lida no Brasil de hoje, que elegeu Jair Bolsonaro? De que maneira a obra de Brandão nos ajuda a entender esta realidade?

FCL: Quando penso no legado ou no que se pode aprender com a obra de Octávio Brandão, creio que se deve expandir um pouco a concepção que temos de obra. Pois o que meu trabalho buscou demonstrar é que a produção intelectual de Octávio Brandão era de fato bastante básica, mas que suas características possuíam um sentido no conjunto do contexto político e intelectual do momento em que foi produzida. Assim, para além de alguns ensinamentos que podem vir da leitura de seu livros – como a caracterização de mesquinha elite colonizada de nosso país ou o papel do imperialismo em uma região que vive à sombra da posição geopolítica dos Estados Unidos da América –, sua principal contribuição foi em termos da propaganda política e do que os comunistas chamavam de agitação e propaganda. Isto é, do esforço em divulgar seus ideais e investir o sangue e o suor na formação política daquelas e daqueles que decidem, por motivos os mais diversos, lutar do seu lado da trincheira. O governo de Jair Bolsonaro, e da elite fardada que tenta guiá-lo e adestrá-lo na arte da opressão política e social, se é risível em suas manifestações no espaço público, comporta apenas um riso de canto de boca, pois se trata do conluio do que há de pior em toda a formação histórica brasileira: o entreguismo neoliberal de uma elite colonizada e o escravismo brutal das elites e classes médias, que não são capazes de ver a gente explorada e oprimida ter sequer uma migalha para confortar o estômago dolorido de fome, preferindo jogar a nação do desfiladeiro e vê-la afundar num lamaçal infinito.

Talvez a obra de Octávio Brandão, entendida nesse sentido lato, possa nos ajudar a compreender que haverá sempre mulheres e homens dispostos a se atirar contra a escravocracia brasileira de longuíssima duração, pois seu futuro pessoal, o de todo o país e, em última análise, o da humanidade, depende da destruição do parasitismo elitista.

Nesse contexto, é compreensível que, apesar da espera repressão político-ideológica que nos ameaça dia a dia, o interesse pelo marxismo venha se renovando. Nessa esteira, a curiosidade pelas matrizes intelectuais do marxismo brasileiro podem ser um item de interesse para intelectuais, estudantes, militantes e todas e todos que se interessem pelo pensamento realmente crítico. Se assim for, a obra de Octávio Brandão certamente terá lugar nas estantes dessas pessoas e poderá propiciar alguns ensinamentos.

Conheça outros livros da Ateliê Editorial sobre política

Escritoras de livros: literatura para além do Dia Internacional da Mulher

8 de março é Dia Internacional da Mulher. O significado desse dia tem mudado muito, conforme percebemos que as mulheres não precisam (nem devem) ser segregadas como algo à parte da sociedade. Não se trata de comemorar, mas de marcar a importância de promover direitos e igualdade entre homens e mulheres.

Em uma sociedade machista e patriarcal, durante séculos a mulher foi silenciada e colocada em um papel de subserviência. Muitas vezes, restava a elas apenas se expressar em cartas a familiares ou parentes; cartas que muitas vezes nem mesmo chegavam aos seus destinos. Os diários também são um importante documento histórico dessa realidade e, assim, escrever passa a ser uma atividade “consentida” às mulheres, ainda que, mesmo hoje em dia, se nos propusermos a fazer uma lista dos escritores que conhecemos, provavelmente o número de homens será bem maior que o de mulheres. É por isso que hoje o Blog Ateliê se dedica a mostrar alguns dos títulos publicados pela editora que foram escritos por mulheres. Acompanhe:

Antologia Poética – Luci Collin

Esta coedição com a Kotter reúne poemas escritos entre 1984 e 2018. A autora é ensaísta, ficcionista, poeta. Tradutora, professora universitária de Literaturas e Língua Inglesa, bacharel em música (piano e percussão Clássica). Leitora de Jorge de Lima e T.S.Elliot, entre muitos outros. Essa é uma pequena amostra de tudo o que interessa a Luci Collin,  que começou a publicar poesia aos 17 anos e segue, ainda hoje, trazendo sua produção ao público. 

Yaser – Eda Nagayama

Um livro que nasceu da experiência vivida com pessoas, em uma paisagem de guerra. Assim é Yaser, de Eda Nagayama, que alinhava com o fio da ficção a dura realidade da Palestina dos dias de hoje. Eda, que é escritora e atriz paulistana, doutoranda em Estudos Literários (FFLCH/USP), foi voluntária na Palestina, onde se sentia “inimiga por extensão”. Para contar sua experiência, escreveu Yaser. “A escrita nasceu assim dessa necessidade de dar voz e visibilidade ao que vi, ouvi e testemunhei, de responder à minha própria ferida. Não sou uma ativista e minha maneira de agir foi através da palavra – gestada na solidão, povoada por essas pessoas, por Yaser e sua família em especial”, explica a autora.

Casas Importadoras de Santos e seus Agentes

Casas Importadoras de Santos e seus Agentes – Carina Marcondes Ferreira Pedro

A obra de Carina Marcondes Ferreira Pedro originou-se de uma preocupação em melhor compreender os fluxos de importação de bens de consumo – de objetos domésticos a materiais de construção, de “chita até locomotiva” – que caracterizaram o processo de internacionalização das últimas décadas do século XIX. A opção de pesquisa foi “colocar-se” bem junto à sua entrada na Província, depois Estado de São Paulo, no Porto de Santos. As casas importadoras, que se instalavam estrategicamente nas imediações do Porto, constituíram o “posto de observação” da autora. A ação de seus agentes importadores, o fio condutor que a levou pelos caminhos percorridos. 

Paulinho da Viola e o Elogio do Amor – Eliete Eça Negreiros

O livro apresenta uma reflexão sobre a representação do amor na obra do compositor e sua inscrição no âmbito da tradição do pensamento e da lírica ocidental. Através das canções criadas e cantadas por ele, a autora revisita poetas e pensadores como Safo, Platão, Aristóteles, Montaigne, Freud, Walter Benjamin e Octavio Paz.
Eliete destaca três modalidades do amor na lírica violiniana: o amor breve, o amor melancólico e o amor feliz e vê no aspecto meditativo das canções uma espécie de educação sentimental na medida em que Paulinho da Viola descreve e reflete sobre os estados de apaixonamento.

Viagem a um Deserto Interior – Leila Guenther

“Se a arte não parece ter gênero, as experiências o têm: chegam aos poemas de nossos dias vozes marcadas por um espanto de vida a um tempo estoico e dilacerado, ressurgido de incêndios, vingando um calar histórico. Urro e desprezo podem acalantar a criatura ofendida, as inquietudes podem se abrigar numa forma zen, a paisagem contemplada pode guardar uma guerra dentro. São forças da voz de Leila Guenther, que movem quem a ouça”, escreve Alcides Villaça sobre o livro. 

O Quarto Livro dos Fatos e Ditos Heroicos do Bom Pantagruel

O Quarto Livro dos Fatos e Ditos Heroicos do Bom Pantagruel – Élide Valarine Oliver (trad)

O Quarto Livro dos Fatos e Ditos Heroicos do Bom Pantagruel, o mais radicalmente satírico de toda a obra de Rabelais, reflete, na história de sua publicação, os perigos aos quais o próprio Rabelais se expôs, no fim da vida. Uma primeira edição parcial foi publicada em 1548, em Lyon. Em 1552, sai a edição definitiva, em Paris. Ao mesmo tempo, correm boatos de que Rabelais havia sido levado “acorrentado” à prisão. Nada se prova, mas o famoso médico e escritor desaparece, e morrerá, em circunstâncias desconhecidas, no ano seguinte. Teria presumíveis 70 anos, ou talvez mesmo 59. O livro tem como pressuposto continuar as aventuras do Terceiro Livro, onde Panurge busca resolver a dúvida se deve casar-se ou não.

Silêncios no Escuro – Maria Viana

O primeiro livro que Maria Viana escreveu para adultos quase chegou à maioridade antes de seu publicado. Passaram-se 17 anos desde que a autora mineira – que escreve livros infantis e didáticos e organizou diversas antologias – escreveu o conto que dá título ao volume. A autora relata que só se deu conta de que a morte e o silêncio são os fios condutores de todos os contos do livro Silêncios no Escuro depois de tê-los reunidos. Personagens que não falam habitam histórias que os levam de um extremo a outro (morte e vida; tristeza e alegria), costuradas por uma narrativa escrita por alguém que se define como uma leitora voraz que gosta de “contar histórias”.

“Dom Casmurro” de Machado de Assis

Por Renata de Albuquerque*

“Traiu ou não traiu?”

“Olhos de cigana oblíqua e dissimulada”

“Capitu amava Bentinho?”

É incrível que um romance publicado no fim do século XIX ainda hoje, em pleno século XXI, ainda pareça ser tão popular, ao menos na superfície. Afinal, até quem nunca abriu uma página de Dom Casmurro já ouviu falar em ao menos uma dessas frases. Claro que muito disso se deve  ao fato de que Dom Casmurro, romance de Machado de Assis, publicado em 1899, tornou-se um clássico da literatura brasileira, solicitado em inúmeras provas de pré-vestibular como uma leitura obrigatória – o que o fez obrigatório também no currículo do Ensino Médio, desde que as pessoas escolhiam entre o “Clássico”, “Normal” e “Científico”. Talvez por isso também muita gente não consiga se encantar com a história contada por Bento de Albuquerque Santiago, o Casmurro do título, que na infância era chamado de Bentinho. Afinal,  nada do que é obrigatório parece interessante.  

Mas, por trás dessa obrigatoriedade que o vestibular “exige”, há um livro genial, construído com muita perspicácia, por um autor que faz da ironia sua melhor ferramenta de critica social, que constrói personagens complexos e que pode fazer com que o leitor tenha uma das experiências literárias mais interessantes de sua vida.

Dom Casmurro, que na infância fora chamado de Bentinho, narra o romance em primeira pessoa. Logo no segundo capítulo (depois de explicar o apelido, dado por um poeta) ele explica a razão que o leva a escrever aquele romance: “atar as duas pontas da vida”, rememorando sua existência. Entretanto, logo se vê que o ponto central da narrativa é o ciúme que Bentinho sente por Capitu.

Dom Casmurro, de Machado de Assis

Bentinho e Capitu

Vizinhos. Assim são Bentinho e Capitu, duas crianças que convivem no Rio de Janeiro, por volta de 1857. Ele, mais abastado, é órfão de pai e mora com a mãe, dona Glória, o tio Cosme, a prima Justina e o agregado José Dias. Capitu, apelido de Capitolina, é filha de Dona Fortunata e Pádua. Capitu e Bentinho tornam-se amigos, mas apesar de nutrirem um sentimento que vai além da amizade, Bentinho é enviado ao seminário, onde conhece Ezequiel Escobar, de quem torna-se amigo. Mais tarde, Bentinho sai do seminário, vai estudar Direito e  casa-se com Capitu. Escobar também se casa com Sancha, amiga de Capitu. Nasce Ezequiel, filho de Capitu – e que Bento Santiago desconfia ser fruto de uma relação entre ela e Escobar (já que o nome da criança é dado em homenagem ao amigo).

O ciúme leva Bentinho a separar-se de Capitu, que vai com o filho para a Europa, onde morre. O filho volta, tenta reatar com Bentinho,  mas também morre. O amigo Escobar morre afogado no mar.

Tantas mortes são a razão pela qual as dubiedades – que tornam o romance tão genial – possível. Com todos mortos, só Bentinho (que narra a história) foi testemunha dela. E, com isso, pode contar o que melhor lhe convier.

A traição de Capitu

A dubiedade que marca o romance (a forma como é narrado, os interditos, a complexidade psicológica de Bentinho e Capitu, o comportamento singular do agregado José Dias)  é a chave para entender que a velha pergunta “traiu ou não traiu?” não é a parte que interessa a Machado de Assis.

Com Dom Casmurro, o escritor constrói uma obra muito maior do que seria se fosse dedicada a levar o leitor a descobrir se houve ou não infidelidade. O grande jogo consiste na chance que o autor dá ao leitor de desconfiar desse narrador (que deixa pistas de sua inconstância e nos dá motivos para tal desconfiança ao longo de todo o romance).

É bom dizer que nem sempre essa dúvida existiu. Apenas em 1960 (portanto mais de sessenta anos depois da publicação da primeira edição de Dom Casmurro), a pesquisadora Helen Caldwell trouxe a público seu estudo O Otelo Brasileiro de Machado de Assis, em que defende a inocência de Capitu tomando por base indícios do próprio texto machadiano. Tudo isso explica porque Dom Casmurro é um livro imenso, talvez um dos mais importantes da literatura mundial. E ajuda a explicar porque, para além da obrigatoriedade escolar, ele merece ser lido por quem deseja tornar-se um leitor mais experiente, mergulhando nas águas fundas do raro estilo machadiano, cheio de humor e uma fina e aguda ironia, que coloca o leitor no como parte atuante do jogo narrativo.

Conheça outros títulos da Coleção Clássicos Ateliê

*Jornalista, Mestre em Literatura Brasileira pela FFLCH/USP, autora da Dissertação Senhoras de Si: o Querer e o Poder de Personagens Femininas nos Primeiros Contos de Machado de Assis.

Auto da Barca do Inferno, de Gil Vicente

Por: Renata de Albuquerque*

Uma das mais importantes obras do dramaturgo português Gil Vicente – considerado o pai do teatro português – o Auto da Barca do Inferno (ou Auto da Moralidade) foi escrita em 1517 e encenada, pela primeira vez, em 1531. O texto faz parte da trilogia das barcas, composta por esta e por outros dois textos, Auto da Barca do Purgatório e Auto da Barca da Glória.

Devido à sua importância histórica para a literatura, o Auto da Barca do Inferno foi escolhido para ser o primeiro título de uma coleção criada pela Ateliê Editorial ainda nos primeiros anos de existência da editora. A ideia da coleção “Clássicos para o Vestibular” era oferecer aos alunos do ensino médio uma edição de qualidade de um livro clássico, que é sempre solicitado nas provas. O livro traz o texto na íntegra, precedido de um texto introdutório que traz análise do enredo, da linguagem, dos personagens, do contexto histórico e do autor. Logo depois, a coleção passou a chamar-se “Clássicos Ateliê”. Afinal, não são apenas os estudantes que merecem ler uma edição bem cuidada de um clássico. Inicialmente, a coleção era coordenada por Ivan Teixeira, professor livre-docente da ECA/USP e professor titular de Literatura Brasileira na FFLCH/USP. Depois do falecimento de seu criador, em 2013, a coleção passou a ser coordenada pelo professor José de Paula Ramos, doutor em Literatura Brasileira pela USP e professor da ECA, da mesma universidade.

Auto da Barca do Inferno

Por ser um auto de moralidade, a peça, de um só ato, é uma alegoria do Juízo Final, uma sátira à sociedade portuguesa do século XVI. O vocabulário – muito distante da maneira como falamos hoje – pode parecer um obstáculo ao entendimento. Mas, se ultrapassado, o texto se revela divertido, com uma comicidade envolvente.

O enredo é simples. Dois barqueiros – o Anjo e o Diabo – estão em um porto, em que recebem, cada um em sua barca, as almas dos passageiros, para transportá-las para o outro mundo. O Diabo convida cada alma para fazer parte de sua barca. O Anjo autoriza ou não outras almas a viajar em sua própria barca. Vai para  céu quem durante a vida seguiu os preceitos divinos. Vai para o inferno quem foi avarento, mesquinho ou cometeu outros pecados.

Os personagens – que são, na verdade, representações de tipos sociais – apresentam-se diante do espectador como em um desfile. Sua história vai definir seu destino. Apenas o parvo e os quatro cavaleiros, mártires da Igreja, que dedicaram a vida ao cristianismo, conseguem embarcar rumo à paz eterna na barca do paraíso.

Cada personagem representa um aspecto da sociedade portuguesa. O Fidalgo, por exemplo, é o tirano representante da nobreza. O Parvo simboliza o povo português, temente a Deus e de bom coração. O Judeu representa as pessoas que não são fieis à fé cristã. O Frade desobedece o voto de castidade e, por isso, também vai para o inferno. Figuras como o Onzeneiro, o Corregedor e o Procurador são alegorias dos burocratas que usam o poder político a seu favor.

É interessante notar que o Diabo fala e age com uma fina ironia e que, muitas vezes, suas intervenções parecem ser a voz do próprio autor. Já o Sapateiro, ainda que tenha-se confessado antes de morrer não conquista o céu – o Diabo o leva porque ele roubava seus clientes.

Gil Vicente

Gil Vicente

Nascido por volta de 1465, em Guimarães, o poeta Gil Vicente é considerado o pai do teatro português. Autor de um teatro popular – apesar de estar no ambiente da Corte Portuguesa – foi um entretenimento para a família real, mesmo contendo diversas críticas ao poder. O teatro de Gil Vicente é caracterizado pela sátira crítica.

Pai de cinco filhos – dois do primeiro casamento e três do segundo, contraído após a morte da primeira esposa – estudou na Universidade de Salamanca, na Espanha. Um dos primeiros registros com seu nome data de 1502, quando encena “Auto da Visitação” ou “Monólogo do Vaqueiro”, em homenagem ao nascimento do príncipe D. João, futuro D. João III. Em 1511 foi nomeado vassalo do rei e mais tarde, mestre da balança da Casa da Moeda (1513). Faleceu por volta de 1536, provavelmente em Évora.

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*Jornalista, Mestre em Literatura Brasileira pela FFLCH/USP, autora da Dissertação Senhoras de Si: o Querer e o Poder de Personagens Femininas nos Primeiros Contos de Machado de Assis.

“A Relíquia”, de Eça de Queirós: humor e ironia em um clássico realista

Por Renata de Albuquerque*

Um romance realista cheio de ironia, humor e com um toque de cinismo. Assim é A Relíquia, romance de Eça de Queirós, publicado em 1887 em Portugal. O livro é narrado por Teodorico Raposo (Raposão), órfão de pai e mãe que, ainda criança, vai morar com sua tia, Dona Maria do Patrocínio (Titi), uma senhora beata, avara e casta. É ela quem controla a fortuna que o sobrinho herdará, no futuro.

As características da tia do narrador não são colocadas por acaso pelo autor. Eça de Queirós foi integrante da chamada Geração de 70 de Portugal, um grupo de artistas e intelectuais que desejava a renovação da  vida política e cultural portuguesa, que consideravam decadente. A obra Causas da decadência dos Povos Peninsulares nos últimos três séculos, de Antero de Quental, componente do grupo, propõe que são três os elementos que levam ao atraso científico e industrial e à decadência moral, econômica e social: o catolicismo, a monarquia absolutista e as conquistas ultramarinas. Em A Relíquia, Eça de Queirós lança mão de uma personagem beata para criticar a igreja católica e a sociedade portuguesa de então.

Enredo

A Relíquia narra as memórias de Teodorico Raposo, órfão cuja mãe morreu no dia seguinte ao parto (um sábado de aleluia) e que, por parte de pai, era neto de padre.  Tudo é contado com um forte tom de ironia. Por isso, o que está posto no romance deve ser lido com uma certa desconfiança do leitor. Graças a este recurso, a obra é uma leitura que agrada e diverte o leitor, pelo humor ácido e pelo cinismo. Teodorico narra as desventuras de viver com a tia e também suas aventuras em uma peregrinação à Terra Santa – viagem que Raposo realiza porque a tia não concordara em enviá-lo a Paris, cidade que Dona Maria do Patrocínio considerava um berço de vício e perdição. Titi pede ao sobrinho que lhe traga uma relíquia de Jerusalém.    

Na Terra Santa, Teodorico passa por uma experiência fantástica. Ele assiste pessoalmente a todo o sofrimento de Jesus Cristo e descobre que, em vez de ressuscitar, ele morreu de fato. Por causa deste episódio, muitos críticos acreditam que o romance fuja um pouco do realismo. Mas, no decorrer da trama, o realismo está fortemente presente.

Obviamente, entretanto, Teodorico não deixa de viver aventuras, ainda que em Jerusalém. Lá ele conhece Miss Mary, com quem tem um romance. Quando se separam, ela lhe dá como lembrança sua camisola, embrulhada em um pacote.

Para honrar a promessa que fez à tia – de trazer-lhe uma relíquia da Terra Santa – Teodorico trança uma falsa coroa de espinhos, que embrulha, de presente para Dona Maria do Patrocínio.

O narrador encontra, em seu caminho, uma mendiga e dá a ela a camisola de Miss Mary. Mas, em vez disso, confunde os pacotes e entrega-lhe a falsa coroa de espinhos. Ao voltar ao Brasil, entrega a camisola à tia que, então, deserda-o. Teodorico lamenta não ter convencido a tia de que aquela seria a camisola de Maria Madalena. Então, começa a vender “relíquias” de Jerusalém, que ele mesmo fabrica, mas o negócio declina com o tempo.

No final, Teodorico Raposo casa-se, torna-se pai e recebe a comenda de Cristo, sem, mesmo assim, deixar de pensar que poderia ter feito fortuna se tivesse dito uma mentira convincente  à tia beata.

Conheça outros títulos da Coleção Clássicos Ateliê


 
*Jornalista, Mestre em Literatura Brasileira pela FFLCH/USP, autora da Dissertação Senhoras de Si: o Querer e o Poder de Personagens Femininas nos Primeiros Contos de Machado de Assis.

Ateliê participa de evento da ECA para alunos de jornalismo

A Ateliê Editorial participou de um evento da Jornalismo Júnior, empresa de jornalismo júnior da ECA – Escola de Comunicação e Artes – da USP. A empresa é formada exclusivamente por alunos do curso que pretendem exercitar na prática os aspectos do jornalismo e tem como objetivo propor a discussão da profissão sempre que possível.

O evento “No Ar! Jornalismo na TV”, que teve a participação da Ateliê, tratou de discutir diferentes pontos do telejornalismo, promovendo alguns debates diversos que foram desde a influência da TV nos dias atuais, até como se dá o processo de produção de notícias nesse meio, passando também pela dinâmica do formato de programas documentais.

A editora foi uma das patrocinadoras do evento, cedendo exemplares de livros como O Livro no Jornal, da jornalista Isabel Travancas; e Papel-Jornal – Artigos de Jornalismo Cultural, do também jornalista Marcello Rollemberg. Os títulos foram sorteados para o público do evento.

O evento contou com a participação de nomes do jornalismo como Mauricio Stycer, Ananda Portela e Luana Ibelli, entre outros.

Veja algumas fotos:

“O Tempo Vivo da Memória – Ensaios de Psicologia Social” de Ecléa Bosi, volta às prateleiras

O Tempo Vivo da Memória – Ensaios de Psicologia Social é um daqueles livros essenciais para quem estuda ciências sociais e, especialmente, psicologia social. Escrito por Ecléa Bosi – professora de psicologia social da USP – e publicado pela primeira vez em 2003, ele ganha, agora, nova edição da Ateliê Editorial.

Na obra, Ecléa Bosi faz caminhos teóricos para tratar de memória, preconceito, conformismo e rebeldia. A autora procura tornar atuais as ideias de pensadores como Bergson, Benjamin, Gandhi e Simone Weil, e convida o leitor a dialogar sobre o que a memória recupera, redime e inspira. Dentro dessa perspectiva, os clássicos ajudam a compreender o cotidiano das metrópoles de hoje, com suas contradições entre lembrança e esquecimento.

O livro é um dos mais importantes títulos da autora, falecida em 2017. Sobre ele, Renato Tardivo escreveu:

“Atentando no início para os aspectos do cotidiano e seu dinamismo, o que os afasta das definições estanques e cronológicas (a que estamos mais acostumados) de História, Ecléa Bosi nos mostra que o tempo da memória não é o tempo morto dos calendários, mas o tempo ‘de outra história mais densa’, o tempo das pequenas coisas, dos gestos, o tempo que nos une a todos e que, por isso mesmo, escapa a qualquer apreensão definitiva”. (leia o texto completo aqui)

Além deste título fundamental, em 2019 a Ateliê também publica Velhos Amigos. O livro traz pequenas narrativas sobre as lembranças de velhos operários, imigrantes e outros personagens anônimos da vida brasileira. As histórias, que se colocam entre o conto e a crônica, tratam de episódios de amigos e família, em tom bem humorado.  A apresentação do livro é de Adélia Prado e as ilustrações, de Odilon Moraes.

 

Saiba mais sobre Ecléa Bosi

Feliz Dia dos Professores

Essas figuras fazem parte do nosso dia a dia durante toda nossa infância e adolescência; elas nos ensinam ferramentas poderosas, como a leitura e a visão crítica; transmitem conhecimento formal que levaremos para a vida toda. Por isso, desejar “Feliz Dia dos Professores” é mais que uma homenagem protocolar; é algo que cada cidadão deveria fazer com sinceridade e gratidão.

Mas, o que seria de um professor sem livros, se são eles que oferecem a base do conhecimento que ele tão generosamente compartilha?  São os professores que nos incentivam a ler clássicos, a praticar cálculo em exercícios complexos, a entender a organização das células e dos planetas.

Mas, se nós lemos por estímulo deles – e com isso aprendemos tanto – a pergunta é: e eles, o que leem?

Neste ano, esta foi a pergunta que o Blog da Ateliê fez a dois professores para que, mais do que oferecer dicas de leitura, eles pudessem compartilhar suas experiências com outros professores, leitores do Blog.

 

Teoria e ficção

De títulos de ficção aos teóricos, a lista de “o que ler” fica maior a cada dia que passa para qualquer professor que queira se manter atualizado. Mas quais são os livros que merecem ser lidos e relidos?

Ayrthon Breder, graduado em Letras pela PUC-Rio e mestrando em Linguística pela mesma universidade, é professor voluntário de Redação no NEAd (Núcleo de Educação de Adultos/PUC-Rio) com aulas. “O principal livro fonte de minhas aulas de redação para alunos do ENEM é A arte de argumentar: gerenciando razão e emoção. Acredito que um bom professor ensina seus alunos a opinarem, a se colocarem presentes face às diversas situações da vida. A argumentação é importante nessa tarefa, pois ajuda o aluno, não só a discursar com mais propriedade, como também a ser um ouvinte crítico”, explica.

 

 

Já Sávio Lima Lopes, que além de professor do curso de Administração é também graduando em Letras, lembra que a ficção também pode ser usada em sala de aula. “No curso de Recursos Humanos, na aula de Comunicação Empresarial, li o conto “O caso da menina”, que está no livro Angu de Sangue. O objetivo era exemplificar ritmo e entonação das palavras, logo quando começamos a estudar prosódia Já é o terceiro livro do Marcelino Freire que leio”, afirma.

Mas, como também é aluno, ele completa: “Na graduação em Letras meu companheiro inseparável, tem sido Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, E que edição maravilhosa: ilustrada, com um ensaio incrível do Antônio Medina Rodrigues”, conclui.

A seguir, o Blog da Ateliê faz uma seleção para professor nenhum colocar defeito! Feliz Dia dos Professores!

Gramática Integral da Língua Portuguesa

Esta gramática se destina a todos aqueles que gostariam de conhecer melhor a maneira como funciona a língua portuguesa e resolver dúvidas sobre concordância, regência, ortografia, colocação etc., por meio de respostas simples, escritas em linguagem clara, despidas de complicações ou erudições. Por isso, esta gramática é útil tanto para alunos do ensino fundamental e médio quanto para quem cursa ou já cursou universidade e quer ter segurança ao escrever um e-mail, um relatório, uma apresentação, uma tese acadêmica, uma petição ou até mesmo um livro de ficção.

 

Sonetos de Camões

O desejo de plenitude amorosa, as dificuldades existenciais e a injustiça dos homens estão entre os grandes temas do Renascimento presentes na lírica de Camões. Ricos em antíteses e metáforas, seus sonetos estão entre as mais belas expressões literárias da língua portuguesa. A voz reflexiva que se ergue desses versos produz a elevação do espírito e o entusiasmo verbal. Esta edição traz os poemas mais representativos do acervo camoniano, comentados por dois experientes pr

ofessores de Literatura.

 

 

História da Língua Portuguesa

Esta coletânea traça, em detalhes, o percurso histórico da língua portuguesa. Os autores aqui reunidos abordam as mudanças da língua do século XII ao XX, a oposição entre o português europeu e o brasileiro, entre outros assuntos. Sem desmerecer os estudos descritivos, a obra mostra preocupações de caráter explicativo e discute questões que só a investigação histórica pode revelar. Cada um dos seis capítulos vem acompanhado de textos anotados, vocabulário crítico e bibliografia comentada.

 

A Nebulosa

A coleção Clássicos Ateliê oferece ao leitor a 3ª edição de A Nebulosa, poema narrativo de Joaquim Manuel de Macedo, após quase 150 anos fora de circulação. Grande sucesso editorial nas duas edições lançadas em vida do autor, no século XIX, A Nebulosa narra a trágica história de um amor impossível, configurada no âmbito da corrente da poesia romântica noturna e melancólica a que Álvares de Azevedo também se dedicou. Para Antonio Candido, A Nebulosa vem a ser “talvez o melhor poema-romance do romantismo [brasileiro]”. O texto desta edição, estabelecido rigorosamente com base no da segunda (1878?), em cotejo com o da primeira (1857), é introduzido por um precioso estudo crítico de Ângela Maria Gonçalves da Costa, doutora em Teoria e História Literária pela Unicamp, que dá minuciosa notícia da recepção crítica do poema e analisa seus principais aspectos de forma e conteúdo, no contexto da poética cultural do ultrarromantismo, em que se insere A Nebulosa. O volume conta com ilustrações do artista plástico Kaio Romero.

 

Jacques Derrida – Entreatos da Leitura e Literatura

Literatura e Filosofia. A partir desse encontro promovido pela obra de Jacques Derrida, cujos efeitos ainda incidem sobre o pensamento contemporâneo, este livro reúne artigos de Eneida Maria de Souza, Myriam Ávila, Evando Nascimento, Emílio Maciel, Maria Esther Maciel, Mónica Cragnolini, Roberto Said, Luiz Fernando Ferreira Sá, Ram Mandil, Nabil Araújo, Sérgio Luiz Prado Bellei, Gustavo Silveira Ribeiro e Roniere Menezes.

 

 

Poesia É Criação: Uma AntologiaPoesia é Criação: Uma Antologia

Almada Negreiros, que começa por dar corpo à Vanguarda em Portugal, é uma das figuras de artista mais importantes do século XX português, que atravessa em grande medida, com uma passagem de menos de um ano em Paris e outra de cinco anos em Madrid. Da sua arte de poeta, ficcionista, dramaturgo, desenhista, pintor ou conferencista há vinte e quatro exemplos alinhados nesta antologia, seguindo, com uma exceção, o critério cronológico. Mais que um princípio de simetria ou de arrumação por gêneros, aparecem assim de modo mais evidente as relações entre os textos, o nexo profundo que torna as diferentes artes o mesmo gesto essencial.

Antologia de poemas de Luci Collin reúne mais de três décadas de poesia

Por: Renata de Albuquerque

Ensaísta, ficcionista, poeta. Tradutora, professora universitária de Literaturas e Língua Inglesa, bacharel em música (piano e percussão Clássica). Leitora de Jorge de Lima e T.S.Elliot, entre muitos outros. Essa é uma pequena amostra de tudo o que interessa a Luci Collin,  que começou a publicar poesia aos 17 anos e segue, ainda hoje, trazendo sua produção ao público. É essa diversidade que a Antologia Poética 1984-2018 (uma coedição entre as editoras de livros Kotter e Ateliê Editorial) traz ao leitor. É sobre isso que a autora fala, a seguir:

 

A escolha dos poemas para a Antologia foram feitas pelo Sálvio Nienkotter e pelo Marcos Pamplona, mas você teve papel importante na seleção final. Como foram escolhidos esses poemas?

Luci Collin: O processo foi muito bem cuidado pelos editores, que leram com muita atenção toda a minha produção poética (com poemas publicados desde 1984), selecionaram os poemas e depois me apresentaram a seleção. Então, em um segundo momento, eu pude também participar, apontando aqueles poemas que não estavam nessa seleta inicial e que eu, principalmente pelo “histórico individual” de cada poema, gostaria de ter na Antologia. O resultado ficou muito orgânico pois corresponde a três leituras, três olhares críticos diferentes. O resultado me surpreendeu – é algo especial ver nascer um livro formado de outros livros.

 

Há dois períodos de “lacuna” na publicação de sua poesia: 1984-1991 e 1997-2012. A que se devem essas lacunas?

LC: Estive, durante esses períodos, envolvida com literatura sim, mas de outras maneiras: ingressei na carreira de magistério superior na UFPR (em 1999, lecionando Literaturas de Língua Inglesa), cursei um doutorado na USP sobre a obra de Gertrude Stein, organizei antologias e traduzi vários poetas (como Gary Snyder e Jerome Rothenberg) e publiquei vários artigos e ensaios em jornais e revistas literárias. Mas, sobretudo, estive publicando ficção. De 1997 a 2011 publiquei cinco livros de contos e um romance e por esses motivos, estive afastada da publicação de poesia.

Luci Collin

Ao publicar uma antologia e revisitar sua obra, que mudanças você notou na sua própria poesia?

LC: Essa questão das mudanças, olhar para a sua produção e perceber quantas coisas foram sendo alteradas ao longo do tempo, é uma emoção enorme. É uma experiência de confronto não só com o seu estilo inicial e com as temáticas que foram  exploradas, mas também com a sua própria relação com o fazer poético ao longo da sua vida. São mais de trinta anos de percepções registrados por meio da palavra. Reunir esses poemas na Antologia funcionou como uma visita, um mergulho mesmo na minha própria trajetória de expressão pela poesia. E tem aqueles poemas que permaneceram importantes ao longo dos anos, que a gente ainda quer mostrar e dividir com os leitores. É como reescrever-se, recontar-se. A princípio, uma voz tímida, frágil e mais ligada ao experimentalismo; com o passar dos anos, uma maior definição do meu timbre, do meu estilo e da medida mais livre do meu poetizar – é isso a Antologia.

 

 

Jussara Salazar chama a atenção, na contracapa do livro, para a questão do estranhamento colocado na sua obra. Como se dá essa construção, no seu fazer poético? É uma construção consciente?

LC: Acredito que as características que acabam marcando a produção de um poeta são muito espontâneas, são como o correspondente de sua voz, de sua personalidade literária sob forma de poemas. A construção acaba se processando um misto de marca individual (talvez um pouco intuitiva) com labor (esse sim, consciente). Nunca reneguei nada do que escrevi e gosto de mostrar os poemas iniciais como expressões primeiras de alguém tentando se expressar de um modo sincero e livre, tentando manter uma fidelidade aos seus próprios anseios com a poesia, num registro de espanto e amorosidade. Às vezes isso causa mesmo um estranhamento, mas eu permaneci com essa perspectiva de chamar o leitor para que construamos, juntos, o poema.

No prefácio, Sálvio Nienkotter chama a atenção para a influência do concretismo na sua obra. Como isso acontece? Além desta, quais são suas outras influências literárias?

LC: Começo a escrever em uma Curitiba da década de 1980, muito influenciada pela presença de Paulo Leminski e da tradição a que ele se ligou, como a dos irmãos Campos. Assim, flertei com o concreto no primeiro livro. Já no segundo livro de poesia, tendo iniciado meus estudos de zen-budismo, passei a uma poesia ainda imagética, mas menos concreta, com a visualidade trabalhada de forma diferente. E, gradualmente, fui me afastando do concreto e do experimental. Com 17 anos, idade em que escrevi o Estarrecer, naturalmente estava sob muitas influências e era imitativa. Eu lia muito Jorge de Lima, Ferreira Gullar, os expressionistas alemães, poesia marginal, poesia beat. Aos poucos fui incluindo poesia francesa e portuguesa, mais autores contemporâneos e, sempre os modernistas como T. S. Eliot, Marianne Moore e William Carlos Williams.

 

De que maneira sua formação em música influencia sua poesia?

LC: Acredito que de um modo substancial porque minha vivência de anos como musicista me fez conceber o texto como literário e musical ao mesmo tempo, um texto em que aparecem elementos comuns às duas linguagens: a rítmica, o fraseado, a melodiosidade. E a interpretação de uma partitura é uma experiência de transporte de códigos para elaboração de uma trama emocional que é muito próxima ao uso que a poesia faz da poeticidade. Aliás, há, inclusive, quem considere que a essência de todas as artes é a poeticidade.

 

Além da Antologia, há outro livro recém-lançado organizado por você: Ao Vires Isto. Pode falar um pouco sobre este livro para os leitores do Blog Ateliê, por favor?

LC: Esse livro é a realização de um grande sonho que era reunir em uma publicação vários ensaístas investigando e discutindo a produção da escritora norte-americana modernista Gertrude Stein. Stein foi uma pensadora revolucionária que influenciou não só a literatura, mas as artes em geral. Nesse livro, organizado pela Profa. Dra. Daniella Aguiar, da Universidade Federal de Uberlândia; pelo Prof. Dr. João Queiroz, da Universidade Federal de Juiz de Fora; e por mim, da Universidade Federal do Paraná, reunimos vários ensaios sob o viés da tradução e da intermidialidade. Colaboraram nesta publicação nomes especialíssimos como Marjorie Perloff, Jerome Rothenberg, Edson Zampronha, Dirce W. do Amarante e Augusto de Campos. O livro representa um importante material crítico sobre Stein – algo que praticamente inexistia no mercado brasileiro até então. E a edição é um primor. Quem se interessa por Modernidade, tradução, intermidialidade seguramente se encantará com o Ao vires isto.

Conheça outras coedições Kotter/Ateliê Editorial

Livros para ler e para colecionar leituras e experiências

Por: Renata de Albuquerque*

“O amor inexplicável faz o coração bater mais depressa”, escreve Clarice Lispector em Água Viva. Para algumas pessoas, o sentimento pode ser inexplicável, mas tem um objeto definido: o livro. Ler é viajar, é sair do próprio mundo e conhecer outros, é mergulhar em outras realidades. A leitura é fascinante e nos ajuda a conhecer pontos de vista diferentes, a olhar o mundo com mais agudez, a entender o que nem sempre está explícito.

Quando o genial Jorge Luis Borges afirma que, para ele, o paraíso seria uma espécie de livraria, é dessa paixão pelo livro que ele fala; uma paixão que reverbera em muitos leitores. E, apesar de toda a tecnologia, o livro físico ainda é, por excelência, a melhor tradução dessa relação entre os leitores e a leitura. O cheiro do livro novo, a sensação de companhia, o virar de páginas, a exposição na estante: tudo são lembranças não só da leitura em si, mas de tudo o que aquele livro representa ou representou na vida de cada leitor.

“Eu li esse livro quando estava no colégio”; “aquele livro me acompanhou durante a licença-maternidade”; “eu li este quando estava de férias no interior”. Experiências de vida e histórias se misturam, formando uma outra memória, a que cada leitor recorre em diferentes momentos da vida.

Por isso, a Ateliê reuniu mais de cem títulos muito variados, abrangendo ficção, teoria literária, poesia, livros técnicos e livros sobre livros. É uma seleção diversificada, que apresenta muitos temas diferentes, que certamente poderão agradar a leitores com os perfis mais heterogêneos. O objetivo é um só: estreitar a relação entre o leitor e o livro, promover encontros que deixarão marcas e produzirão memórias inesquecíveis.

Confira alguns títulos:

A Casa dos Seis Tostões 

Paul Collins e sua família abandonaram as colinas de San Francisco para se mudarem para o interior do País de Gales – para se mudarem, na verdade, para a vila de Hay-on-Wye, a “Cidade dos Livros”, que ostenta mil e quinhentos habitantes e quarenta livrarias. Convidando os leitores a entrarem em um santuário para os amantes dos livros, A Casa dos Seis Tostões é uma meditação sincera e muitas vezes hilária sobre o que os livros significam para nós.

 

Poesia É Criação: Uma AntologiaPoesia é Criação: Uma Antologia

Almada Negreiros, que começa por dar corpo à Vanguarda em Portugal, é uma das figuras de artista mais importantes do século XX português, que atravessa em grande medida, com uma passagem de menos de um ano em Paris e outra de cinco anos em Madrid. Da sua arte de poeta, ficcionista, dramaturgo, desenhista, pintor ou conferencista há vinte e quatro exemplos alinhados nesta antologia, seguindo, com uma exceção, o critério cronológico. Mais que um princípio de simetria ou de arrumação por gêneros, aparecem assim de modo mais evidente as relações entre os textos, o nexo profundo que torna as diferentes artes o mesmo gesto essencial. [Fernando Cabral Martins]

Mensagem

Esta edição de Mensagem traz ao leitor brasileiro, pela primeira vez, o texto dessa obra-prima rigorosamente estabelecido, segundo critérios da crítica textual, e atualizado, segundo o acordo ortográfico de 1990. Deve-se isso ao esforço de António Apolinário Lourenço, professor da Universidade de Coimbra e prestigiado estudioso da obra de Fernando Pessoa. Com seu ensaio de apresentação da obra e as notas que agrega aos poemas, António Apolinário Lourenço oferece aos leitores uma orientação tão segura quanto esclarecedora para resolver tantas dificuldades de compreensão, decorrentes da rica e complexa simbologia de Mensagem.

 

Machado e Rosa – Leituras Críticas

Essa coletânea reúne estudos críticos produzidos por renomados especialistas na literatura de Machado de Assis e Guimarães Rosa. As obras de ambos continuam a instigar seus leitores, permitindo sempre novos enquadramentos e inflexões. Machado e Rosa são contemporâneos precisamente por não coincidirem inteiramente com seu tempo, nem se adequarem de forma estreita a suas normas e exigências. Justamente em razão desse deslocamento e desse anacronismo, os dois a(u)tores em foco foram capazes de perceber, apreender e traduzir seu tempo, deixando-lhe em aberto os paradigmas de forma a serem relidos e revistos no devir. Esta é uma razão suficiente para reconhecer como clássicos nossos dois grandes mestres. Para lê-los e ler sobre eles.

História da Língua Portuguesa

Esta coletânea traça, em detalhes, o percurso histórico da língua portuguesa. Os autores aqui reunidos abordam as mudanças da língua do século XII ao XX, a oposição entre o português europeu e o brasileiro, entre outros assuntos. Sem desmerecer os estudos descritivos, a obra mostra preocupações de caráter explicativo e discute questões que só a investigação histórica pode revelar. Cada um dos seis capítulos vem acompanhado de textos anotados, vocabulário crítico e bibliografia comentada.

 

A Forma do Livro – Ensaios sobre Tipografia e Estética do Livro

Com texto introdutório de Robert Bringhurst, A Forma do Livro traz ensaios que o renomado tipógrafo e designer alemão Jan Tschichold escreveu entre 1937 e 1974. Aborda, de maneira didática, os vários aspectos da composição tipográfica: página e mancha, parágrafos, grifos, entrelinhamento, tipologias, formatos e papéis, entre outros. Aliando precisão técnica e reflexão estética, Tschichold aposta no respeito pelo texto e no cálculo das proporções para conquistar a harmonia do conjunto.

 

A Relíquia

“Sobre a nudez forte da verdade, o manto diáfano da fantasia.” Essa é a fórmula que Eça de Queirós aplica, em A Relíquia, contra o cientificismo de sua época. O autor narra a saga de portugueses que, em pleno século XIX, vão a Jerusalém para resgatar um objeto de tempos bíblicos. Por meio da ironia e do humor, o romance excede os limites da análise social e instaura uma imaginação crítica. Na apresentação, Fernando Couto, mestre pela Unicamp, analisa o cenário social em que Eça viveu e escreveu.

 

 

Arte, Dor – Inquietudes entre Estética e Psicanálise

Entender a percepção como fenômeno estético é o que motiva as reflexões deste livro. Os treze ensaios retomam ideias de Lyotard, Argan, Winnicott, Bachelard, Chauí, entre outros. No entanto, o pensamento de Frayze-Pereira gira em torno das obras de Freud, Merleau-Ponty e Foucault. Com eles, o autor mostra que a arte se faz no encontro de dois sentimentos: o da forma e o do mundo. A partir dessa conexão entre percepção e política, a obra lança nova luz sobre o entendimento humano.

 

 

Livro Viva VaiaViva Vaia

Esta edição de Viva Vaia, obra que estava esgotada, é a mais completa de todas as que já vieram a público. Além de manter o projeto gráfico original, de Julio Plaza, ela devolve a impressão em cores a alguns poemas – dentre os quais o clássico “luxo”. Este volume contém ainda um encarte com o poema-objeto “Linguaviagem”, que não foi incluído nas versões anteriores por motivos técnicos. Vem encartado, com o livro, o CD Poesia é Risco, que contém quinze poemas musicados por Cid Campos, filho do autor.

 

Sertões, Os – Campanha de Canudos, de Euclides da CunhaOs Sertões – Campanha de Canudos

Esta 5a. edição comentada de Os Sertões foi revista e ampliada e, até hoje, é a mais completa do clássico de Euclides da Cunha. Além do texto rigorosamente restaurado conforme as fontes mais autorizadas, possui cerca de três mil notas, auxiliando o esclarecimento do difícil vocabulário euclidiano. Originalmente publicada em 2001, é a primeira edição com minucioso e inédito índice onomástico de lugares e pessoas; acurada cronologia da vida e obra do autor; vinte e quatro páginas de iconografia, com informações desconhecidas sobre o assunto; e prefácio elucidativo do organizador, Prof. Leopoldo Bernucci, que aborda o problema das diferentes linguagens de Os Sertões e de suas qualidades artísticas.

 

O Leitor Segundo G.H. – Uma Análise do Romance A Paixão Segundo G.H. de Clarice Lispector

Que perfis de leitor e que rituais de leitura a narradora G.H. elege e constrói para seu relato? Essa é a pergunta central deste ensaio, pensado e escrito de maneira poética, associando as dimensões intuitiva e intelectiva da crítica literária. Emilia Amaral apresenta um ponto de vista inovador em relação ao que já se produziu sobre a obra de Clarice. Ao explorar as diferentes figurações do leitor em A Paixão Segundo G.H., o estudo vislumbra novas chaves de interpretação para o romance.

 

Confira a lista completa de livros em promoção

*Jornalista, Mestre em Literatura Brasileira pela FFLCH/USP, autora da Dissertação Senhoras de Si: o Querer e o Poder de Personagens Femininas nos Primeiros Contos de Machado de Assis.