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A Voz e o Tempo

Por: Renata de Albuquerque

Vencedor do Prêmio Jabuti de Psicologia e Psicanálise 2009, A Voz e o Tempo – Reflexões para Jovens Terapeutas acaba de ganhar uma terceira edição. A novidade é um posfácio, escrito pelo autor, Roberto Gambini, no qual ele faz a reflexão/provocação: Com que direito pode um analista declarar a verdade sobre seu paciente?”. No texto, a partir de sua experiência junguiano, Gambini escreve sobre como lida com o poder que a palavra que o analista tem para seus pacientes.

Ele lembra que a psicanálise foi concebida como talking cure – a cura resultante da conversa e que esse contexto já mostra muito sobre a importância das palavras no processo – e sobre a relevância das palavras do terapeuta.

“A questão aqui é o que o terapeuta diz, baseado em quê, como diz, e desempenhando que tipo de papel que por acaso creia ter-lhe sido de alguma forma atribuído, e através de cujo desempenho recebe ele seus proventos. Como reage ele a esse apelo de quem o procura, às vezes formulado claramente, outras vezes pronunciado como uma insinuação, um subtexto?”, pergunta-se (ou pergunta ao leitor?) Gambini.

Mas, para além da voz, está o tempo. O psicanalista (assim como o artista, conforme nos lembra, no prefácio, Adélia Bezerra de Meneses), cria elos com o tempo. É este tempo que matura as reflexões do terapeuta e suas elaborações teóricas, todas feitas a partir do prisma único de sua subjetividade e da relação que estabelece cada paciente seu. “(…) a decantação de leituras e estudos, construção de caminhos absolutamente não corriqueiros para se pensar a terapia e a vida, e sobretudo, algo que radica na empiria e que é fruto da interação com o paciente, no seu oficiar quotidiano do consultório, em sintonização rente à subjetividade do outro”, escreve  Meneses, antes de concluir: “A Voz e o Tempo condensa aquilo que é o cerne, o caroço, o essencial para alguém que se entrega à sua atividade como a um destino”.

Para um livro escrito por um terapeuta para terapeutas, este tem foi feito a partir de um fato muito singular. Nas palavras de Gambini, o livro “nasceu falado”, fruto de palestras e de depoimentos que Gambini concedeu a Adélia Bezerra de Meneses e Enrico Lippolis, dez anos depois das palestras que originaram a primeira parte do livro.

Nos escritos originados das falas, Gambini fala de como se aproximou de Jung, de sua trajetória, de como seu trabalho como professor abriu as portas para seu trabalho como analista e de outras questões que podem contribuir com jovens terapeutas, como o ofício do terapeuta, os desafios da transferência e a importância de exercitar a escuta – e como, tão importante quanto ela, torna-se, na trajetória de Gambini, o diálogo. O livro traz ainda uma carta com a interpretação do Dr. Karl Heinrich Fierz a um teste tipológico de Jung ao qual o autor submeteu-se nos anos 70. Todos esses elementos, somados, oferecem um panorama interessante sobre as idéias de Gambini, sobre seu fazer terapêutico e são, para os jovens terapeutas que se dispõem a ler a obra, uma experiência certamente enriquecedora.

Esaú e Jacó: o penúltimo romance de Machado de Assis

Por Renata de Albuquerque*

Publicado pela primeira vez em 1904, Esaú e Jacó é o penúltimo romance de Machado de Assis. A Ateliê acaba de lançar a edição, dentro da Coleção Clássicos Ateliê, com texto fidedigno (estabelecido segundo a vontade do autor, em vida), com apresentação de Paulo Franchetti e notas de José de Paula Ramos Jr. As ilustrações são de Mariana Coan.

O título, retirado do episódio bíblico sobre o desentendimento de dois irmãos, dá pistas sobre como os personagens Pedro e Paulo (também irmãos) vão se comportar ao longo da narrativa. Mas, ao contrário da história bíblica, os irmãos do romance machadiano não têm uma razão explícita para brigas. O desentendimento seria “ab ovo” (desde o nascimento) e com dois objetos definidos: a disputa pelo amor de Flora e as questões políticas (Pedro é monarquista; Paulo é republicano).

Um narrador problemático

Se Bentinho (Dom Casmurro) ficou conhecido como um narrador não confiável, por contar em primeira pessoa a história de um suposto adultério (não confirmado), Machado de Assis refina a problemática do narrador em Esaú e Jacó. Supostamente ele seria narrado pelo Conselheiro Aires (que volta em Memorial de Aires, último romance do escritor carioca) por meio de seus “cadernos manuscritos” encontrados após a morte do personagem, conforme lemos na Advertência.

Mas, logo no início da obra, o capítulo XII, chamado “Esse Aires”, começa assim: “Esse Aires que aí aparece conserva ainda agora algumas virtudes daquele tempo, e quase nenhum vício”. Ora, o narrador não falaria de si mesmo nesse tom, pensa o leitor. A partir desse momento, Aires é também personagem do romance.

Então, afinal, quem seria o narrador?

Sílvia Maria Azevedo, em seu texto Esaú e Jacó: de rivalidades e progenitura, levanta a hipótese de Aires ser um narrador-transcritor, ou seja, alguém que teria lido os cadernos de Aires e transcrito a história dos irmãos gêmeos Pedro e Paulo. Assim, para quem transcreve, Aires seria também personagem, um aspecto que repõe a complexidade da obra machadiana para o leitor, que tem, aqui, mais algo com que se preocupar para além do enredo.  

Enredo

A história começa com a visita de d. Natividade – a mãe dos gêmeos – à cabocla do Castelo, para saber sobre o futuro dos filhos. Essa visita de certa forma remete o leitor ao episódio bíblico da vinda do Anjo Gabriel que anuncia à Maria um milagre. Mas, aqui, não é o Anjo que revela algo, mas a mulher grávida que vai em busca de respostas – um rebaixamento proposital, uma pista de quem nem tudo (ou nada) nessa história será divino.

O conflito entre ciência e religião; o debate de questões sociais e políticas perpassa todo o livro, colocando em xeque as certezas que o leitor porventura venha a ter: as disputas entre os irmãos não permite que se possa “escolher um lado”: não há vilões ou heróis em Esaú e Jacó. Tudo parece levar a uma grande indefinição.

Um exemplo disso é o fato de uma moça do século XIX, Flora, assumir que não consegue decidir-se entre seus dois pretendentes – os irmãos. Flora adoece e morre sem decidir-se, mas consegue que os gêmeos prometessem a ela dar um basta em suas discórdias. Ainda que indecisa, ela é quem decide pela paz entre os irmãos, que se estabelece durante um curto período. Depois, a paz volta a dar lugar à discórdia.

Não por acaso, a história da paz em nome de uma mulher à beira da morte se repete quando d. Natividade pede a eles, no leito de morte, que esqueçam as diferenças.

Tudo, em Esaú e Jacó, gira em torno da rivalidade dos irmãos. Pedro estuda Medicina; Paulo, Direito. e, como ela se intensifica a cada passagem, tal rivalidade parece ter a função de reforçar as semelhanças entre Pedro e Paulo – tão iguais fisicamente, com ideias tão distintas – defendidas de uma maneira tão parecida: o embate. Por exemplo, tanto Pedro quanto Paulo se elegem deputados – mas, cada um por um partido diferente. Assim, podemos entender Pedro e Paulo como a metonímia das ideias que defendem: República e Monarquia seriam regimes igualmente problemáticos, um tema que Machado tratava “a quente”, durante a transição entre um e outro.

*Jornalista, Mestre em Literatura Brasileira pela FFLCH/USP, autora da Dissertação Senhoras de Si: o Querer e o Poder de Personagens Femininas nos Primeiros Contos de Machado de Assis.

Retratos da Leitura no Brasil 5ª edição

Por Renata de Albuquerque*

A quinta edição da Pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, realizada pelo Itaú Cultural e Instituto Pró-Livro, acaba de ser divulgada.  O objetivo da iniciativa é conhecer o comportamento do leitor e identificar os hábitos do brasileiro em relação à literatura.

Uma das mais interessantes novidades da edição é um módulo dedicado a leitores de literatura, seja em papel ou em outros suportes. Para efeito da pesquisa, literatura é qualquer conteúdo não utilitário/informativo.  

Além disso, a pesquisa contou com novos indicadores e opções de resposta, incluindo visitas a eventos (a coleta de dados foi realizada ainda em 2019, antes da pandemia), o uso do formato digital e a importância de influenciadores digitais nas escolhas de leitura. A inclusão da variável de gênero e raça também foi um importante avanço nesta edição da pesquisa.

Foram feitas 8076 entrevistas em 208 municípios brasileiros. Os leitores de literatura leem maior quantidade de livros por ano e são as pessoas mais jovens (até 29 anos), que leem por vontade própria e não por solicitação de instituições (escola, faculdade, trabalho). Ainda há mais leitores do gênero feminino lêem mais que do gênero masculino.

Papel, o predileto

O papel continua sendo o formato preferido dos leitores: 67% do total, enquanto que apenas 20% ouviu áudio livros. É interessante notar que quem lê livros físicos tende a compartilhar mais impressões de leitura que aqueles que lêem em outras plataformas. Estudantes do Ensino Médio lêem mais que em qualquer outra fase da vida escolar, incluindo-se aqui os livros de literatura.

Considerando leitores (quem leu, inteiro ou em partes, pelo menos 1 livro nos últimos 3 meses) e não-leitores, a média  de livros lidos foi de 5 (semelhante ao número da pesquisa anterior). O tema ou assunto do livro continua sendo a razão pela qual a maior parte dos leitores escolhe os livros que lerá, sendo que 12% afirmam escolher um livro pelo autor.  

A pesquisa aponta uma tendência de decréscimo na frequência de leitura de quase todos os formatos, especialmente livros de literatura por vontade própria e livros didáticos indicados pela escola. Entre as preferências de leitura, estão a Bíblia, contos, romances e outros livros religiosos.

Machado de Assis e Monteiro Lobato são os autores mais citados, enquanto que a sugestão de professores é levada em conta para que um leitor em fase escolar escolha o próximo título. Aqui vemos claramente a importância da escola na formação dos leitores no Brasil.    

Quem declara frequentar bibliotecas afirma ser bem atendido e gostar do espaço. Entretanto, 37% dos estudantes e 52% dos leitores não vão a esses espaços, sendo que 8% não sabe responder o que uma biblioteca representa para si. Estes dados indicam que é preciso revalorizar esses espaços para democratizar ainda mais a leitura.

Quer saber mais sobre a pesquisa? Acesse!

*Jornalista, Mestre em Literatura Brasileira pela FFLCH/USP, autora da Dissertação Senhoras de Si: o Querer e o Poder de Personagens Femininas nos Primeiros Contos de Machado de Assis.

“A Nebulosa”: um belo poema

Por: Roberta Araújo*

Publicado em 1857, “A Nebulosa” foi considerada à época como “um dos mais belos poemas dos tempos modernos”. 

Escrito por Joaquim Manoel de Macedo, autor dos clássicos “A Moreninha” e “Vítimas Algozes”, a obra é um poema-romance que, há um século e meio não era reeditada. Caída no esquecimento até mesmo por especialistas. 

Eu, que sequer sabia da existência desta obra, tive uma ótima surpresa ao ler esta caprichada edição da Ateliê Editorial, que conta com um texto de apresentação de Angela Maria Gonçalves da Costa e notas de rodapé, que facilitam demais a compreensão dos leitores. As ilustrações do artista plástico Kaio Romero dão um toque especial à edição. 

“A Nebulosa” conta a história de um amor impossível a partir da lenda de uma mulher linda, que surgia à noite em um penhasco e encantava os homens com o seu canto. O Trovador, encantado com ela, uma feiticeira, decide se matar. Ao pedir para sua Mãe socorro, ela vai até a Peregrina, que cede aos apelos. No entanto, já era tarde: ele se encontra com a Doida, descendente da Nebulosa e, juntos, se atiram do penhasco. A Mãe, de tanto sofrimento, morre e a Peregrina, amaldiçoada por ela, também. 

Gosto muito de obras que partem de lendas e mitos para desenvolver a história e esta realmente me cativou do início ao fim. 

Destaco aqui dois trechos: 

“Ó, natureza! Minha dor insultas!

Na tua placidez leio um sarcasmo;

Abomino-te, assim, amo-te horrível”.

“Dói-te a vida que arrasta alma cativa?

Pesa-te amar debalde?… – não a vejas:

Pede ao céu que desfira um raio ardente, 

Que de uma vez te cegue, melhor fora, 

 Do que vê-la e morrer de amor por ela”. 

Precisamos cada vez mais de poesia e este poema-romance de Macedo foi escrito com maestria, para encantar os leitores. 

Quer saber mais sobre A Nebulosa?

*Advogada, pós-graduada em direito e processo penal. Mestranda em direito pela UFRJ, mantém o perfil @justa.causa

Leitores, editoras, livrarias e autores em defesa do livro

A hashtag #emdefesadolivro tomou as redes sociais em agosto. O que parece algo óbvio – defender o livro, este instrumento de educação, cultura que ajuda a construir o presente e o futuro de uma nação – precisou mobilizar a comunidade em torno deste objeto. Autores, leitores, livrarias e editoras precisaram começar a se manifestar pois uma proposta do governo para a Reforma Tributária abriu uma brecha legal para a taxação do livro. É bom lembrar que, desde os anos 40 o mercado editorial conta com isenções para a produção de livros, algo que a atual proposta pretende derrubar. Se, mesmo com a política de apoio que tem mais de sete décadas, o número de livros lidos por ano por pessoa no Brasil não chega a três (segundo a 4ª edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil), esta iniciativa, que torna o livro ainda mais caro, deve reduzir ainda mais esse índice, impactando toda a cadeia produtiva.

Por isso, a Ateliê também aderiu à campanha para defender o livro, que ganhou inclusive um manifesto assinado por entidades representativas, como ABDL, ABDR, ABEU, ABRELIVROS, ANL, CBL, LIBRE e SNEL.

O público também pode contribuir, assinando o abaixo-assinado

A seguir, conheça a íntegra do Manifesto Em Defesa do Livro:

Em virtude do projeto de reforma tributária proposto pelo Ministério da Economia, ora em tramitação no Congresso Nacional, as entidades representativas do livro no Brasil, signatárias deste Manifesto, consideram urgentes e necessárias as seguintes ponderações:


⠀⠀⠀1. A Constituição Democrática de 1946 consagrou no país o regime de isenção de impostos para o papel utilizado na impressão de livros, jornais e revistas. Inspirada na luta de intelectuais, editores e escritores, a emenda constitucional foi apresentada pelo autor brasileiro de maior prestígio internacional à época, Jorge Amado.

⠀⠀⠀Por um lado, a isenção visava tornar o papel acessível às mais diferentes vozes no debate das questões nacionais, garantindo o suporte material para a livre manifestação de opiniões; por outro, barateava o produto final, permitindo que o livro e a imprensa pudessem chegar às camadas mais amplas da população, em um país onde o analfabetismo era, infelizmente, a regra e não a exceção.

⠀⠀⠀A mudança constitucional possibilitou a criação e o desenvolvimento das bibliotecas públicas no país, beneficiando as pessoas de menor poder aquisitivo e permitindo que o mercado editorial passasse a ter condições de publicar obras de alto valor intelectual e pedagógico, muitas delas sem apelo comercial, a custos compatíveis com o poder aquisitivo do leitor médio. Não há dúvidas de que a popularização do livro teve, e ainda tem, papel fundamental no aumento da educação do brasileiro.

⠀⠀2. De tal forma se enraizou no espírito da sociedade brasileira o apego à importância da leitura como fonte de educação e crescimento intelectual, de formação de cidadãs e cidadãos, de difusão da cultura e da informação qualificada, que a reforma de 1967 não só preservou o “espírito imunitário” da Constituição, como o ampliou, estendendo a isenção ao próprio objeto: o livro.

⠀⠀⠀A Constituição Cidadã de 1988 não poderia fazer diferente e consolidou a reiterada jurisprudência que isenta o livro, ferramenta básica de conhecimento, educação e cidadania, de impostos. A atual Carta Magna diz, em seu artigo 150, que é vedada à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios criarem impostos de qualquer natureza sobre o livro e a imprensa escrita.

⠀⠀3. No entanto, dada a complexidade da legislação tributária brasileira, foram criadas ao longo dos anos contribuições sociais, como PIS e COFINS, incidindo sobre a receita das empresas. Uma vez que os livros não são imunes das contribuições, a Lei nº 10.865 de 30 de abril de 2004 reduziu a zero a alíquota do PIS e da COFINS nas vendas de livros, em reconhecimento da importância deste bem para a sociedade.

⠀⠀⠀Isso permitiu uma redução imediata do preço dos livros nos anos seguintes: entre 2006 e 2011, o valor médio diminuiu 33%, com um crescimento de 90 milhões de exemplares vendidos. Os fatos demonstram claramente a correlação entre crescimento econômico, melhoria da escolaridade e aumento da acessibilidade do livro no país.

⠀⠀⠀A imunidade tributária está presente em vários países do mundo. Um relatório da International Publishers Association (IPA) de 2018 argumenta que o livro não é uma commodity como qualquer outra: é um ativo estratégico para a economia criativa, que facilita a mobilidade social assim como o crescimento pessoal e traz a médio prazo benefícios sociais, culturais e econômicos para a sociedade. Qualquer aumento no custo, por menor que seja, afeta o consumo e, em consequência, os investimentos em novos títulos. A imunidade é uma forma de encorajar a leitura e promover os benefícios de uma educação de longo prazo.

⠀⠀⠀ Recentemente, em abril do corrente ano, o Supremo Tribunal Federal (STF), em decisão unânime, reconheceu por meio da Proposta de Súmula Vinculante 132, que o direito à isenção tributária do livro se estendia também aos leitores eletrônicos. Enfim, está na tradição da formulação das leis brasileiras e na história das decisões jurídicas, bem fundamentadas e analisadas em vários períodos diferentes da nossa história, que o livro é disseminador de conhecimento em lato senso, e que deve contribuir para o combate à desigualdade de formação da população brasileira.

⠀⠀4. O escritor e editor Monteiro Lobato cunhou a famosa frase “um país se faz com homens e livros”; anos depois, o editor José Olympio acrescentou: “…e ideias”. Ai do país que se torna um deserto de homens, livros e ideias. Queimado em praça pública sempre que a intolerância triunfa, o livro resistiu aos séculos e atravessou as crises tendo a sua significação para a humanidade renovada e fortalecida.

⠀⠀⠀Aliás, existe alguma prova mais eloquente da importância do livro para as vidas humanas do que as estantes cheias de obras, tal como vemos na televisão e nas telas dos computadores e celulares, nesse momento de isolamento social? Os livros estão ali, às costas das pessoas como as asas de um anjo, significando proteção, sabedoria, compartilhamento de ideias e imaginário, reafirmando nossa fé na humanidade. O amor ao livro renasceu na pandemia.

⠀⠀⠀É fácil calcular o quanto o governo poderá arrecadar com a nova CBS (Contribuição sobre Bens e Serviços), proposta em regime de urgência ao Congresso. Muito mais difícil é avaliar o que uma Nação perde ao taxar o bem comum da formação intelectual de suas cidadãs e cidadãos. Em perspectiva histórica, o dinheiro arrecadado à cultura, aos livros e à formação científica significa, de fato, um desinvestimento no crescimento futuro do país – que não se dará sem o crescimento intelectual amplo e igualitário de sua população.


⠀⠀⠀5. As instituições ligadas ao livro estão plenamente conscientes da necessidade da reforma e simplificação tributárias no Brasil. Mas não será com a elevação do preço dos livros – inevitável diante da tributação inexistente até hoje – que se resolverá a questão. Menos livros em circulação significa mais elitismo no conhecimento e mais desigualdade de oportunidades no país das desigualdades conhecidas, mas pouco combatidas.

⠀⠀⠀ O Brasil foi o último país a acabar com a escravidão e um dos últimos a permitir a impressão e a circulação de livros e da imprensa, duas marcas negativas na nossa História que até hoje não conseguimos superar. Poucos se dão conta que o mercado nacional de livros tem menos de 200 anos. Enquanto em Paris, no Século das Luzes, lia-se Diderot e Voltaire, enquanto na Alemanha se lia Goethe, na Espanha o Dom Quixote tornava-se leitura popular, em Londres, ilustrava-se com os trabalhos de David Hume, nos Estados Unidos podia-se formar o conceito de uma grande Nação nos escritos de homens públicos da estatura de Thomas Jefferson e Benjamin Franklin, no Brasil, Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, um autodidata, articulava sua conjuração carregando um exemplar surrado e contrabandeado do “Compêndio das leis constitutivas das colônias inglesas confederadas sob a denominação de Estados Unidos da América” – em francês.

⠀⠀⠀Ainda não se descobriu nada mais barato, ágil e eficiente do que a palavra impressa – em papel ou telas digitais – para se divulgar as ideias, para se contar a história da humanidade, para multiplicar as vozes da diversidade, para denunciar as injustiças, para se prever as mudanças futuras e para ser o complemento ideal da liberdade de expressão.

Romance de formação é tema de novo livro da Ateliê

O que vem por aí? Muita gente tem feito esta pergunta, querendo saber sobre quais os próximos lançamentos da Ateliê e sobre o que esperar para o futuro. Como muitas novidades devem chegar em breve, para satisfazer a curiosidade dos nossos leitores – ou para aguçá-la ainda mais – o Blog da Ateliê resolveu fazer uma série de entrevistas com autores de obras que a editora deve lançar em breve.

Desta vez, entrevistamos Marcus V. Mazzari, professor de Teoria Literária e Literatura Comparada na Universidade de São Paulo. Ele traduziu para o português, entre outros, textos de Walter Benjamin, Adelbertvon Chamisso, Heinrich Heine, Karl Marx, Gottfried Keller e Jeremias Gotthelf. Entre suas publicações estão Romance de formação em perspectiva histórica. O Tambor de Lata, de Günter Grass (Ateliê Editorial, 1999), Labirintos da aprendizagem (Editora 34, 2010) e A dupla noite das tílias – História e Natureza no Fausto de Goethe (Editora 34, 2019). Coordena desde 2015 a coleção Thomas Mann, editada pela Companhia das Letras.Em breve, o livro que organizou com Cecilia Marks, Romance de Formação: caminhos e descaminhos do herói, estará nas prateleiras. A seguir, ele fala sobre a obra:

Do que trata o livro?

Marcus V. Mazzari: O livro é dedicado ao gênero literário “romance de formação” (Bildungsroman), criado por Goethe, no final do século XVIII, com o romance Os Anos de Aprendizado de Wilhelm Meister. O volume enfeixa 26 ensaios que contemplam manifestações desse gênero em várias literaturas, não só europeias (alemã, espanhola, francesa, inglesa, italiana, portuguesa, russa), mas também a brasileira, que comparece com sete nomes, peruana (José MaríaArguedas), moçambicana (Paulina Chiziane). Um espectro, portanto, rico e diversificado de um gênero de imensa relevância na Literatura Mundial.

Marcus Mazzari

A  quem o livro deve interessar, em sua opinião: apenas estudiosos e pesquisadores ou o público em geral?

MVM: O livro tem grande interesse ao público em geral, pois lhe apresenta, de uma perspectiva muito fecunda (justamente a da questão da “formação”), renomados clássicos literários, entre os quais romances de Machado de Assis e o rosiano Grande Sertão: Veredas, e também obras menos conhecidas, mas de grande valor estético.

Quais os destaques do livro, em sua opinião?

MVM: É difícil mencionar alguns destaques em meio a tantos textos excelentes. O ensaio de Luis Bueno sobre a produção romanesca de Machado de Assis a partir do prisma da “formação” e, sobretudo, da “não formação” do homem brasileiro de elite é certamente um dos highlights do volume. Importante mencionar também os ensaios de Paulo Bezerra (Dostoiévski), Walnice N. Galvão (Victor Hugo), Sandra G. Vasconcelos (Dickens).

Lembro ainda que Maria Augusta Vieira enfocou a “aprendizagem deleitosa” (como figura no título do belo ensaio) de Dom Quixote e Sancho Pança, num romance precursor do Bildungsroman; e Willi Bolle fez uma aguda leitura “atualizadora” da formação de Franz Biberkopf, no romance de Alfred Döblin Berlim Alexanderplatz, o que transparece no título de seu ensaio: “Crise do Romance – Crise de um País”. O ensaio de Cecilia Marks oferece-nos uma magistral leitura bakhtiniana de Grande Sertão: Veredas. Mas com isso estou deixando de mencionar muitas outras riquezas do volume, como o ensaio de Mário Frungillo que enfoca a obra de Thomas Mann na confluência entre Romance de Formação e Romance Picaresco, ou seja, as Confissões do impostor Felix Krull.

De que forma o livro poderá contribuir com o contexto brasileiro atual, em sua opinião?

MVM: Já os ensaios sobre autores brasileiros (Machado e G. Rosa, como já mencionado, mas também Lima Barreto, Clarice Lispector ou Antônio Callado) incorporam à abordagem dos romances reflexões críticas sobre a história brasileira, o que representa uma contribuição no sentido visado pela sua pergunta.

O estudo que enfoca a produção de Dalcídio Jurandir, sobre o moderno Bildungsroman na “Amazônia Oriental”,traça interessantes paralelos com a obra narrativa de Milton Hatoum, para quem a tradição do romance de formação é muito importante: o ciclo romanesco O lugar mais sombrio, cujo segundo volume, Pontos de fuga, foi lançado em 2019, é apresentado explicitamente como “romance de formação”.

O ensaio sobre Jorge Amado considera o herói de Jubiabá, Antônio Balduíno, “um dos primeiros, senão o primeiro herói negro da literatura brasileira”, lançando uma reflexão sobre a questão racial em nosso país. Mas também os outros textos podem contribuir significativamente para uma discussão ampla e aprofundada (de uma perspectiva comparativa) da atual situação brasileira. O mencionado estudo de Willi Bolle, por exemplo, apoia-se no breve ensaio “Sobre a estupidez” (Über die Dummheit), de Robert Musil (representado no volume pelo seu monumental romance O homem sem qualidades), para aludir à extrema estupidez de um país que elegeu Adolf Hitler em janeiro de 1933 – e assim convidando o leitor, de maneira sub-reptícia, a refletir sobre os recentes desdobramentos na história brasileira… Enfim, num momento em que a cultura e a educação estão tão aviltadas no Brasil, este volume sobre as várias modalidades de “formação” se reveste de um significado bastante candente.

Orações Insubordinadas: aforismos para uma leitura rápida e divertida

Segundo o dicionário, aforismos são textos curtos e sucintos, de estilo fragmentário, relacionados a uma reflexão de natureza prática ou moral. Com base nessa definição, o publicitário piauiense Carlos Castelo, fundador do grupo Língua de Trapo, escreveu Orações Insubordinadas – Aforismos de Escárnio e Maldizer. O livro traz as frases curtas e cortantes, de autoria do próprio Castelo, que causam riso e reflexão ao mesmo tempo. A seguir, ele conversa com o Blog da Ateliê:

O que o levou a escrever Orações Insubordinadas – Aforismos de Escárnio e Maldizer?

Carlos Castelo: Desde muito jovem me interessei pelas formas breves. Primeiro foram os provérbios. Gostava de toda a sabedoria que eles traziam em sentenças tão curtas. Depois, com 14 anos, li o Meditações, do Marco Aurélio. E assim fui seguindo, conhecendo outros autores, até que descobri o frasismo de humor: Barão de Itararé, Don Rosse Cavaca, Nelson Rodrigues, Dirceu, Millôr – só para citar os brasileiros. Era natural que, um dia, eu passasse a criar minhas próprias frases e isso aconteceu a partir de 2007. Foi no site Castel-O-Rama, do Humor UOL. Ali comecei a produzir sistematicamente num link chamado Aboboral.A compilação dos anos em que escrevi o Aboboral fez nascer o Orações Insubordinadas.

Como foi feita a seleção dos seus aforismos?

CC: Eu guardava num arquivo todos aforismos que postava no Castel-O-Rama, e no meu Twitter, o @casteladas. O critério usado foi o de cortar as frases sobre fatos passageiros, do dia a dia, e optar pelas frases atemporais. Justamente para não deixar o livro datado. Creio que funcionou, já que o Orações Insubordinadas continua sendo lido, e provoca riso e reflexão, há mais de 10 anos.

Em sua opinião, qual a força do aforismo? Para você, aforismos são atemporais ou podem perder relevância ao longo do tempo?

CC: A força do bom aforismo é a sua alta densidade. Ele contém muita informação, paradoxo, desconstrução ou originalidade em poucas palavras. Então, quando o leitor o decifra é como se detonasse uma explosão de prazer. Isto não é propriamente uma ideia minha, mas uma simplificação grosseira do que dizia Sigmund Freud em Os chistes e sua relação com o inconsciente. Se um aforismo será atemporal, ou perderá a relevância, vai depender da massa de sua densidade.

Seu livro teve a primeira edição lançada em 2009, mas ele continua causando riso. A que você deve essa permanência?

CC: Devo essa continuidade, como disse, ao critério de escolha das frases mais atemporais da minha produção. E também ao fato do aforismo ter se adaptado muito bem ao mundo da internet e suas redes sociais. Por sua brevidade e capacidade de estimular a discussão, ele é um gênero literário perfeito para a Grande Rede. Meu livro, portanto, chegou no momento certo, na hora em que passou-se a valorizar 140 caracteres como se fossem 140 páginas.

Os aforismos têm, em comum, o humor e a graça que causam. É possível identificar como se dá a construção desse efeito de humor que os aforismos causam no leitor?  

CC: Os aforismos de humor, que são os que escrevo, funcionam como o chamado humor “on-liner”. Normalmente possuem uma frase inicial que levanta a bola e, uma segunda, que faz o “saque” – o famoso “punchline”. Mas há muitas outras maneiras de se criar um aforismo. Podem ser lugares comuns refeitos, definições de neologismos, falas, diálogos, comparações, indagações, provocações, paródias de frases famosas e até microcontos. Ou seja, quase tudo pode ser um aforismo de humor, desde que ele faça rir e pensar.

Morte aos Papagaios

A subjetividade é a chave do processo de criação do designer gráfico. Esta é a premissa de Morte aos Papagaios, o primeiro livro de Gustavo Piqueira, um dos mais importantes designers gráficos do país, que trata, de maneira leve e divertida, questões relativas à atividade do profissional de design. À frente de seu estúdio Casa Rex, Gustavo Piqueira é um dos mais reconhecidos e premiados designers gráficos do Brasil, com mais de 500 prêmios recebidos. Conhecido por livros nos quais mistura livremente texto e imagem, ficção e não ficção, design, história e tudo mais que encontrar pela frente, ele já lançou 30 títulos de sua autoria. Pela Ateliê Editorial, além de Morte aos Papagaios, publicou: “Clichês Brasileiros”, a tradução e edição de “A História Verdadeira” de Luciano de Samósata e a edição de “William Morris – Sobre as artes do livro”A seguir, o autor fala ao Blog da Ateliê sobre o livro:

O quanto de ficção e o quanto de “lastro real”existe no livro?

Gustavo Piqueira: Digamos que o livro é todo construído a partir de um “lastro real”, mas sempre com considerável liberdade. Ou seja: não houve preocupação em me ater a nenhuma espécie de rigor — fosse ele acadêmico ou factual. Acho que dá pra considerar Morte aos Papagaios como um livro de “não ficção livre”, se é que existe tal categoria.

A tecnologia e os meios de trabalho disponíveis para um designer mudaram muito desde que o livro foi lançado. De que maneira isso impacta no conteúdo do livro?

Gustavo Piqueira

GP: Na verdade os meios de trabalho para um designer gráfico não mudaram – eles seguem os mesmos da época em que escrevi o livro (a grande mudança se deu na década de 1990, com a chegada dos softwares gráficos que são, essencialmente, os mesmos de hoje, só que com menos recursos). Já a tecnologia como um todo se alterou profundamente — ou melhor, o impacto da tecnologia em nossas vidas se alterou profundamente. De qualquer modo, penso que um livro escrito há 16 anos e que buscava falar do mundo a seu redor termina por, inevitavelmente, carregar trechos que já podem ser considerados como parte do passado. O que não é, vale dizer, um atestado de invalidez — apenas indica que é recomendável a consciência desse ajuste temporal para sua leitura.

O que “alimenta” a criatividade?

GP: Ainda que muita gente tenha lido o livro dessa maneira, Morte aos Papagaios não é um livro sobre criatividade em si, não fala sobre como ser ou não criativo nem nada do gênero. Para dizer a verdade, o termo “criativo” nunca me agradou muito, me parece mais um jargão publicitário do que qualquer outra coisa. Minha ideia com Morte aos Papagaios foi a de falar de design como uma atividade cuja “bibliografia” não está exclusivamente em livros de design, vídeos de design ou qualquer outra obra de referência restrita, mas sim em tudo o que nos rodeia. Em absolutamente tudo, inclusive nas coisas mais cotidianas. Mais do que “dicas para estimular a criatividade” ou algum tipo de “defesa da criatividade”, se há uma tese central no livro é a de que design é uma atividade que acredito se basear num conhecimento amplo, universal. Não uma atividade técnica em que basta um aprofundamento vertical na disciplina em si para se chegar a uma atuação consistente.

O que, na sua opinião, faz com que um projeto seja efetivamente original e relevante?

GP: É uma pergunta que não dá para sintetizar numa resposta, numa só direção. Em linhas gerais creio que ele deve, ao mesmo tempo, refletir o tempo presente e projetar alguma visão futura.

Como você percebe que um trabalho seu está “acima da média” quando o termina?

GP: Bom, eu só posso responder por aqueles que estão “acima da minha média”… E acho que a resposta não tem muito segredo: é fácil perceber quando acabei de executar algo que foi um pouco além daquilo do que eu já havia executado, que dei um passinho à frente na minha trajetória. Agora, o curioso disso é que muitas vezes projetos em que eu senti isso, projetos que me marcaram por terem sido aqueles que ampliei de algum modo minha capacidade, minhas “forças”, não necessariamente foram aqueles que obtiveram maior reconhecimento, como prêmios e etc. Muito pelo contrário, aliás.

Qual a importância dessa autoavaliação, tanto para perceber o que pode melhorar quanto para perceber o que foi positivo no projeto?

GP: É fundamental. Autocrítica, capacidade de autoavaliação é um dos itens fundamentais em quase qualquer atividade.

O que você gostaria de dizer hoje ao leitor de “morte aos papagaios” que não havia sido dito quando o livro foi lançado, há mais de 15 anos?

GP: Acho que muitas coisas. Morte aos Papagaios foi meu primeiro livro — logo, é mais do que natural que hoje eu enxergue nele uma série de problemas, das mais variadas origens. Mas a melhor maneira de dizer outras coisas não é reescrevendo algo, mas escrevendo coisas novas. É o que venho tentando fazer. E, quando de tempos em tempos reencontro Morte aos Papagaios, posso até não me reconhecer em boa parte da obra, mas sinto o prazer de reencontrar um velho amigo.

Conheça outros livros de Gustavo Piqueira

Homenagem a Olga Savary

Por José Armando Pereira da Silva*

A jornalista, escritora, tradutora e ensaísta Olga Savary, que faleceu, vitimada pela covid em maio de 2020, trabalhou com Massao Ohno por mais de uma década.

Massao e Olga Savary (1933 -2020) – uma associação improvável, que durou mais de dez anos. O profissionalismo de uma autora sempre empenhada e organizada se confrontando com o espirito boêmio do editor, que não respeitava prazos, falhava na distribuição dos livros, não prestava contas da vendas e não aceitava suas sugestões. Então, como explicar que confiasse a Massao a edição de sete de suas obras mais significativas e ainda o chamasse para trabalhos em outras editoras? Ela mesma responde: “Ele sabia fazer um livro”.

Suas habilidades de designer (e ousadia, como Altaonda, em grande formato, estampando na capa o retrato da autora) combinadas com a escolha dos ilustradores Calasans Neto, Manabu Mabe e Aldemir Martins, Tomie Ohtake, Guita Charifker, Kazuo Wakabayashi deram aos livros de Olga, com o reconhecimento literário, visibilidade para prêmios em São Paulo e no Rio de Janeiro. Sobre Retratos, concluía a jornalista Elizabeth Vieira: “Um belo livro. Que vale a pena ser lido. E visto” (Jornal da Tarde, 9.12.1989).

Na sua temporada carioca dos anos 1980, Olga foi sua anfitriã no meio literário, e se considera lançadora de seu nome fora do reduto paulistano. Foi quem o apresentou a Marly de Oliveira.

Outra afinidade os aproximou: o gosto pelo haicai. Olga estava entre as primeiras cultoras e divulgadoras do gênero no Brasil. Como praticante, ampliou o arco temático tradicional e liberou-se de estrita grade formal, sem fugir ao espirito das imagens-sínteses. Buscou lições dos mestres Bashō, Buson e Issa, que traduziu em O Livro dos Hai-kais (p. ), abrindo caminho para outros autores do gênero no catalogo de Massao. Quando voltou ao mestre, no preparo para a editora Hucitec de Hai-kais de Bashō, foi a ele que confiou a coordenação gráfica.

Também precursor, Magma mostra outra faceta da obra de Olga Savary. Provavelmente o primeiro livro integralmente de poesia erótica escrito por uma mulher no Brasil. Serve-lhe de capa obra de Tomie Ohtake – truque mais uma vez usado pelo editor: involucro minimalista de suave combinação cromática para um conteúdo ardente. O contrário se dá em Eden Hades, onde as representações da ave do paraíso, da mulher nua e de São Jorge matando o dragão, criadas por Guita Charifker, conduzem diretamente aos arquétipos míticos e sagrados que são dominantes nos poemas.

Olga Savary soma ao oficio poético trabalhos como jornalista, contista, tradutora e organizadora de antologias. Além dos clássicos do haicai, traduziu Borges, Cortazar, Fuentes, Lorca, Neruda e Octavio Paz. Organizou a Antologia Brasileira de Poesia Erótica (1984) e a Antologia da Nova Poesia Brasileira (1992), reunindo 334 poetas de todos os Estados brasileiros, na qual também convocou Massao para a supervisão gráfica. Sua obra tem recebido várias análises, sendo a mais abrangente no âmbito acadêmico a de Marleine Paula Toledo: Olga Savary – Erotismo e Paixão (2009).

Conheça mais sobre Massao Ohno e Olga Savary

*José Armando Pereira da Silva é Mestre em Teatro pela Universidade do Rio de Janeiro e em História da Arte pela USP. Pertence à Associação Brasileira de Críticos de Arte (ABCA) Publicou: Província e VanguardaThomas Perina – Pintura e PoéticaJoão Suzuki – Travessia do SonhoA Cena Brasileira em Santo AndréPaulo Chaves – Andamentos da Cor e Artistas na Metrópole – Galeria Domus, 1947-1951. Organizou: Guido Poianas – Retratos da CidadeVertentes do Cinema ModernoLuís Martins, um Cronista de Arte em São Paulo e José Geraldo Vieira – Crítica de Arte na Revista Habitat.  É autor de Massao Ohno, Editor (Ateliê Editorial).

Coração, Cabeça e Estômago: humor e crítica em um texto clássico

A Ateliê Editorial, neste momento de isolamento social, convidou alguns leitores para compartilharem suas impressões sobre alguns de seus livros prediletos. Com isso, pretendemos fortalecer uma comunidade de pessoas apaixonadas por livros, que sabem que eles podem ser uma excelente companhia em momentos como este. Este texto é de Camila Justo*, que escreve sobre Coração, Cabeça e Estômago, escrito por Camilo Castelo Branco em 1862 . Agradecemos a colaboração de Camila e esperamos que todos apreciem a leitura!

A leitura da novela satírica publicada em 1862, Coração, Cabeça e Estômago poderá nos ajudar a conhecer  Camilo Castelo Branco, o autor, e outros aspectos de sua obra.  Em relação à estrutura: apresenta um preâmbulo, sob forma de diálogo entre os amigos Faustino Xavier Novaes e o editor (provavelmente o próprio Camilo Castelo Branco) em torno de um amigo em comum, morto há seis meses. O editor em questão recebe a incumbência de organizar, revisar e publicar o livro de memórias do falecido Silvestre da Silva; e três partes , a saber: 

A primeira é intitulada CORAÇÃO e é a mais longa. Ela abarca boa parte do livro e vai de 1844 a 1854. Nela, Silvestre da Silva, apresenta-se como um saloio ingênuo, sonhador e cheio de esperança, que deixa sua pequena aldeia em Soutelo e migra para Lisboa, onde”inicia seu noviciado amoroso”. Nesse período, suas atitudes e decisões são norteadas pelos sentimentos e excessos de sua imaginação.

Ele ama (ou melhor, tenta amar, sete mulheres), mas sempre de forma instantânea (apaixona-se à primeira vista) e leviana, fortemente influenciado pelos romances e poesia românticos que ávida e irrefletidamente consome.

Silvestre tenta reproduzir a todo custo o estilo de vida e padrões de comportamento adotados por seus heróis e poetas românticos preferidos,  o que acaba desencadeando uma série de situações ridículas e jocosas e, ao mesmo tempo, dignas de reflexão. 

As mulheres pelas quais Silvestre se apaixona apresentam traços de caráter e personalidade semelhantes entre si, reproduzindo sempre os mesmos padrões de escolha de objeto amoroso: todas elas são frívolas, vaidosas, cínicas e interesseiras, e não hesitam em trocá-lo por homens endinheirados na primeira oportunidade.

Depois de sete decepções amorosas consecutivas, Silvestre ainda conhece outras duas mulheres: Paula, “a mulher que o mundo respeita” (é cínica, hipócrita e calculista, trai o conde com o qual se casa por conveniência), mas como é rica, a alta sociedade lisboeta faz vistas grossas ao caso extraconjugal que mantém com o mestre-escola e mesmo sendo adúltera é adorada em seu meio social; e a última é Marcolina, “a mulher que o mundo despreza”, foi aliciada e vendida pela mãe aos 14 anos de idade a um barão. 

Com a morte deste, Marcolina, casa-se com Augusto, um antigo amor, que após o casamento revela-se um homem violento, perdulário, libertino e jogador e dilapida o dinheiro obtido com venda das joias que a esposa recebera de presente. Desesperada e tendo de sustentar suas irmãs, vê-se obrigada a se prostituir. Marcolina e Silvestre se conhecem no Cais do Sodré, justamente no momento em que ela tencionava dar cabo de sua própria vida, pois havia contraído tuberculose e se sentia abandonada pela família.

Ao ouvir sua triste história, Silvestre se compadece da moça e a leva para sua aldeia natal em Soutelo, em busca de ares mais puros e benfazejos à sua debilitada saúde.

No leito de morte, Marcolina declara seu amor por Silvestre, que, ao mesmo tempo, se dá conta de também a amava, pois segundo ele, Marcolina era a mais verdadeira, pura, sincera e santa que “as mulheres que o mundo respeita”.

A segunda parte denomina-se CABEÇA (sede da inteligência, da razão, do cálculo, da consciência, do planejamento e da premeditação) e estende-se por cinco anos (1855-1860), em que Silvestre da Silva, entediado com a monotonia, a tristeza e fealdade de sua aldeia, muda-se para a cidade do Porto, onde passa a trabalhar como jornalista e se interessa pela política local.  

Faz duras críticas aos romances românticos franceses, questionando os padrões de beleza de suas heroínas, sempre pálidas, magras e frágeis a que as jovens procuravam imitar à custa de forçados jejuns e noites mal dormidas e que mulher portuense do passado tinha aspecto bonito, vistoso, saudável, era bem fornida de carne, tinha as faces coradas e mais disposição de ânimo. Silvestre acaba se envolvendo em uma série de confusões com figuras ilustres da sociedade portuense, denuncia sua hipocrisia, pondo a nu seus aspectos ridículos, degradantes e comezinhos, o que lhe trará sérios problemas financeiros e profissionais, e este será o motivo que o fará regressar definitivamente à aldeia onde nasceu.

Ilustração do livro Coração, Cabeça e Estômago, feita por Gustavo Piqueira

A terceira, e última parte denomina-se ESTÔMAGO (órgão que representa o instinto de sobrevivência, nossas necessidades básicas, instintivas tais como comer, beber, procriar, dormir). Nesse período,  que vai de 1860-1861, o protagonista procura uma vida bucólica, serena e isenta de preocupações.   Silvestre nos conta as razões por que se casou com Tomásia e como isto se deu.

Pode -se dizer que o título da novela é uma espécie de metáfora da trajetória de seu protagonista: no início é um saloio ingênuo, romântico, atrapalhado, cheio de esperanças, mas à medida que se decepciona com as mulheres com quem tenta se relacionar e com a sociedade em que se insere, deixa-se corromper pelo meio, tornando-se amargurado, cético, acomoda-se se ao status quo, tanto é verdade que morre de caquexia, empanzinado de tanto comer.

Por fim,  outro aspecto digno de nota é o modo como Camilo Castelo Branco satiriza o Romantismo, movimento estético e filosófico, a que num primeiro momento parece estar associado. Isto se evidencia pela maneira concisa, desidealizada, sem aqueles floreios retóricos, tão caros aos românticos, como  Silvestre da Silva, o narrador da novela nos descreve a personagem Tomásia.

Segundo ele, Tomásia é uma jovem rústica, “escura de inteligência”, não sabia ler nem escrever e era desprovida de vaidade. Porém, ao ler a novela, tem se a impressão de que ela era uma mulher sincera, de coração puro, inocente, sensata, trabalhadora, temente a Deus, forte tanto física quanto moralmente e o mais admirável, dotada de um senso prático incomum às mulheres do século XIX, sobretudo, se a compararmos àquelas que Silvestre conheceu nas cidades de Lisboa e Porto . 

Desta forma , cabe lembrar que no mesmo ano de publicação desta obra veio a lume a novela passional  Amor de Perdição, considerada tanto pelos críticos e historiadores literários quanto pelo público, a obra-prima de Camilo Castelo Branco, mas  a leitura de Coração, Cabeça e Estômago deixa claro que sua produção literária  é mais vasta e diversificada e não se restringe às histórias fatalistas, de amores impossíveis, infelizes, repleto de lances trágicos ou melodramáticos, como muitos manuais de literatura do Ensino Médio querem nos fazer crer.

*Graduada em Letras Português/Espanhol pela UNIVAP (Universidade do Vale do Paraíba 2003), especializada em Literatura pela UNITAU (Universidade de Taubaté 2008/2009).