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William Morris – Sobre as Artes do Livro

Sempre que é preciso apontar um marco inicial do movimento de private press, o marco é a publicação de The Story of the Glittering Plain. De autoria de William Morris, o objetivo da obra era recuperar a beleza do livro, perdida em meio às tiragens cada vez mais apressadas e descuidadas da imprensa regular. Editado por Gustavo Piqueira, responsável pela introdução e revisão técnica, William Morris – Sobre as Artes do Livro traz à tona este tema. A seguir, Gustavo Piqueira, que com Samia Jacintho  elaborou o projeto gráfico da edição, fala sobre ela com o Blog Ateliê:

Como surgiu a ideia do projeto de editar este livro?

Gustavo Piqueira: A ideia partiu do Plinio Martins Filho, a partir de uma coletânea de textos de Morris publicada em inglês, em 1982, intitulada “The Ideal Book”. A princípio meu envolvimento no projeto seria bem menor: eu me limitaria a escrever um posfácio e executar o projeto gráfico. A coisa começou a mudar quando, ao ler o conteúdo, percebi que alguns dos textos eram conferências proferidas por Morris com o auxílio da projeção de slides (slides ausentes da versão impressa do original em inglês) e que um texto comentando imagens que o leitor não poderia ver, sobre temas tão específicos como “xilogravuras de Um no século XV”, se constituiria em algo extremamente árduo e, para boa parcela de leitores, desinteressante. Do mesmo modo, senti falta de uma profusão de imagens mostrando a produção de Morris na Kelmscott Press, dele colocando em prática aquilo que pregava. Então, por conta própria, comecei a rechear o conteúdo com um vasto aparato iconográfico que passei a pesquisar. E esse trabalho foi tão intenso que acabou me levando a mexer em todo o resto: uma considerável revisão técnica na tradução, a troca do breve posfácio por uma introdução de maior fôlego, etc. No fim, quando me dei conta, havia transformado o livro quase que totalmente.

Para quem ainda não teve contato com o livro, poderia falar brevemente sobre o que foi o “Arts and Crafts” e o que ele representou?

GP: Muito mais do que um movimento calcado em pilares estéticos, o Arts and Crafts surgiu na Inglaterra como um arcabouço de princípios ideológicos em contraposição aos efeitos colaterais da industrialização que transformava o país durante o século XIX quando, em paralelo aos propalados benefícios do progresso, a produção em massa começava a ser associada à desumanização e o produto que saía das fábricas à materialização dessa degradação em forma de feiura. Assim, bebendo num passado idealizado do folclore inglês e da Idade Média, com suas guildas e artesãos, os partidários das “Artes e Ofícios” pregavam um retorno à valorização da manufatura, à valorização do homem por trás do objeto — inclusive em suas condições de trabalho. Enalteciam o processo de produção, defendiam a beleza não como ornamento fútil, mas como expressão da verdade: a verdade de seus materiais e execução, a verdade de sua identidade cultural particular. 

Do Reino Unido, o movimento se espalhou por outros países da Europa e pelos Estados Unidos, com diversos graus de intensidade e originalidade. No entanto, a insustentabilidade de sua base fundamental — a negação da indústria — logo tornou-o obsoleto, com seu idílio medieval esmagado pelo horror da Primeira Guerra e sua frágil teoria solapada pelo modernismo, que, ao seguir na direção contrária e abraçar as máquinas, definiu o caminho a ser percorrido pelo século XX. A ruptura, contudo, não é tão profunda quanto se costuma avaliar: alguns membros fundadores da Deutscher Werkbund são oriundos do Arts and Crafts alemão. E, com Mies van der Rohe, Peter Behrens e Walter Gropius entre seus integrantes, a associação foi uma espécie de gênese da escola mãe do modernismo, a Bauhaus.

Já no século XIX havia uma preocupação com a volta da manufatura e com uma “industrialização desenfreada”. De que maneira esta discussão pode ser transposta para o século XXI?

GP: Penso que não é nem um pouco difícil encontrar alguns paralelos com o crescente incômodo gerado por nossa completa submissão à revolução tecnológica corrente, que também vem gerando uma reação no sentido de se revalorizar algumas práticas e saberes do fazer manual. 

Qual a importância de William Morris para o design (e, em particular, para o design dos livros)? Qual o legado da Kelmscott Press para o mercado editorial?

GP: Morris buscou, na Kelmscott Press, elevar os princípios de composição e produção aos mais altos padrões, com alguns deles até hoje reverberando como paradigmas do “livro ideal” — principalmente a defesa da unidade visual da página, da integração de texto, imagens, ornamentos, mancha e demais elementos como partes de um único sistema. O “belo livro” seria a soma de todas as suas dimensões — nem só forma, nem só conteúdo. O modelo editorial da Kelmscott Press, assim como de todas as outras private presses do período, também frutifica até hoje — seja nas pequenas tiragens extremamente caprichadas de alguns livros (muitos deles artesanais), seja naquilo que denominamos como “editoras independentes”. Visualmente, porém, seus livros não parecem ter deixado herdeiros. Não há como passar incólume por um Kelmscott Chaucer, mas ele é admirado em sua opulenta excentricidade, não como algo que lançou as bases para o que hoje associamos ao “belo livro”. O fato é que, numa análise puramente formal, o programa estético que ele desenvolveu para a Kelmscott Press não deixou quase nenhum fruto visível no design do livro moderno. Suas fontes Troy e Golden nunca exerceram a influência por ele imaginada. O inconfundível design de página, em seu gritante contraste das margens com a pesada mancha de texto, também não. Nem a igualmente densa moldura ornamentada. Até mesmo a fonte Bodoni, que no livro ele classifica como possuidora de uma “feiura sufocante”, passou longe de se ver eternizada como o tipo mais ilegível já criado (outra de suas afirmações).

“Com todas as suas idiossincrasias, Morris sempre se mostrou muito coerente e devotado a um único deus — ao único deus possível: a sua, perdoe- me o termo um tanto desgastado, arte”. Quais são as idiossincrasias a que este trecho se refere? 

GP: A produção de Morris foi tão prolífica que seria possível redigir biografias nas quais, aparentemente, trataríamos de pessoas diferentes: o idealista que imprimia seus próprios livros em casa, o designer que ditava a moda nos living rooms londrinos abastados, o radical líder socialista, o nostálgico medievalista, o bem-sucedido homem de negócios, o protetor do patrimônio histórico, o autor de literatura hoje classificada como fantástica… Penso que, ao se combinar todas essas possibilidades, é fácil entender o que eu chamo de idiossincracias e aparentes contradições em sua trajetória. Mas, como afirmo no texto introdutório, não considero isso um problema. Pelo contrário, do choque de tudo isso brotou uma produção extremamente original e consistente.

Conheça outras obras de Gustavo Piqueira

Livro: sua melhor companhia

Em tempos do isolamento imposto pela pandemia de coronavírus, muita gente se sente sozinha. Afinal, o contato social presencial fica restrito às pessoas que moram na sua casa e a melancolia pode tomar conta, especialmente nas famílias pequenas ou nos lares de pessoas sozinhas.

Há quem busque refúgio na rede social, há quem organize encontros virtuais por teleconferência, há quem tenha (re)descoberto o hábito de telefonar todos os dias para um parente ou amigo querido.  Independente de como você escolheu passar essa quarentena, certamente algo que não pode faltar para que possamos suportar esse momento é a cultura. Afinal, como ensina Nietzsche: “A arte existe para que a realidade não nos destrua”.

Para ajudar você a atravessar esse período, fizemos uma seleção de livros de leitura leve, interessante e enriquecedora:

50 Tons da Vida (Roberto Livianu) – As crônicas falam das miudezas do cotidiano, sobre a experiência profissional do autor, corrupção e sobre amor. Livianu prende o leitor desde a primeira linha, com sensibilidade e humanismo. Além disso, sua palavra é extremamente descritiva, fazendo com que aquele que a lê sinta as sensações e veja as cores mostradas vivamente nas crônicas. Um convite estimulante e instigante.

Contos do Divã (Sylvia Loeb) – O que há de literatura numa sessão de psicanálise? Entre quatro paredes, dois sujeitos enfrentam palavras e silêncios, revelações e resistências, tramas de desejo, sofrimento e angústia. São histórias assim que a psicanalista Sylvia Loeb relata em Contos do Divã. No sentido inverso dos textos técnicos, a autora optou pela ficção como forma de capturar o assombro e os impasses que pontuam esse encontro. 

Somente nos Cinemas (Jorge Ialanji Filholini) – Os contos misturam a vida, a literatura e o cinema, paixões de quem ama cultura e arte. E mais: em sua escrita, o autor de certa forma mimetiza e homenageia o cinema, deixando a prosa saborosa e instigante para os amantes da sétima arte.

Velhos Amigos (Ecléa Bosi) – Uma abordagem literária sobre o tema da memória individual e coletiva no Brasil. Aqui, lembranças reais de velhos operários, imigrantes e outros personagens anônimos da vida brasileira estão organizadas em pequenas narrativas entre o conto, o poema e a crônica, para serem lidas por jovens, crianças, adultos e velhos.

Cinematografia (Paulo Lopes Lourenço) – As imagens presentes nos 90 poemas de Paulo Lopes Lourenço reunidos neste livro criam narrativas a partir desse conceito. “Estes poemas poderiam ser fotogramas, fabricados visuais ou instalações. E embora contenham, também, uma experiência narrativa precisa e oculta, eles são a minha coleção particular e pessoal de curtas metragens”, afirma o autor.

Geometrias de Cosmos (Rodrigo Suzuki Cintra) – Primeiro volume da série “A Trilogia da Invisibilidade”, livro de Rodrigo Suzuki Cintra reúne poemas que são metáforas da invisibilidade, criando, nas palavras do autor, sentimentos e percepções que estão por trás das palavras. 

O Retorno De Bennu (Majela Collares) – Bennu corresponde à Fênix mitológica. “Foi o grito da ave Bennu na criação do mundo que marcou o início dos tempos”, explica o autor. A obra traz ao leitor poesia em prosa, aforismos, versos livres e uma poesia caudalosa, que inspira o leitor.

Coleção Bibliofilia: três volumes sobre o amor pelos livros

O livro é um dos mais fascinantes objetos produzidos pelo homem. Mesmo em nossa época atual marcada pelos avanços tecnológicos e novas mídias, o livro permanece sendo um artefato sem igual, e não dá mostras que irá desaparecer. Jovens seguem comprando livros, criando clubes de leitura e falando sobre seus autores e histórias preferidos em podcasts e canais no YouTube.  As bibliotecas reforçam sua vocação de centros comunitários de difusão cultural. As coleções de livros impressos seguem preenchendo prateleiras e os aspectos sensoriais do livro impresso – o cheiro, a sensação do papel ao toque, o conforto visual na leitura das letras impressas no papel – ainda não foram imitadas satisfatoriamente pelos dispositivos digitais. Afinal, o livro não precisa de conexão com a internet ou baterias a serem recarregadas.

Com os três livros da Coleção Bibliofilia, organizada por Marisa Midori Deaecto e Plínio Martins Filho, a Ateliê Editorial e as Edições Sesc São Paulo se unem para celebrar o prazer da leitura e a importância social, cultural, econômica e simbólica do livro. Apesar das transformações tecnológicas e sociais, que impactam a produção editorial, as formas de transmissão da linguagem escrita e seus mecanismos de recepção, o amor ao livro permanece. Para falar sobre a coleção, o Professor aposentado da Universidade de São Paulo João Adolfo Hansen respondeu a algumas perguntas para o Blog da Ateliê:

      A coleção é uma verdadeira celebração ao livro. Qual a importância simbólica dele, hoje, em nossa cultura e dentro do contexto atual do Brasil?

 João Adolfo Hansen: Na situação brasileira atual, em que o ministro da Educação é um asno e o Presidente um desclassificado ao quadrado, a valorização do livro é fundamental. Sem nenhum fetichismo, óbvio, é fundamental celebrar o livro como produto, monumento, instrumento e arma de cultura contra a barbárie fascista.

No volume “O que é um Livro”, o senhor fala da materialização da ideia em objeto. O livro enquanto objeto, em sua opinião, continua ocupando um lugar de destaque?

 JAH: O livro como objeto que condensa e divulga práticas simbólicas dos múltiplos campos da cultura pode ser materialmente produzido e reproduzido em vários meios e canais, desde uma página de papiro à tela de um computador. Nesse sentido, o livro continua ocupando lugar de destaque.

Em sua opinião, o livro digital e o livro de papel ocupam o mesmo espaço e têm a mesma importância?

 JAH: Não ocupam o mesmo espaço (e, sem trocadilho, hoje também por razões de espaço). E não sei se têm a mesma importância.  Provavelmente, o livro digital vai substituir o livro de papel- não sei se a totalidade dos livros de papel- mas grande parte deles.

O público que “consome” o livro físico mudou?

JAH: Acredito que mudou e está mudando a cada momento.

O livro, enquanto objeto, vai continuar a existir no futuro?

 JAH: Não sei se nessa forma material que tem hoje. Mas como mensagem e como condensação de referências de muitos e muitos campos da cultura deve continuar – provavelmente, em novos media, como a tela de um celular, de uma TV ou computador, desmaterializando-se mais e mais.

O livro também é constituído de leitores, e eles o leem de maneira diferente a cada época. O senhor poderia falar um pouco sobre esse assunto, por gentileza?

 JAH: O leitor é um indivíduo que se inclui numa sexualidade, num grupo, numa classe, numa profissão, num país, numa língua, numa cultura etc. A cada instante, a história de seu grupo e sua classe e país e língua e cultura etc. muda. Evidentemente, o leitor lê segundo os critérios que em seu tempo estabelecem, definem e garantem a inteligibilidade do que lê. Esses critérios mudam historicamente. Borges, num conto chamado “Pierre Menard, inventor do Quixote”, trata disso, propondo que o  enunciado  de Cícero, “A história, mestra da vida”, usado por Cervantes no primeiro volume do Dom Quixote, em 1605, não tem o mesmo significado e o mesmo sentido quando usado por Pierre Menard, em 1917, quando escreve o Dom Quixote e repete o enunciado, ipsis litteris, idêntico ao texto que Cervantes escreveu em 1605. Ou seja, a cultura muda segundo as determinações e os condicionamentos históricos.

Capa do volume O Que é um Livro?, parte da Coleção Bibliofilia

No volume, o senhor aborda questões como censura e controle de conteúdo, que parecem – infelizmente – questões muito atuais. De que maneira esse controle perpassou os tempos? A forma e a finalidade da censura são sempre as mesmas?

 JAH: A censura classifica formulações e imagens e práticas que contrariam e negam a doxa ou a opinião que um grupo, um partido, um Estado, uma igreja etc.  afirmam como “verdade”. A censura classifica formulações e imagens e práticas como inadequadas, indevidas, impróprias, incorretas, erradas, heréticas, indecentes, imorais, proibidas etc., caçando e cassando seu autor.  A prática da censura veta e nega versões e, com isso, nega a liberdade de pessoas e grupos. Evidentemente, ainda que a forma e a finalidade da censura sempre sejam as de desautorizar e impedir a liberdade de pensamento e ação e, muitas vezes, a finalidade de eliminar o autor de tal pensamento e ação, queimando-o numa fogueira, como fazia a Inquisição católica, ou fuzilando-o, como faziam nazistas e estalinistas, suas razões, seus meios e suas finalidades variam historicamente, assim como seus agentes e suas vítimas.  

Conheça outros títulos de João Adolfo Hansen

“Passos da Semiótica Tensiva”

Em sua obra mais recente, o músico e professor Titular do Departamento de Linguística da FFLCH-USP, Luiz Tatit, apresenta conceitos estabelecidos pelo linguista Algirdas Julius Greimas, a trajetória de pesquisa de Claude Zilberberg, o que esta acrescentou àquela e utiliza os conceitos da semiótica tensiva para analisar canções (como A Noite do Meu Bem e Aquele Abraço) e textos literários (como “O Espelho”, de Guimarães Rosa). A ênfase aqui é na prosódia e na tentativa de compreender como ela interfere na construção do sentido.

A seguir, Luiz Tatit fala ao Blog da Ateliê sobre Passos da Semiótica Tensiva:

Como podemos definir a semiótica tensiva?

Luiz Tatit: A semiótica proposta e desenvolvida por Greimas a partir dos anos 1960 sempre teve como meta explicar a construção do sentido nos textos verbais ou não-verbais (cinema, música, artes visuais, dança etc.). De modo geral, essa semiótica encontrou na gramática narrativa (aquela que estuda as funções que conduzem o sujeito ao seu objeto de busca) a sua base para o início das análises de todo tipo de texto. Ou seja, as implicações narrativas (ex.: um sujeito desperta em outro sujeito um “querer” conquistar determinado objeto, concreto ou abstrato, de modo que este último saia em busca de condições (“poder”) para adquiri-lo) trazem certa previsibilidade à descrição do texto, o que corresponde a uma gramática para se compreender o sentido. Essa semiótica narratológica trouxe um ponto de partida consistente para se estudar o sentido, mas os seus conceitos não davam conta dos acontecimentos inesperados nem das comoções afetivas que estão sempre presentes nos processos de significação. A semiótica tensiva estuda como esses fenômenos surpreendentes e esses impactos emocionais podem ser integrados na atual concepção de sentido. No primeiro caso, essa teoria importou da música a noção de “andamento” para avaliar o grau de velocidade com que uma grandeza (ou um fenômeno) ingressa no campo de percepção de um sujeito. A depender da reação deste sujeito, saberemos se tal grandeza chegou com alta velocidade (o que impede sua compreensão imediata) ou de forma desacelerada, trazendo elementos já assimilados pelo personagem. Claro que há uma gradação quase “infinita” entre esses extremos, o que justifica o adjetivo “tensiva” da atual semiótica. Além do andamento (acelerado/desacelerado), a teoria incorporou a noção de “tonicidade” (tônica/átona), aquela que aponta o grau de relevância emotiva de um acontecimento para o universo subjetivo do sujeito. O impacto de uma nova grandeza percebida pelo sujeito está sempre aumentando ou diminuindo de acordo com as circunstâncias relatadas no texto. Também aqui temos oscilações tensivas que podem ser representadas no esquema proposto à p. 109 do livro. Andamento e tonicidade são categorias lançadas por Claude Zilberberg para introduzir a “intensidade” no mundo da teoria semiótica. E intensidade é um dos pilares da semiótica tensiva.

A que áreas do conhecimento ela se relaciona e de que maneira pode ser aplicada?

LT: Como se trata de descrição do sentido criado nos textos (verbais e não-verbais), a semiótica tensiva é uma teoria que poderia contribuir para todas as áreas das ciências humanas. A aplicação não é automática. Depende de uma boa compreensão do modelo teórico, daí a necessidade desta publicação. Passos da Semiótica Tensiva traz exemplos de aplicação na linguagem verbal cotidiana, na literatura (Guimarães Rosa) e na canção brasileira.

Como foi feita a escolha dos temas que compõem sua pesquisa? De que maneira os aglutinou?

LT: Os seis capítulos iniciais apontam as carências da semiótica narratológica e as aquisições teóricas do pensamento tensivo. À luz do novo modelo, os capítulos seguintes examinam o funcionamento natural da nossa linguagem cotidiana, a semiótica não declarada de Guimarães Rosa e, especialmente, o mundo da canção.

Está na introdução do livro que “Este pesquisador conseguiu encontrar as pistas de um novo caminho para a semiótica, mais afeito aos fenômenos sensíveis e imprevisíveis que se apresentam nos processos de significação”.  Que pistas foram estas?

Luiz Tatit

LT: São numerosas as pistas encontradas por Claude Zilberberg (semioticista que faleceu em 2019). Uma das mais importantes foi a ausência da “intensidade” na semiótica de Greimas. Seguindo intuições contidas nos aforismos de Paul Valéry e aspectos cruciais do pensamento filosófico de Ernst Cassirer, entre outros autores, Zilberberg desenvolveu a contento os conceitos de andamento e tonicidade já comentados.

Em sua opinião, quais foram os principais “achados” da pesquisa?

LT: Um dos principais conceitos analisados neste volume é o de “prosodização”. A prosódia, como se sabe, estuda a melodia (ou entoação) que acompanha nossos discursos diários. O seu movimento ascendente, em direção ao acento principal de uma ou diversas frases, e seu descenso asseverativo ou conclusivo podem ser tomados como modelo epistemológico para se pensar a intensidade que oscila permanentemente em nossas avaliações discursivas: ora damos mais ênfase a um determinado conteúdo elevando a melodia que o acompanha, ora distendemos esse acento para indicar menos tonicidade naquilo que estamos proferindo. Todas as mensagens que entram no nosso campo perceptivo recebem esse tipo de avaliação.

Mas como a prosódia também opera com as relações entre entoação e frases linguísticas em nosso discurso cotidiano, sua atuação pode também ser observada no reino da canção onde produzimos elos entre melodia e letra. Essas duas frentes prosódicas (teórica e aplicativa, no caso da canção) são tratadas nos capítulos do livro.

Haverá continuidade dessa pesquisa? Quais os caminhos mais lhe interessam nesse estudo?

LT: Desenvolvo esses trabalhos – de desenvolvimento da teoria semiótica e de aplicação na canção brasileira – desde minha dissertação de mestrado, no longínquo ano de 1982. Se não parei até agora é porque essa linha de pesquisa é fecunda demais para ter um final. Interesso-me por aprimorar continuamente os princípios teóricos da semiótica tensiva e por detalhar cada vez mais a linguagem da canção brasileira.

Conheça mais sobre a obra de Luiz Tatit

Ateliê Editorial faz aniversário

“Em fevereiro tem carnaval”, tem samba, tem calor e tem festa. Mas mesmo que você não goste muito do clima quente e da folia, se gostar de livros, há muitos motivos para comemorar.

Afinal, este é o mês de aniversário da Ateliê e, para comemorar, a editora colocou todo o site com desconto de 50% (desconto dado no carrinho de compras ao finalizar seu pedido, exceto pacotes, outlet, ofertas e destaques).

Criada em 1995, a editora tinha, desde o início, o objetivo de discutir a importância do livro como objeto que, para além de bonito, seja um projeto estético que possa servir da melhor maneira às palavras do autor. Por isso, todos os detalhes são levados em conta: o melhor papel, projeto gráfico, belas ilustrações, imagens tratadas com delicadeza, textos preparados e revisados com atenção.

A prova disso são edições históricas, antigas e novíssimas, que oferecem ao leitor uma experiência única com o livro.

O Mistério do Leão Rampante foi o primeiro projeto da editora. O então autor iniciante, Rodrigo Lacerda, ganhou vários prêmios, entre eles o Jabuti de 1996. Ao longo desses 25 anos, Lacerda consagrou-se como um dos mais importantes nomes da literatura brasileira.

Angu de Sangue, de Marcelino Freire, já está na terceira edição, mas desde que apareceu pela primeira vez nas prateleiras foi identificado como uma joia rara da literatura, um retrato realista e inusitado do submundo, uma coleção de contos de tirar o fôlego.

Epigramas, de Marcial, traz pequenos poemas curtos escritos em sua maioria no primeiro século da era cristã. Mas, apesar disso, seu conteúdo é bastante ousado e o projeto editorial, muito moderno. A primeira edição do livro podia ser “montada” pelo leitor, já que era composta por diversos livrinhos com os poemas do poeta romano.

Palmeirim de Inglaterra não é apenas uma novela de cavalaria. O texto, escrito por Francisco de Moraes, faz parte de um ciclo, o que por si só explica a importância da obra. Nesta edição da Ateliê, os pesquisadores Lênia Márcia Mongelli, Raúl Cesar Gouveia Fernandes e Fernando Maués realizaram um minucioso e primoroso trabalho, transcrevendo a partir de várias fontes para poder chegar a um resultado fidedigno, que interferisse minimamente no estilo original – um dos pontos altos da obra.

Livro Viva Vaia

Esta edição de Viva Vaia é a mais completa de todas as que já vieram a público. Além de manter o projeto gráfico original, de Julio Plaza, ela devolve a impressão em cores a alguns poemas – dentre os quais o clássico “luxo”. Este volume contém ainda um encarte com o poema-objeto “Linguaviagem”, que não foi incluído nas versões anteriores por motivos técnicos. Vem encartado, com o livro, o CD Poesia é Risco, que contém quinze poemas musicados por Cid Campos, filho do autor.

Massao Ohno foi um dos maiores editores do país, deixando sua ideia e marca que influenciou o mercado editorial independente. Este imenso trabalho gráfico pode ser acompanhado no recém-lançado livro Massao Ohno, Editor, escrito e organizado pelo crítico e professor José Armando Pereira da Silva, e projeto gráfico de Gustavo Piqueira e Samia Jacintho. 

Além do desconto direto no site, a editora ainda preparou uma seleção incrível de ofertas relâmpago, com livros surpresa em promoção. Todos os dias, títulos diferentes. Quer saber quais são? Fique de olho no site e nas redes sociais da editora.

Mas corra, porque, se fevereiro é o mês mais festivo, também é o mais curto do ano!

Massao Ohno, Editor

Massao Ohno foi um dos maiores editores do país, deixando sua ideia e marca que influenciou o mercado editorial independente. Este imenso trabalho gráfico pode ser acompanhado no livro Massao Ohno, Editor, escrito e organizado pelo pesquisador José Armando Pereira da Silva. A obra tem projeto gráfico de Gustavo Piqueira e Samia Jacintho. Para falar desse trabalho, o pesquisador conversou com o Blog da Ateliê:

Massao Ohno participou de alguma maneira da fase inicial do projeto, já que a ideia surgiu em 2004?

José Armando Pereira da Silva: Não. Massao não participou do projeto. Quando dei conta a ele da minha ideia, apenas respondeu: “Está em boas mãos”. E comecei, então, a fazer minhas pesquisas.

Após a morte de Massao Ohno, qual foi a estratégia para dar continuidade ao projeto? Houve alguma mobilização de pessoas para ajudar a concluí-lo? Como foi esse desenrolar?

JAPS: Após a morte de Massao, sugeri ao então Secretário Municipal de Cultura, Carlos Augusto Calil, a formação de um acervo de obras publicadas por ele na Biblioteca do Centro Cultural São Paulo. Ele dirigiu minha sugestão para a Biblioteca Mário de Andrade, cuja diretora acolheu e promoveu a constituição de um acervo em contatos com autores por ele editados e familiares. Essa mobilização me fez conhecer muitas outras obras, além das que inicialmente pesquisara.

São mais de 170 capas que fazem parte de Massao Ohno, Editor. Um recorte importante e, ao mesmo tempo, trabalhoso para selecionar. Como foi o processo de catalogação, documentação e escolhas para fazerem partes do livro?

JAPS: O processo foi longo, começando por acesso ao catálogo de bibliotecas públicas e às ofertas de sebos virtuais, quando iniciei a compra de livros que julguei importantes. Fui formando minha coleção e descobrindo colecionadores que pudessem me fornecer imagens e dados de obras mais raras. A escolha de capas reproduzidas concentrou-se especialmente na primeira fase da editora, de 1960 a 1964, quando Massao estabeleceu sua marca não só na publicação de poesia, mas também de outros gêneros, como teatro, cinema e obras ligadas às tradições orientais, como o Hai-Kai. Outras reproduções ilustram autores que ele publicou nas fases seguintes de sua carreira: o retorno à atividade nos anos 1970, a parceria com editora do Rio de Janeiro nos anos 1980 e a fase final dos anos 1990.

Durante o trabalho de reunião do material para elaboração do livro, houve alguma descoberta, de algo inédito, que lhe causou surpresa?

JAPS: Várias. Como descobrir que os ensaístas e professores universitários (hoje aposentados) Roberto Schwarz e Carlos Henrique Escobar tiveram seus primeiros livros de poemas publicados por Massao em 1959. Também a antropóloga Manuela Carneiro da Cunha, então com 18 anos e ainda com o nome de solteira Manuela Ligeti, teve um livro de poemas em francês por ele editado.

Outra surpresa foi encontrar livros de Histórias em Quadrinhos, um deles de Sérgio Macedo, hoje um nome internacional no gênero.

Um fato importante e que até, em forma cronológica, é a participação marcante – formal e informalmente – de Massao Ohno na construção da literatura brasileira na segunda metade do século XX. Com os Novíssimos, passando pelos poetas Roberto Piva e Claudio Willer, mostrando também a elaboração dos livros de Hilda Hilst, entre outros.  Para você, Massao Ohno tinha ideia da importância do trabalho dele para a literatura contemporânea, assim como sua influência e referência na produção editorial?

Massao Ohno, em foto de Juan Esteves

JAPS: Quando Carlos Felipe Moisés e Álvaro Alves de Faria organizaram a Antologia da Geração 60, fizeram uma homenagem a Massao declarando que “sem ele a história dessa geração seria substancialmente outra”. Outra seria também a história do editor sem essa ligação, que identificou sua marca e consolidou sua política de autores. Se tomamos em conta o desdobramento das carreiras dos autores lançados nos anos 1960, o saldo é positivo e relevante. A maioria desses poetas persistiu para além da efervescência de seu tempo de iniciação. Mas naquele momento não havia a consciência disso. A história estava por se fazer no futuro.

Ao longo do trabalho de elaboração do livro, alguma percepção sua sobre a obra de Massao Ohno foi alterada? Em que sentido?

JAPS: Não foi alterada, mas fui surpreendido ao me dar conta da quantidade de obras por ele editadas, da variedade de gêneros e autores, aos quais ele deu o melhor resultado, mesmo trabalhando muitas vezes em condições heroicas.

Massao sempre foi atento aos ilustradores, pintores e desenhistas, como Wesley Duke Lee, Aldemir Martins, Millôr Fernandes, Augusto Rodrigues, entre outros.  No livro Massao Ohno, Editor você deixou em evidência e detalhada essa relação editor e ilustrador é uma das principais identidades nas obras de Massao. Poderia contar um pouco dessa relação artística-editorial que Massao Ohno teve com os seus parceiros ilustradores? 

JAPS: Com a Coleção dos Novíssimos. os projetos gráficos de Massao ganharam identidade com a parceria dos artistas plásticos Acácio Assunção, Joao Suzuki, Manabu Mabe, Cyro Del Nero e Wesley Duke Lee, que colaboraram na definição de capa, formato e suporte. Em outros títulos lançados até 1964, Tide Hellmeister se incorporou à editora, e foi o mais efetivo no papel de designer. O contato inicial de Massao com artistas plásticos se deu dos salões de arte dos pintores nipo-brasileiros no Bairro da Liberdade, organizados pelo Grupo Seibi-kai, onde encontrou um de seus primeiros parceiros, João Suzuki, além de Yoshiya Takaoka, Yuji Tamaki, Tomo Handa, Manabu Mabe, Tomie Ohtake, Massao e Alina Okinaka, Tomoshige Kusuno, Kazuo Wakabayashi e Yutaka Toyota. Todos eles, em algum momento estiveram presentes nas edições de Massao. Outro artista de sua preferência foi Arcangelo Ianelli. Dele reproduziu mais de vinte obras em capas de suas edições, algumas até repetidas.

Em sua opinião, por que a questão estética (da concepção editorial do livro enquanto objeto) era tão importante para ele, em uma época na qual esse tipo de preocupação não era tão comum?

JAPS: A questão estética era fundamental para Massao. Ele está no grupo de pequenos editores independentes (uns poucos) que deram ao livro características especiais. Era meticuloso no seu trabalho. Testava imagens, fontes, formatos até chegar a um resultado satisfatório. Isso num tempo em que não se dispunha de recursos digitais. Tinha até algumas manias. Não gostava de numerar as páginas dos livros de poesia. Dizia que isso “sujava” a página. A qualidade moderna de suas edições pode ser percebida desde a lombada.

Em um tempo no qual o livro digital toma conta, rememorar a obra de Massao Ohno pode ter relevância para os novos leitores (como você mesmo lembra na dedicatória)? Como a obra de Ohno pode despertar o interesse da geração de leitores de e-books? Ou, por outra: essa nova geração ainda pode ser provocada pela ideia do livro enquanto objeto de desejo?

JAPS: Minha expectativa, além do propósito documental, é despertar em novos leitores o interesse pelo livro. A concretude de um livro sempre será objeto de desejo. Além dos temas que o interessam, o frequentador de uma livraria sempre pode ser seduzido por um título, pelo desenho de uma capa ou pelo projeto editorial bem-acabado.

Inspirado em clássico do cinema, projeto Fitzcarraldo leva o vocabulário nheengatu à Amazônia

Werner Herzog criou um espetáculo de imagens impressionante quando filmou a aventura real de Brian Sweeney Fitzgerald, cujo desejo era construir um teatro na Amazônia. Fitzcarraldo, o filme, inspirou o Projeto Fitzcarraldo, do jornalista Oliviero Pluviano, que leva música, cinema, livros e cultura  para os índios da floresta Amazônica, a bordo do barco-gaiola Gaia.

O Gaia, que navega pela Amazônia

O projeto, que começou em 2011, já visitou mais de 30 comunidades, com o apoio de leis de incentivo e de patrocinadores como a Bauducco. O Gaia foi transformado em um barco-cinema e atende a demandas das populações locais, com a entrega de insumos necessários ali. Até mesmo a seleção italiana de futebol já foi a Manaus, em 2014, com o projeto.

Em 2020, mais uma novidade desembarca do Gaia: exemplares do Vocabulário Português-Nheengatu – Nheengatu-Português serão doados às comunidades indígenas que ficam as beiras do Rio Arapiuns. Um calendário, ilustrado com as igrejinhas da região e com trechos do etnógrafo ítalo-brasileiro, Ermanno Stradelli, autor do dicionário, também será distribuído.

 O Nheengatu é uma variante do Tupi, falada por mais de 30 mil índios da região amazônica. É uma espécie de “língua geral”, desenvolvida pelos jesuítas entre os séculos XVI e XVII para que pudessem se comunicar com os índios. Em 1758, o Marquês de Pombal impôs o português como única língua, proibindo o uso do nheengatu e outras línguas indígenas, que entretanto, continuaram a ser faladas.

O Vocabulário Português-Nheengatu – Nheengatu-Português, de Ermano Stradelli, tem uma grande relevância linguística, sociológica e antropológica. Stradelli, que morou na região Amazônica, era fluente na língua geral e recolheu um vocabulário vivencial da língua nheengatu. O volume traz o nheengatu como língua dinâmica, que ainda é falada na região.

Mas, você não precisa ir até a Amazônia para conhecer essa língua indígena que resistiu aos séculos. Ele está à venda no site da Ateliê:  https://www.atelie.com.br/livro/vocabulario-portugues-nheengatu/

Ao vires isto isto vires ao vires isto

Katherine Funke*

Páginas mágicas, máginas págicas são o que se poderia esperar de um livro sobre Gertrude Stein, sim, Gertrude-rose-is-a-rose-is-a-rose-Stein, Gertrude-page-ages-Stein. Ainda mais um livro chamado Ao vires isto, título que (para olhos e ouvidos atentos), logo se espelha, multiplicado, em “isto vires, ao vires isto”, porque é um livro sobre Gertrude Stein, aquela (de ouvidos e de olhos atentos) que percebeu que As you like it, título de uma das peças de Shakespeare, abria as possibilidades de sentido para muito mais do que um significado, muito mais do que uma só combinação de sentidos.

            Livro de ensaios com vários autores organizado por um trio de pesquisadores da obra da escritora norte-americana considerada a Mãe do Modernismo, Ao vires isto (2018, 216 páginas) traz logo no título o mesmo gesto de brincar com a linguagem que marcou toda a literatura de Gertrude, desde as peças teatrais para adultos, passando pelos seus livros mais famosos – e até pelo mais complexo de todos  (Stanzas in meditations) – até os livros para crianças.

            Mas, e se não se chamasse Ao vires isto, este volume de nove ensaios ainda teria o efeito de nos fazer virar isto, isto é, de nos fazer mergulhar na leitura, como consegue, magicamente? A pergunta é inspirada no que William Shakespeare escreveu no ato II, cena II de Romeu e Julieta, sobre o que aconteceria com o perfume da rosa caso ela tivesse outro nome. Cena que, aliás – e isto ficamos sabendo por Luci Collin, neste livro – inspirou Gertrude Stein não só em sua frase mais conhecida (“Rose is a rose is a rose is a rose”), como por toda sua trajetória.

            O ensaio de Luci Collin, por sua vez, possui um efeito de centralidade ou núcleo para os demais, que ao redor dele ganham sentido, como em uma espiral. Isto porque Collin faz um breve retrospecto das relações entre Stein e Shakespeare. Esse elenco de relações de influência não só esclarece características primordiais do estilo da Mãe do Modernismo, como nos permite tentar pensar como ela pensava, olhar para as palavras com o mesmo encantamento, a mesma vontade de brincar.

            Intitulado “Uma rosa re-encarnada – Stein traduzindo Shakespeare”, o artigo de Luci Collin atravessa algumas das reflexões deixadas pela própria Gertrude em relação ao escritor inglês. Se suas vidas aconteceram separadas por três séculos, por outro lado as obras se encontram em muitos aspectos. Como, por exemplo, pelo gesto de subverter a narração linear do tempo e promover procedimentos de aceleração/retenção das ações, por exemplo, recontando uma cena muitas vezes, sem avançar.

            Para Gertrude, esta foi a base da ideia de “presente contínuo”, que a motivava a escrever sempre no presente, sempre como se a ação nunca acabasse. A também poeta e escritora paranaense Luci Collin nos apresenta a esta e a outras influências de Shakespeare ao longo da obra da escritora. Coloca em pauta, assim, as fase de sua obra e os procedimentos mais consolidados de Gertrude, como a insistência (não a repetição), a intenção de presentificação em detrimento à descrição, entre outros.

            A quem se interessa propriamente pelos procedimentos literários de Gertrude, sugiro que se comece a leitura por este artigo, e não pelo escolhido pelos editores, que trata das relações entre as obras de Duchamp e Stein. E que logo na sequência, se houver interesse mais exatamente por situar a obra de Gertrude Stein em circulação no contexto brasileiro, pule logo para o texto de Dirce Waltrick do Amarante sobre o volume infantil traduzido por ela e por Collin.

            O artigo de Dirce descreve os problemas da tradução de To Do: A Book of Alphabets and Birthays e que, gentilmente, traz a riqueza de transcrever de modo bilíngue aquilo de que fala. De lá, quem seguir o mesmo trajeto de interesses poderá querer partir para o artigo de Augusto de Campos posicionado ao final do volume, “Gertrude Stein e a melodia de timbres”. Ambos nos fazem ver e ouvir com mais nitidez algumas das badaladas dos sinos aludidas por Luci Collin, badaladas de quem já se meteu a traduzir uma das mais difíceis das modernistas.

            Com um total de nove artigos, o volume lança luzes sobre uma obra vasta, volumosa, que ainda não foi compreendida e nem mesmo completamente traduzida para o nosso português. É surpreendente, aliás, que existam nove consistentes e heterogêneos artigos como estes, convivendo no mesmo espaço-tempo de um livro, orbitando juntos como se fossem nove planetas ao redor do Sol.

Dois pares em branco

            A força de Ao vires isto é que nos faz lembrar de que (ainda) existe uma Gertrude Stein e que ela é, na verdade, muitas: não a portadora orgulhosa de uma máscara fixa, mas a caçadora das muitas possibilidades que exerceu em várias linguagens literárias. Quem tem medo de Gertrude é porque ainda não foi apresentado a alguns de seus achados mais belos, reunidos aqui neste livro por 18 mãos altamente qualificadas.

            Destaco ainda que o volume, embora sóbrio, foi editado de modo cuidadoso, em tipografia grande que promove uma leitura fluida e com as devidas referências bibliográficas apresentadas ao modo da pesquisa acadêmica. Dois pares de páginas estão em branco, como que para possibilitar anotações. Tudo isso deixa ressoando a ideia de que este não é um livro que, ao ser lido, se acabe em si mesmo. O que ele coloca em movimento, ao ser lido, não é só o que deixa ver, mas uma imensa energia em forma de sons e de sentidos. A edição traduz assim, para o próprio objeto livro, a ideia de presente contínuo da obra de Stein. Ela continua pulsando e se renovando, a cada vez que a estudamos. Ela continua, ao vires isto – esta resenha e, claro, o próprio livro.

*Katherine Funke é doutoranda e mestra em Literatura pela UFSC.

Federico Fellini, 100 anos

Em 20 de janeiro de 2020, o genial cineasta italiano Federico Fellini faria 100 anos. Artista de circo na infância, foi quadrinista, caricaturista e redator de revista. Mas foi no cinema que encontrou o caminho para expressar sua arte e arrebatar público e crítica com  seu cinema autoral. Tanto assim que virou adjetivo. Felliniano é um personagem (ou uma situação) inusitado, que carrega consigo uma estética ao mesmo tempo barroca.

Estreia no cinema em 1945, como roteirista de “Roma, Cidade Aberta”. A reflexão que Fellini propunha em suas obras é bastante densa e mostra o ser humano em toda sua fragilidade, mesmo quando o retrata no cotidiano mais prosaico: tudo parece ter uma atmosfera onírica.  

Seus primeiros filmes têm uma inspiração neorrealista, carregados de emoção, o que faz com que nós, espectadores, nos identifiquemos com eles. Em filmes como “Ginger e Fred” (1986), o desencanto toma conta do olhar, muitas vezes em narrativas de tom confessional. “A Doce Vida” (1960) imortalizou em nossas retinas uma das cenas mais icônicas do cinema, quando Anita Ekberg banha-se na Fontana Di Trevi ao lado de Marcello Mastroianni: desejo, hedonismo e lirismo andam juntos durante o passeio pela madrugada de Roma. Seu filme seguinte, “Oito e Meio” (1963), é uma profunda reflexão autobiográfica, com um lirismo quase inatingível e, ao mesmo tempo, cheio de humor.

Ao longo de sua obra, a narrativa deixa de ocupar um lugar central na obra do italiano – e é a beleza estética que assume o protagonismo. Ele dizia que a vida real não o interessava. “A fantasia é a zona erógena mais importante”, provocava. E criava cenas oníricas e líricas enquanto a Segunda Guerra ainda era uma ferida aberta na Itália dos anos 1950.

Seu último filme, “A Voz da Lua”, foi inspirado em O Poema Dos Lunáticos,  obra mais famosa do escritor italiano Ermanno Cavazzoni que é, na verdade, um romance. O clima de surrealismo retrata Ivo Salvini, um louco recém-saído de um hospício. Salvinio é interpretado por Roberto Begnini, que traz ao público o deslumbramento da novidade e a inocência ingênua do olhar de quem vê pela primeira vez o mundo (como nós o vemos diariamente). Talvez por isso, por onde passa, ele conquista a simpatia das pessoas. “A Voz da Lua” é uma grande alegoria, repleta de lirismo e sonho.

Em 1993, recebe o Oscar pelo conjunto da obra e, logo após celebrar 50 anos de casado com a atriz (e musa) Giulietta Masina, morre, aos 73 anos, em decorrência de um ataque cardíaco, deixando como legado uma das mais importantes obras cinematográficas da história.  

“Leituras Imediatas”, por Aurora Bernardini*

O livro  póstumo de Jerusa Pires Ferreira ( 1938-2019) , Leituras Imediatas (Ateliê, 2019) é o último mergulho no “Grande Texto” ao qual dedicou a maior parte de seus anos, O Cordel: Tradição e Vida.

É o “Grande painel da literatura popular em verso” que ela percorreu desde as projeções medievais do clássico Cavalaria em cordel ( sua dissertação de Mestrado – Hucitec, 1979- Edusp, 2016), até as periferias de cidades como a São Paulo, Cultura das bordas ( Ateliê, 2010), passando pelo misticismo de O livro de São Cipriano –  Uma legenda das massas ( sua tese de Livre docência – Perspectiva, 1992),  pelos Contos Russos no Sertão (Matrizes impressas do Oral- Ateliê, 2014) e etc.,  chegando a essas Leituras Imediatas ( Ateliê, 2019), que acaba de ser publicado.

Afora alguns folhetos  de cordel sobre as guerras contemporâneas, como a das Malvinas (1980) e do Golfo (1990) e outros, mais recentes,  – prova de sua atualidade — o que o livro de Jerusa acompanha é  a grande deslocação que há hoje no que se refere à recepção e à fatura desses folhetos. Os custos de produção, mesmo em edições de pequeno fôlego, as dificuldades de encontrar patrocinadores, mesmo garantindo-lhes a propaganda, leva muitos de seus autores a produzirem  para “turistas de cultura” ou sob encomenda, onde porém, com sua manobra “ arcaizante” , em vários níveis, conservam seu caráter de  oposição à literatura oficial, de contestação de valores sociais, mas não contra a lei do país.

No Programa Geral apresentado em Salvador pelo jornal Trovador, durante o II Congresso Nacional de trovadores e violeiros (1960), por exemplo, nota-se que ocorre, segundo Jerusa, o seguinte: “…mascara-se o habitual, sublima-se e tenta-se conseguir, através de um modelo de ordem hierárquica, a aprovação para uma espécie de ‘ impunidade’[…] pulsam-se anseios, problemas, posturas e expectativas de grupos sociais que não tem sido inscritos na ‘História da Cultura Brasileira’ a não ser como ‘ Folklore’.”

Infelizmente, diz Jerusa, esse termo foi assumindo a acepção corrente (norte-americana) de “cultura de massa”. Entretanto, diz Alejo Carpentier, citado por ela (p.101): “ Folclore – na América Latina, é uma palavra que deve ser pronunciada com um tom grave e fervoroso […] é preciso retornar às fontes do folclore” .

Ela mesma apresenta, nesse sentido, sua primeira conclusão:

“Tendo recolhido, recentemente, muito material para sistematizar, percebi o quanto está por fazer. Os trabalhos de mapear, recolher, registrar os produtores dessa literatura em todo o país, daquela tradicional, da efetiva nova e da circunstancial, de modo crítico e com o recurso de várias disciplinas, o convívio profundo com o tema, o conhecimento de uma retórica e de uma linguagem próprias deverá anteceder, a meu ver, os diagnósticos apressados que transformaram os estudos das chamadas culturas populares numa festa de enganos. E justamente toda uma produção oral/impressa popular, que é  uma das mais importantes e intensas manifestações culturais do Brasil, constituindo-se também em documento para a construção  de nossa condizente História Social “ (p.84)

Sua segunda conclusão já penetra tout court nos domínios do artístico. Dentro e fora da “arte popular” há alguns cordelistas que por seu estilo, por sua originalidade, por sua “ força de dizer” – por sua poética , enfim — , há tempo deveriam estar incluídos na História da Literatura Brasileira. Jerusa cita  vários, entre os  quais se destaca, indiscutivelmente, o paraibano Leandro Gomes de Barros ( 1865 -1918), segundo o próprio  Carlos Drummond de Andrade:  “o rei da poesia do sertão e do Brasil”.” Não seria a hora “ – diz Jerusa ( e dizemos nós, perpetuando sua memória) – “ de estudiosos, universitários, autores de Histórias da Literatura Brasileira, incluírem, em seus repertórios, um poeta dessa grandeza?”

* Escritora, pintora, tradutora. Possui doutorado em Letras (USP) e é professora titular da Universidade de São Paulo (USP). Departamento de Letras Orientais (DLO), Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH), Universidade São Paulo (USP).