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Lançamentos Ateliê Editorial atendem aos mais diversos gostos

Um clássico da literatura russa com nova tradução; um volume que discute uma questão atualíssima da política; poesia francesa da melhor qualidade; ou monólogos inspirados em literatura fantástica e na Bíblia? Desde o início de 2019 até agora, os lançamentos da Ateliê Editorial parecem atender aos mais variados gostos, com títulos para leitores das mais diversas idades. Ainda há muito por vir, como a reedição de Velhos Amigos, de Eclea Bosi, por exemplo. Mas enquanto mais novidades não chegam, você confere quatro novos títulos da editora que já estão nas prateleiras:

O Azul e o Mar – Eduardo de Campos Valadares selecionou poemas de três fases de Paul Valéry – Charmes, Clássicos e o longo poema “A Jovem Parca” – para compor este volume, chamado O Azul e o Mar, uma coedição com a Editora UFMG. Um trabalho de tradução que, segundo o tradutor, foi uma “festa da imaginação”, expressão que cria eco na “festa do intelecto” que, segundo o poeta francês, deve ser o poema.

Leia um trecho:

O SILFO

Nem visto nem quisto

Eu sou o perfume

Breu e vagalume

De vento me visto!

Nem visto nem quisto

Genial ou acaso?

Enfim me conquisto

Encerrado o caso!

Nem ler nem reter?

Mais lúcido ser

Mais promessas falsas!

Nem visto nem quisto

Eis o nu que avisto

Entre duas calças!

Eugênio Onêguin – Romance em versos, escrito por Aleksandr Púchkin ganhou tradução de Elena Vássina e Alípio Correia de Franca Neto, com consultoria de Bóris Schnaiderman. A história do aristocrata entediado, que relaciona ficção e vida real, tornou-se um clássico da literatura russa, influenciando autores como Gógol, Dostoiévski, Tolstói e Tchekhov.

Leia um trecho:

III

Tendo servido com honra e garbo,

O pai só emprestava dinheiro,

Dava três bailes no ano e ao cabo

Torrou seu patrimônio inteiro.

A sorte guarda Eugênio Onêguin:

Para Madame foi entregue,

Então Monsieur a substituiu.

Infante inquieto, mas gentil.

Monsieur lAbbe, pobre francês,

Pra não afadigar a criança,

Em tudo a instruía com folgança,

Sem regras chatas, sisudez;

Birras causavam sua revolta

E a guiava ao Lietni Sad pra volta.

Entreatos – Marcelo Castel Cid, autor de Os Unicórnios e organizador da Antologia Fantástica da Literatura Antiga volta a fazer ficção flertando com a literatura fantástica. Desta vez, o resultado é Entreatos, um livro constituído por monólogos  inventados para personagens bíblicas que marcam presença no Livro dos Atos dos Apóstolos. “Eu escrevi meus relatos com o livros dos Atos sempre à minha frente, mas não só. Li outros livros de história bíblica e cultural, além, é claro, de misturar várias narrativas numa só”, afirma o autor. 

Leia um trecho:

Queres que eu repita minha doutrina? Seria tarefa difícil, pois que eu falava segundo a inspiração do momento, mesclando num único fôlego as proezas do  demiurgo ou dos anjos, as dinastias de emanações do verdadeiro Criador, passagens de Homero e de Heráclito, o obscuro, do Trismegisto, de nossos profetas. Como resultado dessa loucura com método, numa parte da terra honravam-me como o Filho de Deus, noutra como o Espírito Santo, noutra como a própria divindade feita homem. A Helena, porém, chamavam aqui Minerva ou Sofia, ali Eva primeva, acolá a Ovelha Desgarrada, aquela cuja alma por milênios tem vagado entre Potências.

Os Índios na Constituição – Pouco mais de 30 anos depois da promulgação da Constituição de 1988, conhecida como Constituição Cidadã – a primeira na História da República na qual os povos indígenas passaram a contar com um capítulo específico e tiveram seus direitos também foram reconhecidos –, o volume organizado por Camila Loureiro Dias e Artionka Capiberibe reúne depoimentos de pessoas que exerceram papéis importantes na definição dos direitos indígenas na Constituição e de alguns dos atuais protagonistas na luta pela sua manutenção face às diversas ações contemporâneas que visam a reduzi-los.

Leia um trecho:

Na década de 1970, o Plano de Integração da Amazônia é proclamado pelo governo; um plano de estradas, hidrelétricas, minérios – época em que se começa Carajás. O Programa Grande Carajás só aparece em 1980, mas já se começa a mineração do que será Carajás – e, para isso, constrói-se a Hidrelétrica de Tucuruí para fornecer eletricidade, estradas, enfim, tudo isso é feito depois de 1970 e nesse contexto. Evidente que esses interesses estavam presentes na Constituinte. E tivemos que engolir. Sobre o porquê de a gente ter tido que engolir tanto, vou mencionar em grandes linhas. José Carlos Sabóia vai falar das várias etapas da Constituição e dos arranjos que foram feitos.

Entrevista com o poeta Majela Colares

Majela Colares acaba de publicar O Retorno de Bennu, que leva ao leitor poesia em prosa, aforismos, versos livres e uma poesia caudalosa, que inspira o leitor. A seguir, o Blog republica uma entrevista que o autor concedeu ao “Poesia Diversa” , de Hilton Deives Valeriano

1) – Como ocorreu seu contato inicial com a poesia?

Meu contato inicial com a poesia ocorreu através dos Romances de Feira, hoje conhecidos por Cordéis, quando menino. Lia-os intensivamente. Era uma leitura sempre muito emocionante. Romance do Pavão Misterioso, Peleja do Cego Aderaldo e Zé Pretinho, A Batalha de Oliveiros com Ferrabraz, As Aventuras de João Grilo, A Morte dos Doze Pares de França, (uma versão da canção de Rolando em cordel), estes são os que mais marcaram minhas lembranças. Eram leituras que eu fazia às vezes solitariamente e em outros momentos lia, com muita empolgação, em voz alta, para os amigos. Outra forma de poesia que tive contato muito cedo, talvez antes mesmo dos cordéis, foi a Cantoria. O verso improvisado. Mestres do improviso como Antônio Nunes de França, Dimas Batista, Otacílio Batista, Pedro Bandeira, Diniz Vitorino, dentre outros, foram os primeiros que ouvi improvisando um Galope à beira-mar, um Martelo Alagoano, um Mourão voltado, um Quadrão Mineiro, um Desafio. Esse contato inicial foi com a poesia popular nordestina. Com o tempo, misturou-se a essa experiência popular, as leituras dos clássicos. Primeiramente Casimiro de Abreu, Álvares de Azevedo, Castro Alves, Olavo Bilac, Augusto dos Anjos, Camões…

2) – Como é seu procedimento ao escrever um poema?
Não existe um procedimento padrão. O poema emerge espontaneamente. Não escrevo poemas quando me encontro em estado emotivo, quer proveniente de uma situação agradável ou desagradável, (estado de inspiração), nem tão pouco em momentos puramente racionais (estado cerebral). O poema dá sinais… pisca o olho… sorri… no mais das vezes, de início, apenas capto a idéia. O momento de elaboração de um poema, em mim, acontece quando me aproximo o máximo dele, é uma sensação muito boa. É um estado que vai além da razão e da emoção, um estado que não sei definir… apenas percebo quando atinjo. Aí o poema começa a ganhar forma. Somente o que escrevo nesse estado que a mente alcança, para mim indefinido e imprescindível, é que considero poesia.

3) – O que é poesia para Majela Colares?
Conheço duas definições de poesia que acho maravilhosas. Uma afirma: “a poesia é a arte de dizer apenas com palavras o que apenas palavras não podem dizer”. A outra definição diz: “poesia é tirar de onde não tem e colocar onde não cabe”. São definições inteligentes que podem levar a outras. Eu nunca pensei em definir poesia. Poderia, no rastro das anteriores, afirmar: “poesia é algo que de forma alguma pode ser dito e, de repente, alguém diz”. Penso, no entanto, que poesia é muito mais do que isto. Enfim é algo indefinível.

Capa de “O Retorno de Bennu”

4) – Como você vê o atual panorama da poesia brasileira contemporânea? Quais poetas você destacaria?

O atual momento da poesia brasileira é muito rico e marcante, no entanto pouco explorado. Existem grandes poetas escrevendo na atualidade. Nomes que merecem muito mais respeito, admiração e divulgação… que deveriam estar em seus verdadeiros e devidos lugares. Existe também muita gente sendo aclamada de poeta, nomes bastante famosos, e tudo o que escrevem ou escreveram de poesia não tem absolutamente nada. São meramente produtos da mídia. Não citarei nomes… com certeza cometeria injustiça. Esta diferenciação de quem é poeta e quem não é, de quem realmente é grande poeta, ou não, o tempo cuidará de fazê-la.

5) – Sendo um representante da poesia nordestina, como você vê a relação entre tradição poética e movimentos de vanguarda?
Escrevo poesia por necessidade existencial. Para responder, às vezes, inconscientemente questionamentos que me surgem até em sonhos. Ou num sinal de transito. A estética do poema, penso ser fundamental e muito tenho trabalhado isso. A tradição poética é, a meu ver, elemento imprescindível para a construção de uma obra poética. Um movimento de vanguarda é importante na medida da qualidade poética, estética e de pensamento que venha apresentar como alternativa para um estilo já existente. Em meu primeiro livro Confissão de Dívida, encontra-se poemas concretos, poemas visuais, sonetos, oitavas camonianas, poemas em versos livres… no segundo livro Outono de Pedra, (que é um poema único, longo) encontra-se tudo isso e mais algumas passagens onde entra a estética do cantador-repentista nordestino. Tudo isso foi resultado de leituras e influencias. Mas com o passar do tempo tomei consciência do que realmente a poesia queria de mim. As influencias das vanguardas passaram e restaram apenas alguns bons experimentos. Hoje ainda adoto estéticas variadas, mas a minha grande preocupação e comprometimento esta com a inovação da linguagem poética, com a fundição do signo, a implosão da sintaxe. Quanto ao fato de ser um representante da poesia nordestina me orgulha muito, mas não enxergo a coisa bem assim. Penso que ao invés de representantes regionais: sulistas, nortistas, mineiros, paulistas, cariocas, nordestinos, existem representantes da poesia brasileira. Trabalho para ser um deles.

Majela Colares


6) – A inovação em termos de poesia é sempre necessária? Existe uma tradição perene em regiões especificas do nosso país, como o Grande Nordeste?

Se a inovação for pra melhor é necessária. Sempre será. Se analisarmos Manuel Bandeira, Jorge de Lima, Joaquim Cardozo e João Cabral de Melo Neto, (nordestinos), Mario Quintana, (gaucho) e Carlos Drummond Andrade, (mineiro), verificaremos que existem diferenças estéticas e temáticas, mas nenhuma se identifica mais com esta ou com aquela região. (Com exceção à temática de João Cabral). Penso não existir uma tradição perene em regiões específicas do nosso país.

7) – O que você diria como forma de conselho para aqueles que estão se iniciando na prática da poesia?

Que leiam muito, principalmente poesia… que o ato de leitura seja dez, vinte, cem vezes mais frequente do que o ato de escrever.

“Eugênio Onêguin”, romance em versos de Aleksandr Púchkin, ganha nova tradução

O “romance em versos” Eugênio Onêguin é a expressão máxima do gênio de Aleksandr Púchkin (1799-1837), e representa para a literatura da Rússia o mesmo que OsLusíadas, A Divina Comédia, o Dom Quixote e as peças de Shakespeare representam respectivamente para Portugal, a Itália, a Espanha e a Inglaterra.
Púchkin é considerado o fundador da literatura russa moderna, o maior ícone cultural da Rússia, e seu Eugênio Onêguin já foi chamado de “enciclopédia da vida russa”, de leitura obrigatória em escolas. A Ateliê Editorial acaba de publicar uma edição bilíngue, traduzida pelo poeta e tradutor Alípio Correia de Franca Neto e pela pesquisadora russa Elena Vássina. O trabalho teve a consultoria de Bóris Schnaiderman, em um dos últimos trabalhos deste grande estudioso. A seguir, Alípio Correia de Franca Neto e Elena Vássina respondem juntos a perguntas do Blog Ateliê sobre a obra:

Esta é uma obra fundamental da literatura russa e já possui outra tradução em português. Qual o diferencial desta edição?

Resposta: A tradução é uma atividade dual, envolvendo capacidades individuais de interpretação e de escrita. Logo, uma tradução sempre envolverá uma maneira diferente de ler e de materializar essa leitura na escrita.

Quanto a traduções precedentes, só conhecemos uma versão brasileira do Eugênio Onêguin, cuja iniciativa deve ser considerada, pela envergadura do trabalho, mas que está inçada de imprecisões do ponto de vista de sua poeticidade  e no que concerne a interpretações pontuais de passagens e conceitos. São conhecidos, pelo menos, 10 excelentes  e diferentes traduções de Eugênio Onêguin para língua inglesa; há 16 traduções para o francês; 6 traduções para o espanhol e assim por diante.

Quais foram os maiores desafios da tradução deste volume, levando-se em conta o fato de que este é um romance em versos?

Resposta: O maior desafio, mesmo, é “manter o pulso”, em termos da depuração da linguagem em reescrituras sucessivas, à proporção que se avança  na tradução de um poema tão longo, universalmente conhecido pela “leveza” de seu estilo, a qual deve fazer, claro, parte da poeticidade da tradução –  um estilo que, como disse Tchekhov acerca do pé de uma bailarina, exige o máximo de esforço para o máximo de graça.

Como foi o processo de tradução e adaptação da forma poética? De alguma maneira ela obedece às estruturas da língua russo ou foi feita de modo que o leitor brasileiro pudesse reconhecer o ritmo da poesia a partir das referências de nossa língua?

Elena Vássina

Resposta: A estruturação do poema em português mimetiza um sem-número de estruturas poéticas do original, como, por exemplo, metro, esquemas rímicos, aliterações, assonâncias, ambiguidades, valores tonais. A tradução preserva conteúdos semânticos equivalentes em cada verso, apenas raras vezes deslocados ligeiramente a versos na sequência; preserva paralelismos, recorrência vocabular, aspectos da sintaxe e a maior parte da pontuação (que Michael Hamburger chamava de “a respiração” do poema). Apenas a especificidade do esquema rímico, no que concerne à distribuição de rimas masculinas e femininas, não foi seguida à risca, já que, como está explicado em palavras sobre a tradução no final do segundo volume,  a adoção desse cerceamento poderia resultar em soluções demasiado perifrásticas comparativamente ao original, esse sendo um problema relativo à constituição das línguas, já que o número de palavras oxítonas em português é simplesmente menor do que o de palavras paroxítonas.

Este trabalho foi parcialmente supervisionado pelo Prof. Bóris Schnaiderman, que atuou como consultor desta tradução. Quais foram as contribuições dele para o volume?  De que maneira seu trabalho pode ser percebido aqui?  

Alípio Correa de Franco Neto: O prof. Bóris sentia profundamente o português e o russo, e era uma homem de grande erudição, sensibilidade poética – ou seja, um leitor ideal, contribuindo continuamente com comentários os mais minuciosas sobre imprecisões ocasionais.

Elena Vássina: Em 2008 apresentei ao Professor Bóris um projeto de tradução de “Evguiêni Oniêguin”, obra fundamental da literatura russa que faria o talentoso tradutor de poesia com minha modesta colaboração. O Professor logo ficou muito interessado no projeto e aceitou nosso convite de fazer revisão da tradução e ajudar com o cotejo. Ficaram as recordações das muitas horas que passamos juntos conversando sobre “Evguiêni Oniêguin”, e das diversas páginas que ele nos deixou com suas anotações e listas de correções e sugestões de tradução batidas em sua fiel Olivetti portátil.

O Professor Boris ficou muito entusiasmado ao ler o rascunho da tradução das primeiras estrofes feitas por Alípio, que, segundo o Professor, conseguiu acertar muito bem o estilo do romance em versos e resolver aquilo que o próprio Schnaiderman definiu como “a grande dificuldade” na tradução da obra:“[Púchkin utilizou nela] uma linguagem muito singela e incisiva, sua poesia muitas vezes está bem próxima da prosa e, ao mesmo tempo, é fundamentalmente poesia” (Entrevista com Boris Schnaiderman, 2016, p.40).

Alípio Correia de Franca Neto

O livro faz parte da Coleção Clássicos Comentados. Como ele ajuda o leitor a entrar no universo da literatura russa (em especial desta obra fundamental para aquela cultura)?

Resposta: o livro é composto de um rico aparato de notas, enformadas por tradições críticas da obra,  vazadas em linguagem acessível, e às voltas com problemas culturais e de tradução.

Em sua opinião, este livro tenta ser didático para o leitor que nunca antes teve contato com a obra de Púchkin ou ele deve despertar a atenção apenas dos estudiosos da língua e literatura russa?

Resposta: O livro visa a ser didático, do ponto de vista de seu material paratextual e de textos críticos paradigmáticos da obra, consignados no final do segundo volume, embora, como todo clássico, seja destinado tanto ao leigo como o especialista.

Conheça outras obras de Alípio Correia de Franca Neto

Conheça outras obras de Elena Vássina

“O Azul e o Mar”: edição bilíngue com poemas de Paul Valéry

Eduardo de Campos Valadares selecionou poemas de três fases de Paul Valéry – Charmes, Clássicos e o longo poema “A Jovem Parca” – para compor este volume, chamado O Azul e o Mar, uma coedição com a Editora UFMG. Um trabalho de tradução que, segundo o tradutor, foi uma “festa da imaginação”, expressão que cria eco na “festa do intelecto” que, segundo o poeta francês, deve ser o poema.

“Os leitores bilíngues perceberão que a presente tradução busca privilegiar uma ambientação da poesia de Paul Valéry considerando-se a realidade linguística atual”, informa Valadares, Doutor em Física que vive em Minas Gerais, é professor na UFMG, já traduziu Stefan George e também é autor de poesia. A seguir, ele fala ao Blog da Ateliê:

Como foi feita a seleção dos poemas de O Azul e o Mar?

Eduardo de Campos Valadares: O meu ponto de partida foi o poema “Cemitério Marinho”, cuja tradução foi publicada no Brasil na década de 80 do século passado. Quando a li senti que nela a voz do poeta não fluía como no original. Resolvi então fazer a minha versão. Toda a obra poética de Paul Valéry é de domínio público e se encontra na internet. Selecionei os demais poemas por afinidade estética, pensando na sua universalidade.

Quais foram os maiores desafios da tradução deste volume?

ECV: Foram inúmeros. A poesia de Valéry é muito elaborada e requer extremo cuidado. Depois de ter o manuscrito aprovado pelos editores, reescrevi mais da metade do texto e fiz mudanças até o último minuto. Tudo isso foi possível graças ao apoio da produção. Eu diria que esta obsessão foi imprescindível. Neste processo a poesia de Paul Valéry foi se revelando de forma surpreendente.

Eduardo de Campos Valadares: física e poesia

O que diferencia este volume de outras edições dos poemas de Valéry em português?

ECV: Eu li a tradução de Rilke para o alemão e me dei conta que poderia ousar sem me sentir traidor do poeta. Cada idioma oferece oportunidades linguísticas únicas. Em  minha releitura dos poemas de Valéry explorei suas inúmeras possibilidades de exegese. Por ter traduzido anteriormente o poeta alemão Stefan George (Crepúsculo, Iluminuras), da mesma escola de Valéry – ambos foram discípulos de Mallarmé – me senti à vontade para explorar novas possibilidades, buscando sempre expressar a voz do poeta na língua portuguesa.

A questão da construção poética é bastante importante para Paul Valéry, bem como a questão da racionalidade. De que maneira isso impactou o seu trabalho de tradução para o português?

ECV: Eu sou um tradutor intuitivo. Utilizei todos os recursos ao meu alcance, incluindo ferramentas encontradas na internet, como dicionários de rimas, separador automático de sílabas, dicionários on-line, etc.  Senti visceralmente o que significa viver no século XXI e revisitar uma poesia clássica escrita há cem anos.

O refinamento estético e a inserção de temas filosóficos na poesia de Paul Valéry representaram, de alguma maneira, uma dificuldade em seu trabalho de tradutor?

ECV: Eu gosto de desafios impossíveis. Por isso encarei a poesia de Paul Valéry. O fato de ser um físico me ajudou muito na minha interlocução poética, às vezes lúcida, muitas vezes insana.

Paul Valéry

Em sua opinião O Azul e o Mar é uma boa introdução do trabalho de Valéry para quem nunca teve contato com a obra do poeta?

ECV: Eu creio que sim. Este foi o meu primeiro contato com a poesia de Valéry. Traduzi-lo me fez sair de um luto de cinco anos. Foi uma feliz coincidência, já que este tema reverbera nos poemas que traduzi.

E para aqueles que já são admiradores de sua poesia, o que este livro traz de novo?

ECV: Esta nova versão traz o frescor de um noviço que se aventura por um universo desconhecido. A poesia de Paul Valéry é um convite a refletir sobre a vida e o mundo, por isso admite novas percepções.

Conheça outras obras de Paul Valéry

“Viva Vaia”, de Augusto de Campos: um marco da poesia concreta

“Augusto de Campos realiza uma pesquisa poética regida pelo signo da invenção, utilizando recursos das tecnologias digitais que permitem integrar palavra, som, imagem, movimento, tempo e espaço em composições que solicitam a participação inteligente do leitor para a construção de significados”, define Claudio Daniel.

Esta talvez seja uma das melhores sínteses para entender a relevância de Viva Vaia, livro de 1979, que está na quinta edição e que é um dos mais importantes registros do Concretismo brasileiro. Em quatro décadas, o livro se confirma como uma das obras mais importantes da literatura brasileira.

Livro Viva Vaia
Viva Vaia

O Concretismo – movimento de vanguarda que teve manifestações na música, artes plásticas e literatura – foi uma revolução no modelo poético brasileiro. Lançado oficialmente em 1956, pelos irmãos Augusto e Haroldo de Campos e por Décio Pignatari, o movimento da poesia concreta preconizava o desaparecimento do eu lírico e a utilização de signos visuais e geométricos para compor a poesia. Em outras palavras, o concretismo sugeria que a forma fizesse parte da poesia, o que, em última instância pode levar ao desaparecimento do verso.  

Todas as manifestações artísticas do concretismo são bastante elaboradas, dando relevância à forma: os efeitos gráficos e recursos visuais e fonéticos da poesia muitas vezes a fazem parecer uma peça de design gráfico.  O uso do papel como um espaço quase geográfico também propõe uma leitura interativa – com a participação do leitor na construção dos significados propostos.

Viva Vaia

Este livro, que reúne poemas de Augusto de Campos escritos entre 1949 e 1979, traz um CD encartado, com quinze dos poemas que pertencem ao livro. Destes, dez figuraram no CD POESIA É RISCO, lançado em 1995, com criação musical e sonorização de Cid Campos. A diagramação de Julio Plaza e o projeto gráfico original foram respeitados e mantidos. Além disso, a edição devolve a impressão cromática inicial a alguns poemas difíceis de se reproduzir.

A poesia de Viva Vaia traz não apenas questões gráficas e visuais, mas também uma carga importante de crítica social, já que levam o leitor a pensar sobre o mundo que o cerca, com uma atualidade assombrosa ainda nos dias de hoje.

O poema que dá título à antologia é dedicado a Caetano Veloso, aludindo ao episódio em que ele fora vaiado pelo público durante o Festival Internacional da Canção de 1968.

Um dos exemplos do volume é o poema “Rever” (acima), um palíndromo perfeito que, nesta configuração gráfica contém no signo seu próprio significado. Mais que um achado gráfico, um jogo poético de palavras e imagens.

Viva Vaia é uma experiência estética ampla, que contempla não apenas a poesia, mas artes visuais, música e também provoca no leitor uma reflexão crítica sobre como todas essas inovações foram absorvidas e utilizadas pelo mercado.   

Conheça outras obras de Augusto de Campos

O Sertão e a Sibéria em Luto

Por: Plinio Martins Filho

Com a morte de Jerusa Pires Ferreira, ocorrida no último domingo (21/04), perdemos uma colega generosa e uma professora e ensaísta extremamente culta. Docente do curso de Editoração da ECA/USP e do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Semiótica da PUC/SP, suas aulas eram verdadeiras viagens: uma hora estávamos no sertão falando do cordel, em seguida, na Alemanha com Goethe ou na Rússia de Púchkin. Era fascinante esse trânsito entre o árido Nordeste brasileiro e a gélida Sibéria. Sempre valorizava seus alunos. De certo modo, “obrigou-me” a dar aulas na ECA, no curso de editoração. Devo a ela meu ingresso na carreira docente. Quando concebemos, pela Editora-Laboratório Com-Arte, a coleção “Editando o Editor”, eu havia recém-saído da Perspectiva para a Edusp, e ela sugeriu começarmos essa coleção, que hoje já abarca oito volumes, com um livro sobre Jacó Guinsburg, outro grande mestre que se foi há pouco.

Jerusa Pires Ferreira
Jerusa Pires Ferreira

Mesmo após a aposentadoria, Jerusa nunca deixou de colaborar com a ECA/USP e mais especificamente com o curso de Editoração. Amiga do livro, até falecer teve papel de destaque na coordenação do Núcleo de Estudos do Livro e da Edição (NELE), a frente dos estudos em torno da memória da edição e do livro popular no Brasil.

Seu legado foram seus estudos e projetos sobre o que ela chamava de “cultura das bordas”, isto é, trabalhos que tratavam do fértil entroncamento entre oralidade, memória, cultura popular e as relações entre literatura, comunicação e artes. Editou mais de vinte livros, entre eles Armadilhas da Memória (Ateliê, 2003), Cavalaria em Cordel (Edusp, 2016), Cultura das Bordas (Ateliê, 2010), O Livro de São Cipriano (Perspectiva, 1992) e Matrizes Impressas do Oral (Ateliê, 2014). Ela também se notabilizou como tradutora e principal divulgadora dos trabalhos de Paul Zumthor e de Henri Meschonnic no Brasil.

Se nos despedimos de Jerusa, felizmente sua obra permanecerá, frutificará e continuará a se expandir. Estão para serem lançados em breve Leituras Imediatas e A Visita da Peste, em coorganização com Roberto Oliveira. 

“A Cidade e As Serras”, de Eça de Queirós

A Cidade e As Serras é um livro póstumo de Eça de Queirós: foi lançado em 1901, após a morte do escritor. É um dos mais importantes títulos do autor português, inclusive do ponto de vista do exercício estético. Pode até ser classificado como pós-realista, já que combina aspectos realistas, impressionistas e expressionistas, por exemplo. O romance questiona os valores da sociedade urbana portuguesa (como já acontecera antes em outros romances de Eça, como A Ilustre Casa de Ramires) e fala sobre o impacto do capitalismo nessa sociedade. Ainda assim, se tomarmos por base outros romances do autor, como O Primo Basílio, percebe-se uma certa reconciliação com alguns valores da sociedade portuguesa, fortemente combatidos em outras obras.

Como o próprio título denuncia, A Cidade e As Serras – baseado no conto Civilização, escrito por Eça em 1892 –, fala da dicotomia entre campo e cidade, tendo como ponto de partida a história do abastado francês Jacinto de Tormes, contada por seu amigo, o narrador (português) Zé Fernandes. Jacinto mora em uma mansão, com telégrafo, telefone, elevador e outros aparelhos muito tecnológicos para o cenário do início do século XX. Ele recebe em sua casa o amigo Zé Fernandes, que vem rever o amigo depois de um longo intervalo de tempo.  

Esse é um romance especular. Ou seja, tudo na estrutura do romance é de certa forma, espelhado, a começar pelo número da propriedade do protagonista: 202. Mas o espelhamento se espalha pela obra, na comparação entre campo e cidade; na lembrança de juventude em comparação ao momento presente, por exemplo.

A tecnologia e a modernidade são aspectos importantes para Jacinto. “A felicidade dos indivíduos, como a das nações, se realiza pelo ilimitado desenvolvimento da mecânica e da erudição”, afirma. Ele cria, na juventude, uma espécie de equação (que também pode ser um elemento lido como especular), segundo a qual

“Suma Ciência X Suma Potência = Suma Felicidade”.

Este preceito irá guiar a narrativa de A Cidade e as Serras.

Enredo

Eça de Queirós

Quando chega a Paris para visitar Jacinto, Zé Fernandes acaba por se inebriar pela cidade e sua atmosfera. Apaixona-se pela prostituta Madame Colombe, tornando-se um “selvagem” e contrariando a teoria de Jacinto de que esta seria uma característica do homem do campo. Vários são os episódios do romance que tentam desmontar a teoria de Jacinto – um alerta para que o leitor a veja de maneira crítica. Um exemplo disso é a solidão e a frágil saúde de Jacinto – a despeito do fato de que ele esteja morando na cidade mais desenvolvida de então, com acesso à medicina e às melhores condições de tratamentos de saúde.  

Durante a visita de Zé Fernandes, Jacinto precisa voltar a Tormes, para tratar dos danos ocorridos em uma propriedade sua. Esse retorno ajuda a melhorar o quadro de frágil saúde do protagonista. Mas aqui também Eça de Queirós coloca críticas em seu romance. A vida no campo não é apenas bucólica e perfeita. O leitor se depara com cenas de pobreza e dificuldades dos camponeses.

Em Tormes, Jacinto encontra Joaninha, prima de Zé Fernandes, com quem se casa. Ao mostrar que Jacinto encontra a “suma felicidade” longe da cidade, Zé Fernandes conclui que a tecnologia nem sempre é a razão da felicidade.

“Entreatos”: monólogos de inspiração fantástica

Marcelo Castel Cid já escreveu um romance chamado Os Unicórnios e organizou a Antologia Fantástica da Literatura Antiga. De certa forma, sua literatura flerta com o fantástico. Agora, ele lança Entreatos, em que bebe nessa fonte para criar monólogos inventados para personagens bíblicas que marcam presença no Livro dos Atos dos Apóstolos. A seguir, ele fala sobre seu novo livro para o Blog da Ateliê:

Como surgiu a ideia de escrever Entreatos?

Marcelo Castel Cid: Surgiu à primeira leitura do Novo Testamento, há muitos anos. O Livro dos Atos me impressionou particularmente, já naquela época.

Qual a origem de seu interesse pelo Livro dos Atos dos Apóstolos?

MCC: Não sei se essa informação é tão relevante, mas digo mesmo assim: não sou uma pessoa religiosa. Meu interesse pelos Atos se deu por seu valor literário e humano. Lendo a história dos primeiros cristãos, eu me pegava fascinado pela maneira como um obscuro culto oriental foi ganhando corações e mentes tão rapidamente, e em dois meios culturais muito diversos – entre os judeus monoteístas e entre os gregos e romanos politeístas. E isso aconteceu de uma maneira definitiva, como sabemos, uma vez que muitos, logo depois da conversão, já estavam dispostos a dar a vida pela nova religião. Isso em si é muito misterioso. Por mais que haja mal-entendidos ou ficção nos Atos, ter a certeza, como temos, de que tantos enfrentaram o martírio para testemunhar a verdade que sentiam nas palavras de um homem “do povo”, que seria também divino, torna a leitura uma experiência tocante.

 O seu conhecimento prévio da Bíblia – e do Livro dos Atos dos Apóstolos – foi “suficiente” para escrever Entreatos ou foi necessário voltar a essa parte da Bíblia para compor sua obra? Como se deu esse processo?

 MCC: Eu escrevi meus relatos com o livros dos Atos sempre à minha frente, mas não só. Li outros livros de história bíblica e cultural, além, é claro, de misturar várias narrativas numa só. Por exemplo, meu Dionísio Areopagita é uma mistura do relato bíblico com os textos de e sobre o Pseudo-Dionísio Areopagita, um místico do século V ou VI. Historicamente, não podem ser a mesma pessoa, mas literariamente é um recurso interessante misturar essas histórias.

Marcelo Castel Cid

No Prólogo, você escreve: “Claro, seria possível contar uma ou outra história com maior liberdade, usando a narrativa bíblica apenas como ponto de partida para outras divagações (como alguns autores já fizeram – por exemplo, Danilo Kis em maravilhosa narrativa sobre Simão Mago) – mas isso levaria “a intenção do texto” ao outro extremo – divergir da fonte, o que não é, por si só, um bom empreendimento literário”. Pode, por gentileza, explicar esse trecho ao leitor?

MCC: Com isso eu quis dizer que, na maior parte, segui o arco narrativo da Bíblia. Não quis contar uma “história alternativa”, como um daqueles livros ou filmes que imaginam “o que teria acontecido se…”. Acho o texto dos Atos muito literário por si só – a conversão de Paulo, por exemplo, é tão incrível que só pode ser real, miticamente real, pelo menos, mas sabemos que também historicamente…

Sei que muitos autores poderiam escrever boas histórias imaginando Paulo desistindo de tudo ainda no caminho de Damasco, e chegando a morrer um velho judeu ortodoxo, rememorando a história de Jesus – que poderia ter acabado já nesses primeiros anos, se ele não tivesse se tornado um apóstolo da fé que antes perseguia. Enfim, eu quis escrever “entre as linhas” do texto bíblico, não contra elas, especificamente.

Quão desafiador foi o processo de composição de Entreatos?

MCC: A escrita em si foi rápida, mas cada texto apresentou uma dificuldade específica. Acho que o texto mais difícil de escrever, e com o qual eu fiquei menos satisfeito, foi o do centurião Cornélio – simplesmente porque eu não consigo entender como e por que um centurião romano arriscaria tudo para abraçar uma obscura seita judaica do primeiro século. Acho que ninguém consegue entender isso, na verdade… No entanto, sabemos que isso aconteceu, tanto que em poucas gerações o cristianismo se tornou a religião oficial do Império Romano.

Os personagens enfocados em Entreatos não são personagens “célebres” para o grande público. Essa escolha se deu com que finalidade?

MCC: As histórias dos Atos são boas, quase todas elas. Acho que o grande público conhece as principais, as de Pedro e Paulo, por exemplo. Várias personagens aparecem em cenas muito curtas, apesar de memoráveis, que outro autor poderia desenvolver em contos ou mesmo num romance. Eu escolhi aquelas que tinham algum desenvolvimento dramático mais ou menos completo, seja no texto bíblico, seja pela tradição.  Por exemplo, isso não está dito nos Atos, mas sabemos que o procônsul Lúcio Gálio (que na Bíblia tem uma atitude de indiferença com os cristãos) era irmão do filósofo Sêneca – o que abre várias possibilidades narrativas. Teria ele inveja do irmão? Seria ele também próximo ao imperador Nero? Seria ele também meio filósofo, meio estoico, e por isso propenso ao cristianismo? Aliás, os antigos cristãos achavam que o próprio Sêneca poderia ter sido cristão, até sobrevivem algumas cartas (naturalmente apócrifas) que ele teria trocado com o apóstolo Paulo.

Conheça a obra de Marcelo Castel Cid

Thelma Guedes, poeta, contista e autora de novelas

A literatura faz parte da minha vida desde que me entendo por gente”, diz Thelma Guedes. Nascida no Rio de Janeiro, foi em São Paulo que ela cursou Letras, na USP. E lá também cursou o Mestrado, cujo ponto de partida foi o primeiro livro da escritora Pagu (Patricia Galvão), Parque Industrial. Do Mestrado nasceu Pagu, Literatura e Revolução, em 2003.

Um ano antes, porém, Thelma havia encontrado Walcyr Carrasco, autor da Globo com quem colaborou em diversos projetos, como O Sítio do Picapau Amarelo e nas novelas Esperança e Chocolate Com Pimenta. Em 2006, Thelma inicia sua parceria com Duca Rachid, com quem escreveu novelas emocionantes como Joia Rara e Cordel Encantado, que receberam variados prêmios.

Agora, Thelma Guedes estreia, também em parceria com Duca Rachid, Órfãos da Terra, nova novela das seis da Rede Globo. Mas, nestas mais de duas décadas de história, ainda houve tempo para que ela escrevesse também contos e poesia. A Ateliê Editorial tem muito orgulho ter, em seu catálogo, três dos livros de Thelma Guedes, uma autora múltipla, que cria para a TV, faz poesia e escreve contos. Tudo com uma maestria ímpar.

Conheça, a seguir, alguns livros de Thelma Guedes, autora de Órfãos da Terra:  

Pagu, Literatura e Revolução

Este livro analisa as dimensões estéticas e políticas de Parque Industrial, romance de Patrícia Galvão (Pagu) publicado no início dos anos 1930. Na época, a obra foi rejeitada pelos intelectuais, inclusive os de esquerda. Ainda hoje, ela é relegada pela crítica e pela historiografia literária a um papel secundário dentro do modernismo brasileiro. Com sensibilidade e conhecimento de causa, a autora deste ensaio recupera os méritos desse romance proletário e aquilo que, nele, permanece atual.

Novelas, Espelhos e um Pouco de Choro

Um livro sobre a televisão, essa caixinha de mistérios que conquistou lares de todo o Brasil. Os autores dos contos aqui reunidos são roteiristas da Rede Globo. Cada um aborda um aspecto do tema, com estilo próprio e determinado ângulo de visão. O que dá unidade ao conjunto é a identificação com o leitor: todos os textos tratam de histórias que assistimos ou de que ouvimos falar. Todas elas nos pertencem porque, de alguma maneira, participamos delas. O prefácio é de Gilberto Braga.

Cidadela Ardente

Os dezenove contos que compõem o primeiro livro de Thelma Guedes são flagrantes do dia a dia, recortes de momentos decisivos e situações-limite. Os temas fundantes da sensibilidade humana – desejo, medo, solidão e morte – são a matéria literária essencial da autora. Mais do que estopins do sofrimento, eles são tratados aqui como processos desintegradores da própria consciência. É o que faz desta obra uma experiência perturbadora, que leva o leitor a um percurso de inquietações e perplexidades.

“Fascinação”: do teatro ao livro, quase 30 anos depois

Flavio de Souza é muito conhecido por seu trabalho para crianças, como “Rá-Tim-Bum” e “Mundo da Lua”. Ele também foi roteirista de programas de humor como “Sai de Baixo”. Já Luci Collin é poeta, ficcionista e tradutora. O encontro entre os dois poderia parecer inusitado à primeira vista, mas foi esse encontro que gerou Fascinação, volume em coedição Kotter e Ateliê Editorial, que traz para o registro do livro o texto que foi sucesso nos palcos brasileiros nos anos 1990. Mas não se trata de uma simples transposição. O trabalho de Flavio e Luci ampliou o texto original, criando para o leitor uma experiência diferente daquela vista pelo espectador no teatro. O Blog da Ateliê falou com os autores sobre Fascinação. Como eles mesmos explicam, no livro, é difícil reconhecer as contribuições individuais. Por isso, eles falam em conjunto ao Blog:

Fascinação: peça ou livro?

Fascinação foi montada nos anos 90 em São Paulo. Desde então, Flavio tinha a ideia de fazer um livro com a mesma história, e sempre teve vontade de fazer essa nova versão com uma escritora. Foi só no século seguinte, quando se mudou para Curitiba, que encontrou a pessoa ideal para ter como partner nesta empreitada. Foi na capital paranaense que eles se conheceram.

Quis o destino que eles se encontrassem num palco, durante um evento literário logo após o carnaval de 2017, e que Luci fosse justamente a pessoa escolhida para fazer uma pergunta para Flavio, logo após os cinco escritores participantes terem lido um trecho de uma de suas obras. Assim que Luci leu um conto escrito por ela, Flavio soube que tinha achado a escritora que procurava desde 1994.

O livro foi escrito a quatro. Além de expandir tanto em quantidade de palavras quanto em profundidade, a história começa semelhante e antes do fim do primeiro terço, se distancia da original.

O humor de Fascinação

O texto da peça já tinha humor, que foi aproveitado com grande eficiência por Marisa Orth, a atriz que estrelou a montagem. Como foi feita por dois escritores que têm o humor presente em quase tudo que escrevem, a transposição foi inevitável. Cada frase divertida escrita por um foi completada, emendada, melhorada, exatificada pelo outro, em sucessivas idas e vindas do pingue-pongue que foi a escrita deste livro.

O convite inicial para Luci foi que ela escrevesse a “correnteza de consciência” que na peça aparecia como um texto em off, gravado pela atriz, que eram trechos de anotações em um diário. Esses pequenos trechos seriam expandidos e mostrariam o pensamento essencialmente feminino. Esse plano inicial foi abandonado logo no início. Flavio escreveu pedaços da narração da atriz e Luci escreveu diálogos entre a atriz e seu marido, além de pensamentos do marido e do outro personagem masculino, num abandono do plano para a feitura do livro e uma mistura completa, desapegada e abusada de raciocínios, ideias, parágrafos, frases, palavras, já que, além de incluir palavras, frases e parágrafos, cada um eliminava palavras, frases, parágrafos de trechos escritos pelo outro sem nenhuma cerimônia e, surpreendentemente, por tratar-se de dois escritores, esses cortes não causavam indignação.

O resultado é que a maior parte das frases são colagens feitas aos poucos de palavras escritas pela Luci e pelo Flavio, e nenhum dos dois pode reconhecer com certeza todas as suas contribuições.

Flavio e Luci: escrita a quatro mãos

Atualidade do texto

Fascinação foi escrita ainda nos anos 1980. Mas o assunto continua atual. Há “piadas” sobre assédio que não “estavam na moda” nos anos 80, mas os relacionamentos não mudaram quase nada desde então, aliás, desde que Eva e Adão se encontraram pela primeira vez.

A parte inicial da trama é a mesma. Uma grande dama do teatro e da televisão brasileira acorda uma noite e se vê raptada… ou não…

Remontagem nos palcos

Por enquanto, não há nenhum plano de levar fascinação novamente aos palcos. Mas se acontecer, com certeza será uma nova versão, muito melhor que a montada em 1994.

Conheça outras obras publicadas pela Ateliê