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Augusto de Campos completa 90 anos de poesia

Por Renata de Albuquerque*

Augusto de Campos completa 90 anos neste fevereiro em que não houve carnaval. O poeta fez sua estreia literária há exatos 50 anos com O Rei Menos o Reino. E, no ano que vem, o essencial Viva Vaia completa meio século desde sua primeira publicação. Mas as efemérides não são simples comemorações de fatos estáticos, de datas comemorativas passadas. Augusto de Campos e sua poesia vivem o agora, no sentido mais radical da contemporaneidade.

Suas críticas ao governo atual são apenas um dos exemplos que mostram que o poeta não é “apenas” um artista que vive de glórias passadas, mas, ao contrário, que continua alimentando-se de uma inquietação profunda, que transborda em sua obra, como já transbordava na juventude, em poemas como “Greve” (1962) e em suas escolhas como tradutor: Ezra Pound, e.e.cummings, Vladimir Maiakovski, Jorge Luís Borges e Gertrude Stein, entre tantos outros. Para o poeta, traduzir é recriar em outra língua. E essa visão artística também tem ecos profundos na tradição brasileira de tradução, que aponta saídas inusitadas e ao mesmo tempo tão genuinamente brasileiras a expressões estrangeiras, sem abrir mão do estilo.

Poesia Concreta

A natureza de sua obra – a poesia concreta, cujo manifesto Noigandres marcou de maneira profunda a poesia brasileira – trazia a literatura para perto das artes plásticas, gráficas e visuais, além de criar vínculos com a palavra falada muito antes dos podcasts e do Youtube existirem. Tanto assim que Viva Vaia, em sua edição atual, acompanha um CD, mídia que pode tornar-se streaming a qualquer tempo, sem abrir mão do conteúdo que provocou sua existência. Um artista multimídia antes mesmo de o termo surgir.

Livro Viva Vaia

Grandes movimentos artísticos brasileiros ou foram resgatados por Augusto de Campos (como o Modernismo) ou foram, de certa forma, chancelados por ele (Caetano Veloso conta que mostrava a Augusto de Campos larga parte de sua produção tropicalista). Em seus 90 anos, artistas tão diversos quanto Arnaldo Antunes, Tom Zé, Adriana Calcanhoto prestam sua homenagem ao poeta, em diversos eventos (inclusive virtuais).

Sua conta no Instagram (@poetamenos) tem mais de 23 mil seguidores – uma mostra de que a idade não é razão para não se renovar. Nela, o poeta faz experimentações verbivocovisuais que apontam para o futuro, com uma curiosidade de quem, definitivamente, não quer parar no tempo de seus 90 anos.

*Jornalista, Mestre em Literatura Brasileira pela FFLCH/USP, autora da Dissertação Senhoras de Si: o Querer e o Poder de Personagens Femininas nos Primeiros Contos de Machado de Assis.

Pequeno Palco: uma leitura rápida, mas profunda

Nesta entrevista ao Blog da Ateliê, o poeta Ricardo Lima fala de seu sétimo livro, a coletânea Pequeno Palco. Este é seu terceiro livro pela Ateliê, editora pela qual já lançou Pétala de Lamparina (2010) e Desconhecer (2015). Ricardo, que é jornalista e coordenador editorial da Editora da Unicamp, conta nesta entrevista como construiu sua obra mais recente e sobre quais temas ele se debruça neste livro de leitura rápida – razão pela qual é possível ao leitor ter uma noção panorâmica e completa da obra, que reflete a visão do autor sobre a realidade atual. “Tudo só tende a piorar, mas precisamos ter esperança”, diz o poeta na entrevista a seguir:

Os poemas reunidos neste livro foram escritos no decorrer de seis anos. Como foi o processo de reunir esse material? Como escolher o que entraria e o que seria excluído da seleção?

Ricardo Lima: Este é o meu sétimo livro e todos foram escritos e publicados sem pressa, em média a cada 4 ou 5 anos. São agrupamentos pequenos, a minha maior coletânea tem 40 poemas. Com exceção de um livro (Pétala de Lamparina) os poemas vão sendo escritos sem programa, sem cobrança, sem rotina. Tem semana que escrevo três noites seguidas. Depois fico meses sem pensar nisso. A seleção é feita depois de muitas e muitas leituras, os que não agradam 100% vão ficando de escanteio, esperando solução ou já descartados para a pasta “pequeno palco – não publicados”. Uma coletânea enxuta permite a leitura em uma sentada. Em 20 minutos o leitor atravessou aqueles 30 poemas e acho que isso possibilita uma apreciação mais adequada do conjunto.

Quais são os principais temas que perpassam os poemas do livro?

RL: São os de sempre. Morte, vida, infância, amor, tempo… esses temas mais comuns da poesia. Só escrevo sobre isso. O que pode ser apontado como diferente neste livro é a presença de alguns poemas com temática mais social, para ficarmos numa definição simples. Mas não vejo nada de excepcional nisso. É claro que o tema social deveria aparecer em poemas escritos nos dias de hoje, nesse caos que é o início do século 21.

O título do livro remete ao poema de abertura, cujos versos finais dizem: “no nosso pequeno palco/somos piores do que somos.” De que maneira este “clima” permeia os outros poemas do livro?

RL: Este final é pessimista. Talvez este seja o clima que perpasse outros poemas, mas não todos. O que também não é de se estranhar, tendo em vista este país conturbado, desgovernado, conduzido pelo mal.

A sinopse do livro no site da editora informa que “Em sua nova coletânea, Ricardo Lima retoma o estilo minimalista e lírico dos livros anteriores, porém trata a miséria agressiva dos dias atuais com versos mais diretos, numa linguagem menos elíptica”. A “miséria agressiva dos dias atuais” pode ter vários entendimentos: a situação da saúde, da economia, da sociedade… entretanto, os poemas reunidos em Pequeno Palco são anteriores ao cenário da pandemia pela qual o mundo passa. Por isso, cabem aqui duas perguntas: que miséria era aquela de quando os poemas foram escritos? Como aquela miséria ecoa no momento atual pelo qual passamos?

RL: A miséria é a que já está plantada no mundo bem antes da pandemia. A miséria dos afogados no Mediterrâneo e a miséria dos que não se afogaram no Mediterrâneo. A miséria humana que cria abismos e abismos e abismos. Mas, como disse na resposta anterior, o pessimismo permeia alguns ou muitos poemas do livro, mas não todos. Tudo só tende a piorar, mas precisamos ter esperança. Usei como epígrafe o primeiro parágrafo do livro O amante de Lady Chaterly, publicado em 1928: “Nossa época é essencialmente trágica, por isso nos recusamos a vê-la tragicamente. O cataclismo já aconteceu e nos encontramos em meio às ruínas, começando a construir novos pequenos habitats, a adquirir novas pequenas esperanças. É trabalho difícil: não temos mais pela frente um caminho aberto para o futuro, mas contornamos ou passamos por cima dos obstáculos. Precisamos viver, não importa quantos tenham sido os céus que desabaram.”

Alvarenga Peixoto: uma poesia de “contradições esperadas”

Em entrevista ao Blog Ateliê, o tradutor Caio Cesar Esteves de Souza, autor de Obras Poéticas de Alvarenga Peixoto, fala da descoberta de poemas inéditos do carioca que foi figura conhecida da Inconfidência Mineira mas cuja poesia tem sido pouco estudada no Brasil. O livro é fruto de seus estudos para o Mestrado – atualmente desenvolve seu doutorado em Romance Languages and Literatures na Harvard University (EUA). Souza, que já apresentou os resultados de suas pesquisas em diversos congressos no Brasil, Portugal, Itália, Polônia e EUA e tem uma coluna no Estado da Arte, do Estadão, defende que a obra de Alvarenga é, apesar de concisa (são apenas 40 poemas), complexa e multifacetada – tanto assim que os poemas foram usados tanto pela defesa quanto pela acusação no processo da Inconfidência. Essas características, segundo o estudioso, fazem dela um ótimo ponto de partida para o estuda da literatura do período. Leia abaixo a entrevista:

Há quem considere Alvarenga Peixoto um autor “menor” se colocado lado a lado com seus pares, como Cláudio Manuel da Costa e Tomás Antônio Gonzaga. Por que debruçar-se sobre a obra deste poeta do XVIII? O que despertou seu interesse?

Caio Cesar Esteves de Souza: Realmente, o Alvarenga Peixoto é considerado um autor “menor” do século XVIII justamente por conta de sua obra ser muito reduzida em número (apenas 34 poemas eram conhecidos até a publicação desta edição, que agora expande esse corpus para 40 textos) e por nunca ter publicado um livro de poesia em vida. Ao mesmo tempo, o próprio século XVIII é considerado por alguns estudiosos um período “menor” na história literária brasileira, uma espécie de entre-séculos, cuja função é apenas negar o dito “barroco” do século XVII ou antecipar o indianismo romântico do século XIX. E para outros estudiosos, sobretudo fora do Brasil, a literatura brasileira é uma literatura “menor” se comparada a outras, devendo ser entendida sempre como parte integrante de uma “literatura latino-americana” maior, escrita majoritariamente em espanhol.

Quando a gente coloca tudo isso em perspectiva, fica claro que a grandeza ou pequenez de qualquer autor e obra sempre diz mais sobre os pontos cegos dos críticos que se debruçam sobre eles do que sobre o próprio objeto de estudo. O meu interesse pelo Alvarenga Peixoto surgiu justamente do desinteresse dos outros estudiosos. Achei curioso que ninguém houvesse publicado um trabalho de fôlego sobre esses poemas desde 1960 – e ainda mais curioso que todos soubessem quem ele era sem nunca ter efetivamente lido sua poesia. Então, fui ler e notei que ela era boa. Foi a partir daí que decidi, em fins de 2014, que dedicaria alguns anos ao estudo desses poemas – para entendê-los melhor, mas também para entender melhor o silêncio dos nosso tempo sobre eles.

Em tendo estudado a obra de Alvarenga Peixoto, que argumentos podem ser colocados para (lembrando que foi inconfidente) “livrá-lo da acusação” de poeta menor?

CCES: Acho que não é necessário livrá-lo dessa acusação, porque ser produto de um poeta “menor” é justamente o que faz a obra atribuída a Alvarenga Peixoto ser tão interessante. Nesses 40 poemas, encontramos sonetos com temática amorosa; poemas elogiando as reformas de D. José I e de seu ministro, o Marquês de Pombal; outros poemas elogiando a rainha D. Maria I, que era oposta às reformas desenvolvidas por Pombal alguns anos antes; poemas sobre homens poderosos da colônia, produzindo uma tensão entra sua pátria (as Minas Gerais e, por extensão, o Brasil) e a sua nação (Portugal); poemas reafirmando a submissão brasileira a Portugal etc. Encontramos, nessa poesia atribuída a Alvarenga Peixoto, todas as contradições que esperamos encontrar ao estudar a segunda metade do século XVIII luso-brasileiro. É uma poesia que foi usada como prova de acusação contra o seu autor e, também, como parte de seu discurso de defesa no processo da inconfidência mineira. Eu honestamente acredito que a obra de Alvarenga Peixoto oferece o melhor conjunto de poemas para que o leitor perceba que as letras luso-brasileiras do século XVIII não podem ser facilmente reduzidas a meia dúzia de lemas árcades e a rótulos vazios como “barroco tardio” ou “pré-romantismo”. Ela é complexa, multifacetada, e resiste constantemente a esse tipo de caracterização. O fato de ser composta apenas por 40 poemas faz com que essa complexidade fique ainda mais evidente para o leitor. Acho que isso faz de Alvarenga Peixoto um excelente ponto de partida para o estudo do século XVIII luso-brasileiro.

 De que maneira o fato de Alvarenga Peixoto ter sido inconfidente impacta a obra dele e, além disso, a leitura que fazemos dela?

 CCES: Bom, aqui temos duas questões. O fato de Alvarenga Peixoto ter participado ativamente como um dos líderes do conjunto das reuniões que foi posteriormente chamado de Inconfidência Mineira, ou Conjuração de Minas, faz com que alguns leitores o imaginem como uma figura libertária, progressista, disposta a enfrentar o poder da metrópole por amor à pátria etc. Um nacionalista de uma nação que ainda não existia. Quando esses leitores se deparam com a sua poesia, ficam frustrados, porque não encontram nos poemas esse ideal que produziram em seu imaginário. A insuficiência, evidentemente, não é do poeta.

Boa parte da poesia atribuída a Alvarenga Peixoto foi composta antes de toda a questão política que culminou em seu degredo para Angola, onde viria a morrer. E a temática dos poemas nunca é explicitamente separatista. O que se nota – e quem apontou isso de forma consistente pela primeira vez, até onde tenho conhecimento, foi João Adolfo Hansen em um ensaio publicado em 2006 – é que em alguns poemas de Alvarenga Peixoto, como no “Canto Genetlíaco”, que fez ao batizado do filho de um poderoso das Minas Gerais, há uma tensão entre a origem de homens “valorosos” (nascidos no Brasil) e a sua subordinação à coroa portuguesa. Em outras palavras, é possível notarmos que a relação entre nação (Portugal) e pátria (Brasil), que fundamenta o processo da colonização brasileira, se apresenta como um problema, uma tensão pontual nessa poesia. Não é à toa que um fragmento de ode do Alvarenga Peixoto foi anexado às provas de acusação no processo da Inconfidência. Também não é gratuito que Alvarenga tenha escolhido anexar poemas em louvor à rainha D. Maria I ao discurso de seu advogado de defesa. Não devemos ler a poesia de Alvarenga Peixoto como uma “poesia inconfidente”; mas tampouco devemos nos furtar de perceber o aspecto político e contraditório de alguns desses versos – às vezes produzindo uma tensão entre colônia e metrópole, às vezes propondo a subordinação do Brasil a Portugal.

Como foi feito o trabalho de “garimpar” manuscritos e originais de Alvarenga Peixoto?

CCES: Como o Alvarenga Peixoto passou uma boa parte de sua vida em Portugal, quase todos os poemas que conhecemos dele estão registrados em livros manuscritos guardados em arquivos em Lisboa, Coimbra, Évora e Porto. Então, seguindo as instruções que Manuel Rodrigues Lapa, o último editor de Alvarenga Peixoto (1960) tinha deixado em seu livro, segui a Portugal para ler esses manuscritos e impressos. O que notei imediatamente é que a própria ideia de original não fazia sentido ali. Todos os textos estão registrados em vários escritos em cópias diversas preservados nesses arquivos. Não sabemos a partir de onde essas cópias foram feitas – se usavam manuscritos do autor, ou se a partir de performances orais esses copistas memorizavam os textos e depois os copiavam em papel. O contato com todos esses escritos me fez notar que, em vez de tentar comparar as várias versões desses poemas para imaginar o que teria sido a versão original, eu deveria inverter essa relação e valorizar cada uma dessas cópias como o que elas de fato são: fragmentos da História preservados em papel. A partir disso, produzi esta edição que é radicalmente diferente de todas as outras que foram feitas das obras poéticas de Alvarenga Peixoto. Em vez de esconder as incongruências, as dificuldades de leitura e os “acidentes” dos manuscritos, decidi trazê-los todos aos leitores, para que eles possam ter acesso a essa multiplicidade de vozes que se escondem no pó dos arquivos e que costumam ser apagadas em edições “definitivas” de obras completas.

Caio Cesar Esteves de Souza

Como foram descobertos os seis inéditos reunidos neste volume?

CCES: Essa descoberta foi quase um acidente de percurso. Após passar meses em Portugal revirando todos os livros manuscritos a que tive acesso, virando milhares de páginas manuscritas uma a uma na esperança de encontrar algum inédito, estava resignado à ideia de que não havia mais nenhum inédito preservado de Alvarenga Peixoto. Voltei ao Brasil, escrevi a minha dissertação e, poucos meses antes de ter que depositá-la, fui à Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin, da USP, para dar uma última olhada em uma coleção de manuscritos que estava catalogada de forma estranha. No catálogo, lia apenas “Flores do Parnaso [século XVIII]”, sem nenhuma descrição – isso já foi alterado, evidentemente. Chegando lá, me deparei com 5 livros de poemas manuscritos, com uma grafia do século XVIII. Então, decidi repetir o processo, olhando página por página de cada um dos cinco tomos, só para garantir que não haveria nada inédito ali. Parece história de pescador, mas os seis últimos poemas do último livro se intitulavam Galeria de Almeno. Eu já ia fechar o livro, pois não me interessava por nenhum Almeno, mas li ao lado a inscrição em francês “Autrement dit Alvarenga” [também conhecido como Alvarenga], com uma inscrição feita a lápis por Rubens Borba de Morais: “Peixoto”. Por muito pouco esses poemas não continuaram inéditos por mais alguns anos. Trabalho arquivístico sempre tem um quê de acaso nessas descobertas.

Foi feita alguma checagem de autenticidade para “comprovar” a autoria?

CCES: Foram feitas várias checagens, mas não com o sentido de comprovar autoria como geralmente se pensa. É pouquíssimo importante saber se o homem Alvarenga Peixoto efetivamente escreveu ou deixou de escrever um ou outro poema. Quase toda a poesia que lhe é atribuída não tem qualquer comprovação de autoria nesse sentido – e esse é o caso da maior parte dos poetas dessa época. Até muito recentemente, a autoria não era uma categoria tão fundamental para a produção, circulação e recepção de poesia como é hoje.

As questões que precisavam ser checadas eram várias; dentre elas: 1. esses poemas já foram publicados anteriormente? 2. Se sim, eles foram atribuídos a qual autor? 3. Há referências textuais internas que impeçam a leitura desses textos como atribuídos a Alvarenga Peixoto? Como não encontrei qualquer publicação anterior desses textos e não há qualquer passagem textual que tornasse inviável atribuí-los a Alvarenga Peixoto (por exemplo, uma referência a acontecimentos históricos posteriores à sua morte), não havia motivos para não acatar o que o manuscrito determinava como sua autoria.

Eu penso em Alvarenga Peixoto e qualquer outro autor anterior ao século XIX não como a mão que escreve, mas como a mão que é escrita pelos poemas. Se um manuscrito atribui determinado poema a determinado autor, ele produz esse autor a partir da reprodução do texto. Textos e escritos produzem autores, não o contrário.  

 Ler Alvarenga Peixoto no século XXI: quais são os desafios disso? E o que essa obra do XVIII diz a nós, no XXI?

 CCES: O principal desafio para ler Alvarenga Peixoto no século XXI é desnaturalizar o que pensamos que sabemos sobre essa poesia antes da leitura. É realmente nos aproximarmos desses textos abertos ao que eles tenham a dizer, e não tentando buscar ali o que já supomos que dirão. Outro desafio considerável é entendermos que a originalidade, que para nós é uma qualidade fundamental na poesia, não tem grande importância antes do século XIX. Um excelente poeta no século XVIII luso-brasileiro é aquele que sabe escrever poemas seguindo os lugares-comuns daquele gênero de poesia e superando todos os outros grandes poetas que se dedicaram ao mesmo gênero e aos mesmos lugares-comuns anteriormente. Escrever poesia era um jogo, em que você demonstra que é melhor poeta que os outros por saber seguir as regras com maior habilidade que os demais. Se o leitor quiser buscar originalidade ali como busca em poemas do século XX e XXI, não encontrará e pensará ser insuficiência da poesia o que na verdade é defeito de leitura.

Para que uma obra diga algo, é necessário que antes estejamos dispostos a ouvi-la. Não acho que os poemas de Alvarenga Peixoto necessariamente tenham qualquer tipo de mensagem aos leitores do século XXI. Mas o contato com eles, o processo de leitura atenta, cuidadosa e interessada, vai demonstrar a necessidade de entendermos esses poemas como um Outro. A poesia de Alvarenga Peixoto foi escrita por alguém (ou alguéns) de outro tempo, para outros leitores, seguindo outros critérios de composição e leitura. Uma vez que os leitores de hoje entendam isso, o próximo passo seria entender que eles também são Outros. Essa poesia produz os leitores do século XXI como outros em relação a si. O contato do leitor atual com textos para os quais ele não detém os pressupostos de interpretação faz com que ele tenha que aceitar a sua própria insuficiência e possa se ver como uma alteridade. E em um tempo de intolerância, negacionismo, estupidez e mediocridade como o nosso, a capacidade de lidar com aquilo que é outro e de entender que nós não somos a medida de todas as coisas me parece fundamental. A leitura das obras poéticas de Alvarenga Peixoto pode ser um bom ponto de partida para isso também.

Atando as pontas da vida

Em seu novo livro, Atando as Pontas da Vida, o professor de Teoria Literária da FFLCH/USP Ariovaldo José Vidal reúne ensaios sobre prosa de ficção: além da prosa brasileira pós-1930, há textos sobre Kafka e dois ensaios memorialísticos. A seguir, ele fala sobre o volume para o Blog da Ateliê:

O título do livro remete diretamente à famosa citação de Bento Santiago em Dom Casmurro: “O meu fim evidente era atar as duas pontas da vida, e restaurar na velhice a adolescência” (cap II). Entretanto, o texto inicial de seu livro é dedicado a Graciliano Ramos e a Angústia. O senhor cita, logo no início de seu texto, as “imagens obsessivas” de Graciliano e o “vasculhar” do passado e do presente. O senhor vê algum tipo de ligação entre as duas obras ou entre os dois escritores neste aspecto específico da memória e da ligação da juventude e da velhice?

Ariovaldo José Vidal: Há dois aspectos na questão: o primeiro, uma possível aproximação entre Graciliano e Machado. A crítica já falou sobre isso, aproximando não Angústia (que eu saiba), mas São Bernardo de Dom Casmurro, especialmente em função do conflito central e da condição de classe implicada nos romances (há desfaçatez de classe na figura de Paulo Honório em mais de um momento no romance). Mas já nesse caso, há também muita diferença entre os dois romances; e no caso de Angústia, as diferenças são ainda mais fundas. Penso que esses aspectos de memória são um tanto gerais para sustentar uma comparação.

O outro aspecto da questão é que uma citação – quando feita na forma de título, epígrafe, ou mesmo de maneira sentenciosa para explicitar algum sentido na obra de chegada – perde o vínculo inicial com o contexto de partida, ganhando outra significação no contexto de chegada. Essa frase, na verdade, descreve literalmente o percurso doentio de Luís da Silva no romance, ainda que sua história esteja longe da personagem machadiana; descreve também o movimento de leitura que eu empreendi no ensaio ao ler a história da personagem; e mais do que isso, descreve um movimento que contorna o livro todo.

Ariovaldo José Vidal

A “intenção da heterogeneidade” está explícita já na abertura da obra e se consolida ao longo dela. Entretanto, muitos autores buscam exatamente o oposto quando compilam seus textos. O que o fez buscar essa heterogeneidade?

AJV: A fidelidade aos fatos, à minha história; e vai nisso certamente algo de precário, que (para escândalo do leitor) não me incomoda. Você tem razão: a atitude crítica se pauta por uma coerência que, às vezes, pode ganhar uns ares de neurose. E isso se explica porque essa atitude está posta numa instituição que tem uma intervenção social, uma intervenção política, dentro da qual a atividade intelectual se pauta por um compromisso também moral e político. Mas como nosso trabalho também mexe com a subjetividade e suas contradições, é sempre bom não esquecer a lição de Guimarães Rosa, de que quem castiga nem é Deus: é os avessos.

Feito esse comentário, que tem algo de psicologia de bolso, é preciso perceber que um conjunto heterogêneo é dotado também de unidade e coerência. Ao contrário, a unidade da diversidade é sempre muito mais rica. Há uma ordem na simetria das linhas soltas (e eu estou citando João Cabral).

Ao realizar a seleção dos textos, o senhor percebeu uma mudança na sua própria forma de pensar a literatura ao longo do tempo? O que destaca, neste sentido?

AJV:Posso falar de dois aspectos: o estilo e a perspectiva. No caso da perspectiva, eu me voltava muito para uma leitura um tanto universalizante da obra, ou mesmo desvinculada das relações de classe; acho que com o tempo essa mudança foi se fazendo mais visível nos meus textos e nas minhas aulas. Mas note que isso não abre mão de tratar a personagem da maneira mais complexa possível, sem dogmatismo, uma complexidade que no meu caso não ancora na psicanálise ou outra disciplina (não por recusa da matéria, mas pelo pouco pendor a uma conceituação sistemática); busca apoiar-se na complexidade formal com que o texto trabalha a constituição da personagem, imersa em todas as formas da vida social.

Quanto ao estilo (supondo que eu tenha algum), a minha linguagem tinha um ar muito “serioso” que aparece, por exemplo, no ensaio sobre o Graciliano. Depois, fui depurando a linguagem e a sintaxe, e quero isso cada vez mais – um certo equilíbrio leve, na escrita da arquitetura, para falar mais uma vez com João Cabral e seu dileto arquiteto. Só espero que essa leveza seja, de fato, dotada de equilíbrio e, portanto, de consistência.

Um capítulo específico da obra revisita Antonio Candido (“Um Ensaio na Sala de Aula”), mas as lições deste mestre permeiam muitos dos textos reunidos no livro. Qual a importância de Candido na sua formação intelectual e, em sua opinião, para toda a crítica literária brasileira?

AJV: Ufa! A segunda parte de sua pergunta eu me recuso a responder, antes de tudo porque não sou a pessoa mais autorizada a fazê-lo. Mas a tradição crítica que ele criou é prova que responde à pergunta. E justamente vários desses críticos e professores deram um testemunho de sua importância. Quero me deter na primeira parte e, mesmo assim, num aspecto específico.

Quando fazia o curso de Letras aqui na USP, fui aluno do Davi Arrigucci Jr. No primeiro semestre ele trabalhou com os contos do Mário de Andrade e, no segundo, com a poesia do Manuel Bandeira. Foi no curso do Davi que eu conheci o ensaio de Candido, juntamente com o modo de leitura do Davi. Inclusive, o Davi trouxe para a classe um ensaio mimeografado dele sobre o Bandeira, que mais tarde estaria no livro Na sala de aula. As aulas do Davi foram reveladoras para mim, assim como alguns ensaios do Antonio Candido, quando eu os conheci melhor, digamos de maneira mais interessada, já como aluno de pós e professor. Reveladores sobretudo quanto ao método de leitura, que vou tentar esboçar livremente a seguir (volto a dizer, livremente), inspirado inicialmente pelo ensaio “Crítica e sociologia”, que está no livro Literatura e sociedade. Mas digo desde já que a questão perpassa toda a sua obra.

Para começar é preciso reconhecer que a realidade é dotada de sentido. É um caos, mas um caos dotado de sentido; e no nosso caso, um caos que é sinônimo de horror banalizado. Quando um índio é queimado vivo por delinquentes da classe alta de Brasília; quando um menino negro de oito anos no Rio, brincando dentro de casa, é metralhado pela polícia (e um superior justifica a ação); quando uma mulher é brutalmente assassinada pelo marido diante dos filhos; ou uma travesti, igualmente, no meio da rua, essas cenas horrendas são dotadas de um sentido que vai além delas. Não se trata, em cada caso, de um fato isolado; logo, elas devem ser interpretadas.

As áreas todas do conhecimento (especialmente das Humanidades) interpretam essas cenas como partes de uma estrutura maior da qual elas são fragmentos significativos. A cena do índio Galdino sendo queimado vivo em Brasília é, literalmente, a História do Brasil. É uma metonímia dessa História. Se um pintor representasse essa cena (não sei se houve algum caso) ele poderia muito bem colocar no quadro (de maneira denunciativa) o título “História do Brasil”, e ninguém acharia propriamente estranho.

Entre essas interpretações, está a da literatura com sua condição inalienável de representação da realidade, com sua condição da velha e boa imitação. Ao representar a realidade e tirar da cena toda a complexidade que ela possa ter, o escritor trabalha com a materialidade dos mínimos detalhes, todos eles significativos. Eu não vou atrás agora dos fatos do assassinato de Galdino, mas por alto veja só: o personagem que “dormia” no banco da praça era um índio; dormia lá porque não tinha onde dormir; os assassinos eram jovens da classe alta; o espaço era Brasília (centro do poder), onde trabalham os capangas engravatados da elite econômica (e as capangas), sem contar o teatro asqueroso que foi o julgamento passado na tevê (ou um deles).

Ao fazer a representação desse fato, o escritor elimina tudo o que não se refira diretamente a ele, criando o que Candido vai chamar em outro passo de “redução estrutural”; ou seja, a estrutura da vida social é “reduzida” a uma cena que lhe é significativa, em que todos os detalhes são significativos. Ao fazer essa redução, o escritor transforma o que é descontínuo num contínuo; por isso, a redução não é diminuição: é antes concentração, o que torna a obra dotada de ambiguidade, o combustível de todas as artes. Não há obra artística que não seja dotada de ambiguidade, porque nela há uma concentração de sentido, em que o mínimo detalhe, como disse, se torna significativo. E aqui entra o leitor.

Ao leitor está reservada uma espécie de “redução estrutural” de segundo grau. Ou seja, se o escritor deu a conhecer a realidade, agora é o crítico com seu ensaio que dará a conhecer a obra, com a redução estrutural que ele cria em seu texto. A “redução” que está na obra dá a conhecer a realidade; a “redução” feita pelo ensaio dá a conhecer a obra. O escritor trabalha livremente com a realidade, mexendo no que ele quiser; como diz Candido, o escritor trai a realidade para ser fiel a ela. O crítico, a mesma coisa: como a estrutura da obra já forma um contínuo, ele pode muito bem seguir a ordem criada pelo escritor, ou seja, analisar a obra começando pelo primeiro capítulo; mas nada impede também que ele comece a leitura pelo penúltimo capítulo; ele trai o escritor para ser fiel à obra.

Por isso, Candido chamará a essa crítica de “crítica integrativa”, em que todos os elementos funcionam para criar o sentido, e em que a matéria externa penetra a obra e forma sua estrutura, já como matéria interna. Por isso, ao analisar a obra por dentro é como se o leitor penetrasse nas entranhas da realidade, que foram enformadas pela obra. É nesse sentido que eu entendo a formulação de Adorno no conhecido ensaio sobre a poesia lírica (e que serve ainda mais para a narrativa), ao dizer que a referência ao dado social não deve levar para fora da obra e, sim, para dentro dela (o que supõe, é claro, o conhecimento do que está fora).

Também por isso, Candido chamará a essa crítica de “crítica estrutural”, em que todos os elementos, em níveis diversos, participam da configuração da estrutura da obra. De maneira tautológica, eu diria que essa estrutura é formada pelos elementos estruturais; no caso da narrativa (por mais fragmentada que seja), supõe a ordenação dos capítulos ou partes, a ação dramática externa ou interna (ou sua ausência), as personagens, tempo e espaço, bem como a figura do narrador, com todas as determinações de focalização e linguagem. Ainda que procure formular o conceito, Candido prefere antes analisar as obras e deixar que a análise prática dessas obras mostre os pressupostos de sua crítica (até porque quem teoriza muito, tende a analisar pouco). De mais a mais, vale lembrar a lição de Erich Auerbach: depois de escrever uma das maiores obras do ensaísmo no século XX, tratando da representação realista da realidade, ele diz nas páginas finais e na conclusão do livro que se tivesse de definir o que é o Realismo, por certo não teria escrito aquela grande obra.

Tudo isso aparece mais claramente nos ensaios dos grandes críticos; eu espero ter feito um pouquinho de nada disso no meu livro despretensioso, que em muito foi pensado para a situação de sala de aula.

O Gênero do Cuidado

Quem faz o trabalho doméstico? Quem cuida dos doentes? Gênero e cuidado se entrelaçam historicamente. Mas, mesmo com o crescimento do número de idosos e com a necessidade de que esta população seja cuidada, ainda hoje o trabalho das cuidadoras não é reconhecido enquanto profissão. No livro O Gênero do Cuidado – Desigualdades, Significações e Identidades , as sociólogas Helena Sumiko Hirata e Nadya Araujo Guimarães  estudam diversos aspectos deste assunto, cuja discussão é fundamental para entendermos melhor nossa sociedade. Helena é Diretora de Pesquisa Emérita no Centre Nationale de la Recherche Scientifique (CNRS, França) e pesquisadora colaboradora do Departamento de Sociologia da Universidade de São Paulo. Já Nadya é  Professora Titular Sênior do Departamento de Sociologia da Universidade de São Paulo, pesquisadora do CNPq associada ao Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap) e membro titular da Academia Brasileira de Ciências. A seguir, elas respondem, em conjunto, às perguntas do Blog Ateliê.

 
As leis relativamente recentes sobre o trabalho doméstico e o de cuidadores de idosos influenciaram de alguma forma a pesquisa? 

Em realidade, as formas de regulação do trabalho doméstico, por um lado, e do trabalho de cuidadores de idosos, por outro, têm percursos distintos e nos importaram muito já que nelas se expressam mudanças significativas no contexto em que atuam aquelas pessoas que foram objeto das nossas pesquisas (tais como, normas sobre contratação, remuneração, dispensas, condições de trabalho, organização coletiva, etc.). Vejamos rapidamente essas diferenças, que estão cuidadosamente descritas no nosso livro.

Por um lado, há uma legislação sobre o trabalho em domicílio, que se consolidou na Lei promulgada pelo Congresso Nacional em 2013 e posteriormente regulamentada pela Presidente Dilma Rousseff em 2015. Tal legislação resultou da intensa e longeva mobilização das trabalhadoras domésticas brasileiras, lideradas por seus sindicatos e confederação. Com ela, esta ocupação foi retirada do limbo em que estava desde a Constituição de 1988, a qual, ao estabelecer os direitos inalienáveis daquelas pessoas que viviam do seu trabalho, negou às trabalhadoras domésticas parte substancial de tais direitos.

Nesse exato contexto, crescia no Brasil a atividade de cuidado a idosos e dependentes, e com ela ganhava corpo o pleito das cuidadoras por reconhecimento da sua atividade profissional (e doravante usaremos o feminino pois 9 em cada 10 pessoas que se ocupam nesta atividade são mulheres). De fato, desde 2002, a atividade era oficialmente reconhecida como uma “ocupação” e passou a constar das estatísticas oficiais brasileiras; entretanto, do ponto de vista da regulação do trabalho e dos direitos, nada havia. Assim, cuidadoras de idosos também desencadearam uma luta em busca de fixar regras para o uso e remuneração do seu trabalho, enquanto uma atividade profissionalmente específica. Obtiveram, depois de anos, uma expressiva vitória, em 2019, quando o Congresso Nacional aprovou Proposta de Emenda Constitucional que regulava a profissão de cuidadora. Entretanto, tal legislação foi vetada pelo Presidente Jair Bolsonaro em julho de 2019, veto este que não logrou, no Congresso brasileiro, a margem mínima de votos para ser revisto. Desse modo, se cuidadoras almejarem, no Brasil de hoje, acesso a algum tipo de direito, precisarão ser registradas enquanto trabalhadoras em domicílio. Sem isso, o seu exercício profissional estará desprotegido, posto que a profissão não foi reconhecida.

O que vimos na pandemia do novo coronavírus, por exemplo, e disso tratamos em um dos capítulos do livro, foi a total desproteção a que têm estado sujeitas as cuidadoras, muitas vezes retidas duradouramente nas residências dos idosos que acompanham, posto que os mesmos passam a estar afastados dos seus familiares; ou mesmo da precária condição de trabalho e do alto risco a que estão sujeitas aquelas que atuam em instituições de longa permanência. No início da pandemia, custou muito convencer o governo brasileiro, meses em realidade, de que a atividade de cuidado domiciliar deveria ser entendida como uma atividade essencial.

Evidentemente, a variada forma como a regulação de direitos afeta distintas trabalhadoras do cuidado importa muito do ponto de vista da nossa pesquisa, que tem especial interesse pelo tema das condições sob as quais trabalham aquelas pessoas que produzem o cuidado remunerado no Brasil, sejam elas empregadas domésticas ou cuidadoras de idosos e pessoas dependentes.

A pesquisa foi feita em que aspectos do cuidado: o cuidado, a ajuda, o emprego doméstico e o cuidado profissional, cuidadores de idosos, de crianças? Foram observadas diferenças entre cada um desses âmbitos? Há algo que mereça ser destacado?

O nosso livro apresenta e discute três possíveis modalidades do cuidado, relevantes no caso brasileiro: (i) a do trabalho doméstico não remunerado, realizado como “obrigação”; (ii) a do emprego doméstico e do trabalho de cuidadoras (enfermeiras, auxiliares de enfermagem, cuidadoras domiciliares, etc.), realizados ambos como “profissão”; (iii) e a do cuidado provido como “ajuda”, através das redes de sociabilidade formadas entre vizinhos e amigos, forma esta saliente em um contexto, como o brasileiro, em que a pobreza atinge parcela ponderável da população, inabilita essas pessoas a contratarem, no mercado, os serviços profissionais de cuidado de que porventura necessitem, seja de cuidadoras ou de domésticas.

Sobre cada uma dessas três modalidades referidas acima, estudamos diferentes aspectos. Destacaremos quatro deles, por seu especial relevo.

Primeiramente, observamos quem faz a atividade. E o achado mais saliente, e que é comum a todas as modalidades do cuidado, é ser sempre realizado por mulheres: são as esposas, as mães, as filhas, as avós, as trabalhadoras domésticas, as cuidadoras, as professoras, as enfermeiras, as auxiliares de enfermagem, etc. E quanto mais subalternas as atividades de cuidado, maior a predominância de mulheres negras: nas residências, elas são majoritárias tanto entre as trabalhadoras domésticas, como entre as cuidadoras domiciliares; mas o mesmo se passa nos escalões inferiores da hierarquia nas instituições que estão no espaço público, seja na carreira da enfermagem (nos hospitais), seja na da educação (nas creches).

Helena Sumiko Hirata

Em segundo lugar, observamos as relações sociais que sustentam essa atividade de cuidar. Algumas vezes são relações mercantis, como no caso do cuidado como profissão; relações remuneradas, portanto, e que podem ser estabelecidas tanto nos domicílios privados (caso das empregadas domésticas e cuidadoras domiciliares), quanto em instituições (as quais, por exemplo, podem ser aquelas de longa permanência para idosos, no caso das cuidadoras em instituições, ou podem ser hospitais, onde cuidadoras também atuam, lado a lado com auxiliares de enfermagem e enfermeiras; ou mesmo em creches, caso do cuidado infantil). Mas, muitas vezes são relações não mercantis, ou seja, não contratadas no mercado: caso do trabalho de cuidado que as mulheres desempenham como obrigação, dada a condição de “esposa”, “mãe de família”, “filha”, “avó”, e pelo qual jamais são pagas em dinheiro; diz-se que o fazem “por amor”. Ou, ainda, podem ser relações que, mesmo não-mercantis, envolvam alguma forma de retribuição em dinheiro, irregular no montante e episódica no tempo, lado a lado com outras formas de reciprocidade, de agradecimento pela “ajuda” recebida.

Um terceiro aspecto que se destaca nos nossos estudos é a escassa valorização que a sociedade confere ao trabalho de cuidado, o que é comum a diferentes modalidades de trabalho nas quais as mulheres são dominantes. Em algumas das formas que estudamos, notamos não somente o pouco reconhecimento, mas chegamos mesmo a documentar a “invisibilidade” do trabalho; curiosamente, ele é invisível não apenas para outros no mesmo contexto, que não o reconhecem e/ou valorizam, mas para as próprias pessoas que o executam. Assim, se perguntamos a uma dona de casa se ela trabalha, 9 em cada 10 nos dirão que não; embora tenham uma jornada extenuante de múltiplas tarefas de cuidado, exercidas no cotidiano doméstico, elas não as entendem “verdadeiramente” como “trabalho”. No imaginário social, e com frequência no imaginário acadêmico, o trabalho é aquele que se faz no espaço publico e pelo qual se é monetariamente remunerado. Não por acaso as “donas de casa” têm sido tratadas como “inativas” nas nossas classificações oficiais.

Finalmente, a história das atividades do cuidado, último aspecto a destacar, nos mostra que as múltiplas formas do trabalho de cuidar, mercantis ou não, ganham visibilidade social de modo diverso ao longo do tempo. Se as enfermeiras foram reconhecidas como profissionais do cuidado desde o início do século passado, as cuidadoras apenas aparecem como personagens no nosso cotidiano social no final do mesmo século. Mesmo a palavra “cuidadora”, no sentido que a ela atribuímos hoje, é de uso social recente, datando dos anos 1990; antes, eram chamadas “acompanhantes de idosos”. No livro, nós o documentamos usando material da imprensa brasileira que recobre o período que vai de 1875 até hoje. E por que precisamos de incluir no nosso linguajar uma palavra nova, “cuidadora”? O assalariamento crescente das mulheres (provedoras “naturais” de cuidado), que se intensifica no Brasil nos anos 1970, as retirou dos domicílios por parcelas importantes do tempo; em paralelo, há um envelhecimento notável da nossa população, cuja expectativa de vida se ampliou. Assim, a necessidade do cuidado a ser provido por outros, e muitas vezes pago, se tornou evidente e colocou na cena essa nova personagem (para a qual carecíamos até mesmo de uma denominação, e a tivemos que cunhar, “cuidadora”). Esse novo contexto, levou a literatura internacional a cunhar a expressão “crise dos cuidados” para dar conta dos desafios dessa nova realidade.

Qual a importância de estudar o gênero do cuidado em pleno século XXI? O que ainda permanece como resquício de uma cultura de que “o cuidado é tarefa feminina”?

Bem longe de se constituir num “resquício”, a ideia de que o cuidado é tarefa feminina está profundamente arraigada em todas as sociedades contemporâneas e tem, como dito antes, repercussões sobre a desvalorização simbólica e monetária dessa atividade. “Em pleno século XXI” os homens não se sentem responsáveis pelo trabalho doméstico e de cuidado de idosos, crianças, deficientes, deixando esse trabalho para as mulheres. 

No Brasil, os estudos sobre uso do tempo e sua alocação, entre homens e mulheres, no dia a dia dos domicílios, têm documentado fartamente que os homens alocam uma parcela muito menor de seu tempo a tarefas domésticas; quando o fazem, dedicam-se justamente às tarefas não discricionárias. Infelizmente, parece que a experiência do confinamento durante a recente pandemia pouco alterou essa desigual distribuição, em que pese muitos houvessem prenunciado um novo horizonte virtuoso a esse respeito.

Finalmente, no que concerne ao cuidado, entendemos que todo/as seremos dependentes em algum momento de nossas vidas e que, por isso mesmo, o cuidado deve ser realizado por homens e mulheres, independentemente de sua classe social ou de sua cor de pele.

Nadya Araujo Guimarães

De alguma maneira a pesquisa detectou que essa ideia de que o cuidado deve ser feito por mulheres já está sendo revista? 

Sim, a pesquisa mostrou que, ao menos no que se refere ao trabalho profissional de cuidado, quando recebem formação específica, os homens tornam-se perfeitamente capacitados a realizá-lo. Assim, por exemplo, são de sexo masculino quase 40% dos cuidadores nas instituições de longa permanência de idosos pesquisadas em trabalho de campo realizado no Japão por uma das autoras.  Já em instituições similares, no Brasil, encontrou-se que menos de 5% desses trabalhadores eram homens.

No nosso caso, ademais, chama a atenção o fato de que, inexistindo regulamentação para o trabalho profissional de cuidado, a formação requerida para exercê-lo tampouco está previamente fixada em normativas. Por isso, na maioria dos casos, tal formação se acumula na experiência cotidiana, resultando numa sorte de capital de conhecimentos tácitos, desenvolvidos pelas mulheres em seus ambientes domésticos, em geral cuidando de seus familiares. Isso porque, no caso brasileiro, as experiências de cursos regulares para cuidadoras, com duração satisfatória e qualidade controlada, são ainda restritas.

Tudo isso contribui para fortalecer a tendência, imperante entre nós, a que o trabalho profissional de cuidado seja eminentemente feminino. Comparemos este cenário, por exemplo, com aquele em que se formam as pessoas que atuam no cuidado nas profissões da enfermagem. Ali, conquanto predominem as mulheres, há homens em quantidade crescente e o treinamento os habilita a desempenhar a tarefa com base no conhecimento formal adquirido.

Por essas e outras razões, partilhamos as concepções teóricas de Joan Tronto, Patricia Paperman, Sandra Laugier e Pascale Molinier de que devemos rever a ideia de que “o cuidado deve ser feito por mulheres”: se somos todos e todas vulneráveis, e se necessitaremos de cuidado em algum momento de nossas vidas, urge “desgenerificar” o trabalho do cuidado.

Já na “Apresentação”, há o questionamento sobre os aspectos políticos e éticos desse cuidado. Que achados da pesquisa foram mais surpreendentes a respeito desses temas? 

O cuidado engloba ao mesmo tempo trabalho, ética e política.

A ética do cuidado é se seguirmos o pensamento de Carol Gilliganfundada na experiência singular e irredutível, nos sentimentos, no concreto e no relacional.  A ética do cuidado se distingue da ética clássica da justiça que é fundada na razão e na logica dedutiva. A preocupação com o outro, o cuidado do outro, a responsabilidade necessária para preservar a vida de idosos, crianças, deficientes, doentes, faz parte da ética do cuidado.

A dimensão política advém das desigualdades de gênero, de raça e de classe imbricadas na figura da cuidadora, que é majoritariamente mulher, negra, de classe desfavorecida. A questão política também surge inevitavelmente quando comparamos as características da chamada “crise do cuidado” na América Latina com o que marca essa mesma crise nos países capitalistas avançados. Um achado surpreendente da nossa pesquisa foi o paradoxo entre, por um lado, uma prática cotidiana das trabalhadoras domésticas e das cuidadoras domiciliares que faz com que o seu trabalho seja realizado, via de regra, de maneira isolada e atomizada e, por outro lado, a consciência generalizada da falta de valorização desse seu trabalho que vimos ser por elas manifesta, a qual tem nutrido uma coalizão na luta por direitos, movimento este que parece estar sendo reforçado no contexto da pandemia do novo coronavírus.

Há um capítulo dedicado à sexualidade e às emoções, um assunto pouco tratado quando se aborda o tema do cuidado. Por que se decidiu incluir este assunto na pesquisa? Que achados foram encontrados sobre este tema?

O trabalho de cuidado é um trabalho material, técnico, mas é também um trabalho emocional, onde o corpo e a sexualidade aparecem como dimensões incontornáveis em seu exercício. Assim sendo, os contatos corporal e sexual são constitutivos das relações de cuidado. Entretanto, esta é uma questão teórica ainda incipiente nos estudos nessa área temática.

 Nossa pesquisa mostrou que não há formação sobre tal assunto que seja sistematicamente fornecida nos cursos que os cuidadores frequentam antes de iniciar sua atuação profissional – o que, sem qualquer sombra de dúvidas, seria necessário. E isso é verdade tanto no Brasil, onde a formação estruturada é exígua e desregulamentada, como fora do nosso país. Reconhecê-lo evidencia que estamos lidando com uma zona de fronteira, tanto no conhecimento acadêmico, quanto na prática dos atores.

Assim sendo, a estratégia de desexualizar e deserotizar sem desafetivar para poder bem realizar seu trabalho, tanto quanto a estratégia de banalizar o corpo, são correntemente utilizadas pelas cuidadoras sem que tenha havido formação nesse sentido.

A pesquisa também mostrou que são notáveis a complexidade e a ambiguidade da sexualidade no cuidado. Isso exige uma grande empatia e capacidade de escuta, o que não é levado em consideração quanto se trata de estabelecer a remuneração simbólica ou monetária de quem perfaz tal atividade. 

Conheça o livro

Uma livraria em meio às flores

Emília Amaral,  doutora pela Unicamp e professora de Literatura, é autora de O Leitor Segundo G.H. – Uma Análise do Romance A Paixão Segundo G.H. de Clarice Lispector

Apaixonada por livros, ela acaba de abrir sua própria livraria, a Livraria Jardim das Delícias, na cidade de Holambra, em sociedade com a irmã, Dinda Amara. A seguir, ela conta o que a levou a esse empreendimento.

Qual foi sua motivação para abrir uma livraria em um contexto em que a leitura se dá, cada vez mais, por meios digitais?

Emília Amaral: Na verdade, acho que o livro de papel não está competindo com o virtual, haja vista os relatos de abertura de novas livrarias, inclusive com vendas excelentes, que temos visto em todo o país. No Brasil, onde o nível de leitura é tão baixo, não podemos prescindir de ambos os tipos de livros, pois há possíveis leitores para eles.

Por que escolheu a cidade de Holambra?

EA: Holambra era uma cidade de vários indícios de gente interessada em leitura, mas não tinha livraria. Hoje, tem, e, pelo movimento, merecia mesmo. Além de ser uma linda cidade, centrada em produção e venda de flores, seus habitantes sempre estão em busca de novas atividades.

As sócias da Livraria Jardim das Delícias, em Holambra

Quando a livraria foi inaugurada?

EA: Devido à pandemia, não houve inauguração oficial, mas estamos trabalhando com bastante vigor e boas surpresas, há mais de dois meses. 

Que tipo de livros são os focos da livraria? Infantis, didáticos, literatura em geral?

EA: Sim. Literatura brasileira, literatura universal, teoria e crítica literária, biografias, ciências humanas, etc, além do que você colocou. Somos uma livraria-sebo, por isso temos produtos com assuntos, apresentações e custos variados. Atendemos muito pela internet e aceitamos doações.

Seu objetivo é também fazer da livraria um espaço de convívio para a comunidade de leitores da cidade? A ideia é realizar eventos presenciais e/ou online?

EA: Sim. Queremos criar um espaço cultural que seja reconhecido pela cidade. Temos atividades de cineclube, clube de leitura, palestras, lançamentos de livros, exposições, aulas etc. No fim de 2020, coordenei uma vivência da literatura de Clarice Lispector; tema de meu doutorado, para um grupo de seis pessoas. Foi bem interessante.

Quais são os desafios de abrir uma livraria no atual cenário pandêmico? E, por outro lado, como uma livraria pode contribuir para melhorar este cenário?

EA: O paradoxo é apenas aparente. Na pandemia, as pessoas buscam se interiorizar, procurar novos valores para sua vida, descortinar novos horizontes. Para isso, os livros, as revistas, muitas vezes indicados pela internet, são essenciais. Soube até de um aumento de vendas e de abertura de livrarias, nesse período.

Serviço

Livraria Jardim das Delícias

Avenida Solidagos, 218 – Morada das Flores – Holambra

@livrariajardimdasdelicias

Vendas on-line: dindi03uol.com.br

A Voz e o Tempo

Por: Renata de Albuquerque

Vencedor do Prêmio Jabuti de Psicologia e Psicanálise 2009, A Voz e o Tempo – Reflexões para Jovens Terapeutas acaba de ganhar uma terceira edição. A novidade é um posfácio, escrito pelo autor, Roberto Gambini, no qual ele faz a reflexão/provocação: Com que direito pode um analista declarar a verdade sobre seu paciente?”. No texto, a partir de sua experiência junguiano, Gambini escreve sobre como lida com o poder que a palavra que o analista tem para seus pacientes.

Ele lembra que a psicanálise foi concebida como talking cure – a cura resultante da conversa e que esse contexto já mostra muito sobre a importância das palavras no processo – e sobre a relevância das palavras do terapeuta.

“A questão aqui é o que o terapeuta diz, baseado em quê, como diz, e desempenhando que tipo de papel que por acaso creia ter-lhe sido de alguma forma atribuído, e através de cujo desempenho recebe ele seus proventos. Como reage ele a esse apelo de quem o procura, às vezes formulado claramente, outras vezes pronunciado como uma insinuação, um subtexto?”, pergunta-se (ou pergunta ao leitor?) Gambini.

Mas, para além da voz, está o tempo. O psicanalista (assim como o artista, conforme nos lembra, no prefácio, Adélia Bezerra de Meneses), cria elos com o tempo. É este tempo que matura as reflexões do terapeuta e suas elaborações teóricas, todas feitas a partir do prisma único de sua subjetividade e da relação que estabelece cada paciente seu. “(…) a decantação de leituras e estudos, construção de caminhos absolutamente não corriqueiros para se pensar a terapia e a vida, e sobretudo, algo que radica na empiria e que é fruto da interação com o paciente, no seu oficiar quotidiano do consultório, em sintonização rente à subjetividade do outro”, escreve  Meneses, antes de concluir: “A Voz e o Tempo condensa aquilo que é o cerne, o caroço, o essencial para alguém que se entrega à sua atividade como a um destino”.

Para um livro escrito por um terapeuta para terapeutas, este tem foi feito a partir de um fato muito singular. Nas palavras de Gambini, o livro “nasceu falado”, fruto de palestras e de depoimentos que Gambini concedeu a Adélia Bezerra de Meneses e Enrico Lippolis, dez anos depois das palestras que originaram a primeira parte do livro.

Nos escritos originados das falas, Gambini fala de como se aproximou de Jung, de sua trajetória, de como seu trabalho como professor abriu as portas para seu trabalho como analista e de outras questões que podem contribuir com jovens terapeutas, como o ofício do terapeuta, os desafios da transferência e a importância de exercitar a escuta – e como, tão importante quanto ela, torna-se, na trajetória de Gambini, o diálogo. O livro traz ainda uma carta com a interpretação do Dr. Karl Heinrich Fierz a um teste tipológico de Jung ao qual o autor submeteu-se nos anos 70. Todos esses elementos, somados, oferecem um panorama interessante sobre as idéias de Gambini, sobre seu fazer terapêutico e são, para os jovens terapeutas que se dispõem a ler a obra, uma experiência certamente enriquecedora.

Esaú e Jacó: o penúltimo romance de Machado de Assis

Por Renata de Albuquerque*

Publicado pela primeira vez em 1904, Esaú e Jacó é o penúltimo romance de Machado de Assis. A Ateliê acaba de lançar a edição, dentro da Coleção Clássicos Ateliê, com texto fidedigno (estabelecido segundo a vontade do autor, em vida), com apresentação de Paulo Franchetti e notas de José de Paula Ramos Jr. As ilustrações são de Mariana Coan.

O título, retirado do episódio bíblico sobre o desentendimento de dois irmãos, dá pistas sobre como os personagens Pedro e Paulo (também irmãos) vão se comportar ao longo da narrativa. Mas, ao contrário da história bíblica, os irmãos do romance machadiano não têm uma razão explícita para brigas. O desentendimento seria “ab ovo” (desde o nascimento) e com dois objetos definidos: a disputa pelo amor de Flora e as questões políticas (Pedro é monarquista; Paulo é republicano).

Um narrador problemático

Se Bentinho (Dom Casmurro) ficou conhecido como um narrador não confiável, por contar em primeira pessoa a história de um suposto adultério (não confirmado), Machado de Assis refina a problemática do narrador em Esaú e Jacó. Supostamente ele seria narrado pelo Conselheiro Aires (que volta em Memorial de Aires, último romance do escritor carioca) por meio de seus “cadernos manuscritos” encontrados após a morte do personagem, conforme lemos na Advertência.

Mas, logo no início da obra, o capítulo XII, chamado “Esse Aires”, começa assim: “Esse Aires que aí aparece conserva ainda agora algumas virtudes daquele tempo, e quase nenhum vício”. Ora, o narrador não falaria de si mesmo nesse tom, pensa o leitor. A partir desse momento, Aires é também personagem do romance.

Então, afinal, quem seria o narrador?

Sílvia Maria Azevedo, em seu texto Esaú e Jacó: de rivalidades e progenitura, levanta a hipótese de Aires ser um narrador-transcritor, ou seja, alguém que teria lido os cadernos de Aires e transcrito a história dos irmãos gêmeos Pedro e Paulo. Assim, para quem transcreve, Aires seria também personagem, um aspecto que repõe a complexidade da obra machadiana para o leitor, que tem, aqui, mais algo com que se preocupar para além do enredo.  

Enredo

A história começa com a visita de d. Natividade – a mãe dos gêmeos – à cabocla do Castelo, para saber sobre o futuro dos filhos. Essa visita de certa forma remete o leitor ao episódio bíblico da vinda do Anjo Gabriel que anuncia à Maria um milagre. Mas, aqui, não é o Anjo que revela algo, mas a mulher grávida que vai em busca de respostas – um rebaixamento proposital, uma pista de quem nem tudo (ou nada) nessa história será divino.

O conflito entre ciência e religião; o debate de questões sociais e políticas perpassa todo o livro, colocando em xeque as certezas que o leitor porventura venha a ter: as disputas entre os irmãos não permite que se possa “escolher um lado”: não há vilões ou heróis em Esaú e Jacó. Tudo parece levar a uma grande indefinição.

Um exemplo disso é o fato de uma moça do século XIX, Flora, assumir que não consegue decidir-se entre seus dois pretendentes – os irmãos. Flora adoece e morre sem decidir-se, mas consegue que os gêmeos prometessem a ela dar um basta em suas discórdias. Ainda que indecisa, ela é quem decide pela paz entre os irmãos, que se estabelece durante um curto período. Depois, a paz volta a dar lugar à discórdia.

Não por acaso, a história da paz em nome de uma mulher à beira da morte se repete quando d. Natividade pede a eles, no leito de morte, que esqueçam as diferenças.

Tudo, em Esaú e Jacó, gira em torno da rivalidade dos irmãos. Pedro estuda Medicina; Paulo, Direito. e, como ela se intensifica a cada passagem, tal rivalidade parece ter a função de reforçar as semelhanças entre Pedro e Paulo – tão iguais fisicamente, com ideias tão distintas – defendidas de uma maneira tão parecida: o embate. Por exemplo, tanto Pedro quanto Paulo se elegem deputados – mas, cada um por um partido diferente. Assim, podemos entender Pedro e Paulo como a metonímia das ideias que defendem: República e Monarquia seriam regimes igualmente problemáticos, um tema que Machado tratava “a quente”, durante a transição entre um e outro.

*Jornalista, Mestre em Literatura Brasileira pela FFLCH/USP, autora da Dissertação Senhoras de Si: o Querer e o Poder de Personagens Femininas nos Primeiros Contos de Machado de Assis.

Retratos da Leitura no Brasil 5ª edição

Por Renata de Albuquerque*

A quinta edição da Pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, realizada pelo Itaú Cultural e Instituto Pró-Livro, acaba de ser divulgada.  O objetivo da iniciativa é conhecer o comportamento do leitor e identificar os hábitos do brasileiro em relação à literatura.

Uma das mais interessantes novidades da edição é um módulo dedicado a leitores de literatura, seja em papel ou em outros suportes. Para efeito da pesquisa, literatura é qualquer conteúdo não utilitário/informativo.  

Além disso, a pesquisa contou com novos indicadores e opções de resposta, incluindo visitas a eventos (a coleta de dados foi realizada ainda em 2019, antes da pandemia), o uso do formato digital e a importância de influenciadores digitais nas escolhas de leitura. A inclusão da variável de gênero e raça também foi um importante avanço nesta edição da pesquisa.

Foram feitas 8076 entrevistas em 208 municípios brasileiros. Os leitores de literatura leem maior quantidade de livros por ano e são as pessoas mais jovens (até 29 anos), que leem por vontade própria e não por solicitação de instituições (escola, faculdade, trabalho). Ainda há mais leitores do gênero feminino lêem mais que do gênero masculino.

Papel, o predileto

O papel continua sendo o formato preferido dos leitores: 67% do total, enquanto que apenas 20% ouviu áudio livros. É interessante notar que quem lê livros físicos tende a compartilhar mais impressões de leitura que aqueles que lêem em outras plataformas. Estudantes do Ensino Médio lêem mais que em qualquer outra fase da vida escolar, incluindo-se aqui os livros de literatura.

Considerando leitores (quem leu, inteiro ou em partes, pelo menos 1 livro nos últimos 3 meses) e não-leitores, a média  de livros lidos foi de 5 (semelhante ao número da pesquisa anterior). O tema ou assunto do livro continua sendo a razão pela qual a maior parte dos leitores escolhe os livros que lerá, sendo que 12% afirmam escolher um livro pelo autor.  

A pesquisa aponta uma tendência de decréscimo na frequência de leitura de quase todos os formatos, especialmente livros de literatura por vontade própria e livros didáticos indicados pela escola. Entre as preferências de leitura, estão a Bíblia, contos, romances e outros livros religiosos.

Machado de Assis e Monteiro Lobato são os autores mais citados, enquanto que a sugestão de professores é levada em conta para que um leitor em fase escolar escolha o próximo título. Aqui vemos claramente a importância da escola na formação dos leitores no Brasil.    

Quem declara frequentar bibliotecas afirma ser bem atendido e gostar do espaço. Entretanto, 37% dos estudantes e 52% dos leitores não vão a esses espaços, sendo que 8% não sabe responder o que uma biblioteca representa para si. Estes dados indicam que é preciso revalorizar esses espaços para democratizar ainda mais a leitura.

Quer saber mais sobre a pesquisa? Acesse!

*Jornalista, Mestre em Literatura Brasileira pela FFLCH/USP, autora da Dissertação Senhoras de Si: o Querer e o Poder de Personagens Femininas nos Primeiros Contos de Machado de Assis.

“A Nebulosa”: um belo poema

Por: Roberta Araújo*

Publicado em 1857, “A Nebulosa” foi considerada à época como “um dos mais belos poemas dos tempos modernos”. 

Escrito por Joaquim Manoel de Macedo, autor dos clássicos “A Moreninha” e “Vítimas Algozes”, a obra é um poema-romance que, há um século e meio não era reeditada. Caída no esquecimento até mesmo por especialistas. 

Eu, que sequer sabia da existência desta obra, tive uma ótima surpresa ao ler esta caprichada edição da Ateliê Editorial, que conta com um texto de apresentação de Angela Maria Gonçalves da Costa e notas de rodapé, que facilitam demais a compreensão dos leitores. As ilustrações do artista plástico Kaio Romero dão um toque especial à edição. 

“A Nebulosa” conta a história de um amor impossível a partir da lenda de uma mulher linda, que surgia à noite em um penhasco e encantava os homens com o seu canto. O Trovador, encantado com ela, uma feiticeira, decide se matar. Ao pedir para sua Mãe socorro, ela vai até a Peregrina, que cede aos apelos. No entanto, já era tarde: ele se encontra com a Doida, descendente da Nebulosa e, juntos, se atiram do penhasco. A Mãe, de tanto sofrimento, morre e a Peregrina, amaldiçoada por ela, também. 

Gosto muito de obras que partem de lendas e mitos para desenvolver a história e esta realmente me cativou do início ao fim. 

Destaco aqui dois trechos: 

“Ó, natureza! Minha dor insultas!

Na tua placidez leio um sarcasmo;

Abomino-te, assim, amo-te horrível”.

“Dói-te a vida que arrasta alma cativa?

Pesa-te amar debalde?… – não a vejas:

Pede ao céu que desfira um raio ardente, 

Que de uma vez te cegue, melhor fora, 

 Do que vê-la e morrer de amor por ela”. 

Precisamos cada vez mais de poesia e este poema-romance de Macedo foi escrito com maestria, para encantar os leitores. 

Quer saber mais sobre A Nebulosa?

*Advogada, pós-graduada em direito e processo penal. Mestranda em direito pela UFRJ, mantém o perfil @justa.causa