Leia um trecho da obra ‘Em Busca do Paraíso Perdido: As Utopias Medievais’, de Hilário Franco Júnior

Leia um trecho da obra Em Busca do Paraíso Perdido: As Utopias Medievais, do premiado historiador Hilário Franco Júnior, publicado em parceria da Ateliê Editorial com a Editora Mnêma. A venda é exclusiva pelo site da Editora Mnêma, com desconto: de R$180,00 》》》Por R$99,00 (envio a partir de 30/10).

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Leia abaixo um trecho:

Também nas relações de gênero manifestava-se o desejo cátaro de igualitarismo. Enquanto o catolicismo interditava o sacerdócio às mulheres argumentando que sua impureza impede o contato com o sagrado, o catarismo pensava de forma diferente. Aceitava ministras mulheres por considerar que elas estavam tomadas pelo Espírito Santo tanto quanto seus colegas masculinos, de maneira que podiam administrar o sacramento da seita (consolament ou consolamentum) e ser objeto do melioramentum (três reverências ou genuflexões que os crentes realizavam diante dos ministros exatamente para venerar o Espírito Santo que neles se encontrava). Em função disso parece ter sido alta a proporção de “boas mulheres”, o que leva um estudo a concluir que a heresia cumpria papel de “nivelamento social”.

A crença cátara na metempsicose, observa René Nelli, também foi importante para tanto: porque a alma podia migrar de um homem para uma mulher e vice-versa, ficavam anuladas “as desigualdades postuladas pela misoginia”; porque a alma podia migrar de um nobre para um camponês e vice-versa, isso esvaziava “toda superioridade de nascimento” e “arruinava a noção de hereditariedade”33. A alma podia mesmo passar de corpo humano para corpo animal, ficando nessa condição mais afastada da salvação, já que somente humanos podem receber o batismo de fogo (isto é, do Espírito Santo) que salva, o consolament. Como quer que seja, o certo é que os cátaros aceitavam a existência da igualdade natural entre os humanos, vendo na conduta de alguns mandando em outros o resultado da intervenção de Lúcifer, criador de reis, condes e imperadores.

O LIVRO

Desde meados do século passado ampliaram-se muitos nossos conhecimentos sobre a Idade Média, na qual se reconhece a matriz da civilização ocidental cristã. Mas ainda subsistem múltiplas facetas interessantes a explorar, uma delas a produção utópica da época, que a historiografia tende a negar.

De um lado, argumenta-se não ser possível falar em utopia antes de Tomás More ter criado a palavra, no começo do século XVI. De outro lado, afirma-se que as pessoas da Idade Média pensavam demais na perfeição do Além para poderem imaginar uma sociedade perfeita nesta vida.

O livro que o leitor terá em mãos mostra, contudo, com refinamento conceitual e erudição, que houve várias utopias na Idade Média, cuja compreensão ajuda a lançar luz sobre não poucos aspectos do Ocidente atual.

O AUTOR

HILÁRIO FRANCO JÚNIOR é professor de pós-graduação de história social na Universidade de São Paulo. Obteve o pós-doutorado em história medieval na École des Hautes Études en Sciences Sociales, na França. Recebeu dois prêmios Jabuti. Tem diversos livros publicados, sempre focando temas medievais. Publicou pela Ateliê Dante – O Poeta do Absoluto e Cocanha – Várias Faces de uma Utopia.

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