Trechos de Livros

Leia trechos de Museu da Infância Eterna

A infância é uma energia que nunca morre, um tempo idílico de boas lembranças, que nos remete à pureza e à inocência. Miguel Sanches Neto reuniu, neste Museu da Infância Eterna, crônicas sobre este tempo delicado, “que podem ser lidas como um eterno presente”. A seguir, você tem acesso a alguns trechos do livro:

“Mãe, pai e irmãos trabalhando sem lamúrias: aqueles eram anos de labor e alegria, de fé e fascínio, de suor e sono. Com o que ganhava, o menino podia comprar seu lanche, garrafas de sodinha e as bolinhas de gude, chamadas burcas. E Burca virá a ser o apelido de uma de suas paixões adolescentes, por causa de certos olhos negros como as bolinhas usadas nos jogos em quintais de terra”. (p.9)

“Meu avô usou chapéu a vida toda. Eu passava pela loja de sapatos ao lado da igreja matriz e via, nas vitrines de madeira escura, chapéus pretos, muito bonitos, e ficava esperando o dia em que também poderia ter o meu – o tempo estava emperrado na cidade, mas logo ela seria incorporada à civilização. Um dos prefeitos instalaria uma tevê na praça. A cidade entraria no presente, os hábitos mudariam, eu cresceria, ouvindo agora rock. Não deu tempo para eu usar chapéu”. (p. 39)

“Nessa idade e ainda me assustando com um barulho provavelmente
de raposa no forro – lembrei então que a casa é de laje e que raposas não são tão comuns assim. Acendi a luz da sala de tevê e encontrei um Papai Noel sentado em frente da lareira. Ele estava com a roupa rasgada e suja de carvão. Em toda a minha vida, nem quando eu acreditava em Papai Noel, ele me apareceu. Depois deixei de me fiar nessas bobagens e sempre fiz os presentes natalinos de minha filha chegarem acompanhados de nota fiscal em meu nome, o que era motivo de espanto e revolta entre os vendedores” (p.56).

“O que antes era cosmos se tornara caos. O caderno deixava de ser espaço para a ordenação do mundo e das ideias e assumia sua condição de muro, onde todos inscreviam uivos de raiva e de amor. E apareciam nos cadernos nomes de pessoas queridas, palavras sujas, riscos, garranchos, desenhos, principalmente desenhos – caricaturas entre os que tinham maior aptidão para os traços, e rudimentares casinhas com árvore e sol nascendo entre nós, carentes de qualquer vocação”. (p. 95)

Conheça outros livros de Miguel Sanches Neto

O Encanto de Narciso: fotografia, história e memória

Em seu novo livro, o fotógrafo Boris Kossoy faz reflexões sobre temas que permeiam seu trabalho em textos curtos, densos e objetivos. Para além de registrar as imagens, aqui ele se debruça sobre seus significados e desdobramentos, “em busca de sua natureza e essência”, como ressalta o autor. Os textos foram escritos entre 2010 e 2018 e se organizam em seis capítulos: O Sistema e a Essência; Produção e Recepção; Desmontagem do Constructo; Fotografia e Memória; História da Fotografia; e Outras Dimensões da Fotografia.

A seguir, você lê alguns trechos do livro O Encanto de Narciso:

 A imagem fotográfica é um produto social e cultural; fornece sempre informações de diferentes naturezas acerca dos infindáveis assuntos que ocorrem na realidade concreta ou em motivos puramente abstratos ou ficcionais. Isso significa que são ilimitadas as possibilidades temáticas e que a criatividade só encontra limites na imaginação do fotógrafo, um filtro cultural.

Assim como a palavra é a expressão de uma ideia, de um pensamento, materializada pela linguagem verbal, a fotografia é, também, a expressão de um modo particular do seu autor interpretar o mundo tangível ou intangível.

A realidade do objeto não é a realidade da sua representação. Esta é criada a partir do objeto; não é, portanto, um duplo do objeto. A representação tem vida própria e duração perene. (p. 19/20)

Ao contrário do que diz o ditado popular, a imagem não “vale mais que mil palavras”. Se o receptor nada sabe a respeito do objeto fotografado em si ou do seu entorno, como compreender o que ela representa? As imagens fotográficas históricas, assim como as contemporâneas, contêm informações visuais sobre o objeto. Contudo, é necessário que o receptor da imagem tenha em seu repertório saberes e conhecimentos acumulados de diferentes naturezas para que possa compreender o objeto que vê representado, assim como o contexto histórico, social, político, cultural em que o mesmo se insere. Além de sua aparência. É através da experiência real, mas também da palavra, dos livros, da linguagem verbal, da cultura que adquirimos estes conhecimentos. (p. 25)

Onde termina o documental e onde começa o ficcional da imagem fotográfica?

A criação fotográfica é ilimitada, ou melhor dizendo, só é limitada pela imaginação do fotógrafo. No mundo da representação os fotógrafos se expressam de diferentes modos acerca da vida, da natureza, do mundo, da realidade. Qualquer que seja a aplicação, o registro – adjetivado de “documental” – é, desde a tomada da foto, resultado do olhar criativo de seu autor. (p. 75)

A desmontagem do documento fotográfico corresponde à desarticulação do processo de criação/construção da representação, etapa em que se busca decifrar o conjunto de informações codificadas que elas portam. Trata-se de trazer à tona suas histórias próprias tendo em vista o contexto local e a conjuntura política, social, econômica, cultural; reconstituir as condições de produção; decifrar os enigmas e os porquês acerca de intenções e finalidades que cercam a existência da representação; recuperar a mentalidade da época, entre outras descobertas circunscritas à imagem, operações necessárias para se compreender o aparente e o oculto, suas tramas, significação e alcance. (p. 123)

Lira dos Vinte Anos

A Ateliê Editorial, neste momento de isolamento social, convidou alguns leitores para compartilharem suas impressões sobre alguns de seus livros prediletos. Com isso, pretendemos fortalecer uma comunidade de pessoas apaixonadas por livros, que sabem que eles podem ser uma excelente companhia em momentos como este. Este texto é de Talvanes Faustino*, que escreve sobre Lira dos Vinte Anos. Agradecemos a colaboração de Talvane e esperamos que todos apreciem a leitura!

No Solo Da Saudade Brotaram As Lembranças De Morrer Das Tripas Do Cadáver De Poeta Foi Feita A Lira Dos Vinte Anos

Quem nessa fronte que animava o gênio,

A rosa desfolhou da vida tua?

Onde o teu vulto gigantesco? Apenas

Resta uma ossada solitária e nua!

Machado de Assis

Manuel Antônio Álvares de Azevedo, Maneco, para seus amigos da Faculdade de Direito de São Paulo, nascido sob o signo de virgem no dia 12 de setembro de 1831. Neste mesmo ano, poucos meses antes do nascimento daquele que viria a ser uma das vozes poéticas mais importantes das letras nacionais, o então imperador do Brasil, Dom Pedro I, abdicava no dia 7 de abril do trono, em favor do seu filho Pedro II[1]. Em 1845 Álvares entra para o colégio Pedro II no Rio de Janeiro, então capital do império. Três anos mais tarde, o jovem bardo, entra para a Faculdade de Direito, lugar onde travaria relações de amizade com Bernardo Guimarães e Aureliano Lessa, que segundo seus biógrafos eram seus melhores amigos, por escolha de Coelho Neto (1864-1934). Álvares de Azevedo, tornou-se o patrono da cadeira número dois da Academia Brasileira de Letras[2] (ABL).

A Lira dos Vinte Anos é provavelmente a obra mais publicada de Álvares de Azevedo. Não é uma tarefa hercúlea encontrar edições desta belíssima obra: são inúmeras as opções e formatos. Assim como, não é impossível dizer, qual entre tantas, deve ser a preferência do leitor. A edição da Ateliê Editoral numa primeira mirada, não tem muito de especial. Mas, ao ler com mais atenção, vemos que nesta 4º edição há um ensaio introdutório a vida e obra de Álvares de Azevedo, a cargo do Dr. José Emílio Major Neto[3], que também fez as notas explicativas. São mais de 500 notas e estas servem como apoio ao leitor na busca pela compreensão da poesia do autor. Ao abrir o livro, nos deparamos com mais novidades, que tornam esta edição diferente de todas as outras que tive a oportunidade de ler. Esta é a primeira vez que vejo uma edição ilustrada da Lira dos Vinte Anos. As ilustrações ficaram a cargo de Ricardo Amadeo, suas ilustrações em preto e branco têm um charme muito especial e ajudam a vermos transformadas em imagem as belas palavras de Álvares de Azevedo. Para completar, temos uma cronologia da vida e obra do cantor da Lira, um vocabulário básico das palavras mais usadas e pequenos textos informativos sobre as influências de Álvares de Azevedo.

Numa resenha escrita por Machado de Assis, sobre o livro Lira Dos Vinte Anos, o velho bruxo, defende que estamos diante de um grande talento, mas que lhe faltou tempo, tempo não apenas para terminar os poemas que deixou incompletos, mas também, tempo para desenvolver sua poesia.

Aquela imaginação vivaz, ambiciosa, inquieta, receberia com o tempo as modificações necessárias; discernindo no seu fundo intelectual aquilo que era próprio de si, e aquilo que era apenas reflexo alheio, impressão da juventude, Álvares de Azevedo, acabaria por afirmar a sua individualidade poética. Era daqueles que o berço vota à imortalidade. (ASSIS, Resenha: Lira Dos Vinte Anos – Álvares de Azevedo, 2019)

Machado de Assis

Com isto Machado de Assis defende uma tese de que a pouca idade de Álvares de Azevedo e sua falta de experiência literária fizeram dele ainda um reflexo das suas influências. Machado fala obviamente de Lord Byron, poeta inglês e maior expressão do romantismo do seu país natal. Mas vale o destaque que Machado não perde de vista que Álvares é um “grande talento”. Mesmo ainda não tendo afirmado a sua individualidade, ele mostra na sua poesia que é destinado a imortalidade. Avançando na leitura vemos o Bruxo, tocar em outro tema caro, seria a sensibilidade demostrada nos poemas verdadeira?

O poeta português Fernando Pessoa, escreveu que “o poeta é um fingidor [..] que chega a fingir que é dor/ a dor que deveras sente” e esta palavra “dor” é sem dúvida uma das palavras com as quais podemos explicar a obra de Álvares de Azevedo. Avançando no texto do mestre, vemos que ele toca no tema da sinceridade da dor do Sr. Azevedo, “Nesses arroubos da fantasia, nessas correrias da imaginação, não se revelava somente um verdadeiro talento; sentia-se uma verdadeira sensibilidade. A melancolia de Azevedo era sincera” (ASSIS, Resenha: Lira Dos Vinte Anos – Álvares de Azevedo, 2019). E segue voltando a destacar a realmente lamentável falta de tempo que a existência deu ao poeta.

Álvares de Azevedo viveu pouco, mas viveu o suficiente para colocar seu nome no panteão das letras nacionais. Sua poesia que trata de temas tão íntimos e caros ao ser humano que, mesmo após 168 anos da sua morte, encontram nas almas de seus leitores, um solo fértil de saudade, onde brotam as flores das lembranças de morrer, regadas com as lágrimas descridas, que alimentam as tripas que formas as cordas das lira dos vinte anos e na suas cabeças, brilha a glória moribunda do poeta da morte, brilha, Álvares de Azevedo.

Bibliografia

ASSIS, M. D. (10 de Janeiro de 2019). Resenha: Lira Dos Vinte Anos – Álvares de Azevedo. Acesso em 28 de Maio de 2020, disponível em Blog Do Pensar Poético: https://pensarpoetico.wordpress.com/2019/01/10/resenha-lira-dos-vinte-anos-alvares-de-azevedo/#more-3438

ASSIS, M. D. (29 de Maio de 2020). ÁLVARES D’AZEVEDO (Poesias Diversas). Fonte: Machado De Assis UFSC: https://machadodeassis.ufsc.br/obras/poesias/POESIA,%20Poesias%20dispersas,%201855-1939.htm#%C3%81LVARESDAZEVEDO

AZEVEDO, Á. D. (2014). Lira Dos Vinte Anos. Cotia: Atiliê Editorial.


[1] Porém o pequeno príncipe não pôde assumir o trono por ter apenas 6 anos de idade. Como solução, se inicia o período regencial, que acaba em 1840 com o golpe da maioridade, voltando o poder para a dinastia Bragança, neste ano nosso poeta havia completado 9 primaveras.

[2] A cadeira da qual Álvares é patrono, segue atualmente ocupada pelo escritor Tarcísio Padilha.

[3] Doutor em Teoria Literária e Literatura Comparada pela USP (2007) e mestre em Teoria e História Literária pela UNICAMP (2001).

Talvanes Faustino

* Talvanes Faustino é natural de Maceió, Alagoas, graduando em História, porém, em processo de mudança para o curso de Letras, porque a literatura falou mais alto. É autor de livros de poesias e contos, todos publicados de forma independente. A primeira publicação é do livro Portal Da Escuridão Do Meu Olhar de 2012 e o último trabalho publicado é o conto “Pássaros e Morcegos” (2019). Além de Álvares de Azevedo, tem em autores como Machado de Assis, Victor Hugo, Graciliano Ramos e a influência e o aprendizado e o incentivo para continuar escrevendo.

Clepsidra, de Camilo Pessanha

Clepsidra é o único livro de poesias publicado em vida pelo escritor português Camilo Pessanha (1867 – 1926). O livro, um dos mais importantes da poesia portuguesa moderna, foi publicado pela primeira vez em 1920, por Ana de Castro Osório, por quem Camilo Pessanha era enamorado.

O título se refere a um antigo instrumento grego de medição do tempo, parecido com uma ampulheta mas que, em vez de areia, continha água. O tema dos poemas passam pela efemeridade da vida, a fragilidade humana e o desencanto perante o mundo. Mas, o que a diferencia de outras, que abordam assuntos correlatos, é a recusa ao sentimentalismo confessional. Pessanha inova, subvertendo os princípios da métrica tradicional – o que faz de maneira única, com apurado senso rítmico, linguagem fragmentada e o uso refinado de metáforas. Muitas vezes, parece que não há ligação aparente entre os poemas do volume e a razão disso é, em parte, devida à sua fragmentação estrutural proposital e, em parte, devida à construção de sua primeira edição.

Desde a organização, o volume tem uma problemática própria. A organização da primeira edição não obedece exatamente àquilo que o autor propunha, do ponto de vista estético. E, neste aspecto, a edição da Ateliê Editorial representa um ganho para o leitor: Paulo Franchetti, responsável pela organização, apresentação e notas do volume é um profundo estudioso da obra do autor português e, em suas pesquisas, teve acesso a um documento que sugeria parâmetros para a organização do volume, a partir de anotações próprias de Pessanha sobre as datas em que os poemas teriam sido compostos.

Com isso,  a organização dos poemas feita na edição de Clepsidra da Ateliê Editorial, se não é exatamente aquela desejada pelo autor, é mais próxima disso do que ouras edições existentes.

Leia, a seguir, alguns poemas de Clepsidra:

INSCRIÇÃO

Eu vi a luz em um país perdido.

A minha alma é lânguida e inerme.

Oh! Quem pudesse deslizar sem ruído!

No chão sumir-se, como faz um verme…


SONETO

Tatuagens complicadas do meu peito:

Troféus, emblemas, dois leões alados…

Mais, entre corações engrinaldados,

Um enorme, soberbo, amor-perfeito…

E o meu brasão… Tem de oiro, num quartel

Vermelho, um lis; tem no outro uma donzela,

Em campo azul, de prata o corpo, aquela

Que é no meu braço como que um broquel.

Timbre: rompante, a megalomania…

Divisa: um ai, — que insiste noite e dia

Lembrando ruínas, sepulturas rasas…

Entre castelos serpes batalhantes,

E águias de negro, desfraldando as asas,

Que realça de oiro um colar de besantes!


ESTÁTUA

Cansei-me de tentar o teu segredo:

No teu olhar sem cor, — frio escalpelo,

O meu olhar quebrei, a debatê-lo,

Como a onda na crista dum rochedo.

Segredo dessa alma e meu degredo

E minha obsessão! Para bebê-lo

Fui teu lábio oscular, num pesadelo,

Por noites de pavor, cheio de medo.

E o meu ósculo ardente, alucinado,

Esfriou sobre o mármore correto

Desse entreaberto lábio gelado…

Desse lábio de mármore, discreto,

Severo como um túmulo fechado,

Sereno como um pélago quieto.



OLVIDO

Desce por fim sobre o meu coração

O olvido. Irrevocável. Absoluto.

Envolve-o grave como véu de luto.

Podes, corpo, ir dormir no teu caixão.

A fronte já sem rugas, distendidas

As feições, na imortal serenidade,

Dorme enfim sem desejo e sem saudade

Das coisas não logradas ou perdidas.

O barro que em quimera modelaste

Quebrou-se-te nas mãos. Viça uma flor…

Pões-lhe o dedo, ei-la murcha sobre a haste…

Ias andar, sempre fugia o chão,

Até que desvairavas, do terror.

Corria-te um suor, de inquietação…

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Seleta de poemas para março

Março é o mês da poesia. Dia 14 comemora-se o Dia Nacional da Poesia, o que motiva quem ama livros a se debruçar sobre esse gênero – que é quase uma unanimidade, afinal.

Para comemorar, o Blog da Ateliê faz a seguir uma seleção de poemas de alguns dos livros lançados recentemente pela editora, e de outros que já são verdadeiros clássicos:

 

 

I

Você já leu, pediu, aqui está ele:

Marcial, famoso em todo o mundo

por seus argutos livrinhos de epigramas:

Leitor fã, você lhe deu em vida

a glória que a uns poetas é concedida

apenas quando viram cinzas.

Hic est quem legis ille, quem requiris,

toto notus in orbe Martialis

argutis epigrammaton libellis:

cui, lector studiose, quod dedisti

viventi decus atque sentienti,

rari post cineres habent poetae.

(Epigramas, Tradução Rodrigo Garcia Lopes)

 

 

Eu escrevi minha história

Eu escrevi minha história num lastro de signos,

Destituídos de enganos,

mas carregados de cadáveres disformes.

Com a pena na mão direita e o punhal na esquerda,

Fui deixando sequelas na folha em branco,

Emoldurada com quadramentos sem véu.

Eu escrevi minha história,

(com o perdão da palavra),

No intervale dos hieróglifos

Entre sombras do esquecimento.

(Nove degraus para o esquecimento, Aguinaldo José Gonçalves)

 

CONTORCIONISMO

Já caibo numa

Caixa de sapato

 

Mas o que eu queria mesmo

Era ser trapezista

(Viagem a um Deserto Interior, Leila Guenther)

 

Inverso
Escrever em verso

é criar ritmo até então

inexistente neste (pelo menos)

universo.

 

Criar consórcio

entre palavras entre

outras, divórcio.

 

Usar a roupa do avesso

e descobrir

ser inverso o lado certo.

 

Ter compromisso com o partido

do conciso e com a total falta

de juízo.

(Rumo à Vertigem ou A Arte de Naufragar-se, Wassily Chuck)

 

Livro Viva Vaia

 

 

Canto do homem entre paredes

As paredes suportam meus pulsos de carne.

As paredes se encaram.

As paredes indagam seus rostos à cal

E me riem perdido além do labirinto.

A luz sobre a cabeça, os olhos entre os dedos,

 

O caminho dos pés no caminho nos pés:

Entre o jarro de flores e a mesa perdido.

E as paredes são uivos mais fortes que os meus.

Fui eu quem as fechou? Se fecharam sozinhas?

Sabem que eu sei abri-las. Ignoro que sei.

Ao me sonhar caminho vi que elas e não eu,

Que tenho pés, caminham.

As estantes e os quadros se erguem já como a hera

Mais espessos que a hera.

Algo que a luz chamou poeira e eu ouro, e teias

Chamou e eu chamei rios

Acorda o compromisso entre as portas e a vida.

As paredes não param. Caminham sobre mim.

Sonham que eu hei de abri-las. Ignoro mas sei.

(Viva Vaia, Augusto de Campos)

 

Passo à palavra

Passo

À palavra

Peço

Me refugio

Na palavra

Me alivio

 

Me liberto

 

 

Na palavra

Me desperto

 

Falo

Pela palavra

Espero

Apelo

Para a palavra

Paro

(Porta-retratos, Marise Hansen)

 

Poesia É Criação: Uma Antologia

ACONTECEU-ME

Eu vinha de comprar fósforos

e uns olhos de mulher feita

olhos de menos idade que a sua

não deixavam acender-me o cigarro.

Eu era eureka para aqueles olhos.

Entre mim e ela passava gente como se não passasse

e ela não podia ficar parada

nem eu vê-la sumir-se.

Retive a sua silhueta

para não perder-me daqueles olhos que me levavam espetado.

E eu tenho visto olhos!

Mas nenhuns que me vissem

nenhuns para quem eu fosse um achado existir

para quem eu lhes acertasse la na sua ideia

olhos como agulhas de despertar

como ima de atrair-me vivo

olhos para mim!

Quando havia mais luz

a luz tornava-me quase real o seu corpo

e apagavam-se-me os seus olhos

o mistério suspenso por um cabelo

pelo habito deste real injusto

tinha de por mais distancia entre ela e mim

para acender outra vez aqueles olhos

que talvez não fossem como eu os vi

e ainda que o não fossem, que importa?

Vi o mistério!

Obrigado a ti mulher que não conheço.

(Poesia É Criação, José de Almada Negreiros)

                                     

Antologia da Poesia Erótica Brasileira

“Noturnos VIII”

Gilka Machado (1893-1980)

E noite. Paira no ar uma etérea magia;

nem uma asa transpõe o espaço ermo e calado;

e, no tear da amplidão, a Lua, do alto, fia

véus luminosos para o universal noivado.

 

Suponho ser a treva uma alcova sombria,

onde tudo repousa unido, acasalado.

A Lua tece, borda e para a terra envia,

finos, fluidos filos, que a envolvem lado a lado.

 

Uma brisa sutil, úmida, fria, lassa,

erra de vez em quando. E uma noite de bodas

esta noite… há por tudo um sensual arrepio.

 

Sinto pelos no vento… e a Volúpia que passa,

Flexuosa, a se roçar por sobre as casas todas,

como uma gata errando em seu eterno cio.

(Antologia da Poesia Erótica Brasileira, Eliane Robert Moraes)

Seleta de poemas “Na Pureza do Sacrilégio”

Confira a seguir alguns poemas do livro “Na Pureza do Sacrilégio”, de Carlos Cardoso, com desenhos de Lena Bergstein. A seleção foi feita pelo próprio autor, cujas fotos são de Bel Pedrosa:

 

Camaleão

Como um camaleão rastejo pelo
silêncio do meu quarto.

É poesia o encontro das paredes?

São ópio as estrelas aplumadas em
cada esquina do meu ego?

Ou será benevolente a lágrima que escorre por
minh’alma quando brado louco por felicidade?

Os arredores repletos de melancolia
ainda se refazem do gelo.

A ausência de um ombro, de um
corpo catatônico que seja,
faz-me lembrar o quanto era bom
o diálogo com os meus olhos.

Tocar a escuridão quando a voz do
desespero insistia no apego.

Mozart me enlaça com um fio de
náilon na garganta.
São as trevas rodeadas de luzes
intangíveis,

metáfora do abominável descaso
público a um quase morto.

Ninguém, nem mesmo a solidão, tem
mãos assim tão pequenas.

 

 

 

Eu serei noite e serei dia

 

Tenho uma outra face
que não é a rebeldia do exílio,
conto com a morte
e uma palavra de alívio

para quando o sermão de Maria
ocultar o sublime sonho

do unicórnio perdido,

saberei que o tempo
é apenas uma gota d’água
a beber o saber etéreo
da fugaz sabedoria,

sempre que as coisas
forem tristes
e o rio guardar em si,
o ser

por onde o ser não navega,

eu serei noite e serei dia,
e serei dia e serei noite.

 O poema, o começo

 

Indago, por onde iniciar essa resenha.
De dentro para fora, de um lado para o outro,
sem foco, com rima, com ou sem sentimento.

Lamento, tormento, piedade, felicidade.

Simples feito a natureza, complexo como a humanidade,

  Agudo, fraco, obtuso, disforme,

angelical ou demoníaco,
soberbo, decente, incoerente, desejoso,
voluptuoso e indiferente.

Com as mãos sujas de argila, o copo cheio de tequila,
e aquela menina que tanto desejo, seu beijo.

Ou abordando a tristeza, a sutileza, as formas de beleza,
as luzes, a ribalta.

Por onde começar essa bossa, esse texto,
essa nossa vossa discordância,
pela juventude, tema de infância,
pela infância, pureza e relevância.

Afinal, iniciarei pela instância, ininterrupta discrepância.

 

 

 

 

 

 

 

Frase primeira

E como falar
de outra forma?
de cortar
e reformatar o futuro,
e assim querer
e ser sem par.
Por que ser assim
pura forma?
tanta cor
entre ares dúbios,
ferrugens,
e sorrateiros costumes
de manter
sombras assimétricas,
como a de pensar
antes de ser,
e andar
por entre cadeiras

que margeiam limites
intangíveis,

formas sem abdômen,

sem retina.
Ainda quero uma frase primeira,
nua,
ligeiramente inteira.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Ventania

Para Antonio Cicero

Iluminar a sombra
e torcer pelo sol
até que venha a chuva,

sapatear pela escuridão
com trovões e ventania,

molhar os dedos
sentir o frio e o arrepio
que é estar.

Carlos Cardoso volta à poesia com “Na Pureza do Sacrilégio”

Leia, a seguir, um trecho do prefácio do livro, escrito pelo escritor e crítico literário Silviano Santiago:

Carlos Cardoso fotografado por Bel Pedrosa

A criação revela o ser pelo desnudamento ao mesmo tempo em que o poema o revela ao leitor. O ser se dá a se conhecer, sendo re/conhecido pelo outro.

Em Carlos Cardoso, o termo positivo, a pureza se subordina ao termo negativo, o sacrilégio. Isso formalmente. Do ponto de vista semântico, a pureza na verdade se sobrepõe ao sacrilégio. A estética é superior à ética, embora, no frigir dos ovos, com ela se confunda. Apenas parecem se excluir. Ganha a expressão. Mas não é apenas a expressão que se reforça, como lembra Houaiss; reforça-se também e principalmente o deslizamento contínuo entre polos extremos e opostos de valoração. Lembre-se que na notável interpretação do México que é O labirinto da solidão (1950), Paz não elege como herói uma das várias figuras em destaque na História nacional mexicana. De modo quase impiedoso, descarta a todas, a fim de mostrar as fronteiras fluidas do nacionalismo geográfico. Paz elege como herói mexicano, isto é, como encarnação absoluta da mexicanidad, a figura nacional mais contraditória e polêmica, ou seja, alguém que representa o extremo oposto das figuras públicas destacadas e louvadas pela História − o pária mexicano que se exilou na Califórnia pela miséria ambiente na terra natal. Elege como herói o estrangeirado pachuco, um dos extremos a que pode chegar o mexicano, como ele aclara.

O deslizamento do formal ao semântico e do semântico ao formal não é apenas uma das graças do notável poema de Fernando Pessoa, como Jakobson demonstrou genialmente; é também o movimento que articula, em várias cadeias estruturantes, os sucessivos poemas de Carlos Cardoso. Como Pessoa nos poemas do livro Mensagem, Carlos é um “poeta da estruturação”, que abole todos os golpes da “incerteza”. Ao se dispor a “limitar” sua voz poética pelos termos extremos, Carlos tampouco se proporá como um “poeta da variedade”, para citar uma vez mais o linguista e crítico russo. O poeta limitado é aquele que não se exprime pela incerteza; ele constrói, arquitetura e estrutura, para nos valer dos três verbos escolhidos pelo próprio Pessoa e citados por Jakobson.

A força do oximoro é tão potente no universo de Carlos Cardoso que o leitor pode se valer da figura de retórica como chave para uma compreensão global de todos os poemas de Na pureza do sacrilégio. É simples, acompanhem-me. De um dos extremos do livro − o título e a epígrafe já comentados – dê um grande salto até o outro extremo − o poema final da coleção. Neste, os dias – isto é, as ocupações do poeta com a palavra – se acumulam entre a queda dos amanheceres e o raiar dos entardeceres, mas não se acumulam na incerteza do vaivém entre termos opostos. Acumulam-se no reforço da viagem cotidiana entre os amanheceres em queda e os entardeceres em brilho, que vêm previstos na capa pelo oximoro e são ratificados por Octavio Paz em termos de criação poética. Leiamos, em contraste, o último poema do livro:

 

Que caia o amanhecer,

O raiar do entardecer,

que os dias acumulem-se

não na incerteza,

mas na pureza do sacrilégio.

Por que leio histórias de amor?

A cliente Eliane Fernandes resolveu participar da Campanha #tempodeler. A seguir, ela compartilha com os leitores do Blog o que a motiva a ler e sua história – recente – de amor pelos livros.

Eliane Fernandes*

Posso dizer que eu leio histórias de amor porque não é difícil admirar e me apaixonar por descrições, situações, personagens e enredos escritos em obras como Iracemade José de Alencar, por exemplo:

“A alegria morava em sua alma. A filha dos sertões era feliz, como a andorinha que abandona o ninho de seus pais e emigra para fabricar novo ninho no país onde começa a estação das flores. Também Iracema achara nas praias do mar um ninho do amor, nova pátria para o coração”.

Neste trecho, o autor usa um simples comparativo para demonstrar algo complexo. O resultado é poético, lindo, romântico.

Eu amo livros desde muito pequena, sempre fui apaixonada por bibliotecas, na escola eu ficava encantada com a quantidade de livros. Mas infelizmente até 2012 os livros não passavam de objetos de decoração, o máximo que eu fazia era ler a contra capa e deixar o livro na estante. Por mais que eu tentasse ler, me dava sono, fome, vontade de ir ao toalete, enfim, nunca conseguia ler.

Uma pequena situação mudou a minha vida. Em dezembro de 2012 eu estava em uma padaria e vi um livro, pedi a meu esposo que me desse de presente e, como resposta, ele disse: “eu duvido que você vá ler este livro. Se eu o levar e você não ler, nunca mais lhe dou outro livro”. Então eu fiz uma contraproposta: “Eu irei ler este livro e a partir de agora vou emendar um livro em outro”. Não sei de onde eu tirei isso, afinal eu não lia nem história em quadrinhos, mas a sorte estava lançada. Lembro que terminei o livro em duas semanas e desde então eu sempre tenho um livro para ler. Cheguei a contabilizar minha leitura do ano de 2014: 35 obras no total, realmente uma superação. Meu esposo? Não tem mais motivos para não me dar livros e nos dias de hoje ele evita passar perto de uma livraria quando estamos juntos, pois, sempre que entramos, saímos com uma coleção nova de livros para eu ler.

O que mais me motivou a ler este tipo de literatura é observar os personagens, as suas descrições, como se comportam, o que querem sem saber que querem.Chega a ser meio investigativo, nunca se sabe o que se passa na cabeça do personagem, ele pode gostar da loira, mas acabar com a morena, é sempre uma incerteza, todos são diferentes e únicos, mas todos querem a mesma coisa, serem felizes. E só se sabe se alcançarão o objetivo quando se lê a última palavra.

Eliane Fernandes

Posso dizer que minha relação com o mundo mudou depois que comecei a ler, hoje consigo perceber a beleza em pequenos gestos como uma flor dada a uma dama sem motivo ou um simples bilhete escrito “Eu te amo” no meio da tarde. Acho simplesmente encantador a conquista antes do primeiro beijo e as trocas de olhares, dos presentes sem motivo, da amizade antes de um grande amor. Aprendi também que depois de um problema ou de uma dificuldade é possível levantar mais forte e principalmente aprender com os erros e ser uma pessoa melhor.

Lendo diversas histórias de amor percebi que a paixão nascida de uma amizade, é mais bonita, mais vivida, mais sincera, verdadeira e duradoura, que de uma amizade sempre pode brotar um verdadeiro amor, que a amizade e o romantismo vão além de tudo, até mesmo além dos livros, onde para a mulher é possível ter um esposo, amigo, amante e companheiro em uma mesma pessoa, assim como para os homens é possível ter várias mulheres em uma só.

Não posso dizer que já li todos os livros do mundo, nem estou perto disso, mas posso dizer que a pequena quantidade de histórias lidas, não só de amor,  fizeram com que eu visse a vida de uma forma diferente.Meu modo de pensar sobre o amor mudou, assim como minha forma de falar, meu vocabulário está mais amplo. Meu senso crítico melhorou consideravelmente, minhas argumentações estão cada vez mais ricas e coerentes. Ler me proporcionou uma nova visão de vida e espaço, me proporcionou uma conquista externa e principalmente uma conquista interna: eu consigo me expressar melhor, escrever melhor e viver melhor. É muito gratificante terminar uma coleção de 3, 4, 5 ou 10 livros e começar outros.

É emocionante imaginar os personagens, sofrer junto com eles e perceber que as histórias são simples histórias, mas se forem lidas com paixão e de coração aberto, percebemos que são na realidade histórias como a nossa. Histórias que inspiram, ensinam, emocionam.

 

* Filha mais velha de uma família simples da capital da cidade de São Paulo, terminou o ensino médio em 2005. Formada em Ciências Econômicas, especializada em Finanças e prestes a tornar-se especialista em Perícia Criminal e Ciências Forenses.

Março, mês da poesia (seleta)

Março é o mês da poesia. No dia 14 é comemorado o Dia Nacional da Poesia, em homenagem ao nascimento de Castro Alves. No dia 21, celebra-se o Dia Mundial da Poesia, instituído pela UNESCO, em 1999, para promover a leitura, escrita, publicação e ensino da poesia através do mundo. A data lembra da importância da diversidade do diálogo, da livre criação de ideias através das palavras, da criatividade e da inovação e tem como propósito estabelecer uma reflexão sobre o poder da linguagem e do desenvolvimento das habilidades criativas de cada pessoa. Por isso, hoje, no Blog, alguns autores da Ateliê indicam a leitura de poemas de seus mais recentes livros:

Renato Tardivo (Girassol Voltado para a Terra)

grassol

Canção

                                        caminhava pernas fracas pisando

teclas riscando notas na terra a embalar a vida que a espe-

rava uma oitava acima, qualquer

 

Ponteiro

Às vezes o passado. Às vezes, o passado. Às vezes o, passado.

 

Ida

O medo de que o outro se apaixone como lembrança
encobridora de]
se apaixonar como lembrança encobridora
de amar a si mesmo sobre todas as coisas como lembrança encobridora do desejo de
morrer.

Ricardo Lima (Desconhecer)

desconhecer

p.17

admito não saber
onde anda o futuro

dedico dias inteiros
às asas cruas do filho que aprende a nadar
planto
rego
retiro ervas daninhas

a manhã traz pássaro
que se esborracha no vidro
a acácia
refletida em estilhaços
retumbante amarelo.

 

p.21

quando um amigo se vai
o silêncio que amplia a sala
a sirene que traga os doentes
a dor que interrompe a crença
tudo seca num vaso

olhos desertam
em contos incompletos
sobre o passo que vacila
uma árvore frondosa
na plenitude da primavera
amanhece
flor
mas o amigo se foi.

 

p.47

não tenho mais olhos para dicionário

as letras ficaram pequenas

o sentido frágil
agora outros compromissos

com amigos ausentes

em jantares e missa

 

vivo

entre livros

e árvores

em nenhum

respostas ou raposas
quase sempre um cão em silêncio
e a alma colhe

lugares

que nunca

olhei.

 

Marise Hansen (Porta-retratos)

portaretrato

Passo à palavra
Passo
À palavra
Peço

        Me refugio
Na palavra
Me alivio

Me liberto
Na palavra
Me desperto

            Falo
Pela palavra
Espero
Apelo
Para a palavra
Paro

Koan
Entre a poesia do dia a dia e a da filosofia

Fico com o sonho

Da padaria.

Inverso
Escrever em verso
é criar ritmo até então
inexistente neste (pelo menos)
universo.

Criar consórcio
entre palavras entre
outras, divórcio.

Usar a roupa do avesso
e descobrir
ser inverso o lado certo.

Ter compromisso com o partido
do conciso e com a total falta
de juízo.

Wassily Chuck (Rumo à Vertigem ou A Arte de Naufragar-se)

 Capa

A Celan

Nessa viagem, nenhuma bagagem, além

do vazio na concha das mãos.

 

Deixa tua fala

para trás, tua última

máscara,

e sente

a carência de ser,

o vazio

que germina

e há de ser tua voz. Sete

sonos mais dentro, vem

um verso junto

ao mar.

 

 

Quase Elegia

Toda voz que morre escorre para o mar.

 

 

Tudo se foi, até o que virá, levado

pelo sopro que vem do mar. Mas,

só é belo o dia porque finda.

Também o vento. Também

a vida. Vê:

não há poemas no eterno. Só

nasce a beleza no instante,

que, leve, se equilibra

entre o erguer e o quebrar

da onda. Nasce

com as cores do adeus. Nasce

para morrer. Como o dia

e o homem. Como a vida. Vê:

toda beleza é triste. E um resto

de verso, ao lado da voz,

insiste em ficar, feito

um consolo, talvez,

da vida pouca que há na vida,

da morte muita que há também,

um resto de verso

consolando

da tristeza de todo verso, da vida

que nunca basta, sempre o sonho

a completá-la, o sonho

que é sempre a vida.

 

Tübingen 

Do convés da alma, avistas vazios

que não podes nomear.

 

Repouso algum, sob um céu

que não mais dá frutos –

o ponto em torno ao qual

gravita o verso

agora está

no vento. Sobre

o Neckar,

a voz ainda vagueia

atrás do vento, distraindo,

sem ver, a solidão

dos campos.

Os Manuais de Desenho da Escrita, título da coleção Artes do Livro, estuda a evolução do percurso tipográfico

"Os Manuais de Desenho da Escrita", de Maria Helena Werneck Bomeny

Depois da invenção da escrita, a invenção da tipografia é considerada como o avanço mais importante da civilização, pois permitiu a expansão da palavra escrita em escala global. A letra é a unidade básica da escrita alfabética, parte fundamental do sistema de comunicação universal. Ela passou e continua passando por constantes adaptações às novas tecnologias, que implicam em alterações formais de seu desenho. Ao longo de séculos, sua configuração visual sempre foi determinada pela criatividade do designer e pela busca permanente de formas de letra mais simples e rápidas, no intuito de acelerar sua execução e leitura.

Os Manuais de Desenho da Escrita, oitavo título da Coleção Artes do Livro, da Ateliê Editorial, oferece uma análise das letras no aspecto particular de seu desenho, principalmente em suas relações com os suportes em que elas eram impressas ou gravadas.

O ponto de partida de Maria Helena Werneck Bomeny é a releitura dos principais manuais de desenho da escrita de quatro épocas consideradas renovadoras: o Renascimento, da chancelesca de Ludovico degli Arrighi (1522); o Neoclássico e a tipografia de Giambattista Bodoni (1818); as vanguardas do século XX e os traba- lhos/manifestos de Jan Tschichold (1928) e, finalmente, o Estilo Internacional ou Suíço e a obra de Emil Ruder (1967).

Estes manuais representam verdadeiras compilações das essências conceituais mais significativas de cada período. São testemunhos fundamentais do desenvolvimento da escrita e da maneira de se apresentar uma mensagem a um leitor. Estudando-os, torna-se possível entender e interpretar a evolução conceitual, formal e tecnológica que aconteceu no percurso tipográfico e quais os vínculos formais criados entre os processos caligráficos, tipográficos e digitais.

Maria Helena Werneck Bomeny é graduada em Artes Plásticas pela Fundação Armando Álvares Penteado, mestre e doutora pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo. É professora de design gráfico da Escola Panamericana de Artes e do Centro Universitário Senac. 

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