Poesia

Mensagem, de Fernando Pessoa

Mensagem, de Fernando Pessoa, foi escrito entre as décadas de 1910 e 1930, durante uma fase de grande crise pela qual passou Portugal. O livro foi publicado em 1934 e é o único título publicado por Pessoa em vida (e assinado pelo poeta “ele mesmo” – seu ortônimo). Sua estrutura se divide em três partes: “Brasão”, “Mar Portuguez” e “O Encoberto”. A obra traz poemas sobre grandes personagens da História de Portugal e, por isso, é considerada uma homenagem a Camões, considerado o maior poeta português e autor do épico Os Lusíadas, que também conta a História das conquistas ultramarinas do país.

Alinhado com o desejo de ruptura da tradição cultural e a expectativa por criar uma estética nova, típicas de sua época, Pessoa ressignifica a linguagem arcaica que utiliza ao longo do texto, compondo uma epopéia fragmentada, e imagina a Europa como um corpo de mulher, sendo Portugal o rosto da figura. Com isso, consegue ao mesmo tempo criar uma poesia épica, lírica e irônica.

Em 44 poemas, ele conta cerca de oito séculos de História: Portugal antes do descobrimento; as grandes navegações e, finalmente, um momento mais próximo de quando o livro foi escrito, de certo declínio e de alusão ao Sebastianismo.

Pessoa coloca na poesia de Mensagem uma universalidade em que falar sobre sua aldeia é falar sobre o mundo, como escreveu sob o heterônimo de Alberto Caieiro na obra O Guardador de Rebanhos.

Brasão é a parte que remete ao nascimento da pátria, a fundação da nacionalidade portuguesa. Traz poemas que remetem ao brasão português, que traz sete castelos e cinco quinas. Nesta parte concentram-se os poemas sobre figuras históricas, como Dom Henrique, Dom Afonso Henriques, Dom Dinis, Dona Filipa de Lencastre e Afonso de Albuquerque.

Mar Português é a realização da pátria que nasceu em Brasão. Nela, Fernando Pessoa apresenta o heroísmo das figuras protagonistas do episódio das navegações marítimas e das conquistas territoriais portuguesas dos séculos XV e XVI.

Já O Encoberto é a morte e o renascimento da pátria. Nesta parte, o leitor toma contato com o mito de sebastianismo, do retorno heróico de Dom Sebastião para resgatar a supremacia portuguesa no Quinto Império.

Cada parte do livro tem uma citação de abertura, em latim. A primeira é “Bellum sine bello” (guerra sem guerrear). A segunda é Possesio Maris (a posse do mar) e a terceira é “Pax in Excelsis” (paz nas alturas).

Tudo isso faz de Mensagem um livro com forte carga simbólica, que enaltece um nacionalismo místico, baseado mais em uma imagem ideal de Portugal do que na realidade nua e crua. Tanto assim que o mito do sebastianismo marca forte presença na obra, referido sempre com palavras que aludem a “sonho” e “loucura”, por exemplo.

A Nebulosa, de Joaquim Manuel de Macedo

Nesta resenha, Maria Louzada, do perfil de Instagram @vidabrevelivrosdemais, escreve sobre A Nebulosa:

Joaquim Manuel de Macedo (1820-1882) escreveu mais de vinte romances, entre eles o popularíssimo e delicioso romance de costumes da sociedade carioca: A Moreninha, seu primeiro livro, publicado em 1844. Ele nasceu em Itaboraí, formou-se em medicina, foi deputado, foi professor do Colégio Pedro II, fundou uma revista (“Revista Guanabara”) ao lado de Gonçalves Dias, e exerceu o ofício da pena, como se dizia em seus tempos que foram os do período imperial do Brasil. De talento versátil, escreveu, afora os romances, também: teatro, memórias, e enveredou pela poesia; aqui se destacando A Nebulosa (1857), que obteve enorme sucesso quando do seu lançamento, saudado pela crítica especializada de então como “obra primorosa”.

A Nebulosa é um poema em forma narrativa, composto de seis cantos e um epílogo, grande parte em versos decassílabos brancos, apurados em efeitos que nos conduzem à representação do Romantismo, escola literária de sua época.

O tom vai bem além da forma de apenas uma “harpa sonora” a que se refere casualmente no primeiro canto, pois, embora tenha o mar como cenário marcante, à narrativa poética se debruçando no que tange aos mistérios das ondulações das ondas, um Trovador (personagem central do poema) se insere na linguagem em metamorfose entre amor e melancolia, com efeitos dramáticos. Expondo um triângulo amoroso, a poesia lírica, os versos em tratamento metrificado expõem uma alma de história vívida num universo que se vai desenrolando quase onírico por entre fadas, por entre feiticeiras. A acuidade dos seus versos traz um quadro quase elegíaco, um mundo perdido, o exílio. Acima de tudo, o poema é dedicado em narrativa, antes de todas as divindades clamadas como musas do estilo, antes da métrica empregada, o poema é dedicado a contar de um amor, de uma paixão trágica que, como se expressa no canto VI da “Harpa Quebrada” nos versos LVI, antes do epílogo, na ênfase do amor assim definido como: “um desses beijos que uma vida pagam.”

A literatura na sua poética romântica aportou no Brasil criando uma identidade miticamente povoada por peregrinas, flores, pelo mancebo trovador, pela mãe que transcende em amor, uma influência que também vinha de terras longínquas, tentando encontrar um caminho que levasse ao âmago de uma terra própria, tropical que necessitava, antes de tudo, conhecer-se. Assim, neste seu momento, o autor Joaquim Manuel de Macedo formulou nos monólogos de seus personagens, nos seus diálogos e em suas longas e trabalhadas descrições a trágica angústia dos sentimentos que não conseguem ser resgatados, a dificuldade humana perante os próprios sentimentos, tudo em singular contraste com nossa exuberante natureza, onde em seus elementos mais puramente autênticos, reina em imagem, em som, em olfato tudo que faz transbordar: a dor, a paixão, a morte, a própria vida se espelhando. Divindades são evocadas, são chamadas das fontes naturais para dar voz muitas vezes a tudo o que se desenrola.

Os estudiosos de literatura brasileira encontrarão aqui aspectos de uma reflexão da obra minuciosa construída em oficio de escritor por Joaquim Manuel de Macedo, um de nossos melhores. Aos leitores, por entre o “correram anos” (do poema) desde a primeira edição da obra em 1857, e depois a segunda edição (pós 1878) pela Garnier, da Rua do Ouvidor, de um Rio de Janeiro histórico agora, ficam as possibilidades de extrair uma leitura ampla da primeira geração romântica da literatura brasileira inspirado em um profundo arcano de amor, e também, aqui, qualquer brecha do gótico que se insere singularmente para leituras atentas, este tão amplamente apreciado em nossos dias presentes.

A presente edição, a terceira, num novo milênio, com capricho, traz-nos um enriquecedor estudo crítico da obra pela doutora em Teoria e História Literária: Ângela Maria Gonçalves Da Costa, além de ilustrações do artista plástico Kaio Romero.  

Neoclassicismo na lírica brasileira moderna

O que vem por aí? Muita gente tem feito esta pergunta, querendo saber sobre quais os próximos lançamentos da Ateliê e sobre o que esperar para o futuro. Como muitas novidades devem chegar em breve, para satisfazer a curiosidade dos nossos leitores – ou para aguçá-la ainda mais – o Blog da Ateliê resolveu fazer uma série de entrevistas com autores de obras que a editora deve lançar em breve.

Vagner Camilo

Desta vez, o assunto é o novo livro do professor de Literatura Brasileira da Universidade de São Paulo (USP) Vagner Camilo, autor de Risos entre pares: poesia e humor românticos (EDUSP, 1997); de Drummond da Rosa do Povo à Rosa das Trevas (Ateliê Editorial; prêmio ANPOLL 2000), entre outros. Pesquisador das relações entre lírica e sociedade; a recepção de correntes críticas no Brasil (como o new criticism); e as interlocuções marcantes de alguns dos principais românticos e modernistas brasileiros com poetas franceses e ingleses. Atualmente, ele desenvolve pesquisa, com apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), sobre a vertente neoclássicas nas modernas líricas brasileira e argentina. Camilo lança, em breve, A Modernidade entre Tapumes: da Poesia Social à Inflexão Neoclássica na Lírica Brasileira Moderna.  

O livro aborda a tendência formalista que é típica da poesia brasileira das décadas de 1940 e 1950, a partir da obra de poetas da época. Essa discussão tem origem em outra obra de Camilo, Drummond: da Rosa do Povo à Rosa das Trevas, que tratava da guinada poética do poeta mineiro e de como a crítica a recebeu naquele momento histórico.

A partir dessa perspectiva, o leitor poderá entender melhor relevância estética e histórica de momentos decisivos, de virada, que acontecem de tempos em tempos a alguns autores e suas obras. “A tendência neoclássica na lírica do pós-guerra de Carlos Drummond de Andrade, Murilo Mendes, Jorge de Lima e Augusto Meyer é examinada aqui com base nos paradigmas internacionais e por meio do confronto com o programa da Geração de 1945, a fim de se refletir sobre a lógica da dinâmica histórica e o sentido desses retornos”, informa a quarta capa do livro.

“O percurso descrito no livro transita de uma das conquistas mais exitosas das reivindicações modernistas das décadas anteriores, alcançada pelo empenho participante de Drummond, para seguir como mergulho fundo e demorado, ao longo de oito capítulo, no exame da crise que se abateu sobre tais conquistas, devido a sua rotinização e à perda de sua força vital, até se espraiarnas águas e no vale do São Francisco, resgatando o projeto modernista de denúncia das mazelasdo Brasil profundo, reposto, no auge da reabilitação neoclássica, em clave elegíaca e em uma linguagem cujo cariz aparentemente extemporâneo, não embota seu vigore contundência crítica”.

Lira dos Vinte Anos

A Ateliê Editorial, neste momento de isolamento social, convidou alguns leitores para compartilharem suas impressões sobre alguns de seus livros prediletos. Com isso, pretendemos fortalecer uma comunidade de pessoas apaixonadas por livros, que sabem que eles podem ser uma excelente companhia em momentos como este. Este texto é de Talvanes Faustino*, que escreve sobre Lira dos Vinte Anos. Agradecemos a colaboração de Talvane e esperamos que todos apreciem a leitura!

No Solo Da Saudade Brotaram As Lembranças De Morrer Das Tripas Do Cadáver De Poeta Foi Feita A Lira Dos Vinte Anos

Quem nessa fronte que animava o gênio,

A rosa desfolhou da vida tua?

Onde o teu vulto gigantesco? Apenas

Resta uma ossada solitária e nua!

Machado de Assis

Manuel Antônio Álvares de Azevedo, Maneco, para seus amigos da Faculdade de Direito de São Paulo, nascido sob o signo de virgem no dia 12 de setembro de 1831. Neste mesmo ano, poucos meses antes do nascimento daquele que viria a ser uma das vozes poéticas mais importantes das letras nacionais, o então imperador do Brasil, Dom Pedro I, abdicava no dia 7 de abril do trono, em favor do seu filho Pedro II[1]. Em 1845 Álvares entra para o colégio Pedro II no Rio de Janeiro, então capital do império. Três anos mais tarde, o jovem bardo, entra para a Faculdade de Direito, lugar onde travaria relações de amizade com Bernardo Guimarães e Aureliano Lessa, que segundo seus biógrafos eram seus melhores amigos, por escolha de Coelho Neto (1864-1934). Álvares de Azevedo, tornou-se o patrono da cadeira número dois da Academia Brasileira de Letras[2] (ABL).

A Lira dos Vinte Anos é provavelmente a obra mais publicada de Álvares de Azevedo. Não é uma tarefa hercúlea encontrar edições desta belíssima obra: são inúmeras as opções e formatos. Assim como, não é impossível dizer, qual entre tantas, deve ser a preferência do leitor. A edição da Ateliê Editoral numa primeira mirada, não tem muito de especial. Mas, ao ler com mais atenção, vemos que nesta 4º edição há um ensaio introdutório a vida e obra de Álvares de Azevedo, a cargo do Dr. José Emílio Major Neto[3], que também fez as notas explicativas. São mais de 500 notas e estas servem como apoio ao leitor na busca pela compreensão da poesia do autor. Ao abrir o livro, nos deparamos com mais novidades, que tornam esta edição diferente de todas as outras que tive a oportunidade de ler. Esta é a primeira vez que vejo uma edição ilustrada da Lira dos Vinte Anos. As ilustrações ficaram a cargo de Ricardo Amadeo, suas ilustrações em preto e branco têm um charme muito especial e ajudam a vermos transformadas em imagem as belas palavras de Álvares de Azevedo. Para completar, temos uma cronologia da vida e obra do cantor da Lira, um vocabulário básico das palavras mais usadas e pequenos textos informativos sobre as influências de Álvares de Azevedo.

Numa resenha escrita por Machado de Assis, sobre o livro Lira Dos Vinte Anos, o velho bruxo, defende que estamos diante de um grande talento, mas que lhe faltou tempo, tempo não apenas para terminar os poemas que deixou incompletos, mas também, tempo para desenvolver sua poesia.

Aquela imaginação vivaz, ambiciosa, inquieta, receberia com o tempo as modificações necessárias; discernindo no seu fundo intelectual aquilo que era próprio de si, e aquilo que era apenas reflexo alheio, impressão da juventude, Álvares de Azevedo, acabaria por afirmar a sua individualidade poética. Era daqueles que o berço vota à imortalidade. (ASSIS, Resenha: Lira Dos Vinte Anos – Álvares de Azevedo, 2019)

Machado de Assis

Com isto Machado de Assis defende uma tese de que a pouca idade de Álvares de Azevedo e sua falta de experiência literária fizeram dele ainda um reflexo das suas influências. Machado fala obviamente de Lord Byron, poeta inglês e maior expressão do romantismo do seu país natal. Mas vale o destaque que Machado não perde de vista que Álvares é um “grande talento”. Mesmo ainda não tendo afirmado a sua individualidade, ele mostra na sua poesia que é destinado a imortalidade. Avançando na leitura vemos o Bruxo, tocar em outro tema caro, seria a sensibilidade demostrada nos poemas verdadeira?

O poeta português Fernando Pessoa, escreveu que “o poeta é um fingidor [..] que chega a fingir que é dor/ a dor que deveras sente” e esta palavra “dor” é sem dúvida uma das palavras com as quais podemos explicar a obra de Álvares de Azevedo. Avançando no texto do mestre, vemos que ele toca no tema da sinceridade da dor do Sr. Azevedo, “Nesses arroubos da fantasia, nessas correrias da imaginação, não se revelava somente um verdadeiro talento; sentia-se uma verdadeira sensibilidade. A melancolia de Azevedo era sincera” (ASSIS, Resenha: Lira Dos Vinte Anos – Álvares de Azevedo, 2019). E segue voltando a destacar a realmente lamentável falta de tempo que a existência deu ao poeta.

Álvares de Azevedo viveu pouco, mas viveu o suficiente para colocar seu nome no panteão das letras nacionais. Sua poesia que trata de temas tão íntimos e caros ao ser humano que, mesmo após 168 anos da sua morte, encontram nas almas de seus leitores, um solo fértil de saudade, onde brotam as flores das lembranças de morrer, regadas com as lágrimas descridas, que alimentam as tripas que formas as cordas das lira dos vinte anos e na suas cabeças, brilha a glória moribunda do poeta da morte, brilha, Álvares de Azevedo.

Bibliografia

ASSIS, M. D. (10 de Janeiro de 2019). Resenha: Lira Dos Vinte Anos – Álvares de Azevedo. Acesso em 28 de Maio de 2020, disponível em Blog Do Pensar Poético: https://pensarpoetico.wordpress.com/2019/01/10/resenha-lira-dos-vinte-anos-alvares-de-azevedo/#more-3438

ASSIS, M. D. (29 de Maio de 2020). ÁLVARES D’AZEVEDO (Poesias Diversas). Fonte: Machado De Assis UFSC: https://machadodeassis.ufsc.br/obras/poesias/POESIA,%20Poesias%20dispersas,%201855-1939.htm#%C3%81LVARESDAZEVEDO

AZEVEDO, Á. D. (2014). Lira Dos Vinte Anos. Cotia: Atiliê Editorial.


[1] Porém o pequeno príncipe não pôde assumir o trono por ter apenas 6 anos de idade. Como solução, se inicia o período regencial, que acaba em 1840 com o golpe da maioridade, voltando o poder para a dinastia Bragança, neste ano nosso poeta havia completado 9 primaveras.

[2] A cadeira da qual Álvares é patrono, segue atualmente ocupada pelo escritor Tarcísio Padilha.

[3] Doutor em Teoria Literária e Literatura Comparada pela USP (2007) e mestre em Teoria e História Literária pela UNICAMP (2001).

Talvanes Faustino

* Talvanes Faustino é natural de Maceió, Alagoas, graduando em História, porém, em processo de mudança para o curso de Letras, porque a literatura falou mais alto. É autor de livros de poesias e contos, todos publicados de forma independente. A primeira publicação é do livro Portal Da Escuridão Do Meu Olhar de 2012 e o último trabalho publicado é o conto “Pássaros e Morcegos” (2019). Além de Álvares de Azevedo, tem em autores como Machado de Assis, Victor Hugo, Graciliano Ramos e a influência e o aprendizado e o incentivo para continuar escrevendo.

Caligramas: seleta de poemas de Guillaume Apollinaire

Por Renata de Albuquerque

“Caligrama”: palavra que se origina da mistura entre “ideograma” e “caligrafia” é o título de um dos mais importantes livros de poemas de Guillaume Apollinaire, que acaba de ser relançado. Em sua origem, o termo já revela a vocação de ir além da palavra escrita e expressar seus significados também pela forma – que sugerem desenhos.

O caligrama, ao unir imagem e palavra, explode em significado, como lembra Véronique Dahlet no prefácio da edição: “ Erupção dentro da unidade da palavra, cujo desmantelamento ocorre em prol da materialidade tipográfica; erupção na linearidade narrativa do discurso, criando ilhas textuais circundadas pelos brancos que preenchem o papel de sintaxe; erupção, enfim, da visibilidade na legibilidade e do figurativo na ordem do signo linguístico”.

É o desafio de traduzir “para além da palavra” que Álvaro Faleiros assume ao decidir transpor estes textos de Apollinaire do francês ao português em Caligramas. Afinal, além de lidos, eles  precisam ser “vistos” para que sejam compreendidos por inteiro, dentro de seu contexto histórico e proposta artística. Além do ritmo e das rimas, as imagens e o espaço gráfico precisam fazer sentido e complementam-se em metáforas. E aí mora a genialidade do trabalho.

A seguir, alguns exemplos do trabalho de Álvaro Faleiros que estão em Caligramas:

“Caligramas”, de Guillaume Apollinaire: segunda edição

Caligramas,os poemas de Guillaume Apollinaire, foram escritos durante a Primeira Guerra Mundial para representar imagens, valendo-se das noções de caligrafia e dos ideogramas utilizados em línguas orientais. A obra tornou o poeta francês precursor da poesia visual, depois praticada por outros artistas, como Mallarmé na França e pelos concretistas no Brasil. Caligramas chega agora à segunda edição, com tradução, notas e introdução escrita pelo poeta e professor livre-docente de Literatura Francesa da USP,  Álvaro Faleiros, em uma coedição Ateliê Editorial e UnB. A seguir, ele fala sobre esta nova edição da obra.

Que novidades traz esta segunda edição, em relação à anterior?

Álvaro Faleiros: Além da revisão dos poemas, fiz um novo prefácio destacando o centenário de morte de Apollinaire e a Primeira Guerra Mundial.

A Introdução do livro foi escrita a partir de sua Tese de Doutorado. Qual foi sua hipótese nesse estudo?

AF: Na verdade o livro todo é fruto da tese, sendo a parte mais prática e aplicada do trabalho. Meu desejo foi o de explorar as diferentes dimensões textuais do texto poético em tradução. A riqueza e a variedade de formas nos Caligramas levou-me a escolhê-lo como objeto de estudo. No que diz respeito aos poemas visuais, a principal hipótese é de que eles não podem ser tratados como um todo. Assim, proponho uma classificação dos mesmos em diferentes tipos, em função de seu grau de complexidade.

Quando se fala em caligramas, é inevitável pensar em figuras: não apenas as de linguagem, mas também imagens que os poemas propõem. Em sua opinião, isso torna Caligramas uma obra mais hermética ou mais simples para o público brasileiro? Que repertório é preciso ter para compreender essas relações postas na obra?

Álvaro Faleiros

AF: A beleza dos caligramas é que podem ser apreciados também como pinturas. Além disso, são poemas singelos, com ar de crônicas sobre a Primeira Guerra Mundial. Não se trata de obra de difícil leitura. Apollinaire era jornalista e sempre prezou pela comunicabilidade.  

O trabalho de tradução vai além de apenas  “colocar em português” as palavras escritas em outro idioma. O trabalho mais profundo, de transposição de significados é essencial para que o leitor tenha preservada sua experiência de leitura. Em Caligramas isso inclui formas e questões visuais. Quais foram os mais importantes desafios desse trabalho?

AF: O grande desafio foi dar a ver os movimentos das palavras na página, sem perder de vista a dimensão semântica.

O senhor aponta, no livro, a questão da fusão entre “guerra e poesia” feita por Apollinaire. Pode, por gentileza, falar um pouco sobre isso?

AF: Os poemas dos Caligramas foram escritos durante a Primeira Guerra Mundial, no calor da batalha. Muitos deles foram escritos no front, onde Apollinaire lutou pela França contra os alemães. Para as vanguardas, das quais Apollinaire participou com entusiasmo, as batalhas estéticas exigiam um engajamento que se assemelhava ao da guerra. Havia uma crença de que aquela grande guerra era lutada pela liberdade. Depois, devido à carnificina que se produziu, essa fé foi relativizada pelo próprio Apollinaire, que já não se iludia mais com a suposta beleza da guerra.

Criar em meio à barbárie da guerra. Isto foi o que fez Apollinaire no início do século XX. Hoje, em um contexto histórico de radicalismo e violência latente (e, muitas vezes, explícita), qual a importância de reler a obra deste poeta? O que ela nos diz, hoje?

AF: Ao observarmos a ilusão que pode levar alguém a lutar de forma ferrenha por certos ideais e a morrer por eles, podemos relativizar esse tipo de atitude e defender mais equilíbrio e mais diálogo. O convívio com as diferenças é o que faz de nós seres civilizados. A fé cega sempre nos leva à barbárie. Sempre é bom nos lembrarmos disso.

Março é mês de poesia!

Por Renata de Albuquerque

Quem ama ler, lembra: março é mês da poesia. Mas você sabe por quê o terceiro mês do ano é considerado o mais poético deles? A razão é que em março são comemoradas duas datas tradicionalmente ligadas à poesia. Até 2015, no dia 14, era comemorado o Dia Nacional da Poesia. E, até hoje, o dia 21 de março é o Dia Mundial da Poesia.

Foi em 1999 que a XXX Conferência Geral da UNESCO determinou que 21 de março fosse considerado o Dia Mundial da Poesia, em uma ação para apoiar a diversidade de línguas existentes no mundo por meio da expressão poética.  Desde então, a data é celebrada pelo mundo afora.

Já o dia 14 de março é a data de aniversário de Castro Alves, poeta romântico brasileiro, nascido em 1847, muito conhecido por sua produção poética ligada a temas como o abolicionismo e crítica social, que marcaram a Terceira Geração do Romantismo Brasileiro. Para o crítico Afrânio Peixoto, ele foi “o maior poeta brasileiro, lírico e épico”, o que por si só já justificaria a escolha da data. Castro Alves escreveu, entre outros, Espumas Flutuantes, sua obra lírica mais significativa. Entretanto, em 2015, foi sancionada a Lei 13.131, que institui como 31 de outubro o Dia Nacional da Poesia, em homenagem à data de nascimento de Carlos Drummond de Andrade.

Qualquer que seja a data, entretanto, de uma coisa a gente tem certeza: poesia é fundamental para a vida. Por isso, hoje, fazemos uma seleta de poemas aqui, no Blog da Ateliê:

O “adeus” de Teresa

A vez primeira que eu fitei Teresa,

Como as plantas que arrasta a correnteza,

A valsa nos levou nos giros seus

E amamos juntos E depois na sala

“Adeus” eu disse-lhe a tremer co’a fala


E ela, corando, murmurou-me: “adeus.”

Uma noite entreabriu-se um reposteiro. . .

E da alcova saía um cavaleiro

Inda beijando uma mulher sem véus

Era eu Era a pálida Teresa!

“Adeus” lhe disse conservando-a presa


E ela entre beijos murmurou-me: “adeus!”



Passaram tempos sec’los de delírio

Prazeres divinais gozos do Empíreo

… Mas um dia volvi aos lares meus.

Partindo eu disse – “Voltarei! descansa!. . . “

Ela, chorando mais que uma criança,



Ela em soluços murmurou-me: “adeus!”


Quando voltei era o palácio em festa!

E a voz d’Ela e de um homem lá na orquesta

Preenchiam de amor o azul dos céus.

Entrei! Ela me olhou branca surpresa!

Foi a última vez que eu vi Teresa!


E ela arquejando murmurou-me: “adeus!”

Castro Alves, Espumas Flutuantes

Livro Viva Vaia

DIÁLOGO A DOIS

“A Angústia, Augusto, esse leão de areia…”

(Décio Pignatari)

– A Angústia, Augusto, esse leão de areia Que se abebera em tuas mãos de tuas mãos E que desdenha a fronte que lhe ofertas

(Em tuas mãos de tuas mãos por tuas mãos)

E há de chegar paciente ao nervo dos teus olhos, É o Morto que se fecha em tua pele?

O Expulso do teu corpo no teu corpo? A Pedra que se rompe dos teus pulsos? A Areia areia apenas mais o vento?

– A Angústia, Pignatari, Oleiro de Ouro, Esse leão de areia digo este leão

(Ah! o longo olhar sereno em que nos empenhamos, Que é como se eu me estrangulasse com os olhos)

De sangue:

Eu mesmo, além do espelho.

Augusto de Campos, Viva Vaia

ESPELHAR

espelho espelho meu

existe alguém mais

eu

do que

eu

?

Luci Collin, Antologia Poética 1984-2018

III

era o dia em que o sol escurecia pesaroso da morte do Senhor,

quando sem dar por mim, sem nem supor,

teu belo olhar, Senhora, me prendia.

inútil precaver-me parecia

e, desatento aos golpes de amor, segui, de mim seguro: e minha dor

na dor universal assim nascia.

achou-me amor de todo desarmado, aberta a via dos olhos até o peito,

tornado pelas lágrimas num charco.

não parece ter sido grande feito

ferir-me amor com flecha nesse estado

e a ti armada nem mostrar o arco.

Petrarca, Cancioneiro

CIRCE

Porque eu os amava

me encerraram aqui

nesta ilha

neste corpo

Transformo-os

no seu melhor

mas não posso beber

do meu próprio veneno

Por anos esperei

no topo deste penhasco

Ele não voltou:

ensinem-me algo do seu mundo

que eu ainda não saiba

Leila Guenther, Viagem a Um Deserto Interior

Morada

Voltei a escrever para ti

agora que me esqueceste

no intuito de regressar

à esperança que aí me levou,

onde já não moras.

Paulo Lopes Lourenço, Cinematografia

Sem Título

Ser poeta é viver em permanente estado

de(s)atenção

Que importa a luz acesa

a porta aberta

o leite derramando

no fogão?

(mas

o gotejar da torneira:

pulsação)

Marise Hansen, Porta-retratos

Fala D João  3

mais  de pessoa sabe

quem  de peçonha sabe

mocho  a noite  cobreavas

espertando os olhos  da coruja

em pedra  avoenga

meu  gume  afiara

à alva  a cabeça

Évora verá

Hélio Cabral, Fala D. João

Leia mais poesia

Um poema em homenagem a Jacó Guinsburg

Um poema em homenagem a Jacó Guinsburg

Falecido no final de outubro, aos 97 anos, o tradutor, ensaísta e editor Jacó Guinsburg tem sido frequentemente homenageado, dada sua grande importância para o mercado editorial brasileiro. Autor de diversos livros, seu único título de poesias próprias, Jogo de Palavras, foi publicado meses antes de seu falecimento pela Ateliê Editorial.

A seguir, o arquiteto Jacó Sanowicz homenageia o grande editor com um poema, escrito após a leitura de “Jogo de Palavras”. “Li e reli os poemas durante uma noite quase inteira e de manhã resolvi escrever para ele. Sabia que era o único [livro] de poesia, apesar de [esta] estar embutida em todo o seu trabalho”, explica. Leia o poema a seguir:

 

parceiros parceiras,

ao jacó guinsburg

 

não me isento,

risco

corro o risco

que não risco

arrisco,

contrato refrato

distrato trato

no embalo

sussurro grito falo,

sangro aberto, forte,

meu norte,

verdadeiro magnético

imagético

declinado mágico

universo peito, pleito,

conceito respeito

Assinado: pelhtale

Ateliê e Kotter: você conhece esta parceria?

São Paulo e Curitiba. A primeira é considerada a maior cidade do Brasil; a segunda abriga alguns dos consumidores mais exigentes do país. Ambas estão ligadas por uma parceria literária que já rendeu bons frutos. São Paulo é a sede da Ateliê Editorial, que reflete no nome o cuidado e o capricho com que realiza suas edições: livros sobre livros, clássicos em edições anotadas e explicativas e livros acadêmicos. Em Curitiba fica a Kotter Editorial, cuja filosofia é publicar trabalhos de qualidade, de autores inéditos ou não, com foco em humanidades, artes, literatura e filosofia.

Capa do livro de Marcelo Sandmann

Ateliê e Kotter são coeditoras em diversos títulos, como os da Coleção Gralhas Raras e da Coleção Antológicos, da qual faz parte o recente lançamento Antologia Poética – 1987-2017, de Marcelo Sandmann. Ele é Professor no curso de Letras da UFPR, compositor e poeta. Na obra, é possível perceber o diálogo permanente com os autores que admira (Camões, Drummond, Cabral, José Paulo Paes e Leminski estão entre suas afinidades eletivas). Sandmann trabalha com o máximo de recursos e o mínimo de material necessário. Os efeitos poéticos devem ser obtidos sem desperdício verbal ou emocional, num sistema estético de economia, que beira a entropia. A poesia nasce e se mantém nas linhas de tensão que existem entre o texto e o leitor, a palavra e seu avesso, o prosaico e o inominável, o cânone literário e a vida mais chã.

 

L’azur Blasé ou Ensaio do Fracasso sobre o Humor, de Guilherme Gontijo Flores, foi finalista do Prêmio APCA 2016, na categoria poesia. Nesta coletânea de poemas, tudo está exposto ao seu fracasso autoirônico, até mesmo o poeta e a obra, a começar pela piada batida que cria o enquadramento do autor morto que tem seu livro lançado por editores amigos. Nesse caso, a pergunta central do livro poderia ser: O que fazer quando o humor fracassa? Resta um riso pelo malogro da piada?

Outro exemplo da parceria de sucesso entre Kotter e Ateliê Editorial é o volume A Comédia e Seus Duplos: O Anfitrião de Plauto, organizado por Rodrigo Tadeu Gonçalves.  A obra apresenta um conjunto de ensaios sobre a recepção e as adaptações da comédia “O Anfitrião” pelos séculos, nos distintos países e culturas. A peça de Plauto (comédia ou tragédia?) discute questões fundamentais como os duplos, o engano, o abuso da autoridade da parte dos deuses, a comédia profundamente humana do marido traído.

Poesia, teatro ou filosofia? A parceria entre Ateliê e Kotter não deixa dúvidas de que a edição de livros de qualidade tem espaço no mercado.

Seleta de poemas “Na Pureza do Sacrilégio”

Confira a seguir alguns poemas do livro “Na Pureza do Sacrilégio”, de Carlos Cardoso, com desenhos de Lena Bergstein. A seleção foi feita pelo próprio autor, cujas fotos são de Bel Pedrosa:

 

Camaleão

Como um camaleão rastejo pelo
silêncio do meu quarto.

É poesia o encontro das paredes?

São ópio as estrelas aplumadas em
cada esquina do meu ego?

Ou será benevolente a lágrima que escorre por
minh’alma quando brado louco por felicidade?

Os arredores repletos de melancolia
ainda se refazem do gelo.

A ausência de um ombro, de um
corpo catatônico que seja,
faz-me lembrar o quanto era bom
o diálogo com os meus olhos.

Tocar a escuridão quando a voz do
desespero insistia no apego.

Mozart me enlaça com um fio de
náilon na garganta.
São as trevas rodeadas de luzes
intangíveis,

metáfora do abominável descaso
público a um quase morto.

Ninguém, nem mesmo a solidão, tem
mãos assim tão pequenas.

 

 

 

Eu serei noite e serei dia

 

Tenho uma outra face
que não é a rebeldia do exílio,
conto com a morte
e uma palavra de alívio

para quando o sermão de Maria
ocultar o sublime sonho

do unicórnio perdido,

saberei que o tempo
é apenas uma gota d’água
a beber o saber etéreo
da fugaz sabedoria,

sempre que as coisas
forem tristes
e o rio guardar em si,
o ser

por onde o ser não navega,

eu serei noite e serei dia,
e serei dia e serei noite.

 O poema, o começo

 

Indago, por onde iniciar essa resenha.
De dentro para fora, de um lado para o outro,
sem foco, com rima, com ou sem sentimento.

Lamento, tormento, piedade, felicidade.

Simples feito a natureza, complexo como a humanidade,

  Agudo, fraco, obtuso, disforme,

angelical ou demoníaco,
soberbo, decente, incoerente, desejoso,
voluptuoso e indiferente.

Com as mãos sujas de argila, o copo cheio de tequila,
e aquela menina que tanto desejo, seu beijo.

Ou abordando a tristeza, a sutileza, as formas de beleza,
as luzes, a ribalta.

Por onde começar essa bossa, esse texto,
essa nossa vossa discordância,
pela juventude, tema de infância,
pela infância, pureza e relevância.

Afinal, iniciarei pela instância, ininterrupta discrepância.

 

 

 

 

 

 

 

Frase primeira

E como falar
de outra forma?
de cortar
e reformatar o futuro,
e assim querer
e ser sem par.
Por que ser assim
pura forma?
tanta cor
entre ares dúbios,
ferrugens,
e sorrateiros costumes
de manter
sombras assimétricas,
como a de pensar
antes de ser,
e andar
por entre cadeiras

que margeiam limites
intangíveis,

formas sem abdômen,

sem retina.
Ainda quero uma frase primeira,
nua,
ligeiramente inteira.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Ventania

Para Antonio Cicero

Iluminar a sombra
e torcer pelo sol
até que venha a chuva,

sapatear pela escuridão
com trovões e ventania,

molhar os dedos
sentir o frio e o arrepio
que é estar.