Resumo de Livro

Várias Histórias, contos de Machado de Assis

Renata de Albuquerque*

A edição da Ateliê de Várias Histórias tem apresentação e notas de José de Paula Ramos Jr e ilustrações de Sérgio Kon.

Este é o quinto livro de contos de Machado de Assis, lançado em livro no ano de 1896. Isso significa que, antes dele, já haviam sido lançadas obras fundamentais como Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881) e Quincas Borba (publicado em formato de folhetim entre 1886 e 1891; e reunido em livro em 1892). Essas informações ajudam o leitor a entender que Várias Histórias é um livro de contos especialmente instigante, escrito por um escritor já maduro e disposto também a experimentar e a provocar o leitor.

São, ao todo, 16 contos: A Cartomante, Entre Santos, Uns Braços, Um Homem Célebre, A Desejada das Gentes, A Causa Secreta, Trio em Lá Menor, Adão e Eva, O Enfermeiro, O Diplomático, Mariana, Conto de Escola, Um Apólogo, D. Paula, Viver! e O Cônego ou Metafísica do Estilo. Entre eles, muitos são bastante famosos e figuram em diversas coletâneas dedicadas ao autor.

Um Apólogo é uma lição de concisão, uma das mais importantes características do conto. A disputa entre uma agulha e a linha que costuram um vestido de uma dama vai muito além da “lição de moral” típica do gênero. É, além disso, uma crítica sócio-política construída com cuidado e muitos subentendidos.

A Desejada das Gentes traz um Conselheiro (escrito antes do famoso Aires) que se lembra da “divina” Quintília, que havia sido disputada por ele com João Nóbrega: uma aposta entre amigos que é pretexto para que Machado crie mais uma de suas personagens femininas complexas e inesquecíveis.

Uns Braços é um texto que presenteia o leitor com ambiguidade e interdito. Nada (ou quase nada) está à mostra. O ambiente doméstico parece dar pouca abertura para um universo mais amplo, mas a imaginação do jovem Inácio e os braços de d. Severina, sua anfitriã, casada com Borges, leva o leitor a buscar, intrigado, em cada sinal sutil da narrativa, algo que frequentemente lhe foge: a atração de Inácio por d. Severina parece um estudo para o que depois viria a ser A Missa do Galo (de Páginas Recolhidas, lançado em 1899).

Enquanto isso, A Causa Secreta traz elementos de suspense, terror, loucura e é quase um thriller, cheio de personagens complexos psicologicamente que instigam a curiosidade do leitor para tentar entender todo aquele ambiente incômodo que, de alguma forma atrai a atenção.

Outra figura feminina inesquecível e misteriosa de Várias Histórias é D. Paula, personagem-título de um conto que, na superfície, é apenas mais uma história romântica que, se lido em profundidade e com cuidado, revela um jogo de poder que personagens muito singulares usam para defender seus próprios interesses.

Várias Histórias, enfim, é um exemplo acabado de que Machado de Assis parecia estar sempre atento ao resultado de sua obra como um todo, ao que desejava alcançar com cada texto ficcional e como, de certa maneira, testava situações e personagens que, com o passar do tempo, ia aprimorando.

*Jornalista, Mestre em Literatura Brasileira pela FFLCH/USP, autora da Dissertação Senhoras de Si: o Querer e o Poder de Personagens Femininas nos Primeiros Contos de Machado de Assis.

Conheça outros títulos da Coleção Clássicos Ateliê

Mensagem, de Fernando Pessoa

Mensagem, de Fernando Pessoa, foi escrito entre as décadas de 1910 e 1930, durante uma fase de grande crise pela qual passou Portugal. O livro foi publicado em 1934 e é o único título publicado por Pessoa em vida (e assinado pelo poeta “ele mesmo” – seu ortônimo). Sua estrutura se divide em três partes: “Brasão”, “Mar Portuguez” e “O Encoberto”. A obra traz poemas sobre grandes personagens da História de Portugal e, por isso, é considerada uma homenagem a Camões, considerado o maior poeta português e autor do épico Os Lusíadas, que também conta a História das conquistas ultramarinas do país.

Alinhado com o desejo de ruptura da tradição cultural e a expectativa por criar uma estética nova, típicas de sua época, Pessoa ressignifica a linguagem arcaica que utiliza ao longo do texto, compondo uma epopéia fragmentada, e imagina a Europa como um corpo de mulher, sendo Portugal o rosto da figura. Com isso, consegue ao mesmo tempo criar uma poesia épica, lírica e irônica.

Em 44 poemas, ele conta cerca de oito séculos de História: Portugal antes do descobrimento; as grandes navegações e, finalmente, um momento mais próximo de quando o livro foi escrito, de certo declínio e de alusão ao Sebastianismo.

Pessoa coloca na poesia de Mensagem uma universalidade em que falar sobre sua aldeia é falar sobre o mundo, como escreveu sob o heterônimo de Alberto Caieiro na obra O Guardador de Rebanhos.

Brasão é a parte que remete ao nascimento da pátria, a fundação da nacionalidade portuguesa. Traz poemas que remetem ao brasão português, que traz sete castelos e cinco quinas. Nesta parte concentram-se os poemas sobre figuras históricas, como Dom Henrique, Dom Afonso Henriques, Dom Dinis, Dona Filipa de Lencastre e Afonso de Albuquerque.

Mar Português é a realização da pátria que nasceu em Brasão. Nela, Fernando Pessoa apresenta o heroísmo das figuras protagonistas do episódio das navegações marítimas e das conquistas territoriais portuguesas dos séculos XV e XVI.

Já O Encoberto é a morte e o renascimento da pátria. Nesta parte, o leitor toma contato com o mito de sebastianismo, do retorno heróico de Dom Sebastião para resgatar a supremacia portuguesa no Quinto Império.

Cada parte do livro tem uma citação de abertura, em latim. A primeira é “Bellum sine bello” (guerra sem guerrear). A segunda é Possesio Maris (a posse do mar) e a terceira é “Pax in Excelsis” (paz nas alturas).

Tudo isso faz de Mensagem um livro com forte carga simbólica, que enaltece um nacionalismo místico, baseado mais em uma imagem ideal de Portugal do que na realidade nua e crua. Tanto assim que o mito do sebastianismo marca forte presença na obra, referido sempre com palavras que aludem a “sonho” e “loucura”, por exemplo.

Dia dos Professores: Dicas de leitura

No Brasil, o Dia dos Professores é comemorado em 15 de outubro. Mas você sabe por quê? A razão é que, nesta data, no ano de 1827, D. Pedro II baixou um decreto segundo o qual era obrigatório que todas as vilas, lugarejos e cidades brasileiras tivessem suas “escolas de primeiras letras”. Ali, os meninos seriam ensinados a escrever, calcular e ler. Já as meninas ficariam restritas aos ensinamentos que lhes pudessem ser úteis na vida doméstica: bordar, cozinhar, cuidar da casa. Apesar dessa diferença incomensurável, que aos poucos, com o passar do tempo, foi sendo diminuída, a implantação dessa decisão foi de grande importância para a educação no país.

Mais de um século depois, em 1947, um professor teve a idéia de transformar a data em feriado escolar, pois o segundo semestre tinha poucas datas de descanso e essa seria bem-vinda (e com uma justa razão: homenagear os professores). Entretanto, foi apenas em 1963 que a data – um feriado escolar nacional – tornou-se um decreto federal.

Desde então, todos os anos, essa que é uma das belas profissões do mundo é celebrada no Brasil. Neste ano, para comemorar, a Ateliê preparou uma lista com dicas de leitura para professores dos mais variados gostos e interesses:

A Arte de Argumentar – Gerenciando Razão e Emoção

Este livro pode ajudar professores de todas as áreas do conhecimento, que pretendem melhorar os relacionamentos e aperfeiçoar as relações interpessoais por meio da criatividade e do trabalho em equipe.

 Sôbô – Uma Saga da Imigração Japonesa

Em 1930, Tatsuzô Ishikawa embarcou para o Brasil no navio La Plata Maru, como imigrante individual japonês, com auxílio do governo. Com este livro, que descreve a imigração japonesa no Brasil, Tatsuzô ganhou o primeiro prêmio Akutagawa – o prêmio literário de maior valor no Japão, instituído em 1935. O livro tem tradução de Maria F. Tomimatsu, Monica Okamoto e Takao Namekata. Uma opção de leitura para quem gosta de boas histórias que recontem a História.

Os Evangelhos – Uma Tradução

Textos conhecidos por seu caráter religioso traduzidos, diretamente do grego, com o objetivo de destacar o valor literário das escrituras. Esta nova tradução dos Evangelhos procura trazer ao frescor de um português literário contemporâneo a “surpresa e o encantamento” da leitura do original grego, como diz o próprio tradutor em sua apresentação. Para professores interessados em obras intelectualmente instigantes.

Velhos Amigos

Contos, poemas e crônicas se misturam nessa obra de Ecléa Bosi, que aqui faz uma abordagem literária sobre a memória individual e coletiva no Brasil. São lembranças reais de velhos operários, imigrantes e outros personagens anônimos da vida brasileira, organizadas em pequenas narrativas. Uma leitura que agrada a quem quer aliar o prazer da leitura ficcional ao conhecimento sociológico.

Geometrias de Cosmos

Primeiro volume da série “A Trilogia da Invisibilidade”, livro do professor Rodrigo Suzuki Cintra reúne poemas que são metáforas da invisibilidade, criando, nas palavras do autor, sentimentos e percepções que estão por trás das palavras. “Para mim, a poesia é a arte de fabricar, de simular, de blefar, de criar sentimentos”, explica Cintra. O livro é um convite aos professores que queiram “entrar no jogo” e perceber o invisível.

Massao Ohno, Editor

Massao Ohno foi um dos maiores editores do país, deixando sua ideia e marca que influenciou o mercado editorial independente. Este imenso trabalho gráfico pode ser acompanhado neste livro, escrito e organizado pelo pesquisador José Armando Pereira da Silva. A obra tem projeto gráfico de Gustavo Piqueira e Samia Jacintho e é uma excelente opção de leitura para professores que acreditam que livros também podem tratar de livros e serem visualmente belos.

Esaú e Jacó: o penúltimo romance de Machado de Assis

Por Renata de Albuquerque*

Publicado pela primeira vez em 1904, Esaú e Jacó é o penúltimo romance de Machado de Assis. A Ateliê acaba de lançar a edição, dentro da Coleção Clássicos Ateliê, com texto fidedigno (estabelecido segundo a vontade do autor, em vida), com apresentação de Paulo Franchetti e notas de José de Paula Ramos Jr. As ilustrações são de Mariana Coan.

O título, retirado do episódio bíblico sobre o desentendimento de dois irmãos, dá pistas sobre como os personagens Pedro e Paulo (também irmãos) vão se comportar ao longo da narrativa. Mas, ao contrário da história bíblica, os irmãos do romance machadiano não têm uma razão explícita para brigas. O desentendimento seria “ab ovo” (desde o nascimento) e com dois objetos definidos: a disputa pelo amor de Flora e as questões políticas (Pedro é monarquista; Paulo é republicano).

Um narrador problemático

Se Bentinho (Dom Casmurro) ficou conhecido como um narrador não confiável, por contar em primeira pessoa a história de um suposto adultério (não confirmado), Machado de Assis refina a problemática do narrador em Esaú e Jacó. Supostamente ele seria narrado pelo Conselheiro Aires (que volta em Memorial de Aires, último romance do escritor carioca) por meio de seus “cadernos manuscritos” encontrados após a morte do personagem, conforme lemos na Advertência.

Mas, logo no início da obra, o capítulo XII, chamado “Esse Aires”, começa assim: “Esse Aires que aí aparece conserva ainda agora algumas virtudes daquele tempo, e quase nenhum vício”. Ora, o narrador não falaria de si mesmo nesse tom, pensa o leitor. A partir desse momento, Aires é também personagem do romance.

Então, afinal, quem seria o narrador?

Sílvia Maria Azevedo, em seu texto Esaú e Jacó: de rivalidades e progenitura, levanta a hipótese de Aires ser um narrador-transcritor, ou seja, alguém que teria lido os cadernos de Aires e transcrito a história dos irmãos gêmeos Pedro e Paulo. Assim, para quem transcreve, Aires seria também personagem, um aspecto que repõe a complexidade da obra machadiana para o leitor, que tem, aqui, mais algo com que se preocupar para além do enredo.  

Enredo

A história começa com a visita de d. Natividade – a mãe dos gêmeos – à cabocla do Castelo, para saber sobre o futuro dos filhos. Essa visita de certa forma remete o leitor ao episódio bíblico da vinda do Anjo Gabriel que anuncia à Maria um milagre. Mas, aqui, não é o Anjo que revela algo, mas a mulher grávida que vai em busca de respostas – um rebaixamento proposital, uma pista de quem nem tudo (ou nada) nessa história será divino.

O conflito entre ciência e religião; o debate de questões sociais e políticas perpassa todo o livro, colocando em xeque as certezas que o leitor porventura venha a ter: as disputas entre os irmãos não permite que se possa “escolher um lado”: não há vilões ou heróis em Esaú e Jacó. Tudo parece levar a uma grande indefinição.

Um exemplo disso é o fato de uma moça do século XIX, Flora, assumir que não consegue decidir-se entre seus dois pretendentes – os irmãos. Flora adoece e morre sem decidir-se, mas consegue que os gêmeos prometessem a ela dar um basta em suas discórdias. Ainda que indecisa, ela é quem decide pela paz entre os irmãos, que se estabelece durante um curto período. Depois, a paz volta a dar lugar à discórdia.

Não por acaso, a história da paz em nome de uma mulher à beira da morte se repete quando d. Natividade pede a eles, no leito de morte, que esqueçam as diferenças.

Tudo, em Esaú e Jacó, gira em torno da rivalidade dos irmãos. Pedro estuda Medicina; Paulo, Direito. e, como ela se intensifica a cada passagem, tal rivalidade parece ter a função de reforçar as semelhanças entre Pedro e Paulo – tão iguais fisicamente, com ideias tão distintas – defendidas de uma maneira tão parecida: o embate. Por exemplo, tanto Pedro quanto Paulo se elegem deputados – mas, cada um por um partido diferente. Assim, podemos entender Pedro e Paulo como a metonímia das ideias que defendem: República e Monarquia seriam regimes igualmente problemáticos, um tema que Machado tratava “a quente”, durante a transição entre um e outro.

*Jornalista, Mestre em Literatura Brasileira pela FFLCH/USP, autora da Dissertação Senhoras de Si: o Querer e o Poder de Personagens Femininas nos Primeiros Contos de Machado de Assis.

Herdando uma Biblioteca: uma declaração de amor aos livros

Por: Renata de Albuquerque*

Assim como “não se compra um livro pela capa” – ditado popular que nos lembra sobre o quanto podemos nos enganar com o que está aparente – nem sempre é possível “comprar um livro pelo título”. É o que acontece com este Herdando uma Biblioteca, de Miguel Sanches Neto, cuja segunda edição (revista e ampliada) acaba de sair pela Ateliê. Afinal, quem lê apenas o título imagina que o autor tenha recebido como legado uma coleção de livros.

Ao abrir o volume, descobrimos que não é isso exatamente o que aconteceu. As crônicas trazem reflexões sobre o mundo do livros e contam um pouco da trajetória do autor, filho de família modesta e pouco letrada do interior do Paraná. Na época, conta Sanches Neto, ele tinha quase nenhum contato com livros que não fossem os didáticos e, apesar disso, tornou-se um bibliófilo na vida adulta.

Mas, apesar de não ter herdado uma biblioteca, Sanches Neto nos conta, com delicadeza, como construiu a sua e que heranças ligadas ao livro trouxe desde a infância. Já os primeiros parágrafos emocionam qualquer leitor amante de livros. A maneira delicada, perspicaz e singela com que o autor conta passagens de sua história enquanto leitor fazem do volume uma verdadeira celebração ao mundo dos livros.

Ao contar fragmentos de sua história, Sanches Neto lembra a cada leitor de reconstruir, para si mesmo ou para os outros, a sua trajetória em meio aos livros. As idas à biblioteca pública, o único livro disponível em casa (uma Bíblia), os livros abandonados por uns e encontrados por outros, os livros ruins recebidos de amigos bons que perguntam nossa opinião que não podemos dar sinceramente.

 “É um volume de crônicas sobre como, vindo de uma família de analfabetos, eu tive que inventar a minha biblioteca, tive que acreditar que era, sim, possível uma vida intelectual ao lado dos livros. Este é meu único volume de crônicas que não foi publicado em jornais. Nasceu como projeto estruturado para livro, como se fosse um romance fragmentado de meu amor à biblioteca”, diz o autor.

Com uma escrita afetuosa, que traz à tona memórias valiosas de “amor à biblioteca”, Sanches Neto envolve o leitor em uma atmosfera idílica, recriando histórias que não se prendem apenas ao livro, mas ao universo que o permeia, como é o caso da deliciosa crônica “A Arte de Apontar Lápis”.

Muitas das importantes experiências pelas quais um leitor passa ao longo da vida estão nas páginas de Herdando uma Biblioteca, um livro que consegue ser, a um só tempo, uma história contada singularmente e um incentivo para que, ao fechar o livro, cada leitor torne-se autor de sua própria história, revivendo, nem que seja apenas na lembrança, as passagens que o fizeram amar os livros.

*Jornalista, Mestre em Literatura Brasileira pela FFLCH/USP, autora da Dissertação Senhoras de Si: o Querer e o Poder de Personagens Femininas nos Primeiros Contos de Machado de Assis.

Neoclassicismo na lírica brasileira moderna

O que vem por aí? Muita gente tem feito esta pergunta, querendo saber sobre quais os próximos lançamentos da Ateliê e sobre o que esperar para o futuro. Como muitas novidades devem chegar em breve, para satisfazer a curiosidade dos nossos leitores – ou para aguçá-la ainda mais – o Blog da Ateliê resolveu fazer uma série de entrevistas com autores de obras que a editora deve lançar em breve.

Vagner Camilo

Desta vez, o assunto é o novo livro do professor de Literatura Brasileira da Universidade de São Paulo (USP) Vagner Camilo, autor de Risos entre pares: poesia e humor românticos (EDUSP, 1997); de Drummond da Rosa do Povo à Rosa das Trevas (Ateliê Editorial; prêmio ANPOLL 2000), entre outros. Pesquisador das relações entre lírica e sociedade; a recepção de correntes críticas no Brasil (como o new criticism); e as interlocuções marcantes de alguns dos principais românticos e modernistas brasileiros com poetas franceses e ingleses. Atualmente, ele desenvolve pesquisa, com apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), sobre a vertente neoclássicas nas modernas líricas brasileira e argentina. Camilo lança, em breve, A Modernidade entre Tapumes: da Poesia Social à Inflexão Neoclássica na Lírica Brasileira Moderna.  

O livro aborda a tendência formalista que é típica da poesia brasileira das décadas de 1940 e 1950, a partir da obra de poetas da época. Essa discussão tem origem em outra obra de Camilo, Drummond: da Rosa do Povo à Rosa das Trevas, que tratava da guinada poética do poeta mineiro e de como a crítica a recebeu naquele momento histórico.

A partir dessa perspectiva, o leitor poderá entender melhor relevância estética e histórica de momentos decisivos, de virada, que acontecem de tempos em tempos a alguns autores e suas obras. “A tendência neoclássica na lírica do pós-guerra de Carlos Drummond de Andrade, Murilo Mendes, Jorge de Lima e Augusto Meyer é examinada aqui com base nos paradigmas internacionais e por meio do confronto com o programa da Geração de 1945, a fim de se refletir sobre a lógica da dinâmica histórica e o sentido desses retornos”, informa a quarta capa do livro.

“O percurso descrito no livro transita de uma das conquistas mais exitosas das reivindicações modernistas das décadas anteriores, alcançada pelo empenho participante de Drummond, para seguir como mergulho fundo e demorado, ao longo de oito capítulo, no exame da crise que se abateu sobre tais conquistas, devido a sua rotinização e à perda de sua força vital, até se espraiarnas águas e no vale do São Francisco, resgatando o projeto modernista de denúncia das mazelasdo Brasil profundo, reposto, no auge da reabilitação neoclássica, em clave elegíaca e em uma linguagem cujo cariz aparentemente extemporâneo, não embota seu vigore contundência crítica”.

Lira dos Vinte Anos

A Ateliê Editorial, neste momento de isolamento social, convidou alguns leitores para compartilharem suas impressões sobre alguns de seus livros prediletos. Com isso, pretendemos fortalecer uma comunidade de pessoas apaixonadas por livros, que sabem que eles podem ser uma excelente companhia em momentos como este. Este texto é de Talvanes Faustino*, que escreve sobre Lira dos Vinte Anos. Agradecemos a colaboração de Talvane e esperamos que todos apreciem a leitura!

No Solo Da Saudade Brotaram As Lembranças De Morrer Das Tripas Do Cadáver De Poeta Foi Feita A Lira Dos Vinte Anos

Quem nessa fronte que animava o gênio,

A rosa desfolhou da vida tua?

Onde o teu vulto gigantesco? Apenas

Resta uma ossada solitária e nua!

Machado de Assis

Manuel Antônio Álvares de Azevedo, Maneco, para seus amigos da Faculdade de Direito de São Paulo, nascido sob o signo de virgem no dia 12 de setembro de 1831. Neste mesmo ano, poucos meses antes do nascimento daquele que viria a ser uma das vozes poéticas mais importantes das letras nacionais, o então imperador do Brasil, Dom Pedro I, abdicava no dia 7 de abril do trono, em favor do seu filho Pedro II[1]. Em 1845 Álvares entra para o colégio Pedro II no Rio de Janeiro, então capital do império. Três anos mais tarde, o jovem bardo, entra para a Faculdade de Direito, lugar onde travaria relações de amizade com Bernardo Guimarães e Aureliano Lessa, que segundo seus biógrafos eram seus melhores amigos, por escolha de Coelho Neto (1864-1934). Álvares de Azevedo, tornou-se o patrono da cadeira número dois da Academia Brasileira de Letras[2] (ABL).

A Lira dos Vinte Anos é provavelmente a obra mais publicada de Álvares de Azevedo. Não é uma tarefa hercúlea encontrar edições desta belíssima obra: são inúmeras as opções e formatos. Assim como, não é impossível dizer, qual entre tantas, deve ser a preferência do leitor. A edição da Ateliê Editoral numa primeira mirada, não tem muito de especial. Mas, ao ler com mais atenção, vemos que nesta 4º edição há um ensaio introdutório a vida e obra de Álvares de Azevedo, a cargo do Dr. José Emílio Major Neto[3], que também fez as notas explicativas. São mais de 500 notas e estas servem como apoio ao leitor na busca pela compreensão da poesia do autor. Ao abrir o livro, nos deparamos com mais novidades, que tornam esta edição diferente de todas as outras que tive a oportunidade de ler. Esta é a primeira vez que vejo uma edição ilustrada da Lira dos Vinte Anos. As ilustrações ficaram a cargo de Ricardo Amadeo, suas ilustrações em preto e branco têm um charme muito especial e ajudam a vermos transformadas em imagem as belas palavras de Álvares de Azevedo. Para completar, temos uma cronologia da vida e obra do cantor da Lira, um vocabulário básico das palavras mais usadas e pequenos textos informativos sobre as influências de Álvares de Azevedo.

Numa resenha escrita por Machado de Assis, sobre o livro Lira Dos Vinte Anos, o velho bruxo, defende que estamos diante de um grande talento, mas que lhe faltou tempo, tempo não apenas para terminar os poemas que deixou incompletos, mas também, tempo para desenvolver sua poesia.

Aquela imaginação vivaz, ambiciosa, inquieta, receberia com o tempo as modificações necessárias; discernindo no seu fundo intelectual aquilo que era próprio de si, e aquilo que era apenas reflexo alheio, impressão da juventude, Álvares de Azevedo, acabaria por afirmar a sua individualidade poética. Era daqueles que o berço vota à imortalidade. (ASSIS, Resenha: Lira Dos Vinte Anos – Álvares de Azevedo, 2019)

Machado de Assis

Com isto Machado de Assis defende uma tese de que a pouca idade de Álvares de Azevedo e sua falta de experiência literária fizeram dele ainda um reflexo das suas influências. Machado fala obviamente de Lord Byron, poeta inglês e maior expressão do romantismo do seu país natal. Mas vale o destaque que Machado não perde de vista que Álvares é um “grande talento”. Mesmo ainda não tendo afirmado a sua individualidade, ele mostra na sua poesia que é destinado a imortalidade. Avançando na leitura vemos o Bruxo, tocar em outro tema caro, seria a sensibilidade demostrada nos poemas verdadeira?

O poeta português Fernando Pessoa, escreveu que “o poeta é um fingidor [..] que chega a fingir que é dor/ a dor que deveras sente” e esta palavra “dor” é sem dúvida uma das palavras com as quais podemos explicar a obra de Álvares de Azevedo. Avançando no texto do mestre, vemos que ele toca no tema da sinceridade da dor do Sr. Azevedo, “Nesses arroubos da fantasia, nessas correrias da imaginação, não se revelava somente um verdadeiro talento; sentia-se uma verdadeira sensibilidade. A melancolia de Azevedo era sincera” (ASSIS, Resenha: Lira Dos Vinte Anos – Álvares de Azevedo, 2019). E segue voltando a destacar a realmente lamentável falta de tempo que a existência deu ao poeta.

Álvares de Azevedo viveu pouco, mas viveu o suficiente para colocar seu nome no panteão das letras nacionais. Sua poesia que trata de temas tão íntimos e caros ao ser humano que, mesmo após 168 anos da sua morte, encontram nas almas de seus leitores, um solo fértil de saudade, onde brotam as flores das lembranças de morrer, regadas com as lágrimas descridas, que alimentam as tripas que formas as cordas das lira dos vinte anos e na suas cabeças, brilha a glória moribunda do poeta da morte, brilha, Álvares de Azevedo.

Bibliografia

ASSIS, M. D. (10 de Janeiro de 2019). Resenha: Lira Dos Vinte Anos – Álvares de Azevedo. Acesso em 28 de Maio de 2020, disponível em Blog Do Pensar Poético: https://pensarpoetico.wordpress.com/2019/01/10/resenha-lira-dos-vinte-anos-alvares-de-azevedo/#more-3438

ASSIS, M. D. (29 de Maio de 2020). ÁLVARES D’AZEVEDO (Poesias Diversas). Fonte: Machado De Assis UFSC: https://machadodeassis.ufsc.br/obras/poesias/POESIA,%20Poesias%20dispersas,%201855-1939.htm#%C3%81LVARESDAZEVEDO

AZEVEDO, Á. D. (2014). Lira Dos Vinte Anos. Cotia: Atiliê Editorial.


[1] Porém o pequeno príncipe não pôde assumir o trono por ter apenas 6 anos de idade. Como solução, se inicia o período regencial, que acaba em 1840 com o golpe da maioridade, voltando o poder para a dinastia Bragança, neste ano nosso poeta havia completado 9 primaveras.

[2] A cadeira da qual Álvares é patrono, segue atualmente ocupada pelo escritor Tarcísio Padilha.

[3] Doutor em Teoria Literária e Literatura Comparada pela USP (2007) e mestre em Teoria e História Literária pela UNICAMP (2001).

Talvanes Faustino

* Talvanes Faustino é natural de Maceió, Alagoas, graduando em História, porém, em processo de mudança para o curso de Letras, porque a literatura falou mais alto. É autor de livros de poesias e contos, todos publicados de forma independente. A primeira publicação é do livro Portal Da Escuridão Do Meu Olhar de 2012 e o último trabalho publicado é o conto “Pássaros e Morcegos” (2019). Além de Álvares de Azevedo, tem em autores como Machado de Assis, Victor Hugo, Graciliano Ramos e a influência e o aprendizado e o incentivo para continuar escrevendo.

Coração, Cabeça e Estômago: humor e crítica em um texto clássico

A Ateliê Editorial, neste momento de isolamento social, convidou alguns leitores para compartilharem suas impressões sobre alguns de seus livros prediletos. Com isso, pretendemos fortalecer uma comunidade de pessoas apaixonadas por livros, que sabem que eles podem ser uma excelente companhia em momentos como este. Este texto é de Camila Justo*, que escreve sobre Coração, Cabeça e Estômago, escrito por Camilo Castelo Branco em 1862 . Agradecemos a colaboração de Camila e esperamos que todos apreciem a leitura!

A leitura da novela satírica publicada em 1862, Coração, Cabeça e Estômago poderá nos ajudar a conhecer  Camilo Castelo Branco, o autor, e outros aspectos de sua obra.  Em relação à estrutura: apresenta um preâmbulo, sob forma de diálogo entre os amigos Faustino Xavier Novaes e o editor (provavelmente o próprio Camilo Castelo Branco) em torno de um amigo em comum, morto há seis meses. O editor em questão recebe a incumbência de organizar, revisar e publicar o livro de memórias do falecido Silvestre da Silva; e três partes , a saber: 

A primeira é intitulada CORAÇÃO e é a mais longa. Ela abarca boa parte do livro e vai de 1844 a 1854. Nela, Silvestre da Silva, apresenta-se como um saloio ingênuo, sonhador e cheio de esperança, que deixa sua pequena aldeia em Soutelo e migra para Lisboa, onde”inicia seu noviciado amoroso”. Nesse período, suas atitudes e decisões são norteadas pelos sentimentos e excessos de sua imaginação.

Ele ama (ou melhor, tenta amar, sete mulheres), mas sempre de forma instantânea (apaixona-se à primeira vista) e leviana, fortemente influenciado pelos romances e poesia românticos que ávida e irrefletidamente consome.

Silvestre tenta reproduzir a todo custo o estilo de vida e padrões de comportamento adotados por seus heróis e poetas românticos preferidos,  o que acaba desencadeando uma série de situações ridículas e jocosas e, ao mesmo tempo, dignas de reflexão. 

As mulheres pelas quais Silvestre se apaixona apresentam traços de caráter e personalidade semelhantes entre si, reproduzindo sempre os mesmos padrões de escolha de objeto amoroso: todas elas são frívolas, vaidosas, cínicas e interesseiras, e não hesitam em trocá-lo por homens endinheirados na primeira oportunidade.

Depois de sete decepções amorosas consecutivas, Silvestre ainda conhece outras duas mulheres: Paula, “a mulher que o mundo respeita” (é cínica, hipócrita e calculista, trai o conde com o qual se casa por conveniência), mas como é rica, a alta sociedade lisboeta faz vistas grossas ao caso extraconjugal que mantém com o mestre-escola e mesmo sendo adúltera é adorada em seu meio social; e a última é Marcolina, “a mulher que o mundo despreza”, foi aliciada e vendida pela mãe aos 14 anos de idade a um barão. 

Com a morte deste, Marcolina, casa-se com Augusto, um antigo amor, que após o casamento revela-se um homem violento, perdulário, libertino e jogador e dilapida o dinheiro obtido com venda das joias que a esposa recebera de presente. Desesperada e tendo de sustentar suas irmãs, vê-se obrigada a se prostituir. Marcolina e Silvestre se conhecem no Cais do Sodré, justamente no momento em que ela tencionava dar cabo de sua própria vida, pois havia contraído tuberculose e se sentia abandonada pela família.

Ao ouvir sua triste história, Silvestre se compadece da moça e a leva para sua aldeia natal em Soutelo, em busca de ares mais puros e benfazejos à sua debilitada saúde.

No leito de morte, Marcolina declara seu amor por Silvestre, que, ao mesmo tempo, se dá conta de também a amava, pois segundo ele, Marcolina era a mais verdadeira, pura, sincera e santa que “as mulheres que o mundo respeita”.

A segunda parte denomina-se CABEÇA (sede da inteligência, da razão, do cálculo, da consciência, do planejamento e da premeditação) e estende-se por cinco anos (1855-1860), em que Silvestre da Silva, entediado com a monotonia, a tristeza e fealdade de sua aldeia, muda-se para a cidade do Porto, onde passa a trabalhar como jornalista e se interessa pela política local.  

Faz duras críticas aos romances românticos franceses, questionando os padrões de beleza de suas heroínas, sempre pálidas, magras e frágeis a que as jovens procuravam imitar à custa de forçados jejuns e noites mal dormidas e que mulher portuense do passado tinha aspecto bonito, vistoso, saudável, era bem fornida de carne, tinha as faces coradas e mais disposição de ânimo. Silvestre acaba se envolvendo em uma série de confusões com figuras ilustres da sociedade portuense, denuncia sua hipocrisia, pondo a nu seus aspectos ridículos, degradantes e comezinhos, o que lhe trará sérios problemas financeiros e profissionais, e este será o motivo que o fará regressar definitivamente à aldeia onde nasceu.

Ilustração do livro Coração, Cabeça e Estômago, feita por Gustavo Piqueira

A terceira, e última parte denomina-se ESTÔMAGO (órgão que representa o instinto de sobrevivência, nossas necessidades básicas, instintivas tais como comer, beber, procriar, dormir). Nesse período,  que vai de 1860-1861, o protagonista procura uma vida bucólica, serena e isenta de preocupações.   Silvestre nos conta as razões por que se casou com Tomásia e como isto se deu.

Pode -se dizer que o título da novela é uma espécie de metáfora da trajetória de seu protagonista: no início é um saloio ingênuo, romântico, atrapalhado, cheio de esperanças, mas à medida que se decepciona com as mulheres com quem tenta se relacionar e com a sociedade em que se insere, deixa-se corromper pelo meio, tornando-se amargurado, cético, acomoda-se se ao status quo, tanto é verdade que morre de caquexia, empanzinado de tanto comer.

Por fim,  outro aspecto digno de nota é o modo como Camilo Castelo Branco satiriza o Romantismo, movimento estético e filosófico, a que num primeiro momento parece estar associado. Isto se evidencia pela maneira concisa, desidealizada, sem aqueles floreios retóricos, tão caros aos românticos, como  Silvestre da Silva, o narrador da novela nos descreve a personagem Tomásia.

Segundo ele, Tomásia é uma jovem rústica, “escura de inteligência”, não sabia ler nem escrever e era desprovida de vaidade. Porém, ao ler a novela, tem se a impressão de que ela era uma mulher sincera, de coração puro, inocente, sensata, trabalhadora, temente a Deus, forte tanto física quanto moralmente e o mais admirável, dotada de um senso prático incomum às mulheres do século XIX, sobretudo, se a compararmos àquelas que Silvestre conheceu nas cidades de Lisboa e Porto . 

Desta forma , cabe lembrar que no mesmo ano de publicação desta obra veio a lume a novela passional  Amor de Perdição, considerada tanto pelos críticos e historiadores literários quanto pelo público, a obra-prima de Camilo Castelo Branco, mas  a leitura de Coração, Cabeça e Estômago deixa claro que sua produção literária  é mais vasta e diversificada e não se restringe às histórias fatalistas, de amores impossíveis, infelizes, repleto de lances trágicos ou melodramáticos, como muitos manuais de literatura do Ensino Médio querem nos fazer crer.

*Graduada em Letras Português/Espanhol pela UNIVAP (Universidade do Vale do Paraíba 2003), especializada em Literatura pela UNITAU (Universidade de Taubaté 2008/2009).

“O Ateneu”, de Raul Pompéia

Publicado em folhetim no ano de 1888, “O Ateneu”, de Raul Pompéia, é um romance realista/naturalista que, de certa maneira, extrapola as características desse movimento. Isso porque o romance pode ser considerado um romance autobiográfico ou de formação, o que se justifica pelo subtítulo “Crônicas de saudade”.

Apesar da palavra no subtítulo poder levar o leitor a pensar que a história retratada deixa saudades ou boas lembranças, o fato é que o texto não é tão agradável quanto pode parecer. Os castigos sofridos, o rancor e a raiva do personagem principal fazem do subtítulo uma grande ironia – inclusive porque não se tratam de crônicas, mas sim de um romance.

Sérgio, o protagonista, narra, já adulto, sua história n’O Ateneu, um colégio interno onde ele passa o fim da infância. Apesar de ser uma oportunidade para uma narrativa cheia de memórias afetivas, o colégio é visto como um microcosmo da sociedade, e o texto é, em muitas passagens, quase científico. O Ateneu é um internato onde impera um regime severo e punitivo, que incentiva a delação e ao mesmo tempo a condena (por cumplicidade): um ambiente de muitas falhas morais. O narrador afirma que ali só teve um único amigo verdadeiro: Egbert.

Enredo

Sérgio entra n’O Ateneu, pela primeira vez, em uma data festiva. Tudo lhe parece muito novo e instigante e ele fica ansioso para entrar no internato. Mas, logo na sua chegada, o protagonista percebe que a festa que havia presenciado não era o cotidiano do colégio. Após um desmaio (ao ser apresentado aos colegas), ele passa a ser perseguido. Tudo começa parecer perigoso e dúbio n’O Ateneu. O aluno Sanches, por exemplo, a um só tempo parece ter provocado um afogamento  e salvado Sérgio nessa situação. Sérgio se incomoda com as aproximações físicas de Sanches (apesar de beneficiar-se porque este é um bom aluno) e acaba afastando-se dele. Outra relação retratada no livro, a de Sérgio com o bibliotecário Bento (que também é aluno do internato) sugere homossexualidade, o que inclui, também, comentários maldosos de outros alunos sobre o assunto.  

O livro todo é um pêndulo entre o bem e o mal, o pecado e a culpa. Sérgio busca refúgio na religião, pois as amizades não lhe parecem verdadeiras e ainda há o agravante de um amor platônico que Sérgio desenvolve por d. Ema, esposa do diretor Aristarco.

Outro episódio marcante do livro é a morte de Franco, aluno que, “esquecido” pelos pais no internato, torna-se um problema para o diretor. Franco é desprezado e agredido, e um belo dia resolve se vingar, enchendo a piscina onde os alunos tomam banho com cacos de vidro. Sérgio fica sabendo, mas nada faz para impedir Franco. Entretanto, tem uma grave crise de consciência. No dia seguinte, descobre que ninguém ficou ferido porque um funcionário da escola limpara a piscina antes do banho dos alunos, evitando que se machucassem. Depois, Franco morre de uma doença mal explicada, mas que parece ter a ver com descaso por parte da instituição.

Análise

O Ateneu, enquanto microcosmo da sociedade do século XIX, é, na verdade, uma severa crítica à sociedade carioca da época. Enquanto quem paga a mensalidade em dia é bem tratado, os alunos cujos pais atrasam os valores são desprezados.

O ambiente cotidiano de opressão muda completamente nos dias de festa, quando pessoas do lado de fora d’O Ateneu vêm até o colégio. As descrições científicas e psicológicas do ambiente e dos personagens deixam clara a intenção de analisar e criticar o status quo.

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Clepsidra, de Camilo Pessanha

Clepsidra é o único livro de poesias publicado em vida pelo escritor português Camilo Pessanha (1867 – 1926). O livro, um dos mais importantes da poesia portuguesa moderna, foi publicado pela primeira vez em 1920, por Ana de Castro Osório, por quem Camilo Pessanha era enamorado.

O título se refere a um antigo instrumento grego de medição do tempo, parecido com uma ampulheta mas que, em vez de areia, continha água. O tema dos poemas passam pela efemeridade da vida, a fragilidade humana e o desencanto perante o mundo. Mas, o que a diferencia de outras, que abordam assuntos correlatos, é a recusa ao sentimentalismo confessional. Pessanha inova, subvertendo os princípios da métrica tradicional – o que faz de maneira única, com apurado senso rítmico, linguagem fragmentada e o uso refinado de metáforas. Muitas vezes, parece que não há ligação aparente entre os poemas do volume e a razão disso é, em parte, devida à sua fragmentação estrutural proposital e, em parte, devida à construção de sua primeira edição.

Desde a organização, o volume tem uma problemática própria. A organização da primeira edição não obedece exatamente àquilo que o autor propunha, do ponto de vista estético. E, neste aspecto, a edição da Ateliê Editorial representa um ganho para o leitor: Paulo Franchetti, responsável pela organização, apresentação e notas do volume é um profundo estudioso da obra do autor português e, em suas pesquisas, teve acesso a um documento que sugeria parâmetros para a organização do volume, a partir de anotações próprias de Pessanha sobre as datas em que os poemas teriam sido compostos.

Com isso,  a organização dos poemas feita na edição de Clepsidra da Ateliê Editorial, se não é exatamente aquela desejada pelo autor, é mais próxima disso do que ouras edições existentes.

Leia, a seguir, alguns poemas de Clepsidra:

INSCRIÇÃO

Eu vi a luz em um país perdido.

A minha alma é lânguida e inerme.

Oh! Quem pudesse deslizar sem ruído!

No chão sumir-se, como faz um verme…


SONETO

Tatuagens complicadas do meu peito:

Troféus, emblemas, dois leões alados…

Mais, entre corações engrinaldados,

Um enorme, soberbo, amor-perfeito…

E o meu brasão… Tem de oiro, num quartel

Vermelho, um lis; tem no outro uma donzela,

Em campo azul, de prata o corpo, aquela

Que é no meu braço como que um broquel.

Timbre: rompante, a megalomania…

Divisa: um ai, — que insiste noite e dia

Lembrando ruínas, sepulturas rasas…

Entre castelos serpes batalhantes,

E águias de negro, desfraldando as asas,

Que realça de oiro um colar de besantes!


ESTÁTUA

Cansei-me de tentar o teu segredo:

No teu olhar sem cor, — frio escalpelo,

O meu olhar quebrei, a debatê-lo,

Como a onda na crista dum rochedo.

Segredo dessa alma e meu degredo

E minha obsessão! Para bebê-lo

Fui teu lábio oscular, num pesadelo,

Por noites de pavor, cheio de medo.

E o meu ósculo ardente, alucinado,

Esfriou sobre o mármore correto

Desse entreaberto lábio gelado…

Desse lábio de mármore, discreto,

Severo como um túmulo fechado,

Sereno como um pélago quieto.



OLVIDO

Desce por fim sobre o meu coração

O olvido. Irrevocável. Absoluto.

Envolve-o grave como véu de luto.

Podes, corpo, ir dormir no teu caixão.

A fronte já sem rugas, distendidas

As feições, na imortal serenidade,

Dorme enfim sem desejo e sem saudade

Das coisas não logradas ou perdidas.

O barro que em quimera modelaste

Quebrou-se-te nas mãos. Viça uma flor…

Pões-lhe o dedo, ei-la murcha sobre a haste…

Ias andar, sempre fugia o chão,

Até que desvairavas, do terror.

Corria-te um suor, de inquietação…

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