Renato Tardivo

O Lugar Mais Longe da Morte

Por: Renato Tardivo*

Museu da Infância Eterna, de Miguel Sanches Neto, reúne crônicas escritas entre 2003 e 2011. Como indica o título, o tema da infância, presentificado sobretudo nas memórias do cronista acerca de seus primeiros anos de vida e em sua experiência com os filhos, atravessa a coletânea.

De início, chama atenção a confluência entre o aspecto datado que, via de regra, marca o formato da crônica e a mistura de tempos que, liricamente, desenha a infância. Talvez por isso, alguns textos passem por excelentes contos. Lembro-me de ter experimentado algo parecido lendo as crônicas semanais de Carlos Heitor Cony.

Com efeito, “o escritor escolhe as palavras marcantes”, escreve Sanches Neto, marcando as diferenças entre as palavras utilizadas por seus pares e pelo cientista, pelo político, pelos apaixonados e pelo diplomata. Diferentemente destes, cuja linguagem, atendendo a demandas preestabelecidas, resulta esvaziada de sentido, o escritor aprende “seu abecê sempre pela via torta”, exercendo, assim, “uma fidelidade erótica à infância”.

Não é aleatório que alguns textos sejam envoltos por uma atmosfera onírica, quando não são expressão literal de um sonho, mas do qual se acorda para constatar que “aquelas pessoas passaram, nós mesmos, minha mulher e eu, já não somos como nas fotos. O mundo em que vivíamos morreu, legando-nos frágeis sinais”. Aí está a potência dessas crônicas que, como na definição de Roland Barthes a respeito da fotografia, soam “imagem viva de uma coisa morta”.

A esse propósito, a seguinte passagem pode ser lida como metáfora do livro: “Um caminho me levava ao passado, o outro me devolvia ao presente. Dividido entre os dois, sofria novo drama, saber a qual deles eu pertencia”. Haverá resposta para esse dilema? O cronista confessa que, na época em que sofria esse drama, começou a escrever. E, assim, passou a dar voz a esse sofrimento para encaminhá-lo transformado.

Eis o acervo desse museu: reeditar o drama que nos marca desde o nascimento por meio de tonalidades diferentes. Temos, aqui, um desfile de representações do que ficou para trás, e que nos impele a seguir. Afinal, “a infância […] é o lugar mais longe da morte aonde podemos chegar”. 

Conheça outros livros de Miguel Sanches Neto

*Psicanalista e escritor. Professor colaborador do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo. Autor, entre outros, do ensaio Porvir que Vem Antes de Tudo (Ateliê/Fapesp), da coletânea de contos Silente (7Letras) e do romance No Instante do Céu (Reformatório).

Paradeiro: uma carta para Pedro

O escrito e psicanalista Renato Tardivo escreve uma “carta aberta” a Pedro, protagonista de Paradeiro, romance de Luís Bueno que recebeu o Prêmio Literário Biblioteca Nacional 2019

São Paulo, 26 de dezembro de 2019.

Caro Pedro,

Espero que me perdoe a intromissão. Não nos conhecemos; ou, para ser mais preciso, você não me conhece. Eu soube de eventos importantes da sua vida por meio do romance Paradeiro, escrito por Luís Bueno e do qual você, aos 23 anos, é um dos protagonistas. Presumo que você não tivera a oportunidade de ler o romance, levando em conta, inclusive, que ele seria publicado no longínquo 2018. O livro possui três camadas narrativas, por assim dizer. Uma delas traz como protagonista uma mulher madura, cujo nome não se menciona e que, ao descobrir tardiamente um câncer, decide (decide?) se suicidar. Boa parte dessa camada é narrada em primeira pessoa por essa mulher. Outra camada se ocupa da vida de Bibiana, uma senhora em estado de demência (e quanta sabedoria ela anuncia!). A maior parte dessa outra camada é narrada pela própria Bibiana em um texto sem pontuação – pretendo voltar a tratar disso nesta carta. E, por fim, perfaz o livro a seção que o traz como protagonista. Em toda essa camada, o leitor tem a oportunidade de conhecer uma série de cartas remetidas por você em 1938 a familiares e amigos, e, em algumas delas, ler suas críticas literárias encaminhadas à “Revista Acadêmica”. É assim que sua identidade se constitui no livro: dirigindo-se ao outro. Não é bonito? Por este motivo, Pedro, não me ocorreria outra forma de comentar o livro Paradeiro senão remetendo uma carta a você.     

Posso imaginar (não mais que imaginar) o baque que você sentiu ao receber o diagnóstico de tuberculose e, por causa disso, ter de se exilar em São José dos Campos para se submeter, naquele ano de 38, a um tratamento repleto de incertezas. Deixar o Rio e o convívio com Murilo Miranda, Moacyr Werneck e Carlos Lacerda, para citar apenas alguns de seus companheiros, não deve ter sido nada fácil. Sei disso, porque sua angústia se revela nas cartas. Talvez você tenha pressentido o que diria a protagonista (sem nome) do romance: “A morte é exatamente isso. Feder fortemente e ninguém sentir”. É curioso, não obstante, que o cheiro dela seja sentido, circunstância que atesta justamente a sua condição de viva. Também em suas cartas, Pedro, mais que a angústia, o que salta mesmo é sua vontade de viver e seguir discutindo os temas que tanto lhe interessavam: literatura e igualdade.

O romance Paradeiro, mais do que flertar com a morte, é um livro sobre a vida! Você acredita que (muito diferente da sua experiência, evidentemente) também eu tenho uma história em São José dos Campos? Como, nas férias da infância, eu viajava com a família para o litoral norte de São Paulo, São José ficava na metade do caminho. Passar por lá, então, era, por um lado, ruim: significava que ainda tínhamos pela frente metade do trajeto (que, de longo, eu ainda não sabia, não tinha nada). Mas era também a chance de comer no único McDonald’s que havia na região, e isso era, à época, o suficiente para me deixar animado. Como vê, eu não conhecia nada de São José dos Campos, o que dirá de sua acolhida aos tísicos? Sequer à praça Afonso Pena eu fora. Mas bons livros sobre a vida, como o é Paradeiro, estabelecem uma intimidade insuspeita com o leitor. Não é isso que também dizem as críticas que você publicava na “Acadêmica”?

E, por falar em intimidade, suponho que você jamais tenha conversado com Bibiana. Mas, e com a personagem sem nome? É possível (apenas possível) que, em algum momento da vida, ao menos um “bom dia” vocês tenham trocado. Eu creio que uma conversa entre vocês três seria tão enriquecedora! Mas isso não importa. Ao contrário, é a autonomia entre as três trajetórias e seus sutis pontos da tangência que fazem do romance um belo livro. E é assim mesmo que, sem que vocês três se encontrem propriamente, o encontro pode enfim ocorrer em sua máxima potência: no imaginário do leitor.

É difícil (e seria leviano da minha parte) afirmar quem é a personagem mais sofrida. Mas me ocorre que Bibiana, a mais velha entre os protagonistas, foi arrancada da mãe e da pátria na infância, casou-se ainda menina, casou-se de novo, viveu sob a opressão da tia e, se já não bastasse, perdeu dois filhos! Um deles você conheceu, sabia? Pois eu sei. Enfim, quanta dor e fome de vida. O entusiasmo com que você leu Vidas Secas, romance excepcional de Graciliano Ramos publicado enquanto você se tratava da tuberculose, quiçá também tome essa direção. De qualquer modo, creio que Bibiana seja a personagem mais mítica do romance. O discurso dela, sempre em letras minúsculas, não possui (como já anunciei) pontuação; não tem começo, não tem fim: é. A outra protagonista, que vaga entre São José e Jacareí por alguns dias em busca de dar cabo da própria vida, parece caminhar para esta descoberta, qual seja, a de que a vida, em ultimíssimo caso, não tem começo, não tem fim: é. Mas percebo que, agora, já exagero em minhas divagações.

Pedro, não poderia deixar, ainda, de registrar meus agradecimentos a você, por apresentar-me ao romance Amanhecer, de Lúcia Miguel Pereira, sobre o qual você escreveu na “Acadêmica”; obra que, em suas palavras, como Vidas Secas, “veio para envelhecer sempre nova”. Pois saiba que amanhã mesmo eu irei atrás do meu exemplar de Amanhecer. O que você muito provavelmente não soubesse é que esta imagem – o envelhecer sempre novo – costura a sua história, a de Bibiana e a da mulher cujo nome desconhecemos. Mas arrisco afirmar que você o intuiu, ou não teria dito em carta à sua mãe que São José dos Campos era o seu paradeiro: “O lugar onde vim parar é aquele em que eu pararia de vez. Mas não parei, e por isso parei por aqui”. Também eu paro por aqui.

Com o abraço do

Renato    

O que Será?

Renato Tardivo*

Adélia Bezerra de Meneses

Desenho Mágico – Poesia e Política em Chico Buarque, premiado ensaio de Adélia Bezerra de Meneses originalmente publicado em 1981, reflete com profundidade os primeiros quinze anos da obra do artista. Sua leitura hoje, quando Chico acaba de lançar o 38º álbum de estúdio, torna-se ainda mais interessante. Os desdobramentos de sua obra – ampliando-se também à prosa de ficção – parecem ter comprovado a precisão do exame empreendido por Adélia: “Nostalgia, utopia e crítica delineiam uma trajetória em espiral em que, num progressivo expandir-se, há a retomada, sempre, dos inícios, e a volta dos temas fulcrais” (p. 143).

As composições de Chico Buarque (canções e peças de teatro) são agrupadas nas seguintes categorias (que correspondem a capítulos do livro): Lirismo Nostálgico, As Canções de Repressão, Variante Utópica e Vertente Crítica. Assim, suas primeiras canções não abordam, ao menos não diretamente, temas políticos; apresentam, em vez disso, uma temporalidade mítica, na qual a realidade é posta entre parênteses. “Carolina”, em cujos “olhos fundos/guarda tanta dor”, talvez seja um dos principais emblemas do lirismo nostálgico. A canção, que rendeu uma série de interpretações nem sempre favoráveis (como a dos tropicalistas), “é extremamente significativa de um determinado momento histórico: aquele em que uma parcela da intelectualidade brasileira, alijada da práxis política, tende a se refugiar em situações de melancolia e inação: da janela, vê (ou não vê) o tempo passar” (p. 61).

Ocorre que, após os três primeiros álbuns, as composições de Chico privilegiam a “tensão para um futuro aberto […] A proposta dessas canções será a de mudança do presente” (p. 67). Em vez de “canções de protesto”, a autora propõe que nomeemos as produções desta fase de “canções de repressão”, pois trazem em sua estrutura a atmosfera que pairava sobre o Brasil – e, por conseguinte, sobre sua classe artística – do início dos anos 1970. “Apesar de você”, “Cálice”, “Angélica”, entre tantas outras, dão mostras de um autor sensível, vigoroso e maduro. Mobilizada por um presente repressor, a obra de Chico passa a desenhar (e desejar) novas (e não menos difíceis) formas de ser.

Um dos desdobramentos das canções de repressão é a potencialização da utopia – que resulta em “uma crítica não direta, mas que brota do confronto entre uma realidade ‘real’ e uma realidade possível” (p. 103). Uma das canções mais fortes nessa direção é “O que Será”: “projeção para um futuro absoluto, para aquilo que só pode existir por enquanto na fantasia, mas de que os homens se nutrem para o seu enfrentamento com a realidade” (p. 118). O futuro, já em aberto a partir das canções de protesto, se radicaliza enquanto absoluta incerteza. É como se, em sua vertente utópica, o compositor construísse um estatuto político para o impossível.

 

E a vertente crítica, conquanto já estivesse presente em canções anteriores, como “Pedro Pedreiro” (do primeiro disco), marca, segundo a autora, a produção mais recente (quando da escrita do ensaio) do compositor. A clássica “Construção”, os textos para teatro, “Bye-bye Brasil”, “Até o Fim”, a novela Fazenda Modelo e, em uma das leituras mais originais do livro, “Sabiá” – belíssima canção que, no entanto, se notabilizou pela rixa com “Para Não Dizer que Não Falei das Flores”, de Geraldo Vandré – são composições pródigas “em crítica social, numa trajetória que parece corresponder a um percurso pessoal e político” (p. 143). A crítica de Chico se volta inclusive à própria capacidade de criar, como em “Essa Moça Tá Diferente” e “Agora Falando Sério” – crítica que, décadas mais tarde, se expressaria na angústia contida em seus romances. “Crise da sociedade. Crise da linguagem” (p. 154). Crise do Eu, podemos acrescentar – e, além da obra literária, composições posteriores como “Todo Sentimento” e “Futuros Amantes” tomariam essa direção.

Nostalgia (volta ao passado), utopia (construção do futuro) e crítica (leitura lúcida do presente) – a obra de Chico Buarque é, com efeito, atravessada por essas três vertentes. À flor da terra, à flor da pele, sua palavra é corpo por excelência e, como emblema da espiral vertiginosa que confere historicidade à sua obra, o corpo cantado por ele é “palavra/que se produz/muda”.

*Renato Tardivo é psicanalista e escritor. Doutor em Psicologia Social da Arte (USP). Autor, entre outros, do ensaio Porvir que vem antes de tudo – literatura e cinema em Lavoura Arcaica  (Ateliê/Fapesp) e do livro de poemas Girassol Voltado Para a Terra (Ateliê). 

 

Conheça outras obras de Adélia Bezerra de Meneses  

A Morte, o Acaso, a Vida

Renato Tardivo*

Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá, romance de Lima Barreto, autor homenageado na Flip deste ano, foi publicado pela primeira vez em 1919. Levou algumas décadas, contudo, para que a obra de Lima fosse amplamente distribuída. Triste Fim de Policarpo Quaresma, originalmente publicado em 1915, talvez seja seu romance mais célebre; com efeito, Policarpo é uma das personagens mais importantes da literatura brasileira. No romance que se ocupa da biografia de Gonzaga, no entanto, encontramos um Lima Barreto que equilibra com excelência sensibilidade e crítica. A obra acaba de receber uma caprichada edição, com inúmeras notas explicativas, um minucioso ensaio de Marcos Scheffel, além de ilustrações e fotografias do Rio de Janeiro do início do século.

A história é narrada por Augusto Machado, biógrafo de Gonzaga. De saída, coloca-se uma questão extremamente atual, da qual tem se ocupado grande parte da literatura contemporânea: as pontes entre realidade e ficção. A linguagem documental é trabalhada no âmbito da ficção. O romance não segue um enredo linear, nem trabalha os conflitos do ponto de vista da narrativa clássica. Machado relata encontros com seu biografado, cuja morte anuncia no início do livro, dando voz a ele em diálogos, cartas, anotações deixadas. E é assim que tomamos contato com as inquietudes de Gonzaga diante daquilo que vê ao transitar pela cidade. E como são atuais suas reflexões acerca da hipocrisia que rege a civilização.

Conquanto flua desde o início, trata-se de um romance filosófico. Algumas passagens, como a que veremos, são memoráveis. Escreve Machado, referindo-se a anotações que Gonzaga lhe deixou:

 

“Não compreendi imediatamente a significação dessa fantasia; mas, referindo-a a este e aquele aspecto de sua vida, entendi bem que ele queria dizer que o Acaso, mais do que outro qualquer Deus, é capaz de perturbar imprevistamente os mais sábios planos que tenhamos traçado e zombar da nossa ciência e da nossa vontade. E o Acaso não tem predileções…”

 

Em que se considerem essa e outras passagens, é interessante constatar certa afinidade temática entre a obra de Sigmund Freud, criador da psicanálise, e a literatura do início do século passado: o olhar para além do que se mostra superficialmente, a vida que surge da morte e a morte de que é feita a vida, as tensões entre civilização e desejo, realidade e ficção, o estranho e o familiar… Esta talvez seja uma interessante chave de leitura para esse romance de Lima Barreto – uma biografia que começa em morte e termina em vida e na qual o biografado erra pelas ruas da metrópole com um olhar negativado.

Não há vida que resista às perturbações do Acaso. Mas, paradoxalmente, são essas perturbações que conferem identidade à personagem, à cidade, ao país. Ora, não seria justamente após a morte que, pelos olhos de Augusto Machado, se constrói a identidade de M. J. Gonzaga de Sá?

 

**Renato Tardivo é psicanalista e escritor. Doutor em Psicologia Social da Arte (USP). Autor, entre outros, do ensaio Porvir que vem antes de tudo – literatura e cinema em Lavoura Arcaica  (Ateliê/Fapesp) e do livro de poemas Girassol Voltado Para a Terra (Ateliê). 

Identidade: Eu

Renato Tardivo*

Eu, Daniel Blake, filme dirigido por Ken Loach e vencedor da Palma de Ouro de 2016, em Cannes, é excelente e necessário.

A trama gira em torno das tentativas (frustradas) de Blake, que é carpinteiro, de conseguir o seguro desemprego do governo inglês a que tem direito por ter sofrido um enfarto.

O espectador logo empatiza com o protagonista, um senhor bem intencionado, que tenta apenas adquirir o seu direito, mas é sucessivamente ludibriado pela burocracia, seja no telefone (o filme começa apenas com o código sonoro, em um daqueles diálogos cômicos não fossem trágicos), seja pessoalmente, subjugado por funcionários que são muito eficientes ao usar a regra para punir, mas não para atender aos direitos dos cidadãos.

As tentativas de Blake não encontram vazão. É como se ele estivesse à iminência de outro enfarto: a pressão só aumenta. A fotografia com baixa saturação contribui para essa atmosfera – o Sol nunca se põe.

Há um momento, contudo, em que o protagonista, ao presenciar a humilhação sofrida por uma mulher acompanhada de dois filhos pequenos, se rebela. Ele grita em favor dela, e eles são brutalmente expulsos do estabelecimento.

Ocorre que, a partir daí, há um contraponto para as negativas recebidas por Daniel. Ele passa a ajudar a moça e seus dois filhos, uma menina e um menino, recém-chegados à cidade e sem nenhum dinheiro. Blake, que não recebe o mínimo, se doa para o outro.

Trata-se de um cinema de denúncia. O cinema de Loach é moderno, não há dúvida. Há sequências, no entanto, que lembram o cinema clássico – a câmera estática captando a chegada da personagem que, ao passar, é filmada em contracampo, por exemplo. Esse recurso talvez sirva para universalizar o filme, que em certa medida lembra um documentário – quem nunca se estressou ao telefone ou pessoalmente, vítima da burocracia?

O tema central é a  identidade – colocado  desde o título redundante. No clímax do filme, após tantas negativas, Daniel picha seu nome, exatamente como no título: “I Daniel Blake”. É muito bonita essa sequência, pois, após sentir sua existência anulada, a personagem, além de ir à forra, se liberta, renasce.

As trocas com a mulher e as crianças – que em momento decisivo também o ajudam –, bem como com seu vizinho, caminham em direção oposta à forma como Blake é tratado pelos funcionários do governo. Nessa medida, o filme aborda a identidade em sua complexidade, mostrando que ela se constrói no contato com a alteridade, com o mundo e por meio da (cada vez mais rara) iniciativa de se doar ao próximo.

 

Quer saber mais sobre como a psicanálise trata o tema da identidade? Conheça nossos títulos sobre o assunto 

  *Renato Tardivo é psicanalista e escritor. Doutor em Psicologia Social da Arte (USP). Autor, entre outros, do ensaio Porvir que vem antes de tudo – literatura e cinema em Lavoura Arcaica  (Ateliê/Fapesp) e do livro de poemas Girassol Voltado Para a Terra (Ateliê). 

Silenciosamente e no Breu: Rosa e Carrascoza em “Silêncios no Escuro”

Renato Tardivo*

Silêncios no escuro, primeira obra de ficção adulta de Maria Viana, como já aponta o título, é construído por metáforas sensíveis. A referência mais direta talvez seja Guimarães Rosa, mas, entre os autores contemporâneos, os contos do livro também dialogam com a poética de João Carrascoza, um dos principais escritores brasileiros contemporâneos.

Por meio do trabalho com a palavra que diz ao não dizer, do retrato do Sol que ilumina ao se pôr, as narrativas não desvendam o mistério em seus desfechos. São metafísicas por excelência.

“Em nome do pai”, conto que abre o livro, é tocante. Mostra o triunfo da vida, ainda que na “17ª tentativa”, e, invertendo a ordem natural das coisas, coloca a vida como herdeira da morte.

“A cobra na cabaça” narra o encontro invisível entre duas pessoas, através da música, separadas ainda (para sempre?) pela “madeira da porta”. “Balaio de cabeças” dialoga com o clássico “A terceira margem do rio”, do já mencionado Guimarães Rosa: o desparecimento de um marca o surgimento da lenda.

Como nos contos de João Carrascoza, a temática da morte é frequente: a morte que “poupa de gritos dilacerantes”, em um dos contos mais longos do livro, “A praga”. Em “A santa que fugiu do altar”, pródigo em metafísica, Manuelinha lembra muito Niilinha, do conto “A menina de lá”, de Rosa. “Condensação e deslocamento”, noções fundamentais para a definição de sonho, por Freud, retrata algumas cenas, como em um filme (um sonho?), de modo que a ligação entre elas perfaça o percurso de uma vida, ainda em aberto.

A última narrativa, “Em busca do pai”, cujo título remete à primeira, a filha encontra o pai, em sonho, no céu. Sonhar, aqui, forma caráter; confere densidade à subjetividade. Uma vez mais, é a vida a herdeira da morte – silenciosamente e no breu.

*Renato Tardivo é psicanalista e escritor. Doutor em Psicologia Social da Arte (USP). Autor, entre outros, do ensaio Porvir que vem antes de tudo – literatura e cinema em Lavoura Arcaica  (Ateliê/Fapesp) e do livro de poemas Girassol Voltado Para a Terra (Ateliê). 

A travessia de Freud pelas artes

Por Renato Tardivo

 

freud

A relação de Freud com as artes foi marcada por ambiguidades. Em uma vertente, ele se valeu das artes e do trabalho do artista a fim de validar a teoria que estava criando. Em outra, Freud parece privilegiar a correspondência entre as artes e a psicanálise, pois ambas se prestam a explorar os mistérios da alma humana.

Em um excerto curto, anexo à carta a Fliess (1897), Freud compara as fantasias histéricas aos mecanismos da criação poética: “Shakespeare tem razão ao igualar criação poética e delírio”. Essa acepção, talvez majoritária ao longo de sua obra, é a que está contida no ensaio “Escritores criativos e devaneio” (1908): a arte enquanto sublimação de desejos inconscientes reprimidos. Em vez de transformar em sintomas, os artistas dariam forma a esses desejos, isto é, os sublimariam, de modo a serem aceitos pela cultura.

Um dos principais textos nessa direção é o longo ensaio “Uma lembrança de infância de Leonardo da Vinci” (1910). Freud procura resolver os enigmas que a obra de arte coloca por meio da aplicação da teoria que ele construía, aplicando a psicanálise à obra de arte e ao trabalho do artista, ao testar e buscar validar os conceitos.

A propósito, o fenomenólogo francês Maurice Merleau-Ponty, no ensaio “A dúvida de Cézanne” (1945), faz ressalvas a esse uso de Freud, muitas vezes arbitrário, mas também reconhece a sua importância.De acordo com o filósofo, “o sentido de [uma] obra não pode ser determinado por sua vida”. Ao contrário, é a “obra por fazer [que] exigia essa vida”. Assim, “a psicanálise não é feita para nos dar, como as ciências da natureza, relações necessárias de causa e efeito, mas para nos indicar relações de motivação que, por princípio, são simplesmente possíveis”.

Há ensaios em que Freud discute as artes ou o trabalho do artista em que isso fica muito claro. Nesses casos, ocorre uma inversão da acepção majoritária de Freud sobre as artes. Em vez da analogia entre sintoma e trabalho do artista, a analogia se coloca entre o trabalho criativo do artista e as interpretações do psicanalista.

Célebre nesse sentido é a carta de 1922 que Freud endereçou ao escritor Arthur Schnitzler. Nela, o psicanalista confessa encontrar no escritor o seu duplo. Curiosamente, a carta não foi veio a público enquanto Freud esteve vivo, pois de fato revela o seu temor a respeito da aproximação entre trabalho do artista e trabalho do psicanalista. Homem da ciência que foi, sabemos que Freud rompe com ela, mas procura a todo tempo reconciliar-se.

Não deixa de ser fortuito que o único prêmio que recebeu em vida foi o Goethe. Sabemos que em muitos de seus escritos, Freud valeu-se de passagens do escritor alemão. No discurso lido por Anna Freud na ocasião do prêmio (1930), Freud afirma que ter colocado o escritor na “condição de objeto da pesquisa analítica” não significava um rebaixamento. Uma vez mais, são a obra e o trabalho do artista objetos da teoria psicanalítica, que é capaz de esclarecer “o mistério do talento extraordinário que o torna artista”. Freud recebe o prêmio Goethe enquanto homem da ciência…

“Transitoriedade” (1916) é um artigo curto, mas muito importante. Nele encontramos o Freud escritor em sua melhor forma. Com ares proustianos, o pai da psicanálise discorre poeticamente sobre a passagem do tempo. No ensaio, é abordada a temporalidade freudiana do après-coup, segundo a qual as inscrições do vivido são ressignificadas “só depois” de sua ocorrência factual. Eis uma forma interessante de pensar o atravessamento de Freud pelas artes, também ele empreendendo uma série de ressignifcações ao lugar da arte e do trabalho do artista. Ora, ao o procurar desvendar os mistérios da alma humana, Freud nos ensinou que ela é um mistério interminável.

Para ler mais sobre arte e psicanálise, acesse: http://www.atelie.com.br/livro/arte-dor-inquietudes-entre-estetica-psicanalise/

Psicanalista e escritor. Doutor em Psicologia Social da Arte (USP). Autor, entre outros, do ensaio Porvir que vem antes de tudo – literatura e cinema em Lavoura arcaica (Ateliê/Fapesp).

Pulsação viva

 Por: Renato Tardivo

tempo vivo da memoria

Qual é o tempo da memória?

Apressadamente, talvez respondêssemos ser o tempo passado. No entanto, O Tempo Vivo da Memória, livro clássico da Psicologia Social brasileira, escrito por Ecléa Bosi, trata de problematizar essa resposta, desde o título.

O livro reúne diversos ensaios que, tendo a temática da memória como fio condutor, incluem reflexões teóricas, dados de pesquisa de campo, análises de obras de arte e objetos da cultura, estudos sobre a obra de Simone Weil, entre outros.

Não se trata de um livro técnico ou com academicismos. Uma das características comuns a todos os capítulos é a profundidade dos temas que abordam e a simplicidade com que o fazem, de modo que se trate de um livro sobre todos nós e, como escreve José Moura Gonçalves Filho no texto da orelha, “um livro para todos”.

 

O vivido por acontecer

Atentando no início para os aspectos do cotidiano e seu dinamismo, o que os afasta das definições estanques e cronológicas (a que estamos mais acostumados) de História, Ecléa Bosi nos mostra que o tempo da memória não é o tempo morto dos calendários, mas o tempo “de outra história mais densa”, o tempo das pequenas coisas, dos gestos, o tempo que nos une a todos e que, por isso mesmo, escapa a qualquer apreensão definitiva. Com efeito, mais do que acessar o passado, a memória o faz reviver.

Amparada na Psicologia da Gestalt e Bergson, a autora considera que o passado se conserva, mas não de forma homogênea. Uma lembrança, ao virar figura, altera o fundo – o todo de que é parte. E vice-versa.

É assim que, do trabalho dos operários, Ecléa extrai verdadeiras joias: “combinam sob forma nova os fragmentos de matéria de um meio que é anômico, os detrimentos e migalhas da sociedade industrial, imprimindo a esses conjuntos o encanto que só poderia emanar da classe voltada como nenhuma outra para os valores de uso”.

O tempo vivo – portanto, por acontecer – da memória – portanto, vivido – é inapreensível e, concomitantemente, tudo o que temos.

 

Enraizamento e memória

Simone Weil

Simone Weil

Já havia tomado contato com este livro, cuja primeira edição é de 2003 e a segunda de 2004, em outras ocasiões. Fui aluno de Ecléa Bosi em 2002 – tempo em que as ideias a ser publicadas habitavam melodicamente suas aulas –, bem como o lera em 2005, para a seleção do mestrado em Psicologia Social. Nesse sentido, a releitura me trouxe a temática mesma da obra, convidando-me à revivescência de outros tempos.

Ao fim, quando cheguei aos estudos sobre a obra de Simone Weil, ocorreu-me algo que vivi recentemente. Conversava com meus pais sobre os últimos dias de vida do meu avô, talvez minha experiência mais próxima da morte de que tenho memória, e lembrei-me de um sonho que ele teve. Em coma profundo por alguns dias – e desacreditado pelos médicos –, meu avô despertou completamente lúcido. Consumido pelo câncer, ele nos contou um sonho… Estava aprisionado em uma aldeia indígena e, no julgamento que poderia condená-lo à morte, fora absolvido.

Além do sonho, de que também meus pais tinham memória, lembrei-me de que ele despertara com vontade de comer pastel de feira. Evidentemente, trazer um pastel para um paciente terminal feria as regras do hospital, de modo que, não sei se ajudado pelo fato de meu pai, filho dele, ser médico do hospital ou se contando com a compaixão da equipe médica, conseguimos trazer o tal pastel.

Lembro-me da cena: meu avô, pele e osso, mastigando com prazer, como se fosse hoje. Contudo, nem me pai nem minha mãe lembraram-se disso. “Há coisas de que só as crianças se lembram”, disse minha mãe. Em um primeiro momento me irritei: como não se lembravam de algo tão relevante? Sem a comprovação deles, estaria a veracidade de minha memória posta em cheque?

Mas logo me reconfortei no privilégio que ser o guardião do que uma cena como aquela implica: um pedacinho de minhas raízes, à iminência de nos deixar para se tornar memória, pulsando vivo dentro de mim a magia de uma herança por despertar, talvez não muito diferente da experiência de voltar de um coma irreversível.

Forte, feito palavra

Renato Tardivo*

tripe

Tripé é um dos primeiros livros daquele que viria a ser um dos escritores brasileiros mais reconhecidos e premiados de sua geração. Rodrigo Lacerda estreou em 1995 com O Mistério do Leão Rampante, obra que lhe rendeu um Jabuti na categoria Romance (aos 27 anos apenas).

Tripé foi publicado em 1999 e, conforme indicação do título, divide-se em três partes. A primeira traz três textos cujo formato se aproxima da crônica – retratos do cotidiano, falas de crianças, o mundo interno do cronista. Na segunda parte, há duas narrativas inventivamente escritas em formato de roteiro (Teatro? Cinema? Novela? Projeto de romance?), mas que em sua dinâmica avizinham-se do conto e da novela – ambas com fortes traços rodriguianos. A terceira parte traz três textos – desta vez, contos, no sentido forte do termo.

Sabemos que três pontos formam um – e apenas um – plano e que por isso são emblemas de estabilidade, equilíbrio. Nesse sentido, o “tripé” do título não se refere à reunião aleatória de três seções que, bem escritas, poderiam resultar em um projeto equilibrado.

Mais que isso, muito sutilmente e com a habilidade que conheceríamos em seus demais livros, o jovem Rodrigo Lacerda brinca com aspectos estruturais da linguagem, habitando-a por dentro. O tripé perpassa os três pontos.

O último conto sintetiza a tese do livro:

“A consciência dos homens é sustentada por um tripé. O primeiro pé traz a observação da realidade cotidiana, pura e às vezes até prosaica. O segundo é onde a subjetividade de cada um se encontra com o mundo real, distorcendo-o fatalmente. O terceiro é exclusivo dos sonhos e das fantasias, ou dos pesadelos. É este que me prende aqui. Nunca vou poder sair. Tenho um pesadelo que não vai embora.”

Neste conto derradeiro – “Hospital” –, histórias narradas anteriormente retornam, não vão embora. Onde o prosaico e o infantil tornam-se fatalidade, e a fatalidade retorna em fantasias ou pesadelos, resta a certeza: enquanto houver vida, o esqueleto irá se sustentar – sólido, equilibrado, forte – feito palavra.

*Renato Tardivo é escritor, psicanalista, professor universitário e doutor em Psicologia Social pela USP. Publicou, entre outros, os livros Girassol Voltado para a Terra (Ateliê), Do Avesso (Com-Arte/USP) e Silente (7Letras), e o ensaio de Porvir que Vem Antes de Tudo – Literatura e Cinema em Lavoura Arcaica (Ateliê).

Ficções Psicanalíticas

Renato Tardivo*

psi nova temporada

Recentemente, estreou a segunda temporada de Psi, série com texto e direção geral do psicanalista italiano radicado no Brasil, Contardo Calligaris. Embora não se trate de uma série de consultório, como In Treatment (adaptada no Brasil com o título Sessão de Terapia e direção de Selton Mello), a linguagem privilegiada é a psicanalítica.

Os episódios, mais ou menos independentes entre si,se passam em São Paulo e giram em torno de Carlo Antonini (em ótima interpretação de Emílio de Mello), espécie de alter ego do próprio Calligaris. Seu ofício de psicanalista de consultório é abordado, conquanto não incida ali o foco narrativo. Psi reúne situações de clínica extensa, isto é, eventos para além do consultório aos quais a psicanálise tem algo a dizer.

Emílio de Mello interpreta Carlo Antonini

Emílio de Mello interpreta Carlo Antonini

Como em In Treatment, um dos pontos positivos é abordar a humanidade do psicanalista. A tônica da primeira temporada é mais ou menos a seguinte: Antonini demonstra desinteresse pelas histórias (banais) dos pacientes que o procuram, e não titubeia em encaminhá-los para Valentina (Cláudia Ohana), sua colega de ofício, ex-aluna e ex-amante – Valente, como ele a chama, é sua principal interlocutora. Enquanto isso, no outro extremo, o psicanalista se atrai por histórias (surpreendentes) de não pacientes.

Claro está, o público-alvo não são psicanalistas ou psicoterapeutas. Nesse sentido, vale ressaltar que se trata de uma trama de ficção: não há preocupação com a verossimilhança nas histórias. Essa ressalva, contudo, não isenta parte da primeira temporada (sobretudo a primeira metade) do seguinte problema: Antonini, que vê o mundo pela lente da psicanálise, se confunde com um super-herói. Suas interpretações excessivamente didáticas e suas atitudes têm o poder de salvar pessoas, famílias, em suma, de resolver situações complicadíssimas.

Ao longo da segunda metade da primeira temporada, os textos ficam menos afetados. Carlo segue desinteressado pelos sintomas dos clientes – o que talvez equivalha ao bloqueio criativo de um artista –, mas deixa a posição de super-herói e o roteiro passa a explorar também aquilo que ele não dá conta de resolver. Resultado: a série fica mais interessante.

Há mudanças na vida de Antonini na segunda temporada (até o momento em que este texto foi escrito, ela está no quarto episódio), mas a tônica se assemelha à do fim da temporada anterior: roteiros equilibrados e um Carlo Antonini mais humano. Há, ainda, um reforço no time de diretores dos episódios, com nomes como o de Tata Amaral.

Quem está familiarizado com as ficções e, sobretudo, com as crônicas de Contardo Calligaris irá notar semelhanças entre elas e Psi. Com efeito, a série adota uma linguagem que problematiza o cotidiano pela lente da psicanálise, trazendo elementos para refletir a loucura e, principalmente, a normalidade presentes em nossa rotina por uma lógica que subverte o senso comum.

Mas a crença exagerada no poder da psicanálise às vezes enfraquece a trama. Se, em vez de trazê-la em sua vertente iluminista, o roteiro explorasse o potencial ficcional da psicanálise, o resultado poderia ser mais interessante – realidade e ficção, amalgamadas pela psicanálise, compareceriam em equilíbrio, fazendo justiça à premissa de Freud de que nosso psiquismo se constitui enquanto ficção. Essa observação vale para Psi e para as demais ficções de Contardo Calligaris: resultam demasiadamente psicanalíticas.

*Renato Tardivo é escritor, psicanalista, professor universitário e doutor em Psicologia Social pela USP. Publicou os livros de contos Do Avesso (Com-Arte/USP) e Silente (7Letras), e o ensaio de Porvir que Vem Antes de Tudo – Literatura e Cinema em Lavoura Arcaica (Ateliê).

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