Trechos de Livros

Por que leio histórias de amor?

A cliente Eliane Fernandes resolveu participar da Campanha #tempodeler. A seguir, ela compartilha com os leitores do Blog o que a motiva a ler e sua história – recente – de amor pelos livros.

Eliane Fernandes*

Posso dizer que eu leio histórias de amor porque não é difícil admirar e me apaixonar por descrições, situações, personagens e enredos escritos em obras como Iracemade José de Alencar, por exemplo:

“A alegria morava em sua alma. A filha dos sertões era feliz, como a andorinha que abandona o ninho de seus pais e emigra para fabricar novo ninho no país onde começa a estação das flores. Também Iracema achara nas praias do mar um ninho do amor, nova pátria para o coração”.

Neste trecho, o autor usa um simples comparativo para demonstrar algo complexo. O resultado é poético, lindo, romântico.

Eu amo livros desde muito pequena, sempre fui apaixonada por bibliotecas, na escola eu ficava encantada com a quantidade de livros. Mas infelizmente até 2012 os livros não passavam de objetos de decoração, o máximo que eu fazia era ler a contra capa e deixar o livro na estante. Por mais que eu tentasse ler, me dava sono, fome, vontade de ir ao toalete, enfim, nunca conseguia ler.

Uma pequena situação mudou a minha vida. Em dezembro de 2012 eu estava em uma padaria e vi um livro, pedi a meu esposo que me desse de presente e, como resposta, ele disse: “eu duvido que você vá ler este livro. Se eu o levar e você não ler, nunca mais lhe dou outro livro”. Então eu fiz uma contraproposta: “Eu irei ler este livro e a partir de agora vou emendar um livro em outro”. Não sei de onde eu tirei isso, afinal eu não lia nem história em quadrinhos, mas a sorte estava lançada. Lembro que terminei o livro em duas semanas e desde então eu sempre tenho um livro para ler. Cheguei a contabilizar minha leitura do ano de 2014: 35 obras no total, realmente uma superação. Meu esposo? Não tem mais motivos para não me dar livros e nos dias de hoje ele evita passar perto de uma livraria quando estamos juntos, pois, sempre que entramos, saímos com uma coleção nova de livros para eu ler.

O que mais me motivou a ler este tipo de literatura é observar os personagens, as suas descrições, como se comportam, o que querem sem saber que querem.Chega a ser meio investigativo, nunca se sabe o que se passa na cabeça do personagem, ele pode gostar da loira, mas acabar com a morena, é sempre uma incerteza, todos são diferentes e únicos, mas todos querem a mesma coisa, serem felizes. E só se sabe se alcançarão o objetivo quando se lê a última palavra.

Eliane Fernandes

Posso dizer que minha relação com o mundo mudou depois que comecei a ler, hoje consigo perceber a beleza em pequenos gestos como uma flor dada a uma dama sem motivo ou um simples bilhete escrito “Eu te amo” no meio da tarde. Acho simplesmente encantador a conquista antes do primeiro beijo e as trocas de olhares, dos presentes sem motivo, da amizade antes de um grande amor. Aprendi também que depois de um problema ou de uma dificuldade é possível levantar mais forte e principalmente aprender com os erros e ser uma pessoa melhor.

Lendo diversas histórias de amor percebi que a paixão nascida de uma amizade, é mais bonita, mais vivida, mais sincera, verdadeira e duradoura, que de uma amizade sempre pode brotar um verdadeiro amor, que a amizade e o romantismo vão além de tudo, até mesmo além dos livros, onde para a mulher é possível ter um esposo, amigo, amante e companheiro em uma mesma pessoa, assim como para os homens é possível ter várias mulheres em uma só.

Não posso dizer que já li todos os livros do mundo, nem estou perto disso, mas posso dizer que a pequena quantidade de histórias lidas, não só de amor,  fizeram com que eu visse a vida de uma forma diferente.Meu modo de pensar sobre o amor mudou, assim como minha forma de falar, meu vocabulário está mais amplo. Meu senso crítico melhorou consideravelmente, minhas argumentações estão cada vez mais ricas e coerentes. Ler me proporcionou uma nova visão de vida e espaço, me proporcionou uma conquista externa e principalmente uma conquista interna: eu consigo me expressar melhor, escrever melhor e viver melhor. É muito gratificante terminar uma coleção de 3, 4, 5 ou 10 livros e começar outros.

É emocionante imaginar os personagens, sofrer junto com eles e perceber que as histórias são simples histórias, mas se forem lidas com paixão e de coração aberto, percebemos que são na realidade histórias como a nossa. Histórias que inspiram, ensinam, emocionam.

 

* Filha mais velha de uma família simples da capital da cidade de São Paulo, terminou o ensino médio em 2005. Formada em Ciências Econômicas, especializada em Finanças e prestes a tornar-se especialista em Perícia Criminal e Ciências Forenses.

Março, mês da poesia (seleta)

Março é o mês da poesia. No dia 14 é comemorado o Dia Nacional da Poesia, em homenagem ao nascimento de Castro Alves. No dia 21, celebra-se o Dia Mundial da Poesia, instituído pela UNESCO, em 1999, para promover a leitura, escrita, publicação e ensino da poesia através do mundo. A data lembra da importância da diversidade do diálogo, da livre criação de ideias através das palavras, da criatividade e da inovação e tem como propósito estabelecer uma reflexão sobre o poder da linguagem e do desenvolvimento das habilidades criativas de cada pessoa. Por isso, hoje, no Blog, alguns autores da Ateliê indicam a leitura de poemas de seus mais recentes livros:

Renato Tardivo (Girassol Voltado para a Terra)

grassol

Canção

                                        caminhava pernas fracas pisando

teclas riscando notas na terra a embalar a vida que a espe-

rava uma oitava acima, qualquer

 

Ponteiro

Às vezes o passado. Às vezes, o passado. Às vezes o, passado.

 

Ida

O medo de que o outro se apaixone como lembrança
encobridora de] se apaixonar como lembrança encobridora
de amar a si mesmo sobre todas as coisas como lembrança encobridora do desejo de
morrer.

Ricardo Lima (Desconhecer)

desconhecer

p.17

admito não saber
onde anda o futuro

dedico dias inteiros
às asas cruas do filho que aprende a nadar
planto
rego
retiro ervas daninhas

a manhã traz pássaro
que se esborracha no vidro
a acácia
refletida em estilhaços
retumbante amarelo.

 

p.21

quando um amigo se vai
o silêncio que amplia a sala
a sirene que traga os doentes
a dor que interrompe a crença
tudo seca num vaso

olhos desertam
em contos incompletos
sobre o passo que vacila
uma árvore frondosa
na plenitude da primavera
amanhece
flor
mas o amigo se foi.

 

p.47

não tenho mais olhos para dicionário

as letras ficaram pequenas

o sentido frágil
agora outros compromissos

com amigos ausentes

em jantares e missa

 

vivo

entre livros

e árvores

em nenhum

respostas ou raposas
quase sempre um cão em silêncio
e a alma colhe

lugares

que nunca

olhei.

 

Marise Hansen (Porta-retratos)

portaretrato

Passo à palavra
Passo
À palavra
Peço

        Me refugio
Na palavra
Me alivio

Me liberto
Na palavra
Me desperto

            Falo
Pela palavra
Espero
Apelo
Para a palavra
Paro

Koan
Entre a poesia do dia a dia e a da filosofia

Fico com o sonho

Da padaria.

Inverso
Escrever em verso
é criar ritmo até então
inexistente neste (pelo menos)
universo.

Criar consórcio
entre palavras entre
outras, divórcio.

Usar a roupa do avesso
e descobrir
ser inverso o lado certo.

Ter compromisso com o partido
do conciso e com a total falta
de juízo.

Wassily Chuck (Rumo à Vertigem ou A Arte de Naufragar-se)

 Capa

A Celan

Nessa viagem, nenhuma bagagem, além

do vazio na concha das mãos.

 

Deixa tua fala

para trás, tua última

máscara,

e sente

a carência de ser,

o vazio

que germina

e há de ser tua voz. Sete

sonos mais dentro, vem

um verso junto

ao mar.

 

 

Quase Elegia

Toda voz que morre escorre para o mar.

 

 

Tudo se foi, até o que virá, levado

pelo sopro que vem do mar. Mas,

só é belo o dia porque finda.

Também o vento. Também

a vida. Vê:

não há poemas no eterno. Só

nasce a beleza no instante,

que, leve, se equilibra

entre o erguer e o quebrar

da onda. Nasce

com as cores do adeus. Nasce

para morrer. Como o dia

e o homem. Como a vida. Vê:

toda beleza é triste. E um resto

de verso, ao lado da voz,

insiste em ficar, feito

um consolo, talvez,

da vida pouca que há na vida,

da morte muita que há também,

um resto de verso

consolando

da tristeza de todo verso, da vida

que nunca basta, sempre o sonho

a completá-la, o sonho

que é sempre a vida.

 

Tübingen 

Do convés da alma, avistas vazios

que não podes nomear.

 

Repouso algum, sob um céu

que não mais dá frutos –

o ponto em torno ao qual

gravita o verso

agora está

no vento. Sobre

o Neckar,

a voz ainda vagueia

atrás do vento, distraindo,

sem ver, a solidão

dos campos.

Os Manuais de Desenho da Escrita, título da coleção Artes do Livro, estuda a evolução do percurso tipográfico

"Os Manuais de Desenho da Escrita", de Maria Helena Werneck Bomeny

Depois da invenção da escrita, a invenção da tipografia é considerada como o avanço mais importante da civilização, pois permitiu a expansão da palavra escrita em escala global. A letra é a unidade básica da escrita alfabética, parte fundamental do sistema de comunicação universal. Ela passou e continua passando por constantes adaptações às novas tecnologias, que implicam em alterações formais de seu desenho. Ao longo de séculos, sua configuração visual sempre foi determinada pela criatividade do designer e pela busca permanente de formas de letra mais simples e rápidas, no intuito de acelerar sua execução e leitura.

Os Manuais de Desenho da Escrita, oitavo título da Coleção Artes do Livro, da Ateliê Editorial, oferece uma análise das letras no aspecto particular de seu desenho, principalmente em suas relações com os suportes em que elas eram impressas ou gravadas.

O ponto de partida de Maria Helena Werneck Bomeny é a releitura dos principais manuais de desenho da escrita de quatro épocas consideradas renovadoras: o Renascimento, da chancelesca de Ludovico degli Arrighi (1522); o Neoclássico e a tipografia de Giambattista Bodoni (1818); as vanguardas do século XX e os traba- lhos/manifestos de Jan Tschichold (1928) e, finalmente, o Estilo Internacional ou Suíço e a obra de Emil Ruder (1967).

Estes manuais representam verdadeiras compilações das essências conceituais mais significativas de cada período. São testemunhos fundamentais do desenvolvimento da escrita e da maneira de se apresentar uma mensagem a um leitor. Estudando-os, torna-se possível entender e interpretar a evolução conceitual, formal e tecnológica que aconteceu no percurso tipográfico e quais os vínculos formais criados entre os processos caligráficos, tipográficos e digitais.

Maria Helena Werneck Bomeny é graduada em Artes Plásticas pela Fundação Armando Álvares Penteado, mestre e doutora pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo. É professora de design gráfico da Escola Panamericana de Artes e do Centro Universitário Senac. 

Acesse o livro no site da Ateliê

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Importante obra do concretismo brasileiro foi recentemente reeditada: “Viva Vaia – Poesia 1949-1979”, de Augusto de Campos

"Viva Vaia", de Augusto de Campos

Clique na imagem para ver o encarte ampliado

"Viva Vaia" – Augusto de CamposLançada em 2001, a Ateliê Editorial publica nova edição do livro Viva Vaia, de Augusto de Campos, revisada e com a ortografia atualizada, considerada pelo poeta a edição mais completa dessa sua obra.

“Esta coletânea da minha poesia, abrangendo três décadas, teve sua primeira publicação em 1979 com a chancela da Editora Duas Cidades. Até então, meus poemas só haviam aparecido em livro em publicações de autor. Houve uma segunda edição em 1986, pela Editora Brasiliense. E mais quinze anos se passaram. A edição que agora oferece ao público a Ateliê Editorial é, de todas, a mais completa”. (Augusto de Campos, 2001)

Com projeto gráfico original, de Julio Plaza, essa edição devolveu a impressão cromática a alguns poemas como os “popcretos” Olho por OlhossO Anti- Ruído, e Goldweater, que foram expostos na Galeria Atrium, em 1964, juntamente com os quadros-objetos de Waldemar Cordeiro. Originalmente construídos com colagens de recortes de jornais e revistas, em dimensões de cartaz, e montados em chassis de madeira para a mostra, esses poemas não são fáceis de reproduzir.

As marcas do tempo e a grande redução a que têm de ser submetidos para se amoldarem às dimensões do volume tornam difícil a impressão. Mas com recursos digitais e fotográficos foi possível melhorar a sua reprodução e incluir o quarto poema da exposição dos “popcretos”, Goldweater, que faltou nas edições anteriores e, mesmo em preto e branco, também o Olho por Olho.

Por sua capacidade de sintetizar alguns princípios fundamentais da poesia concreta e de atingir o impacto almejado pelo movimento concretista, Viva Vaia se tornou a principal obra na carreira do autor. Este volume contém um encarte com o poema-objeto “Linguaviagem”, e traz ainda o cd Poesia é Risco, que contém quinze poemas musicados por Cid Campos, filho do autor.

Acesse o livro “Viva Vaia” no site da Ateliê

 

Robert Creeley

André Caramuru Aubert | Jornal Rascunho | Maio de 2014

A Um – Poemas, de Robert CreeleyO poeta norte-americano Robert Creeley (1926-2005) é, entre seus conterrâneos e contemporâneos, um dos mais conhecidos (ou menos desconhecidos) no Brasil. Além da qualidade de sua obra, talvez tenha ajudado, para isso, o fato de Creeley ter estado em São Paulo e conhecido alguns de nossos poetas. O fato é que ele deixou por aqui alguns admiradores importantes, como Ruy Vasconcelos e, principalmente, Régis Bonvicino, editor e tradutor de uma excelente coletânea brasileira (A UM, Poemas. Ed. bilíngue, Ateliê Editorial, 1997).

Ainda assim, diante de tudo o que Robert Creeley produziu, o que temos dele em português é muito pouco. Os quarenta e um poemas presentes em A UM, embora bastante representativos (são uma mistura de sugestões do próprio autor com os prediletos do tradutor), não passam de uma gota no oceano diante de alguém que escreveu continuamente por cerca de sessenta anos, e cuja obra completa, em inglês, espalha-se em dois volumes com mais de mil e duzentas páginas no total.

Creeley é uma unanimidade. Discípulo de William Carlos Williams e admirado por este, foi um líder do grupo Black Mountain, embora sua poesia muitas vezes ficasse distante da de outros membros. Elo de ligação entre os Beats e os poetas da San Francisco Renaissance, e entre os grupos de Nova York e da Califórnia, ele conseguia circular com desenvoltura entre poetas como Jack Kerouac e Allen Ginsberg, de um lado, e Charles Olson e Denise Levertov, de outro. Conhecido por sua generosidade, Creeley gostava de dar aulas e não se cansava de orientar novos poetas. Em função da combinação de sua personalidade com uma produção rigorosa e intensa, Creeley foi influente como talvez nenhum outro poeta de sua geração. Segundo alguns, um “poeta de poetas” por excelência.

A temática de Robert Creeley, como bom discípulo de W. C. Williams, gira primordialmente em torno das pequenas coisas, de cenas do cotidiano, de rápidas impressões de viagem. Econômico e preciso, suas quebras de linha são únicas. Embora afirmasse que, em poesia, a forma deveria se subordinar ao conteúdo, poucos poetas contemporâneos são mais formalmente rigorosos do que ele. Creeley possuía, segundo Williams, “o mais sutil sentido da medida desde Ezra Pound”. O que faz com que, estruturados a partir de um íntimo conhecimento dos sons, da respiração e dos ritmos da língua inglesa, os poemas de Creeley sejam muito difíceis de traduzir, especialmente para uma língua tão diferente da dele quanto é o português (Régis Bonvicino já chamava a atenção para isso na introdução a A UM). Mas penso que, apesar dos percalços e das limitações no resultado final, o esforço vale a pena, tanto para quem traduz quanto para quem lê.

Para esta introdução a Robert Creeley, procurei incluir alguns poemas de cada uma das etapas de sua carreira. Evitei apenas os que já haviam aparecido em português, especialmente na seleção de Régis Bonvicino (mesmo sabendo que ali estão algumas das mais belas composições de Creeley) porque, se por um lado eu não poderia pretender fazer uma tradução melhor, por outro, afinal de contas, eles já estão disponíveis em livro, em português. 

RETURN
Quiet as is proper for such places;
The street, subdued, half-snow, half-rain,
Endless, but ending in the darkened doors.
Inside, they who will be there always,
Quiet as is proper for such people —
Enough for now to be here, and
To know my door is one of these.

RETORNO
Silenciosa como é próprio para lugares assim;
A rua, calma, meio neve, meio chuva,
Sem fim, mas terminando nas portas escuras.
Dentro, aqueles que estão sempre lá,
Silenciosos como é próprio para pessoas assim —
Bastando por ora estar ali, e
Saber que a minha porta é uma destas.

MIDNIGHT
When the rain stops
and the cat drops
out of the tree
to walk

away, when the rain stops,
when the others come home, when
the phone stops,
the drip of water, the

potential of a caller
any Sunday afternoon.

MEIA-NOITE
Quando a chuva para
e o gato desce
da árvore
para sair

andando, quando a chuva para,
quando os outros voltam pra casa, quando
o telefone para,
os pingos d’água, a

possibilidade de um telefonema
uma tarde de domingo qualquer.

FOR HELEN
… If I can
remember anything, it
is the way ahead
you made for me, specifically:

wet-
ness, now the grass
as early it
has webs, all the lawn
stretched out from
the door, the back
one with a small crabbed
porch. The trees
are, then so high, a huge encrusted
sense of grooved trunk,
I can
slide my finger along
each edge.

PARA HELEN
… Se eu posso
me lembrar de algo, é
do caminho que
você abriu para mim, especificamente:

umi-
dade, agora a relva
como mais cedo, tem
teias, todo o campo
estendido para além da
porta, a de trás
para um pequeno, insignificante
alpendre. As árvores
estão, então, tão altas, um forte sentimento de
incrustrados e adequados troncos,
eu posso
deslizar meu dedo por
cada ponta.

AS YOU COME
As you come down
the road, it swings
slowly left and the sea
opens below you,
west. It sounds out.

ENQUANTO VOCÊ VEM
Enquanto você vem
pela estrada, ela vira
lentamente à esquerda e o mar
se abre abaixo de você,
a oeste. Isso se mostra.

THEN
Don’t go
to the mountains,

again — not
away, mad. Let’s

talk it out, you
never went anywhere.

I did — and here
in the world, looking back

on so-called life
with its impeccable

talk and legs and breasts,
I loved you

but not as some
gross habit, please.

Your voice
so quiet now,

so vacant, for me,
no sound, on the phone,

no clothes, on the floor,
no face, no hands,

— if I didn’t want
to be here, I wouldn’t

be here, and would
be elsewhere? Then.

ENTÃO
Não vá
para as montanhas,

de novo — não
embora, zangada. Vamos

resolver isso, você
nunca foi a lugar algum.

Eu fui — e aqui
no mundo, olhando para trás

na assim chamada vida
com suas impecáveis

conversas e pernas e seios,
eu amei você

mas não enquanto algum
hábito grosseiro, por favor.

Sua voz
tão quieta agora,

tão vazia, para mim,
nenhum som, no telefone,

nenhuma roupa, no chão
nenhuma face, nem mãos,

— se eu não quisesse
estar aqui, eu não estaria

aqui, e estaria
em outro lugar? E então.

SEA
Ever
to sleep,
returning water.

*

Rock’s upright,
thinking.

*

Boy and dog
following
the edge.

*

Come back, first
wave I saw.

*

Old man at
water’s edge, brown
pants rolled up,
white legs, and hair.

*

Thin faint
clouds begin
to drift over
sun, im-
perceptibly.

*

Stick stuck
in sand, shoes,
sweater, cigarettes.

*

No home more
to go to.

*

But that line,
sky and sea’s,
something else.

*

Adios, water —
for another day.

MAR
Sempre
para dormir,
a água voltando.

*

As rochas à direita,
pensando.

*

Garoto e cachorro
seguindo
pela beira.

*

De volta, a
primeira onda que vi.

*

Um velho na
beira d’água, calças
marrons enroladas nas pernas,
pernas brancas, e cabelos.

*

Leve desmaio
nuvens começam
a vaguear por sobre
o sol, im-
perceptivelmente.

*

Galho preso
na areia, sapatos,
agasalho, cigarros.

*

Sem uma casa mais
para onde ir.

*

Mas aquela linha,
de céu e mar,
alguma coisa a mais.

*

Adiós, água —
até um outro dia.

FIRST RAIN
These retroactive small
instances of feeling

reach out for a common
ground in the wet

first rain of a faded
winter. Along the grey

iced sidewalk revealed
piles of dogshit, papers,

bits of old clothing, are
the human pledges,

call them, “We are here and
have been all the time.” I

walk quickly. The wind
drives the rain, drenching

my coat, pants, blurs
my glasses, as I pass.

PRIMEIRA CHUVA
Estas pequenas e retroativas
instâncias do sentimento

alcançam um terreno
comum na umidade

primeira chuva em um
desbotado inverno. Ao longo do cinzento

e gelado meio-fio revelam-se
pilhas de cocô de cachorro, papéis,

pedaços de roupas velhas, são
os rastros humanos,

chame-os, “nós aqui estamos e
estivemos por todos os tempos.” Eu

caminho ligeiro. O vento
conduz a chuva, encharcando

meu casaco, calças, borra
meus óculos, enquanto eu passo.

HOTEL
It isn’t in the world of
fragile relationships

or memories, nothing
you could have brought with you.

It’s snowing in Toronto.
It’s four-thirty, a winter evening,

and the tv looks like a faded
hailstorm. The people

you know are down the hall,
maybe, but you’re tired,

you’re alone, and that’s happy.
Give up and lie down.

HOTEL
Não está no mundo dos
relacionamentos delicados

ou memórias, nada que
você possa ter trazido com você.

Está nevando em Toronto.
São quatro e meia, uma tarde de inverno,

e a tv parece uma opaca chuva de
granizo. As pessoas que você

conhece estão lá embaixo, no saguão,
provavelmente, mas você está cansado,

você está só, e isso é bom.
Desista, e deite-se.

HERE
Up a hill and down again.
Around and in —

Out was what it was all about
but now it’s done.

At the end was the beginning,
just like it said or someone did.

Keep looking, keep looking,
keep looking.

AQUI
Colina acima, e abaixo novamente.
Em volta dela e para ela —

Fora estava tudo o que contava
mas agora está terminado.

No final estava o começo,
como se costuma dizer ou alguém disse.

Fique olhando, fique olhando,
fique olhando.

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Chuva de dúvidas

Bruno Molinero | Folha de São Paulo | 29 de março de 2014

"Contos da Nova Cartilha – Segundo Livro de Leitura", de Liev TolstóiUm rato vivia embaixo de um celeiro e se alimentava de restos de comida que caíam por um buraquinho no chão. Certo dia, ele decidiu aumentar o tamanho do furo. Um camponês, porém, percebeu o grande buraco e decidiu tapá-lo.

Essa é uma das histórias que o escritor russo Liev Tolstói (1828-1910) contava para crianças que estudavam na escola que ele mantinha em sua propriedade. Os textos agora estão reunidos em Contos da Nova Cartilha – Segundo Livro de Leitura, que tem também um outro volume a ser lançado.

Mas o que a história do rato quer dizer? Que é ruim ter o olho maior que a barriga? Ou que é melhor não chamar a atenção? As histórias não trazem uma conclusão. Ao contrário: inundam a cabeça de dúvidas. É da troca de ideias que o escritor acreditava nascer a educação.

E tudo isso sem ser cansativo. Tolstói para crianças é bem diferente do que adultos estão acostumados: suas fábulas são curtinhas, ao contrário de seus romances famosos, que podem ter mais de mil páginas.

Os alunos de uma escola da Rússia que o digam. Após lerem os contos, mais de cem anos depois de escritos, eles os ilustraram. São esses desenhos que dão cor às páginas do novo livro.

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Leia a resenha de Renato Tardivo sobre o livro

Veja mais ilustrações do livro

Ilustração de Mikhail Morósov, 14 anos

Ilustração de Ksiucha Melnitchenko, 14 anos

 

 

 

Ilustrações do livro Contos da Nova Cartilha – Segundo Livro de Leitura – Vol. 1

Neste Dia Internacional do Livro Infantil selecionamos do livro algumas das belas ilustrações feitas por crianças russas a partir das narrativas escritas por Liev Tolstói

Escrito por Liev Tolstói e ilustrado pelas crianças da Escola Infantil de Artes n. 9, da cidade de Ijevsk, na Rússia, este livro traz 38 narrativas baseadas em fábulas, histórias reais, contos folclóricos e outros textos que eram usados em sala de aula na escola rural criada pelo escritor russo. Preocupado com a educação das crianças e dos pequenos camponeses, Tolstói produziu muitos livros de histórias para crianças e cartilhas. Leia o release

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Leia a resenha sobre o livro escrita por Renato Tardivo

Ilustração do livro "Contos da Nova Cartilha – Segundo Livro de Leitura – Vol. 1" Ilustração do livro "Contos da Nova Cartilha – Segundo Livro de Leitura – Vol. 1" Ilustração do livro "Contos da Nova Cartilha – Segundo Livro de Leitura – Vol. 1" Ilustração do livro "Contos da Nova Cartilha – Segundo Livro de Leitura – Vol. 1" Ilustração do livro "Contos da Nova Cartilha – Segundo Livro de Leitura – Vol. 1"

50 letras, sem tirar nem pôr

Marcelino Freire | Folha de São Paulo | 17.11.2013

Os Cem Menores Contos Brasileiros do SéculoDALTON TREVISAN NÃO poderia faltar. Pus no juízo: vou atrás, insisto, me rastejo, ínfimo. Uma antologia de microcontos não ficaria completa sem ele. Mestre da concisão. Alto Dalton. Máximo, grande. Mas ele vive recluso, não dá as caras. Eu não desisto. O ano era de 2004. Muito antes do Twitter. Resolvi criar a antologia Os Cem Menores Contos Brasileiros do Século (Ateliê Editorial). Uma referência à organizada pelo Italo Moriconi, “Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século“. Ao Italo, pedi a assinatura de um microprefácio. Que ele generosamente fez. Em 50 palavras. Os contos, esses não, teriam de ter até 50 letras. Sem contar o título. Isso, inspirado que fui pelo microconto mais famoso do mundo, o do guatemalteco Augusto Monterroso. Uma história de 37 letrinhas, a saber: “Quando acordou, o dinossauro ainda estava lá”. Toparam participar Sérgio Sant’Anna, Adriana Falcão, João Gilberto Noll, Manoel de Barros, Modesto Carone, Andréa DeI Fuego, Glauco Mattoso…

Lygia Fagundes Telles escreveu um, genial, só em diálogos: “- Fui me confessar ao mar. / – E o que ele disse? / – Nada.”.

Maravilha!

Mas faltava o Dalton.

Até o Millôr Femandes topou – esse, antigo seguidor dos microformatos. Com Millôr foi relativamente fácil. Eu já tinha estado com ele no Rio para um papo raro. Cheio de humor e irreverência. Ligou-me para se certificar: “Até 50 letras, sem contar o título, é isto?”. É isto, Millôr. E não é que ele me mandou um conto em contadinhas 50 letras? No entanto, o título era imenso. “Fiz o que você me pediu, não fiz?”

Fez, sim, fez.

Mas repito: faltava a presença do Vampiro de Curitiba. Eu havia mandado uma carta para ele. Havia mais de um mês.

Esperei, esperei. Noventa e nove escritores já reunidos. O livro todo diagramado. Organizado por ordem alfabética. Na letra “D”, antes de Daniel Galera, deixei o espaço vago.

Qualquer coisa, se o Dalton não me responder, eu invento um autor:

Dalvan Trigueiro. Faço uma homenagem, sei lá, à revelia. E mando o livro para a gráfica, entristecido.

O tempo ficando miúdo. A esperança é a última que chega. Em cima da hora. Eis que recebo um envelope. E, dentro, o conto, também em diálogos: “- Lá no caixão…/ – Sim, paizinho./ -… não deixe essa aí me beijar”.

E eu quase morro.

Dalton Trevisan é desses escritores que me deixam sem fôlego. É ele em que me espelho quando coloco minhas neuroses na página. Gosto de suas obsessões. Inquietações. A cada livro seu, uma surpresa. Dalton escreve na velocidade da luz.

Não se engane. Ele não é só o “dono” de um estilo rápido. Vupt, vapt. Dalton escreve à velocidade da sombra. Vai sempre longe.

E foi assim.

A antologia finalmente saiu. Até hoje é referência para quem quer estudar as narrativas curtas. Foi trabalho, fiquei sabendo, inédito no mundo, à época: esse de reunir tantos autores, de uma vez só, escrevendo “enormemente menor”.

A todos, até hoje agradeço. Sobretudo aos que já se foram: Moacyr Scliar, Manoel Carlos Karam, Alberto Guzik, Wilson Bueno. E idem ao sempiterno Millôr.

E essa antologia também me deu, ave, a amizade do Dalton. De quando em quando, assim, a gente se fala. Via correios.

O contato mais surpreendente foi pouco antes de ele ganhar o Prêmio Camões, em maio de 2012. Enviei a ele o meu livro de contos “Amar É Crime” (Edith).

Recebi, em troca, “O Anão e a Ninfeta“, com a seguinte dedicatória:

“Ao Marcelino Freire, com a muita admiração do seu leitor fiel”.

Dedicatória Dalton Trevisan

E eu quase morro. De novo. Em saber que ele se diz o meu “leitor”. Eu que aprendi a ler com ele. Nas entrelinhas. E continuo a apreender.

E a me surpreender.

A dedicatória do Dalton, por exemplo, tem exatas 50 letras. Sem tirar nem pôr. Pode crer.

Acesse o livro Os Cem Menos Contos Brasileiros do Século

Conheça os livros de Marcelino Freire publicados pela Ateliê

Vídeo do livro Edição e Revolução: Leituras Comunistas no Brasil e na França

Marisa Midori Deaecto e Jean-Yves Mollier (orgs.)

Edição e Revolução: Leituras Comunistas no Brasil e na FrançaEdição e Revolução foi inspirado nos jovens leitores. Nesta nova geração que aprendeu rápido a lidar com diferentes mídias, sem, contudo, ignorar o poder deste objeto que nos seus mais de dois mil anos de existência foi alvo de censuras, fogueiras, rebeliões e revoluções. Bastando lembrar que ele mesmo, o livro, vivenciou suas próprias revoluções. A batalha do livro se situa, portanto, na luta pela renovação do próprio objeto e na manutenção de sua aura transformadora. Dupla missão que se delega às novas gerações, sem, contudo, olvidar o tempo que passou. Assim o amor aos livros, motor de tantas batalhas. Assista o vídeo:

Participe do lançamento em São Paulo, sábado, 26 de outubro

Leia o release do livro

Uma caixinha de surpresas

Revista Superpedido | Agosto/setembro 2013

Em Clichês Brasileiros, o designer e escritor Gustavo Piqueira segue desafiando as possibilidades do livro impresso – desta vez, em uma edição que não tem capa tradicional nem lombada 

Gustavo Piqueira, autor de "Clichês Brasileiros"Com um trabalho notável à frente da Casa Rex, seu estúdio com sedes em São Paulo e em Londres que conquistou centenas de prêmios de design gráfico em todo o mundo, Gustavo Piqueira é nome obrigatório em qualquer seleção de artistas visuais que se escale no país. Mas que ninguém tente restringir seu jogo para apenas uma fatia do gramado: ele é daquele tipo de atleta que gosta de atuar em todas. Apaixonado por livros, Piqueira encontrou no mercado editorial um campo ideal para dar vazão à sua fecunda criatividade. Seja como escritor, tradutor, ilustrador ou até mesmo organizador de coleções, este craque tem produzido um elenco de obras que, por mais heterogêneas que pareçam, tem como fio condutor uma sólida e marcante característica: o inesperado.

Responsável por títulos tão díspares como o fictício Marlon Brando Vida e Obra, o irônico Manual do Paulistano Moderno e Descolado e o juvenil A Vida sem Graça de Charllynho Peruca, entre outros, ele volta a inovar com Clichês Brasileiros, lançamento da Ateliê Editorial. Desta vez, utilizando-se somente de imagens de um antigo catálogo de clichês tipográficos – matrizes outrora usadas para impressão –, o autor criou uma narrativa visual única. Aproveitando o duplo sentido do termo, conta a história do Brasil por meio de nossos clichês – desde os mais antigos, como os estereótipos da chegada dos portugueses e da catequização dos índios, até os da atualidade, caso dos engarrafamentos nas cidades e os condomínios fechados (confira na página seguinte algumas dessas imagens).

Porém, não é apenas aí que o livro surpreende. Depois de fixar um espelho na capa de sua obra anterior, Iconografia Paulistana, Gustavo Piqueira concebeu um livro sem capa nos moldes tradicionais – há apenas uma lâmina de madeira impressa em serigrafia, afixada na guarda com uma fita adesiva personalizada. Além disso, a lombada tem a costura exposta. Delírio de designer? Nada disso. “A ideia é expandir as possibilidades de um livro impresso em sua dimensão de objeto, mas mantendo um conteúdo que se sobrepõe à forma”, explica o paulistano, revelando sua preocupação em não se deixar levar apenas pelo lado visual. “Muitas vezes esses ‘livros-objetos’ não primam pela riqueza do assunto abordado, de tão preocupados que estão com a exuberância visual em si.”

Para essas obras, Piqueira também busca soluções que possibilitem tiragens industriais, a fim de colocar o livro na prateleira das livrarias. Afinal, em sua opinião, ao contrário do que muitos vaticinam, a edição impressa ainda tem um longo papel a cumprir. “Não acho que o livro digital seja ‘o’ futuro do livro. É ‘um dos’ futuros, não dá para cair nesse fatalismo de que o impresso irá morrer. Meus trabalhos recentes, como Clichês brasileiros e lconografia Paulistana, por exemplo, não funcionariam em versão digital.” Independente de qualquer prognóstico, Gustavo Piqueira está fazendo sua parte: já finalizou mais uma obra, que deve ser impressa ainda neste ano, e se prepara para começar novos projetos. Os assuntos? Melhor aguardar. Afinal, ao menos quando se trata de livros, este palmeirense é uma verdadeira caixinha de surpresas.

Acesse o livro na loja virtual da Ateliê

Assista a entrevista com o autor durante o lançamento do livro

Ilustração do livro: "Clichês Brasileiros"

Ilustração do livro "Clichês Brasileiros"