Leitura

16/06: Bloomsday

Por Renata de Albuquerque

Todo dia 16 de junho é celebrado por quem é apaixonado por literatura e livros. Nesse dia é comemorado, ao redor de todo o mundo, o Bloomsday. Instituída na Irlanda, a data homenageia Leopold Bloom, o protagonista de Ulisses, de James Joyce, que durante o dia 16 de junho de 1904 revive em Dublin, a clássica odisseia de Homero.

Mas, Leopold Bloom vive sua odisseia em um romance realista, ambientado no século XX. As figuras mitológicas são representadas por pessoas comuns e as batalhas épicas são episódios do dia a dia. Nem por isso o livro é menos interessante. As experimentações estéticas e de linguagem que Joyce propõe em Ulisses ainda fazem deste um dos livros mais instigantes da história da literatura. Alguns o consideram hermético, complexo e difícil de ler. Outros, o tomam como um desafio.

“Joyce Era Louco?” enfoca a obra do escritor irlandês

A complexidade da obra de James Joyce é tamanha que ela talvez seja uma das mais estudados do mundo. Ulisses foi construído com recursos até então inéditos – mas posteriormente usados largamente na ficção moderna – como o discurso interior, a fragmentação da estrutura do romance e a alternância do foco narrativo.

Antônio Houaiss, Bernardina Pinheiro e Caetano Galindo traduziram a obra para o português. São trabalhos hercúleos, cujo legado é a possibilidade de cruzar referências e oferecer ao leitor como um todo um panorama riquíssimo daquilo que, para muitos, é “intraduzível”.

Não há uma data exata que marque o início das comemorações do Bloomsday. A  celebração do “Dia de Bloom” pode ter começado em 1924 ou 1925, quando amigos de James Joyce – que lançara o livro em 1922 – fizeram uma festa para o escritor, que, então, passava por dificuldades. Outra versão indica que a data passou a ser lembrada no fim dos anos 40, após a morte do irlandês. Mas, a hipótese mais aceita dá conta de que a celebração tenha se iniciado em 1954, data do aniversário de 50 anos do dia retratado no romance.

O fato é que o Bloomsday é hoje celebrado pelo mundo todo, com leituras de trechos do livro, em festas com encenações e bebida. Enquanto isso, James Joyce continua instigando leitores e críticos com sua obra universal.

Conheça alguns títulos sobre James Joyce

Enquanto eu lia

Eliane Fernandes*

Você que é viciado em ler, assim como eu, já percebeu que quando estamos lendo acontecem coisas não programadas? Parece que o universo conspira contra nossa leitura!O telefone que toca –  e é sempre aquela pessoa que fala mais que tudo no mundo; o marido resolve conversar sobre a relação ou a educação dos filhos. Ele teve a hora do jantar toda ou o caminho pra casa, mas é só pegar um livro que o assunto brota. O cachorro que pede atenção, muitas vezes latindo, subindo no colo e, nos casos mais desesperadores, roubando o livro da sua mão; a mãe que quer mostrar uma receita nova que ela resolveu fazer no almoço de domingo ou aquela sede momentânea que dá mesmo que você tenha acabado de beber alguma coisa.

Quando não se tem o costume de ler, existem muitas barreiras a serem conquistadas. No meu caso, a concentração foi o maior desafio. Eu começava a ler e logo estava pensando na roupa que usaria no dia seguinte; no que comeria no jantar ou coisas assim.

Mas o que mais me lembro é das situações inusitadas que minha falta de concentração observava. Eu leio muito no ônibus. No inicio, como não conseguia me concentrar, minha mente vagava pelas ruas junto com o ônibus. Muitas vezes, nós mesmos nos boicotamos. Um livro que hoje leio em 3 dias, eu levava 10 ou 15 dias pra concluir. Como eu superei isso? Treino. Muito treino. Eu lembro que eu me perdia no meio da leitura e tinha que voltar do começo. Qualquer barulho tirava minha concentração. Hoje eu leio com fone de ouvido. Parece estranho, mas eu nunca lembro o que eu ouvi, porque eu entro de uma maneira nas páginas que me esqueço do mundo.

Mas, mesmo assim, algumas situações tiram a concentração.Eu leio a caminho do trabalho e na volta para casa. Independente do que estou lendo, as pessoas me olham como se estivesse fazendo algo anormal. Só avisando: Ler é normal! Outro dia, estava eu no ônibus e um senhor passou a catraca e foi procurar assento. Quando passou por mim, ele percebeu que estava com um livro. Em vez de perguntar qual era o nome do livro ele simplesmente parou do meu lado e tentou ler o título, só que para isso ele esqueceu de se segurar e o ônibus estava em movimento. Resultado: o senhor quase caiu. Se tivesse perguntado nada disso teria acontecido, mas enfim, são situações que não pedimos para acontecer, são situações que acontecem e nos fazem pensar.

Primeiro que a cultura brasileira não é de incentivo a leitura e a segunda é que muitas pessoas têm dificuldade de aceitar as pessoas lendo em público. Por outro lado, quem gosta de ler se congrega. Ler livros pode ser fonte de amizade. Por diversas vezes eu fui à livraria e sempre tem alguém que se aproxima perguntando qual obra estou levando. Isso já basta pra trocar contatos e manter uma conversa sobre livros. Depois que eu comecei a ler eu descobri que as pessoas a minha volta também leem, e é muito legal pois trocamos experiências e livros. De certo modo os livros me aproximou mais das pessoas. E sou grata por isso.

Cada livro aberto é um novo momento, um novo enredo e diversas novas possibilidades.

 

*Filha mais velha de uma família simples da capital da cidade de São Paulo, terminou o ensino médio em 2005. Formada em Ciências Econômicas, especializada em Finanças e prestes a tornar-se especialista em Perícia Criminal e Ciências Forenses.

Além da ficção: livros sobre o mesmo período retratado pela nova novela das seis, “Novo Mundo”

Por: Renata de Albuquerque*

Leopoldina e D. Pedro

A nova novela das seis, “Novo Mundo”, é uma ficção que tem como pano de fundo acontecimentos históricos. É uma novela de época, mas as próprias autoras, Thereza Falcão e Alessandro Marson, avisam que o objetivo não é ser didático quanto à História do período. Como é comum na dramaturgia, estão misturadas na história de “Novo Mundo” ficção e realidade.

Na nova trama das seis, estão presentes personagens históricos, como Dom Pedro (interpretado por Caio Castro) e Leopoldina (Letícia Colin). Mas os protagonistas são os ficcionais Anna Millman (Isabelle Drummond) e Joaquim Martinho (Chay Suede). Apesar do tom ficcional, a novela pretende mostrar como surgiram traços importantes da cultura brasileira, como o famoso “jeitinho brasileiro”.

Para aprofundar-se nesse tema, vale a leitura do clássico Memórias de um Sargento de Milícias, de Manuel Antônio de Almeida, e também de Era no Tempo do Rei – Atualidade das Memórias de um Sargento de Milícias, de Edu Teruki Otsuka, que mostra como o romance de Manuel Antônio de Almeida se organiza conforme uma lógica regida por conflitos interpessoais, que se manifestam no romance de maneiras diversas, mas que podem ser unificadas na noção de rixa.

 

 

Na novela das seis, a questão da língua promete gerara situações cômicas, já que a protagonista vivida por Isabelle Drummond é jovem inglesa professora de Português de Leopoldina. O tema também está em Travessias – D. João VI e o Mundo Lusófono, organizado por Paulo Motta Oliveira. Os ensaios reunidos no livro propõem-se a lançar novos olhares sobre a vinda da corte portuguesa ao Brasil, a partir de objetos e pontos de vista bastante diversificados. Os textos se inserem em um contexto atual em que se procuram estabelecer, de maneira mais efetiva, laços reais, e cada vez mais necessários, entre os Países de Língua Oficial Portuguesa.

 

*Jornalista, Mestre em Literatura Brasileira pela FFLCH/USP, autora da Dissertação Senhoras de Si: o Querer e o Poder de Personagens Femininas nos Primeiros Contos de Machado de Assis.

Problemas para ler histórias de amor?

Por: Eliane Fernandes*

Eliane Fernandes

Como já contei em outro post, minha relação com os livros começou bem tarde. Imagino que se este universo fizesse parte de minha vida desde meus primeiros passos, hoje seria tudo muito diferente.

Quando se descobre que ler é muito bom e gratificante, tudo à sua volta parece mudar, assim como um primeiro amor.Tudo que se vê ajuda a lembrar de um livro: dos personagens, do cenário, da história.Os pensamentos quase sempre fogem da realidade, criando um mundo só seu.Entretanto não foi fácil seguir essa nova descoberta, alguns obstáculos foram colocados para que eu fosse provada, provas essas que eu resumo em: eu mesma e as outras pessoas.

Posso dizer que as primeiras páginas de leitura foram complicadas, afinal de contas eu não tinha o hábito de ler e, no começo de uma obra, geralmente, o autor apresenta os personagens, o local, deixando o m

ovimento do enredo mais para frente. Foi bem difícil lutar contra o sono, contra a vontade de assistir TV, de ouvir música ou até mesmo de ficar no Facebook.Mas fiz uma forcinha, afinal eu tinha que ganhar uma aposta e provar a mim mesma que eu era capaz de ler um livro inteiro. Depois do primeiro capítulo não consegui mais parar de ler, não me importava mais a aposta, eu queria mesmo era saber o final da história.

As pessoas também foram um obstáculo e tanto em minha “nova vida”.Primeiro porque todos estranhavam de eu estar carregando um livro para cima e para baixo, vinham várias perguntas e comentários como: “que livro é esse?”; “você está lendo?”; “você deveria ler ‘tal’ livro”; “este livro é inadequado”; “por que está lendo isso?”, “credo, você está lendo este livro?”; “não tinha nada melhor pra ler?” e mais uma infinidade de perguntas e comentários.Claro que algumas perguntas e observações são normais e pertinentes, entretanto eu percebia que algumas pessoas queriam moldar o meu gosto literário, fazendo críticas aos livros que eu escolhera para ler: por ser para jovens, por ter cenas picantes, por ser de príncipes e princesas, por ter vampiros… Enfim, haviam pessoas que se incomodavam pelo que eu lia, isso sem dúvida me deixava irritada e prejudicava minha leitura. Mas, mesmo assim, eu ouvia todas as críticas e comentários, pensando: “como resolver isso, sendo clara o bastante e que a pessoa não fique magoada?” Fácil:sendo sincera. Eu sempre ouvi tudo, mas também sempre deixei muito claro que era eu quem estava lendo, então não havia motivos para tanto alarde.Além disso, sempre deixei muito claro que se eu sentir vontade de ler eu lerei, independente da opinião de quem seja.O importante é eu gostar e ninguém mais.

No final de tudo foi fácil ler, primeiro eu tive que condicionar a mim mesma a uma nova rotina, tive que mostrar para o meu cérebro pouco treinado que ler é divertido.E quanto às pessoas? Hoje não ligo mais para o que dizem, geralmente eu ouço, viro a página e continuo lendo, o importante é a leitura me fazer feliz, então se eu me interessar pela história, pode ser de monstro, de pirata, de mocinho e bandido ou até mesmo sobre a lua, eu irei ler.

 

* Filha mais velha de uma família simples da capital da cidade de São Paulo, terminou o ensino médio em 2005. Formada em Ciências Econômicas, especializada em Finanças e prestes a tornar-se especialista em Perícia Criminal e Ciências Forenses.

 

Como entendemos o mundo: estruturas mentais

Acompanhe a seguir a última parte do texto:

Frames, senso comum e comunidades interpretativas

Antônio Suárez Abreu*

“Frames são estruturas mentais que moldam a maneira como vemos o mundo.”[5]Frames contêm características e expectativas ligadas a uma situação.   Se pensamos em casamento, associamos imediatamente a essa situação características como vestido de noiva, igreja, alianças, padrinhos, festa, bolo de casamento etc.   Se pensamos em Natal, associamos imediatamente a essa situação características como nascimento de Cristo, árvore de natal, confraternização, presentes etc.  Todas essas particularidades estão também associadas a expectativas ou “scripts”.   Esperamos que, ao iniciar-se um casamento na igreja, o noivo esteja presente  no altar e que a noiva seja conduzida pelo pai até lá, vindos ambos da porta da igreja pela nave central.  Uma situação em que a noiva já estivesse previamente junto ao altar e o noivo fosse conduzido até lá pela mãe quebraria a expectativa desse frame, deixando os presentes à cerimônia bastante confusos e até mesmo emocionalmente abalados.

O conjunto de frames ligados às várias situações do nosso dia a dia compõe aquilo que chamamos senso comum, criando o que Robin Lakoff chama de comunidades interpretativas, em que as pessoas compartilham similaridades abstratas como gênero, simpatias políticas, preferências estéticas, profissões.  [6]

É preciso dizer que senso comum não se confunde com bom-senso e que, muitas vezes, não tem lógica alguma.  O senso comum, durante a Idade Média, era que a Terra era plana e que um navio que saísse do Mar Mediterrâneo, ultrapassando as “Colunas de Hércules” (estreito de Gibraltar), iria fatalmente cair num abismo.  O senso comum, para os partidários do regime nazista, era que os judeus eram uma raça inferiore daninha que precisava ser eliminada.

Bem, a partir desses exemplos, você já deve ter percebido que o senso comum e, portanto, as comunidades interpretativas estão sempre vinculados à uma cultura e a um  momento histórico.    A escritora Susan Sontag, em seu livro Doença como Metáfora[7], nos conta que, durante o Romantismo, a tuberculose era vista como uma variante da doença do amor.  Segundo ela, “Moças abatidas, de peito cavado, e rapazes pálidos e raquíticos competiam entre si como candidatos a essa doença incurável (na época), na maioria dos casos, incapacitante e de fato terrível.  “Quando eu era jovem”, escreveu Théophile Gautier [8], “não podia aceitar como poeta lírico alguém que pesasse mais de quarenta e cinco quilos’ ” .

Como um exemplo da força do comportamento das comunidades interpretativas vinculadas ao senso comum no campo da Medicina, é emblemático o caso da situação enfrentada pelo médico húngaro Ignaz Philipp Semmelweis (1818-1865), em uma clínica obstétrica em Viena, em 1846, na qual eram instruídos os estudantes de Medicina. Nessa clínica, a maioria das mulheres morria de febre puerperal.  Depois de cuidadosos estudos, Semmelweis desconfiou que elas eram contaminadas pelos estudantes que, ao saírem das aulas práticas de anatomia, em que manipulavam cadáveres, apenas limpavam as mãos no avental, antes de examinar as mulheres grávidas.   Semmelweis, então, obrigou os estudantes a lavar cuidadosamente as mãos depois de saírem da sala de anatomia, o que diminuiu drasticamente as mortes.    Mas, ao contrário do que se esperava, o diretor da clínica e os estudantes criticaram duramente Semmelweis que, logo depois, teve de abandonar a Áustria e voltar para sua terra natal, a Hungria.  Simplesmente, o senso comum dos médicos não aceitava que eles próprios fossem a causa da morte das mulheres.    Afinal, apenas a partir de 1870, as ideias de Pasteur começaram a ser aplicadas aos hospitais, principalmente aos hospitais militares, que passaram a ferver os instrumentos e as bandagens que seriam utilizados nos procedimentos cirúrgicos.

Louis Pasteur

Segundo Robin Lakoff, no livro há pouco citado, “o senso comum de uma ideia é determinado pela maneira como ela se acomoda  dentro de um frame aceito em um certo momento pela maioria das pessoas influentes.  E uma vez que uma ideia se torna senso comum, incluída em um frame aceito de modo geral, ela se torna muito resistente à mudança.  Outras ideias se agregam em torno dela dando-lhe credibilidade e fazendo com que sua renúncia seja até mesmo algo perturbador.   Nós precisamos de nossos frames e suposições convencionais.  Eles formam a cola que mantém juntas as culturas e permitem aos indivíduos, dentro dessas culturas, sentir-se como membros competentes de uma comunidade coesa.  Nós nos apegamos até mesmo a opiniões desacreditadas, não apenas por ignorância, mas por medo de que sejamos deixados sós, desconcertados, e não completamente humanos sem elas.” [9]

Concluindo, podemos dizer que, em termos de senso comum, o que nos afeta não são os fatos, mas a percepção que temos dos fatos  a partir dos nossos frames.   Vemos o mundo por meio de filtros.  Pomos coisas dentro de nossas cabeças e passamos a ver o mundo apenas a partir daquilo que está dentro dela.

 

 

*Tem mestrado, doutorado e livre-docência pela USP, pós-doutorado pela UNICAMP, é professor titular de língua portuguesa da UNESP, membro da Academia Campinense de Letras e autor, entre outros, dos livros: Gramática Mínima para Domínio da Língua Padrão (Ateliê), O Design da Escrita (Ateliê) e Texto e gramática: uma integração funcional para a leitura e escrita (Melhoramentos).

Conheça outras obras de Antônio Suárez Abreu

 

Referências

BONFIM, Paulo.  Migalhas de Paulo Bonfim, Ribeirão Preto: Ed. Migalhas, 2014.

DAMÁSIO, António.  O Erro de Descartes, São Paulo: Companhia das Letras, 1996.

HOFSTADTER, Douglas & SANDER, Emmanuel. Surfaces and essences: analogy as the fuel and fire of thinking, New York: Basic Books, 2013.

 

LAKOFF, George. Don’t Think of an Elephant!, Vermont: Chelsea Green Publishing, 2014 [2004].

LAKOFF, Robin.  The Language War, Los Angeles: UniversityofCalifornia Press, 2000.

SONTAG, Susan.  Doença como Metáfora.  Aids e suas metáforas.  Trad. de Rubens Figueiredo e Paulo Henriques Britto, São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

 

[5]George Lakoff, Don’t think of an elephant! p. xi.  No original: Frames are mental strutures that shape the way we see the world.

[6]Robin Lakoff, The Language War, 2000, p. 13.

[7]Susan Sontag, Doença como metáfora.  Aids e suas metáforas, 2007, p. 31.

[8]Poeta, escritor e crítico literário francês do século XIX.

[9]Robin Lakoff, The Language War, 2000, pp. 49-50.  No original: the common sense of an idea is determined by its fit within a frame currently accepted by a majority of influential people. And once an idea becomes common sense, included in a generally accepted frame, it be- comes very resistant to change. Other ideas accrete around it, lending it credibility and making its abandonment even more disturbing. We need our frames and conventional assumptions. These forms the glue that holds cultures together and allows individuals within those cultures to feel like competent members of a cohesive community. We cling to even discredit beliefs, not only out of ignorance, but equally in fear that we would be left alone, bewildered, and not fully human without them.

Como entendemos o mundo: as emoções

As emoções e os sentidos das coisas

Antônio Suárez Abreu*

As emoções desempenham um papel importante em nossas vidas.  Às vezes, elas nos fazem desprezar a própria realidade dos fatos.  Se agíssemos apenas racionalmente, ninguém jogaria na Megassena, por exemplo, e ela iria à falência.  Afinal, a probabilidade de ganhar é de uma em 50 milhões.  Só por comparação, a probabilidade de você ser atingido por um raio é uma em 1.576.  A possibilidade de você ser canonizado é de uma em 20 milhões.  Ou seja, é mais fácil você ser morto por  um raio, ou ser canonizado, do que ganhar na Megassena.

 

Durante muito tempo ficamos presos à afirmativa de Descartes de que o homem é um ser racional.  Na verdade, somos seres tanto emocionais quanto racionais.  Segundo António Damásio[4], um dos mais importantes neurocientistas da atualidade, foram as emoções primárias – aquelas que são comuns à espécie, porque inatas e pré-organizadas – que permitiram que nossos ancestrais pré-históricos, reagindo prontamente a algum perigo, sobrevivessem e pudessem passar seus genes à frente.  Todos nós temos essas emoções primárias em nosso sistema límbico e, ainda segundo Damásio, acrescentamos a elas, durante toda nossa vida, as emoções secundárias, aquelas resultantes das nossas experiências.  Alguém que quase se tenha afogado em criança, certamente se lembrará desse fato, quando adulto, cada vez que se aproximar de uma piscina, de um lago ou de uma praia.

 

É costume dizer que, em nosso país, há “leis que pegam” e “leis que não pegam”.   Há, por exemplo, leis de trânsito que limitam a velocidade em determinadas ruas.   Mas, mesmo diante de placas que indicam, por exemplo, velocidade máxima de 40km por hora,  a maioria dos motoristas acelera além dos 40.  É uma “lei que não pegou”.   Não temos vontade emocional de nos submeter a ela.  Como um remendo a essa situação, as autoridades de trânsito constroem lombadas, diante das quais os motoristas têm, forçosamente, que diminuir a velocidade. É uma excrescência que não se vê em países europeus!   Bem, mas por que certas leis não pegam?  Em parte, podemos dizer que falta vigilância e punição, mas, o mais importante é que falta disciplina e, principalmente, disposição emocional das pessoas para cumpri-las.  É nesse momento que podemos falar na importância dos frames, senso comum e comunidades interpretativas.

 

[4]AntónioDamásio, O Erro de Descartes, 1996. (pp. 160-161)

*Tem mestrado, doutorado e livre-docência pela USP, pós-doutorado pela UNICAMP, é professor titular de língua portuguesa da UNESP, membro da Academia Campinense de Letras e autor, entre outros, dos livros: Gramática Mínima para Domínio da Língua Padrão (Ateliê), O Design da Escrita (Ateliê) e Texto e gramática: uma integração funcional para a leitura e escrita (Melhoramentos).

Conheça outras obras de Antônio Suárez Abreu

Como entendemos o mundo: uma visão cognitivista

Como entendemos o mundo? Esta pergunta, sobre a interpretação que as pessoas têm do universo que as rodeia, sempre intrigou a todos. Neste texto de três partes, o Professor Antônio Suárez Abreu aborda o tema. Na primeira parte, fala sobre como nossas experiências interferem nesse entendimento.

Antônio Suárez Abreu*

“Só entendemos aquilo que já existe em nós.”Paulo Bonfim

 

  1. O passado e o sentido das coisas

 

Com base no senso comum, as pessoas pensam que aquilo que veem no mundo preexiste ao entendimento.   Ledo engano.  Tudo aquilo que vemos e sentimos é resultado da maneira como nossas mentes são formatadas, em parte de modo inato e, em parte, por meio do nosso passado, que é construído desde que nascemos e interagimos com o mundo e as pessoas ao nosso redor.

 

As crianças vão aprendendo aos poucos a criar um estoque de passado em suas mentes.  Na primeira vez que uma delas vai ao supermercado com a mãe e deseja comer um chocolate, retira-o simplesmente  da prateleira e começa a desembrulhá-lo.  Imediatamente, a mãe diz que não é assim, tira o chocolate de sua mãos e o coloca no carrinho de compras.  Após pagá-lo no caixa, entrega-o a criança.  Na próxima vez, ela, já de posse dessa informação em seu passado, apenas põe o chocolate no carrinho, esperando que passe pelo caixa para, somente então, desembrulhá-lo e comê-lo.  Quando adultos, ao pararmos na frente de um elevador, sabemos que temos de apertar um botão para chamá-lo.  Sabemos, também, que ao entrar dentro dele, temos de procurar um display com os botões dos diversos andares do edifício e apertar o botão correspondente ao andar que pretendemos atingir.  Fazemos isso porque, em nosso passado, já entramos em vários elevadores.

Isaac Newton

Uma dos mais importantes eventos da história humana foi a descoberta da escrita, na antiga Suméria, 3.200 a. C.  Isso permitiu que, por meio da leitura, pudéssemos nos apropriar do passado de outras pessoas e aumentar exponencialmente nossa capacidade de pensar, imaginar e criar.   Isaac Newton, quando perguntado sobre como havia conseguido ter ideias tão brilhantes sobre a gravidade e o Universo, disse que tinha conseguido ver tão longe, porque estava sobre os ombros de gigantes, referindo-se, metaforicamente, aos outros brilhantes astrônomos que o tinham antecedido, como Kepler e Copérnico.  Um outro importante evento da história humana foi a descoberta da impressão por meio de tipos móveis, feita por Gutenberg, na Alemanha em 1442, o que permitiu democratizar a escrita em escala mundial.

 

Um adulto que tivesse todo o seu passado retirado da cabeça passaria a ser apenas um autômato, uma espécie de vegetal que, em vez de estar plantado no solo, poderia caminhar, mas sem rumo algum.  É exatamente isso que acontece com uma pessoa fortemente atacada por Alzheimer.   Por não ter mais passado, não se lembra do ontem, do mês anterior, de sua infância, nem mesmo daquilo que aconteceu há pouco.  Depois de apresentada a uma outra pessoa, basta que fique longe dela por instantes para que não mais a reconheça e tenha de ser novamente apresentada, o que será, é claro, uma tarefa inglória, um trabalho de Sísifo. [1] Como dizem Hofstadter &Sander: “Nenhum pensamento pode ser formado a não ser que seja informado pelo passado, ou, mais precisamente, nós pensamos somente graças a analogias que ligam nosso presente ao nosso passado.” [2]  Dizem eles também que “as emoções desempenham um importante papel […], permitindo a recuperação de memórias antigas por meio da analogia.” [3]

 

 

[1]Na Mitologia Grega, Sísifo, rei da Tessália, era mestre em malícia e em ofender os deuses.  Quando morreu, foi condenado por Zeus, por toda a eternidade, a rolar uma grande pedra de mármore até o cume de uma montanha; mas, quando ela estava alcançando o topo, rolava de volta até o ponto de partida, por meio de um uma força irresistível.  Isso fazia com que Sísifo tivesse de levá-la novamente ao alto da montanha de onde ela rolava de novo ao ponto de partida.

[2]Douglas Hofstadter & Emmanuel Sander.Surfaces and essences: analogy as the fuel and fire of thinking, 2013. p. 20.  No original: No thought can be formed that isn’t informed by the past, or, more precisely, we think only thanks to analogies that link our present to our past.

[3]Idem, ibidem.  No original: Emotions play important roles inside conceptual skeletons, allowing the retrieval of ancient memories by analogy. (p. 168)

 

*Tem mestrado, doutorado e livre-docência pela USP, pós-doutorado pela UNICAMP, é professor titular de língua portuguesa da UNESP, membro da Academia Campinense de Letras e autor, entre outros, dos livros: Gramática Mínima para Domínio da Língua Padrão (Ateliê), O Design da Escrita (Ateliê) e Texto e gramática: uma integração funcional para a leitura e escrita (Melhoramentos).

Conheça outras obras de Antônio Suárez Abreu

Bibliofilia: amor pelos livros em forma e conteúdo

Por Renata de Albuquerque*

 

Está no dicionário. Bibliofilia é “amor aos livros, em especial aos belos e raros e de relevância histórica ou cultural”. É também a “ciência ou arte do bibliófilo”, pessoa que tem amor por livros ou que os coleciona.

A diferença entre leitores e bibliófilos, entretanto, muitas vezes desaparece na prática. Quem lê por prazer ama os livros, não apenas o conteúdo deles, mas sua forma e sua estética. Um prazer que pode vir de novidades ou raridades; de lançamentos ou de uma conquista em um garimpo feito em sebos: aquela satisfação ímpar de encontrar, depois de uma longa busca, o exemplar procurado, a edição exata, o livro tanto tempo desejado. Alguns deles são joias, objetos raros, dignos de serem colecionados, mostrados, exibidos para os amigos.

“A bibliofilia teve sua primeira menção na literatura em 1344, por meio do monge beneditino Richard de Bury, em uma obra que ficou mundialmente conhecida como Philobiblion (…)”, aponta Karina da Silva Nunes em seu trabalho Um Acervo Para Chamar de Meu: Bibliófilos como Preservadores da Cultura Impressa.

“Philobiblon”, obra que cita pela primeira vez a bibliofilia

Bibliofilia não tem a ver com preço; tem a ver com valor. A alegria de ter na estante seu próprio exemplar de um livro amado é o mais importante. O preço se dilui no tempo; o valor, ao contrário, aumenta quanto mais o tempo passa.

Edição artesanal de “Macunaíma”

Alguns desses livros, artesanais, feitos um a um, são arte. Outros têm seu valor por serem antigos. Mas alguns deles nem mesmo são raros: são amados pelo simples fato de nos acompanharem pela vida toda. São livros para ler, reler e ter sempre por perto, para que alguns de seus trechos iluminem nossos dias, sempre que precisamos de inspiração para seguir em frente. Poesia ou prosa, não importa, pois todo mundo sabe que há muita poesia escondida na prosa refinada dos melhores autores.

 

Mas, afinal, quem é o bibliófilo?

José Mindlin, um dos mais célebres bibliófilos brasileiros, contava que iniciou sua biblioteca, a Brasiliana – hoje na USP –  aos 13 anos. A coleção chegou a ter 38 mil títulos, entre os quais raridades como manuscritos de Sagarana (Guimarães Rosa) e Vidas Secas (Graciliano Ramos).

O bibliófilo, entretanto, não tem apenas um perfil. Ele está em todos os cantos, tem as mais variadas idades e hábitos. O que une todos é apenas o amor pelo livro.

Uma pesquisa sobre o tema, feita por Aníbal Bragança, Eliane Ganem, Maria Virgínia M. de Arana e Shirley Dias da Silva na Escola de Comunicação e Arte (ECA/USP), indica que o consumidor de livros usados é majoritariamente do sexo masculino, casado e tem entre 26 e 55 anos.

“Biblomania”: o livro como tema e como suporte

Mas nem só de livros usados vive o bibliófilo. Livros novos, de pequena tiragem, também estão no alvo desse público, que sabe que alguns títulos serão fundamentais para sua coleção.

E há ainda aqueles que escrevem livros sobre livros, como é o caso dos historiadores Marisa Midori Deaecto e Lincoln Secco, que reuniram em Bibliomania textos curtos em que o protagonista é o livro. Os autores falam dos livros como falamos de nossos amigos, de pessoas íntimas, numa escrita semelhante a um concerto de voz a serviço do tema.

E você, considera-se um bibliófilo ou bibliófila?  Conte sua história para nós!

*Jornalista, Mestre em Literatura Brasileira pela FFLCH/USP.

Por que leio histórias de amor?

A cliente Eliane Fernandes resolveu participar da Campanha #tempodeler. A seguir, ela compartilha com os leitores do Blog o que a motiva a ler e sua história – recente – de amor pelos livros.

Eliane Fernandes*

Posso dizer que eu leio histórias de amor porque não é difícil admirar e me apaixonar por descrições, situações, personagens e enredos escritos em obras como Iracemade José de Alencar, por exemplo:

“A alegria morava em sua alma. A filha dos sertões era feliz, como a andorinha que abandona o ninho de seus pais e emigra para fabricar novo ninho no país onde começa a estação das flores. Também Iracema achara nas praias do mar um ninho do amor, nova pátria para o coração”.

Neste trecho, o autor usa um simples comparativo para demonstrar algo complexo. O resultado é poético, lindo, romântico.

Eu amo livros desde muito pequena, sempre fui apaixonada por bibliotecas, na escola eu ficava encantada com a quantidade de livros. Mas infelizmente até 2012 os livros não passavam de objetos de decoração, o máximo que eu fazia era ler a contra capa e deixar o livro na estante. Por mais que eu tentasse ler, me dava sono, fome, vontade de ir ao toalete, enfim, nunca conseguia ler.

Uma pequena situação mudou a minha vida. Em dezembro de 2012 eu estava em uma padaria e vi um livro, pedi a meu esposo que me desse de presente e, como resposta, ele disse: “eu duvido que você vá ler este livro. Se eu o levar e você não ler, nunca mais lhe dou outro livro”. Então eu fiz uma contraproposta: “Eu irei ler este livro e a partir de agora vou emendar um livro em outro”. Não sei de onde eu tirei isso, afinal eu não lia nem história em quadrinhos, mas a sorte estava lançada. Lembro que terminei o livro em duas semanas e desde então eu sempre tenho um livro para ler. Cheguei a contabilizar minha leitura do ano de 2014: 35 obras no total, realmente uma superação. Meu esposo? Não tem mais motivos para não me dar livros e nos dias de hoje ele evita passar perto de uma livraria quando estamos juntos, pois, sempre que entramos, saímos com uma coleção nova de livros para eu ler.

O que mais me motivou a ler este tipo de literatura é observar os personagens, as suas descrições, como se comportam, o que querem sem saber que querem.Chega a ser meio investigativo, nunca se sabe o que se passa na cabeça do personagem, ele pode gostar da loira, mas acabar com a morena, é sempre uma incerteza, todos são diferentes e únicos, mas todos querem a mesma coisa, serem felizes. E só se sabe se alcançarão o objetivo quando se lê a última palavra.

Eliane Fernandes

Posso dizer que minha relação com o mundo mudou depois que comecei a ler, hoje consigo perceber a beleza em pequenos gestos como uma flor dada a uma dama sem motivo ou um simples bilhete escrito “Eu te amo” no meio da tarde. Acho simplesmente encantador a conquista antes do primeiro beijo e as trocas de olhares, dos presentes sem motivo, da amizade antes de um grande amor. Aprendi também que depois de um problema ou de uma dificuldade é possível levantar mais forte e principalmente aprender com os erros e ser uma pessoa melhor.

Lendo diversas histórias de amor percebi que a paixão nascida de uma amizade, é mais bonita, mais vivida, mais sincera, verdadeira e duradoura, que de uma amizade sempre pode brotar um verdadeiro amor, que a amizade e o romantismo vão além de tudo, até mesmo além dos livros, onde para a mulher é possível ter um esposo, amigo, amante e companheiro em uma mesma pessoa, assim como para os homens é possível ter várias mulheres em uma só.

Não posso dizer que já li todos os livros do mundo, nem estou perto disso, mas posso dizer que a pequena quantidade de histórias lidas, não só de amor,  fizeram com que eu visse a vida de uma forma diferente.Meu modo de pensar sobre o amor mudou, assim como minha forma de falar, meu vocabulário está mais amplo. Meu senso crítico melhorou consideravelmente, minhas argumentações estão cada vez mais ricas e coerentes. Ler me proporcionou uma nova visão de vida e espaço, me proporcionou uma conquista externa e principalmente uma conquista interna: eu consigo me expressar melhor, escrever melhor e viver melhor. É muito gratificante terminar uma coleção de 3, 4, 5 ou 10 livros e começar outros.

É emocionante imaginar os personagens, sofrer junto com eles e perceber que as histórias são simples histórias, mas se forem lidas com paixão e de coração aberto, percebemos que são na realidade histórias como a nossa. Histórias que inspiram, ensinam, emocionam.

 

* Filha mais velha de uma família simples da capital da cidade de São Paulo, terminou o ensino médio em 2005. Formada em Ciências Econômicas, especializada em Finanças e prestes a tornar-se especialista em Perícia Criminal e Ciências Forenses.

Ler sempre é ler mais e melhor

Cecilia Felippe Nery*

livro com flor

A equação até parece simples e é. Lendo sempre, leremos mais e melhor, mas para se chegar lá é preciso paciência e vontade, como tudo na vida. No Brasil, no entanto, essa equação está longe de ser perfeita, mas avançou, ainda que a passos lentos.

No país há 104,7 milhões de leitores, o que representa 56% da população, segundo dados da quarta edição da pesquisa “Retratos da Leitura no Brasil”, realizada em maio deste ano. O índice de leitura teve uma pequena melhora, mas é pouco, pois indica que o brasileiro lê somente 4,96 livros por ano.

Como mudar isso?

A questão é complexa e envolve muitas esferas, mas podemos fazer a nossa parte com método e disciplina até que o ato de ler se torne um hábito indispensável à nossa vida.

Antes de mais nada preciso confessar que sou uma leitora meio atípica, apaixonada por livros, mas atípica. Não leio tão rápido, meu ritmo é mais lento, embora constante. Isso porque gosto de refletir sobre as palavras, de sentir mais a leitura e de voltar as páginas para reler algo que ficou para trás e que só lá na frente fará sentido, assim demoro mesmo quando me aventuro em algum livro.

Além disso, não consigo ler dois livros ao mesmo tempo. Admiro quem consegue fazê-lo, e já tentei, mas percebi que acabo misturando as histórias e fico pensando onde li determinada cena ou passagem. Minha cabeça dá um nó e me sinto um pouco perdida. A não ser que leia coisas totalmente diferentes, como um romance e um livro técnico, ou ainda poesia.

Percebo também que alguns livros oferecem uma leitura mais fluida e agradável, prendendo o leitor de tal forma que ele se desliga facilmente de tudo ao seu redor. Outros, no entanto, embora de valor incontestável, são mais penosos, requerem maior atenção e exigem mais dedicação do leitor. Por isso é necessário começar devagar, sem correria, para criar o hábito, cultivado pouco a pouco.

 

O local

O primeiro passo é estar aberto à leitura e escolher o livro que se quer ler, sem pressa, sem cobranças, por prazer, para conhecer. Separe um tempo do dia para fazer isso e se disponha a ler, nem que seja por 20 ou 30 minutos e vá aumentando o tempo gradativamente. O local de leitura também é fundamental. Se você tem problema em se concentrar, procure um lugar tranquilo e sem interferências que possam lhe causar distração.

Eu, por exemplo, leio mais quando estou fora de casa. E o meu local preferido sempre foi o metrô. Sim, isso mesmo, o metrô, no trajeto de casa para o trabalho e do trabalho para casa. E, embora muitas vezes o trem esteja cheio, já li muitos livros nos vagões do metrô. Às vezes fico tão empolgada com a história que passo da estação em que iria descer, quando me dou conta tenho de sair do vagão e pegar o trem no sentido contrário, para voltar. Outras vezes me deixo passar mesmo, e vou até o final da linha, só para não parar e continuar a leitura. Aí depois retorno ao meu destino. Claro, quando estou com tempo.

Como leio muito no metrô, já aconteceu, vez por outra, de entrar em um trem e sem que eu veja ou pense em alguma coisa relacionada às histórias, vir à minha mente cenas e personagens de algum livro que li. Acontece assim, instantaneamente, sem que eu perceba. As imagens simplesmente aparecem para mim. É como se os vagões do metrô estivessem povoados das histórias, dos personagens e das cenas que leio – e vejo com a imaginação – nos livros. Acho que são como fantasmas, que vagueiam livremente por entre o emaranhado de fios que povoam a minha mente.

Mas estou divagando… e, claro, pode funcionar para mim, para outras pessoas não. Seja como for, o importante é encontrar um local adequado em que a pessoa se sinta bem e disposta a ler, independentemente de ser um livro físico ou virtual. Com o tempo é possível até que a pessoa leia em qualquer lugar, porque a leitura já se incorporou.

Outra importante dica é variar as leituras. Se recentemente você leu um romance, alterne com uma biografia, ou um livro de contos, ou ficção ou terror, ou ainda quadrinhos, que são excelentes para entreter e ampliar o conhecimento. Mescle seus interesses e aumente suas conquistas literárias dia a dia. Isso é muito bom.

 

Clubes de leitura

livros na estante

Para gostar de ler é fundamental também conversar sobre os livros, assim, procure pessoas que leem também e discuta os livros. Já se foi o tempo em que leitura era sinônimo de solidão, embora o ato seja solitário mesmo. Ler, porém, propicia um conhecimento tão grande que a vontade de compartilhar acontece naturalmente.

Hoje há muitos clubes de leitura que fazem essa função interativa. Além de proporcionar deliciosos debates sobre as leituras, é possível ainda fazer muitos amigos. Depois que me tornei uma leitora assídua, meu grupo de amigos se ampliou e conheci muitas pessoas ligadas aos livros, sejam elas virtuais ou presenciais. Os amigos leitores estimulam o prazer pela leitura e são ótimas companhias para dividir outros interesses.

Por fim, a partir do momento que a leitura te “pegar”, seria ideal começar a alçar novos voos e desafios. Estabeleça metas e aumente o tempo de leitura, escreva para memorizar e assim assimilar melhor o que se leu. É importante ler de tudo, porque a seletividade vem com o tempo, mas o fundamental é que se leia por prazer, por puro deleite.

Boas leituras.

*Cecilia Felippe Nery é jornalista e escreve para o blog www.leituraseobservacoes.blospot.com

 

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