Leitura

Livro 7/8: Revista do NELE traz dossiê sobre museus e bibliotecas

Museus e bibliotecas: lugares de resistência diante de uma realidade de fake news em que certa parcela da sociedade negligencia o saber acadêmico. Esta é a forte mensagem que traz a Revista LIVRO 7/8, publicação do NELE: Núcleo de Estudos do Livro e da Edição.  Editada por Marisa Midori Deaecto e Plinio Martins Filho, a edição traz a participação de diversos nomes importantes, como Lincoln Secco, Ana Cláudia Suriani da Silva, Jean-François Delmas, Andrea De Pasquale, Thiago Lima Nicodemo, Frédéric Barbier, Fiammetta Sabba, María Luisa López-Vidriero Abelló, Carlos Zeron, Christophe Didier, Carolina Bednarek Sobral e Fabiana Marchetti.

Para falar sobre a publicação, Marisa Midori Deaecto respondeu a perguntas do Blog da Ateliê:

 As “ondas fascistizantes” não parecem ter cessado. Neste contexto, qual a importância de uma publicação como a LIVRO 7/8? O livro ainda é uma forma de resistência? 

Marisa Midori Deaecto: Por um desses mistérios insondáveis, sim, o livro é símbolo e meio de resistência. Digo “insondável” porque, malgrado todas as análises e possíveis respostas, ainda me espanta essa questão: por que, após milênios, os livros continuam a ser alvo de tantas destruições e desconfianças? Outro dia, foram os livros censurados no norte do país; antes, os livros rasgados na biblioteca da UnB; os livros censurados pelo Deops; os livros queimados; as bibliotecas negligenciadas; os livros e a leitura, na fala do presidente, desqualificados… Ora, um objeto que consegue manter uma aura de resistência tão forte e, ao mesmo tempo, portador de uma linguagem universal, pois estou a falar do objeto e não de seus conteúdos, merece uma publicação que cuide de sua natureza, de sua história, de suas múltiplas formas de apropriação. Esta é a nossa resistência.  

Qual a importância de museus e bibliotecas neste cenário? 

MMD: A cultura é o corpo e a alma de uma nação. Um corpo são se manifesta por instituições sãs, ou seja, dirigidas por profissionais qualificados, com infraestrutura condizente com a importância, a coerência e os usos que delas se faz, tanto da parte do poder público, quando do cidadão. E a alma é tudo o que a comporta. São as manifestações de um povo, em diferentes esferas de sua existência, em múltiplos campos de atuação e em todos os setores da sociedade. Por isso a cultura deve ser universal. Museus e bibliotecas constituem, nesse sentido, instituições vitais para a inteligência e a salvaguarda da memória das sociedades. Notemos que os Estados nacionais, desde que se configuraram como Estados fortes, na época moderna, investiram pesadamente em suas bibliotecas e museus. No século XIX, bibliotecas operárias, bibliotecas de associações de classes ou de agremiações formadas por imigrantes, mulheres, entidades públicas se proliferaram por todo o mundo. Isso porque a humanidade se deu conta de que é preciso nutrir a alma para transformar o mundo. É a nossa herança iluminista que nos conduz a resistir contra as trevas, sempre. Donde a importância de se refletir sobre as funções e os múltiplos significados das instituições de cultura hoje e sempre. 

Quais foram os pilares para escolher e reunir os textos contidos nesta edição? Sob que tema(s) eles estão reunidos? 

MMD: A revista LIVRO procura funcionar como um sismógrafo. Ela capta os possíveis abalos que acontecem na sociedade brasileira e, de forma mais ampla, no mundo. E, a partir daí, buscamos os materiais. Às vezes, recorremos a parcerias internacionais, noutras, optamos por produções nacionais. No próximo Dossiê, LIVRO 9 vai pautar a questão da leitura no Brasil, sob diferentes matizes. O título é uma provocação: “E por falar em leitura… onde andas vocês, leitorxs?”. 

João Condé é um dos temas da LIVRO 7/8. Qual a importância dos colecionadores em um momento em que o livro digital ganha espaço? 

MMD: Temos insistido na luta pela preservação e guarda de acervos formados por particulares pelas instituições públicas. Isso é patrimônio nacional. As bibliotecas de Rubens Borba de Moraes e de José Mindlin, reunidas na BBM, são um patrimônio inconteste, felizmente acolhidos pela USP. O mesmo se pode dizer de outros acervos, como o de Mario de Andrade, Ian de Almeida Prado, para citar apenas dois exemplos de peso da riquíssima coleção do IEB. E eu citei apenas duas instituições pertencentes à Universidade de São Paulo. Há muito mais! É preciso pensar que a USP conformou essas coleções porque não se acomodou ao discurso conformista e, não raro, falacioso, da falta de espaço para armazenar os acervos, ou dos gastos “exorbitantes” para a higienização e catalogação das coleções. Esses argumentos são, antes, um sintoma de uma crise dos paradigmas, que tem esvaziado os projetos e as políticas de preservação do patrimônio nacional, do que exatamente uma questão de infraestrutura. Em um passado não muito distante, alguns gestores de arquivos e bibliotecas acreditaram que era possível armazenar tudo em microfilmes e descartar o papel. Hoje se pensa o mesmo sobre a digitalização. E amanhã, nós depositaremos toda a nossa história e nossa memória em quais bases de dados. Já atingimos as nuvens, mas, e daí. Nossa universidade não tem cem anos e corre os risco de desperdiçar acervos importantíssimos, que poderiam fazer dela a maior guardiã da memória e da história nacional. Eu me pergunto se as universidades europeias operam com essa mentalidade do descarte. E quando penso no rico acervo de Yale, nos EUA, eu me pergunto: teriam eles cessado as políticas de aquisição e de recebimento de doações? Não podemos desistir. Não temos o direito de nos acomodar. Do contrário, estas coleções vão parar em instituições estrangeiras. Ou, o que é pior, elas podem se dispersar nos leilões e nos alfarrabistas de todo o mundo.  

Jean-Yves Mollier fala, na publicação, sobre a “Invasão das Fake News”. Este é um tempo em que esta invasão é inevitável, em sua opinião? 

MMD: Sim, é inevitável e compromete as democracias, porque transforma o debate público em um poço de mentiras. Quando convidei o prof. Mollier para fazer uma conferência sobre este tema, no IEA, eu pensava justamente na importância de se debater as fake news na esfera política e, nesse ponto, creio que o caso Dreyfus, na França da virada do século XIX para o XX, foi paradigmático. Mas, como diz um grande historiador, Lucien Febvre, a história é a ciência do presente. 

A Profa. Jerusa Pires Ferreira faleceu durante (ou logo imediatamente após) a conclusão desta edição. Qual foi sua contribuição para a LIVRO 7/8? 

MMD: Jerusa era uma bússola, com a diferença que o seu ponteiro sinalizava para todos os sentidos, antes, é claro, de ela finalmente nos apontar o seu norte. Jerusa comentava temas relevantes que poderiam entrar na revista, indicava autores, como no caso de Jacques Migozzi, para o último número, desenhava questões, imaginava soluções e, o que é mais importante, sabia transformar tudo isso em tertúlias muito aprazíveis. A LIVRO terá sempre a presença, o norte da Jerusa.   

Quais serão os próximos desafios da LIVRO? 

MMD: Cada número de LIVRO é uma história e cada número é um desafio. Editar uma revista é tarefa complicada, meus colegas editores de revistas bem o sabem. Mas, como disse, a revista é um veículo vivo, ela é um sismógrafo! Já antecipei o tema do Dossiê e, no mais, é ver para crer! 

Há alguma curiosidade ou bastidor interessante sobre a revista que se possa compartilhar com os leitores do Blog?

MMD: Há dois aspectos curiosos que eu gostaria de contar: o Dossier Museus-Bibliotecas antecipou a versão italiana, que se encontra na gráfica. Eu o organizei em parceria com Andrea De Pasquale, diretor-geral da Biblioteca Nacional de Roma. Ele é um grande amigo, mas uma pessoa difícil. Não queria que a publicação brasileira saísse antes, então, esperamos. Mas, como estávamos muito atrasados e, ele também, disse para que a nossa revista teria data de lançamento. Ele ficou bem contrariado, mas, agora, parece que está tudo bem. Estamos aguardando o volume italiano, com os mesmos artigos. O artigo de István Monok, diretor do arquivo e biblioteca da Academia de Ciências da Hungria, foi feito sob encomenda nossa. A instituição mantém a guarda do arquivo de Lukács e o mundo estava escandalizado com a suposta dilapidação do acervo. Eu contei isso pra ele e, poucos dias depois, recebi o artigo que dava conta dos projetos de preservação e guarda do fundo Lukács. Ele queria, enfim, dissipar essa ideia que se propagou de destruição do acervo desse grande filósofo do século XX. E isso se deu, certamente, porque a Hungria vive, hoje, uma conjuntura política muito complicada, não muito diferente da nossa. Mais uma prova de que a cultura continua a ser um foco de resistência vital. 

Pequeno Guia Histórico das Livrarias Brasileiras: Um brinde à resistência das livrarias brasileiras

por Katherine Funke*

Será que voltaremos tanto no tempo que livreiros favoráveis à liberdade de pensamento terão de criar um fundo falso nas estantes da loja? É impossível não sair da leitura do Pequeno Guia Histórico das Livrarias Brasileiras, de Ubiratan Machado, sem essa pergunta na cabeça.

O livro traz informações históricas mais do que úteis – inspiradoras – sobre modos de sobrevivência de cem livrarias brasileiras, desde o comércio jesuíta dos séculos 17 e 18 até as mais recentes, como a Livros & Livros, fundada em 1988 e que ainda resiste bravamente aberta dentro da Universidade Federal de Santa Catarina.

Quem já viveu bons momentos em uma livraria vai ser transportado a outros espaços-tempo folheando a publicação. Eu mesma, lendo sobre a Livros & Livros, não posso deixar de ser lançada ao dia em que autografei meu primeiro livro de contos na sua grande loja do centro de Florianópolis, um grande espaço com dois andares, muito bem decorado, infelizmente já extinto. Cada um com suas lembranças – e quantas são, para quem ama livros e livrarias!

Impossível não se apaixonar pela história de cada livreiro. Este manual – que nada tem de “pequeno”, nem no formato, nem na profundidade da pesquisa empreendida pelo autor – está mais para labirinto onde cem quixotes de três séculos se encontram conosco, os quixotes-leitores, do lado de fora do livro.

O método mais gostoso de ler este Pequeno Guia, aliás, é levá-lo para ler em uma pequena livraria da sua cidade, e desfrutar dos muitos causos e dados sentindo o sabor de fazer parte dessa espécie de movimento contracultural chamada loja de livros.

Escolhi uma chamada “Barba Ruiva”,  já no seu terceiro endereço no centro de Joinville, onde divide espaço com uma cafeteira e tem uma parede adornada com a placa “Rua Marielle Franco – Brasil”. Levanto os olhos por um momento e vejo o livreiro, o ruivo e barbado Fernando Koenig, pendurado numa escada para alcançar um volume desejado por uma cliente. Sorrio e volto às páginas impressas em papel pólen, absorta pela leitura.

Labirinto

O guia segue a linha do tempo, linearmente, conforme vai apresentado experiências de livreiros de diversas regiões do território nacional. O autor da obra, Ubiratan Machado, avisa logo de entrada que o guia está incompleto. Mas nem mesmo os mapas e as enciclopédias conseguem dar conta de tudo. Ele explica que se esforçou para abranger livrarias de todos os Estados – mas alguns livreiros não se dedicaram a colaborar com informações para a pesquisa.

Jorge Luis Borges, se fosse Machado, faria uma narrativa inversa, talvez: inventaria as histórias ocultadas por esses livreiros e deixaria para o prefácio um resumo da pesquisa informativa. Mas a Ubiratan Machado cabe a paixão pelo detalhe, pelo dado histórico, checado, apurado, contrastado com depoimentos & notícias de jornal, e a isso também é preciso amar e agradecer com o mais profundo respeito, em tempos de apagamento e constante reescrita da História.

Por causa da pesquisa de Machado, ficamos sabendo que interessados em comprar livros marxistas ou de filosofia durante a ditadura, em Belém (PA), tinham uma alternativa combativa na livraria Jinkings. Seu proprietário a fundou em 1965, depois de ter passado quatro meses encarcerado por ordem militar. Raimundo Jinkings, desafiando o regime, criou uma estante com fundo falso para atender às encomendas consideradas subversivas pela censura.

O autor conseguiu levantar não só detalhes sobre a rotina das lojas, como também relacioná-los com o contexto político e social das fases de abertura, desenvolvimento e, às vezes, do fechamento das livrarias selecionadas para compor o guia.

Assim, ele informa que o dono da rede Nobel de Livrarias veio para o Brasil durante a Segunda Guerra Mundial, direto da Itália. Cláudio Milano se fixou em São Paulo, em 1943, e depois de algum tempo vivendo como encadernador, passou a distribuir livros. E também ficamos sabendo de um folclore vigente a respeito de um truque de Henfil e sua turma mineira em Belo Horizonte, nos anos 1960: entrar na livraria Itatiaia com as pastas escolares infladas de ar para sair de lá com as pastas cheinhas de volumes surrupiados…

O cuidadoso trabalho de edição da obra faz com que cada livraria seja apresentada com seu selo ou logo, e algumas imagens histórias. Impossível não passar alguns minutos detida pela fotografia da página 156, que retrata um evento dentro da livraria Brasiliense.

Sem dúvida, este livro é um presente à inteligência e um brinde à resistência de livreiros, editores, escritores e leitores do Brasil. Em tempos de fechamento de livrarias e de muitas mudanças no âmbito governamental do país em relação à educação, arte e cultura, o Pequeno Guia Histórico das Livrarias Brasileiras cristaliza o amor ao saber com um cuidado inigualável.

 * Mestre e doutoranda em Literatura pela Universidade Federal de Santa Catarina.

Conheça outras obras de Ubiratan Machado

Março é mês de poesia!

Por Renata de Albuquerque

Quem ama ler, lembra: março é mês da poesia. Mas você sabe por quê o terceiro mês do ano é considerado o mais poético deles? A razão é que em março são comemoradas duas datas tradicionalmente ligadas à poesia. Até 2015, no dia 14, era comemorado o Dia Nacional da Poesia. E, até hoje, o dia 21 de março é o Dia Mundial da Poesia.

Foi em 1999 que a XXX Conferência Geral da UNESCO determinou que 21 de março fosse considerado o Dia Mundial da Poesia, em uma ação para apoiar a diversidade de línguas existentes no mundo por meio da expressão poética.  Desde então, a data é celebrada pelo mundo afora.

Já o dia 14 de março é a data de aniversário de Castro Alves, poeta romântico brasileiro, nascido em 1847, muito conhecido por sua produção poética ligada a temas como o abolicionismo e crítica social, que marcaram a Terceira Geração do Romantismo Brasileiro. Para o crítico Afrânio Peixoto, ele foi “o maior poeta brasileiro, lírico e épico”, o que por si só já justificaria a escolha da data. Castro Alves escreveu, entre outros, Espumas Flutuantes, sua obra lírica mais significativa. Entretanto, em 2015, foi sancionada a Lei 13.131, que institui como 31 de outubro o Dia Nacional da Poesia, em homenagem à data de nascimento de Carlos Drummond de Andrade.

Qualquer que seja a data, entretanto, de uma coisa a gente tem certeza: poesia é fundamental para a vida. Por isso, hoje, fazemos uma seleta de poemas aqui, no Blog da Ateliê:

O “adeus” de Teresa

A vez primeira que eu fitei Teresa,

Como as plantas que arrasta a correnteza,

A valsa nos levou nos giros seus

E amamos juntos E depois na sala

“Adeus” eu disse-lhe a tremer co’a fala


E ela, corando, murmurou-me: “adeus.”

Uma noite entreabriu-se um reposteiro. . .

E da alcova saía um cavaleiro

Inda beijando uma mulher sem véus

Era eu Era a pálida Teresa!

“Adeus” lhe disse conservando-a presa


E ela entre beijos murmurou-me: “adeus!”



Passaram tempos sec’los de delírio

Prazeres divinais gozos do Empíreo

… Mas um dia volvi aos lares meus.

Partindo eu disse – “Voltarei! descansa!. . . “

Ela, chorando mais que uma criança,



Ela em soluços murmurou-me: “adeus!”


Quando voltei era o palácio em festa!

E a voz d’Ela e de um homem lá na orquesta

Preenchiam de amor o azul dos céus.

Entrei! Ela me olhou branca surpresa!

Foi a última vez que eu vi Teresa!


E ela arquejando murmurou-me: “adeus!”

Castro Alves, Espumas Flutuantes

Livro Viva Vaia

DIÁLOGO A DOIS

“A Angústia, Augusto, esse leão de areia…”

(Décio Pignatari)

– A Angústia, Augusto, esse leão de areia Que se abebera em tuas mãos de tuas mãos E que desdenha a fronte que lhe ofertas

(Em tuas mãos de tuas mãos por tuas mãos)

E há de chegar paciente ao nervo dos teus olhos, É o Morto que se fecha em tua pele?

O Expulso do teu corpo no teu corpo? A Pedra que se rompe dos teus pulsos? A Areia areia apenas mais o vento?

– A Angústia, Pignatari, Oleiro de Ouro, Esse leão de areia digo este leão

(Ah! o longo olhar sereno em que nos empenhamos, Que é como se eu me estrangulasse com os olhos)

De sangue:

Eu mesmo, além do espelho.

Augusto de Campos, Viva Vaia

ESPELHAR

espelho espelho meu

existe alguém mais

eu

do que

eu

?

Luci Collin, Antologia Poética 1984-2018

III

era o dia em que o sol escurecia pesaroso da morte do Senhor,

quando sem dar por mim, sem nem supor,

teu belo olhar, Senhora, me prendia.

inútil precaver-me parecia

e, desatento aos golpes de amor, segui, de mim seguro: e minha dor

na dor universal assim nascia.

achou-me amor de todo desarmado, aberta a via dos olhos até o peito,

tornado pelas lágrimas num charco.

não parece ter sido grande feito

ferir-me amor com flecha nesse estado

e a ti armada nem mostrar o arco.

Petrarca, Cancioneiro

CIRCE

Porque eu os amava

me encerraram aqui

nesta ilha

neste corpo

Transformo-os

no seu melhor

mas não posso beber

do meu próprio veneno

Por anos esperei

no topo deste penhasco

Ele não voltou:

ensinem-me algo do seu mundo

que eu ainda não saiba

Leila Guenther, Viagem a Um Deserto Interior

Morada

Voltei a escrever para ti

agora que me esqueceste

no intuito de regressar

à esperança que aí me levou,

onde já não moras.

Paulo Lopes Lourenço, Cinematografia

Sem Título

Ser poeta é viver em permanente estado

de(s)atenção

Que importa a luz acesa

a porta aberta

o leite derramando

no fogão?

(mas

o gotejar da torneira:

pulsação)

Marise Hansen, Porta-retratos

Fala D João  3

mais  de pessoa sabe

quem  de peçonha sabe

mocho  a noite  cobreavas

espertando os olhos  da coruja

em pedra  avoenga

meu  gume  afiara

à alva  a cabeça

Évora verá

Hélio Cabral, Fala D. João

Leia mais poesia

Escritoras de livros: literatura para além do Dia Internacional da Mulher

8 de março é Dia Internacional da Mulher. O significado desse dia tem mudado muito, conforme percebemos que as mulheres não precisam (nem devem) ser segregadas como algo à parte da sociedade. Não se trata de comemorar, mas de marcar a importância de promover direitos e igualdade entre homens e mulheres.

Em uma sociedade machista e patriarcal, durante séculos a mulher foi silenciada e colocada em um papel de subserviência. Muitas vezes, restava a elas apenas se expressar em cartas a familiares ou parentes; cartas que muitas vezes nem mesmo chegavam aos seus destinos. Os diários também são um importante documento histórico dessa realidade e, assim, escrever passa a ser uma atividade “consentida” às mulheres, ainda que, mesmo hoje em dia, se nos propusermos a fazer uma lista dos escritores que conhecemos, provavelmente o número de homens será bem maior que o de mulheres. É por isso que hoje o Blog Ateliê se dedica a mostrar alguns dos títulos publicados pela editora que foram escritos por mulheres. Acompanhe:

Antologia Poética – Luci Collin

Esta coedição com a Kotter reúne poemas escritos entre 1984 e 2018. A autora é ensaísta, ficcionista, poeta. Tradutora, professora universitária de Literaturas e Língua Inglesa, bacharel em música (piano e percussão Clássica). Leitora de Jorge de Lima e T.S.Elliot, entre muitos outros. Essa é uma pequena amostra de tudo o que interessa a Luci Collin,  que começou a publicar poesia aos 17 anos e segue, ainda hoje, trazendo sua produção ao público. 

Yaser – Eda Nagayama

Um livro que nasceu da experiência vivida com pessoas, em uma paisagem de guerra. Assim é Yaser, de Eda Nagayama, que alinhava com o fio da ficção a dura realidade da Palestina dos dias de hoje. Eda, que é escritora e atriz paulistana, doutoranda em Estudos Literários (FFLCH/USP), foi voluntária na Palestina, onde se sentia “inimiga por extensão”. Para contar sua experiência, escreveu Yaser. “A escrita nasceu assim dessa necessidade de dar voz e visibilidade ao que vi, ouvi e testemunhei, de responder à minha própria ferida. Não sou uma ativista e minha maneira de agir foi através da palavra – gestada na solidão, povoada por essas pessoas, por Yaser e sua família em especial”, explica a autora.

Casas Importadoras de Santos e seus Agentes

Casas Importadoras de Santos e seus Agentes – Carina Marcondes Ferreira Pedro

A obra de Carina Marcondes Ferreira Pedro originou-se de uma preocupação em melhor compreender os fluxos de importação de bens de consumo – de objetos domésticos a materiais de construção, de “chita até locomotiva” – que caracterizaram o processo de internacionalização das últimas décadas do século XIX. A opção de pesquisa foi “colocar-se” bem junto à sua entrada na Província, depois Estado de São Paulo, no Porto de Santos. As casas importadoras, que se instalavam estrategicamente nas imediações do Porto, constituíram o “posto de observação” da autora. A ação de seus agentes importadores, o fio condutor que a levou pelos caminhos percorridos. 

Paulinho da Viola e o Elogio do Amor – Eliete Eça Negreiros

O livro apresenta uma reflexão sobre a representação do amor na obra do compositor e sua inscrição no âmbito da tradição do pensamento e da lírica ocidental. Através das canções criadas e cantadas por ele, a autora revisita poetas e pensadores como Safo, Platão, Aristóteles, Montaigne, Freud, Walter Benjamin e Octavio Paz.
Eliete destaca três modalidades do amor na lírica violiniana: o amor breve, o amor melancólico e o amor feliz e vê no aspecto meditativo das canções uma espécie de educação sentimental na medida em que Paulinho da Viola descreve e reflete sobre os estados de apaixonamento.

Viagem a um Deserto Interior – Leila Guenther

“Se a arte não parece ter gênero, as experiências o têm: chegam aos poemas de nossos dias vozes marcadas por um espanto de vida a um tempo estoico e dilacerado, ressurgido de incêndios, vingando um calar histórico. Urro e desprezo podem acalantar a criatura ofendida, as inquietudes podem se abrigar numa forma zen, a paisagem contemplada pode guardar uma guerra dentro. São forças da voz de Leila Guenther, que movem quem a ouça”, escreve Alcides Villaça sobre o livro. 

O Quarto Livro dos Fatos e Ditos Heroicos do Bom Pantagruel

O Quarto Livro dos Fatos e Ditos Heroicos do Bom Pantagruel – Élide Valarine Oliver (trad)

O Quarto Livro dos Fatos e Ditos Heroicos do Bom Pantagruel, o mais radicalmente satírico de toda a obra de Rabelais, reflete, na história de sua publicação, os perigos aos quais o próprio Rabelais se expôs, no fim da vida. Uma primeira edição parcial foi publicada em 1548, em Lyon. Em 1552, sai a edição definitiva, em Paris. Ao mesmo tempo, correm boatos de que Rabelais havia sido levado “acorrentado” à prisão. Nada se prova, mas o famoso médico e escritor desaparece, e morrerá, em circunstâncias desconhecidas, no ano seguinte. Teria presumíveis 70 anos, ou talvez mesmo 59. O livro tem como pressuposto continuar as aventuras do Terceiro Livro, onde Panurge busca resolver a dúvida se deve casar-se ou não.

Silêncios no Escuro – Maria Viana

O primeiro livro que Maria Viana escreveu para adultos quase chegou à maioridade antes de seu publicado. Passaram-se 17 anos desde que a autora mineira – que escreve livros infantis e didáticos e organizou diversas antologias – escreveu o conto que dá título ao volume. A autora relata que só se deu conta de que a morte e o silêncio são os fios condutores de todos os contos do livro Silêncios no Escuro depois de tê-los reunidos. Personagens que não falam habitam histórias que os levam de um extremo a outro (morte e vida; tristeza e alegria), costuradas por uma narrativa escrita por alguém que se define como uma leitora voraz que gosta de “contar histórias”.

“A Relíquia”, de Eça de Queirós: humor e ironia em um clássico realista

Por Renata de Albuquerque*

Um romance realista cheio de ironia, humor e com um toque de cinismo. Assim é A Relíquia, romance de Eça de Queirós, publicado em 1887 em Portugal. O livro é narrado por Teodorico Raposo (Raposão), órfão de pai e mãe que, ainda criança, vai morar com sua tia, Dona Maria do Patrocínio (Titi), uma senhora beata, avara e casta. É ela quem controla a fortuna que o sobrinho herdará, no futuro.

As características da tia do narrador não são colocadas por acaso pelo autor. Eça de Queirós foi integrante da chamada Geração de 70 de Portugal, um grupo de artistas e intelectuais que desejava a renovação da  vida política e cultural portuguesa, que consideravam decadente. A obra Causas da decadência dos Povos Peninsulares nos últimos três séculos, de Antero de Quental, componente do grupo, propõe que são três os elementos que levam ao atraso científico e industrial e à decadência moral, econômica e social: o catolicismo, a monarquia absolutista e as conquistas ultramarinas. Em A Relíquia, Eça de Queirós lança mão de uma personagem beata para criticar a igreja católica e a sociedade portuguesa de então.

Enredo

A Relíquia narra as memórias de Teodorico Raposo, órfão cuja mãe morreu no dia seguinte ao parto (um sábado de aleluia) e que, por parte de pai, era neto de padre.  Tudo é contado com um forte tom de ironia. Por isso, o que está posto no romance deve ser lido com uma certa desconfiança do leitor. Graças a este recurso, a obra é uma leitura que agrada e diverte o leitor, pelo humor ácido e pelo cinismo. Teodorico narra as desventuras de viver com a tia e também suas aventuras em uma peregrinação à Terra Santa – viagem que Raposo realiza porque a tia não concordara em enviá-lo a Paris, cidade que Dona Maria do Patrocínio considerava um berço de vício e perdição. Titi pede ao sobrinho que lhe traga uma relíquia de Jerusalém.    

Na Terra Santa, Teodorico passa por uma experiência fantástica. Ele assiste pessoalmente a todo o sofrimento de Jesus Cristo e descobre que, em vez de ressuscitar, ele morreu de fato. Por causa deste episódio, muitos críticos acreditam que o romance fuja um pouco do realismo. Mas, no decorrer da trama, o realismo está fortemente presente.

Obviamente, entretanto, Teodorico não deixa de viver aventuras, ainda que em Jerusalém. Lá ele conhece Miss Mary, com quem tem um romance. Quando se separam, ela lhe dá como lembrança sua camisola, embrulhada em um pacote.

Para honrar a promessa que fez à tia – de trazer-lhe uma relíquia da Terra Santa – Teodorico trança uma falsa coroa de espinhos, que embrulha, de presente para Dona Maria do Patrocínio.

O narrador encontra, em seu caminho, uma mendiga e dá a ela a camisola de Miss Mary. Mas, em vez disso, confunde os pacotes e entrega-lhe a falsa coroa de espinhos. Ao voltar ao Brasil, entrega a camisola à tia que, então, deserda-o. Teodorico lamenta não ter convencido a tia de que aquela seria a camisola de Maria Madalena. Então, começa a vender “relíquias” de Jerusalém, que ele mesmo fabrica, mas o negócio declina com o tempo.

No final, Teodorico Raposo casa-se, torna-se pai e recebe a comenda de Cristo, sem, mesmo assim, deixar de pensar que poderia ter feito fortuna se tivesse dito uma mentira convincente  à tia beata.

Conheça outros títulos da Coleção Clássicos Ateliê


 
*Jornalista, Mestre em Literatura Brasileira pela FFLCH/USP, autora da Dissertação Senhoras de Si: o Querer e o Poder de Personagens Femininas nos Primeiros Contos de Machado de Assis.

Ano novo, livro novo: Novos títulos e reedições Ateliê

O novo ano acabou de chegar, mas que ama ler já fez ou está fazendo a lista de leituras de 2019. E você, o que planeja ler em 2019? Novidades, clássicos, autores nacionais ou estrangeiros?

Para muita gente, um clássico é uma grande novidade. Por isso, relançamentos de títulos são sempre bem vindos para que os novos leitores possam encontrar livros que muitos já consideram essenciais. Por isso, neste ano, a Ateliê vai lançar títulos novos e relançar títulos de sucesso, todos feitos com o mesmo carinho de sempre, perfeitos para os leitores que amam edições bem cuidadas que valorizam o texto sem deixar de privilegiar um lindo projeto editorial. Confira:

 

O Tempo Vivo da Memória – Ensaios de Psicologia Social, de Ecléa Bosi, acaba de ser reeditado. A autora torna atuais as ideias de pensadores como Bergson, Benjamin, Gandhi e Simone Weil, e convida o leitor a dialogar sobre o que a memória recupera, redime e inspira. Dentro dessa perspectiva, os clássicos ajudam a compreender o cotidiano das metrópoles de hoje, com suas contradições entre lembrança e esquecimento.

 

Preservação do Patrimônio Arquitetônico da Industrialização, De Beatriz Mugayar Kühl, também está voltando às prateleiras, devido à sua importância para os pesquisadores da área. O livro traz a releitura crítica de algumas teorias, de modo a conciliá-las às circunstâncias atuais e guiar as intervenções concretas nesses bens. O texto aprofunda, especificamente, algumas questões sobre a restauração do patrimônio industrial. Assim, a autora busca superar certas lacunas conceituais nos atuais debates sobre preservação no Brasil.

Michelângelo – Cinquenta Poemas, traduzido por Mauro Gama, traz textos de um dos maiores gênios da humanidade, em função de suas pinturas e esculturas. Poucos sabem, no entanto, que ele encontrou na poesia um modo de dar vida àquilo que só as palavras podem expressar. Neste livro, o escritor e crítico literário Mauro Gama traduz 50 poemas do artista renascentista para o português da mesma época. O propósito foi estabelecer uma analogia entre o contexto histórico do original italiano e a cultura lusófona do período.

Fragmentos do Narciso e Outros Poemas, traduzido por Júlio Castañon Guimarães, é uma coletânea composta pela tradução de poemas extraídos dos dois principais conjuntos poéticos de Paul Valéry, o Album de vers Anciens (1920) e Charmes (1922), de modo a mostrar diferentes momentos e centros de atenção de sua poesia. Ao se adotar para este conjunto o título de um dos poemas, Fragmentos do Narciso, chama-se a atenção para a tensão entre realidade, imaginação e discurso que percorre toda a obra poética e crítica de Valéry.

Olho Imóvel Pela Força da Harmonia, de William Wordsworth, é uma  coletânea cujos poemas extraem de vivências banais uma dimensão sublime e uma contemplação da ordem do mundo. Com esta edição bilíngue, soma-se ao virtuosismo técnico do poeta a sensibilidade estética das traduções de Alberto Marsicano e John Milton. Wordsworth  é um dos maiores expoentes do romantismo inglês. Sua obra, dotada de uma notável visualidade cinematográfica, influenciou nomes importantes do modernismo, como Fernando Pessoa.

Velhos Amigos, de Ecléa Bosi, traz pequenas narrativas sobre as lembranças de velhos operários, imigrantes e outros personagens anônimos da vida brasileira. As histórias, que se colocam entre o conto e a crônica, tratam de episódios de amigos e família, em tom bem humorado.  A apresentação do livro é de Adélia Prado e as ilustrações, de Odilon Moraes.

O Pai, de Dirce de Assis Cavalcanti, conta, pelos olhos da filha do cadete Dilermano de Assis – assassino de Euclides da Cunha –, como a autora descobriu sua história familiar. Pelos olhos de criança e depois adolescente, seguimos a dolorosa tomada de consciência de ser “a filha do assassino”. No decorrer do depoimento, acompanhamos como ela perdeu e recuperou a estima pelo pai, protagonista da tragédia. Neste ano em que Euclides da Cunha é o homenageado da FLIP, saber mais sobre essa história é uma boa pedida de leitura!

 

 

Euclides da Cunha: Uma Odisseia nos Trópicos, de Frederic Amory, abandona os mitos e dá destaque ao gênio sem separá-lo de suas misérias. O autor dedicou-se como poucos a entender a personalidade e as ideias do autor de Os Sertões. Para isso ele confrontou, de modo rigoroso e objetivo, as problemáticas fontes de informação sobre o escritor. Esta biografia aprofunda e esclarece aspectos da vida e da obra de Euclides da Cunha até então pouco estudados. Outro livro fundamental para quem quer ficar por dentro de tudo o que acontecerá na FLIP!

Nós e as Palavras: textos sobre literatura portuguesa despertam interesse de leitores e professores

Levar a reflexão literária da academia ao leitor de literatura. Esta é a ambição de Nós e as Palavras, organizado pelos professores Patrícia Cardoso, presidente da ABRAPLIP – Associação Brasileira de Professores de Literatura Portuguesa – e Luís Bueno (autor de Capas de Santa Rosa). O livro, que surgiu a partir da proposta temática do XXVI Congresso Internacional  da ABRALIP, reúne textos de vários autores sobre o ensino de literatura portuguesa, a obra de autores portugueses e a circulação da literatura portuguesa em outros países. A seguir, os organizadores falam sobre a obra ao Blog da Ateliê:

Como surgiu a ideia de reunir em livro as reflexões oriundas do Congresso da Abralip? 

Resposta: A ideia de publicar os textos apresentados pode-se dizer que é natural. O objetivo de um Congresso é apresentar novas abordagens e ampliar o debate. E essa ampliação só ocorre de fato quando se olha para um público maior do que aquele que pôde estar no congresso, seja o público acadêmico, dedicado à área, seja um público mais amplo, de interessados e leitores em geral.

Qual a importância dessa compilação, em sua opinião?

R: A publicação desta coletânea faz parte do esforço de manter o debate vivo. São as novas abordagens, as descobertas críticas, as reflexões sobre o passado que permitem que a crítica e o pensamento se renovem. E se, como acontece neste Nós e as Palavras, reúnem-se reflexões diversas, com perspectivas diferentes, ainda é melhor. É mais uma ação de pensar a literatura portuguesa no Brasil, o que significa pensar a constituição cultural do Brasil e sua integração nesse universo tão amplo como é o da lusofonia.

 

Em sua opinião, o livro é destinado apenas a pesquisadores da área ou pode atrair o público leigo? Neste caso, o que este público pode encontrar que o interesse no livro?

R: O livro busca interessar um público que não seja apenas o de especialistas. A reflexão sobre literatura, de maneira geral, tem sempre a ambição de chegar ao leitor de literatura, de não ficar restrita aos estudiosos. No caso deste livro, há vários elementos por meio dos quais se procura atingir esse objetivo. É assim que nele o interessado irá encontrar uma grande variedade de temas. Há textos que tratam de questões importantes da literatura portuguesa, como a literatura medieval, as obras do Padre Vieira, de Camilo Castelo Branco, Eça de Queirós, Fernando Pessoa, Agustina Bessa-Luís, literatura contemporânea e literatura infantil, por exemplo. Mas também há toda uma sessão dedicada ao ensino de literatura em geral e de literatura portuguesa especificamente, assim como um conjunto de reflexões sobre a circulação da literatura portuguesa em outros países. Um outro elemento que enriquece o livro e pode despertar o interesse é o fato de ele trazer a experiência não apenas de professores que atuam no Brasil, mas também de colegas que atuam em outros contextos, como França, Itália, Suécia e Portugal.

 

Eça de Queirós

A questão do “tudo está dito”, que permeia o volume, se por um lado pode sugerir que não há mais nada a ser dito, por outro abre caminhos e possibilidades de reinterpretação; de lançar um novo olhar sobre o que já está posto. Como esta questão é tratada no livro?

R: O livro explora o grande desafio da crítica literária como uma prática reflexiva que sistematicamente se depara com abordagens canônicas as quais, ao mesmo tempo que servem de referência, constituem verdadeiros empecilhos para que novos olhares se lancem sobre os objetos de estudo. Assim, escritos por estudiosos com orientações acadêmicas diversas, os artigos que integram Nós e as Palavras são bons exemplos de exercícios de crítica literária que buscam lançar olhares renovados sobre temas e autores de grande representatividade.

 

De que maneira o Brasil lê literatura portuguesa hoje? Que implicações culturais há nesta leitura?

R: De um modo geral, a consolidação da produção literária brasileira, associada a um discurso de defesa de uma completa autonomia do Brasil em relação à matriz portuguesa, fez decrescer no nosso país o interesse pela literatura produzida em Portugal. Portanto, aquele espírito de autonomia orientou um processo que acabou por levar não apenas os leitores mas os próprios escritores ao desconhecimento de autores e temas antes intrinsecamente ligados ao contexto brasileiro de produção, como é o caso de Camões, do padre António Vieira, de Camilo Castelo Branco e Eça de Queirós, entre tantos outros cujas obras contam-se entre as melhores produzidas no mundo. Trata-se, portanto, de uma perda no conhecimento de um repertório que muito contribui para compreender-se a própria cultura brasileira, o que  nela está em relação com a cultura portuguesa, a qual por razões históricas teve um papel determinante na formação da consciência literária entre nós. Os brasileiros foram-se distanciando de Portugal como essa matriz cultural. A prova de que a ignorância desses vínculos não representou seu efetivo apagamento é o que vem acontecendo nos últimos anos: no momento em que o país do fado transformou-se em destino turístico internacional, é com uma surpresa positiva que os brasileiros que o visitam ali se reconheçam. Este livro pretende contribuir para a consolidação desse reconhecimento de uma frutífera relação cultural através da literatura.

Quais são os principais “achados”, as novidades que este volume traz ao leitor? De que maneira sua leitura pode enriquecer o trabalho de professores da área de literatura (em geral)?  

R: O achado do livro é o próprio livro, como esforço de mapeamento da literatura portuguesa a partir de perspectivas variadas, de modo que a sua leitura se faça sem uma orientação fechada, restritiva. É a estratégia ideal para atrair tanto os que já conhecem os temas e autores abordados quanto aqueles que iniciam o percurso por essa literatura.

Leitura de Autores na Biblioteca Brasiliana

Imagine poder encontrar-se com seu autor predileto, em pessoa, e descobrir o que o fez tornar-se escritor. É esse encontro que o projeto “Leitura de Autores”, da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin (BBM) promove, mensalmente, desde o mês de setembro.

José Ramos de Paula, que participa do evento

A ideia do projeto, coordenado pelos professores da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP Plinio Martins Filho e Jean Pierre Chauvin é trazer autores para falarem aos leitores de suas experiências de leitura, como elas influenciaram em seu desenvolvimento pessoal e como, a partir delas, puderam tornar-se autores. Isso porque a leitura é a atividade fundamental que move uma biblioteca, que influencia o desenvolvimento das pessoas e que era uma “obsessão para Mindlin”, como lembra Martins.

Segundo a apresentação do projeto, “o evento visa a estimular o encontro de profissionais da palavra (em verso e prosa) com aqueles que já são aficionados por literatura, mas também leitores em potencial: alunos, pesquisadores, professores, escritores amadores etc.”.

Nesta primeira edição, já foram convidados Marcelino Freire (autor de “Angu de Sangue”, “Era O Dito” e “BaléRalé”, entre outros); Rodrigo Lacerda (“O Mistério do Leão Rampante”; “Tripé”) e Veronica Stigger (“Sul”; “Os Anões”).

Ainda em novembro acontece o último encontro de 2018, com o professor e poeta José de Paula Ramos Jr, responsável pela Coleção Clássicos Ateliê.

As inscrições para o projeto “Leitura de Autores” são gratuitas e podem ser feitas pelo e-mail [email protected].

Coleção Estudos Literários Ateliê: títulos que explicam o que está por trás da literatura

Trazer a produção acadêmica às mãos do público leitor. Esta talvez seja a maneira mais objetiva de explicar a razão pela qual a Coleção Estudos Literários da Ateliê foi criada, há quase duas décadas. É bastante comum que a produção acadêmica não consiga chegar ao leitor mais interessado em saber o que está para além daquilo que ele lê nos títulos mais importantes da literatura mundial: as influências de cada autor, a interpretação de cada obra, o significado de cada personagem.

O terreno dos estudos literários é fértil para unir campos distintos de conhecimento, como literatura, cinema, psicanálise, filosofia e tradução. Por isso, a Ateliê tem mais de cinquenta títulos deste selo, muitos deles publicados com o apoio da FAPESP – Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo.

São títulos variados, como Escritas do Desejo – Crítica Literária e Psicanálise, organizado por Yudith Rosenbaum e Cleusa Rios P. Passos. O livro reúne onze textos que propõe modos distintos de ler as relações críticas entre os dois campos, reafirmando, na esteira de Freud e Lacan, a “dimensão da subjetividade humana” na obra literária.

Outros títulos são dedicados à obra de um artista em especial, como é o caso de Olga Savary – Erotismo e Paixão, escrito por Marleine Paula Marcondes e Ferreira de Toledo. Ela se debruça sobre a obra savaryana priorizando dois de seus traços fundamentais: o erotismo e o patriotismo. A análise teve a colaboração da própria poeta, que concedeu entrevistas, participou de debates e disponibilizou depoimentos dados à imprensa nacional e estrangeira.

Cabo Verde – Literatura em Chão de Cultura, de Simone Caputo Gomes, enfoca a literatura do país e  as relações entre a literatura cabo-verdiana e a cultura crioula; e o diálogo entre essa literatura e outras artes, como a música, a pintura e a escultura.

Há também títulos que aproximam cinema e literatura, como Porvir que Vem Antes de Tudo – Literatura e Cinema em Lavoura Arcaica, de Renato Tardivo. No volume, o autor explica como livro (1975) e filme (2001) compõem um jogo peculiar de identidade e diferença.

 

 

Para que todo esse conhecimento não fique restrito a um círculo específico de pessoas dentro das universidades, os trabalhos acadêmicos ganham uma edição cuidadosa e um belo projeto gráfico para que levem um conteúdo rico, de maneira agradável, aos leitores. Assim, a coleção dá espaço à nova geração de pesquisadores brasileiros e permite o conhecimento de ideias originais e contemporâneas.

Conheça a Coleção Estudos Literários

 

Feliz Dia dos Professores

Essas figuras fazem parte do nosso dia a dia durante toda nossa infância e adolescência; elas nos ensinam ferramentas poderosas, como a leitura e a visão crítica; transmitem conhecimento formal que levaremos para a vida toda. Por isso, desejar “Feliz Dia dos Professores” é mais que uma homenagem protocolar; é algo que cada cidadão deveria fazer com sinceridade e gratidão.

Mas, o que seria de um professor sem livros, se são eles que oferecem a base do conhecimento que ele tão generosamente compartilha?  São os professores que nos incentivam a ler clássicos, a praticar cálculo em exercícios complexos, a entender a organização das células e dos planetas.

Mas, se nós lemos por estímulo deles – e com isso aprendemos tanto – a pergunta é: e eles, o que leem?

Neste ano, esta foi a pergunta que o Blog da Ateliê fez a dois professores para que, mais do que oferecer dicas de leitura, eles pudessem compartilhar suas experiências com outros professores, leitores do Blog.

 

Teoria e ficção

De títulos de ficção aos teóricos, a lista de “o que ler” fica maior a cada dia que passa para qualquer professor que queira se manter atualizado. Mas quais são os livros que merecem ser lidos e relidos?

Ayrthon Breder, graduado em Letras pela PUC-Rio e mestrando em Linguística pela mesma universidade, é professor voluntário de Redação no NEAd (Núcleo de Educação de Adultos/PUC-Rio) com aulas. “O principal livro fonte de minhas aulas de redação para alunos do ENEM é A arte de argumentar: gerenciando razão e emoção. Acredito que um bom professor ensina seus alunos a opinarem, a se colocarem presentes face às diversas situações da vida. A argumentação é importante nessa tarefa, pois ajuda o aluno, não só a discursar com mais propriedade, como também a ser um ouvinte crítico”, explica.

 

 

Já Sávio Lima Lopes, que além de professor do curso de Administração é também graduando em Letras, lembra que a ficção também pode ser usada em sala de aula. “No curso de Recursos Humanos, na aula de Comunicação Empresarial, li o conto “O caso da menina”, que está no livro Angu de Sangue. O objetivo era exemplificar ritmo e entonação das palavras, logo quando começamos a estudar prosódia Já é o terceiro livro do Marcelino Freire que leio”, afirma.

Mas, como também é aluno, ele completa: “Na graduação em Letras meu companheiro inseparável, tem sido Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, E que edição maravilhosa: ilustrada, com um ensaio incrível do Antônio Medina Rodrigues”, conclui.

A seguir, o Blog da Ateliê faz uma seleção para professor nenhum colocar defeito! Feliz Dia dos Professores!

Gramática Integral da Língua Portuguesa

Esta gramática se destina a todos aqueles que gostariam de conhecer melhor a maneira como funciona a língua portuguesa e resolver dúvidas sobre concordância, regência, ortografia, colocação etc., por meio de respostas simples, escritas em linguagem clara, despidas de complicações ou erudições. Por isso, esta gramática é útil tanto para alunos do ensino fundamental e médio quanto para quem cursa ou já cursou universidade e quer ter segurança ao escrever um e-mail, um relatório, uma apresentação, uma tese acadêmica, uma petição ou até mesmo um livro de ficção.

 

Sonetos de Camões

O desejo de plenitude amorosa, as dificuldades existenciais e a injustiça dos homens estão entre os grandes temas do Renascimento presentes na lírica de Camões. Ricos em antíteses e metáforas, seus sonetos estão entre as mais belas expressões literárias da língua portuguesa. A voz reflexiva que se ergue desses versos produz a elevação do espírito e o entusiasmo verbal. Esta edição traz os poemas mais representativos do acervo camoniano, comentados por dois experientes pr

ofessores de Literatura.

 

 

História da Língua Portuguesa

Esta coletânea traça, em detalhes, o percurso histórico da língua portuguesa. Os autores aqui reunidos abordam as mudanças da língua do século XII ao XX, a oposição entre o português europeu e o brasileiro, entre outros assuntos. Sem desmerecer os estudos descritivos, a obra mostra preocupações de caráter explicativo e discute questões que só a investigação histórica pode revelar. Cada um dos seis capítulos vem acompanhado de textos anotados, vocabulário crítico e bibliografia comentada.

 

A Nebulosa

A coleção Clássicos Ateliê oferece ao leitor a 3ª edição de A Nebulosa, poema narrativo de Joaquim Manuel de Macedo, após quase 150 anos fora de circulação. Grande sucesso editorial nas duas edições lançadas em vida do autor, no século XIX, A Nebulosa narra a trágica história de um amor impossível, configurada no âmbito da corrente da poesia romântica noturna e melancólica a que Álvares de Azevedo também se dedicou. Para Antonio Candido, A Nebulosa vem a ser “talvez o melhor poema-romance do romantismo [brasileiro]”. O texto desta edição, estabelecido rigorosamente com base no da segunda (1878?), em cotejo com o da primeira (1857), é introduzido por um precioso estudo crítico de Ângela Maria Gonçalves da Costa, doutora em Teoria e História Literária pela Unicamp, que dá minuciosa notícia da recepção crítica do poema e analisa seus principais aspectos de forma e conteúdo, no contexto da poética cultural do ultrarromantismo, em que se insere A Nebulosa. O volume conta com ilustrações do artista plástico Kaio Romero.

 

Jacques Derrida – Entreatos da Leitura e Literatura

Literatura e Filosofia. A partir desse encontro promovido pela obra de Jacques Derrida, cujos efeitos ainda incidem sobre o pensamento contemporâneo, este livro reúne artigos de Eneida Maria de Souza, Myriam Ávila, Evando Nascimento, Emílio Maciel, Maria Esther Maciel, Mónica Cragnolini, Roberto Said, Luiz Fernando Ferreira Sá, Ram Mandil, Nabil Araújo, Sérgio Luiz Prado Bellei, Gustavo Silveira Ribeiro e Roniere Menezes.

 

 

Poesia É Criação: Uma AntologiaPoesia é Criação: Uma Antologia

Almada Negreiros, que começa por dar corpo à Vanguarda em Portugal, é uma das figuras de artista mais importantes do século XX português, que atravessa em grande medida, com uma passagem de menos de um ano em Paris e outra de cinco anos em Madrid. Da sua arte de poeta, ficcionista, dramaturgo, desenhista, pintor ou conferencista há vinte e quatro exemplos alinhados nesta antologia, seguindo, com uma exceção, o critério cronológico. Mais que um princípio de simetria ou de arrumação por gêneros, aparecem assim de modo mais evidente as relações entre os textos, o nexo profundo que torna as diferentes artes o mesmo gesto essencial.