Monthly Archives: setembro 2020

“A Nebulosa”: um belo poema

Por: Roberta Araújo*

Publicado em 1857, “A Nebulosa” foi considerada à época como “um dos mais belos poemas dos tempos modernos”. 

Escrito por Joaquim Manoel de Macedo, autor dos clássicos “A Moreninha” e “Vítimas Algozes”, a obra é um poema-romance que, há um século e meio não era reeditada. Caída no esquecimento até mesmo por especialistas. 

Eu, que sequer sabia da existência desta obra, tive uma ótima surpresa ao ler esta caprichada edição da Ateliê Editorial, que conta com um texto de apresentação de Angela Maria Gonçalves da Costa e notas de rodapé, que facilitam demais a compreensão dos leitores. As ilustrações do artista plástico Kaio Romero dão um toque especial à edição. 

“A Nebulosa” conta a história de um amor impossível a partir da lenda de uma mulher linda, que surgia à noite em um penhasco e encantava os homens com o seu canto. O Trovador, encantado com ela, uma feiticeira, decide se matar. Ao pedir para sua Mãe socorro, ela vai até a Peregrina, que cede aos apelos. No entanto, já era tarde: ele se encontra com a Doida, descendente da Nebulosa e, juntos, se atiram do penhasco. A Mãe, de tanto sofrimento, morre e a Peregrina, amaldiçoada por ela, também. 

Gosto muito de obras que partem de lendas e mitos para desenvolver a história e esta realmente me cativou do início ao fim. 

Destaco aqui dois trechos: 

“Ó, natureza! Minha dor insultas!

Na tua placidez leio um sarcasmo;

Abomino-te, assim, amo-te horrível”.

“Dói-te a vida que arrasta alma cativa?

Pesa-te amar debalde?… – não a vejas:

Pede ao céu que desfira um raio ardente, 

Que de uma vez te cegue, melhor fora, 

 Do que vê-la e morrer de amor por ela”. 

Precisamos cada vez mais de poesia e este poema-romance de Macedo foi escrito com maestria, para encantar os leitores. 

Quer saber mais sobre A Nebulosa?

*Advogada, pós-graduada em direito e processo penal. Mestranda em direito pela UFRJ, mantém o perfil @justa.causa

Leia trechos de Museu da Infância Eterna

A infância é uma energia que nunca morre, um tempo idílico de boas lembranças, que nos remete à pureza e à inocência. Miguel Sanches Neto reuniu, neste Museu da Infância Eterna, crônicas sobre este tempo delicado, “que podem ser lidas como um eterno presente”. A seguir, você tem acesso a alguns trechos do livro:

“Mãe, pai e irmãos trabalhando sem lamúrias: aqueles eram anos de labor e alegria, de fé e fascínio, de suor e sono. Com o que ganhava, o menino podia comprar seu lanche, garrafas de sodinha e as bolinhas de gude, chamadas burcas. E Burca virá a ser o apelido de uma de suas paixões adolescentes, por causa de certos olhos negros como as bolinhas usadas nos jogos em quintais de terra”. (p.9)

“Meu avô usou chapéu a vida toda. Eu passava pela loja de sapatos ao lado da igreja matriz e via, nas vitrines de madeira escura, chapéus pretos, muito bonitos, e ficava esperando o dia em que também poderia ter o meu – o tempo estava emperrado na cidade, mas logo ela seria incorporada à civilização. Um dos prefeitos instalaria uma tevê na praça. A cidade entraria no presente, os hábitos mudariam, eu cresceria, ouvindo agora rock. Não deu tempo para eu usar chapéu”. (p. 39)

“Nessa idade e ainda me assustando com um barulho provavelmente
de raposa no forro – lembrei então que a casa é de laje e que raposas não são tão comuns assim. Acendi a luz da sala de tevê e encontrei um Papai Noel sentado em frente da lareira. Ele estava com a roupa rasgada e suja de carvão. Em toda a minha vida, nem quando eu acreditava em Papai Noel, ele me apareceu. Depois deixei de me fiar nessas bobagens e sempre fiz os presentes natalinos de minha filha chegarem acompanhados de nota fiscal em meu nome, o que era motivo de espanto e revolta entre os vendedores” (p.56).

“O que antes era cosmos se tornara caos. O caderno deixava de ser espaço para a ordenação do mundo e das ideias e assumia sua condição de muro, onde todos inscreviam uivos de raiva e de amor. E apareciam nos cadernos nomes de pessoas queridas, palavras sujas, riscos, garranchos, desenhos, principalmente desenhos – caricaturas entre os que tinham maior aptidão para os traços, e rudimentares casinhas com árvore e sol nascendo entre nós, carentes de qualquer vocação”. (p. 95)

Conheça outros livros de Miguel Sanches Neto

Herdando uma Biblioteca: uma declaração de amor aos livros

Por: Renata de Albuquerque*

Assim como “não se compra um livro pela capa” – ditado popular que nos lembra sobre o quanto podemos nos enganar com o que está aparente – nem sempre é possível “comprar um livro pelo título”. É o que acontece com este Herdando uma Biblioteca, de Miguel Sanches Neto, cuja segunda edição (revista e ampliada) acaba de sair pela Ateliê. Afinal, quem lê apenas o título imagina que o autor tenha recebido como legado uma coleção de livros.

Ao abrir o volume, descobrimos que não é isso exatamente o que aconteceu. As crônicas trazem reflexões sobre o mundo do livros e contam um pouco da trajetória do autor, filho de família modesta e pouco letrada do interior do Paraná. Na época, conta Sanches Neto, ele tinha quase nenhum contato com livros que não fossem os didáticos e, apesar disso, tornou-se um bibliófilo na vida adulta.

Mas, apesar de não ter herdado uma biblioteca, Sanches Neto nos conta, com delicadeza, como construiu a sua e que heranças ligadas ao livro trouxe desde a infância. Já os primeiros parágrafos emocionam qualquer leitor amante de livros. A maneira delicada, perspicaz e singela com que o autor conta passagens de sua história enquanto leitor fazem do volume uma verdadeira celebração ao mundo dos livros.

Ao contar fragmentos de sua história, Sanches Neto lembra a cada leitor de reconstruir, para si mesmo ou para os outros, a sua trajetória em meio aos livros. As idas à biblioteca pública, o único livro disponível em casa (uma Bíblia), os livros abandonados por uns e encontrados por outros, os livros ruins recebidos de amigos bons que perguntam nossa opinião que não podemos dar sinceramente.

 “É um volume de crônicas sobre como, vindo de uma família de analfabetos, eu tive que inventar a minha biblioteca, tive que acreditar que era, sim, possível uma vida intelectual ao lado dos livros. Este é meu único volume de crônicas que não foi publicado em jornais. Nasceu como projeto estruturado para livro, como se fosse um romance fragmentado de meu amor à biblioteca”, diz o autor.

Com uma escrita afetuosa, que traz à tona memórias valiosas de “amor à biblioteca”, Sanches Neto envolve o leitor em uma atmosfera idílica, recriando histórias que não se prendem apenas ao livro, mas ao universo que o permeia, como é o caso da deliciosa crônica “A Arte de Apontar Lápis”.

Muitas das importantes experiências pelas quais um leitor passa ao longo da vida estão nas páginas de Herdando uma Biblioteca, um livro que consegue ser, a um só tempo, uma história contada singularmente e um incentivo para que, ao fechar o livro, cada leitor torne-se autor de sua própria história, revivendo, nem que seja apenas na lembrança, as passagens que o fizeram amar os livros.

*Jornalista, Mestre em Literatura Brasileira pela FFLCH/USP, autora da Dissertação Senhoras de Si: o Querer e o Poder de Personagens Femininas nos Primeiros Contos de Machado de Assis.