Poesia

Robert Creeley

André Caramuru Aubert | Jornal Rascunho | Maio de 2014

A Um – Poemas, de Robert CreeleyO poeta norte-americano Robert Creeley (1926-2005) é, entre seus conterrâneos e contemporâneos, um dos mais conhecidos (ou menos desconhecidos) no Brasil. Além da qualidade de sua obra, talvez tenha ajudado, para isso, o fato de Creeley ter estado em São Paulo e conhecido alguns de nossos poetas. O fato é que ele deixou por aqui alguns admiradores importantes, como Ruy Vasconcelos e, principalmente, Régis Bonvicino, editor e tradutor de uma excelente coletânea brasileira (A UM, Poemas. Ed. bilíngue, Ateliê Editorial, 1997).

Ainda assim, diante de tudo o que Robert Creeley produziu, o que temos dele em português é muito pouco. Os quarenta e um poemas presentes em A UM, embora bastante representativos (são uma mistura de sugestões do próprio autor com os prediletos do tradutor), não passam de uma gota no oceano diante de alguém que escreveu continuamente por cerca de sessenta anos, e cuja obra completa, em inglês, espalha-se em dois volumes com mais de mil e duzentas páginas no total.

Creeley é uma unanimidade. Discípulo de William Carlos Williams e admirado por este, foi um líder do grupo Black Mountain, embora sua poesia muitas vezes ficasse distante da de outros membros. Elo de ligação entre os Beats e os poetas da San Francisco Renaissance, e entre os grupos de Nova York e da Califórnia, ele conseguia circular com desenvoltura entre poetas como Jack Kerouac e Allen Ginsberg, de um lado, e Charles Olson e Denise Levertov, de outro. Conhecido por sua generosidade, Creeley gostava de dar aulas e não se cansava de orientar novos poetas. Em função da combinação de sua personalidade com uma produção rigorosa e intensa, Creeley foi influente como talvez nenhum outro poeta de sua geração. Segundo alguns, um “poeta de poetas” por excelência.

A temática de Robert Creeley, como bom discípulo de W. C. Williams, gira primordialmente em torno das pequenas coisas, de cenas do cotidiano, de rápidas impressões de viagem. Econômico e preciso, suas quebras de linha são únicas. Embora afirmasse que, em poesia, a forma deveria se subordinar ao conteúdo, poucos poetas contemporâneos são mais formalmente rigorosos do que ele. Creeley possuía, segundo Williams, “o mais sutil sentido da medida desde Ezra Pound”. O que faz com que, estruturados a partir de um íntimo conhecimento dos sons, da respiração e dos ritmos da língua inglesa, os poemas de Creeley sejam muito difíceis de traduzir, especialmente para uma língua tão diferente da dele quanto é o português (Régis Bonvicino já chamava a atenção para isso na introdução a A UM). Mas penso que, apesar dos percalços e das limitações no resultado final, o esforço vale a pena, tanto para quem traduz quanto para quem lê.

Para esta introdução a Robert Creeley, procurei incluir alguns poemas de cada uma das etapas de sua carreira. Evitei apenas os que já haviam aparecido em português, especialmente na seleção de Régis Bonvicino (mesmo sabendo que ali estão algumas das mais belas composições de Creeley) porque, se por um lado eu não poderia pretender fazer uma tradução melhor, por outro, afinal de contas, eles já estão disponíveis em livro, em português. 

RETURN
Quiet as is proper for such places;
The street, subdued, half-snow, half-rain,
Endless, but ending in the darkened doors.
Inside, they who will be there always,
Quiet as is proper for such people —
Enough for now to be here, and
To know my door is one of these.

RETORNO
Silenciosa como é próprio para lugares assim;
A rua, calma, meio neve, meio chuva,
Sem fim, mas terminando nas portas escuras.
Dentro, aqueles que estão sempre lá,
Silenciosos como é próprio para pessoas assim —
Bastando por ora estar ali, e
Saber que a minha porta é uma destas.

MIDNIGHT
When the rain stops
and the cat drops
out of the tree
to walk

away, when the rain stops,
when the others come home, when
the phone stops,
the drip of water, the

potential of a caller
any Sunday afternoon.

MEIA-NOITE
Quando a chuva para
e o gato desce
da árvore
para sair

andando, quando a chuva para,
quando os outros voltam pra casa, quando
o telefone para,
os pingos d’água, a

possibilidade de um telefonema
uma tarde de domingo qualquer.

FOR HELEN
… If I can
remember anything, it
is the way ahead
you made for me, specifically:

wet-
ness, now the grass
as early it
has webs, all the lawn
stretched out from
the door, the back
one with a small crabbed
porch. The trees
are, then so high, a huge encrusted
sense of grooved trunk,
I can
slide my finger along
each edge.

PARA HELEN
… Se eu posso
me lembrar de algo, é
do caminho que
você abriu para mim, especificamente:

umi-
dade, agora a relva
como mais cedo, tem
teias, todo o campo
estendido para além da
porta, a de trás
para um pequeno, insignificante
alpendre. As árvores
estão, então, tão altas, um forte sentimento de
incrustrados e adequados troncos,
eu posso
deslizar meu dedo por
cada ponta.

AS YOU COME
As you come down
the road, it swings
slowly left and the sea
opens below you,
west. It sounds out.

ENQUANTO VOCÊ VEM
Enquanto você vem
pela estrada, ela vira
lentamente à esquerda e o mar
se abre abaixo de você,
a oeste. Isso se mostra.

THEN
Don’t go
to the mountains,

again — not
away, mad. Let’s

talk it out, you
never went anywhere.

I did — and here
in the world, looking back

on so-called life
with its impeccable

talk and legs and breasts,
I loved you

but not as some
gross habit, please.

Your voice
so quiet now,

so vacant, for me,
no sound, on the phone,

no clothes, on the floor,
no face, no hands,

— if I didn’t want
to be here, I wouldn’t

be here, and would
be elsewhere? Then.

ENTÃO
Não vá
para as montanhas,

de novo — não
embora, zangada. Vamos

resolver isso, você
nunca foi a lugar algum.

Eu fui — e aqui
no mundo, olhando para trás

na assim chamada vida
com suas impecáveis

conversas e pernas e seios,
eu amei você

mas não enquanto algum
hábito grosseiro, por favor.

Sua voz
tão quieta agora,

tão vazia, para mim,
nenhum som, no telefone,

nenhuma roupa, no chão
nenhuma face, nem mãos,

— se eu não quisesse
estar aqui, eu não estaria

aqui, e estaria
em outro lugar? E então.

SEA
Ever
to sleep,
returning water.

*

Rock’s upright,
thinking.

*

Boy and dog
following
the edge.

*

Come back, first
wave I saw.

*

Old man at
water’s edge, brown
pants rolled up,
white legs, and hair.

*

Thin faint
clouds begin
to drift over
sun, im-
perceptibly.

*

Stick stuck
in sand, shoes,
sweater, cigarettes.

*

No home more
to go to.

*

But that line,
sky and sea’s,
something else.

*

Adios, water —
for another day.

MAR
Sempre
para dormir,
a água voltando.

*

As rochas à direita,
pensando.

*

Garoto e cachorro
seguindo
pela beira.

*

De volta, a
primeira onda que vi.

*

Um velho na
beira d’água, calças
marrons enroladas nas pernas,
pernas brancas, e cabelos.

*

Leve desmaio
nuvens começam
a vaguear por sobre
o sol, im-
perceptivelmente.

*

Galho preso
na areia, sapatos,
agasalho, cigarros.

*

Sem uma casa mais
para onde ir.

*

Mas aquela linha,
de céu e mar,
alguma coisa a mais.

*

Adiós, água —
até um outro dia.

FIRST RAIN
These retroactive small
instances of feeling

reach out for a common
ground in the wet

first rain of a faded
winter. Along the grey

iced sidewalk revealed
piles of dogshit, papers,

bits of old clothing, are
the human pledges,

call them, “We are here and
have been all the time.” I

walk quickly. The wind
drives the rain, drenching

my coat, pants, blurs
my glasses, as I pass.

PRIMEIRA CHUVA
Estas pequenas e retroativas
instâncias do sentimento

alcançam um terreno
comum na umidade

primeira chuva em um
desbotado inverno. Ao longo do cinzento

e gelado meio-fio revelam-se
pilhas de cocô de cachorro, papéis,

pedaços de roupas velhas, são
os rastros humanos,

chame-os, “nós aqui estamos e
estivemos por todos os tempos.” Eu

caminho ligeiro. O vento
conduz a chuva, encharcando

meu casaco, calças, borra
meus óculos, enquanto eu passo.

HOTEL
It isn’t in the world of
fragile relationships

or memories, nothing
you could have brought with you.

It’s snowing in Toronto.
It’s four-thirty, a winter evening,

and the tv looks like a faded
hailstorm. The people

you know are down the hall,
maybe, but you’re tired,

you’re alone, and that’s happy.
Give up and lie down.

HOTEL
Não está no mundo dos
relacionamentos delicados

ou memórias, nada que
você possa ter trazido com você.

Está nevando em Toronto.
São quatro e meia, uma tarde de inverno,

e a tv parece uma opaca chuva de
granizo. As pessoas que você

conhece estão lá embaixo, no saguão,
provavelmente, mas você está cansado,

você está só, e isso é bom.
Desista, e deite-se.

HERE
Up a hill and down again.
Around and in —

Out was what it was all about
but now it’s done.

At the end was the beginning,
just like it said or someone did.

Keep looking, keep looking,
keep looking.

AQUI
Colina acima, e abaixo novamente.
Em volta dela e para ela —

Fora estava tudo o que contava
mas agora está terminado.

No final estava o começo,
como se costuma dizer ou alguém disse.

Fique olhando, fique olhando,
fique olhando.

Acesse o livro na loja virtual da Ateliê

Valéry e Nerval: o eu inesgotável

Felipe Fortuna | Valor Econômico | 04 de abril de 2014

Dois lançamentos permitem novas incursões na obra dos dois poetas franceses bem como no trabalho de tradução de poesia para o português.

Gérard de Nerval: Cinquenta Poemas

Fragmentos do Narciso e Outros Poemas

 

As numerosas diferenças entre Gérard de Nerval (1808-1855) e Paul Valéry (1871-1945) não são apenas as da cronologia, mas sobretudo de concepção da obra literária. Para o escritor de Les Filles Du Feu (1854), os símbolos do hermetismo – saturados de mensagens esotéricas e de vigoroso discurso místico – se transfiguravam em literatura. Já para o escritor de Charmes (1926), disciplina e rigor deveriam ser forças simultâneas na construção da prosa e da poesia, em repulsa a qualquer aspecto que não fosse determinado pelo intelecto.

Observa-se, no entanto, um interessante ponto em comum entre os dois escritores: ainda muito jovem, Nerval publicou sua tradução do Fausto, de Goethe, com qual ganhou notoriedade. Já Valéry escreveu, na velhice, um Mon Faust (1946) que só seria publicado postumamente: livro confessadamente “sem plano”, na forma de esboços que repercutem as derradeiras meditações do poeta na Europa em guerra.

Dois lançamentos da Ateliê Editorial – os Cinquenta Poemas, de Gérard de Nerval, e Fragmentos do Narciso e Outros Poemas, de Paul Valéry – permitem novas incursões na obra desses poetas, bem como no trabalho de tradução de poesia para o português.

A seleção e tradução dos poemas de Nerval por Mauro Gama inclui As Quimeras, célebre conjunto de 12 sonetos, bem como as Outras Quimeras. Trata-se de um considerável desafio tanto para o tradutor quanto para quem, com acesso ao original, procure desvendar o sentido de todo o esoterismo trazido pelo poeta. Em Ártemis, por exemplo: “É a Décima-Terceira, agora… E ainda a primeira:/ E é a única sempre, ou o único instante:/ Pois és Rainha, Tu! primeira ou derradeira?/ És Rei, Único, tu, ou o último amante?…”

Nem sempre, porém, o tradutor consegue resolver as surpreendentes imagens do poeta – que caíram no gosto dos surrealistas, décadas depois. No conhecido soneto El Desdichado, espécie de autobiografia espiritual e fatídica, o quarteto inicial tem muita importância: “Eu sou o Tenebroso, – o Viúvo, – o Inconsolado,/ O príncipe aquitano em torre agora ruída./ Minha Estrela morreu; meu lude constelado/ Traz o sol negro e o horror da Angústia desmedida”. Lamenta-se que o tradutor não tenha conseguido manter a palavra “melancolia” no último verso, “Porte Le Soleil noir de La Mélancolie”. Essa palavra é essencial para compreensão do estado psíquico do poeta, além de estar inserida na sofrida tendência ao spleen que caracterizou tantos (senão todos) poetas românticos. A ideia de um “horror de Angústia desmedida” introduz elementos estranhos ao já singular estranhamento que provocam os poemas de Nerval.

A edição dos seus Cinquenta Poemas mereceria maior cuidado quanto à fixação do texto original, em que alguns casos foi transcrito com erros; e, nas traduções, maior atenção com o uso pessoalíssimo das maiúsculas, que conferem à mitologia e à vaga religião esboçadas pelo poeta aspectos ainda mais fascinantes.

Desafiadora, exigente, intelectualizada, a poesia de Paul Valéry manteve decisiva influência na modernidade. No Brasil, bastaria citar a concepção de um livro como Claro enigma (1951), de Carlos Drummond de Andrade, que se permite formas clássicas e indagações filosóficas, sob a égide de uma citação do poeta francês: “Os acontecimentos me aborrecem”, em contraponto a uma poesia anterior de engajamento político; ou então, entre alguns outros, o poema Fabula de Anfion (1947) (“gesto puro/ de resíduos, respira/ o deserto, Anfion”), de João Cabral de Melo Neto, a estabelecer diretrizes de uma psicologia da composição; ou então, por fim, “um ódio e um desprezo pelas coisas vagas”, o plano de “enxertar a matemática na poesia, o rigor em imagens livres”, princípios que são traduzidos e divulgados pelo concretismo.

Consciente da complexa articulação entre poesia e pensamento em Valéry, o tradutor Júlio Castañon Guimarães (ele mesmo poeta de cunho meditativo) publica agora Fragmentos do Narciso e Outros Poemas, reunião bilíngue de dez poemas do autor de Charmes, entre os quais se encontram, além do poema que dá titulo ao livro, Ária de Semíramis e Palma.

O último dos poemas citados, Palma, dedicado à mulher, encerra aquele livro do poeta de maneira exemplar: trata do amadurecimento da poesia (e das obras de arte) por meio do trabalho que se dá com tempo e com a perseverança. Seus versos de sete sílabas sugerem leveza e contenção: é o comentário final, o acabamento de um conjunto elaborado. O tradutor brasileiro é competente ao transmitir o resultado: “Por mais que se dobre afeita/ A tais bem sem contenção,/ Sua figura é perfeita,/ E os frutos seus laços são./ Admira como vibra,/ E como uma lenta fibra/ Que divide este momento,/ Decide e, clara, descerra/ Toda a atração da terra/ E o peso do firmamento”.

Relembre-se como o símbolo implacável da poesia de Valéry, em Palma, pode ter induzido o citado João Cabral a singularizar objetos da paisagem (pedra, cana-de-açúcar, bananeira) como pretextos para tratar da arte poética praticada.

Fragmentos do Narciso, ao longo dos seus 315 versos alexandrinos, concentra parte vital das obsessões de Paul Valéry em sua poética. A imagem do narciso, se característica de muitos escritores do simbolismo europeu, tornou-se seminal para o poeta francês. O embate consigo mesmo, o diálogo permanente e tenso entre o eu e a sua imagem refletida (um falso outro a quem era necessário questionar e dirigir perguntas), o contraste entre o Único e Universal – eis alguns dos problemas trazidos por Valéry em seu poema. O narcisismo se posiciona no centro da obra do poeta, presente em diversas fases, tanto na prosa quanto na poesia (e o tradutor brasileiro também insere no livro o poema Narciso Fala: “Ah! A imagem é vã e os prantos eternos!/ (…) Ó forma obediente a meus olhos oposta!”).

A noção de fragmento expressa uma forma inacabada, um caráter ainda não definitivo do que o poeta pensa – e, também, o transito do mito de Narciso pela obra de Valéry, que o confrontava com o “inesgotável Eu”.

A tradução de Castañon Guimarães é meticulosa e seguramente atenta aos desafios apresentados pelo poeta francês, não apenas com relação ao metro, mas em especial às aliterações e às assonâncias, tão comuns em sua poesia. O tradutor, no prefácio, já demonstra sensível preocupação com o seu ofício, trazendo à discussão algumas ideias do próprio Paul Valéry sobre tradução poética. Mas, sempre preocupado, escreveu como posfácio ao livro uma “Nota sobre a tradução”, atraente exposição sobre a operação de traduzir Paul Valéry, na qual são elencados o gosto musical do poeta e o registro da sua voz ao declamar, entre outros aspectos que poderiam ser considerados na passagem para o português.

Do conjunto de problemas que toda tradução de poesia pode suscitar, o tradutor opta por um “microtrabalho das aproximações sonora” e por um genérico “mecanismo de compensação” a fim de mostrar, no outro idioma, que os versos franceses encontraram semelhança…

Como já se afirmou, a tradução de Fragmentos do Narciso e Outros Poemas mostra zelo e consciência. Por isso mesmo, teria sido importante dar maior atenção a um conjunto de palavras que se encontra no fulcro de um poema que trata do Narciso e do narcisismo. Trata-se do grupo formado por “eau/ eaux/ onde” (água/ águas/ água). Paul Valéry traz uma combinação aparentemente aleatória com as três palavras ao longo do poema.

Na primeira aparição, “Je ne troublerai pas I’onde mystérieuse” (“Não turvarei a água em jogo misterioso”), o verbo turvar não transmite a necessária ideia de que a água estagnada não pode ser agitada ou tocada, caso contrário a imagem de Narciso desapareceria da superfície (como acontece no último verso, “Passa, e num tremor quebra Narciso, e foge…”). Nos versos 59 a 61, a palavra francesa “onde” aparece três vezes, formando um núcleo por si só: mas, tangido pelas exigências de rima, o tradutor prefere “remanso” para o verso “À cette onde jamais ne burrent les tropeaux!” (Nenhum tropel jamais bebeu desse remanso!).

Duas vezes o tradutor prefere traduzir “onde” por “vaga”, quando “das águas” e “às aguas” seriam plenamente aceitáveis. Afinal, em dois versos, Júlio Castañon Guimarães se resigna a traduzir “onde” por “onda”, cujo sentido em português é notavelmente distinto do francês literário mais arcaico.

Fragmentos do Narciso e Outros Poemas”, com seus dez poemas, constitui atualmente a reunião mais generosa de poemas de Paul Valéry em língua portuguesa, uma vez que outras edições se limitavam a apenas um longo poema. Torna-se uma referência, pois, a partir de um trabalho lento e gradual que permite mirar com atenção tanto o eu do poeta quanto a imagem do seu tradutor.

Acesse o livro na loja virtual da Ateliê: Fragmentos do Narciso de Outros Poemas, de Paul Valéry

Acesse o livro na loja virtual da Ateliê: Gérard de Nerval: Cinquenta Poemas, de Gérard de Nerval

Felipe Fortuna é poeta, ensaísta e diplomata. Recentemente publicou o livro A Mesma Coisa (Topbooks)

Casa da Escrita: encontro com Beatriz Helena Ramos Amaral (Coimbra)

Beatriz HelenaCaros amigos do “Clube dos Amigos da Casa da Escrita”, na próxima segunda-feira, 14 de Abril às 18h00, decorrerá um encontro com a escritora brasileira Beatriz Helena Ramos Amaral, sob o lema: “A Música na Raiz do Poema: Interconexões e Ressonâncias”.

Nele percorreremos “A música na raiz: a poesia de Beatriz Helena Ramos Amaral” e “A trajectória poética de Edgard Braga”. A entrada é livre.

 

A Transmutação Metalinguística na Poética de Edgard BragaNa primeira parte, a poeta e ensaísta apresenta: poemas de sua autoria, do CD RESSONÂNCIAS (por ela gravado em 2010 em parceria com o músico Alberto Marsicano – voz/poesia e sitar indiano/MCK). São poemas pertencentes aos livros Alquimia dos Círculos (Escrituras Editora, 2003, São Paulo) e Luas de Júpiter (Anome, Belo Horizonte, 2007), poemas de Haroldo de Campos (do livro Crisantempo, Ed. Perspectiva, 1998) e um poema especialmente dedicado ao extraordinário poeta, tradutor, ensaísta, crítico e professor brasileiro. Leitura de poemas conjuntamente com o áudio do disco (em cânone).

Na segunda parte, discorre sobre sua pesquisa e seu recentíssimo livro A Transmutação Metalinguística na Poética de Edgard Braga (Ateliê Editorial, 2013), que traz prefácios de Augusto de Campos, Olga de Sá e Maria José Palo. Indicada pela PUC-SP como finalista do Prêmio ANPOLL 2008, a pesquisa de Beatriz aborda as várias fases da poesia de Edgard Braga (1897-1985), enfatizando o eixo metalinguístico que a percorre.

Casa da Escrita
Rua Dr. João Jacinto nº8,
Sé Nova – Coimbra
Tel. +351 239 85 35 90
http://casadaescrita.cm-coimbra.pt/

Edgard Braga

O longo percurso de sua produção literária (1933-1984) e seus treze livros publicados revelam uma intensa transmutação e a rica, polifônica e bem sucedida experimentação realizada a partir dos anos sessenta, em especial a poesia visual, os tatoemas, a poesia caligráfica, que, até hoje, influencia nomes como Arnaldo Antunes, Tadeu Jungle e Walter Silveira. Participou da Revista Invenção, conjuntamente com os criadores da Poesia Concreta Brasileira, Augusto de Campos, Haroldo de Campos e Décio Pignatari, chegando a coeditar a página literária Invenção, no início dos anos sessenta.

Poesia e pensamento

Patricia Peterle  |  Jornal Rascunho |  Janeiro de 2014

Fragmentos do Narciso e Outros Poemas, de Paul ValéryPaul Valéry, herdeiro de Mallarmé, passou a ser considerado um mestre do simbolismo com a publicação de La jeune Parque, em 1917. Mas sua obra alçou-o além, para entre os maiores poetas franceses do século 20. O exercício poético de Valéry, que se inicia com alguns poemas publicados na revista simbolista La Conque, por volta de 1896, e segue com leituras de Charles Baudelaire, Edgar Allan Poe e Huysmans, já assinala seu complexo percurso de escritura e reflexão sobre a poesia.

Seus Cadernos – um total de 261 volumes, somando mais de 26 mil páginas podem ser considerados um verdadeiro laboratório – “laboratório íntimo do espírito” – para inúmeras reflexões filosóficas, estéticas, religiosas e antropológicas. Neles, é possível adentrar em uma perene e densa pesquisa que motivou reflexões e incursões do poeta em diferentes áreas. Todo esse material de anotações, precioso para quem trabalha com a poesia (mas não só), deu origem a vários volumes ensaísticos.

Daí que Valéry congrega a polivalência – das figuras do pensador e do poeta. Aqui, sim, poesia é pensamento, é conhecimento, é um o processo cognitivo e estético. Esse exercício poético atrai Valéry: há um jogo difícil, enigmático, que se apresenta por si só como um estímulo e um desafio. Justamente por isso ele faz reverberar e multiplicar os vínculos métricos, as aliterações, as assonâncias. Em La jeune Parque, o leitor se depara com um progressivo acordar da autoconsciência em luta contra o apelo aos sentidos; o tema da vida e da morte, importante em toda a sua obra, pode ser lido em Le Cimetiére Marin (1920) . O “drama da inteligência”, com todo seu esforço de conhecimento – das esperanças e esperas até as tentações da ciência e da autoconsciência – permeia sua obra mais famosa, Charmes (1922), carmina em latim, aludindo assim à poesia como encantamento e fascinação.

A relação conflituosa e complexa entre existência e conhecimento, entre o eu e o mundo, perpassa, de algum modo, toda a sua produção, inclusive os textos teatrais publicados postumamente: Mon Faust e Le Solitaire. Talvez uma frase do discurso feito em homenagem a Goethe possa definir, ainda que falando de um outro, a própria poesia de Valéry: “Um poema deve ser uma festa do intelecto”.

O encontro com o texto de Paul Valéry não é fácil. Há um embate a ser travado e o leitor é desafiado a uma “meditação teórica” – que não tira em momento algum, no entanto, o prazer estético da leitura –; poesia e reflexão crítica estão imbricadas e formam uma grande trama em seus versos, como aponta Júlio Castafion Guimarães na introdução de Fragmentos de Narciso.

Isto se verifica tanto nos numerosos rascunhos dos poemas – documentos de extrema importância para o conhecimento da produção de Valéry – quanto de modo especial no universo de seus cadernos de anotações, os Cahiers, algumas milhares de folhas em que ao longo de dezenas de anos fez diariamente anotações dos mais variados tipos[…].

São apontamentos diversos sobre o “funcionamento do espírito” – ou melhor, sobre seu “pensamento”.

O modo de escrever e pensar de Valéry coloca suas anotações, mesmo consideradas as diferenças, lado a lado com os fragmentos de Novalis e das célebres páginas do Zibaldone de Giacomo Leopardi. Há uma espécie de subterrânea cumplicidade, mesmo na diferença, que enfatiza e aposta na função cognoscitiva do discurso literário. Todos eles – Valéry, Novalis e Leopardi – são conscientes de que o processo de “formação” e “apreensão” da realidade só pode ser concretizado mediante a deformação dessa mesma realidade.

DISCIPLINA ESPIRITUAL

A edição bilíngue de Fragmentos do Narciso e Outros Poemas faz parte da coleção de poesia da Ateliê Editorial, que já publicou, entre outros, Giuseppe Ungaretti, Guillaume Apollinaire, Annalisa Cima e Paulo Franchetti, com cuidadoso projeto gráfico. Fragmentos do Narciso é o poema que abre a coletânea, seguido por outras nove composições – Helena, Adormecida no Bosque, O Bosque Amigo, As Vãs Dançarinas, Narciso Fala, Episódio, Verão, Aria de Semiramis e Palma – que pertencem originalmente a dois livros: Album De Vers Anciens e o já mencionado Charmes. Para entender melhor a trajetória de alguns desses poemas – às vezes publicados inicialmente em revistas literárias, em seguida no formato de livro e ainda em diferentes coletâneas –, as Anotações prévias do tradutor são fundamentais. De fato, ele consegue estabelecer uma série de redes e enlaces dentro da própria obra poética de Valéry, e sugere pistas, “notas prévias”, para um possível “encontro”.

A reflexão sobre o homem, seu corpo também como fonte inesgotável de estudo – não se deve esquecer uma das primeiras publicações do poeta francês, dedicada ao método de Leonardo da Vinci –, deságua no que se denominou “seu narciso”. Como analisa Giuseppe Ungaretti, em 1925, escrever, para Valéry, não é um fim; é um meio de suprema disciplina espiritual, daí o uso das formas mais fechadas, as recorrências à tradição mais “rígida”, a obstinação em dominar a matéria mais hostil – um diálogo dramático que é encenado entre o ser e o conhecer. Para Ungaretti, poeta também hermético, Valéry emprega coragem para se debater com uma infinidade de recursos e de efeitos da palavra, de que podemos “ter um gostinho” através desses dez poemas tão bem traduzidos por Júlio Castañon Guimarães. A visão ungarettiana segue em consonância com as palavras de Eliot, quando este afirma que Paul Valéry ficará como o símbolo do poeta da primeira metade do século 20, mais do que Yeats ou Rilke.

O primeiro poema da coletânea trata de um tema bastante caro a Valéry, e que o acompanha por quase quarenta anos. Este fragmento é uma das suas poesias mais antigas, em cujos versos é colocada a dissimulação do trágico na consciência humana, que, por sua vez, o interroga:

[…]

Até os segredos dessa fonte que arrefece…

Até os segredos que me aflige desvendar,

Até o imo do amor de si sem mais recamo.

Nada pode ao silêncio da noite escapar…

A noite em minha pele sopra que eu a amo.
Sua voz suave a 
meus votos teme consentir;
Sob a 
brisa ela mal e mal chega a mentir,
Tanto e 
tanto o fremir de seu tácito templo
Do expansivo silêncio é 
o negativo exemplo.

Em 1945, a temática do narciso, revisitada por muitos autores e pintores, é retomada em L’ange. Aqui, Narciso não é mais um Narciso; o Homem que se conhece chora por não conseguir entender a si mesmo. Resta a pergunta: como entender algo que não é mortal?

Conheça as obras de Paul Valéry publicadas pela Ateliê

Inventos líricos

Daniel Benevides | Brasileiros |  1 de janeiro de 2014

"Gérard de Nerval: Cinquenta Poemas", tradução de Mauro GamaFigura única na literatura mundial, em sua autenticidade, gênio e loucura, Gérard de Nerval (1808-855) deixou um legado de prosa e poesia sombrias, mas de uma beleza estranha e fascinante. Nesta edição caprichada, bilíngue, de 50 de seus poemas, vê-se claramente como sua imaginação febril borrava os limites entre o romantismo tardio e uma nova percepção do mundo, crítica, tanto realista quanto fantástica, embrionária do que seria o Modernismo, um século depois. Nesse sentido ele pode ser alinhado com Poe e Baudelaire (que muito o admirava), mas como bem nota Mauro Gama, o excelente tradutor, Nerval não dava tanta importância ao “poético” ou à ideia de obra e autoria, estava por demais preso a seus fantasmas, que acabaram levando-o ao suicídio, tradutor celebrado do Fausto, de Goethe, e autor de romances e novelas marcantes (Umberto Eco considera Sylvie um dos maiores livros já escritos), era um poeta intuitivo, que evocava seres mitológicos refundindo-os em “suas pulsões e procuras subjetivas”. Tome-se como exemplo o famoso poema “El Desdichado”, que T.S. Eliot cita em seu Terra Desolada. Logo na primeira linha, revela uma força que raramente se vê na poesia: “Eu sou o Tenebroso – o Viúvo – Inconsolado”, terminando com “o grito de uma fada”. De arrepiar.

Acesse o livro no site da Ateliê

 

Livro da Ateliê ganha Prêmio PEN Clube do Brasil

De Olho na Morte e Antes, de Fernando FortesO livro De Olho na Morte e Antes, de Fernando Fortes, publicado pela Ateliê Editorial é o grande vencedor do Prêmio Literário Nacional PEN Clube do Brasil 2013, na categoria Poesia. O Prêmio, um dos mais antigos e prestigiosos certames brasileiros, foi criado em 1938, e é oferecido anualmente a escritores que tenham publicado obra nas categorias Poesia, Ensaio e Narrativa.
Na categoria Ensaio o vencedor foi Vasco Mariz pelo livro Depois da Glória (Ensaios sobre personalidades e episódios controvertidos da história do Brasil e de Portugal), publicado pela Editora Civilização Brasileira, e na categoria Narrativa, Luiza Lobo pelo romance Terras Proibidas – A Saga do Café no Vale do Paraíba do Sul, publicado pela Editora Rocco.

Leia abaixo o release do livro De Olho na Morte e Antes, de Fernando Fortes

Edição da Ateliê contém a poesia quase completa do poeta contista e romancista Fernando Fortes
Como sugere o título, o presente volume reúne livros publicados antes de De Olho na Morte, inédito até o momento. Em qualquer página desta obra, o leitor perceberá a força de um poeta tão vibrante quanto revelador. Quando jovem, Fernando Fortes foi convidado por Mário Faustino para colaborar no “Suplemento Dominical” do Jornal do Brasil. Depois, seria homenageado como poeta pela Universidade Gama Filho. Cada vez mais admirado por extenso espectro de leitores, recebeu prêmios no Brasil e publicou poemas no exterior. Sua poesia funda-se em amplo acervo técnico e em fina sensibilidade para os grandes temas da existência. Apegado à dinâmica das formas, domina com a mesma maestria o verso livre e o tradicional, acompanhando com singularidade os grandes momentos da poesia no século XX, tanto no Brasil quanto nas Américas e na Europa.
Para Ferreira Gullar que escreve a quarta capa desta edição, os poemas de Fernando Fortes “fala-nos de alguém que já viveu uma longa vida, que experimentou as alegrias e sofrimentos por que todos passamos, de uma maneira ou de outra. (…) De alguém que sofreu um duro golpe: a perda de um filho”. E acrescenta: “Alguns deles nos falam dolorosamente dessa perda, enquanto outros, ainda que versando temas diversos, trazem a marca dessa dor presente. Isso não impede, porém, que ele consiga nos comover também com os achados poéticos, nascidos do domínio do verso e da palavra, que foi sempre uma qualidade sua. Como poeta que é, realiza a alquimia que transforma a dor em alegria.”
Fernando Fortes nasceu em 1936 no Rio de Janeiro, médico, psicanalista, contista, poeta e romancista. Entre suas principais obras estão poesias: Tempos e Coisas (Livraria São José, 1958), Poesia Viva (Civilização Brasileira, 1968) e Arma Branca (Civilização Brasileira, 1979); Romances: Epílogo de Epaminondas (Civilização Brasileira, 1960), A Véspera do Medo (Paz e Terra, 1972) e O Estranho mais Próximo (Francisco Alves, 1988); Contos: Desamérica (José Álvaro Editor, 1969); Ensaios: Augusto dos Anjos: “Eu”, Tu, Ele, Nós, Vós, Eles (Mundo Livre, 1978); e tradução: Poesía Rebelde Latinoamericana (Paidós, Cidade do México, 1980), Latinamerika Spell, (Vindrose, Copenhagen, 1982) e The Gospel Before Saint Matthew (Vantage Press, New York, 1994).

O psicolirismo cotidiano de Rita Moutinho

Leo Barbosa | zonadapalavra

Psicolirismo da Terapia Cotidiana, de Rita MoutinhoNão há atividade que ponha o subconsciente mais à tona que o ato de fazer literatura. Se houver, talvez se estabeleça através dos sonhos. Então aqui se instaura a semelhança entre a literatura e a psicanálise: “Já que a literatura carrega nos seus flancos o não-consciente e já que a psicanálise traz uma teoria daquilo que escapa ao consciente, somos tentados a aproximá-las até confundi-las”, nas palavras do psicanalista Jean Bellemin-Noel. Afinal, ambas as ciências trabalham com a fala e tendem a revelar mais do que as linhas aparentam carregar.

Podemos inferir isso da leitura de Psicolirismo da Terapia Cotidiana, (Ateliê Editorial, 2013), de Rita Moutinho. Após anos de terapia, a autora segue em catarse, ainda que guiada pelo rigor formal dos seus versos, para aprender a conviver com suas incertezas, medos, pensamentos fúnebres, efemeridades e temor da finitude. Mas a esperança segue firme: “Minhas asas estão atrofiadas/ no meu céu são opacas as estrelas,/ mas todas as desgraças, vou prendê-las,/ para as horas não serem tão coitadas. […] Pra azul destino quero um passaporte./ A ave quer voar, não quer a morte!” (P64)

Nesse processo de transferência a cura pela palavra faz-se imprescindível. O eu-lírico necessita encontrar-se com o passado diante do terapeuta para que haja êxito em seu processo de superação. A psique da paciente responde com psicolirismo de forma condensada e derramada.

A obra é dividida em quatro estágios: “Tempo nublado”, “Tempo instável”, “Tempo parcialmente nublado, passando a límpido” e “Céu quase limpo com Clarões no Horizonte” e por estes vai interrogando por via da filosofia e de conhecimentos mitológicos. O eu-lírico sabe que agora é preciso caminhar sozinho. É hora de sair do divã e retomar a rotina que tanto foi marcada por chuvas de perdas, por céus nublados enquanto desejava um cotidiano ensolarado.

Rita Moutinho mostra-se uma poeta madura, conhecedora dos recursos de linguagem, do manejo dos versos, da forma, e consciente do estranhamento provocado pelas metáforas. Todavia, inevitavelmente, ao abusar do soneto, por vezes esbarra em rimas pobres como podemos conferir na página 93 da obra em questão. Peca em combinações do tipo: poucos/loucos, sangria/melancolia, ventosas/dolorosas, cura/alvura, artístico/místico etc.

Uma das marcas de Moutinho é o frequente uso de antíteses: “Venho disposta ao forte e ao frágil,/ extremar-me firme e também volátil./ Chego tão vida quanto morte,/ me faço aqui, como exilada./ Articulo a fala, me defino muda/ e penso, nas raias da filosofia:/ somos dois multiplicados ao nunca.” (P 91).

A última parte do livro assume tom de despedida como se o cotidiano se encerrasse, como uma rotina fosse quebrada pela desilusão de viver. Mas também assume novas perspectivas a partir da rebobinação de suas memórias como forma de fazer um balanço para poder prosseguir.

A poeta tem estilo próprio ainda que caminhe pela tradição. Narra com paixão seus dramas e tramas. A cada final dos seus poemas ouve-se um estampido. É a vida saindo. É a vida entrando. Aqui ela faz seu registro, convida-nos a “uma viagem interna, tendo a alma como lanterna”. Afinal, onde podemos encontrar verdade maior senão explorando a nossa realidade secreta que melhor se exprime em nosso cotidiano?

Acesse o livro no site da Ateliê

Décio Inédito

Decio inedito

Foto de Décio Pignatari por “Life”
Poema concreto “Vai e vem”, de José Lino Grünewald

Antonio Gonçalves Filho | O Estado de S. Paulo | 30 de novembro de 2013

Poeta deixou tradução de Santo Agostinho e peça que fala de pioneira feminista

Três anos antes de morrer, aos 85 anos, em 2 de dezembro do ano passado, vítima do mal de Alzheimer, o poeta concreto Décio Pignatari começou a tradução das Confissões de Santo Agostinho, da qual o Caderno 2 publica fragmentos nesta edição. Não é tanto a tradução que surpreende. Afinal, Pignatari traduziu Dante, Shakespeare e Goethe, entre tantos outros grandes nomes da literatura universal. Surpreende, sim, o fato de um poeta ateu, conhecido por sua ironia, traduzir um doutor da Igreja Católica marcado inicialmente pelo neoplatonismo e que, convertido, deu seu dinheiro aos pobres após viver uma vida dissoluta. O que teria aproximado Décio Pignatari da primeira autobiografia de que se tem notícia, escrita por um filho de berberes do Norte da África? A sedução pelo paganismo e os prazeres do corpo ou sua conversão ao cristianismo?

Difícil saber. Nem mesmo o filho do poeta, Dante Pignatari, pianista erudito e inventariante, arriscaria uma resposta. Ele encontrou a página com a tradução de Agostinho perdida em meio a manuscritos que trazem outros textos inéditos, entre os quais uma peça teatral, a segunda escrita pelo autor do mais conhecido poema concreto da história, Beba Coca Cola (1957), em que subverte o slogan do popular refrigerante ao alterar fonemas e formar novas palavras – a última delas, “cloaca”.

Décio formou ao lado dos irmãos Augusto e Haroldo de Campos o trio de poetas mais conhecidos do movimento de vanguarda que, simultaneamente, na Suíça e Brasil, nos anos 1950, fez da experimentação linguística e visual sua mola propulsora. Com eles publicou, em 1955, a revista Noigrandes, que tratava, entre outros temas, da comunicação não-verbal (embora sem abdicar da palavra). Tantos os irmãos Campos como Décio Pignatari sempre se dedicaram à tradução de poetas pouco conhecidos ou lidos no Brasil, concretos ou não, além de produzir obras de referência no campo da teoria literária.

Cartas inéditas. Até por isso, Pignatari trocou cartas com importantes filósofos, ensaístas e linguistas europeus, entre eles o escritor italiano Umberto Eco e o linguista russo Roman Jakobson (1896-1982), pioneiro na análise estrutural da poesia, tendo assinado ensaios sobre a obra de Fernando Pessoa e Brecht. A caixa de correspondência do poeta tem também cartas da poeta carioca Cecília Meireles. Todo esse material está sendo analisado pelo filho Dante e poderá ser publicado após catalogação. Outra surpresa para Dante foi encontrar os manuscritos de um diário escrito quando seu pai estava morando temporariamente em Ferrara, no ano 2000. “Nunca imaginei sequer que ele tivesse um diário”, diz ele.

Alguns lugares na Europa – e especialmente Ferrara, terra natal de Antonioni – exerciam enorme fascínio sobre Pignatari. Ele estava morando lá, em 2007, quando escreveu a peça Nísia Viagem Magnética, a pouco conhecida história de Nísia Floresta Brasileira Augusta (1810-1885), educadora e poeta popular do Rio Grande do Norte que morou durante três décadas na Europa. Feminista de primeira hora, Nísia (pseudônimo de Dionísia Gonçalves Pinto) circulou pelas cortes europeias, conheceu Wagner e Nietzsche, foi amante do positivista Auguste Comte, mas Décio, em sua peça inédita sobre ela, joga o foco sobre seu relacionamento com outra mulher. Na primeira peça, Céu de Lona, nunca montada, ele toca em outro ponto polêmico: o casamento inter-racial e a conflituosa relação de Machado de Assis com a mulher Carolina.

“Nos últimos tempos, antes do Alzheimer, ele se mostrava muito interessado nos românticos”, revela o filho Dante, também ele um entusiasta do período, sendo autor de uma tese sobre o compositor cearense Alberto Nepomuceno. “Tínhamos uma paixão compartilhada, pois meu pai chegou a escrever sobre Chopin”. Esse e outros escritos, publicados em livros já fora de catálogo, deverão ter novas edições pela Ateliê Editorial.” Os primeiros títulos serão O Rosto da Memória, publicado pela Brasiliense em 1986, e Panteros, que a Editora 34 lançou em 1982″.

Dante coletou também crônicas de futebol que o poeta escreveu em 1965. Conseguiu encontrar quase todas as 27 escritas para um periódico paulista pelo pai, que, curiosamente, se dedicava à pintura, atividade só conhecida dos familiares e íntimos. Interessado em arte, como os irmãos Campos, ele foi amigo de Volpi e Fiaminghi, mas não fez pintura concreta. Preferia as curvas sensuais do corpo feminino. Décio Pignatari deixou mais de 20 livros, o primeiro deles Carrossel, de 1950, e o último, Bili com Limão Verde na Mão, texto infantojuvenil lançado pela editora Cosac Naify em 2009, a epifania de uma menina que empresta seu nome à obra.

Trecho Inédito

“Se fizesse silêncio o tumulto da carne…

…e silenciassem as imagens da terra, das águas e dos ares, e até mesmo dos céus, e a própria alma se superasse, não pensando mais em si (silêncio também nos sonhos e na imaginação); se todas a línguas e todos os signos e tudo o que não se produz senão de passagem fizessem silêncio absoluto, pois, se pudéssemos ouvi-los, diriam:

“Não fomos nós que nos fizemos a nós mesmos, e sim aquele permanentemente eterno” e se então se calassem, pois ouriçaram os nossos ouvidos para aquele que os fez, e se ele próprio falasse sozinho, não pelas coisas todas, mas por conta própria, de modo que ouvíssemos o seu verbo, não pela língua da carne ou pela voz dos anjos, não pelo estrondo das nuvens ou o enigma das parábolas, mas por ele mesmo, que amamos em tudo aquilo…”

Conheça os livros de Décio Pignatari publicados pela Ateliê

Geografia do inconsciente & outras catarses

Psicolirismo da Terapia Cotidiana, de Rita MoutinhoRonaldo Cagiano 

Uma das grandes vozes da poesia brasileira contemporânea, autora, dentre outros, de Romanceiro dos Amantes (1999) e Sonetos de Amores Mortos (2006) a escritora, crítica e ensaísta carioca Rita Moutinho acaba de lançar uma nova safra poética, numa incursão que lhe proporcionou um profundo mergulho existencial, dialogando com a psicanálise para explicitar poeticamente questões íntimas, sentimentais e artísticas, abordadas ao longo sua trajetória afetiva e intelectual, a partir a da visão de um paciente em terapia.

Realizando uma profunda simbiose com a obra freudiana, tanto no título quanto nos textos poéticos, Psicolirismo da Terapia Cotidiana (Ateliê Editorial, SP, 2013, 194 pgs., R$ 46) recorre à experiência da autora com a psicanálise, panoramizando vários anos de suas sessões de análise, por meio de um percurso crítico e ao mesmo tempo catártico dessa viagem ao insondável do inconsciente, tanto individual quanto coletivo.

Não é a apologia da terapia psicanalítica ou qualquer outra tentativa de homologação do cenário de um consultório nem mesmo a extrapolação da reserva entre terapeuta e paciente que a autora mapeia, como se fosse extensão de um longo processo de descoberta ou cura que o leitor vai encontrar nessa obra.

Aqui, é a poesia possível que ela procura – e encontra – na angústia, na inquietação metafísica, no desassossego da alma, nos vácuos espirituais, na instabilidade dos afetos e emoções. Enfim, é a tentativa poética de desmistificar também as relações do ser diante dessa dolorosa geografia nos anos em que o divã por testemunha e os escuros íntimos como cúmplices contribuíram para que a poeta realizasse a transição entre  os cipoais do mundo exterior e os labirintos e nuvens dos becos-sem-saída de nossos temores e agruras.

Cada poema é uma projeção onírica do desejo de superar perdas, vazios, silêncios, incômodos, apartheids, insularidade psicológica e tudo o que apequena o ser diante da opressão e das urgências que a nossa própria condição nos impõe. E em cada verso, a artista que dosa sua inquietude com o facho luminoso de um lirismo tenso e denso, parece ir des(a)fiando o fio de Ariadne, para percorrer até o fim o espanto e a dúvida de um caminho escuro, mas passível de ser alcançado, para neutralizar os minotauros que ainda vicejam e atormentam.

Dividida em quatro momentos – Tempo nublado, Tempo instável, Tempo parcialmente nublado, passando a limpo e Céu quase limpo com clarões no horizonte – a poética de Rita Moutinho desloca-se pelas estações da mente e do corpo, entre versos livres e  forma fixa, alternando tradição e vanguarda, num claro indício de simbiose entre os próprios estados que o indivíduo experimenta em sua quotidiana lida, no campo interior e na vida prática.

Por meio dessa poesia que celebra as ancestrais dicotomias de que somos forjados, a poeta, com peculiaridade estilística e paixão, narra suas paixões e seus fracassos, seus delírios e suas esperanças, suas explosões e seus recolhimentos, suas chamas e seus definhamentos, pluricanta quedas e tormentos e faz da depurada arquitetura de seus versos, uma catapulta para compreender esse recalcitrante dilema, essa luta dialética (que também é ética e estética) entre Eros x Thanatos, vida x morte, da qual não escapamos, mas podemos remediar, exorcizando lutos e lutas, como ela o faz, com maestria e pungência, moldura de novo olhar sobre o que a cerca e a faz sentir viva.

Em Rita Moutinho, a palavra em pleno estado de graça encontra o seu apogeu para juntar os cacos de nossas andanças e recriar, como num caleidoscópio, ou numa polifonia de gritos & sussurros,  todas as possibilidades de transformar a memória desse caos e as débâcles do viver e sentir, ressignificando a vida até então pressurizada nos containeres da individualidade, das conveniências, das demandas e urgências de uma civilização contemporânea que elegeu, de forma fetichista, o mercado e a competição, colocando em combate permanente o ser e o ter.

Rita nos diz que é possível sair dessas algemas, romper amarras, implodir as celas do pensamento, que não há confessionário nem terapia maior que a palavra, cuja profilaxia e eficácia desmantela com o que nos aprisiona, inviabiliza e proscreve. Pois ela nos assegura e sinaliza que “Quem faz um poema abre uma janela./ Respira, tu que está numa cela/ abafada,/ esse ar que entra por ela./ Por isso é que os poemas têm ritmo/ – para que possas profundamente respirar./ Quem faz um poema salva um afogado”.

E é nessa “Viagem interna,/levando a alma/ como lanterna” que a poeta nos aponta o caminho. Bem o disse Freud: “Seja qual for o caminho que eu escolher, um poeta já passou por ele antes de mim.” Assim como Rita o fez, sua clínica pessoal é o poema, instância em que a subjetividade se expõe sem mesuras, porém sem apelação sentimentaloide, para interditar toda melancolia e realizar uma reflexão objetiva, ainda que sob o pálio de uma inflexão pessoal e intimista, sobre suas vivências e seus confrontos, sobre seus contatos e seus desconfortos, algo tão humano e universal.

E nesse balanço-testemunho-testamento, a mulher ressurge a partir da percepção da poeta que, agudíssima, enfrenta a travessia, para compreender, além das enfermidades que tantas vezes esterilizam corpo & alma, a sensação de nossa finitude e de neutralidade dos oásis nos desertos de nossos questionamentos, pois nos evocando mais a busca do que o encontro de verdades prontas, Rita Moutinho desfere o golpe de misericórdia contra o estanque e imutável das convicções inúteis: “Minhas certezas se evaporam,/ e as perguntas são rarefeitas como gases./ Suas respostas?/ São miragens, não oásis.”

Acesse o livro no site da Ateliê

Comunhão em Quatro Tempos

Renato Tardivo

Literatura e Psicanálise

Se Freud não escreveu muito sobre a relação entre literatura e psicanálise – embora usasse e abusasse das citações literárias, se valesse de referências da literatura clássica para a criação de conceitos e o único prêmio que recebeu em vida tenha sido o Goethe –, alguns psicanalistas contemporâneos tomaram essa relação como objeto de investigação. Talvez possamos dividir esses estudiosos em duas vertentes: aqueles que vislumbram na psicanálise uma poderosa ferramenta de leitura e análise de texto (perspectiva iluminista adotada inclusive por alguns segmentos da crítica literária) e aqueles que propõem certa analogia entre as duas áreas e, nesse sentido, não se valem de conceitos psicanalíticos para traduzir uma obra (ou a biografia de seu autor), mas valorizam a psicanálise em seu potencial poético e libertador.

Há, ainda, obras literárias que lidam com aspectos da relação entre psicanálise e literatura. Também aqui podemos encontrar as duas vertentes tratadas acima: há textos, em prosa ou verso, que recorrem à psicanálise de modo didático e ilustrativo, mas há escritores que optam pela entrada da psicanálise pela via da criação, produzindo obras inventivas. Menciono, a esse propósito, Contos do Divã, de Sylvia Loeb, livro que já resenhei neste espaço (leia aqui a resenha). Além disso, como sabemos, é possível vislumbrar potencial literário em alguns relatos clínicos redigidos por psicanalistas. Vale lembrar que: 1) o próprio Freud explicitara nos Estudos Sobre a Histeria (1895) a semelhança entre seus casos clínicos e as novelas; 2) em carta enviada a Arthur Schnitzler (não revelada enquanto Freud era vivo), o pai da psicanálise se dirigira ao escritor como seu duplo; 3) novamente, cabe a menção ao Prêmio Goethe.

Barco e Mar

Psicolirismo da Terapia Cotidiana, de Rita Moutinho

Ocorre que esses textos na interface da psicanálise e literatura são predominantemente escritos da perspectiva do analista. Menos comuns são os textos escritos da perspectiva do analisando. Psicolirismo da Terapia Cotidiana, que reúne excelentes poemas de Rita Moutinho, insere-se nessa vertente. O livro é composto por poemas em versos livres e também por sonetos, tanto o inglês, com os 14 versos unidos, como o que traz quartetos e tercetos separados. A autora declara na Apresentação que os sonetos foram escritos nos anos 2000 e os demais nos anos 80, mas todos os poemas dizem respeito ao seu período de análise (anos 80) e quase sempre dirigem-se ao analista.

Divididos em quatro tempos: “Tempo Nublado”, “Tempo Instável”, “Tempo Parcialmente Nublado Passando a Límpido”, “Céu Quase Limpo com Clarões no Horizonte”, o livro reúne a experiência de uma mulher em análise. Como se vê, trata-se da terapia cotidiana reescrita com psicolirismo – e o título do livro dialoga com Psicopatologia da Vida Cotidiana (1901), texto em que Freud se propõe a apresentar noções básicas de sua teoria.

A transferência, questão central na psicanálise e também nas artes, uma vez que ao entrar em contato com uma obra transferimos emoções e afetos, talvez seja um dos principais elementos do livro. Mas, sem a frieza dos textos teóricos, há uma espécie de resgate visceral da relação transferencial vivida com o analista, que, no início, sustenta a presença da persona lírica. Cito versos de alguns poemas da primeira parte: “Estou dissolvida, sem capacidade de luta, / sem verbalização que organize / o medo, o desconcerto, o dúbio”; “Futuro, nele crer, isso e mais nada”; “Doer, doer de novo / a dor que é passada”; “Ah, quando poderei sã navegar, / se sou a um só tempo barco e mar?”.

Casamento Estranho

Ao longo do livro, conceitos da psicanálise aparecem aqui e ali, mas não são o foco; ocupam um lugar invisível que adentramos porque os versos são endereçados ao profissional cuja escuta é atravessada por eles. O que atravessa o Psicolirismo da Terapia Cotidiana é a palavra, que se refere à palavra, para terminar na… palavra.

Se já não bastasse a qualidade dos poemas, eles ainda se perfazem em uma unidade narrativa: o caminho em direção à alta da paciente. Já perto do fim, mesmo “que não há fim no desfecho”, o “Soneto da Comemoração do Insight” é assim finalizado: “Sermos par na tristeza e na alegria, / metáfora de núpcias: terapia”. Com efeito, Rita Moutinho reconstrói com lirismo esse casamento estranho, em que um “beijo de despedida” é “fraudar as regras” e o sucesso implica separação, tornando público, mesmo que por meio da persona lirica, um processo tão íntimo e fazendo da experiência de separação com o analista uma possibilidade múltipla de comunhão e abertura com os outros: agora, leitores.

Coluna Resenhas - Renato Tardivo

Renato Tardivo é mestre e doutorando em Psicologia Social da Arte pela USP e escritor. Atua na interface entre a estética, a fenomenologia e a psicanálise. É professor universitário e escreveu os livros de contos Do Avesso (Com-Arte) e Silente (7 Letras), e o ensaio Porvir que Vem Antes de Tudo – Literatura e Cinema em Lavoura Arcaica (Ateliê).