Resenhas

A Transmissão da Palavra ao Imaginário Infantil

Renato Tardivo

Contos da Nova Cartilha – Segundo Livro de Leitura – Vol. 1Liev Tolstói (1828-1910), escritor russo, é o célebre autor de Guerra e Paz e Ana Karenina, obras que se tornaram marcos da literatura mundial. Também difundidos são os textos de inclinação anarquista que fazem do autor uma referência importante em estudos sobre política. No entanto, nem tão conhecidos do grande público – embora lidos  por milhões de crianças pelo mundo – são os escritos de Tolstói dirigidos às crianças. O escritor manteve uma escola, em sua propriedade próxima a Moscou, onde lecionava a camponeses pautado pelo princípio da liberdade.

Em Contos da Nova Cartilha­ – segundo livro de leitura (vol. 1), reúnem-se fábulas, contos, raciocínios e histórias verdadeiras escritos por Tolstói que facultam ao leitor a experiência da liberdade para criar, imaginar, pensar. Assim, não se trata de narrativas com uma simples “moral da história”; em outra direção, os textos convidam a pensar sobre seus dilemas, despertando o interesse pelo conhecimento. Com efeito, interessantes e inteligentes, as narrativas não se destinam apenas ao público infantil, mas a todo leitor que se dispuser a ampliar a gama de significações acerca de si, dos outros, do mundo.

Parece atravessar os textos a tese de que aprender é criar e, por extensão, de que não há pensamento ou filosofia que se justifiquem senão aqueles que se questionem continuamente. É emblemático, nesse sentido, o texto “O Tato e a Visão”, em que, no primeiro momento, o autor evidencia a tese de que “os dedos enganam, mas os olhos corrigem”, e, em seguida, desconstrói a verdade absoluta que se poderia encerrar na tese anterior explicitando que também “os olhos enganam, mas os dedos corrigem”. Essa confusão, no limite insuperável, se coloca sempre que há abertura à alteridade, na medida em que não há conhecimento a respeito do outro que o encerre.

Trocas mercantis, relações do homem do campo entre si e com a natureza, a luta pela sobrevivência, variadas são as temáticas das narrativas, que na presente edição são acrescidas de belíssimos desenhos produzidos a partir dos textos por crianças russas dos dias de hoje. Note-se, entretanto, que não se trata de ilustração no sentido de dar aos textos sua justa medida, uma vez que a justa medida das coisas – e da palavra – nunca se atinge, mas é a própria transmissão dos textos ao imaginário infantil que ganha forma também na comunicação que se estabelece no nível das diferentes linguagens – palavra e imagem –, deixando para sempre em aberto (o que provavelmente agradaria Tolstói) a questão: onde mora o saber, no professor ou no aluno?

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Coluna Resenhas - Renato Tardivo

Renato Tardivo é mestre e doutorando em Psicologia Social da Arte pela USP e escritor. Atua na interface entre a estética, a fenomenologia e a psicanálise. É professor universitário e escreveu os livros de contos Do Avesso (Com-Arte) e Silente (7 Letras), e o ensaio Porvir que Vem Antes de Tudo – Literatura e Cinema em Lavoura Arcaica (Ateliê).

Um rolê com Paulo Bomfim

Percursos da memória na cidade do poeta

Jorge Caldeira | Folha de S. Paulo | 19 de janeiro de 2014

Insólita Metrópole: São Paulo nas Crônicas de Paulo BomfimPAULO BOMFIM não apenas vive fisicamente em São Paulo há 87 anos. A cidade para ele tem história, de modo que muitos lugares não lhe aparecem como paisagens prosaicas do tempo que vive, mas como testemunhos ancestrais. O parque da Luz é o lugar da ermida que Domingos Luís, o Carvoeiro, construiu no século 16; a praça do Patriarca, o ponto de refúgio do Mirinhão, um ancestral seu do século 18; a rua Espírita, no Cambuci, o quilombo espiritual do negro Batuíra, no século 19.

Outros pontos da cidade ganham colorido porque evocam memórias pessoais, testemunham encontros que os tornaram especiais. A praça Marechal Deodoro atravessada pelo Minhocão tem outros ares quando descrita como ponto de encontro com o cantor Nelson Gonçalves, seu irmão Quincas e o palhaço Piolim.

A praça da República aparece com garapa, sorvete, normalistas e o guarda Antônio, protetor dos boêmios. Até o velório de Mário de Andrade muda, quando nele se mistura o desnudamento da tradutora Leonor Aguiar.

A cidade é também o centro de sua escrita, tema constante de seus 26 livros de poesia (e mais meia dúzia de antologias, no Brasil e na Espanha) ou prosa – seu livro mais recente, Insólita Metrópole, lançado em 2013, é uma antologia de crônicas sobre São Paulo, organizada por Ana Luiza Martins (Ateliê Editorial). Assim, outros aspectos da cidade são descritos por suas características metafísicas.

Com tudo isso, a São Paulo de Paulo Bomfim é tecida por casos que, contados na sequência de sua prosa viva, dão uma dimensão bem diferente daquela da metrópole que quase se esquece da alma encantadora de suas ruas.

Assista a cena (13/17) de Amor à Vida em que Natasha presenteia Thales com o livro Insólita Metrópole 

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A seguir, o registro de um desses passeios, na voz do escritor.

A FUNDAÇÃO MÍSTICA

“O corpo de São Paulo foi formado pela carne e o sangue de João Ramalho e Tibiriçá. A cabeça veio de Manoel da Nóbrega. Mas a alma de São Paulo veio de José de Anchieta. Já o governo veio de Santo André, a vila dos parentes de João Ramalho.”

 

CEMITÉRIO DA CONSOLAÇÃO

MARQUESA DE SANTOS

“Toda vez que vou ao cemitério da Consolação visitar o túmulo de meus ancestrais, deixo uma rosa no túmulo da marquesa de Santos, que fica ao lado. Uma vez, quando estava depositando a flor, havia uma preta velha ajoelhada, rezando. Ela virou-se para mim e perguntou: ‘O senhor também é devoto da marquesa?’. Eu digo: ‘Sou’. E ela: ‘Comigo fez milagre. Pedi à marquesa para interceder junto ao professor Bardi. Consegui fazer uma exposição no Masp e estou aqui pagando a promessa’.”

 

PÇA. MARECHAL DEODORO

PIOLIM E QUINCAS

“Havia ali o bilhar do Quincas, irmão do Nelson Gonçalves. Joguei com ele muitas vezes, porque o lugar era um ponto de encontro de boêmios. Mas também ia até a Marechal Deodoro para conversar com o Piolim, palhaço que foi muito meu amigo a vida inteira e que então montava seu circo em plena praça.”

 

PÇA. DA REPÚBLICA

GUARDA ANTÔNIO

“Passei minha infância brincando lá, minha adolescência tomando sorvete na Japonesa ou garapa no Nosso Engenho, enquanto esperava a saída das alunas da Caetano de Campos. E havia um português muito bom, o Antônio, que era guarda do jardim. De noite ele cobria os mendigos com jornal, protegia os boêmios que ficavam dormindo nos bancos para curar a bebedeira.”

 

PARQUE DA LUZ

(HISTÓRICO DOMINGOS CARVOEIRO)

“Era a ermida de Domingos Luís, o Carvoeiro, uma figura mítica da história de São Paulo. Séculos depois o frei Galvão construiu o convento lindo que está ali até hoje.”

 

PARQUE DA LUZ

(PRÁTICO)

LUIS HUMBERTO GELFI

“Ele era de Bergamo, foi parar no Cairo, teve algum problema com uma mulher, teve de fugir. Veio sem dinheiro no navio, dando aula de dança para os passageiros. Desembarcou em São Paulo sem um centavo, na Estação da Luz. Atravessou para o jardim, olhou dali a torre da estação. Voltou, foi procurar o diretor, ofereceu-se para limpar o relógio. Foi o primeiro dinheiro que ganhou na cidade. Como sabia guiar, acabou ensinando os filhos de dona Veridiana Prado a dirigir automóveis – e acabou casando com uma amiga francesa dela, a Luíza. Ambos viriam a ser meus sogros.”

 

AV. IPIRANGA

ARACY DE ALMEIDA

“Eu era recém-casado. Um dia toca a campainha do apartamento. Era a Aracy de Almeida, dizendo: ‘Paulo, eu estou com muita angústia, não queria ficar no hotel. Posso ficar em sua casa dois ou três dias?’. Peço para a Emy [Emma Gelfi Bomfim] tirar as crianças do quarto, ela se instalou. Foi ficando. Voltava das boates de madrugada, fazia interurbanos intermináveis para a boate Vogue, no Rio de Janeiro, conversava com o Vinicius de Moraes, o Antonio Maria, até o amanhecer. Eu estava começando na vida e tinha de pagar contas de telefone astronômicas. Quase três meses depois, trouxe uma arara que ganhou de presente da boate Jangada. Quando tentei falar alguma coisa, ela cortou: ‘Eu respondo pela arara’. Levou o bicho para o quarto, ele comeu meus móveis, não aguentei e expulsei a ave. E ela: ‘Em solidariedade à arara, também me retiro’. Mas ela foi a mulher que melhor conhecia a Bíblia que vi em toda a minha vida – e também a que sabia mais palavrões.”

 

AV. SÃO LUÍS

MANUEL BANDEIRA

“Minha mulher Emy e eu ficamos sócios de uma galeria de arte que ficava no prédio Zarvos, onde antes era a casa do barão de Souza Queiroz, na Av. São Luís, bem em frente à biblioteca. Um dia, no lançamento de um livro do Manuel Bandeira, fizemos cartazes com os poemas. Chega o Lima Barreto, o cineasta que fez O Cangaceiro. Ele entra, olha os cartazes e vai direto para a mesa de autógrafos falando: “Bandeira, naquele poema tem um erro de português”. Ele largou o copo de uísque, nem precisou arregaçar os punhos, porque costumava cortá-los quando ficavam puídos. Levantou e gritou: ‘Erro de português é você, seu fotógrafo lambe-lambe. Ponha-se daqui para fora’. E expulsou o desafeto.”

Filme de Formação

Renato Tardivo

Azul É A Cor Mais Quente (La Vie d’Adele – Chapitre 1 et 2, 2013), filme dirigido por Abdellatif Kechiche (diretor do excelente O Segredo do Grão, 2007), vem repercutindo por ter levado a Palma de Ouro de melhor filme em Cannes e também o prêmio da crítica, mas também pelas cenas de sexo entre duas jovens.

Azul é a Cor Mais Quente, resenha de Renato Tardivo

A trama é baseada em uma história em quadrinhos para adultos, cujo título é justamente Le Bleu Est une Couleur Chaude, escrita e desenhada pela francesa Julie Maroh. Em ambos, uma jovem de 15 anos (Clémentine na HQ; Àdele, que significa “justiça”, no filme) cruza na rua com Emma, uma universitária com cabelos azuis. Àdele, dona de uma beleza enigmática, desperta a atração dos garotos, mas não se interessa por eles e delicadamente vai descobrindo o seu desejo por mulheres. A imagem de Emma entre os transeuntes e sua constante evocação por parte de Àdele (que tem um sonho erótico com a desconhecida) passa a ser emblema desse desejo.

O título original – A Vida de Àdele – é uma referência ao livro La Vie de Marianne, de Pierre de Marivaux, que Àdele lê no começo do filme. Ao longo das quase 3 horas de projeção, Àdele – dos 15 aos 20 e poucos anos – está em cena. Certamente, o período central – e decisivo – desta trajetória é o romance que vive com Emma, aquela que encontrara na rua e que, um pouco depois, reencontra em uma boate gay.

Como nos demais filmes de Abdellatif Kechiche, há aqui uma série de referências da cultura francesa e de suas ex-colônias, que conferem um caráter documental e político à ficção. Há sequências – como as de Àdele já professora de educação infantil – que lembram documentários. Mas isso não contamina a ficção, pelo contrário, reforça a tridimensionalidade das personagens e suas diferentes bagagens culturais, relações familiares, ambições etc.

É nessa medida que a câmera invade a privacidade de Àdele – em todos os âmbitos e não só, mas também, no sexual. Não há, portanto, apelação ou algo que o valha. Não se trata de um filme sobre sexo; trata-se de um filme de formação – sensível, plástico, enigmático. As quase três horas – que equivalem a alguns anos –  passadas em contato com Àdele não são suficientes para que deixemos o cinema convencidos de que a conhecemos. Desconcerto que provavelmente a própria personagem viva.

O azul, de início no cabelo de Emma, estende-se para diversos detalhes do filme – em tomadas internas e externas –, ou seja, para o mundo de Àdele. Que se deixa contaminar, corre riscos, empresta os seus próprios riscos para as telas de Emma, com quem pôde viver algo fundante que nunca tivera. A menina termina mulher. As três horas passam voando. Como a vida. A Vida de Àdele.

Coluna Resenhas - Renato Tardivo

Renato Tardivo é mestre e doutorando em Psicologia Social da Arte pela USP e escritor. Atua na interface entre a estética, a fenomenologia e a psicanálise. É professor universitário e escreveu os livros de contos Do Avesso (Com-Arte) e Silente (7 Letras), e o ensaio Porvir que Vem Antes de Tudo – Literatura e Cinema em Lavoura Arcaica (Ateliê).

Poesia e pensamento

Patricia Peterle  |  Jornal Rascunho |  Janeiro de 2014

Fragmentos do Narciso e Outros Poemas, de Paul ValéryPaul Valéry, herdeiro de Mallarmé, passou a ser considerado um mestre do simbolismo com a publicação de La jeune Parque, em 1917. Mas sua obra alçou-o além, para entre os maiores poetas franceses do século 20. O exercício poético de Valéry, que se inicia com alguns poemas publicados na revista simbolista La Conque, por volta de 1896, e segue com leituras de Charles Baudelaire, Edgar Allan Poe e Huysmans, já assinala seu complexo percurso de escritura e reflexão sobre a poesia.

Seus Cadernos – um total de 261 volumes, somando mais de 26 mil páginas podem ser considerados um verdadeiro laboratório – “laboratório íntimo do espírito” – para inúmeras reflexões filosóficas, estéticas, religiosas e antropológicas. Neles, é possível adentrar em uma perene e densa pesquisa que motivou reflexões e incursões do poeta em diferentes áreas. Todo esse material de anotações, precioso para quem trabalha com a poesia (mas não só), deu origem a vários volumes ensaísticos.

Daí que Valéry congrega a polivalência – das figuras do pensador e do poeta. Aqui, sim, poesia é pensamento, é conhecimento, é um o processo cognitivo e estético. Esse exercício poético atrai Valéry: há um jogo difícil, enigmático, que se apresenta por si só como um estímulo e um desafio. Justamente por isso ele faz reverberar e multiplicar os vínculos métricos, as aliterações, as assonâncias. Em La jeune Parque, o leitor se depara com um progressivo acordar da autoconsciência em luta contra o apelo aos sentidos; o tema da vida e da morte, importante em toda a sua obra, pode ser lido em Le Cimetiére Marin (1920) . O “drama da inteligência”, com todo seu esforço de conhecimento – das esperanças e esperas até as tentações da ciência e da autoconsciência – permeia sua obra mais famosa, Charmes (1922), carmina em latim, aludindo assim à poesia como encantamento e fascinação.

A relação conflituosa e complexa entre existência e conhecimento, entre o eu e o mundo, perpassa, de algum modo, toda a sua produção, inclusive os textos teatrais publicados postumamente: Mon Faust e Le Solitaire. Talvez uma frase do discurso feito em homenagem a Goethe possa definir, ainda que falando de um outro, a própria poesia de Valéry: “Um poema deve ser uma festa do intelecto”.

O encontro com o texto de Paul Valéry não é fácil. Há um embate a ser travado e o leitor é desafiado a uma “meditação teórica” – que não tira em momento algum, no entanto, o prazer estético da leitura –; poesia e reflexão crítica estão imbricadas e formam uma grande trama em seus versos, como aponta Júlio Castafion Guimarães na introdução de Fragmentos de Narciso.

Isto se verifica tanto nos numerosos rascunhos dos poemas – documentos de extrema importância para o conhecimento da produção de Valéry – quanto de modo especial no universo de seus cadernos de anotações, os Cahiers, algumas milhares de folhas em que ao longo de dezenas de anos fez diariamente anotações dos mais variados tipos[…].

São apontamentos diversos sobre o “funcionamento do espírito” – ou melhor, sobre seu “pensamento”.

O modo de escrever e pensar de Valéry coloca suas anotações, mesmo consideradas as diferenças, lado a lado com os fragmentos de Novalis e das célebres páginas do Zibaldone de Giacomo Leopardi. Há uma espécie de subterrânea cumplicidade, mesmo na diferença, que enfatiza e aposta na função cognoscitiva do discurso literário. Todos eles – Valéry, Novalis e Leopardi – são conscientes de que o processo de “formação” e “apreensão” da realidade só pode ser concretizado mediante a deformação dessa mesma realidade.

DISCIPLINA ESPIRITUAL

A edição bilíngue de Fragmentos do Narciso e Outros Poemas faz parte da coleção de poesia da Ateliê Editorial, que já publicou, entre outros, Giuseppe Ungaretti, Guillaume Apollinaire, Annalisa Cima e Paulo Franchetti, com cuidadoso projeto gráfico. Fragmentos do Narciso é o poema que abre a coletânea, seguido por outras nove composições – Helena, Adormecida no Bosque, O Bosque Amigo, As Vãs Dançarinas, Narciso Fala, Episódio, Verão, Aria de Semiramis e Palma – que pertencem originalmente a dois livros: Album De Vers Anciens e o já mencionado Charmes. Para entender melhor a trajetória de alguns desses poemas – às vezes publicados inicialmente em revistas literárias, em seguida no formato de livro e ainda em diferentes coletâneas –, as Anotações prévias do tradutor são fundamentais. De fato, ele consegue estabelecer uma série de redes e enlaces dentro da própria obra poética de Valéry, e sugere pistas, “notas prévias”, para um possível “encontro”.

A reflexão sobre o homem, seu corpo também como fonte inesgotável de estudo – não se deve esquecer uma das primeiras publicações do poeta francês, dedicada ao método de Leonardo da Vinci –, deságua no que se denominou “seu narciso”. Como analisa Giuseppe Ungaretti, em 1925, escrever, para Valéry, não é um fim; é um meio de suprema disciplina espiritual, daí o uso das formas mais fechadas, as recorrências à tradição mais “rígida”, a obstinação em dominar a matéria mais hostil – um diálogo dramático que é encenado entre o ser e o conhecer. Para Ungaretti, poeta também hermético, Valéry emprega coragem para se debater com uma infinidade de recursos e de efeitos da palavra, de que podemos “ter um gostinho” através desses dez poemas tão bem traduzidos por Júlio Castañon Guimarães. A visão ungarettiana segue em consonância com as palavras de Eliot, quando este afirma que Paul Valéry ficará como o símbolo do poeta da primeira metade do século 20, mais do que Yeats ou Rilke.

O primeiro poema da coletânea trata de um tema bastante caro a Valéry, e que o acompanha por quase quarenta anos. Este fragmento é uma das suas poesias mais antigas, em cujos versos é colocada a dissimulação do trágico na consciência humana, que, por sua vez, o interroga:

[…]

Até os segredos dessa fonte que arrefece…

Até os segredos que me aflige desvendar,

Até o imo do amor de si sem mais recamo.

Nada pode ao silêncio da noite escapar…

A noite em minha pele sopra que eu a amo.
Sua voz suave a 
meus votos teme consentir;
Sob a 
brisa ela mal e mal chega a mentir,
Tanto e 
tanto o fremir de seu tácito templo
Do expansivo silêncio é 
o negativo exemplo.

Em 1945, a temática do narciso, revisitada por muitos autores e pintores, é retomada em L’ange. Aqui, Narciso não é mais um Narciso; o Homem que se conhece chora por não conseguir entender a si mesmo. Resta a pergunta: como entender algo que não é mortal?

Conheça as obras de Paul Valéry publicadas pela Ateliê

Livro apresenta parte de Tolstoi

Dirce Waltrick do Amarante |  A Gazeta – Cuiabá |  7 de janeiro de 2014

Contos da Nova Cartilha – Segundo Livro de Leitura – Vol. 1Em 1849, Liev Tolstoi (1828-1910), depois de ter residido em Moscou e Kazan e frequentado dois cursos universitários – Línguas Orientais e Direito –, ambos abandonados apesar das boas notas, fundou uma escola na pequena propriedade rural de Iásnaia Poliana, onde havia nascido.

A questão escolar na Rússia foi uma preocupação constante de Tolstoi a ponto de ter afirmado, numa de suas cartas, que poderia morrer em paz se duas gerações de crianças russas aprendessem as primeiras letras nas cartilhas que escrevera, das quais receberiam também as primeiras lições poéticas.

Considerado por Stephan Zweig o “pedagogo do universo”, o escritor russo não só elaborou o projeto de uma publicação pedagógica, chamada Revista da Escola de Iásnaia Poliana, como dedicou ao tema cerca de 629 trabalhos.

Contos da Nova Cartilha – Primeiro Livro de LeituraNo fim de 2013, a Ateliê Editorial lançou Contos da Nova Cartilha: Segundo Livro de Leitura – vol. 1, na tradução de Aurora Bernardini e Belkiss Rabello, com ilustrações contemporâneas feitas por crianças russas. Com esse livro, o leitor brasileiro passara a conhecer parte das ideias pedagógicas de Tolstoi e poderá confrontá-las com Contos da Nova Cartilha: Primeiro Livro de Leitura, obra publicada em 2005 pela mesma editora.

O autor das “Cartilhas” foi também grande leitor de Michel de Montaigne e parece ter incorporado dele algumas ideias sobre educação, principalmente aquelas contidas no ensaio intitulado “Sobre a educação das crianças”, de 1580, no qual o ensaísta francês afirma que o preceptor deve fazer com que tudo passe pelo próprio crivo da criança e que nada “se aloje” na sua cabeça por simples autoridade ou confiança. Esse pensador acreditava que não se devia pedir aos pequenos “contas somente das palavras de sua lição mas do sentido e da substância”. Para Montaigne, o educador devia ora abrir caminho para o seu aluno, ora deixá-lo caminhar por si mesmo.

Pode-se perceber que o russo foi um ferrenho defensor da liberdade no processo educacional, pois acreditava que somente ela é capaz de desenvolver a personalidade do aluno, o seu lado criativo e de fazê-lo tornar-se até mesmo o próprio tutor. Isso se harmoniza com o que diz Montaigne ao tratar justamente da relevância da liberdade de pensamento na educação: “tanto nos submeteram às andadeiras que já não temos os passos soltos: nosso vigor e nossa liberdade se extinguiram”, e, citando Sêneca, conclui: “não estamos sob um rei, que cada um disponha livremente de si mesmo”.

Na opinião de Tolstoi, tão importante quanto conhecer as narrativas históricas, é conhecer as lendas e as narrativas ficcionais, pois são essas que apresentam as “leis fundamentais que regem a vida do povo”. Por isso, suas “Cartilhas” são compostas de histórias maravilhosas, contos, fábulas, as quais visam estimular as crianças e fazê-las refletir e filosofar. Aliás, sem filosofia toda educação é inócua, dizia Montaigne, mestre de Tolstoi.

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Inventos líricos

Daniel Benevides | Brasileiros |  1 de janeiro de 2014

"Gérard de Nerval: Cinquenta Poemas", tradução de Mauro GamaFigura única na literatura mundial, em sua autenticidade, gênio e loucura, Gérard de Nerval (1808-855) deixou um legado de prosa e poesia sombrias, mas de uma beleza estranha e fascinante. Nesta edição caprichada, bilíngue, de 50 de seus poemas, vê-se claramente como sua imaginação febril borrava os limites entre o romantismo tardio e uma nova percepção do mundo, crítica, tanto realista quanto fantástica, embrionária do que seria o Modernismo, um século depois. Nesse sentido ele pode ser alinhado com Poe e Baudelaire (que muito o admirava), mas como bem nota Mauro Gama, o excelente tradutor, Nerval não dava tanta importância ao “poético” ou à ideia de obra e autoria, estava por demais preso a seus fantasmas, que acabaram levando-o ao suicídio, tradutor celebrado do Fausto, de Goethe, e autor de romances e novelas marcantes (Umberto Eco considera Sylvie um dos maiores livros já escritos), era um poeta intuitivo, que evocava seres mitológicos refundindo-os em “suas pulsões e procuras subjetivas”. Tome-se como exemplo o famoso poema “El Desdichado”, que T.S. Eliot cita em seu Terra Desolada. Logo na primeira linha, revela uma força que raramente se vê na poesia: “Eu sou o Tenebroso – o Viúvo – Inconsolado”, terminando com “o grito de uma fada”. De arrepiar.

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O psicolirismo cotidiano de Rita Moutinho

Leo Barbosa | zonadapalavra

Psicolirismo da Terapia Cotidiana, de Rita MoutinhoNão há atividade que ponha o subconsciente mais à tona que o ato de fazer literatura. Se houver, talvez se estabeleça através dos sonhos. Então aqui se instaura a semelhança entre a literatura e a psicanálise: “Já que a literatura carrega nos seus flancos o não-consciente e já que a psicanálise traz uma teoria daquilo que escapa ao consciente, somos tentados a aproximá-las até confundi-las”, nas palavras do psicanalista Jean Bellemin-Noel. Afinal, ambas as ciências trabalham com a fala e tendem a revelar mais do que as linhas aparentam carregar.

Podemos inferir isso da leitura de Psicolirismo da Terapia Cotidiana, (Ateliê Editorial, 2013), de Rita Moutinho. Após anos de terapia, a autora segue em catarse, ainda que guiada pelo rigor formal dos seus versos, para aprender a conviver com suas incertezas, medos, pensamentos fúnebres, efemeridades e temor da finitude. Mas a esperança segue firme: “Minhas asas estão atrofiadas/ no meu céu são opacas as estrelas,/ mas todas as desgraças, vou prendê-las,/ para as horas não serem tão coitadas. […] Pra azul destino quero um passaporte./ A ave quer voar, não quer a morte!” (P64)

Nesse processo de transferência a cura pela palavra faz-se imprescindível. O eu-lírico necessita encontrar-se com o passado diante do terapeuta para que haja êxito em seu processo de superação. A psique da paciente responde com psicolirismo de forma condensada e derramada.

A obra é dividida em quatro estágios: “Tempo nublado”, “Tempo instável”, “Tempo parcialmente nublado, passando a límpido” e “Céu quase limpo com Clarões no Horizonte” e por estes vai interrogando por via da filosofia e de conhecimentos mitológicos. O eu-lírico sabe que agora é preciso caminhar sozinho. É hora de sair do divã e retomar a rotina que tanto foi marcada por chuvas de perdas, por céus nublados enquanto desejava um cotidiano ensolarado.

Rita Moutinho mostra-se uma poeta madura, conhecedora dos recursos de linguagem, do manejo dos versos, da forma, e consciente do estranhamento provocado pelas metáforas. Todavia, inevitavelmente, ao abusar do soneto, por vezes esbarra em rimas pobres como podemos conferir na página 93 da obra em questão. Peca em combinações do tipo: poucos/loucos, sangria/melancolia, ventosas/dolorosas, cura/alvura, artístico/místico etc.

Uma das marcas de Moutinho é o frequente uso de antíteses: “Venho disposta ao forte e ao frágil,/ extremar-me firme e também volátil./ Chego tão vida quanto morte,/ me faço aqui, como exilada./ Articulo a fala, me defino muda/ e penso, nas raias da filosofia:/ somos dois multiplicados ao nunca.” (P 91).

A última parte do livro assume tom de despedida como se o cotidiano se encerrasse, como uma rotina fosse quebrada pela desilusão de viver. Mas também assume novas perspectivas a partir da rebobinação de suas memórias como forma de fazer um balanço para poder prosseguir.

A poeta tem estilo próprio ainda que caminhe pela tradição. Narra com paixão seus dramas e tramas. A cada final dos seus poemas ouve-se um estampido. É a vida saindo. É a vida entrando. Aqui ela faz seu registro, convida-nos a “uma viagem interna, tendo a alma como lanterna”. Afinal, onde podemos encontrar verdade maior senão explorando a nossa realidade secreta que melhor se exprime em nosso cotidiano?

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Geografia do inconsciente & outras catarses

Psicolirismo da Terapia Cotidiana, de Rita MoutinhoRonaldo Cagiano 

Uma das grandes vozes da poesia brasileira contemporânea, autora, dentre outros, de Romanceiro dos Amantes (1999) e Sonetos de Amores Mortos (2006) a escritora, crítica e ensaísta carioca Rita Moutinho acaba de lançar uma nova safra poética, numa incursão que lhe proporcionou um profundo mergulho existencial, dialogando com a psicanálise para explicitar poeticamente questões íntimas, sentimentais e artísticas, abordadas ao longo sua trajetória afetiva e intelectual, a partir a da visão de um paciente em terapia.

Realizando uma profunda simbiose com a obra freudiana, tanto no título quanto nos textos poéticos, Psicolirismo da Terapia Cotidiana (Ateliê Editorial, SP, 2013, 194 pgs., R$ 46) recorre à experiência da autora com a psicanálise, panoramizando vários anos de suas sessões de análise, por meio de um percurso crítico e ao mesmo tempo catártico dessa viagem ao insondável do inconsciente, tanto individual quanto coletivo.

Não é a apologia da terapia psicanalítica ou qualquer outra tentativa de homologação do cenário de um consultório nem mesmo a extrapolação da reserva entre terapeuta e paciente que a autora mapeia, como se fosse extensão de um longo processo de descoberta ou cura que o leitor vai encontrar nessa obra.

Aqui, é a poesia possível que ela procura – e encontra – na angústia, na inquietação metafísica, no desassossego da alma, nos vácuos espirituais, na instabilidade dos afetos e emoções. Enfim, é a tentativa poética de desmistificar também as relações do ser diante dessa dolorosa geografia nos anos em que o divã por testemunha e os escuros íntimos como cúmplices contribuíram para que a poeta realizasse a transição entre  os cipoais do mundo exterior e os labirintos e nuvens dos becos-sem-saída de nossos temores e agruras.

Cada poema é uma projeção onírica do desejo de superar perdas, vazios, silêncios, incômodos, apartheids, insularidade psicológica e tudo o que apequena o ser diante da opressão e das urgências que a nossa própria condição nos impõe. E em cada verso, a artista que dosa sua inquietude com o facho luminoso de um lirismo tenso e denso, parece ir des(a)fiando o fio de Ariadne, para percorrer até o fim o espanto e a dúvida de um caminho escuro, mas passível de ser alcançado, para neutralizar os minotauros que ainda vicejam e atormentam.

Dividida em quatro momentos – Tempo nublado, Tempo instável, Tempo parcialmente nublado, passando a limpo e Céu quase limpo com clarões no horizonte – a poética de Rita Moutinho desloca-se pelas estações da mente e do corpo, entre versos livres e  forma fixa, alternando tradição e vanguarda, num claro indício de simbiose entre os próprios estados que o indivíduo experimenta em sua quotidiana lida, no campo interior e na vida prática.

Por meio dessa poesia que celebra as ancestrais dicotomias de que somos forjados, a poeta, com peculiaridade estilística e paixão, narra suas paixões e seus fracassos, seus delírios e suas esperanças, suas explosões e seus recolhimentos, suas chamas e seus definhamentos, pluricanta quedas e tormentos e faz da depurada arquitetura de seus versos, uma catapulta para compreender esse recalcitrante dilema, essa luta dialética (que também é ética e estética) entre Eros x Thanatos, vida x morte, da qual não escapamos, mas podemos remediar, exorcizando lutos e lutas, como ela o faz, com maestria e pungência, moldura de novo olhar sobre o que a cerca e a faz sentir viva.

Em Rita Moutinho, a palavra em pleno estado de graça encontra o seu apogeu para juntar os cacos de nossas andanças e recriar, como num caleidoscópio, ou numa polifonia de gritos & sussurros,  todas as possibilidades de transformar a memória desse caos e as débâcles do viver e sentir, ressignificando a vida até então pressurizada nos containeres da individualidade, das conveniências, das demandas e urgências de uma civilização contemporânea que elegeu, de forma fetichista, o mercado e a competição, colocando em combate permanente o ser e o ter.

Rita nos diz que é possível sair dessas algemas, romper amarras, implodir as celas do pensamento, que não há confessionário nem terapia maior que a palavra, cuja profilaxia e eficácia desmantela com o que nos aprisiona, inviabiliza e proscreve. Pois ela nos assegura e sinaliza que “Quem faz um poema abre uma janela./ Respira, tu que está numa cela/ abafada,/ esse ar que entra por ela./ Por isso é que os poemas têm ritmo/ – para que possas profundamente respirar./ Quem faz um poema salva um afogado”.

E é nessa “Viagem interna,/levando a alma/ como lanterna” que a poeta nos aponta o caminho. Bem o disse Freud: “Seja qual for o caminho que eu escolher, um poeta já passou por ele antes de mim.” Assim como Rita o fez, sua clínica pessoal é o poema, instância em que a subjetividade se expõe sem mesuras, porém sem apelação sentimentaloide, para interditar toda melancolia e realizar uma reflexão objetiva, ainda que sob o pálio de uma inflexão pessoal e intimista, sobre suas vivências e seus confrontos, sobre seus contatos e seus desconfortos, algo tão humano e universal.

E nesse balanço-testemunho-testamento, a mulher ressurge a partir da percepção da poeta que, agudíssima, enfrenta a travessia, para compreender, além das enfermidades que tantas vezes esterilizam corpo & alma, a sensação de nossa finitude e de neutralidade dos oásis nos desertos de nossos questionamentos, pois nos evocando mais a busca do que o encontro de verdades prontas, Rita Moutinho desfere o golpe de misericórdia contra o estanque e imutável das convicções inúteis: “Minhas certezas se evaporam,/ e as perguntas são rarefeitas como gases./ Suas respostas?/ São miragens, não oásis.”

Acesse o livro no site da Ateliê

Comunhão em Quatro Tempos

Renato Tardivo

Literatura e Psicanálise

Se Freud não escreveu muito sobre a relação entre literatura e psicanálise – embora usasse e abusasse das citações literárias, se valesse de referências da literatura clássica para a criação de conceitos e o único prêmio que recebeu em vida tenha sido o Goethe –, alguns psicanalistas contemporâneos tomaram essa relação como objeto de investigação. Talvez possamos dividir esses estudiosos em duas vertentes: aqueles que vislumbram na psicanálise uma poderosa ferramenta de leitura e análise de texto (perspectiva iluminista adotada inclusive por alguns segmentos da crítica literária) e aqueles que propõem certa analogia entre as duas áreas e, nesse sentido, não se valem de conceitos psicanalíticos para traduzir uma obra (ou a biografia de seu autor), mas valorizam a psicanálise em seu potencial poético e libertador.

Há, ainda, obras literárias que lidam com aspectos da relação entre psicanálise e literatura. Também aqui podemos encontrar as duas vertentes tratadas acima: há textos, em prosa ou verso, que recorrem à psicanálise de modo didático e ilustrativo, mas há escritores que optam pela entrada da psicanálise pela via da criação, produzindo obras inventivas. Menciono, a esse propósito, Contos do Divã, de Sylvia Loeb, livro que já resenhei neste espaço (leia aqui a resenha). Além disso, como sabemos, é possível vislumbrar potencial literário em alguns relatos clínicos redigidos por psicanalistas. Vale lembrar que: 1) o próprio Freud explicitara nos Estudos Sobre a Histeria (1895) a semelhança entre seus casos clínicos e as novelas; 2) em carta enviada a Arthur Schnitzler (não revelada enquanto Freud era vivo), o pai da psicanálise se dirigira ao escritor como seu duplo; 3) novamente, cabe a menção ao Prêmio Goethe.

Barco e Mar

Psicolirismo da Terapia Cotidiana, de Rita Moutinho

Ocorre que esses textos na interface da psicanálise e literatura são predominantemente escritos da perspectiva do analista. Menos comuns são os textos escritos da perspectiva do analisando. Psicolirismo da Terapia Cotidiana, que reúne excelentes poemas de Rita Moutinho, insere-se nessa vertente. O livro é composto por poemas em versos livres e também por sonetos, tanto o inglês, com os 14 versos unidos, como o que traz quartetos e tercetos separados. A autora declara na Apresentação que os sonetos foram escritos nos anos 2000 e os demais nos anos 80, mas todos os poemas dizem respeito ao seu período de análise (anos 80) e quase sempre dirigem-se ao analista.

Divididos em quatro tempos: “Tempo Nublado”, “Tempo Instável”, “Tempo Parcialmente Nublado Passando a Límpido”, “Céu Quase Limpo com Clarões no Horizonte”, o livro reúne a experiência de uma mulher em análise. Como se vê, trata-se da terapia cotidiana reescrita com psicolirismo – e o título do livro dialoga com Psicopatologia da Vida Cotidiana (1901), texto em que Freud se propõe a apresentar noções básicas de sua teoria.

A transferência, questão central na psicanálise e também nas artes, uma vez que ao entrar em contato com uma obra transferimos emoções e afetos, talvez seja um dos principais elementos do livro. Mas, sem a frieza dos textos teóricos, há uma espécie de resgate visceral da relação transferencial vivida com o analista, que, no início, sustenta a presença da persona lírica. Cito versos de alguns poemas da primeira parte: “Estou dissolvida, sem capacidade de luta, / sem verbalização que organize / o medo, o desconcerto, o dúbio”; “Futuro, nele crer, isso e mais nada”; “Doer, doer de novo / a dor que é passada”; “Ah, quando poderei sã navegar, / se sou a um só tempo barco e mar?”.

Casamento Estranho

Ao longo do livro, conceitos da psicanálise aparecem aqui e ali, mas não são o foco; ocupam um lugar invisível que adentramos porque os versos são endereçados ao profissional cuja escuta é atravessada por eles. O que atravessa o Psicolirismo da Terapia Cotidiana é a palavra, que se refere à palavra, para terminar na… palavra.

Se já não bastasse a qualidade dos poemas, eles ainda se perfazem em uma unidade narrativa: o caminho em direção à alta da paciente. Já perto do fim, mesmo “que não há fim no desfecho”, o “Soneto da Comemoração do Insight” é assim finalizado: “Sermos par na tristeza e na alegria, / metáfora de núpcias: terapia”. Com efeito, Rita Moutinho reconstrói com lirismo esse casamento estranho, em que um “beijo de despedida” é “fraudar as regras” e o sucesso implica separação, tornando público, mesmo que por meio da persona lirica, um processo tão íntimo e fazendo da experiência de separação com o analista uma possibilidade múltipla de comunhão e abertura com os outros: agora, leitores.

Coluna Resenhas - Renato Tardivo

Renato Tardivo é mestre e doutorando em Psicologia Social da Arte pela USP e escritor. Atua na interface entre a estética, a fenomenologia e a psicanálise. É professor universitário e escreveu os livros de contos Do Avesso (Com-Arte) e Silente (7 Letras), e o ensaio Porvir que Vem Antes de Tudo – Literatura e Cinema em Lavoura Arcaica (Ateliê).

50 letras, sem tirar nem pôr

Marcelino Freire | Folha de São Paulo | 17.11.2013

Os Cem Menores Contos Brasileiros do SéculoDALTON TREVISAN NÃO poderia faltar. Pus no juízo: vou atrás, insisto, me rastejo, ínfimo. Uma antologia de microcontos não ficaria completa sem ele. Mestre da concisão. Alto Dalton. Máximo, grande. Mas ele vive recluso, não dá as caras. Eu não desisto. O ano era de 2004. Muito antes do Twitter. Resolvi criar a antologia Os Cem Menores Contos Brasileiros do Século (Ateliê Editorial). Uma referência à organizada pelo Italo Moriconi, “Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século“. Ao Italo, pedi a assinatura de um microprefácio. Que ele generosamente fez. Em 50 palavras. Os contos, esses não, teriam de ter até 50 letras. Sem contar o título. Isso, inspirado que fui pelo microconto mais famoso do mundo, o do guatemalteco Augusto Monterroso. Uma história de 37 letrinhas, a saber: “Quando acordou, o dinossauro ainda estava lá”. Toparam participar Sérgio Sant’Anna, Adriana Falcão, João Gilberto Noll, Manoel de Barros, Modesto Carone, Andréa DeI Fuego, Glauco Mattoso…

Lygia Fagundes Telles escreveu um, genial, só em diálogos: “- Fui me confessar ao mar. / – E o que ele disse? / – Nada.”.

Maravilha!

Mas faltava o Dalton.

Até o Millôr Femandes topou – esse, antigo seguidor dos microformatos. Com Millôr foi relativamente fácil. Eu já tinha estado com ele no Rio para um papo raro. Cheio de humor e irreverência. Ligou-me para se certificar: “Até 50 letras, sem contar o título, é isto?”. É isto, Millôr. E não é que ele me mandou um conto em contadinhas 50 letras? No entanto, o título era imenso. “Fiz o que você me pediu, não fiz?”

Fez, sim, fez.

Mas repito: faltava a presença do Vampiro de Curitiba. Eu havia mandado uma carta para ele. Havia mais de um mês.

Esperei, esperei. Noventa e nove escritores já reunidos. O livro todo diagramado. Organizado por ordem alfabética. Na letra “D”, antes de Daniel Galera, deixei o espaço vago.

Qualquer coisa, se o Dalton não me responder, eu invento um autor:

Dalvan Trigueiro. Faço uma homenagem, sei lá, à revelia. E mando o livro para a gráfica, entristecido.

O tempo ficando miúdo. A esperança é a última que chega. Em cima da hora. Eis que recebo um envelope. E, dentro, o conto, também em diálogos: “- Lá no caixão…/ – Sim, paizinho./ -… não deixe essa aí me beijar”.

E eu quase morro.

Dalton Trevisan é desses escritores que me deixam sem fôlego. É ele em que me espelho quando coloco minhas neuroses na página. Gosto de suas obsessões. Inquietações. A cada livro seu, uma surpresa. Dalton escreve na velocidade da luz.

Não se engane. Ele não é só o “dono” de um estilo rápido. Vupt, vapt. Dalton escreve à velocidade da sombra. Vai sempre longe.

E foi assim.

A antologia finalmente saiu. Até hoje é referência para quem quer estudar as narrativas curtas. Foi trabalho, fiquei sabendo, inédito no mundo, à época: esse de reunir tantos autores, de uma vez só, escrevendo “enormemente menor”.

A todos, até hoje agradeço. Sobretudo aos que já se foram: Moacyr Scliar, Manoel Carlos Karam, Alberto Guzik, Wilson Bueno. E idem ao sempiterno Millôr.

E essa antologia também me deu, ave, a amizade do Dalton. De quando em quando, assim, a gente se fala. Via correios.

O contato mais surpreendente foi pouco antes de ele ganhar o Prêmio Camões, em maio de 2012. Enviei a ele o meu livro de contos “Amar É Crime” (Edith).

Recebi, em troca, “O Anão e a Ninfeta“, com a seguinte dedicatória:

“Ao Marcelino Freire, com a muita admiração do seu leitor fiel”.

Dedicatória Dalton Trevisan

E eu quase morro. De novo. Em saber que ele se diz o meu “leitor”. Eu que aprendi a ler com ele. Nas entrelinhas. E continuo a apreender.

E a me surpreender.

A dedicatória do Dalton, por exemplo, tem exatas 50 letras. Sem tirar nem pôr. Pode crer.

Acesse o livro Os Cem Menos Contos Brasileiros do Século

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