Renato Tardivo

Silenciosamente e no Breu: Rosa e Carrascoza em “Silêncios no Escuro”

Renato Tardivo*

Silêncios no escuro, primeira obra de ficção adulta de Maria Viana, como já aponta o título, é construído por metáforas sensíveis. A referência mais direta talvez seja Guimarães Rosa, mas, entre os autores contemporâneos, os contos do livro também dialogam com a poética de João Carrascoza, um dos principais escritores brasileiros contemporâneos.

Por meio do trabalho com a palavra que diz ao não dizer, do retrato do Sol que ilumina ao se pôr, as narrativas não desvendam o mistério em seus desfechos. São metafísicas por excelência.

“Em nome do pai”, conto que abre o livro, é tocante. Mostra o triunfo da vida, ainda que na “17ª tentativa”, e, invertendo a ordem natural das coisas, coloca a vida como herdeira da morte.

“A cobra na cabaça” narra o encontro invisível entre duas pessoas, através da música, separadas ainda (para sempre?) pela “madeira da porta”. “Balaio de cabeças” dialoga com o clássico “A terceira margem do rio”, do já mencionado Guimarães Rosa: o desparecimento de um marca o surgimento da lenda.

Como nos contos de João Carrascoza, a temática da morte é frequente: a morte que “poupa de gritos dilacerantes”, em um dos contos mais longos do livro, “A praga”. Em “A santa que fugiu do altar”, pródigo em metafísica, Manuelinha lembra muito Niilinha, do conto “A menina de lá”, de Rosa. “Condensação e deslocamento”, noções fundamentais para a definição de sonho, por Freud, retrata algumas cenas, como em um filme (um sonho?), de modo que a ligação entre elas perfaça o percurso de uma vida, ainda em aberto.

A última narrativa, “Em busca do pai”, cujo título remete à primeira, a filha encontra o pai, em sonho, no céu. Sonhar, aqui, forma caráter; confere densidade à subjetividade. Uma vez mais, é a vida a herdeira da morte – silenciosamente e no breu.

*Renato Tardivo é psicanalista e escritor. Doutor em Psicologia Social da Arte (USP). Autor, entre outros, do ensaio Porvir que vem antes de tudo – literatura e cinema em Lavoura Arcaica  (Ateliê/Fapesp) e do livro de poemas Girassol Voltado Para a Terra (Ateliê). 

A travessia de Freud pelas artes

Por Renato Tardivo

 

freud

A relação de Freud com as artes foi marcada por ambiguidades. Em uma vertente, ele se valeu das artes e do trabalho do artista a fim de validar a teoria que estava criando. Em outra, Freud parece privilegiar a correspondência entre as artes e a psicanálise, pois ambas se prestam a explorar os mistérios da alma humana.

Em um excerto curto, anexo à carta a Fliess (1897), Freud compara as fantasias histéricas aos mecanismos da criação poética: “Shakespeare tem razão ao igualar criação poética e delírio”. Essa acepção, talvez majoritária ao longo de sua obra, é a que está contida no ensaio “Escritores criativos e devaneio” (1908): a arte enquanto sublimação de desejos inconscientes reprimidos. Em vez de transformar em sintomas, os artistas dariam forma a esses desejos, isto é, os sublimariam, de modo a serem aceitos pela cultura.

Um dos principais textos nessa direção é o longo ensaio “Uma lembrança de infância de Leonardo da Vinci” (1910). Freud procura resolver os enigmas que a obra de arte coloca por meio da aplicação da teoria que ele construía, aplicando a psicanálise à obra de arte e ao trabalho do artista, ao testar e buscar validar os conceitos.

A propósito, o fenomenólogo francês Maurice Merleau-Ponty, no ensaio “A dúvida de Cézanne” (1945), faz ressalvas a esse uso de Freud, muitas vezes arbitrário, mas também reconhece a sua importância.De acordo com o filósofo, “o sentido de [uma] obra não pode ser determinado por sua vida”. Ao contrário, é a “obra por fazer [que] exigia essa vida”. Assim, “a psicanálise não é feita para nos dar, como as ciências da natureza, relações necessárias de causa e efeito, mas para nos indicar relações de motivação que, por princípio, são simplesmente possíveis”.

Há ensaios em que Freud discute as artes ou o trabalho do artista em que isso fica muito claro. Nesses casos, ocorre uma inversão da acepção majoritária de Freud sobre as artes. Em vez da analogia entre sintoma e trabalho do artista, a analogia se coloca entre o trabalho criativo do artista e as interpretações do psicanalista.

Célebre nesse sentido é a carta de 1922 que Freud endereçou ao escritor Arthur Schnitzler. Nela, o psicanalista confessa encontrar no escritor o seu duplo. Curiosamente, a carta não foi veio a público enquanto Freud esteve vivo, pois de fato revela o seu temor a respeito da aproximação entre trabalho do artista e trabalho do psicanalista. Homem da ciência que foi, sabemos que Freud rompe com ela, mas procura a todo tempo reconciliar-se.

Não deixa de ser fortuito que o único prêmio que recebeu em vida foi o Goethe. Sabemos que em muitos de seus escritos, Freud valeu-se de passagens do escritor alemão. No discurso lido por Anna Freud na ocasião do prêmio (1930), Freud afirma que ter colocado o escritor na “condição de objeto da pesquisa analítica” não significava um rebaixamento. Uma vez mais, são a obra e o trabalho do artista objetos da teoria psicanalítica, que é capaz de esclarecer “o mistério do talento extraordinário que o torna artista”. Freud recebe o prêmio Goethe enquanto homem da ciência…

“Transitoriedade” (1916) é um artigo curto, mas muito importante. Nele encontramos o Freud escritor em sua melhor forma. Com ares proustianos, o pai da psicanálise discorre poeticamente sobre a passagem do tempo. No ensaio, é abordada a temporalidade freudiana do après-coup, segundo a qual as inscrições do vivido são ressignificadas “só depois” de sua ocorrência factual. Eis uma forma interessante de pensar o atravessamento de Freud pelas artes, também ele empreendendo uma série de ressignifcações ao lugar da arte e do trabalho do artista. Ora, ao o procurar desvendar os mistérios da alma humana, Freud nos ensinou que ela é um mistério interminável.

Para ler mais sobre arte e psicanálise, acesse: http://www.atelie.com.br/livro/arte-dor-inquietudes-entre-estetica-psicanalise/

Psicanalista e escritor. Doutor em Psicologia Social da Arte (USP). Autor, entre outros, do ensaio Porvir que vem antes de tudo – literatura e cinema em Lavoura arcaica (Ateliê/Fapesp).

Pulsação viva

 Por: Renato Tardivo

tempo vivo da memoria

Qual é o tempo da memória?

Apressadamente, talvez respondêssemos ser o tempo passado. No entanto, O Tempo Vivo da Memória, livro clássico da Psicologia Social brasileira, escrito por Ecléa Bosi, trata de problematizar essa resposta, desde o título.

O livro reúne diversos ensaios que, tendo a temática da memória como fio condutor, incluem reflexões teóricas, dados de pesquisa de campo, análises de obras de arte e objetos da cultura, estudos sobre a obra de Simone Weil, entre outros.

Não se trata de um livro técnico ou com academicismos. Uma das características comuns a todos os capítulos é a profundidade dos temas que abordam e a simplicidade com que o fazem, de modo que se trate de um livro sobre todos nós e, como escreve José Moura Gonçalves Filho no texto da orelha, “um livro para todos”.

 

O vivido por acontecer

Atentando no início para os aspectos do cotidiano e seu dinamismo, o que os afasta das definições estanques e cronológicas (a que estamos mais acostumados) de História, Ecléa Bosi nos mostra que o tempo da memória não é o tempo morto dos calendários, mas o tempo “de outra história mais densa”, o tempo das pequenas coisas, dos gestos, o tempo que nos une a todos e que, por isso mesmo, escapa a qualquer apreensão definitiva. Com efeito, mais do que acessar o passado, a memória o faz reviver.

Amparada na Psicologia da Gestalt e Bergson, a autora considera que o passado se conserva, mas não de forma homogênea. Uma lembrança, ao virar figura, altera o fundo – o todo de que é parte. E vice-versa.

É assim que, do trabalho dos operários, Ecléa extrai verdadeiras joias: “combinam sob forma nova os fragmentos de matéria de um meio que é anômico, os detrimentos e migalhas da sociedade industrial, imprimindo a esses conjuntos o encanto que só poderia emanar da classe voltada como nenhuma outra para os valores de uso”.

O tempo vivo – portanto, por acontecer – da memória – portanto, vivido – é inapreensível e, concomitantemente, tudo o que temos.

 

Enraizamento e memória

Simone Weil

Simone Weil

Já havia tomado contato com este livro, cuja primeira edição é de 2003 e a segunda de 2004, em outras ocasiões. Fui aluno de Ecléa Bosi em 2002 – tempo em que as ideias a ser publicadas habitavam melodicamente suas aulas –, bem como o lera em 2005, para a seleção do mestrado em Psicologia Social. Nesse sentido, a releitura me trouxe a temática mesma da obra, convidando-me à revivescência de outros tempos.

Ao fim, quando cheguei aos estudos sobre a obra de Simone Weil, ocorreu-me algo que vivi recentemente. Conversava com meus pais sobre os últimos dias de vida do meu avô, talvez minha experiência mais próxima da morte de que tenho memória, e lembrei-me de um sonho que ele teve. Em coma profundo por alguns dias – e desacreditado pelos médicos –, meu avô despertou completamente lúcido. Consumido pelo câncer, ele nos contou um sonho… Estava aprisionado em uma aldeia indígena e, no julgamento que poderia condená-lo à morte, fora absolvido.

Além do sonho, de que também meus pais tinham memória, lembrei-me de que ele despertara com vontade de comer pastel de feira. Evidentemente, trazer um pastel para um paciente terminal feria as regras do hospital, de modo que, não sei se ajudado pelo fato de meu pai, filho dele, ser médico do hospital ou se contando com a compaixão da equipe médica, conseguimos trazer o tal pastel.

Lembro-me da cena: meu avô, pele e osso, mastigando com prazer, como se fosse hoje. Contudo, nem me pai nem minha mãe lembraram-se disso. “Há coisas de que só as crianças se lembram”, disse minha mãe. Em um primeiro momento me irritei: como não se lembravam de algo tão relevante? Sem a comprovação deles, estaria a veracidade de minha memória posta em cheque?

Mas logo me reconfortei no privilégio que ser o guardião do que uma cena como aquela implica: um pedacinho de minhas raízes, à iminência de nos deixar para se tornar memória, pulsando vivo dentro de mim a magia de uma herança por despertar, talvez não muito diferente da experiência de voltar de um coma irreversível.

Forte, feito palavra

Renato Tardivo*

tripe

Tripé é um dos primeiros livros daquele que viria a ser um dos escritores brasileiros mais reconhecidos e premiados de sua geração. Rodrigo Lacerda estreou em 1995 com O Mistério do Leão Rampante, obra que lhe rendeu um Jabuti na categoria Romance (aos 27 anos apenas).

Tripé foi publicado em 1999 e, conforme indicação do título, divide-se em três partes. A primeira traz três textos cujo formato se aproxima da crônica – retratos do cotidiano, falas de crianças, o mundo interno do cronista. Na segunda parte, há duas narrativas inventivamente escritas em formato de roteiro (Teatro? Cinema? Novela? Projeto de romance?), mas que em sua dinâmica avizinham-se do conto e da novela – ambas com fortes traços rodriguianos. A terceira parte traz três textos – desta vez, contos, no sentido forte do termo.

Sabemos que três pontos formam um – e apenas um – plano e que por isso são emblemas de estabilidade, equilíbrio. Nesse sentido, o “tripé” do título não se refere à reunião aleatória de três seções que, bem escritas, poderiam resultar em um projeto equilibrado.

Mais que isso, muito sutilmente e com a habilidade que conheceríamos em seus demais livros, o jovem Rodrigo Lacerda brinca com aspectos estruturais da linguagem, habitando-a por dentro. O tripé perpassa os três pontos.

O último conto sintetiza a tese do livro:

“A consciência dos homens é sustentada por um tripé. O primeiro pé traz a observação da realidade cotidiana, pura e às vezes até prosaica. O segundo é onde a subjetividade de cada um se encontra com o mundo real, distorcendo-o fatalmente. O terceiro é exclusivo dos sonhos e das fantasias, ou dos pesadelos. É este que me prende aqui. Nunca vou poder sair. Tenho um pesadelo que não vai embora.”

Neste conto derradeiro – “Hospital” –, histórias narradas anteriormente retornam, não vão embora. Onde o prosaico e o infantil tornam-se fatalidade, e a fatalidade retorna em fantasias ou pesadelos, resta a certeza: enquanto houver vida, o esqueleto irá se sustentar – sólido, equilibrado, forte – feito palavra.

*Renato Tardivo é escritor, psicanalista, professor universitário e doutor em Psicologia Social pela USP. Publicou, entre outros, os livros Girassol Voltado para a Terra (Ateliê), Do Avesso (Com-Arte/USP) e Silente (7Letras), e o ensaio de Porvir que Vem Antes de Tudo – Literatura e Cinema em Lavoura Arcaica (Ateliê).

Ficções Psicanalíticas

Renato Tardivo*

psi nova temporada

Recentemente, estreou a segunda temporada de Psi, série com texto e direção geral do psicanalista italiano radicado no Brasil, Contardo Calligaris. Embora não se trate de uma série de consultório, como In Treatment (adaptada no Brasil com o título Sessão de Terapia e direção de Selton Mello), a linguagem privilegiada é a psicanalítica.

Os episódios, mais ou menos independentes entre si,se passam em São Paulo e giram em torno de Carlo Antonini (em ótima interpretação de Emílio de Mello), espécie de alter ego do próprio Calligaris. Seu ofício de psicanalista de consultório é abordado, conquanto não incida ali o foco narrativo. Psi reúne situações de clínica extensa, isto é, eventos para além do consultório aos quais a psicanálise tem algo a dizer.

Emílio de Mello interpreta Carlo Antonini

Emílio de Mello interpreta Carlo Antonini

Como em In Treatment, um dos pontos positivos é abordar a humanidade do psicanalista. A tônica da primeira temporada é mais ou menos a seguinte: Antonini demonstra desinteresse pelas histórias (banais) dos pacientes que o procuram, e não titubeia em encaminhá-los para Valentina (Cláudia Ohana), sua colega de ofício, ex-aluna e ex-amante – Valente, como ele a chama, é sua principal interlocutora. Enquanto isso, no outro extremo, o psicanalista se atrai por histórias (surpreendentes) de não pacientes.

Claro está, o público-alvo não são psicanalistas ou psicoterapeutas. Nesse sentido, vale ressaltar que se trata de uma trama de ficção: não há preocupação com a verossimilhança nas histórias. Essa ressalva, contudo, não isenta parte da primeira temporada (sobretudo a primeira metade) do seguinte problema: Antonini, que vê o mundo pela lente da psicanálise, se confunde com um super-herói. Suas interpretações excessivamente didáticas e suas atitudes têm o poder de salvar pessoas, famílias, em suma, de resolver situações complicadíssimas.

Ao longo da segunda metade da primeira temporada, os textos ficam menos afetados. Carlo segue desinteressado pelos sintomas dos clientes – o que talvez equivalha ao bloqueio criativo de um artista –, mas deixa a posição de super-herói e o roteiro passa a explorar também aquilo que ele não dá conta de resolver. Resultado: a série fica mais interessante.

Há mudanças na vida de Antonini na segunda temporada (até o momento em que este texto foi escrito, ela está no quarto episódio), mas a tônica se assemelha à do fim da temporada anterior: roteiros equilibrados e um Carlo Antonini mais humano. Há, ainda, um reforço no time de diretores dos episódios, com nomes como o de Tata Amaral.

Quem está familiarizado com as ficções e, sobretudo, com as crônicas de Contardo Calligaris irá notar semelhanças entre elas e Psi. Com efeito, a série adota uma linguagem que problematiza o cotidiano pela lente da psicanálise, trazendo elementos para refletir a loucura e, principalmente, a normalidade presentes em nossa rotina por uma lógica que subverte o senso comum.

Mas a crença exagerada no poder da psicanálise às vezes enfraquece a trama. Se, em vez de trazê-la em sua vertente iluminista, o roteiro explorasse o potencial ficcional da psicanálise, o resultado poderia ser mais interessante – realidade e ficção, amalgamadas pela psicanálise, compareceriam em equilíbrio, fazendo justiça à premissa de Freud de que nosso psiquismo se constitui enquanto ficção. Essa observação vale para Psi e para as demais ficções de Contardo Calligaris: resultam demasiadamente psicanalíticas.

*Renato Tardivo é escritor, psicanalista, professor universitário e doutor em Psicologia Social pela USP. Publicou os livros de contos Do Avesso (Com-Arte/USP) e Silente (7Letras), e o ensaio de Porvir que Vem Antes de Tudo – Literatura e Cinema em Lavoura Arcaica (Ateliê).

Conheça as obras sobre psicanálise já publicadas pela Ateliê

Quando não há mais sujeito e objeto

Renato Tardivo*

 

Viagem a um Deserto Interior é o mais recente livro de Leila Guenther. Seus poemas e microcontos agrupam-se em cinco seções: “Paisagens de Dentro”, “O Deserto Alheio”, “Castelo de Areia”, “Um Jardim de Pedra” e “A Possibilidade de Oásis”. Nota-se, portanto, uma (bem-sucedida) intenção narrativa oferecendo de antemão continente às narrativas do livro. Não é aleatório que o “espaço” seja o tema mais relevante da obra; aliás, ele está indicado em diversas palavras-chave: “viagem”, “deserto”, “interior”, “paisagens”, “castelo”, “jardim”, “oásis”.

Mas, se há deslocamento do interior de si para o interior do outro, da fragilidade da areia para a dureza da pedra, da aridez do deserto ao oásis (ou à possibilidade dele), há deslocamento também entre os versos dos poemas e os microcontos, o que confere ainda mais movimento à viagem. Aqui, poesias são narrativas e narrativas, poesias.

Imagem2Há algo de Drummond – cuja referência chega a ser explicitada – no modo de abordar o desconcerto de mundo, nos desfechos surpreendentes, no olhar ao mesmo tempo simples e profundo. Leila, ainda, repete alguns temas (suas pedras no meio do caminho?),de modo a marcar a passagem do tempo, a efemeridade do instante: a mulher sem filhos, as noites das estações do ano, as referências orientais…

E, no fim, há oásis? Cabe ao leitor empreender a sua própria descoberta. Leila nos ajuda, e muito, sugerindo trajetórias, habitando os continentes possíveis e impossíveis, da caixa de sapatos (em que consegue caber) ao desejo de ser trapezista (o que ainda não é).

Mas, talvez,a dica mais preciosa esteja em “Mushin” (em uma tradução livre, “suspensão do pensamento”):

 

Quando não há mais sujeito e objeto

como saber se aquele que mata

não é o mesmo que é morto?

 

 

Conheça outras obras de Leila Guenther

*Renato Tardivo é escritor, psicanalista, professor universitário e doutor em Psicologia Social pela USP. Publicou os livros de contos Do Avesso (Com-Arte/USP) e Silente (7Letras), e o ensaio de Porvir que Vem Antes de Tudo – Literatura e Cinema em Lavoura Arcaica (Ateliê).

Busca por Solidariedade

Renato Tardivo

Untitled

Dois Dias, Uma Noite (2014), filme dirigido pelos irmãos Dardenne e protagonizado por Marion Cotillard, é uma daquelas obras que comprovam que o cinema de ficção ainda detém um papel social importante. Os irmãos Dardenne têm se notabilizado, na última década, ao filmar os dilemas da classe média baixa francesa sem maniqueísmos ou afetações, e estão em sua melhor forma nesse último filme.

Sandra, a personagem de Cotillard, é demitida da fábrica onde trabalha após um período afastada por causa de uma depressão. Quando ela retornaria ao trabalho, o patrão delegou aos colegas de Sandra, por meio de votação, a seguinte decisão: ou eles recebem um abono de mil euros ou Sandra é reintegrada à equipe. Dentre os 16 votos, ela recebe apenas 2. Ocorre que, com o apoio de uma das colegas, Sandra consegue que uma nova votação seja realizada. E começa, então, sua odisseia: bater de porta em porta, durante todo o fim de semana, para convencer os colegas a abrir mão do abono e votarem por ela.

Valendo-se de uma linguagem documental, o filme abusa dos planos-sequência e da câmera na mão de modo a transportar o espectador à busca angustiante de Sandra, sobretudo porque ela não está apenas preocupada com o sustento de sua família, mas compreende que o abono de mil euros seja importante para os colegas e suas famílias: Sandra vê o outro. E a forma que os irmãos Dardenne encontraram para filmar isso é fazer com que o espectador veja Sandra. Seu suor, seu cansaço, sua tristeza, sua esperança – a câmera desvela as virtudes e fraquezas dessa mulher, e Marion Cottilard, quase sempre em cena ao longo dos 90 minutos, está impecável.

O filme funciona, também, como uma crítica atual aos mecanismos de opressão no trabalho. Com efeito, ao delegar aos subordinados a decisão pelo emprego de Sandra ou pelo abono, o capitalista deixa que a bomba exploda do lado mais fraco. Mas, diante disso, Sandra não propõe um motim ou coisa que o valha. Em outra direção, o filme empreende um mergulho na complexidade do sistema e propõe que reflitamos sobre ele.

É assim que, mais que apontar culpados ou inocentes, Dois Dias, Uma Noite, do título ao último plano, é o retrato de uma busca – a busca por solidariedade. Talvez por isso a luz do filme seja predominantemente branda: uma fotografia clara, com tons de rosa e verde, marca o triunfo do que realmente importa. E não é necessariamente o capital.

 

Coluna Resenhas - Renato Tardivo

Renato Tardivo é mestre e doutorando em Psicologia Social da Arte pela USP e escritor. Atua na interface entre a estética, a fenomenologia e a psicanálise. É professor universitário e escreveu os livros de contos Do Avesso (Com-Arte) e Silente (7 Letras), e o ensaio Porvir que Vem Antes de Tudo – Literatura e Cinema em Lavoura Arcaica (Ateliê).

Interpretações entre a Literatura e a Psicanálise

Renato Tardivo

12'5x20 - 20mm lombadaInterpretações – Crítica Literária e Psicanálise reúne ensaios instigantes sobre o complexo parentesco entre essas duas áreas. Com efeito, as reflexões deste livro não incorrem nos dois problemas mais frequentes quando psicanálise e literatura são relacionadas: 1) a recusa prévia da possibilidade de diálogo, sobretudo por parte dos literatos, que podem ver na psicanálise apenas uma terapêutica ou um fazer normativo; 2) a aplicação direta de conceitos da psicanálise à literatura, de modo que o analista encontre no texto aquilo que ele próprio escondeu. Ao contrário, abordando diversas perspectivas dessa relação, os ensaios são divididos em duas seções: “O Ato Interpretativo”, que inclui reflexões sobre os dois fazeres, tendo a interpretação como mediadora, e “Faces da Interpretação”, que apresenta análises cuidadosas de obras literárias. Não sendo possível falar de todos, a seguir comentarei alguns desses textos.

Abre o conjunto o ensaio de Alfredo Bosi: “Psicanálise e Crítica Literária – Proximidade e Distância”. Recorrendo a clássicos da literatura e importantes pensadores da cultura, Bosi coteja possibilidades e limites implicados na relação entre as duas áreas. Entre os limites, talvez o mais significativo apontado pelo crítico seja o seguinte: “A Psicanálise conhece para curar, é uma ciência com vistas a uma terapêutica; a crítica literária, ao contrário, ao que eu saiba, nunca curou ninguém do vício de escrever, que continua compulsivo e impune”.

No ensaio seguinte, Adélia Bezerra de Menezes empreende um mergulho na “práxis da interpretação” presente nos dois campos e, como se continuasse o texto de Bosi, encaminha a reflexão do primeiro capítulo. Escreve a autora: “No paralelo que vim montando entre Interpretação literária e Interpretação psicanalítica, sempre ressaltando as semelhanças, há que se fazer uma distinção; uma diferença entre a práxis do crítico literário e a do psicanalista. É que, no caso específico da Psicanálise, há uma intenção terapêutica no uso da palavra”. E logo depois: “Essa eficácia terapêutica, no entanto, no encontro analítico, talvez se deva menos a uma ‘vontade interpretativa’ do que a um movimento de verbalizar, a um nomear, a uma passagem à palavra […] Assim, nem seria propriamente a interpretação que conta, mas mais propriamente a possibilidade que se oferece da presença de um outro atento, e que – para usarmos os termos de Riobaldo, em Grande Sertão: Veredas – ‘ouve com devoção’”. Ou seja, vislumbra-se aqui uma psicanálise cujo fim não é a cura pelo conhecimento, mas a vivência de um método que, em seu fazer específico, guarda semelhanças com a literatura.

Em “Uma Visita aos Sonhos na Arte: Grete Stern e Henri Matisse”, João Frayze-Pereira propõe no âmbito da “psicanálise implicada”, aquela que “respeita a singularidade da obra e constrói interpretação para ela, derivando-a dela, na justa medida dela”, duas aproximações: primeiro com uma série de fotomontagens da fotógrafa alemã Grete Stern, depois com uma mostra de obras de Matisse. Com efeito, as interpretações propostas pelo autor são precisas em sua poeticidade, e os sonhos visitados, na arte, comunicam-se com os sonhos para a psicanálise.

Talvez o ensaio mais denso do livro seja “Escrita e Ficção em Psicanálise”, de Joel Birman. Nele, o psicanalista empreende um resgate da história da psicanálise, retoma aspectos importantes do pensamento de Freud, pontua as obras em que as questões aparecem e, em um texto esclarecedor, fundamenta a tese da “presença inequívoca da dimensão ficcional do psiquismo”. Com efeito, o deslocamento da teoria da sedução para a teoria do fantasma empreendido pela psicanálise, quer dizer, a distinção proposta por Freud entre realidade psíquica e realidade material, traz como decorrência a dimensão ficcional do psiquismo: cuja ordem é sexual, é atravessado pelo desejo e contém os fantasmas – mediadores entre o sujeito e o acontecimento real. Dessa perspectiva, problematizam-se todas as modalidades de registro, não apenas em psicanálise ou literatura, mas na história, que seria, portanto, também ela atravessada pela ficção.

A seção dedicada às análises apresenta ensaios saborosos que acrescentam sentidos ao leitor que já tomou contato com as obras e funcionam como convite à leitura daquelas que o leitor ainda não conhece. A temática do espelho, cara tanto à literatura quanto à psicanálise, o Unheimlich, definido por Freud como “o estranho que é familiar”, o Édipo, enfim, esses e outros temas relevantes comparecem nas interpretações lançadas às obras de, entre outros, Machado de Assis, Guimarães Rosa, Clarice Lispector e Chico Buarque.

Por fim, vale dizer que o livro – organizado pelas também autoras Cleusa Rios P. Passos e Yudith Rosembaum – resulta interessante para o estudioso da área, mas, conquanto os ensaios não sejam herméticos, servirá ao leitor que, no mínimo, viva a literatura e se inquiete com a complexidade da mente humana.

Conheça mais sobre a obra Interpretações – Crítica Literária e Psicanálise

 

Coluna Resenhas - Renato Tardivo

Renato Tardivo é escritor e psicanalista. Mestre e doutorando em Psicologia Social (USP) e professor universitário, escreveu os livros de contos Do Avesso (Com-Arte) e Silente (7 Letras), e o ensaio Porvir que Vem Antes de Tudo – Literatura e Cinema em Lavoura Arcaica (Ateliê).

 

O Desejo na Literatura e na Psicanálise

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Nesta quarta-feira (03/09), a Livraria da Vila – Lorena recebe para um bate-papo o autor, psicanalista e colunista da Ateliê Renato Tardivo. Na ocasião o autor falará sobre a construção do desejo na literatura, abordando a vertente realidade/ficção. O psicanalista Niraldo de Oliveira Santos norteará sua fala, abordando o imperativo de felicidade, que é imposto ao sujeito, abrindo a discussão sobre a articulação desejo x gozo na contemporaneidade, principalmente os modos de satisfação/”empuxo ao gozo” e os efeitos disso no corpo.

 

Livraria da Vila – Lorena (auditório): Alameda Lorena 1731 – Jardim Paulista

Horário: 19h30 às 21h30

Entrada Gratuita

Inscrições: maisainda2014@gmail.com

Está Querendo Ser Meu Analista?

Renato Tardivo

SigmundFreud

 

Como além de escritor sou psicanalista com atuação clínica, escuto com alguma frequência comentários assim: “A clínica deve ser um rico material para a sua ficção…”; ou perguntas do tipo: “Você se inspira em seus pacientes para criar suas personagens?”. Vamos refletir a respeito.

Acredito na proximidade entre literatura e psicanálise. Quem já leu alguma coisa do Freud há de concordar que sua escrita não é alheia à literatura, tanto do ponto de vista do estilo quanto do conteúdo. Assim como outros psicanalistas, vislumbro maior parentesco da psicanálise com as artes e a literatura do que, por exemplo, com as ciências naturais. A questão foi tema desta coluna em outras ocasiões, como aqui. Isso não significa, no entanto, que um escritor de ficção se valha de sua clínica como material para a sua literatura. Explico.

Da mesma forma que há certo fetiche em torno da figura do psicanalista enquanto aquele que tudo sabe porque possui uma bola de cristal, há a crença, igualmente equivocada, segundo a qual o que distingue um trabalho terapêutico é o material trazido pelo paciente. Até pode haver eventos que o paciente conte apenas em análise, mas o que diferencia a situação terapêutica de uma conversa entre amigos confidentes, por exemplo, é sobretudo o tipo de escuta exercida pelo analista.

Dessa perspectiva, o analista é aquele que acompanha o paciente; é um interlocutor diferenciado que capta o que é dito, pensado e sentido para além do manifesto, da superfície, do cotidiano. O autor, no consultório, é o cliente; não o analista – este assume a condição de espectador que assiste à obra do outro e, assim, pode ajudá-lo a elaborar situações difíceis, sofrer menos, encontrar fontes de satisfação e dar conta de fruí-las etc.

Evidentemente, um escritor – como de resto todo ser humano – deve sempre ampliar suas possibilidades de contato com o mundo. Isso ocorre ao vivenciar obras de arte, ler, atualizar-se em relação à política e à cultura, viajar, aproveitar ao máximo as relações interpessoais etc., e, assim, conhecer-se melhor: olhar para fora é também olhar para dentro, e vice-versa. Nessa vertente, o ofício exercido na clínica compõe a visão de mundo do escritor-psicanalista como um de seus múltiplos elementos, e não como fonte de inspiração direta.

Mas há exceções. Um projeto literário pode se debruçar sobre o parentesco com a psicanálise e ser bem-sucedido. Neste espaço, resenhei dois belos livros escritos dessa perspectiva, um do ponto de vista da analista, outro do ponto de vista da analisanda. Esses livros, no entanto, possuem a especificidade de serem criados a partir das relações entre literatura e psicanálise; não podem ser tomados como regra.

De resto, a questão central talvez seja mesmo esta: o analista é espectador das histórias (que escuta); não o autor delas. Não há, portanto, motivo para considerar que os dilemas dos pacientes coloquem o escritor-psicanalista em vantagem em relação aos demais. E não se trata apenas, como talvez pensem alguns, de respeitar os limites éticos. Um psicanalista pode escrever sobre uma situação clínica, mesmo sem ser ficcionista, e ainda assim deve respeitar esses limites – não oferecendo elementos que permitam que o paciente seja identificado, por exemplo.

Por essas e outras, da próxima vez que me perguntarem se me inspiro em meus pacientes para criar minhas personagens, vou retrucar: “Por quê? Está querendo ser meu analista?”.

Coluna Resenhas - Renato Tardivo

Renato Tardivo é escritor e psicanalista. Mestre e doutorando em Psicologia Social (USP) e professor universitário, escreveu os livros de contos Do Avesso (Com-Arte) e Silente (7 Letras), e o ensaio Porvir que Vem Antes de Tudo – Literatura e Cinema em Lavoura Arcaica (Ateliê).