Renata de Albuquerque

Campanhas sobre leitura movimentam a internet com #diadelertododia e #tempodeler

Por: Renata de Albuquerque

A leitura está em alta no mundo virtual. No próximo dia 20 de setembro é #diadelertododia, uma campanha mundial pela leitura que tem o apoio da CBL e que foi destaque na Bienal Internacional do Livro de São Paulo, que aconteceu até o início do mês.

A campanha mobiliza pessoas do mundo todo, do Paquistão ao Canadá, passando por diversas cidades brasileiras. Para fazer parte da Campanha Mundial pela Leitura basta registrar uma imagem de alguém lendo e enviar para a coordenação. Mais informações no site http://www.diadelertododia.com/

Outra campanha que já está acontecendo é a #tempodeler. A campanha, promovida pela Ateliê Editorial, tem como objetivo incentivar as pessoas a buscarem mais tempo para ler, com dicas sobre como alcançar esse objetivo já que, segundo a pesquisa “Retratos da Leitura no Brasil”, esta é uma das principais razões para que as pessoas não leiam mais.

Arte de divulgação da campanha #tempodeler

Arte de divulgação da campanha #tempodeler

Qualquer pessoa pode participar. Basta usar a #tempodeler no Twitter e dar a sua dica de como conseguir mais tempo para a leitura, essa atividade tão deliciosa e prazerosa.

Agora, se o problema é não ter o hábito da leitura, a Ateliê também dá uma ajuda. A editora fez uma lista de livros que são perfeitos para quem quer começar a adquirir esse hábito, porque são leituras tão rápidas e agradáveis que vai ficar fácil encontrar um tempinho para elas, mesmo na sua agenda lotada. Confira:

Os Cem Menores Contos Brasileiros do Século

Organizado por Marcelino Freire, o livro parte do princípio de que, em tempos de Twitter, a linguagem tem de ser renovada, para ser ainda mais concisa e objetiva. O autor de Angu de Sangue convidou cem autores brasileiros (entre os quais Laerte, Manoel de Barros, Glauco Mattoso, Lygia Fagundes Telles, Millôr Fernandes e Marçal Aquino) paras escrever histórias de até 50 letras. O resultado são contos tão curtos quanto interessantes. Perfeito para quem tem apenas poucos minutos disponíveis, já que os contos podem ser lidos de maneira independente e não levam mais que alguns segundos para serem lidos.

 

Silêncios no Escuro

Primeiro livro adulto de Maria Viana reúne 16 contos que têm, como fios condutores, a morte e o silêncio. “Acho que o que me levou a escrever este livro foi o desejo de contar algumas histórias que de alguma maneira estavam esperando o momento certo para tomar forma de palavra escrita, já que povoavam meu imaginário e minha memória há muito tempo”, diz a autora.

 

ASA – Associação dos Solitários Anônimos

Romance ousado e divertido, cheio de sarcasmo, deixado inédito por Rosário Fusco, que morreu em 1976. O romance escrito em 1967 e teve sua primeira edição em 2003. Desde então encanta os leitores com sua  narrativa de andamento veloz, que dialoga com o surrealismo e naturalismo, explorando um recanto especial do cenário brasileiro: a marginalidade acumulada ao longo do cais.

 

Se você quiser conhecer toda a lista de livros em promoção, visite o link http://www.atelie.com.br/publicacoes/promocao/

Morte e silêncio conduzem personagens em “Silêncios no Escuro”

Por: Renata de Albuquerque

O primeiro livro que Maria Viana escreveu para adultos quase chegou à maioridade antes de seu publicado. Passaram-se 17 anos desde que a autora mineira – que escreve livros infantis e didáticos e organizou diversas antologias – escreveu o conto que dá título ao volume. A autora relata que só se deu conta de que a morte e o silêncio são os fios condutores de todos os contos do livro Silêncios no Escuro depois de tê-los reunidos. Personagens que não falam habitam histórias que os levam de um extremo a outro (morte e vida; tristeza e alegria), costuradas por uma narrativa escrita por alguém que se define como uma leitora voraz que gosta de “contar histórias”. A seguir, Maria Viana fala sobre seu mais recente lançamento:

 

Maria Viana fotografada por Laura Campanér

Maria Viana fotografada por Laura Campanér

Este é seu primeiro livro de ficção adulta. O que a levou a escrevê-lo?

Maria Viana: Acho que o que me levou a escrevê-lo foi o desejo de contar algumas histórias que de alguma maneira estavam esperando o momento certo para tomar forma de palavra escrita, já que povoavam meu imaginário e minha memória há muito tempo. Nessas narrativas quis dar vazão para os meus silêncios e os silêncios das personagens, que queriam sussurrar algo por meio da minha escrita.

Como o livro foi escrito?

MV: Sou uma colecionadora de cadernos e cadernetas. Sempre que tenho uma ideia ou uma lembrança me vem à mente, anoto. Como trabalhava, e ainda trabalho, muitas horas como editora ou escrevendo livros teóricos e didáticos, quando me sobra tempo para a ficção desenvolvo essas ideias salpicadas nas anotações. Por isso, essa coletânea foi escrita assim, nas horas que sobravam e ao longo dos anos. Mas há fios conduzindo tudo, como disse, a morte e o silêncio. A presença do pai também é recorrente em toda a obra. Na verdade, o primeiro e o último conto foram estrategicamente posicionados. No primeiro, moveu-me o desejo de retratar a dor de um pai que perdeu muitos filhos antes de ver um deles realmente sobreviver. O último fala também da morte, mas do ponto de vista da criança que presenciou a morte do pai. Deixei de fora alguns contos que tratavam de temas que acontecem no espaço urbano, acho que esse espaço rural, em um tempo indefinido, também dá certa unidade à antologia.

Alguns contos foram reescritos muitas vezes, é o caso de “Silêncios no escuro”, por exemplo. Outros surgiram de histórias que ouvi na infância. Caso da narrativa “A santa que fugiu do altar”. Na verdade, minha avó falou-me desse retrato da menina-santa que circulava pela cidade. Esse foi o mote para a criação da história, mas só esse aspecto da narrativa oral está lá. O resto é invencionice. Esse conto escrevi em uma noite e não mexi em nada, só mudei o título, que foi publicado em uma revista eletrônica como “Santa Manuelinha”.

Capa Silencios no escuro

 

Em termos do processo de criação, qual a diferença entre escrever um livro para crianças e um livro para adultos?

MV: Para mim, escrever para crianças é ainda mais difícil do que para adultos, pois é preciso escrever tendo em vista um destinatário que tem um poder de imaginação enorme, não se pode subestimar isso ao escrever uma história para crianças, no entanto, também é preciso estar atento ao vocabulário, à linguagem. Então, não vejo muita diferença. O trabalho com a linguagem e a depuração do estilo é um desafio sempre, quando se escreve tanto para a criança como para o adulto.

Quais são suas maiores influências literárias?

MV: O fato de ter sido leitora de biblioteca pública desde menina fez com que eu lesse tudo o que me caía nas mãos com muita voracidade e sem critério de escolha muito apurado. Os clássicos da literatura brasileira comecei a ler na adolescência; na juventude tive a sorte de ter uma biblioteca de clássicos de dramaturgia à minha disposição, na escola de teatro onde estudei. Isso foi uma descoberta! Foi quando li pela primeira vez Racine, Molière, Shakespeare e as tragédias gregas. Depois, veio a formação em Letras e o mergulho na literatura francesa. Ainda sou uma leitora e (re) leitora de clássicos e tento, na medida do possível, acompanhar a produção contemporânea, sobretudo dos escritores de expressão portuguesa dos países africanos, mas não saberia dizer se um ou outro escritor influenciou ou influenciará minha produção literária. Claro que ser uma leitora de literatura desde a juventude faz de minha uma boa produtora textual, mas nem eu sei se o que escrevi realmente é literatura ou não, acho que os leitores darão mais conta disso do que eu…

Quais são os temas recorrentes do livro e por que desta escolha?

MV: Depois que fechei o volume me dei conta de que há um fio que percorre toda a obra, a morte e o silêncio, mas isso não foi intencional. Uma amiga que leu alguns contos antes da publicação, chegou a observar que achava estranho uma pessoa que teve uma formação em teatro, como foi o caso da minha, escrever histórias em que as personagens não falam. Essa observação me fez pensar que esse é mesmo um livro de silêncios. Então, este talvez seja o tema central.

Na apresentação da obra, Edy Lima escreve que você faz uma “reinvenção do Realismo”. De que maneira você entende e interpreta essa afirmação?

MV: Estes contos só foram publicados porque a Edy Lima leu os originais e me estimulou a enviá-los para uma editora. Sempre que eu ia visitá-la, ela me perguntava se já tinha enviado para alguém. Não podia mentir, dizendo que já havia enviado sem fazê-lo, é claro. Então, um dia criei coragem, coloquei em um envelope e mandei pelo correio para o Plínio Martins. Portanto, seria natural que a Edy Lima, de quem fui leitora na infância, escrevesse a apresentação desse livro, que realmente não teria saído da gaveta se não fosse por insistência dela. E não veja nisso nenhuma falsa modéstia. Creio que ao escrever isso ela quis aproximar os contos da minha linha de pesquisa à época, já que ela leu também minha dissertação de mestrado, que é sobre a obra O Coruja, do Aluísio Azevedo. Não acho que estou reinventando nada. Só estou contando histórias, que é o que gosto de fazer quando escrevo, faço leituras dramáticas como atriz ou interpreto um samba, pois todo bom samba tem que contar uma história. Mas a Edy Lima tem licença poética para escrever o que quiser.

É sua estreia como escritora de contos. Era um desejo antigo ou a vida lhe levou para esse caminho, naturalmente? O que você destaca dessa nova experiência?

MV: Sou uma estudiosa de romances do século XIX, mas uma apreciadora das narrativas curtas. Sempre admirei a capacidade de alguns escritores que dão conta de uma existência em poucas linhas. Organizei vários livros de contos para diferentes editoras e cheguei a traduzir um livro de contos do Guy de Maupassant. Essas experiências fizeram-me perceber que escrever contos é muito desafiador, por que é preciso cortar os excessos, não há espaço para descrições e digressões, próprias do romance. Creio que quis cometer essa ousadia também, se consegui, não sei.

 

O livro será lançado em 29 de agosto de 2016

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Falta de tempo é a principal razão pela qual brasileiros não leem mais

Por Renata de Albuquerque

livros na estante

 

 

Brasileiros alegam falta de tempo para ler, segundo a quarta edição da pesquisa “Retratos da Leitura no Brasil”, divulgada recentemente – 43% das pessoas entrevistadas não lê mais por falta de tempo. Não há dados anteriores para comparação do número, já que a pergunta “Por que não leu mais?” foi incluída na pesquisa pela primeira vez nesta edição.

Mas, mesmo assim, o dado é interessante, porque aponta que, para além de fatores como altos preços (apenas 7% declararam achar livros caros e apenas 5% disseram não ter dinheiro para comprar livros), o maior impedimento para a atividade da leitura está em um bem que não pode ser comprado, mas sim organizado: o tempo.

Entre os estudantes, o índice cai mais de dez pontos. 32% declararam não ler mais por falta de tempo, apontando para o fato de que priorizar a leitura é um elemento fundamental para que ela se realize. Estudantes encontram mais tempo para ler porque essa atividade já é habitual no seu cotidiano, não necessariamente porque são “obrigados” a ler.

Quanto ao interesse na atividade, a pesquisa – realizada pelo Instituto Pró-Livro e com apoio da ABRELIVROS, CBL, Snel e IBOPE Inteligência – aponta que apenas 5% das pessoas que leram algum livro nos últimos três meses “não gostam de ler”. Esse número sobe para 28% no grupo de pessoas que não leu nenhum livro nos três meses anteriores à pesquisa. Esses números indicam que quem lê livros o faz porque gosta. Sob esse aspecto, então, despertar o interesse pela leitura ainda na infância é fundamental.

 

Influência dos pais no hábito de leitura dos filhos

O percentual total de entrevistados que disse “gostar muito de ler” é de 30%. O número sobe para 45% quando se leva em conta apenas o público leitor (que leu ao menos um livro, total ou parcialmente, no trimestre em que a pesquisa foi realizada). Segundo o levantamento, a mãe tem um papel central na formação do leitor. “A figura da mãe é bastante importante na influência da leitura, especialmente quando se comparada à influência do pai ou de algum parente”, informa a pesquisa.

Como quem lê o faz porque gosta (e não por obrigação), fica claro que incentivar a leitura como um hábito, desde a infância, faz a diferença. “Os resultados da pesquisa reforçam a análise de que o hábito de leitura é uma construção que vem da infância, bastante influenciada por terceiros, especialmente por mães e pais, uma vez que os leitores, ao mesmo tempo em que tiveram mais experiências com a leitura na infância pela mediação de outras pessoas, também promovem essa experiência às crianças com as quais se relacionam em maior medida que os não leitores”, avaliam os pesquisadores.

 

Analfabetismo literário

Entretanto, o grande entrave para a leitura, infelizmente, ainda é o analfabetismo. 20% dos não leitores (que não leram nenhum livro nos três meses anteriores à pesquisa) declararam não saber ler. “De acordo com o INAF, apesar do percentual da população alfabetizada funcionalmente ter passado de 61% em 2001 para 73% em 2011, apenas um em cada 4 brasileiros domina plenamente as habilidades de leitura, escrita e matemática. Ou seja, o aumento da escolaridade média da população brasileira teve um caráter mais quantitativo (mais pessoas alfabetizadas) que qualitativo (do ponto de vista do incremento na compreensão leitora) ”, apontam os pesquisadores.

 

Motivações para a leitura

A boa notícia que “Retratos da Leitura no Brasil” traz é que aumentou a importância dos livros lidos por iniciativa própria em relação aos indicados pela escola, mesmo entre os estudantes. Gosto e atualização cultural, além de conhecimento geral são os principais fatores que motivam os brasileiros a ler. Ou seja: a “leitura por obrigação” ocupa um espaço hoje menor do que antes.

 

E você, gosta de ler? Como encontra tempo para ler mais livros? Deixe um comentário, compartilhe sua experiência com a gente!

Para entender Proust

Por: Renata de Albuquerque

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Psicanálise e Literatura têm, desde longa data, uma relação muito próxima ao ponto que o psicanalista suíço François Ansermet disse que a literatura inventou a psicanálise. Édipo de Sófocles e Hamlet de Shakespeare fundamentaram a teoria psicanalítica desde o início. A crítica literária feita com o auxílio dos conceitos vindos da psicanálise resulta, não raro, em descobertas que ajudam o leitor a entender camadas mais profundas da ficção e a compreender significados, muitas vezes “escondidos”.

Em “Os Processos de Criação em À Sombra das Raparigas em Flor – A Pulsão Invocante e a Psicologia no Espaço em Proust”, o professor aposentado da USP de formação psicanalítica, Philippe Willemart, toma como base conceitos de Jacques Lacan e Pascal Quignard, “que insistem no lugar central da pulsão invocante nestas tentativas de captar o Real no ato da escritura e da leitura” para tratar do personagem Bergotte e pensar sobre um aspecto bastante específico da obra do autor francês na primeira parte de À Sombra das Raparigas em Flor, “Em torno da sra. Swann”.

 “A riqueza da invenção proustiana consiste em contar com a dimensão temporal a sua maneira, isto é, esquecendo o fluxo cronológico do tempo. Parecido nisso com o que realiza o analisante no divã, o narrador mostra uma lógica dos acontecimentos que não depende das reminiscências no sentido platônico do termo, mas de uma memória simbólica ou lógica que, a partir de uma primeira lembrança, tenta se constituir”, explica Willemart na Introdução do estudo.  O ensaio tem como origem as aulas ministradas aos estudantes do último ano da graduação em francês na Universidade de São Paulo.

Philippe Willemart, que já publicou diversas obras, é membro fundador do Laboratório do Manuscrito Literário ligado ao Núcleo de Apoio à Pesquisa em Crítica Genética (NAPCG) da Universidade de São Paulo e foi um  dos fundadores da Associação dos Pesquisadores em Crítica Genética. Sua pesquisa tem como foco o manuscrito literário através dos manuscritos de Flaubert, de Proust e Bauchau. Ainda orienta doutorandos e pós-doutorandos, além de coordenar a equipe Proust de São Paulo e de fazer parte da equipe Proust do Institut des Textes et Manuscrits Modernes do CNRS (França). A seguir, ele fala sobre seu mais recente livro:

 

Quando começou a estudar Proust? O que o fez se interessar por ele?

Philippe Willemart: A obra de Proust consta do currículo de Letras Francesas da USP onde comecei a lecionar em 1976. Publiquei o primeiro livro Proust, poeta e psicanalista em Paris em 1996 e, no Brasil, pela Ateliê Editorial em 2000. Mas já tinha um interesse especial por Proust quando, em 1993, publiquei o artigo Les sources de l’art et de la jouissance chez Proust na revista de Universidade de Paris VIII Littérature. Como testemunham o título deste artigo e meu primeiro livro sobre a obra proustiana, Proust me parecia bem próximo das descobertas freudianas, o que suscitou meu interesse.

Philippe Willemart

Philippe Willemart

Por que a escolha por À Sombra das Raparigas em Flor e qual o motivo de um recorte tão específico,  já que o senhor analisa somente a primeira parte do primeiro capítulo da obra?

PW: A primeira parte do livro é a transcrição das aulas dada na Universidade. Tinha publicado análises do primeiro e do último volume, No caminho de Swann e o Tempo Redescoberto em Proust, Poeta e psicanalista; em seguida, do terceiro volume, O caminho de Guermantes em Educação sentimental em Proust em 2002 e enfim, do quarto volume, a Prisioneira em Tratado das sensações em “A Prisioneira” de Marcel Proust em 2008. Faltavam o segundo, o quinto e o sexto volume. O segundo foi contemplado, mas o quinto e o sexto ainda são uma promessa.   O recorte decorre do número de aulas limitado a 12 ou 13 num semestre.

 

Quais os processos de criação que Proust utilizou em À Sombra das Raparigas em Flor? O que diferencia esse volume do restante de Em Busca do Tempo Perdido em termos de composição?

PW: Há vários processos de criação que o leitor descobrirá nas análises. Citá-los tiraria a surpresa da leitura.  Mas ficou claro que insisti na pulsão invocante explorada através do personagem Bergotte, diferenciando seu pensamento, sua voz e seu estilo que reflete a estética proustiana. Ressalto a segunda parte do livro que trata especificamente da crítica genética na qual tento entender melhor os movimentos da escritura através das rodas da escritura e da leitura. A teorização da escritura literária que estou construindo aos poucos permite mergulhar o manuscrito neste virtual imaginário e torna-lo mais inteligível com a nova abordagem.

 

Qual a contribuição dos cadernos manuscritos de Proust para a composição do volume que agora o sr. lança pela Ateliê?

PW: O estudo dos cadernos proustianos são fundamentais por vários motivos. Um deles é entender como não há um romance proustiano, mas vários não publicados porque abandonados, cada rasura corta uma evolução possível e encontra outro caminho para desenvolver a narrativa. Os rascunhos permitem distinguir o essencial da narrativa. É o caso, por exemplo, da substituição de Gabriel d´Annunzio por Anatole France, que sublinha a vontade do autor de destacar não a personagem histórica, mas a fama de qualquer homem ilustro que dá impressão do sublime ao herói. A adjetivação era importante e não o substantivo personagem. Os cadernos  confirmam ou desmentem uma interpretação do crítico, mostram as hesitações do escritor que conseguem ou não se desligar dos hábitos e da tradição literária para a construção de uma personagem, lhe atribuindo qualidades que passaram em seguida, para outra. Também ajudam a entender o agenciamento dos episódios que de instáveis, aos poucos ficam estáveis e invariantes na narrativa e a constatar o afastamento progressivo da biografia do escritor no decorrer da construção do romance.

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O escritor Marcel Proust

 

É comum o uso dos manuscritos como “material de apoio” à análise da obra proustiana?

PW: O uso dos manuscritos  ainda não está generalizado, mas à medida em que os cadernos serão editados pela Editora Brepols de Turnhout (Bélgica), isto é, fotografados e transcritos, será até normal utilizá-los. Dos 75 cadernos, a Editora publicou até hoje os cadernos 26, 54, 71, 53 e 44. Mas todos são acessíveis em imagens embora não transcritos no site da Biblioteca Nacional de França no site : gallica.bnf.fr

 

Há um importante viés psicanalítico (com ênfase, salvo engano, em Lacan) na análise da obra de Proust apresentada neste livro. Quais são os aspectos psicanalíticos mais relevantes para o entendimento de À Sombra das Raparigas em Flor?

PW: Construí a roda da escritura apoiado nas pulsões descritas por Lacan, notadamente as  pulsões oral e escópica que se referem à pulsão do ouvir ou invocante. O estudo do escritor Bergotte e do pintor Elsir comprovam a relação da pulsão com a arte de escrever ou de pintar.

 

Para este ensaio, o senhor utilizou apenas o original em francês ou também alguma tradução em português? Esta pergunta se justifica pois existe mais de uma tradução em português para À Sombra das Raparigas em Flor, uma delas, inclusive, feita por Mario Quintana. Sabendo-se do viés psicanalítico que sua análise da obra possui, qual a importância de tomar uma ou outra tradução específica para poder compreender os conceitos? Ou, ainda: é fundamental tomar o texto original, em francês? Quais as implicações da escolha por uma ou outra tradução?

PW: As aulas eram dadas em francês para alunos de francês; portanto, líamos apenas a edição original. Para a edição na Ateliê, usei a nova edição da Globo dirigida por um proustiano experiente, Guilherme Ignácio da Silva, ex-orientando, agora professor na UNIFESP, que, aliás assinou a apresentação do livro.

Por outro lado, acho fundamental trabalhar com o original sempre que puder, já que as traduções, por melhores que sejam, traduzem o embate entre dois universos culturais. A sonoridade da língua proustiana encanta quem sabe ouvir, o que a tradução dificilmente torna visível.

 

Como facilitar o ensino de clássicos na escola?

Por: Renata de Albuquerque

#classiconaescola

Um clássico é um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer e que traz consigo marcas de leituras que precedem as nossas. Por isso, explica Ítalo Calvino, merecem ser relidos. Mas, para professores do Ensino Fundamental e Médio, aproximar os clássicos da realidade dos alunos adolescentes é um imenso desafio. Seja pela barreira do vocabulário – já que muitas vezes os clássicos foram escritos com palavras que já caíram em desuso -, seja pelo simples desinteresse ou  pela “obrigação” da leitura, há uma questão recorrente para quem pensa a educação na escola: como aproximar o aluno dos clássicos?

Uma professora do Chile, por exemplo, estimulou a leitura de Cem Anos de Solidão (Gabriel García Márquez) propondo aos alunos que criassem memes sobre o livro. O resultado foi uma atividade não apenas divertida, mas envolvente e didaticamente relevante (leia a matéria sobre os memes aqui)

Para criar um espaço de discussão e ajudar os professores a trocarem ideias e a descobrirem como cumprir com louvor essa árdua tarefa, a Ateliê Editorial está lançando a campanha #classiconaescola

Para participar, mande uma mensagem inbox para o nosso Facebook, contando o que você faz para gerar interesse em seus alunos a respeito dos livros clássicos. Que iniciativas deram certo? Como você mobilizou-os nesse aprendizado?

A Ateliê Editorial convida a todos os professores para uma troca de ideias construtiva, para poder levar ao alcance de todos essas joias da Literatura!

 

Euclides da Cunha: 150 anos de um dos primeiros grandes intérpretes da cultura brasileira

Por:  Renata de Albuquerque

Em 2016, comemoramos os 150 anos de nascimento de Euclides da Cunha. O escritor fluminense– que foi engenheiro, militar, naturalista, jornalista, geólogo, geógrafo, botânico, cartógrafo, hidrógrafo, historiador, sociólogo, e escritor – escreveu o clássico Os Sertões,  no qual retrata a Guerra de Canudos. Para falar sobre esta importante figura, o Blog da Ateliê entrevista Leopoldo M. Bernucci, professor do Departamento de Espanhol e Português da Universidade da Califórnia em Davis (EUA), para quem a leitura do autor de Os Sertões tem uma atualidade surpreendente. Bernucci é responsável por edição, prefácio, cronologia, notas e índices do livro Os Sertões – Campanha de Canudos e também pela apresentação de Euclides da Cunha: Uma Odisseia nos Trópicos, ambos da Ateliê Editorial.

Leopoldo-BernucciQual é a sua ligação com Euclides da Cunha? Como surgiu o seu interesse nesse escritor e de que maneira aprofundou seus estudos e conhecimentos a respeito?

Leopoldo M. Bernucci: As minhas primeiras incursões, como estudioso, no universo literário de Euclides foram realizadas por volta de 1981, ano em que o romance do escritor peruano Mario Vargas Llosa, A Guerra do Fim do Mundo – que trata da Guerra de Canudos – foi publicado. Naqueles anos eu estava terminando o meu mestrado em Literatura Hispano-Americana na Universidade de Michigan, Ann Arbor, MI, U.S.A., depois de me formar na USP também em Letras. Foi um encontro fortuito e curioso, porque se não fosse talvez pelo interesse que eu já tinha pela literatura de Vargas Llosa, não teria chegado a Euclides da forma como cheguei. A partir desse momento, já não pude deixar de estudar a obra euclidiana, tanto pelo lado fascinante do seu universo artístico, científico, retórico e histórico como também pela necessidade de aprofundar certos aspectos de sua obra que haviam sido examinados, porém, de modo muito superficial; e outros que nem haviam sido tocados ainda.

A maneira pela qual eu fui me adentrando nos textos de Euclides foi em primeiro lugar pela via comparada; e depois, estudando os manuscritos do autor, dispersos em diversas bibliotecas, públicas e privadas, e em arquivos. Essa investigação arqueológica dos textos de Euclides foi para mim reveladora, porque descobri de repente coisas que nunca imaginara que ele pudesse ter escrito e que ficaram sem publicar durante todos esses anos; e também porque muitas vezes o estudo dos manuscritos ilumina a compreensão de textos seus já publicados, mas ilegíveis em certas passagens, dado que a porcentagem de erros tipográficos é muito alta, e sem dúvida cria um obstáculo à leitura. Assim, a comparação entre texto publicado e manuscrito lança luz sobre esses aspectos obscuros e equivocados, e oferece uma boa oportunidade para esclarecê-los ou corrigi-los em edições modernas mais cuidadosas. O que eu estou descrevendo se refere principalmente aos livros mais tardios do autor e que passaram por mãos de revisores incautos: Contraste e Confrontos (1907), Peru versus Bolívia (1907) e À Margem da História  (póstumo, 1909).

 

Neste ano em que se comemoram os 150 anos de Euclides da Cunha, é possível fazer um balanço de qual foi sua contribuição para o jornalismo e a literatura no Brasil?

LMB: Sem dúvida. A contribuição de Euclides da Cunha é enorme, tanto para o jornalismo como para a literatura e, acrescento ainda, as ciências, a cultura e a nossa história. Não devemos nos esquecer de que Euclides foi também um militante ativo em prol da República, e que portanto defendia os ideais democráticos constantemente em seus artigos na imprensa. Sintetizando, poderíamos dizer que ele é um dos primeiros grandes intérpretes da cultura brasileira. Euclides nos mostrou esse talento, principalmente, através de Os Sertões, mas também em outros textos sobre a Amazônia, por exemplo, publicados em Contrastes e Confrontos e À Margem da História. A sua obra magna, Os Sertões, quando publicada em 1902, elevou a sua estatura de excelente e combatente escritor mais ainda. Descobriu-se que seu dom literário e historiográfico era agudíssimo e essa obra não só começou a ser lida como livro de história mas também como obra literária, já que o seu belo e complexo discurso se equipara ao dos melhores romances da literatura mundial. A alta qualidade retórica da linguagem de Os Sertões por si só faz dele um dos grandes livros da literatura brasileira de todos os tempos. Esta, quando aliada ao desenho épico do livro e a sofisticados recursos estilísticos e retóricos, já bastaria para defini-lo como objeto dos estudos literários, sem que – e isto é muito importante frisar – o  consideremos ficcional. A feliz adequação de um achado estético (sua linguagem) ao assunto histórico é o que transforma esta obra em objeto de arte, salvando-a de permanecer somente no mundo da historiografia ou do ensaio sociológico, como também Os Sertões pode ser lido, evidentemente. Para concluir a minha resposta a essa pergunta, devo repetir algo que já disse alhures: que a dívida de Euclides para com o jornalismo é enorme. Na imprensa, como jornalista, ele encontrou um modo de apresentar suas ideias antes de lançá-las em capítulos de livros escritos mais tarde por ele. Fora dela, na sua condição de leitor, Euclides canibalizou artigos e editoriais que foram absolutamente importantes para a confecção da sua narrativa sobre Canudos (ver sobre este assunto o meu livro A Imitação dos Sentidos: Prógonos e Epígonos de Euclides da Cunha).

A atualidade de Euclides da Cunha é enorme e até surpreendente. Leio trechos de seus escritos que serviriam muito bem para entender os dias que estamos vivendo no Brasil

Qual o legado dessa importante figura ainda hoje?

LMB: A atualidade de Euclides da Cunha é enorme e até surpreendente. Leio trechos de seus escritos que serviriam muito bem para entender os dias que estamos vivendo no Brasil. Nesses textos encontram-se observações sobre o desrespeito à democracia durante a primeira República, a perniciosa herança do colonialismo, o populismo, a perda da Razão como resultado do fanatismo político e religioso, o favoritismo político, a corrupção do governo e o esvaecimento da confiança nas instituições públicas. A sua crítica à nossa cultura e ao nosso modo de ser, plasmada naquilo que Sérgio Buarque de Holanda chamaria depois o “homem cordial”, não poderia ser mais clara em alguns de seus escritos. Em suma, Euclides quando escrevia não podia deixar de fazer sempre um balanço da destruição paulatina, embora vigorosa do nosso idealismo, tão aviltado pelos interesses individuais e mesquinhos e pelos vícios de políticas interesseiras em detrimento da coisa pública. É claro que, diante deste quadro Euclides já preludiava o que estamos vendo hoje em dia: a dificuldade e até mesmo a impossibilidade de conceber uma nação genuinamente republicana e democrática, dedicada ao bem-estar público e não ao privado. Compartilhamos do seu ceticismo daquela época porque é o mesmo ceticismo que vivemos hoje com respeito ao nosso país. Assim, damo-nos conta de que, infelizmente, pouca coisa mudou desde então.

 

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A edição da Ateliê de Os Sertões – A Campanha de Canudos tem notas, prefácio e cronologia de sua autoria. Pode, por gentileza, contar-nos como foi realizar esse trabalho, quais foram os maiores desafios desse grande projeto? Quanto tempo o senhor esteve envolvido nesse trabalho?

LMB: A ideia dessa edição partiu de dois grandes amigos meus, Plínio Martins Filho, editor da Ateliê e do nosso saudoso Ivan Teixeira, professor também da ECA. Na verdade, eles foram os que, de modo conceitual, me sugeriram essa edição com esse formato. Eu gostei da sugestão e comecei a trabalhar imediatamente nesse projeto. Acredito que foi por volta de 1995, quando eu morava no Colorado, que dei início a essa edição. Foram meses dedicados a esse projeto, entre outros afazeres do meio acadêmico, evidentemente. A nossa preocupação era oferecer uma edição que mantivesse o maior respeito pelo texto de Euclides e que facilitasse a leitura de Os Sertões. Euclides é um escritor difícil, sem dúvida, mas quando conseguimos romper essa camada de dificuldades de seu texto, o prazer de lê-lo, então, torna-se insuperável. Os maiores desafios, para mim foram, em primeiro lugar, fazer toda a pesquisa das fontes do livro. Em seguida, e isto não era menos desafiante, tive que estabelecer o texto, isto é, “corrigi-lo”, comparando-o com as primeiras edições publicadas e com os fragmentos de manuscritos. Esta última tarefa era necessária para que obtivéssemos uma melhor leitura, inclusive no que diz respeito à virgulação e à pontuação dessa obra. Finalmente, e isto foi mais prazer do que trabalho, era necessário mostrar em forma de Prefácio ao leitor o tipo de livro – aliás único na história da literatura do Brasil – que ele é, no qual se convergem diferentes discursos emprestados de várias disciplinas, escolas literárias ou determinados livros: história, arquitetura, botânica, geologia, a Bíblia, barroco, romantismo, épica e estratégia militar.

 

capa odisseia nos tropicosO senhor também é responsável pela apresentação do volume Euclides da Cunha – Uma Odisseia nos Trópicos. Em sua opinião, qual o diferencial e a importância dessa obra? É um título de interesse apenas para quem estuda o tema ou é uma obra de interesse geral, que pode ser entendida pelo grande público? Por que ela deve ser lida?

LMB: O trabalho biográfico executado por outro grande amigo, já falecido, o Prof. Frederic Amory, daqui da Califórnia, é um complemento a certas biografias em forma de livro mais antigas ou esboços biográficos de Euclides. Em primeiro lugar, refiro-me às biografias de Francisco Venâncio Filho, Eloy Pontes, Leandro Tocantins, Olímpio de Souza Andrade, Sylvio Rabello; em segundo, aos escritos de Oswaldo Galotti, Walnice Nogueira Galvão, José Carlos Barreto de Santana, Roberto Ventura e outros. O que diferencia a biografia de Amory dos textos biográficos escritos anteriormente a essa obra é a estrutura, o escopo e o ângulo da análise de Euclides da Cunha – Uma Odisseia nos Trópicos. Estruturalmente, o autor distribui os vários capítulos do livros, sempre em ordem cronológica, dando-lhes títulos sugestivos que emblematizam o ponto principal de cada momento histórico. “A Ponte e o Livro”, por exemplo, narra esse Euclides nos melhores momentos de sua atividade de engenheiro e homem de letras, às vésperas da publicação de Os Sertões. No que diz respeito ao escopo, o livro serve tanto para um iniciante quanto para um leitor mais familiarizado com Euclides. Quanto às análises ali oferecidas, deve-se mencionar a capacidade de erudição e de síntese do biógrafo, quando, por exemplo, ele se debruça sobre dois ensaios de Euclides: “O Primado do Pacífico” e “Estrelas Indecifráveis”. No primeiro, Amory resgata para nós o melhor de Euclides, a sua enorme curiosidade pela História das grandes civilizações e o seu método de arguir sempre criativo quando aplicado a um assunto contemporâneo a ele; no segundo, o crítico norte-americano demonstra o seu profundo conhecimento histórico da Idade Clássica greco-romana e das religiões, fazendo-nos ver ainda, mais uma vez, que é impossível desvincular ciência e arte no pensamento crítico de Euclides. Por não ser brasileiro, Amory lança um olhar distanciado sobre a vida do escritor fluminense, adotando uma perspectiva de alguém de fora da nossa cultura, o que criticamente resulta ser muito salutar neste caso. Os exemplos poderiam se multiplicar, mas este dois dão ao leitor uma ideia de como pela primeira vez os principais ensaios euclidianos foram abordados nas suas minúcias, utilizando-se de um instrumental de alta qualidade e de verdadeiro scholar.

 

Em sua opinião, o trabalho de Euclides da Cunha recebe, no Brasil, o valor devido? Por quê?

LMB: Acredito que sim, mesmo porque, salvo engano, ele é o autor que sustenta a mais extensa bibliografia crítica até hoje, mais extensa que a de Machado de Assis, para ficar com uma comparação. Mas, cuidado. Estamos vivendo um momento problemático e de crise da leitura. Euclides é uma “dor de cabeça muito gostosa”. Ele demanda paciência e releituras. Ele também nos fascina com a sua escrita ao mesmo tempo que nos provoca e nos desafia a pensar criticamente. Euclides nos convida ainda a raciocinarmos de forma lógica sem prejuízo da paixão que tenhamos pela arte e pela imaginação. Este é, a meu ver, o grande legado que ele nos deixou.

 

Como é a recepção da obra de Euclides da Cunha no exterior?

LMB: Eu não poderia falar senão de modo mais geral sobre este assunto,  já que não temos dados estatísticos ou comprovantes de leitura para o continente Europeu e Ásia, por exemplo. Portanto a minha opinião é bastante informal e se limita aos Estados Unidos, país onde moro e trabalho há 38 anos, e onde esses medidores existem. Infelizmente, Euclides da Cunha como tantos outros grandes escritores brasileiros não é um bestseller e assim é pouco lido nos Estados Unidos, sendo que aqueles que o leem são alunos e professores de nível universitário na sua grande maioria. Dentro deste círculo restrito de leitores, a obra de Euclides é bastante discutida e estudada e as produções acadêmicas (livros e artigos) vem comprovar este fato. O problema da recepção de Euclides no exterior não tem nada a ver com ele como tampouco estaria relacionado a quaisquer outros grandes autores. Tem a ver com uma política cultural que nunca se fez de forma eficiente no Brasil. Ao longo dos anos, as agências do governo brasileiro não têm investido inteligentemente neste aspecto e acredito que nem mesmo a Academia Brasileira de Letras tem feito algo duradouro para que as letras brasileiras sejam conhecidas e continuem sendo apreciadas lá fora.O problema não é só divulgar os autores numa feira como a de Frankfurt, por exemplo, ou algo parecido, mas de criar e manter um sistema de divulgação constante. Nessa política, se é que ainda existe hoje em dia, falta a continuidade, fato tão necessário para não desacelerar o momentum da divulgação e publicidade. A feira de livros termina e com ela se esfuma da memória os nomes dos nossos melhores escritores. Eis um assunto intrigante. O Brasil com uma respeitável literatura nacional que pode competir facilmente com a de outros países latino-americanos, lamentavelmente não possui um só caso de Prêmio Nobel. Em contrapartida a Guatemala possui um, Miguel Ángel Asturias; o Chile dois: Gabriela Mistral, amiga e contemporânea da grande Cecília Meireles, e Pablo Neruda; o México um, Octavio Paz; e o Peru também um, Mario Vargas Llosa. Com grande probabilidade, Carlos Drummond de Andrade ou Clarice Lispector poderiam ter recebido este prêmio se a visibilidade deles tivesse sido trabalhada de modo eficaz nos setores diplomáticos e culturais fora do Brasil.

 

Livros de papel e consciência ecológica combinam?

Dia 5 de junho se comemora o Dia do Meio Ambiente. A data foi recomendada pela Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente, realizada em 1972, em Estocolmo, na Suécia. No Brasil, a Semana Nacional do Meio Ambiente acontece todos os anos, desde 1981, com o objetivo de apoiar a participação da comunidade nacional na preservação do patrimônio natural do País.

Aqui na Ateliê Editorial, a gente leva muito a sério a preservação dos recursos naturais. Mas, você pode estar se perguntando: Como é que uma empresa preza o meio ambiente se usa árvore como matéria-prima para seu negócio?

Bom, esta é uma pergunta bem pertinente. O fato é que, se levarmos em conta que para ler um e-book também se gasta energia elétrica e que a produção de microcomputadores também consome recursos naturais, chegaremos à conclusão de que não dá para produzir livros sem consumir recursos.

Na Ateliê, damos preferência ao livro físico porque acreditamos que, para além de trazer conteúdo, o livro é um objeto importante em si. Tocar, cheirar e folhear tornam a experiência da leitura em papel diferente da experiência da leitura em meios virtuais. O suporte do livro físico muda tudo. Mas nós também temos e-books, que estão à venda em sites como Livraria Cultura, Amazon, Saraiva e outros.

E justamente porque nosso negócio depende de recursos naturais, na editora, temos uma preocupação muito grande com o não-desperdício desses recursos. Aqui, procuramos reciclar tudo o que for possível e só jogar no lixo resto de comida e lixo de banheiro e cozinha.

Temos recipientes próprios para descarte de plástico (copo de água, embalagem de iogurte, bala, bolacha, etc.) e para descarte de papel. Conversamos com os novos funcionários sobre a importância da reciclagem e a política da empresa. Dizemos sempre que um pequeno gesto, como pôr para reciclar uma embalagem de bolacha, evitará que essa embalagem vá para o aterro sanitário, e que sirva de criadouro de mosquitos.

Também queremos que as pessoas se sintam responsáveis pelo uso dos recursos da natureza, por isso coletamos água da chuva em tonéis próprios para uso na lavagem de piso.

Exatamente porque os livros que produzimos precisam de papel para existir, valorizamos muito essa matéria-prima. Sabemos que cada folha de papel branco veio de uma árvore, e que a industrialização do papel envolve muita química e poluição atmosférica.

Temos consciência de que precisamos diminuir esse processo todo. Aqui na Ateliê, toda prova de livro é aproveitada no verso em branco para imprimirmos cópias de nota e documentos para nosso controle. Cada pedaço em branco é utilizado nem que seja em pequenos blocos para anotação.

Nossos funcionários sabem que o papel é um material nobre, tem que ser usado com parcimônia, sem desperdícios. É o chamado “ouro branco”. Foram gastos muitos recursos (árvore, água, eletricidade) para se chegar até ele. Por isso, não podemos descartá-lo para sumir no aterro sanitário, misturado com o lixo comum.

É com orgulho que dizemos que juntamos muito mais material para reciclagem do que lixo comum. Todo o material é levado até um ponto de reciclagem do supermercado Pão de Açúcar, que disponibiliza um espaço em suas dependências para que uma empresa de reciclagem possa recolher esse material. Além de ajudar com a reciclagem de lixo, possibilita a abertura de novos empregos para pessoas que estão afastadas do mercado de trabalho. Quanto mais essa empresa recebe material para reciclagem, mais postos de recebimento ela abre e mais empregos ela oferece.

Nossos computadores, impressoras e no breaks antigos ou quebrados são descartados no prédio da Poli-USP, que utiliza esses equipamentos no seu Laboratório de Sustentabilidade, o Lassu (http://lassu.usp.br/). Lá, os catadores de diversas cooperativas aprendem a desmontar os equipamentos de forma correta, sem poluir o ambiente com os metais pesados presentes nesses equipamentos, como chumbo, mercúrio, cádmio.

E o melhor é que sabemos que essas ações de responsabilidade se espalham, marcam muito. Tanto que a maioria dos nossos funcionários também reciclam seu lixo em suas casas.  E é por isso que, para marcar o Dia do Meio Ambiente, queremos compartilhar com você algumas informações sobre reciclagem, fornecidas pelo próprio Ministério do Meio Ambiente:

Raduan Nassar vence o Prêmio Camões 2016

Por Renata de Albuquerque

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Raduan Nassar é o vencedor do Prêmio Camões 2016, um dos mais importantes prêmios literários do mundo. A premiação foi criada pelos governos de Brasil e Portugal na década de 1980 e é atribuído aos autores que tenham contribuído para o enriquecimento do patrimônio literário e cultural da língua portuguesa.

Raduan Nassar tem apenas três obras editadas em livro. Além da novela Um Copo de Cólera, publicou o romance Lavoura Arcaica e o conto Menina a Caminho. Apesar de pequena, sua obra é uma das mais interessantes e singulares da literatura nacional do século XX. Tanto assim que é objeto de diversos estudos  críticos, entre eles Porvir que Vem Antes de Tudo: Literatura e Cinema em Lavoura Arcaica, de Renato Tardivo. Ao atribuir o prêmio ao autor, o júri destacou “a extraordinária qualidade da sua linguagem e da força poética da sua prosa”.

Tanto Um Copo de Cólera quanto Lavoura Arcaica foram adaptados para o cinema. A adaptação do romance para o cinema deu origem ao livro Sobre o Filme Lavour’Arcaica

 

Coleção Artes&Ofícios tematiza preservação e restauração

Restauração de peça em museu

Restauração de peça em museu

Por: Renata de Albuquerque

Na semana em que se comemora o Dia Internacional dos Museus, o Blog da Ateliê  entrevista a arquiteta Beatriz Mugayar Kühl. Formada pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, com especialização e mestrado em preservação de bens culturais pela Katholieke Universiteit Leuven, na Bélgica, doutorado pela FAUUSP e pós-doutorado pela Università degli Studi di Roma “La Sapienza”, ela já publicou, entre outros, os livros Arquitetura do ferro e arquitetura ferroviária em São Paulo (São Paulo, Ateliê/FAPESP/SEC, 1998), Preservação do patrimônio arquitetônico da industrialização (Ateliê/FAPESP, 2009). É responsável pela tradução e publicação de vários títulos da Coleção Artes&Ofícios da Ateliê.

Para suprir uma lacuna e atender um público que cresce e torna-se exigente a cada dia, a Coleção Artes&Ofícios traz importantes traduções de textos quase esquecidos a respeito do restauro de monumentos, de obras de arte e do próprio ofício, além de tratar da qualidade do trabalho de artistas de várias áreas.

“A coleção possui vários textos que oferecem fundamentação teórica para a atividade prática do conservador-restaurador, cujo papel nos museus é de essencial importância”, afirma a arquiteta, que é professora do Departamento de História da Arquitetura e Estética do Projeto e atualmente é chefe de Departamento (AUH-FAUUSP).

 

Como nasceu a Coleção Artes &Ofícios da Ateliê?

Beatriz Mugayar Kühl: A coleção nasceu a partir de uma conversa informal com o Plínio Martins Filho,  em que comentei os problemas de se trabalhar com temas de restauração com os estudantes da graduação e da pós-graduação na FAUUSP (onde sou professora desde 1998),  pela dificuldade de acesso a alguns dos textos fundamentais sobre o tema, seja por serem em língua estrangeira, ou por terem edições raras ou esgotadas. O problema era como discutir os fundamentos teóricos de uma disciplina sem que se tenha acesso aos textos que alicerçam o campo? Mencionei que havia feito uma tradução do Verbete Restauro do Viollet-le-Duc – para um curso da FUPAM em 1997 – em que havia sido assistente do saudoso Janjão (Antônio Luiz Dias de Andrade, professor da FAUUSP e arquiteto di IPHAN, falecido em 1997) –    e perguntei se o Plínio acharia interessante publicá-la. Não só ele aprovou a idéia, como deu a sugestão de ampliar a coleção para temas ligados não apenas à preservação de bens culturais, mas também às artes e aos ofícios em geral. Desse modo, sempre que tomo conhecimento ou produzo algum texto que considero que possa ser interessante para a coleção, apresento à Ateliê, que tem mostrado sempre interesse em publicá-los. A finalidade da Coleção é justamente oferecer um acesso direto a textos basilares para campos disciplinares (como o restauro, história da arte etc.), pouco conhecidos ou de difícil acesso.

 

"Teoria da Restauração", de Cesare Brandi, um dos títulos da Coleção Ateliê Artes&Ofícios

“Teoria da Restauração”, de Cesare Brandi, um dos títulos da Coleção Ateliê Artes&Ofícios

Como são escolhidos os títulos da Coleção? Quais são os critérios utilizados? Quais os temas mais recorrentes?

BMK: A coleção tem alternado volumes sobre preservação, de maneira mais ampla, e especificamente sobre restauração, com volumes que tratam das artes em geral. O interesse é voltado a textos com uma certa antiguidade que foram e ainda são de enorme importância em seus campos e que continuam a suscitar questões de extremo interesse. As publicações são fruto de pesquisas de professores universitários, em que determinados escritos emergem como importantes. Pelo fato de os pesquisadores utilizarem esses textos nas suas reflexões e considerá-los importantes também do ponto de vista didático e para difusão para um público mais amplo, acabam por considerar a publicação desses escritos como um produto importante de sua própria pesquisa.

Em sua opinião, qual a importância da coleção dentro do contexto acadêmico da arte no Brasil?

BMK: O interesse principal é divulgar textos importantes cujo acesso é difícil, seja pela barreira da língua, ou por ser textos raros, ou ainda por ser textos relevantes, mas ainda pouco difundidos em nosso meio, e que suscitam uma série de questões de interesse nos dias de hoje.

De que maneira estudantes, artistas e acadêmicos se beneficiam do conteúdo dos livros desta coleção?

BMK: Justamente pelo acesso direto a escritos relevantes para diversos campos disciplinares. A coleção alterna textos conhecidos, mas sem edição em português, com outros textos pouco conhecidos em nosso meio, mas que trazem questões relevantes para os dias de hoje.

"Catecismo da Preservação de Monumentos", de Max Dvorák

“Catecismo da Preservação de Monumentos”, de Max Dvorák

Pensando no Dia Internacional dos Museus, qual a contribuição dos títulos da coleção para celebrar esta data?

BMK: A coleção possui vários textos que oferecem fundamentação teórica para a atividade prática do conservador-restaurador, cujo papel nos museus é de essencial importância. Traz ainda contribuições de interesse para a história da arte, outro campo intimamente relacionado com as atividades dos museus.

Já existe alguma definição de quais serão os próximos títulos ou autores dos lançamentos futuros da coleção?

BMK: O próximo título previsto – em fase de revisão de provas – é o texto de Quatremère de Quincy, Cartas a Miranda, originalmente publicado em 1796, em que o autor elabora de maneira original a intrínseca relação da obra com o contexto em que está inserida, e a importância capital desse contexto; problematiza a transferência de obras de arte a partir de sua visão de come se aprende o fazer artístico e a apreciar a produção artística; e oferece contribuições de grande interesse no que respeita à fundamentação teórica de questões de preservação.

Concurso de contos recebe inscrições até 27 de maio

concurso ufob

O Concurso Literário Osório Alves de Castro, promovido pela Universidade Federal do Oeste da Bahia (UFOB), está com as inscrições abertas até 27 de maio. O concurso aceita apenas contos inéditos, com tamanho entre cinco e dez laudas, escritos em português, de autoria exclusiva do participante (não serão aceitos contos em coautoria). Cada escritor pode inscrever apenas um conto.

Mais informações no site: http://www.ufob.edu.br/index.php/noticias2/item/662-concurso-literario-homenageia-o-romancista-osorio-alves-de-castro