Daniel De Luccas

Um rolê com Paulo Bomfim

Percursos da memória na cidade do poeta

Jorge Caldeira | Folha de S. Paulo | 19 de janeiro de 2014

Insólita Metrópole: São Paulo nas Crônicas de Paulo BomfimPAULO BOMFIM não apenas vive fisicamente em São Paulo há 87 anos. A cidade para ele tem história, de modo que muitos lugares não lhe aparecem como paisagens prosaicas do tempo que vive, mas como testemunhos ancestrais. O parque da Luz é o lugar da ermida que Domingos Luís, o Carvoeiro, construiu no século 16; a praça do Patriarca, o ponto de refúgio do Mirinhão, um ancestral seu do século 18; a rua Espírita, no Cambuci, o quilombo espiritual do negro Batuíra, no século 19.

Outros pontos da cidade ganham colorido porque evocam memórias pessoais, testemunham encontros que os tornaram especiais. A praça Marechal Deodoro atravessada pelo Minhocão tem outros ares quando descrita como ponto de encontro com o cantor Nelson Gonçalves, seu irmão Quincas e o palhaço Piolim.

A praça da República aparece com garapa, sorvete, normalistas e o guarda Antônio, protetor dos boêmios. Até o velório de Mário de Andrade muda, quando nele se mistura o desnudamento da tradutora Leonor Aguiar.

A cidade é também o centro de sua escrita, tema constante de seus 26 livros de poesia (e mais meia dúzia de antologias, no Brasil e na Espanha) ou prosa – seu livro mais recente, Insólita Metrópole, lançado em 2013, é uma antologia de crônicas sobre São Paulo, organizada por Ana Luiza Martins (Ateliê Editorial). Assim, outros aspectos da cidade são descritos por suas características metafísicas.

Com tudo isso, a São Paulo de Paulo Bomfim é tecida por casos que, contados na sequência de sua prosa viva, dão uma dimensão bem diferente daquela da metrópole que quase se esquece da alma encantadora de suas ruas.

Assista a cena (13/17) de Amor à Vida em que Natasha presenteia Thales com o livro Insólita Metrópole 

Acesse o livro no site da Ateliê

A seguir, o registro de um desses passeios, na voz do escritor.

A FUNDAÇÃO MÍSTICA

“O corpo de São Paulo foi formado pela carne e o sangue de João Ramalho e Tibiriçá. A cabeça veio de Manoel da Nóbrega. Mas a alma de São Paulo veio de José de Anchieta. Já o governo veio de Santo André, a vila dos parentes de João Ramalho.”

 

CEMITÉRIO DA CONSOLAÇÃO

MARQUESA DE SANTOS

“Toda vez que vou ao cemitério da Consolação visitar o túmulo de meus ancestrais, deixo uma rosa no túmulo da marquesa de Santos, que fica ao lado. Uma vez, quando estava depositando a flor, havia uma preta velha ajoelhada, rezando. Ela virou-se para mim e perguntou: ‘O senhor também é devoto da marquesa?’. Eu digo: ‘Sou’. E ela: ‘Comigo fez milagre. Pedi à marquesa para interceder junto ao professor Bardi. Consegui fazer uma exposição no Masp e estou aqui pagando a promessa’.”

 

PÇA. MARECHAL DEODORO

PIOLIM E QUINCAS

“Havia ali o bilhar do Quincas, irmão do Nelson Gonçalves. Joguei com ele muitas vezes, porque o lugar era um ponto de encontro de boêmios. Mas também ia até a Marechal Deodoro para conversar com o Piolim, palhaço que foi muito meu amigo a vida inteira e que então montava seu circo em plena praça.”

 

PÇA. DA REPÚBLICA

GUARDA ANTÔNIO

“Passei minha infância brincando lá, minha adolescência tomando sorvete na Japonesa ou garapa no Nosso Engenho, enquanto esperava a saída das alunas da Caetano de Campos. E havia um português muito bom, o Antônio, que era guarda do jardim. De noite ele cobria os mendigos com jornal, protegia os boêmios que ficavam dormindo nos bancos para curar a bebedeira.”

 

PARQUE DA LUZ

(HISTÓRICO DOMINGOS CARVOEIRO)

“Era a ermida de Domingos Luís, o Carvoeiro, uma figura mítica da história de São Paulo. Séculos depois o frei Galvão construiu o convento lindo que está ali até hoje.”

 

PARQUE DA LUZ

(PRÁTICO)

LUIS HUMBERTO GELFI

“Ele era de Bergamo, foi parar no Cairo, teve algum problema com uma mulher, teve de fugir. Veio sem dinheiro no navio, dando aula de dança para os passageiros. Desembarcou em São Paulo sem um centavo, na Estação da Luz. Atravessou para o jardim, olhou dali a torre da estação. Voltou, foi procurar o diretor, ofereceu-se para limpar o relógio. Foi o primeiro dinheiro que ganhou na cidade. Como sabia guiar, acabou ensinando os filhos de dona Veridiana Prado a dirigir automóveis – e acabou casando com uma amiga francesa dela, a Luíza. Ambos viriam a ser meus sogros.”

 

AV. IPIRANGA

ARACY DE ALMEIDA

“Eu era recém-casado. Um dia toca a campainha do apartamento. Era a Aracy de Almeida, dizendo: ‘Paulo, eu estou com muita angústia, não queria ficar no hotel. Posso ficar em sua casa dois ou três dias?’. Peço para a Emy [Emma Gelfi Bomfim] tirar as crianças do quarto, ela se instalou. Foi ficando. Voltava das boates de madrugada, fazia interurbanos intermináveis para a boate Vogue, no Rio de Janeiro, conversava com o Vinicius de Moraes, o Antonio Maria, até o amanhecer. Eu estava começando na vida e tinha de pagar contas de telefone astronômicas. Quase três meses depois, trouxe uma arara que ganhou de presente da boate Jangada. Quando tentei falar alguma coisa, ela cortou: ‘Eu respondo pela arara’. Levou o bicho para o quarto, ele comeu meus móveis, não aguentei e expulsei a ave. E ela: ‘Em solidariedade à arara, também me retiro’. Mas ela foi a mulher que melhor conhecia a Bíblia que vi em toda a minha vida – e também a que sabia mais palavrões.”

 

AV. SÃO LUÍS

MANUEL BANDEIRA

“Minha mulher Emy e eu ficamos sócios de uma galeria de arte que ficava no prédio Zarvos, onde antes era a casa do barão de Souza Queiroz, na Av. São Luís, bem em frente à biblioteca. Um dia, no lançamento de um livro do Manuel Bandeira, fizemos cartazes com os poemas. Chega o Lima Barreto, o cineasta que fez O Cangaceiro. Ele entra, olha os cartazes e vai direto para a mesa de autógrafos falando: “Bandeira, naquele poema tem um erro de português”. Ele largou o copo de uísque, nem precisou arregaçar os punhos, porque costumava cortá-los quando ficavam puídos. Levantou e gritou: ‘Erro de português é você, seu fotógrafo lambe-lambe. Ponha-se daqui para fora’. E expulsou o desafeto.”

O maior privilégio de todos

ErichAlex Sens

Meu avô materno Erich tinha os olhos mais claros e azuis de Wissembourg. A pele do rosto, lisa como um veludo frio e esticado sobre ossos proeminentes e fortes, descia pelas bochechas esteticamente côncavas, uma planície onde minhas pequenas mãos de cinco anos de idade pousavam. Quando jovem, o queixo quadrado, as maçãs do rosto e o maxilar simetricamente desenhado para a fotografia de uma época em que eu ainda não tinha nascido, eram a moldura de um sorriso que vinha muitas vezes tímido — não no sentido de vergonha, mas de segredo, de palavra misteriosa querendo escorregar dos lábios para tombar no silêncio da minha infância.

Embora o tempo jogue sobre a memória uma chuva que embaça a nitidez das coisas nostálgicas, como uma pintura d’água sobre um vidro azul e amarelo, o verde resultante dessa mistura é o que lembro: seu sorriso, sua boina, suas calças largas, o bigode brilhante como lascas de gelo prateado, o olhar atento aos meus movimentos muito próximos à paleta cheia de cores.

Vô Erich pintava. Mas enquanto descansava para admirar o azul-cobalto na sombra de uma falésia inacabada, a paleta se equilibrava em um banquinho de madeira, muito baixo e muito estreito, sobre o qual mal cabia o seu cansaço ou a sua idade. É claro que a imagem permanece turva, chuvosa e limitada, mas ainda recordo das minhas mãos esticadas à frente do corpo, o ar com a textura de algodão molhado, de um gramado escuro como espinafre (seria noite ou seriam os amoreiras e os limoeiros sombreando o nosso quintal?), do andar escorregadio, da lentidão dos meus passos, dos meus dedos roliços e ansiosos muito próximos à massa pastosa da tinta branca, que, apertada num formato engraçado (eu sempre ria daquelas espirais coloridas, sobretudo das marrons, cor de couro, que remetiam imediatamente aos cocôs de cachorro dos desenhos animados), eu queria pegar, lambuzar a madeira, criar ali em sua paleta a minha tela definitiva — nem que para isso eu fizesse da abertura do dedão a minha lua sem cor, o buraco no céu pelo qual escapariam os desejos que eu sempre fazia antes de dormir, de olhos apertados e coração vibrante.

Assim, é preciso acrescentar que, além dessas características visuais, do sonho imagético em que ficou presa a figura plácida do vô Erich, alguns fatos são distintivamente indeléveis: adorava pimenta-do-reino; detestava soja em qualquer formato porque a Segunda Guerra havia maculado seu paladar (bem como lhe arrancara parte da falangeta do dedo médio da mão direita); fizera um anel com uma colher de prata, estendendo a herança do pai que havia feito o mesmo com a argola de uma granada durante a Primeira Guerra; gostava de tocar bateria e tudo que envolvesse instrumentos de percussão; tinha o dom mais fácil de um ser humano: o sorriso; mesmo quieto, mesmo silencioso, estava lá, sonhando com algo maior e mais concreto, embora isso permanecesse unicamente desenhado na mente, como um esboço de algo impossível e inalcançável; ansiava por morar na África do Sul, e penso como seriam suas telas caso tivesse vivido por lá até ver esmaecer a última estrela cadente dos seus olhos; tinha uma ideia romântica do Brasil, de suas palmeiras e praias, o que em parte ainda se mantinha extraordinariamente verdadeiro na década de 50, quando desembarcou com minha avó e minha mãe no inverno carioca, depois de semanas viajando num navio sobre as águas auspiciosas do Atlântico.

Antes de morrer, ele me deu um carrinho de madeira com esferas maciças se fazendo de rodas, um brinquedo bastante artesanal, porém bem-feito, que as crianças da escola Waldorf adoravam. Ainda lembro da minha hesitação divertida ao deslizar o carrinho sobre seu corpo enquanto ele lia na rede branca da varanda ou fingia dormir no sofá da sala.

Eu nunca conheci meu avô, levado pela cirrose hepática onze anos antes do meu nascimento. No entanto, a imaginação é poderosa e, de acordo com o escritor norueguês Tomas Espedal, ainda inédito no Brasil, “trabalhar com a linguagem é o maior privilégio de todos”. Escrever é poder moldar e colorir o tempo, mergulhar em suas fissuras mesmo que sejam todas líquidas, voláteis, inconstantes e surreais. “Você tem de saber escrever sobre qualquer coisa, senão não é um escritor”, palavras de Espedal. Esse “qualquer coisa” inclui a realidade transformada em ficção, a realidade que o escritor quer, mesmo que inventada, mesmo que temporária; uma realidade vibracional e criacional, sutil e sensível.

Excetuando os trechos em que descrevi contato com meu avô, o resto é verdade, colhido aqui e ali em conversas com minha mãe, cheias de uma saudade palpável e eterna. Entretanto, você pode olhar pelo prisma ficcional caso isso torne a leitura mais interessante. Como não concordar com Espedal que este é o maior privilégio de todos, quando você pode viver, através da palavra, fazendo uso do instrumento-linguagem, com alguém que nunca conheceu? Quando a morte pegar pela mão aqueles que amamos, nos resta o amor pela invenção, a cristalização da saudade e a linguagem como criadora de um universo possível e particular.

As palavras todas - Alex

Alex Sens Fuziy nasceu em 1988 em Florianópolis (SC), vive em Minas Gerais e é escritor. Publicou Esdrúxulas, livro de contos de humor negro e realismo mágico, seguido pelo livro artesanal Trincada. Teve contos e poemas publicados em sete coletâneas e em revistas literárias virtuais, assim como resenhas de livros e críticas em sites de jornalismo cultural. Seu romance de estreia O Frágil Toque dos Mutilados venceu o Prêmio Governo de Minas Gerais de Literatura 2012.

Filme de Formação

Renato Tardivo

Azul É A Cor Mais Quente (La Vie d’Adele – Chapitre 1 et 2, 2013), filme dirigido por Abdellatif Kechiche (diretor do excelente O Segredo do Grão, 2007), vem repercutindo por ter levado a Palma de Ouro de melhor filme em Cannes e também o prêmio da crítica, mas também pelas cenas de sexo entre duas jovens.

Azul é a Cor Mais Quente, resenha de Renato Tardivo

A trama é baseada em uma história em quadrinhos para adultos, cujo título é justamente Le Bleu Est une Couleur Chaude, escrita e desenhada pela francesa Julie Maroh. Em ambos, uma jovem de 15 anos (Clémentine na HQ; Àdele, que significa “justiça”, no filme) cruza na rua com Emma, uma universitária com cabelos azuis. Àdele, dona de uma beleza enigmática, desperta a atração dos garotos, mas não se interessa por eles e delicadamente vai descobrindo o seu desejo por mulheres. A imagem de Emma entre os transeuntes e sua constante evocação por parte de Àdele (que tem um sonho erótico com a desconhecida) passa a ser emblema desse desejo.

O título original – A Vida de Àdele – é uma referência ao livro La Vie de Marianne, de Pierre de Marivaux, que Àdele lê no começo do filme. Ao longo das quase 3 horas de projeção, Àdele – dos 15 aos 20 e poucos anos – está em cena. Certamente, o período central – e decisivo – desta trajetória é o romance que vive com Emma, aquela que encontrara na rua e que, um pouco depois, reencontra em uma boate gay.

Como nos demais filmes de Abdellatif Kechiche, há aqui uma série de referências da cultura francesa e de suas ex-colônias, que conferem um caráter documental e político à ficção. Há sequências – como as de Àdele já professora de educação infantil – que lembram documentários. Mas isso não contamina a ficção, pelo contrário, reforça a tridimensionalidade das personagens e suas diferentes bagagens culturais, relações familiares, ambições etc.

É nessa medida que a câmera invade a privacidade de Àdele – em todos os âmbitos e não só, mas também, no sexual. Não há, portanto, apelação ou algo que o valha. Não se trata de um filme sobre sexo; trata-se de um filme de formação – sensível, plástico, enigmático. As quase três horas – que equivalem a alguns anos –  passadas em contato com Àdele não são suficientes para que deixemos o cinema convencidos de que a conhecemos. Desconcerto que provavelmente a própria personagem viva.

O azul, de início no cabelo de Emma, estende-se para diversos detalhes do filme – em tomadas internas e externas –, ou seja, para o mundo de Àdele. Que se deixa contaminar, corre riscos, empresta os seus próprios riscos para as telas de Emma, com quem pôde viver algo fundante que nunca tivera. A menina termina mulher. As três horas passam voando. Como a vida. A Vida de Àdele.

Coluna Resenhas - Renato Tardivo

Renato Tardivo é mestre e doutorando em Psicologia Social da Arte pela USP e escritor. Atua na interface entre a estética, a fenomenologia e a psicanálise. É professor universitário e escreveu os livros de contos Do Avesso (Com-Arte) e Silente (7 Letras), e o ensaio Porvir que Vem Antes de Tudo – Literatura e Cinema em Lavoura Arcaica (Ateliê).

Clichês Brasileiros recebe três prêmios internacionais

O livro Clichês Brasileiros, de Gustavo Piqueira, publicado pela Ateliê recebe três prêmios de Design

Clichês Brasileiros, de Gustavo Piqueira2014 iF Design Awards
Um dos maiores prêmios internacionais de design com base em Munique, Alemanha.

2013 Good Design Awards
O mais antigo prêmio de design, organizado pelo Chicago Athenaeum Museum of Architecture and Design e tendo como alguns de seus fundadores Charles e Ray Eames.

2013 LUSOS Prémios Lusófonos da Criatividade
Competição que premia o melhor de comunicação visual e design gráfico dos países de língua oficial portuguesa, sediada em Portugal.

 

Release

Utilizando-se apenas de imagens de um catálogo brasileiro de clichês tipográficos do início do século XX (Catálogo de clichés D. Salles Monteiro, publicado em edição fac-similar pela Ateliê Editorial, em 2003), Gustavo Piqueira compõe uma inusitada narrativa visual contemporânea em seu novo livro, Clichês Brasileiros. Os clichês tipográficos eram matrizes, gravadas em madeira ou metal, utilizadas como complemento figurativo ao conteúdo textual no processo tipográfico de impressão, método dominante na produção de impressos durante quase cinco séculos. Mas o título do livro não se deve exclusivamente às matrizes usadas para a confecção das ilustrações. A cada virada de página, topamos com outro tipo de clichês brasileiros: dos históricos, como a chegada dos portugueses, a catequização dos índios, a escravidão ou os ciclos do café e do ouro, até clichês do Brasil de hoje, cheio de engarrafamentos, dívidas, condomínios fechados e alienação. Todos retratados com sutil irreverência e grande riqueza gráfica. O livro possui capa em lâmina de madeira impressa em serigrafia, fixada com fita adesiva, e tem tiragem única de mil exemplares numerados.

Gustavo Piqueira – À frente da Casa Rex, casa de design com sedes em São Paulo e Londres, Gustavo Piqueira é um dos mais premiados designers gráficos do Brasil, com mais de 200 prêmios internacionais. Também ilustrou livros infantis e desenhou alfabetos. Como autor, publicou doze livros de ficção. Seus mais recentes projetos são a concepção e organização da coleção de filosofia clássica Ideias Vivas (WMF Martins Fontes/2011), a tradução do irreverente A História Verdadeira, escrito no século II por Luciano de Samósata (Ateliê Editorial/2012) e o misto de imagens reais e ensaios fictícios Iconografia Paulistana (WMF Martins Fontes/2012).

Conheça os livros de Gustavo Piqueira publicados pela Ateliê

 

Poesia e pensamento

Patricia Peterle  |  Jornal Rascunho |  Janeiro de 2014

Fragmentos do Narciso e Outros Poemas, de Paul ValéryPaul Valéry, herdeiro de Mallarmé, passou a ser considerado um mestre do simbolismo com a publicação de La jeune Parque, em 1917. Mas sua obra alçou-o além, para entre os maiores poetas franceses do século 20. O exercício poético de Valéry, que se inicia com alguns poemas publicados na revista simbolista La Conque, por volta de 1896, e segue com leituras de Charles Baudelaire, Edgar Allan Poe e Huysmans, já assinala seu complexo percurso de escritura e reflexão sobre a poesia.

Seus Cadernos – um total de 261 volumes, somando mais de 26 mil páginas podem ser considerados um verdadeiro laboratório – “laboratório íntimo do espírito” – para inúmeras reflexões filosóficas, estéticas, religiosas e antropológicas. Neles, é possível adentrar em uma perene e densa pesquisa que motivou reflexões e incursões do poeta em diferentes áreas. Todo esse material de anotações, precioso para quem trabalha com a poesia (mas não só), deu origem a vários volumes ensaísticos.

Daí que Valéry congrega a polivalência – das figuras do pensador e do poeta. Aqui, sim, poesia é pensamento, é conhecimento, é um o processo cognitivo e estético. Esse exercício poético atrai Valéry: há um jogo difícil, enigmático, que se apresenta por si só como um estímulo e um desafio. Justamente por isso ele faz reverberar e multiplicar os vínculos métricos, as aliterações, as assonâncias. Em La jeune Parque, o leitor se depara com um progressivo acordar da autoconsciência em luta contra o apelo aos sentidos; o tema da vida e da morte, importante em toda a sua obra, pode ser lido em Le Cimetiére Marin (1920) . O “drama da inteligência”, com todo seu esforço de conhecimento – das esperanças e esperas até as tentações da ciência e da autoconsciência – permeia sua obra mais famosa, Charmes (1922), carmina em latim, aludindo assim à poesia como encantamento e fascinação.

A relação conflituosa e complexa entre existência e conhecimento, entre o eu e o mundo, perpassa, de algum modo, toda a sua produção, inclusive os textos teatrais publicados postumamente: Mon Faust e Le Solitaire. Talvez uma frase do discurso feito em homenagem a Goethe possa definir, ainda que falando de um outro, a própria poesia de Valéry: “Um poema deve ser uma festa do intelecto”.

O encontro com o texto de Paul Valéry não é fácil. Há um embate a ser travado e o leitor é desafiado a uma “meditação teórica” – que não tira em momento algum, no entanto, o prazer estético da leitura –; poesia e reflexão crítica estão imbricadas e formam uma grande trama em seus versos, como aponta Júlio Castafion Guimarães na introdução de Fragmentos de Narciso.

Isto se verifica tanto nos numerosos rascunhos dos poemas – documentos de extrema importância para o conhecimento da produção de Valéry – quanto de modo especial no universo de seus cadernos de anotações, os Cahiers, algumas milhares de folhas em que ao longo de dezenas de anos fez diariamente anotações dos mais variados tipos[…].

São apontamentos diversos sobre o “funcionamento do espírito” – ou melhor, sobre seu “pensamento”.

O modo de escrever e pensar de Valéry coloca suas anotações, mesmo consideradas as diferenças, lado a lado com os fragmentos de Novalis e das célebres páginas do Zibaldone de Giacomo Leopardi. Há uma espécie de subterrânea cumplicidade, mesmo na diferença, que enfatiza e aposta na função cognoscitiva do discurso literário. Todos eles – Valéry, Novalis e Leopardi – são conscientes de que o processo de “formação” e “apreensão” da realidade só pode ser concretizado mediante a deformação dessa mesma realidade.

DISCIPLINA ESPIRITUAL

A edição bilíngue de Fragmentos do Narciso e Outros Poemas faz parte da coleção de poesia da Ateliê Editorial, que já publicou, entre outros, Giuseppe Ungaretti, Guillaume Apollinaire, Annalisa Cima e Paulo Franchetti, com cuidadoso projeto gráfico. Fragmentos do Narciso é o poema que abre a coletânea, seguido por outras nove composições – Helena, Adormecida no Bosque, O Bosque Amigo, As Vãs Dançarinas, Narciso Fala, Episódio, Verão, Aria de Semiramis e Palma – que pertencem originalmente a dois livros: Album De Vers Anciens e o já mencionado Charmes. Para entender melhor a trajetória de alguns desses poemas – às vezes publicados inicialmente em revistas literárias, em seguida no formato de livro e ainda em diferentes coletâneas –, as Anotações prévias do tradutor são fundamentais. De fato, ele consegue estabelecer uma série de redes e enlaces dentro da própria obra poética de Valéry, e sugere pistas, “notas prévias”, para um possível “encontro”.

A reflexão sobre o homem, seu corpo também como fonte inesgotável de estudo – não se deve esquecer uma das primeiras publicações do poeta francês, dedicada ao método de Leonardo da Vinci –, deságua no que se denominou “seu narciso”. Como analisa Giuseppe Ungaretti, em 1925, escrever, para Valéry, não é um fim; é um meio de suprema disciplina espiritual, daí o uso das formas mais fechadas, as recorrências à tradição mais “rígida”, a obstinação em dominar a matéria mais hostil – um diálogo dramático que é encenado entre o ser e o conhecer. Para Ungaretti, poeta também hermético, Valéry emprega coragem para se debater com uma infinidade de recursos e de efeitos da palavra, de que podemos “ter um gostinho” através desses dez poemas tão bem traduzidos por Júlio Castañon Guimarães. A visão ungarettiana segue em consonância com as palavras de Eliot, quando este afirma que Paul Valéry ficará como o símbolo do poeta da primeira metade do século 20, mais do que Yeats ou Rilke.

O primeiro poema da coletânea trata de um tema bastante caro a Valéry, e que o acompanha por quase quarenta anos. Este fragmento é uma das suas poesias mais antigas, em cujos versos é colocada a dissimulação do trágico na consciência humana, que, por sua vez, o interroga:

[…]

Até os segredos dessa fonte que arrefece…

Até os segredos que me aflige desvendar,

Até o imo do amor de si sem mais recamo.

Nada pode ao silêncio da noite escapar…

A noite em minha pele sopra que eu a amo.
Sua voz suave a 
meus votos teme consentir;
Sob a 
brisa ela mal e mal chega a mentir,
Tanto e 
tanto o fremir de seu tácito templo
Do expansivo silêncio é 
o negativo exemplo.

Em 1945, a temática do narciso, revisitada por muitos autores e pintores, é retomada em L’ange. Aqui, Narciso não é mais um Narciso; o Homem que se conhece chora por não conseguir entender a si mesmo. Resta a pergunta: como entender algo que não é mortal?

Conheça as obras de Paul Valéry publicadas pela Ateliê

Livro apresenta parte de Tolstoi

Dirce Waltrick do Amarante |  A Gazeta – Cuiabá |  7 de janeiro de 2014

Contos da Nova Cartilha – Segundo Livro de Leitura – Vol. 1Em 1849, Liev Tolstoi (1828-1910), depois de ter residido em Moscou e Kazan e frequentado dois cursos universitários – Línguas Orientais e Direito –, ambos abandonados apesar das boas notas, fundou uma escola na pequena propriedade rural de Iásnaia Poliana, onde havia nascido.

A questão escolar na Rússia foi uma preocupação constante de Tolstoi a ponto de ter afirmado, numa de suas cartas, que poderia morrer em paz se duas gerações de crianças russas aprendessem as primeiras letras nas cartilhas que escrevera, das quais receberiam também as primeiras lições poéticas.

Considerado por Stephan Zweig o “pedagogo do universo”, o escritor russo não só elaborou o projeto de uma publicação pedagógica, chamada Revista da Escola de Iásnaia Poliana, como dedicou ao tema cerca de 629 trabalhos.

Contos da Nova Cartilha – Primeiro Livro de LeituraNo fim de 2013, a Ateliê Editorial lançou Contos da Nova Cartilha: Segundo Livro de Leitura – vol. 1, na tradução de Aurora Bernardini e Belkiss Rabello, com ilustrações contemporâneas feitas por crianças russas. Com esse livro, o leitor brasileiro passara a conhecer parte das ideias pedagógicas de Tolstoi e poderá confrontá-las com Contos da Nova Cartilha: Primeiro Livro de Leitura, obra publicada em 2005 pela mesma editora.

O autor das “Cartilhas” foi também grande leitor de Michel de Montaigne e parece ter incorporado dele algumas ideias sobre educação, principalmente aquelas contidas no ensaio intitulado “Sobre a educação das crianças”, de 1580, no qual o ensaísta francês afirma que o preceptor deve fazer com que tudo passe pelo próprio crivo da criança e que nada “se aloje” na sua cabeça por simples autoridade ou confiança. Esse pensador acreditava que não se devia pedir aos pequenos “contas somente das palavras de sua lição mas do sentido e da substância”. Para Montaigne, o educador devia ora abrir caminho para o seu aluno, ora deixá-lo caminhar por si mesmo.

Pode-se perceber que o russo foi um ferrenho defensor da liberdade no processo educacional, pois acreditava que somente ela é capaz de desenvolver a personalidade do aluno, o seu lado criativo e de fazê-lo tornar-se até mesmo o próprio tutor. Isso se harmoniza com o que diz Montaigne ao tratar justamente da relevância da liberdade de pensamento na educação: “tanto nos submeteram às andadeiras que já não temos os passos soltos: nosso vigor e nossa liberdade se extinguiram”, e, citando Sêneca, conclui: “não estamos sob um rei, que cada um disponha livremente de si mesmo”.

Na opinião de Tolstoi, tão importante quanto conhecer as narrativas históricas, é conhecer as lendas e as narrativas ficcionais, pois são essas que apresentam as “leis fundamentais que regem a vida do povo”. Por isso, suas “Cartilhas” são compostas de histórias maravilhosas, contos, fábulas, as quais visam estimular as crianças e fazê-las refletir e filosofar. Aliás, sem filosofia toda educação é inócua, dizia Montaigne, mestre de Tolstoi.

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Uma coluna bustrofedônica

Palavras

Alex Sens

Peço que se aproxime: não da tela; quero seus olhos brilhantes e curiosos, não manchados pela luz enfraquecida do cansaço. Peço que se aproxime da vontade de ler; que se aproxime da textura pegajosa que tem todo texto ao qual você se entrega e entrega o seu precioso e bruto tempo, sobretudo o tempo visual. Pedra preciosa é o seu tempo — cuidado com as pontas que lembram dentes de gelo colorido.

Eu poderia começar esse texto me apresentando: meu nome é Alex Sens Fuziy, nasci em 1988, um par de infinitos indicando o ano porque um único infinito não me basta. Eu sempre quero mais, embora a indecisão faça parte desse mais, prolongando-o como se prolonga uma bala ainda quente, cintilante e perfumada. Eis que meu nome é aquele, sou escritor e ganhei um importante prêmio literário em 2012. A síntese é fria, eu sei, mas o que menos quero é o eco da arrogância. Cito o prêmio não porque ele me enviou anjos que me elevaram a níveis artísticos antes inalcançáveis, mas porque ele me tirou do ócio criativo no ano passado, ou se preferir, ele me arrancou [sem qualquer cerimônia] de uma procrastinação aparentemente inerente que só quem escreve e necessita da palavra como alimento, música e vento pode entender.

Bem, eu não queria começar o texto daquela forma, mas comecei. A apresentação se deu sem muita necessidade, mas se você não me leu aqui anteriormente, há alguns anos, quando a escrita ainda se equilibrava na filigrana do tempo com medo de afundar num vão qualquer, agora você me conhece. Pelo menos um pouquinho, ou o que chamam de “básico”. Essa introdução não deve me apresentar, mas deve apresentar essa coluna despretensiosa que hoje se inaugura e deseja, bem como seu criador, fugir de qualquer categoria, de qualquer etiqueta, que quer apenas ser isso que é.

Assim, posso começar registrando um fato: logo no início do ano destruí um dicionário. Destruí um dicionário porque ele era muito silencioso? Impossível. Eu amo o silêncio dos calhamaços cheios de palavras. Era dicionário com milhares de verbetes, papel fininho da espessura de uma saudade já gasta, mas não foi nada pessoal. Porque a ortografia foi alterada, o bloco com mais de três mil páginas deixou a coluna se vergar num canto. Algum cupim feroz ou com fome linguística abriu um poço na capa dura e nele mergulhou em milhões de letrinhas impressas com cuidado e extensão laboriosa de vó. Inveja do cupim, que pode viver numa casa onde cabe um mundo.

Talvez destruir seja palavra com potência equivocada, que lembre combate, humores beligerantes, mãos fortes e olhares de ódio. Nada disso. Meu tipo de destruição constituiu apenas na retirada de algumas folhas, me valendo de um estilete amarelo. A cirurgia foi delicada e precisa; o medo de ferir aquele corpo retangular maior do que a velocidade com que as letrinhas caíam das folhas como uma chuva negra no silêncio do chão. Há tempos que eu queria cobrir as paredes de palavras, um papel que me abraçasse, que me chamasse a atenção para as suas vastas possibilidades. Então livre de culpa, puxei o dicionário, tirei as folhas em cujas linhas estavam aquelas palavras que fazem arder o coração, pincelei cola branca e cobri as paredes do quarto. Duas paredes. Em seguida vieram prateleiras e colmeias de madeira, os livros e a companhia de outros tantos milhões de palavras. Não só a companhia das palavras me inspira e me traz uma deliciosa, macia e íntima sensação de conforto, como puxar com as narinas o espírito de uma gorda taça de moscatel espanhol num dia frio, mas também a companhia dos livros. Eu preciso dos livros para escrever melhor, ler melhor e ser melhor — isso resume bastante o que significa para mim “se sentir em casa”.

Em Oslo existe um restaurante de comida mediterrânea, com bar e café, em cujas janelas, prateleiras e mesas baixas de madeira histórica se espalham livros de ficção em inglês e norueguês. Nenhum cliente, entre uma mordida num falafel apimentado, um gole de cerveja irlandesa e um mergulho de um pedaço de pão pita no hummus polvilhado de canela e cominho, escapa da visão dessas obras, que dividem o espaço com cartões postais coloridos, cartazes de mensagens positivas de Gandhi, avisos de shows, luminárias de tecido vermelho, caixas de papelão de jogos antigos, sofás verde abacate e uma lousa com os preços e a criativa senha do wi-fi (couscous). Embora o estímulo visual seja autêntico e intenso, os livros estão lá, como peça decorativa, como um amigo que te espera, como parte da atmosfera acolhedora do ambiente. Quase uma pequena biblioteca onde você também pode mastigar enquanto lê em silêncio ou joga uma partida de Quiz tentado a abrir um daqueles exemplares de Margaret Atwood ou Paul Auster, porque simplesmente as palavras apetecem mais.

Eu gostaria de viver num mundo em que os livros brotam de todos os lugares e são lidos e reconhecidos simplesmente como livros, não como objetos assustadores de um grupo elitizado ou peças de arte intocáveis e misteriosas. Livros por todo o mundo e para todo mundo.

Voltando à coluna, eu não quero verdadeiramente explicá-la. Eu espero que ela nunca precise de uma explicação definitiva. Será uma coluna livre onde você encontrará pequenos contos, ensaios, resenhas, pedaços de ficção misturados à realidade das crônicas, tudo muito despretensioso, porque escrever precisa ser exercício de libertação e de caminho aberto com a escavadeira da palavra corajosa. No excelente Letras e Memória — Uma Breve História da Escrita, Adovaldo Fernandes Sampaio fala, entre muitos sistemas de escrita, da escrita bustrofedônica, um sistema primitivo “em que as linhas se alternam em direções opostas, ou seja: uma linha vai da esquerda para a direita, e a seguinte da direita para a esquerda, como os sulcos do arado no campo, com ou sem inversão das palavras” — bustrofédon vem do grego βουστροφηδόν, algo como “boi voltando”, exatamente o que um boi atrelado a um arado faz ao chegar ao fim de um campo, dando meia-volta e refazendo o percurso no sentido contrário.

Esse é o coração da minha coluna: as sentenças e significados indo para todos os lados, fazendo seu próprio caminho, formando espelhos dos meus registros literários, refletindo o pensamento, a linguagem e até mesmo o silêncio das palavras todas.

As palavras todas - Alex

Alex Sens Fuziy nasceu em 1988 em Florianópolis (SC), vive em Minas Gerais e é escritor. Publicou Esdrúxulas, livro de contos de humor negro e realismo mágico, seguido pelo livro artesanal Trincada. Teve contos e poemas publicados em sete coletâneas e em revistas literárias virtuais, assim como resenhas de livros e críticas em sites de jornalismo cultural. Seu romance de estreia O Frágil Toque dos Mutilados venceu o Prêmio Governo de Minas Gerais de Literatura 2012.

Inventos líricos

Daniel Benevides | Brasileiros |  1 de janeiro de 2014

"Gérard de Nerval: Cinquenta Poemas", tradução de Mauro GamaFigura única na literatura mundial, em sua autenticidade, gênio e loucura, Gérard de Nerval (1808-855) deixou um legado de prosa e poesia sombrias, mas de uma beleza estranha e fascinante. Nesta edição caprichada, bilíngue, de 50 de seus poemas, vê-se claramente como sua imaginação febril borrava os limites entre o romantismo tardio e uma nova percepção do mundo, crítica, tanto realista quanto fantástica, embrionária do que seria o Modernismo, um século depois. Nesse sentido ele pode ser alinhado com Poe e Baudelaire (que muito o admirava), mas como bem nota Mauro Gama, o excelente tradutor, Nerval não dava tanta importância ao “poético” ou à ideia de obra e autoria, estava por demais preso a seus fantasmas, que acabaram levando-o ao suicídio, tradutor celebrado do Fausto, de Goethe, e autor de romances e novelas marcantes (Umberto Eco considera Sylvie um dos maiores livros já escritos), era um poeta intuitivo, que evocava seres mitológicos refundindo-os em “suas pulsões e procuras subjetivas”. Tome-se como exemplo o famoso poema “El Desdichado”, que T.S. Eliot cita em seu Terra Desolada. Logo na primeira linha, revela uma força que raramente se vê na poesia: “Eu sou o Tenebroso – o Viúvo – Inconsolado”, terminando com “o grito de uma fada”. De arrepiar.

Acesse o livro no site da Ateliê

 

Livro da Ateliê ganha Prêmio PEN Clube do Brasil

De Olho na Morte e Antes, de Fernando FortesO livro De Olho na Morte e Antes, de Fernando Fortes, publicado pela Ateliê Editorial é o grande vencedor do Prêmio Literário Nacional PEN Clube do Brasil 2013, na categoria Poesia. O Prêmio, um dos mais antigos e prestigiosos certames brasileiros, foi criado em 1938, e é oferecido anualmente a escritores que tenham publicado obra nas categorias Poesia, Ensaio e Narrativa.
Na categoria Ensaio o vencedor foi Vasco Mariz pelo livro Depois da Glória (Ensaios sobre personalidades e episódios controvertidos da história do Brasil e de Portugal), publicado pela Editora Civilização Brasileira, e na categoria Narrativa, Luiza Lobo pelo romance Terras Proibidas – A Saga do Café no Vale do Paraíba do Sul, publicado pela Editora Rocco.

Leia abaixo o release do livro De Olho na Morte e Antes, de Fernando Fortes

Edição da Ateliê contém a poesia quase completa do poeta contista e romancista Fernando Fortes
Como sugere o título, o presente volume reúne livros publicados antes de De Olho na Morte, inédito até o momento. Em qualquer página desta obra, o leitor perceberá a força de um poeta tão vibrante quanto revelador. Quando jovem, Fernando Fortes foi convidado por Mário Faustino para colaborar no “Suplemento Dominical” do Jornal do Brasil. Depois, seria homenageado como poeta pela Universidade Gama Filho. Cada vez mais admirado por extenso espectro de leitores, recebeu prêmios no Brasil e publicou poemas no exterior. Sua poesia funda-se em amplo acervo técnico e em fina sensibilidade para os grandes temas da existência. Apegado à dinâmica das formas, domina com a mesma maestria o verso livre e o tradicional, acompanhando com singularidade os grandes momentos da poesia no século XX, tanto no Brasil quanto nas Américas e na Europa.
Para Ferreira Gullar que escreve a quarta capa desta edição, os poemas de Fernando Fortes “fala-nos de alguém que já viveu uma longa vida, que experimentou as alegrias e sofrimentos por que todos passamos, de uma maneira ou de outra. (…) De alguém que sofreu um duro golpe: a perda de um filho”. E acrescenta: “Alguns deles nos falam dolorosamente dessa perda, enquanto outros, ainda que versando temas diversos, trazem a marca dessa dor presente. Isso não impede, porém, que ele consiga nos comover também com os achados poéticos, nascidos do domínio do verso e da palavra, que foi sempre uma qualidade sua. Como poeta que é, realiza a alquimia que transforma a dor em alegria.”
Fernando Fortes nasceu em 1936 no Rio de Janeiro, médico, psicanalista, contista, poeta e romancista. Entre suas principais obras estão poesias: Tempos e Coisas (Livraria São José, 1958), Poesia Viva (Civilização Brasileira, 1968) e Arma Branca (Civilização Brasileira, 1979); Romances: Epílogo de Epaminondas (Civilização Brasileira, 1960), A Véspera do Medo (Paz e Terra, 1972) e O Estranho mais Próximo (Francisco Alves, 1988); Contos: Desamérica (José Álvaro Editor, 1969); Ensaios: Augusto dos Anjos: “Eu”, Tu, Ele, Nós, Vós, Eles (Mundo Livre, 1978); e tradução: Poesía Rebelde Latinoamericana (Paidós, Cidade do México, 1980), Latinamerika Spell, (Vindrose, Copenhagen, 1982) e The Gospel Before Saint Matthew (Vantage Press, New York, 1994).