Leitura

Alfabetização e analfabetismo funcional

Ler é mais do que saber unir letras e sílabas; quem não consegue escrever, ler ou interpretar textos é considerado analfabeto funcional e perde a oportunidade de adquirir os conhecimentos que a leitura de um bom livro pode proporcionar e entender melhor o mundo ao seu redor

Antônio Suárez Abreu*

Antônio Suárez Abreu 2Houve época em que bastava alguém conseguir escrever o próprio nome para ser considerado alfabetizado. Assinar um documento, em vez de pôr nele a impressão digital, era sinal de progresso.  Há, ainda hoje, treze milhões de brasileiros que põem impressão digital no lugar do nome.  São os completamente analfabetos. Há, também, uma quantidade muito maior de brasileiros que, embora sejam capazes de escrever algo além do próprio nome e de ler anúncios publicitários, tropeçam de forma vergonhosa, quando têm de escrever ou ler um texto mais complexo.  São os chamados analfabetos funcionais.  Compõem mais da metade da população do país e ultrapassam, em número, aqueles que têm apenas o ensino fundamental. Muitos universitários não alcançam a efetiva competência em leitura e escrita e, quando formados, só conseguem acesso a subempregos. A quantidade de gente reprovada nos exames da OAB é um bom indicador dessa realidade.

Numa primeira etapa, alfabetizar-se não é apenas estabelecer relações entre letras, sons e palavras.  É, simultaneamente a isso, ser capaz de responder a duas demandas cognitivas: entender o significado de cada palavra e inseri-la em um papel sintático dentro da frase.  Quando uma criança lê sequências como A menina fechou a porta e Minha mãe carregou a menina, tem de compreender não apenas que menina é uma criança do sexo feminino, mas também que essa palavra tem a função de agente, na primeira frase, e de paciente, na segunda.  O nome técnico desse procedimento é parsing.  Por incrível que pareça, há até mesmo alunos de pós-graduação com baixa competência nessa habilidade.  A maior parte das redações de vestibular e até mesmo dissertações de mestrado e teses de doutorado apresentam frases truncadas e pontuação caótica.   Vejamos um trecho retirado de uma das redações do último Enem: A escola deve tratar do tema da violência contra a mulher.Educando os jovens para que aprendam que esse tipo de agressão não é normal e vendo a mulher como companheira.  Certamente a segunda oração deve fazer parte da anterior, ou seja, o ponto final deve ser substituído por uma vírgula: A escola deve tratar do tema da violência contra a mulher, educando os jovens para que aprendam que esse tipo de agressão não é normal e vendo a mulher como companheira.  Porém, como não é a escola que deve ver a mulher como companheira, mas os jovens que aprenderam isso na escola, o aluno poderia dar a esse período outra redação: A escola deve tratar do tema da violência contra a mulher, educando os jovens para que aprendam que esse tipo de agressão não é normal e aprendam a ver a mulher como companheira.

Essa competência em escrever se aprende com a tradicional análise sintática, hoje execrada pelos planos de ensino e dominada precariamente até mesmo pelos professores.  Fiz uma pesquisa informal na Unesp, entre os meus pouquíssimos alunos de Letras – sete ou oito por sala – que apresentavam escrita adequada e fluente: todos eles tinham tido aulas de análise sintática no ensino fundamental e médio.  O outros não sabiam sequer localizar um sujeito posposto e tiveram de aprender isso na Universidade.

colher de sopa de manteigaVamos, agora, à leitura.  Ao ler, vamos construindo o sentido do texto dentro de nossas cabeças, a partir das informações que temos arquivadas em nossa memória.   Ao ler uma simples frase como: Coloque uma colher de sopa de manteiga  numa tigela, temos de saber, antecipadamente, que não existe sopa de manteiga, que colheres de sopa, de sobremesa etc. são utilizadas para medir ingredientes na cozinha e que apenas a manteiga medida pela colher deve ser posta na tigela, e não a colher.   A leitura competente e fluente depende, pois, do nosso passado.   Aprender a ler, ter uma alfabetização completa implicam construir esse passado por meio de leituras acumuladas.   Isso vale tanto para o domínio do vocabulário quanto para outros como cultura, história, tecnologias.  Durante a primeira aula do curso de Economia de uma importante universidade pública paulista, o professor disse aos alunos que  essa ciência tem palavras com sentido diferente do uso comum e que os alunos não se acanhassem em perguntar quando não soubessem.  Imediatamente, um dos calouros levantou a mão e perguntou: “Professor o que significa debalde”?   O mestre teve de explicar o sentido desse advérbio a um aluno que, apesar de ter passado num vestibular concorrido, havia lido muito pouco.

Em alguns textos, a exigência desse conhecimento passado é muito maior.   Imagine alguém lendo um trecho do livro Autoengano, em que o economista e filósofo Eduardo Giannetti fala do autoengano dos amantes: “É como se estivessem fora de si – embriagados  por poções wagnerianas, hipnotizados pelo fascínio de Circe ou enfeitiçados  por encantamentos como o que, segundo a lenda, enlouqueceu Lucrécio.  Os apaixonados perdem o sono, dançam na chuva e ouvem estrelas.   Para entendê-lo plenamente, o leitor deve ter, em sua memória, o enredo  da ópera de WagnerTristão e Isolda, em que Tristão, inadvertidamente, bebe uma poção amorosa e se apaixona por Isolda, princesa que ele devia conduzir ao seu tio em matrimônio.

singingintherainDeve ter, também, em seu passado, a história de Ulisses, que foi enfeitiçado pela deusa Circe, em sua viagem de volta da Guerra de Troia, e a lenda segundo a qual Lucrécio, poeta romano, teria enlouquecido de amores e se suicidado.  Deve ter, ainda, em sua memória, o filme Cantando na Chuva, protagonizado por Gene Kelly e um dos mais famosos poemas da “Via Láctea” de Olavo Bilac: “Ora, direis, ouvir estrelas…”.

Concluindo, para não ser analfabeto funcional, é preciso ter o hábito da leitura como lazer, que é muito comum na Europa e nos Estados Unidos, mas extremamente raro no Brasil, em que a leitura per capita é calculada em rasos 1,7 livros por ano.

 

 

*Tem mestrado, doutorado e livre-docência pela USP, pós-doutorado pela UNICAMP, é professor titular de língua portuguesa da UNESP, membro da Academia Campinense de Letras e autor, entre outros, dos livros: Gramática Mínima para Domínio da Língua Padrão (Ateliê), O Design da Escrita (Ateliê) e Texto e gramática: uma integração funcional para a leitura e escrita (Melhoramentos).

Conheça outras obras de Antônio Suárez Abreu

Clássicos: da Ateliê para a sala de aula – e muito além dela

Marise Hansen*

Algumas palavras parecem ser feitas umas para as outras. É o caso das duas que formam a dupla “Clássicos Ateliê”, quando se considera atentamente que um clássico é aquela obra que “por sua originalidade, pureza de expressão e forma irrepreensível, constitui modelo digno de imitação”, e que ateliê é o “local preparado para a execução de trabalhos de arte”. Fica fácil perceber aí um par perfeito, que é a união da obra literária de sentido universal, atemporal, perene, com o tratamento artesanal que ela merece.

livros de vestibular

Títulos da Coleção Clássicos Ateliê: sempre presentes nas listas dos vestibulares brasileiros

A coleção Clássicos Ateliê assume esse espírito, dispondo obras representativas das literaturas brasileira e portuguesa em edições preparadas com apuro meticuloso. A preocupação com os detalhes de cada edição pode ser vista na escolha iconográfica, na pesquisa e estabelecimento de texto, nas ilustrações que acompanham cada título. Entretanto, é sobretudo nas apresentações de cada obra que o diferencial da coleção se faz evidente. Os ensaios que precedem cada título da coleção, escritos por professores universitários e de Ensino Médio, primam pela profundidade de análise sem perder de vista a clareza e o didatismo, o que é imprescindível quando se pensa que a apresentação da obra deve atuar como uma espécie de comentário crítico, quase como uma aula escrita.

Quem vive o cotidiano da sala de aula com os estudantes que se preparam para os vestibulares, sabe a importância de, muito mais que se “mandar ler”, se ensinar a ler. Parece ter sido definitivamente sepultado o chavão “adolescente não gosta de ler”. É notório o quanto a literatura juvenil movimenta o mercado editorial. Mas sabe-se também que há muitos títulos que nossos alunos não leriam por conta própria, dada a dificuldade mesma da linguagem – original, artística, desafiadora – de um “clássico”. Quem tem a chance de estar perto desses alunos enquanto eles se veem levados a “enfrentar” um clássico, sabe, no entanto, que a paixão pela obra é garantida, quando não imediata, desde que a aproximação a ela se faça com o auxílio de um leitor experiente.

Quem entende, gosta: a fórmula é simples. E para ser leitor competente, há que se aprender a ler para além do que está explícito. Para tanto,é certo que existem as aulas e, para apreender o sentido do texto literário num nível ainda mais profundo, e de forma mais independente, existem as apresentações da coleção Clássicos Ateliê. Elas atuam como o tal “leitor experiente”, que, se na sala de aula é o professor, no momento de leitura e reflexão do aluno é o texto ensaístico que elucida o sentido das obras e suas múltiplas possibilidades de leitura; fornece informação, documentos e iconografia a respeito do contexto de produção e do discurso cultural vigente; estabelece comparações entre obras, estilos e autores da literatura universal. Para auxiliar o jovem leitor nessa apreensão de obras tão significativas, é fundamental que o autor do prefácio tenha não só amplo conhecimento sobre as mesmas, como também familiaridade com a prática em sala de aula: só assim se tem ideia da linguagem a ser usada para atingir o leitor que se inicia num clássico. Unir a profundidade acadêmica com a clareza didática é um diferencial da coleção, percebido nos textos introdutórios bem como nas notas explicativas (de vocabulário, sintaxe, referências culturais, recursos estilísticos, linguagem figurada).

Memórias Póstumas de Brás Cubas

Memórias Póstumas de Brás Cubas

Para o vestibular 2016 de duas das principais universidades do país, USP e Unicamp, a coleção Clássicos Ateliê abrange sete títulos: Viagens na Minha Terra, de Almeida Garrett; Memórias de um Sargento de Milícias, de Manuel Antônio de Almeida; Til, de José de Alencar; Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis; O Cortiço, de Aluísio Azevedo; A Cidade e as Serras, de Eça de Queirós – comuns às listas dos dois vestibulares; e Sonetos de Camões, da lista da Unicamp. Essas obras contam com apresentações que abrangem os aspectos mais representativos de cada obra, sem deixar de sugerir sentidos novos, originais. Para quem vai prestar esses vestibulares (ou outros, que vários se baseiam nessas listas, tidas como canônicas), é fundamental, por exemplo, estar familiarizado com o espirito galhofeiro presente no romance de Manuel Antônio de Almeida, como uma espécie de protótipo da malandragem brasileira; com o universo de cinismo e abuso das elites do Brasil imperial representado por meio do defunto-autor Brás Cubas; com a crítica ao consumismo irrefletido e causador de permanente frustração, tema atualíssimo desenvolvido por Eça de Queirós em A Cidade e as Serras.

A Ilustre Casa de Ramires

A Ilustre Casa de Ramires

Para além de listas de vestibular, a leitura de clássicos será sempre parte da formação do leitor. Nesse sentido, a coleção conta com outras obras dos autores “clássicos” (O Guarani e Iracema, de José de Alencar; O primo Basílio e A Ilustre Casa de Ramires, de Eça de Queirós; Dom Casmurro, de Machado de Assis) e com outros gêneros, além da prosa de ficção, como a poesia, no já citado Sonetos, de Camões, no recém-lançado Mensagem, de Fernando Pessoa, e no poema dramático Auto da Barca do Inferno, de Gil Vicente. Assim, quanto maior o repertório de leitura dos clássicos, mais sucesso em provas e exames vestibulares, haja vista o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), realizado por mais de sete milhões de candidatos no mês de outubro, em que uma das questões da prova de Português era sobre O Ateneu, de Raul Pompeia, um clássico de nossa literatura contemplado pela coleção. O teste aborda a relação entre o colégio, vale dizer, a educação e sua função social, e os interesses capitalistas e individualistas de seu diretor, aspecto explorado na apresentação do romance para o volume da Ateliê.

Sabe-se no entanto, que a leitura dos clássicos, quando bem aproveitada, isto é, quando as obras são verdadeiramente compreendidas, trará benefícios que transcendem em muito as exigências de provas e exames vestibulares: será capaz de levar o jovem leitor a pensar criticamente a sociedade brasileira, as relações humanas e o próprio indivíduo, o que constitui o imensurável alcance da literatura.

Conheça a Coleção Clássicos Ateliê

*Professora de Literatura e subcoordenadora de Português no Colégio Bandeirantes, São Paulo.Mestre e doutoranda em Literatura Brasileira pela USP, com projetos de pesquisa sobre Machado de Assis e João Guimarães Rosa. Autora da apresentação e das notas de A Ilustre Casa de Ramires, de Eça de Queirós, edição Clássicos Ateliê.Autora do posfácio de O Jardim Secreto, de Frances Hodgson Burnett (Penguin/Companhia das Letras) e de análises de clássicos da literatura brasileira para a Companhia das Letras (Caderno de leituras).

Seleta de Poemas – Viagem a um Deserto Interior

 

Imagem2Hoje, 15 de outubro de 2015, a partir das 19h, acontece o lançamento do livro Viagem a um Deserto Interior, de Leila Guenther, na Casa das Rosas (Avenida Paulista, 37 – Bela Vista – São Paulo). A autora fez, ela mesma, uma seleção de poemas e ilustrações (feitas por Paulo Sayeg), exclusiva para os leitores do Blog da Ateliê conferirem alguns trechos do livro, em primeira mão. “Espero todos no lançamento desta noite”, convida.

 

CONTORCIONISMO

viagem 5

Já caibo numa

Caixa de sapato

 

Mas o que eu queria mesmo

Era ser trapezista

 


viagem 2
A CHAT WITH CHET

Gosto mais de sua voz agora

grave, baixa, pesada

pela força de atração da terra

sem aquele caráter flutuante de quando você era

um rapaz bonito e perfeito.

 

Gosto da economia de suas notas

e da sonoridade que elas adquiriram

depois que você perdeu os dentes.

Gosto mais de você sem dentes

e dos sulcos que surgiram das profundezas de sua face

depois que a máscara uniforme de garoto se quebrou.

 

Queria ter podido afagar todo esse seu rosto verdadeiro

quando você caiu daquela janela em Amsterdã.

 

 

 

LESS                                                                                          viagem 4

Nunca tive um lugar que fosse meu.

O que tenho são mochilas, caixas de papelão, objetos

[descartáveis usados inúmeras vezes.

Me resguardo atrás das paredes frágeis de embalagens e

[sacolas de plástico.

Quando acordo durante a noite, é sempre em outro lugar.

[Um dia a porta fica à direita; no outro, a cama é

[estreita. As vezes esbarro em objetos que

[surgem do vazio.

 

Nunca tive para onde voltar. Não lembro como é tomar

[água em copo.

Vivo nos livros. Os que estão guardados, longe. Fiz deles

[minha casa. Construo com páginas e paciência o teto,

[as janelas, o minúsculo quintal.

Já faz tempo que a escova de dentes não habita uma

[gaveta.

Já faz muito tempo que desaprendi a utilidade dos

[cabides.

 

 

 

 

CONSTRUINDO A PAISAGEM

Usando a natureza

Para imitar a arte

 

Reduzindo o cascalho

A abstração

viagem1Petrificando a distância

Para sustentar o tempo

Assim engendra a cabeça raspada que o sol cresta

De nenhum ponto do espaço se veem as quinze partes:

Uma está sempre escondida atrás do todo

Em Ryoan-ji

Não há nada mais vivo do que as pedras

E para quem as dispõe

Já não é possível sair do jardim

Sem perturbar a ordem do arado

viagem 3

DIA DE NATAL:

em silêncio ela agradece

pelo filho que não teve

 

 

 

Leitura, cognição e cultura

A leitura é uma atividade que traz mais que novas informações; ela nos ajuda a conhecer o passado e a exercitar nossa capacidade de abstração e criatividade

Antônio Suárez Abreu*

antonio suarezBenjamin K. Bergen, professor de ciência cognitiva da Universidade de San Diego, Califórnia, escreveu recentemente um livro instigante chamado LouderthanWords, onde narra suas pesquisas sobre leitura no Laboratório de Linguagem e Cognição da sua universidade.   Segundo ele, à medida que lemos um texto, nossa mente vai construindo, inconscientemente, imagens vinculadas a ele.  Se lemos a respeito de um bife no açougue, imaginamo-lo de cor vermelha, mas, se lemos a respeito de um bife no prato, imaginamo-lo de cor marrom, tostado. Segundo ele, quando ouvimos ou lemos um texto de ação, que contém movimentos, o local de nossas mentes responsável por eles reproduz os movimentos, como se os estivéssemos de fato praticando.   A conclusão a que chegamos é que ler não nos traz apenas novas informações, mas exercita enormemente nossa capacidade de abstração criativa.

Um outro fato importante é que, em nosso dia a dia, tudo o que fazemos tem relação com nosso passado.  Se chegamos à frente de um elevador, sabemos que temos de apertar um botão para chamá-lo e, ao entrar nele, um outro, situado na parede, correspondente ao andar que queremos atingir.  Fazemos isso por analogia, porque já utilizamos, anteriormente, muitos outros elevadores.   Somente conseguimos viver e agir em nosso presente, graças ao nosso passado.   Se nossa memória passada fosse apagada subitamente, não poderíamos sequer dar um passo à frente.  Bem, é aí que surge um outro fator importante da leitura.  Por meio dela, podemos tornar também disponível para nós o passado de outras pessoas.   Antes da descoberta da escrita, cada geração partia da estaca zero, pois não dispunha dessa memória armazenada. Certa vez, quando elogiado por seus feitos científicos, Isaac Newton disse: “Se eu vi mais longe foi por estar sobre ombros de gigantes”, fazendo alusão aos conhecimentos obtidos pela leitura daqueles que o haviam antecedido.

Ler carrega nossas mentes com informações que nos permitem ser criativos, adaptando conhecimentos passados a situações presentes, utilizando elementos da ciência e tecnologia que não estavam disponíveis em épocas anteriores.  Foi o que aconteceu com Alan Turing, quando criou seu primeiro computador, durante a Segunda Guerra Mundial.  Ele foi buscar no passado as experiências de Charles Babbage e Ada Lovelace, filha de Lord Byron, criadores dos algoritmos que levariam, hipoteticamente, à construção de uma Máquina Analítica, cuja existência era impossível no século dezenove, quando havia apenas recursos mecânicos e não os eletrônicos com que contava Turing, já na metade do século vinte.

E a leitura de ficção?  Bem, estou falando de grandes autores como Shakespeare, Oscar Wilde, Machado de Assis e não de best-sellers descartáveis.  Quando lemos essas grandes obras, temos duas coisas a ganhar: a possibilidade de “viver outras vidas” e a possibilidade de conhecer épocas e culturas diferentes.   O grande escritor peruano Mario Vargas Llosa, ganhador do prêmio Nobel de Literatura, falando sobre leitura de ficção, nos diz:“Condenados a uma existência que nunca está à altura de seus sonhos, os seres humanos tiveram que inventar um subterfúgio para escapar de seu confinamento dentro dos limites do possível: a ficção.  Ela lhes permite viver mais e melhor, ser outros sem deixar de ser o que já são, deslocar-se no espaço e no tempo sem sair de seu lugar nem de sua hora e viver as mais ousadas aventuras do corpo, da mente e das paixões, sem perder o juízo ou trair o coração.”

Além de viver outras vidas em nossas mentes – e aprender e crescer com elas – quase sempre nos deparamos com informações interessantes sobre o mundo presente ou passado.  Lendo o clássico To Kill a Mockingbird, de Nelle Harper Lee, topamos com a descrição de um meio de transporte chamado “HooverCart”.  Ficamos, então, sabendo que nos Estados Unidos, durante a grande depressão dos anos 30, pessoas que tinham comprado automóveis e não tinham mais dinheiro para a gasolina arrancavam seus motores e atrelavam cavalos ou mulas à lataria, improvisando um meio insólito de transporte, batizado, por ironia, com o nome do presidente americano da época Herbert Hoover.

Ler, enfim, é muito mais que simplesmente informar-se. Leitura é diversão, uma maneira de conhecer realidades distantes no tempo e no espaço e de colecionar uma bagagem cultural ampla, que nos ajuda a entender o mundo de uma maneira mais vasta e profunda.

 

* Antônio Suárez Abreu é professor titular de Língua Portuguesa da UNESP, professor associado da USP e autor de vários livros sobre a linguagem.

Conheça a obra de Antônio Suárez Abreu

Ler é cegar o tempo

A leitura é um hábito que pode ser cultivado até mesmo quando se leva a vida corrida das metrópoles

 Alex Sens*

 

Verão na Noruega, o sol brilha tímido nas fímbrias escuras da meia-noite e os turistas exploram sua natureza com aquele desejo fervilhante de aventura. De uma perigosa formação rochosa chamada Trolltunga, despenca uma estudante australiana que só queria fotografar a si mesma. Um casal de alemães adentra a famosa geleira Nigardsbreene é esmagado por um bloco de gelo que se desprende abruptamente, assim como suas vidas. Uma russa se arrisca na beirada íngreme da cachoeira Vøringsfossen e é engolida pela furiosa morte líquida que já desfez tantos outros corpos.

Se a leitura fosse uma distração perigosa, colocada nesses contextos seria mais cômica do que trágica. Morrer lendo talvez soe romântico e é inegável sua possibilidade. Os turistas, corajosos ou desavisados, não estavam lendo, mas poderiam. Trazendo outros acidentes para cá, eis a mulher cair nos trilhos do metrô enquanto caminha com um livro aberto e os olhos salgados de emoção; eis o jovem poeta atravessar a Avenida Paulista e ser levado por um ônibus enquanto lê T. S. Eliot e morde uma maçã verde, que rola pelo asfalto com uma vírgula de sangue onde os dentes cavaram um verso; eis o professor apressado que pisa em falso enquanto lê um ensaio da Sontag e desaparece na escuridão de um bueiro. Trocamos os livros por celulares e a realidade macabra dessas imagens torna-se ainda mais palpável.

Foto de Alex Sens

Foto de Alex Sens

Sem um livro, a concentração do sujeito durante o momento da espera é absolutamente focada na própria espera e na inflexível densidade do tempo. Em agências bancárias, presas em filas tediosas, pessoas cujos olhos se voltam urgentes para o alarme que indica a próxima senha se acham nauseadas pelo ócio.Com tantas pessoas perdidas num vazio característico das filas, sobretudo a dos bancos, a vontade é de dar a elas um pouco de leitura, uma utilização inteligente do tempo. Ler é cegar o tempo, mas comumente estamos diante de um tempo enxertado nos olhos arregalados da pressa ou cansados da modorra. Ler, onde quer que seja, é viver em melhor companhia, mas invariavelmente, dentro ou fora das filas, o que vemos é o tempo fugindo da leitura e sendo reclamado como se fosse estreito, tão estreito como um livrinho de cem páginas possível de ser lido em dez dias durante aqueles minutos que antecedem o sono — ou sua vez numa fila.

Com o mesmo caráter raro de encontrar um âmbar durante um passeio, no Brasil e em tantos outros países em que a leitura também é um problema socialmente desigual, ainda é um instante de encanto ver um leitor distante da sua condição de ponteiro-de-tempo no relógio-fila, apartado da espera, esse lugar inatingível quando a literatura ou qualquer outro tipo de arte é o próprio meio. Estamos acostumados a ver cabeças tombadas sobre aparelhos luminosos, nunca sobre um conjunto de folhas. Concentração, adquirida com mais leitura, é a força necessária para a lógica de uma interpretação coesa. O saber ler nada tem a ver com a decifração de símbolos e fonemas, mas com interpretação, e a competência para ela vem tanto da concentração dedicada quanto da necessidade de se perguntar a leitura, de se deixar encharcar pelo que está sendo lido.

Como toda atividade mental que tem a necessidade de se tornar mais uma atividade possível, portanto acessível a todos, a prática da leitura demora a ser enraizada e tornada não intervalo de tempo, mas consumação dele, comunhão com a inteligência e com a cultura. Utilizar-se da leitura sem moderação, mas com um olhar e um ouvido no mundo ao redor para que ela não se torne assassina da atenção, em trens, metrôs, filas e salas de espera, pode e deve ser a extinção das desculpas e da culpabilidade da falta de tempo. Nós controlamos nosso tempo, nós, e somente nós, o moldamos como argila e damos a ele o formato mais adequado. Por prazer ou acidente, leia sempre, leia mais, leia muito. Só não morra por isso porque há uma lista infinita de obras a serem lidas e elas esperam ser dessacralizadas pelo seu precioso e irrecuperável tempo.

 

*Escritor, nascido no ano de 1988 em Florianópolis, SC, e radicado em Minas Gerais. Publicou Esdrúxulas, pequeno livro de contos de humor negro e realismo mágico, seguido pelo livro artesanal Trincada. Teve contos e poemas publicados em sete coletâneas e em revistas literárias virtuais, assim como resenhas de livros, entrevistas e críticas em sites de jornalismo cultural. O Frágil Toque dos Mutilados (Autêntica Editora, 2015), seu romance de estreia, venceu o Prêmio Governo de Minas Gerais de Literatura 2012 na categoria Jovem Escritor.

“Antologia da Poesia Erótica Brasileira” – Poemas Selecionados

capa antologia da poesia erotica brasileira

 

Eliane Robert Moraes, organizadora da Antologia da Poesia Erótica Brasileira – lançada na FLIP 2015 – conta, em entrevista, que a obra, ilustrada com desenhos de Arthur Luiz Piza, reúne desde textos anônimos até poemas de escritores consagrados, como Mário de Andrade, Olavo Bilac e Adélia Prado. A seguir, ela fez duas seleções, especialmente para os leitores do Blog da Ateliê terem uma pequena amostra do que o livro reserva a eles (e nós selecionamos alguns desenhos também).

 

 

Seleção 1: “Um pouco mais comportada, mas sem perder o tom ‘picante'”, diz a organizadora

ilustra piza 106

“Por decoro”

Artur Azevedo (1855–1908)

Quando me esperas, palpitando amores,

e os lábios grossos e úmidos me estendes,

e do teu corpo cálido desprendes

desconhecido olor de estranhas flores;

 

quando, toda suspiros e fervores,

nesta prisão de músculos te prendes,

e aos meus beijos de sátiro te rendes,

furtando as rosas as purpúreas cores;

 

os olhos teus, inexpressivamente,

entrefechados, languidos, tranquilos,

olham meu doce amor, de tal maneira,

 

que, se olhassem assim, publicamente,

deveria, perdoa-me, cobri-los

uma discreta folha de parreira.

 

 

“Seios”

Cruz e Souza (1861-1898)

 

Magnólias tropicais, frutos cheirosos

das arvores do Mal fascinadoras,

das negras mancenilhas tentadoras,

dos vagos narcotismos venenosos.

Oasis brancos e miraculosos

das frementes volúpias pecadoras

nas paragens fatais, aterradoras

do Tédio, nos desertos tenebrosos…

Seios de aroma embriagador e langue,

da aurora de ouro do esplendor do sangue,

a alma de sensações tantalizando.

O seios virginais, talamos vivos,

onde do amor nos êxtases lascivos

velhos faunos febris dormem sonhando…

 

 

“Soneto”

Mário de Andrade (1893-1945)

Aceitaras o amor como eu o encaro?…

…Azul bem leve, um nimbo, suavemente

Guarda-te a imagem, como um anteparo

Contra estes moveis de banal presente.

Tudo o que ha de melhor e de mais raro

Vive em teu corpo nu de adolescente,

A perna assim jogada e o braço, o claro

Olhar preso no meu, perdidamente.

Não exijas mais nada. Não desejo

Também mais nada, só te olhar, enquanto

A realidade e simples, e isto apenas.

Que grandeza… A evasão total do pelo

Que nasce das imperfeições. O encanto

Que nasce das adorações serenas.

ilustra piza 52

“Noturnos VIII”

Gilka Machado (1893-1980)

E noite. Paira no ar uma etérea magia;

nem uma asa transpõe o espaço ermo e calado;

e, no tear da amplidão, a Lua, do alto, fia

véus luminosos para o universal noivado.

 

Suponho ser a treva uma alcova sombria,

onde tudo repousa unido, acasalado.

A Lua tece, borda e para a terra envia,

finos, fluidos filos, que a envolvem lado a lado.

 

Uma brisa sutil, úmida, fria, lassa,

erra de vez em quando. E uma noite de bodas

esta noite… há por tudo um sensual arrepio.

 

Sinto pelos no vento… e a Volúpia que passa,

Flexuosa, a se rocar por sobre as casas todas,

como uma gata errando em seu eterno cio.

“Epitalâmio”

José Paulo Paes (1926-1998)

uva

pensa da

concha oclusa

entre coxas abruptas

teu

vinho sabe

a tinta espessa

de polvos noturnos

(falo

da noite

primeva nas águas

do amor da morte)

“Divisamos assim o adolescente”

Mário Faustino  (1930-1962)

Divisamos assim o adolescente,

A rir, desnudo, em praias impolutas.

Amado por um fauno sem presente

E sem passado, eternas prostitutas

Velavam por seu sono. Assim, pendente

O rosto sobre o ombro, pelas grutas

Do tempo o contemplamos, refulgente

Segredo de uma concha sem volutas.

Infância e madureza o cortejavam,

Velhice vigilante o protegia.

E loucos e ladrões acalentavam

Seu sono suave, até que um deus fendia

O céu, buscando arrebatá-lo, enquanto

Durasse ainda aquele breve encanto.

 

 

“Lembranças de Maio”

Adélia Prado (1935-)

 

Meu coração bate desamparado

onde minhas pernas se juntam.

É tão bom existir!

Seivas, vergonteas, virgens,

tépidos músculos

que sob as roupas rebelam-se.

No topo do altar ornado

com flores de papel e cetim

aspiro, vertigem de altura e gozo,

a poeira nas rosas, o afrodisíaco

incensado ar de velas.

A santa sobre os abismos –

a voz do padre abrasada

eu nada objeto,

lírica e poderosa.

 

Seleção 2: Que a organizadora intitula “Safadezas sortidas”

ilustra piza 73

 “A pica ressuscita mulher morta”

Francisco Moniz Barreto (1804-1868)

A pica o instrumento é que no mundo

Mais milagres tem feito e mais proezas2;

A pica o melhor traste e das belezas,

Mal que começa a lhes coçar o sundo.

 

A pica é o cão, que avança furibundo

A plebeias, fidalgas, e princesas;

A pica em chamas Troia pôs acesas,

E a Dido fez descer do Urco ao fundo.

 

É a pica – carnal, possante espada,

Que o mundo, perfurante, emenda, entorta,

E tudo vence, como bem lhe agrada.

 

A pica, ora e calmante, ora conforta;

Sendo em dose alopática aplicada,

A pica ressuscita a mulher morta.

 

[Não passou por essa rua]

Laurindo Rabelo (1826-1864)

Não passo por esta rua,

Que não veja esta perua,

Na porta com dois e três;

Que fodas não dá no mês

Aquele cono tão quente!

E chega a ser tão potente

A maldita da cachorra,

Que no cu sempre tem porra,

Na porta sempre tem gente!

 

“Ela”

Olavo Bilac (1865-1918)

Maria tem vinte amantes!

Uns tortos, outros direitos;

Todos eles são galantes,

Todos vivem satisfeitos…”

Mulher de recursos fartos!

Como é que esta impenitente,

Tendo no corpo dois quartos,

Dá pousada a tanta gente?

ilustra piza 97

“Os quatro Elementos – A terra”

Vinicius de Moraes (1913- 1980)

Um dia, estando nós em verdes prados

Eu e a Amada, a vagar, gozando a brisa

Ei-la que me detém nos meus agrados

E abaixa-se, e olha a terra, e a analisa

 

Com face cauta e olhos dissimulados

E, mais, me esquece; e, mais, se interioriza

Como se os beijos meus fossem mal dados

E a minha mão não fosse mais precisa.

 

Irritado, me afasto; mas a Amada

A minha zanga, meiga, me entretém

Com essa astúcia que o sexo lhe deu.

 

Mas eu que não sou bobo, digo nada…

Ah, e assim… (só penso) Muito bem:

Antes que a terra a coma, como eu.

 

“Brincadeira”

Francisco Alvim (1938-)

Debaixo da mesa –

de porquinho –

um fuçando o outro

“Poesia Pura”

Rubens Rodrigues Torres Filho (1942-)

No álbum dos nossos momentos felizes

nunca me esquecerei daquela vez

que você gozou tão gostoso, junto comigo,

lá no sofá do apartamento da Mourato

que peidou. Soltou um peido alto,

de prazer? De gratidão? E foi lindo

que aí você me olhou e sorriu encabulada.

Então peido não é amor?

Se vem do cu é menos expressão?

Mais sonoro e sincero poema

de amor, juro: estou para ouvir.