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ESTRANHOS OBJETOS DE DESEJO

Regiane Teixeira | Revista São Paulo Seção Reportagens – Arte | Pág. 22-24 | 17 a 23 de agosto de 2014

Feira de arte impressa vende experimentações com papel em baixíssima tiragem 

No meio do caminho entre a livraria e a galeria de arte, há uma feira que vende obras como um maço de folhas de sulfite dentro de um bloco de concreto. A peça do artista Marcelo Cidade integra a sexta edição da Feira de Arte Impressa Tijuana, que ocorre no próximo fim de semana (Casa do Povo – Rua Três Rios, 252, Bom Retiro, São Paulo – SP | 23 e 24 de agosto, das 12h às 20h – entrada livre e gratuita) no Bom Retiro, região central.

Por ali, 120 expositores irão vender livros de artistas, de edição limitada, produzidos artesanalmente ou por pequenas editoras nacionais e estrangeiras.

Desde a primeira edição do evento, em 2009, as publicações vêm ganhando formatos bem diferentes dos tradicionais cadernos com textos, desenhos e fotos.

O visitante que for à Casa do Povo, centro cultural onde o evento é realizado, irá se deparar com um livro que não pode ser folheado ou com caixas cheias de papéis.

Obra de Marcedo Cidade, à vendo por R$ 4.000

 

Uma delas é a “Zero à Esquerda”, com poesias e artes impressas feitas com diferentes técnicas, como a serigrafia e o offsete. Dentro da caixa de papelão há trabalhos de cerca de 30 artistas, entre eles Tadeu Jungle [cineasta], Regina Silveira [artista plástica] e do poeta Haroldo de Campos [1929-2003].

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O artista e poeta Omar Khouri com a caixa “Zero à Esquerda”, feita em 1981

“A ideia era fazer uma exposição portátil”, explica Omar Khouri (Revistas na Era Pós-Verso), 66, que editou o projeto com o poeta Paulo Miranda. O último exemplar de uma série de 500 feita em 1981 estará à venda por R$ 300.

O ilustrador paulistano Fabrizio Lenci, 26, o fotógrafo argentino Pablo Saborido, 34, e o publicitário colombiano Nicolas Llano, 30, já produziram dois guias sobre restaurantes de São Paulo, que misturavam ilustração, texto e foto.

Desta vez, eles apostaram em um guia formado por uma série de objetos inspirados em um único estabelecimento: o japonês Kintaro, na Liberdade. Cada um dos itens do kit que representa o local foi concebido por um artista convidado. Quem comprar o Guia San Pablo Kintaro, a R$ 100, levará hashis ilustrados, álbum de fotos, uma bandeira e um boneco em formato de peixe, além de ajudar os dois donos do restaurante, que também são lutadores, a participar do campeonato mundial de sumô no final do mês em Taiwan.

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Desenho em perspectiva do boteco Japonês Kintaro, na Liberdade

“Eles são atletas e não têm apoio de ninguém. São nossos amigos e queremos levantar uma grana para ajudá-los”, conta Saborido.

Segundo Ana Luiza Fonseca, editora e criadora da Tijuana, o público das feiras de arte impressa amadureceu e quem vai aos eventos sabe que encontrará projetos bem experimentais. “No começo, a gente sentia que tinha uma incompreensão muito grande”, diz. “Mas hoje as pessoas veem graça nisso e o evento é algo esperado.”

A baiana do Cáucaso

Alvaro Machado | Carta Capital Seção Plural | Pág. 63-64 | Agosto de 2014

Protagonista Peregrina do conhecimento, Jerusa Pires Ferreira traça o caminho do conto russo até o cordel

A baiana do CáucasoA vasta Rússia também abriga sertões, agrestes “a combinar encantamento e horror”, na expressão da baiana Jerusa Pires Ferreira, que percorreu essas plagas para inteirar-se de detalhes de sua rica literatura e desvendar um enigma: por que o sertanejo do Nordeste brasileiro identifica-se às histórias russas a ponto de recontá-las e adaptá-las com tanto esmero em sua tradição oral e publicações populares desde os anos 1950?

Em linguagem quase antiacadêmica, clara e saborosa, como se retraçasse o voo de uma maravilhosa fênix caucasiana até o pouso em cajueiro do Sergipe, as respostas estão no mais recente livro da autora, professora e tradutora, Matrizes Impressas do Oral – Conto Russo no Sertão. “É o resultado de meus interesses da vida inteira, pois nunca mudei de personalidade e segui o caminho que a vida cedo indicou”. Guarnecido de fac-símiles de folhetos de cordel, xilogravuras e ilustrações, tanto garimpadas como novas (de Tainá Nunes da Costa), o volume surge com traduções inéditas, em prosa, dos poemas O Czar Saltan (recolhido por Aleksandr Púchkin) e O Trovador Kerib (de Mikhail Lérmontov), assinadas pelo consorte da pesquisadora de 76 anos, o venerável professor Boris Schnaiderman.

Aos 97 anos, o criador do Departamento de Russo da USP traduz com estilo inimitável: “Três donzelas à janela teciam de noitinha já mais tarde”, reza a abertura de Saltan. O ucraniano e a baiana uniram-se legalmente em 1986, após uma década de colaborações universitárias. “Ao fazer o doutorado em São Paulo, me disseram que somente uma pessoa poderia conversar sobre as coisas que eu estudava. Fui à sua casa e na mesma hora ele determinou a precedência das estranhas histórias de cordel que eu levava”.

Era 1978, e Boris mapeou o Cáucaso para que Jerusa refizesse caminhos percorridos 200 anos antes pelo poeta nacional da Rússia, Púchkin. Qualifica-se, porém, “peregrina desde criança”, em busca dos temas que sempre a fascinaram: “Eu me chamo Sertão e mundo”. Na década de 1950, a tradicional sociedade baiana, no entanto, não admitia esse tipo de saídas. “Fui proibida de estudar aos 19 anos, quando me casei e tive dois filhos seguidos”. A “adoração pelos livros e pelas formas” não esmoreceu. “Passava os domingos estudando latim e gramática comparativa com professora particular”.

A Escola de Música da Universidade Federal da Bahia, próxima à sua casa e onde pontificavam Hans-Joachim Koellreutter e Walter Smetak, fortalecia, por outro lado, a paixão pela música, que ela ainda cultiva ao piano e à guitarra antiga. Não poderia perder, assim, a chance de carona com o marido engenheiro durante bolsa de estudos em Lisboa e, com 22 anos, foi sentar-se, sem matrícula formal, em frente dos “maiores mestres portugueses do século passado”, quando entendeu de fato “a natureza das transições entre Idade Média, Renascimento e Barroco”. A “clandestinidade intelectual”, como define, foi consolidada formalmente em 1975, em Urbino, Itália, após a conclusão de curso de Letras, em Salvador, e a separação do primeiro marido.

Em estágio no Centro Internazionale Scienze Semiotiche, conviveu com o Filósofo francês Jean-François Lyotard e outros grandes teóricos, russos e europeus. “Também me embebi da obra dos pintores nascidos naquela comuna amuralhada, Rafael Sanzio, Paolo Uccello e Piero Della Francesca, e descobri uma coisa maravilhosa chamada Semiótica da Cultura, pela qual optei e na qual permaneço”. A disciplina fraqueou-lhe “outros fluxos de conhecimento” e, em 1977, conheceu, em São Paulo, o linguista suíço-canadense Paul Zumthor, do qual viria a traduzir quase toda a obra ensaísta, o que tomou boa parte de sua trajetória de estudos e ainda lhe ocupa tempo considerável.

“Quando o conheci, ele tinha idade para ser meu pai, pois em 2015 completaria 100 anos. Nos tornamos amigos-irmãos. Reconheci imediatamente aquela atitude de anular a hierarquia desagradável entre popular e erudito e passei, como ele, a transversalizar. Zumthor pensava a literatura medieval em termos de gestos e de corpo e, por isso, sofreu muitas restrições dos eruditos”.

Traduzidas por Jerusa, obras como A Letra e a Voz e Performance, Recepção e Leitura alimentam, cada vez mais, bibliografias de cursos de artes cênicas. “Ele veio ao Brasil conhecer a pessoa com a qual se correspondia e esperava encontrar um rapaz, considerando Jerusa algo como o nome judeu Gersha. Gostava de rock e, numa das visitas ao País, conheceu Caetano e Gil na casa de Haroldo e Augusto de Campos”. Ao visitar a Fazenda da família Pires Ferreira, em Feira de Santana, o intelectual “logo identificou os latifúndios nordestinos à organização social do Medievo europeu”.

A percepção do linguista perfaz uma das respostas possíveis à questão da aproximação entre as culturas russa e nordestina levantada por Matrizes Impressas. De outro lado estão impressos que maravilharam gerações de leitores a partir de 1950: “As edições ilustradas dos ‘mais belos contos’ russos, poloneses etc. transitaram mais tarde também em volumes populares, de selos como Avec e Quaresma, e o poeta de cordel as apanhou e recriou”, explica Jerusa. A essa “arquimatriz do saber universal” a professora tem se dedicado, a alimentar, ainda, “adesão integral à universalidade”, inaugurada com o aprendizado, aos 15 anos, da primeira língua estrangeira, o alemão. O idioma rende trabalhos como a compilação comentada da tipologia faustiana na literatura mundial, a surgir em livro. Temas de seu pós-doutorado, as obras derivadas do personagem tomam um quarto inteiro nos fundos de seu apartamento, no bairro paulistano de Higienópolis: “O Fausto mora aí atrás”.

 

15'5x22'5 - 15mm lombada

 

Matrizes Impressas do Oral: Conto Russo no Sertão

Jerusa Pires Ferreira

Ateliê Editorial

114 páginas.

R$ 57,00

 

 

Vida de Eça de Queiroz é esmiuçada em caprichada biografia

Elemara Duarte | Hoje em Dia | Domingo | Página 05 | 20 de Julho de 2014

16x23 - 35mm lombada

 

Outro lançamento sobre um escritor da terra do descobridores do Brasil chega às livrarias: “Eça de Queiroz: Uma Biografia ” (coedição Ateliê Editorial e Unicamp, 600 páginas, R$ 110). Trata-se de mais um livro do especialista em estudos queirozianos, o português Alfredo Campos Matos.

A biografia de Eça de Queiroz (1845-1900) foi originalmente publicada na França e em seguida, com edição ampliada, em Portugal, em 2009. A edição brasileira também recebeu acréscimos. Nela, o autor introduziu informações aos retratos psicológicos de Eça e de Emília de Castro, a mulher dele.

Outras pitadas biográficas novas se referem aos anos do escritor como estudante, no Porto. Completam o megalivro (de capa dura), vários textos de críticos da obra de Eça, dinamizando a pesquisa do biógrafo, um arquiteto por formação.

O autor de romances como “O Primo Basílio ” (1878) e “Os Maias ” (1888), ambos inspiradores de dramaturgias televisivas nacionais, nunca veio ao Brasil mas com poucos meses passou a ser criado por sua ama e madrinha brasileira, a costureira pernambucana Ana Joaquina Leal de Barros, e junto aos avós paternos. Eça viveu sob os cuidados de Ana até os cinco anos, quando ela morreu.

Outra relação com o Brasil vem da parte do avô dele, José Joaquim de Queiroz e Almeida, que refugiara-se no Rio de Janeiro, na época das lutas liberais. Em terras cariocas, em 1820, nasceu José Maria de Almeida Teixeira de Queirós, pai do romancista. Anos depois, a família retornou para Portugal.

Eça foi rejeitado pela mãe, Carolina Augusta Pereira d’Eça, uma jovem de 19 anos que se envolveu com o pai do romancista, mais velho do que ela. Anos depois, eles acabaram se casando e o reconheceram. A biografia é ricamente detalhada sobre este processo, trazendo, por exemplo, a carta do pai à mãe de Eça, explicando-a sobre o porquê de estar ignorando o nome dela no registro da criança, seguindo conselhos do avô.

“Isto é essencial para o futuro de meu filho, e para que, no caso de se verificar o meu casamento consigo – o que talvez haja de acontecer brevemente –, não seja ‘precisa’ sem tempo algum justificação de filiação”, cita a biografia.

Conheça mais sobre a obra Eça de Queiroz: Uma Biografia

As pastorinhas de Pirenópolis – GO

Diário do Nordeste | Caderno 3 | Página 04 | 22 de Julho de 2014

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Resultado de um extenso trabalho de pesquisa, recuperação e análise de textos antigos, nesta obra faz um precioso registro de “As Pastorinhas”, auto natalino tradicionalmente representado na cidade de Pirenópolis, interior de Goiás. Além de registrarem o texto original do auto, no livro estão transcritas as partituras das canções. O auto, que traz uma singeleza quase primitiva, é dividido em três atos, alternando falas e cantigas e como manda a tradição, narra a história do grupo de pastores que partiu de Jerusalém para saudar o nascimento do menino Jesus, em Belém.

 

As pastorinhas de Pirenópolis-GO (2014)

Lênia Márcia Mongelli e Neide Rodrigues Gomes (org.)

Ateliê Editorial

248 páginas

R$ 66,00

MEMÓRIAS COM MANUEL ANTÔNIO DE ALMEIDA

João Luiz Marques | Revista ANL | O escritor e sua obra | Julho de 2014

Outro dia vi uma lista curiosa na internet (www.revista- bula.com): “30 livros de autores brasileiros para morrer antes de ler”. Notem que essa lista é de livros que não devem ser lidos! Estranhei… Meu saudoso Memórias de um sargento de milícias, de Manuel Antônio de Almeida, que tanta alegria me deu no colegial, fazia parte dessa lista. Que injustiça! Nos tempos do meu ensino médio só líamos os clássicos, literatura contemporânea não fazia parte do currículo. Era difícil para um jovem romper a barreira do tempo e gostar dos livros que os professores mandavam a gente ler. Manuel Antônio de Almeida me abriu essas portas, com ele descobri que havia alegria na literatura e passei a ter prazer com a leitura literária.

Manuel Antônio de Almeida (1830-1861) formou-se em Medicina em 1855, mas nunca exerceu a profissão, e durante a faculdade, com dificuldades financeiras, foi trabalhar como jornalista. Escreveu para o teatro, fez poesia, além de publicar sua tese de doutoramento em Medicina e um libretto de ópera, mas sua única e mais famosa obra, que ficou para história da literatura brasileira, é o romance Memórias de um sargento de milícias. Foi publicado, inicialmente, como folhetim, na seção “Pacotilha” do jornal Correio Mercantil, entre 27 de julho de 1852 e 31 de julho de 1853, começou num período de campanha eleitoral. Havia dois partidos, o dos conservadores, que estavam no poder, e dos liberais, na oposição; o Correio Mercantil apoiava os liberais. Apesar de não haver nenhum conteúdo diretamente partidário, havia críticas disfarçadas ao governo conservador. Manuel Antônio de Almeida dizia que “nossa literatura é filha da política”. Além dessa característica, a obra também ajudou a fixar uma imagem descontraída e insinuante da sociedade brasileira.

Depois desses folhetins do jornal, Memórias de um sargento de milícias saiu em livro, dois pequenos volumes, um no final de 1854 e o outro no começo de 1855. No jornal, não era apresentada nenhuma autoria, nesses dois volumes a autoria era de “Um brasileiro”, e o livro somente foi atribuído a Manuel Antônio de Almeida numa edição de 1863, publicada após sua morte, por iniciativa de Quintino Bocaiúva. Para não ficar só com a lembrança da minha leitura dos tempos de escola, fui reler o livro. Peguei uma edição da Ateliê Editorial, com apresentação e notas de Mamede Mustafa Jarouche, que tratou dessa obra em sua tese de doutoramento. Como todos devem saber, a história se passa no Rio de Janeiro e enfoca o tempo em que D. João VI permaneceu no Brasil (1808 a 1821). Narradas em terceira pessoa, as memórias são de Leonardo, o personagem central, que ainda criança já tinha “maus bofes”, e não haveria de “ter bom fim”. Contrariando as tendências em reescrever e atualizar os clássicos da literatura, essa edição da Ateliê foi baseada na primeira, de 1854-1855, e traz notas, explicando os termos pouco usuais hoje em dia, que aparecem nessa narrativa de Manuel Antônio de Almeida.

A carreira de sucesso dessa obra não ficou só naquele tempo, entrou para a história, e no século XX foi parar em outras linguagens: em composição de Paulinho da Viola Memórias de um sargento de milícias virou samba-enredo da Portela do Carnaval de 1966, depois, em 1971, essa música foi gravada em disco por Martinho da Vila. Esse
 LP do cantor recebeu o nome do
 livro: Memórias de um sargento 
de milícias.

Conheça mais sobre a obra Memórias de um Sargento de Milícias  reeditado pela Ateliê

João Luiz Marques, jornalista,
 trabalha em assessoria de imprensa com editoras de livros, escreve e administra um blog 
de incentivo à leitura, o blog do Le-Heitor, e neste ano vai lançar o seu primeiro livro, um romance juvenil, pela Editora Biruta.

 

O vocabulário de Stradelli

Evaldo Ferreira | Jornal do Commercio | Estilo de Vida | Caderno C | Julho de 2014

Livro escrito no século 19 é reeditado e apresenta dicionário, em Nheengatu

Vocabulario-Portugues-Nheengatu de Ermano StradelliOs amazonenses não sabem, mas temos uma língua falada no vale do rio Negro que um dia foi praticamente a língua da Amazônia, o nheengatu, ou língua geral.

O nheengatu surgiu em tempos que se perderam, derivado do tronco tupi como uma evolução natural da língua geral setentrional. Os colonizadores portugueses até tentaram proibi-lo mas, em não conseguindo, acabaram por achar melhor utilizá-lo como veículo de comunicação para suas catequeses, ações sociais e políticas junto aos indígenas, e mesmo a população, que aprendera a falar a língua então utilizada mais que o próprio português.

Atualmente, cerca de oito mil pessoas continuam a falar do nheengatu no vale do rio Negro, mas quem quiser se aprofundar no conhecimento dessa riqueza que um dia poderá ser extinta uma boa oportunidade é ler o “Vocabulário Português –Nheengatu/ Nheengatu- Português”, escrito por Ermano Stradelli no final do século 19, em suas andanças pelo vale do Purus para o Vale do Negro. O vocabulário foi reeditado pela Ateliê Editorial, de São Paulo, este ano.

O conde italiano Ermano Stradelli, então com 27 anos, aventurava-se pela Amazônia desde 1879 até resolver estabelecer-se definitivamente no Amazonas em 1888. Ficou conhecido pela dedicação que teve pelo estudo nheengatu e de outras línguas indígenas .

Inicialmente trabalhou como fotógrafo (a Sociedade Geogradica Italiana possui 62 dessas fotos expostas em Manaus entre julho e agosto do ano passado), virou comerciante na capital amazonense e passou a conviver com missionários franciscanos italianos, percorrendo com eles o rio Purus e seus afluentes, quando conheceu o nheengatu, pelo qual se apaixonou e estudou pelo resto da vida.

Para elaborar o vocabulário, Stradelli  contou com o auxílio de um indígena que, lógico, dominava o nheengatu, mas o próprio conde se tornou afluente na língua, cujas culturas regional e de referência conhecia extensamente.

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Proibida por duas vezes

Quando Stradelli morreu, em 1926, aos 74 anos, pobre, num casebre improvisado no leprosário do Umirisal, em Manaus, o vocabulário continuava com ele, inédito, e só foi publicado três anos depois, em formato de revista, pelo Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro.

“Longe de sermos um país monolíngue, no que respeita a fala cotidiana generalizada em todo o território nacional, somos um país bilíngue. No português que herdamos de Portugal, os brasileiros infiltraram uma segunda língua, popular, o nheengatu, que se falava aqui, duas vezes proibida por Portugal aos brasileiros , em 1727 e em 1757.  Não obstante, impregnou com sons e palavras a língua oficial e dominante, até então língua de repartição pública. O nheengatu (língua boa) ainda é falada em várias regiões e é, até mesmo, língua oficial em São Gabriel da Cachoeira,  no alto rio Negro”, explicou José de Souza Martins, na nota preliminar do “Vocabulário…”, da Ateliê.

Ainda de acordo com José de Souza Martins, “Stradelli não se limitou a arrolar vocábulos e as respectivas traduções, mas agregou-lhes uma gramática e preciosas considerações etnográficas de quem conhecia a língua vivencialmente. Esse cuidado é enriquecido pela incorporação de palavras nheengatu que já expressam a realidade social pós-tribal, resultante, sobretudo, da influência missionária invasiva, como é o caso de tupaocamiri (pequena casa de Deus), para designar capela, que não existe nas nossas sociedades indígenas: uma ideia portuguesa pronunciada em inventada palavra brasileira”, revelou

Imensa Dificuldade

Em Vocabulário Português-Nheengatu/Nheengatu-Português, o nheengatu foi mantido tal e qual o da primeira edição, de 1929. A ideia da editora é que os leitores possam apreciar mais a lógica do texto e a imensa dificuldade – explicitada na “Nota Preliminar” – enfrentada pelo conde ao tentar compor o vocabulário de uma língua cuja versão escrita ainda não havia sido (como de fato não o foi até hoje) normatizada.

 

Conheça mais sobre o Vocabulário Português-Nheengatu – Nheengatu-Português

 

RIVELINO E O DRAGÃO*

Revista Brasileiros | Seção Literatura | Pg. 131| 19 de Junho de 2014

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O futebol sobrevive e vive de renovação – mas, principalmente, de revelação. Não há clube, não há agremiação, não há dirigente nem preparador que não esteja sempre de olho aceso para adivinhar, distinguir, perceber, descobrir e catar, na sua chocadeira, algum garoto com pinta de craque.

Muitos pintam de craque, muitos piam de craque. Muitos são tratados a aveia, vitamina e pão de ló, são protegidos e resguardados das intempéries do tempo – até o momento azado, a hora da verdade, o teste final diante das plateias. E muita plateia estronda e uiva em vão, à toa e dolorosamente: a estreia não nasce na testa do moço, que vai encolhendo e desaparecendo, até confundir-se – quando e mais feliz – com a maioria normal e medíocre dos jogadores normais e medíocres. Não se revelou – ou melhor: revelou-se negativamente.

É o caso do Nei, no Corinthians. Mas não é o caso de Rivelino, que ontem deu um esplendoroso e monstruoso show de bola no Pacaembu, para o qual as excelentes jornadas de Dias e Bellini melhor serviram de palco-pedestal.

Rivelino joga duro, joga maldoso, joga o fino – magistralmente: lição de bola do menino entre doutores. Revelou-se craque, craquíssimo em todas as dimensões da alma e do corpo, só os quatro lançamentos que fez (três a Flávio e um a Bazzani) bastam para elevá-lo à altura dos maiores.

Sua genialidade de tal maneira brilhou em campo, que acabou por iluminar até o cérebro de Flávio: o admirável, majestoso troglodita gaúcho, depois de deixar de marcar em duas rivelínicas oportunidades, simplesmente seguiu a direção do braço do mestre (que lhe apontou, em plena corrida, o local do lançamento), viu-se – milagre – sozinho diante de Suli, driblou-o e assinalou um gol de paralisar pássaro no ar, encobrindo Bellini, que se postara no centro do arco!

“Petulante e sinuoso, seu controle de bola e suas fintas, seus piques e lançamentos, sua inteligência e seus nervos, sua maldade gelada e sua fúria no comando do meio-campo são realmente demoníacas”

Rivelino revelou-se. Não vai encolher nunca mais. Sua estrela sobe, grandiosa e solitária, dentro da equipe alvinegra de Parque São Jorge, dentro do futebol paulista, no céu do futebol bicampeão mundial. O Corinthians não ganhou (Dias estava lá… e Cabeção não estava), mas não importa: a fiel torcida, ontem, no Pacaembu, pôde soltar o seu generoso e portentoso bafo e desabafo de grandeza – que constitui o único, autêntico e verdadeiro reconhecimento de gênio.

Rivelino: estrela com nome. Petulante e sinuoso, seu controle de bola e suas fintas, seus piques e lançamentos, sua inteligência e seus nervos, sua maldade gelada e a sua fúria no comando do meio-campo são realmente demoníacas – são de jeito a provocar a agressão física por parte do adversário (reconhecimento de sua grandeza), à qual aliás, ele revida com prazer maligno.

Rivelino é mais do que a esperança, é a vingança dos “sofredores” corintianos. Depois de onze anos de fel e são-jorge, a fiel torcida acabou por desejar, ardentemente, a vitória do dragão com a qual se identifica e confunde.

A torcida corintiana é o dragão – e Rivelino é a labareda que sai da sua goela.

(Folha de S. Paulo, 8/3/1965)

*Uma das crônicas sobre futebol do poeta, ensaísta, tradutor e professor de semiótica Décio Pignatari (1927-2012) reunidas no livro Terceiro Tempo, com previsão de lançamento para agosto pela Ateliê Editorial. 

Conheça mais obras de Décio Pignatari

Contracomunicação

O Que é Comunicação Poética

Semiótica da Arte e da Arquitetura

Teoria da Poesia Concreta – Textos Críticos e Manifestos (1950-1960)

 

Guilherme Wisnik Indica

Guilherme Wisnik | Marca Página | Junho de 2014 |Pág. 82

 

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Geomorfologia do Sítio Urbano de São Paulo

A tese defendida em 1956 pelo autor contém uma análise do relevo e do solo paulistano, além de abordar questões sociais e ambientais relacionados aos processos de urbanização da capital.

 

 

 

 

 

 

 

Conheça outras obras de Aziz Ab Sáber 

Domínios de Natureza no Brasil, Os – Potencialidades Paisagísticas

Brasil: Paisagens de Exceção – O Litoral e o Pantanal Mato-grossense: Patrimônios Básicos

Leituras Indispensáveis

Leituras Indispensáveis 2

 

 

Crítica

Reynaldo Damazio | Guia da Folha  | 28 de Junho de 2014 |Pág. 08

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Escritores, Gatos e  Teologia

O titulo sugestivo do livro pode induzir o leitor a dois tipos de erros. Primeiro, achar que se trata de um livro com viés  religioso. Segundo, que o livro mistura alhos com bugalhos.Nada disso.

Os ensaios literários de Waldecy Tenório, professor de graduação e pós-graduação  na PUC-SP, são refinados , inteligentes e sedutores. Partem da figura enigmática do felino na poesia para chegar a ideia de transcendência, ou de que “a literatura tornou-se testemunha da raiz teológica dos problemas humanos, como se pode constatar em críticos da estatura de Octavio Paz ou George Steiner.”

Já que este resenhista não crê em transcendência, vale acompanhar o esforço do autor em “preservar o sagrado como uma categoria da sensibilidade” especialmente em Heidegger, Hilda Hist e João Cabral (Reynaldo Damazio)

 

 

 

Escritores, Gatos e  Teologia

Autor: Waldecy Tenório

Editora: Ateliê

Quanto: R$ 39 (240 págs.)

Avaliação: Bom

 

 

Produção literária forma um conjunto coeso e expressivo

Luís Augusto Fischer | Folha de S. Paulo | 19 de Junho de 2014

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Romances são incursões densas por temas nacionais e estrangeiros, mas foram eclipsados por carreira musical

Contra o reconhecimento da excelência do Chico Buarque romancista pesam fatores vastos.

Um deles terá a ver com o simples ciúmes: como pode ser um gênio da canção, com capacidade de expressar os sentimentos de todo e qualquer brasileiro, seja também bamba no gênero de maior prestígio letrado?

Mas é. Seus quatro romances, um conjunto coeso, dos mais expressivos na atualidade em qualquer língua ocidental, são incursões substantivas tanto em temas de raiz estritamente brasileira quanto internacionais.

Benjamim (1995) revisita a ditadura militar brasileira, e Leite Derramado (2009) dá voz a um moribundo herdeiro da velha história patriarcal escravagista nacional.

Já a violência terceiro-mundista aparece em Estorvo (1991), enquanto Budapeste (2003) trata do desenraizamento e a morte das identidades modernas.

Outro fator contra o reconhecimento do Chico romancista tem a ver com suas canções. Nelas, ao menos duas gerações aprenderam a ver, a sentir, a entender o país.

Nessa educação, Chico foi talvez o mais importante artista brasileiro, a marcar para sempre nosso ser-no-mundo como uma visada gentil, delicada, lírica e precisa na exposição dos sentimentos vividos por quase todos.

Ocorre que esse professor de delicadeza concebeu seus romances sempre na pauta do mal-estar, em que nada é nítido e pacífico, nunca se experimenta descanso.

Os romances dão vida a protagonistas não apenas losers, mas também anômalos, a quem não resta saída alguma – e essa sensação de rato encurralado está na superfície do enredo, mas, mais importante, na arquitetura narrativa, no ponto de vista nublado que informa o relato.

Terceiro fator: filho do ensaísta que expressou o tema da cordialidade, além de tudo Chico é um exímio, um requintado estilista do português, numa tradição literária bastante pedestre nesse quesito.

Assim como nas leras das canções, em seu romance ele é capaz de imprimir marcas retóricas em entranhada ligação com o temperamento e a história dos personagens.

O QUE HÁ PARA LER – Trabalhos sobre a obra do Artista

FIGURAS DO FEMININO NA CANÇÃO DE CHICO BUARQUE

Adélia B. de Meneses

Ateliê Editorial, R$ 57,00 (168 págs.)

– Estudo sobre a representação das mulheres na obra.

DESENHO MÁGICO – POESIA E POLÍTICA EM CHICO BUARQUE

Adélia B. de Meneses

Ateliê Editorial, R$ 52,00 (248 págs.)

– A autora faz um original paralelo entre a obra do compositor e o período do regime militar.