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João Luiz Marques entrevista o poeta Felipe Lion

Felipe Lion em show do Merlim

Felipe Lion (ao centro) em show do Merlim com participação de Kiko Zambianchi – Na Mata Café (SP) – Foto de Rogério de Lucca

Felipe Lion acabou de lançar pela Ateliê Editorial seu livro de poemas A Arte da Automutilação. Carioca, apaixonado por São Paulo, Lion é poeta, escritor, vocalista, além de autor das letras da banda Merlim, e ex-bailarino clássico. Nesta entrevista, o artista multidisciplinar fala de arte, de seu trabalho, dos livros de poesia e prosa que está preparando, do novo CD da banda e de um disco solo, e explica como consegue fazer tantas coisas ao mesmo tempo: “Tudo isso é um movimento, é um momento. Sou eu me movendo em minha vida, em minha música, em minha arte.”

Ateliê Editorial – Heitor Ferraz Mello na apresentação que faz de A Arte da Automutilação diz que em sua poesia há sempre o “jogo entre a dissolução e a reunião”. Transportando essa característica para as suas diversas atividades criativas, como você lida com essa sua pluralidade artística?

Felipe Lion – Primeiramente, devo dizer que o Heitor foi muito generoso comigo. Generoso ao fazer um prefácio pessoal, mas, ao mesmo tempo, muito analítico. Ele percebeu uma ligação entre os vários poemas do livro que é o tema da desagregação paulatina de tudo, inclusive do poeta. Hoje parece óbvio que isso é algo recorrente nesses poemas, mas eu juro não havia notado…  Sobre o meu trabalho e a maneira como uso diversas técnicas… Bom, eu não colocaria isso como uma “pluralidade”. Para mim, tudo está ligado, tudo está conectado. Desde o Renascimento tudo pode e deve se misturar, pois na essência é uma coisa só: arte.

Ateliê – Em outra parte dessa mesma apresentação, Heitor Ferraz Mello conta lembranças da adolescência que vocês viveram no bairro da Vila Mariana, em São Paulo, e diz que, elas poderiam fazer parte de outro livro seu. Você já pensou nessa “provocação” do seu amigo?

Lion – Penso sim.  Na verdade já faço isso. Em pequenas doses. Dentro de um poema, de um trecho de romance ou conto. Essas lembranças para mim são coisas muito distantes, meio mágicas. Mas eu tento dialogar com esse moleque de vez em quando. Saber o que ele espera de mim. Ele é citado diretamente em pelo menos um dos poemas do livro, Kung Fu Ballantines.

Ateliê – A Arte da Automutilação reúne poemas finalizados entre 2008 e 2012. Você tem mais trabalhos na gaveta para outro livro de poesia? Pretende publicar?

Lion – Engraçado me perguntar isso. Acabo de ser convidado para uma coletânea de poemas e, a grande questão, é se terei material para colaborar. Explico melhor: tenho muitos poemas antigos que não sinto vontade de publicar – ao menos agora – e tenho outro material, mais recente, que faz parte de um próximo livro de poemas (erótico) e ainda está sendo trabalhado. Trabalho como um pintor de paredes que passa várias mãos de tinta numa parede, até ficar satisfeito com o resultado… Isso demora.

Ateliê – E em prosa, você tem projeto novo? Está preparando algum livro?

Lion – Sim, preparo dois livros. O primeiro é um ensaio filosófico, O Estado e a Morte – reflexões sobre o direito de matar e morrer. E há, ainda, um outro livro que conta os últimos dias do nosso Segundo Império, num misto de romance histórico com realismo mágico. Pretendo lançar o ensaio no começo do próximo ano. O romance, leva algum tempinho mais, pois está em fase de pesquisa. Apesar de já ter escrito alguns trechos e de possuir toda a estrutura ficcional montada preciso de mais tempo para a pesquisa de campo. Os detalhes são muito importantes nesse tipo de obra.

Ateliê – Você tem alguma novidade pra contar da banda Merlim? CD novo, Show? Pode adiantar algum detalhe sobre novos trabalhos?

Lion – O Merlim começa a gravar um novo álbum ainda este mês. Será um processo longo e doloroso… Esperava conseguir viabilizar a assinatura do Luiz Carlos Maluly para esse projeto. Já há algum tempo ele é o melhor produtor de discos do Brasil. Todo mundo na indústria fonográfica sabe disso. Mas não conseguimos fechar com um investidor. Pensei em esperar um pouco mais para tentar acertar isso, mas meus colegas de banda me convenceram que já não podemos mais esperar… É como num parto: talvez dê para esperar pelo 10º mês, mas pedir para esperar mais do que isso pode causar mais danos que benefícios.

O Merlim é uma banda que trabalha exclusivamente porque acredita na qualidade de sua música. Não importa que tenham destruído o mercado do rock no Brasil. Não somos mais crianças. Não fazemos mais música pensando em dinheiro, mulheres e fama. Não me entenda mal… Adoramos tudo isso! Mas fazemos música porque nos divertimos muito compondo, convivendo, fazendo shows.

Já vi critico musical nos colocando no pedestal dos injustiçados! Dizendo que somos melhores do que “99% do que se ouve por ai”. Admito que até concorde com isso, mas não tenho ânimo pra vestir esse manto. Posso dizer que “apertamos o botão f…-se”!

Quanto a shows, creio que agora só no segundo semestre. Só quando acabarmos o disco. De toda a forma, quem tiver vontade pode conhecer um pouco do Merlim em seu site: www.merlim.com. O site permite cadastramento para receber a agenda de shows da banda e outras promoções, como descontos, CDs promocionais, etc.

Temos um álbum, “A Tempestade”, à venda, por download, em diversas lojas virtuais: iTunes, Amazon, etc. É só fazer a busca pelo nome da banda que você achará a página da banda e poderá baixar todo o álbum ou suas músicas preferidas.

Ateliê – Você vai lançar um disco solo, sem o Merlim? Vai partir para carreira solo? Como será esse seu novo trabalho?

Lion – Novamente, não vejo nenhuma distinção nisso… solo… Merlim… outra banda… Tudo isso é um movimento, é um momento. Sou eu me movendo em minha vida, em minha música, em minha arte. No Merlim não temos nenhum problema com isso. Até gostamos de ver os outros no palco sem a gente ao lado, só pra variar um pouco! Outro dia fui ver os dois guitarristas do Merlim – Kike Damaceno e Guto Domingues – tocando num pub. Pois bem, de repente percebi que eles também estavam cantando! E bem! Mas cantando mesmo! Músicas inteiras! No Merlim eles nunca cantam. Nunca querem cantar… no máximo fazer backing vocal. Mas eles estavam mandando ver, cheios de estilo… Foi muito divertido! Já fui ver o batera da banda, Júnior Gaspari, em outros projetos também.

Então vou lançar, sim, um disco solo que, aliás, também começa a ser gravado este mês. A produção está a cargo de um outro grande produtor, o Alexandre Fontanetti. Disco de Ouro com o álbum Bossa’n’Roll da Rita Lee. Ele é um cara que trabalha muito bem com cantores e foi atrás disso que eu fui quando bati em sua porta.

Esse vai ser um trabalho mais intimista, meio jazz, meio bossa. Não esperem, porém, uma emulação de João Gilberto. Quero levar a minha forma de falar as coisas para esse estilo. O álbum deve ficar pronto só no segundo semestre, mas em breve devo lançar o primeiro single, uma música chamada Bossa dos Jardins que é uma declaração de amor por São Paulo, feita por um carioca que, realmente, adora essa cidade.

Acesse o livro A Arte da Automutilação na loja virtual da Ateliê

Veja as fotos de Bruna Goldberger do lançamento de A Arte da Automutilação, em São Paulo:

A advogada Tais Salome com o pintor Tom Gomide

A advogada Tais Salome com o pintor Tom Gomide. Ao fundo uma de suas telas.

A atriz Giovanna Assumpção, declamando um poema

A atriz Giovanna Assumpção, declamando um poema

A jornalista Giovanna Scrimini, com Felipe Lion, o empresário Gabriel Scrimini e a RP Alessandra Vilhena

A jornalista Giovanna Scrimini, com Felipe Lion, o empresário Gabriel Scrimini e a RP Alessandra Vilhena

Casal de empresários Moscofian, donos da marca de  Parresh, com a apresentadora de TV  Laura Wie e os  fotógrafos Rogério de Lucca e Morgade

Casal de empresários Moscofian, donos da marca de Parresh, com a apresentadora de TV Laura Wie e os fotógrafos Rogério de Lucca e Morgade

Felipe Lion com o produtor musical Luiz Carlos Maluly

Felipe Lion com o produtor musical Luiz Carlos Maluly

 

Lançamento de A Arte da Automutilação

O artista plástico Thiago Cóstackz – autor da body art que se vê na capa do livro – com a apresentadora de TV Laura Wie e o autor Felipe Lion

O editor Plinio Martins declama um dos poemas do Livro

O editor Plinio Martins declama um dos poemas do Livro

Lançamento de A Arte da Automutilação

O publicitário baiano Joca Guanaes, entre a apresentadora de TV Laura Wie e a atriz e locutora Jackie Dalabona

 

Morre o poeta, crítico e professor da FFLCH, Antônio Medina Rodrigues

Fonte: USP

No dia 12 de maio foi sepultado o corpo do professor Antônio Medina Rodrigues no Cemitério Gethsemani.

O docente, autor de Utopias Gregas, lecionou no Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas (DCLV) da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH), era doutor em Língua e Literatura Grega pela FFLCH, poeta, crítico e tradutor.

Medina trabalhou também na Casa do Saber e escreveu sobre literatura e cultura em jornais como O Estado de São Paulo e Folha de São Paulo. Além disso, teve seus cursos de literatura exibidos pela TV Cultura de São Paulo.

Pela Ateliê Editorial o professor escreveu o prefácio e notas de Memórias Póstumas de Brás Cubas, da Coleção Clássicos Ateliê.

TV Cultura entrevista Beatriz Amaral e Augusto de Campos

Beatriz Amaral lançou recentemente A Transmutação Metalinguística na Poética de Edgard Braga

Para Augusto de Campos, “Beatriz Amaral soube mapear com acuidade o percurso especulativo de Edgard Braga, cuja obra, especialmente a mais radical, fulcrada no desenho e na caligrafia, veio a influenciar toda uma nova geração de poetas como Walter Silveira, Tadeu Jungle e Arnaldo Antunes.” Leia o release

Assista abaixo a entrevista do programa Metrópolis. Se o vídeo não carregar, clique aqui.

Entrevista com Antônio Suárez Abreu, professor de linguística e língua portuguesa na UNESP

Antônio Suárez AbreuPortal IG

1- Consegui ler a introdução do seu livro e vi que o senhor defende a tese que argumentar não é vencer o outro. Poderia me explicar melhor?

Geralmente, as pessoas leigas têm a falsa ideia de que argumentar é vencer o outro, pondo por terra suas ideias e opiniões.  Em termos retóricos, argumentar é fazer com que o outro tenha condições de ver o objeto da disputa de um ponto de vista diferente daquele a que está acostumado a ver e, ao final, tenha o desejo mudá-lo, concordando com quem argumenta.  Isso envolve, muitas vezes, mudanças de modelos mentais.

2- Quais os principais erros na hora de argumentar?

O principal erro é considerar o outro como um inimigo a ser vencido.  Um outro, muito comum, é abusar da técnica argumentativa chamada retorsão.   (com s mesmo, pois vem de torso).  Na retorsão, quem argumenta tenta mostrar que a pessoa com quem se argumenta pratica ações contrárias às que defende.  É o caso de alguém que, acusado de chegar atrasado, diz algo como: — Mas, você, no mês passado, também chegou três vezes atrasado.  Esse argumento é o mais usado nas chamadas DR (discussões de relação) e é por isso que um casal raramente chega a um consenso.  Geralmente, o homem foge dessas discussões como o diabo da cruz.

3- Teria algumas dicas práticas para dar para quem quer melhorar a argumentação? Quais?

Em primeiro lugar, é importante tratar o outro com educação e gentileza.  Sem isso, nada funciona.  Há um provérbio espanhol que diz: “Por bién, me llevas hasta el infierno; por mal, ni al cielo”.  Em segundo lugar, é importante aprender a ouvir mais e falar menos.  Isso permite saber quais são os valores do outro, principalmente, quais são seus modelos mentais.  Ninguém consegue convencer o outro batendo de frente com seus valores ou modelos mentais.  É sempre importante, antes de propor um argumento, conseguir abrir uma brecha nesses modelos.  No meu livro, trabalho essa ideia quando falo da re-hierquização de valores.  Você não destrói um valor do outro; apenas põe um outro acima, em termos de hierarquia.   É uma espécie de drible.  Um exemplo disso é o que fez Monteiro Lobato em seus livros infantis.  Em sua época, por volta de 1920, o “Modelo do pai rigoroso” imperava e era impossível fugir da sua força.  As crianças deviam estudar, competir, vencer e, se falhassem, deviam ser punidas.  O que fez Lobato para introduzir seu modelo de “escolanovismo” baseado em Anísio Teixeira e John Dewey?  Pôs as crianças em férias, no Sítio do Picapau Amarelo, em um lugar em que a figura do pai ficava ausente e era substituída por uma avó carinhosa, Dona Benta, que podia ensinar sem punir, contando histórias saborosas a Pedrinho e Narizinho.

4- É possível que mesmo uma pessoa extremamente tímida consiga ter uma boa argumentação? Como vencer esta barreira?

Claro que sim!  Ela deve começar fazendo com que o outro fale primeiro e exponha seus pensamentos.  Durante essa fala, ela deve prestar atenção aos valores dessa pessoa.  Se se tratar de uma negociação, ela deve pôr foco, antes de tudo, naquilo que o outro tem a ganhar e não naquilo que é o objeto imediato do seu desejo.  Isso permite uma progressão amigável da fala e é, nesse momento, que cresce a confiança, derrubando a timidez.

5- Existem palavras/técnicas que podem ajudar na argumentação? Quais?

Sim: “por favor”, “por gentileza”, “obrigado por expor tão claramente aquilo que pensa”, “como posso ajudá-lo?”. É preciso trabalhar o tempo todo de maneira cortês e sinceramente comprometida com a imagem do outro.

6- Breve currículo

Sou, atualmente, professor titular de linguística e língua portuguesa na UNESP, campus de Araraquara.  Trabalho na área de Gramática e Retórica.

Sou formado em Letras Neolatinas pela PUC – Campinas.  Tenho especialização em Língua e Literatura Portuguesa pela Universidade Clássica de Lisboa; mestrado, doutorado e livre-docência em Linguística pela USP, onde lecionei por quase 15 anos.  Fiz pós-doutorado em Linguística na UNICAMP, em 2008.

Livros publicados:

  1. Curso de Redação (Editora Ática).  Atualmente em 13ª edição, 10ª reimpressão.
  2. A Arte de Argumentar Gerenciando Razão e Emoção (Ed. Ateliê) Atualmente, em 13ª edição, 7ª reimpressão.
  3. Gramática Mínima para Domínio da Língua Padrão (Ed. Ateliê).  Atualmente, em 3ª edição revista.
  4. O Design da Escrita: redigindo com criatividade e beleza (Ed. Ateliê) Atualmente, em 2ª edição.
  5. Linguística Cognitiva (Ed. Ateliê).
  6. Texto e gramática: uma visão funcional para a leitura e a escrita (Ed. Melhoramentos).  Atualmente, em 2ª edição.
  7. Gramática Integral da Língua Portuguesa: uma visão prática e funcional (Ed. Ateliê, no prelo)

Tenho, também, mais de 50 trabalhos publicados em revistas brasileiras e estrangeiras.  Um dos meus últimos artigos, publicado nos Estados Unidos em 2008, está, desde então, entre os 10 mais lidos em toda a comunidade acadêmica internacional.

Meus trabalhos científicos têm 345 citações, de acordo com a Web Science.  Já orientei e levei à defesa, entre PUC – Campinas, USP e UNESP, 40 mestrados e 40 doutorados.

Conheça os livros do Prof. Antônio Suárez Abreu publicados pela Ateliê

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Generosidade e erudição

Ivan TeixeiraMorre o professor Ivan Teixeira, da ECA, autor de Mecenato Pombalino e O Altar & o Trono

Jornal da USP | 18 a 24 de fevereiro de 2013

Muito se fala e se teoriza acerca das qualidades que constituem um bom professor. Seu conhecimento específico, sua didática, sua visão de mundo, sua cultura ampla. Esses são ingredientes que, sem dúvida, moldam o bom mestre. Mas há uma, acima de todas essas, que melhor caracteriza aquela pessoa que dedica (ou dedicou) sua vida a ensinar: a generosidade. E é justamente essa – conjuminada a todas as outras – que melhor pode definir a carreira docente de Ivan Teixeira, que morreu no último dia 31 de Janeiro, aos 62 anos.

Professor de Cultura e Literatura Brasileira do Departamento de Jornalismo e Editoração (CJE) da Escola de Comunicações e Artes da USP e professor aposentado da Universidade do Texas em Austin – onde lecionou por mais de quatro anos -, além de ter sido, por um longo período, professor de cursinho – aquela arena onde um professor se vê cercado muitas vezes por mais de uma centena de alunos ávidos por aprender rápido aquilo que os levará à universidade -, Ivan cativava seus alunos exatamente por ser, ao mesmo tempo, generoso e exigente, culto e afável. Como bem definiu o poeta e também professor Frederico Barbosa, ele era um “entusiasmado pelo ensino, fez várias gerações de estudantes se aproximarem da literatura e sempre dividiu com generosidade e alegria seu vasto conhecimento”.

Esse “vasto conhecimento” ao qual se refere Barbosa se baseava, principalmente, no muito que ele sabia e conhecia de literatura brasileira. E que ele deixou para a posteridade na forma dos 14 livros que prefaciou, organizou e anotou. São obras fundamentais, como a edição fac-similar de Música do Parnaso, de Manuel Botelho de Oliveira; Poesias, de Olavo Bilac; Obras Poéticas, de Basílio da Gama. Além deles, Ivan Teixeira escreveu pelo menos duas obras essenciais para a cultura e a literatura nacionais: Mecenato Pombalino e Poesia Neoclássica (Edusp/Fapesp, 1999), que recebeu, na categoria ensaio, o Lasa Book Prize (Estados Unidos) e o Prêmio Jabuti, em 2000; e O Altar & o Trono: Dinâmica do Poder em O Alienista (Ateliê/Unicamp, 2010), que ganhou o Prêmio José Ermírio de Moraes, da Academia Brasileira de Letras (ABL), em 2011.

Quem foi seu aluno vai sentir falta da troca sempre profícua, da didática apurada, da palavra bem medida, da erudição sem pedantismo. Quem privou de sua amizade está agora órfão da fala mansa e tranquila, do uso de diminutivos como forma de tratamento para pessoas mais próximas, das histórias e anedotas contadas com sabor e arte, do companheiro acima de tudo. Ficam sua memória e seus livros, a extensão de sua voz e conhecimento.

Conheça os livros do Prof. Ivan Teixeira pela Ateliê

Metamorfoses de James Joyce

Capa da Revista Cult: James Joyce

A cada releitura, sua obra suscita novas discussões e descobertas

Fabio Akcelrud Durão | Revista Cult | Fevereiro 2013

James Joyce não é um clássico – se você entender o termo em seu sentido usual, significando algo dotado de notável constância, possuidor de uma verdade eterna, atemporal e universal. Os textos de James Joyce não são clássicos, quando se imagina com isso que pertenceriam a uma galeria de grandes obras intocáveis e dignas da maior reverência, possuidoras cada uma de um sentido que seria importante preservar e difundir. A verdade é justo o oposto: Joyce só vale a pena ser lido e interpretado enquanto for capaz de suscitar questões e se mostrar como instrumento de descoberta: enquanto sua obra não for igual a si mesma. Este dossiê traz quatro exemplos disso.

No primeiro texto, Caetano Galindo aceitou o desafio de tentar responder à pergunta que fiz a ele: “afinal de contas, o que é o Finnegans Wake?” Ele salienta que o Wake é mais do que um livro, é um mito. Robert Brazeau confronta a crise na qual Ulysses nos coloca, e ainda que defenda um certo tipo de esquecimento – fazer “como se” não tivéssemos lido o romance – ele deixa entrever a postura oposta, o desconforto de quem insiste em usar Ulysses como medida para todas as narrativas. Omar Rodovalho, por sua vez, faz uma apreciação crítica da tradução de Galindo desse épico moderno, o acontecimento literário de 2012. Apontando para a genialidade do texto, não deixa de mencionar algumas insuficiências (inevitáveis!) nessa obra que enriquece a literatura brasileira. Finalmente, Jonathan Goldman sublinha o quanto a ficção de Joyce não apenas é permeada de elementos da cultura popular, mas o quanto esta apropriou-se dela. O artigo levanta um problema que não soluciona (nem poderia): se as referências ao modernista irlandês são uma mera estratégia de obtenção de prestígio, ou se abolem a divisão entre a alta e a baixa cultura.

Em todos os textos desse dossiê, o objetivo é fazer pensar sobre uma obra que pede exatamente isto: que façamos algo com ela.

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Conheça os volumes bilíngues  de Finnegans Wake, publicados pela Ateliê Editorial, obra traduzida pela primeira vez para o português

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Finnegans Wake/ Finnícius Revém

Em seu romance, Joyce se apropria dos mecanismos dos sonhos para criar uma pan-mitologia

Caetano Galindo

Mais que um livro, é um mito.

O Finnegans Wake, mesmo entre os romances com reputação de dificuldade e, digamos, exotismo, parece ter reservado um lugar especial no imaginário literário. Poucos leitores terão enfrentado os desafios do Ulysses. Desses, uma parcela ainda menor juntou as forças e o tempo necessários para se dedicar ao romance a que Joyce precisou dedicar dezessete anos de trabalho árduo.

O Finnegans Wake não é bolinho.

Joyce declarou mais de uma vez que, se o Ulysses era o livro de um dia, era um livro do dia, seu último romance encamparia a noite e suas regras, o mundo da alógica dos sonhos, onde tudo pode ser sem parecer e parece ser sem poder. E essa tentativa ele levou, como sempre, às últimas consequências. Nada se parece mais com o mecanismo dos sonhos (ou do inconsciente) do que o Wake. Nada gera sonhos mais malucos num leitor do que um dia de contato com o Wake. Posso jurar.

Mas essa abordagem acarretou também a maior parte daquela complexidade tão miticamente famosa: como os sonhos, na verdade, o Finnegans Wake não só é difícil de entender como questiona a nossa mesma ideia de compreensão. Você pode viver o Wake, mas possivelmente nunca venha a entendê-lo, no sentido normal do termo.

Normalmente nós pensamos que um livro difícil pertence à categoria dos enigmas. Coisas que tendem a ceder ao esforço. Dificuldades que pedem mais e mais e mais trabalho. Mas complexidades que se desdobram, eventualmente.

Por mais que saibamos, e sabemos, que um grande texto literário jamais se há de esgotar, sabemos também (ou temos essa ilusão) que quanto mais estudarmos os textos mais difíceis da tradição literária, mais entenderemos deles, mais nos aproximaremos de uma sensação de compreensão, de familiaridade, de conhecimento.

Pois bem, o Finnegans Wake não é assim. Ponto.

Se é para manter a referência a tipos de problemas, este livro é da natureza dos mistérios. Você pode contemplá-lo, pode brincar com ele, mas vai ter que conviver com a noção de que a verdade final nunca vai ser revelada. Vai ter que fazer as pazes com a ideia de que esse jamais foi o objetivo do livro ou do autor. Ele está ali para complicar, para redobrar. Para infinitamente gerar novos sentidos, outras possibilidades para parecer mais oculto quanto mais você se esforce.

Ler o Finnegans Wake, portanto, é sempre aprender a ler de novo. Aprender a fornecer ao verbo “ler” algum novo sentido (usualmente pessoal e intransferível) que cubra também essa (singularíssima) experiência.

Porque a tal tentativa de questionar a lucidez diurna começa pela mesma linguagem, mais básico dos elementos. Joyce não era homem de deixar tarefas pela metade. Se era para montar um sonho, então, ele, como Freud, começou pela investigação dos primeiros tijolos. Aqui, as palavras não significam fatos, coisas, ideias do mundo. Elas não têm referente. Leitor nenhum, em momento algum, terá entendido, analisado, compreendido um trecho qualquer do Wake.

E o divertido é que Joyce encontrou a chave para essa sua linguagem em permanente devir no mais maltratado, mais vilipendiado e mais mal usado dos recursos literários: o trocadilho. O que ele percebeu foi que mesmo por trás do mais reles trocadilho de poeta bêbado há uma semente de caos e de potencialidade. Pois a palavra em trocadilho não reflete, ela refrata.

O trocadilho singelo diz uma coisa, insinuando uma segunda. O trocadilho sofisticado, shakespeariano, por exemplo, diz as duas ao mesmo tempo, irresolvivelmente. O trocadilho joyceano, especialmente graças ao emprego de mais de uma língua ao mesmo tempo (há quem já tenha contado mais de 80 idiomas no Wake), é só potencialidade. Ele não diz coisa alguma centralmente, mas abre portas para infindas leituras. E ao ensinar ao leitor esse método, ele como que o autoriza a sempre procurar leituras novas, suas, singulares.

É essa a máquina de geração de sentidos do Wake. Uma linguagem em que os signos não apontam para o mundo, para fora da linguagem, mas em que pedaços de signos, cacos, carregam fiapos de potencialidades semânticas que, somados, geram como que um feixe de possibilidades, sempre irredutível.

Um colidouscapo, nos seus próprios termos.

E é com esse instrumento que se vai contar a história de quem, afinal?

Bom, há coisas com que toda a crítica concorda, e que todo leitor atento acaba percebendo. Há, digamos, “personagens”, mas daqui a pouco você vai entender o por quê das aspas.

Eles seriam, centralmente, um sujeito que atende por diversos nomes que normalmente tem as iniciais HCE: sua esposa, que igualmente muda de denominação, mas que se resume em ALP, dois filhos gêmeos, Jerry e Kevin, ou Shem e Shaun, depende, que são meio que a antítese um do outro ou, quem sabe, apenas lados opostos do pai; e uma filha, Issy, Isolde, Isobel… Além de várias outras figuras menores, que parecem transitar pelo bar da família. Doze bêbados. Quatro velhos clientes. Uma faxineira, que muitas vezes se chama Kate, e um zelador… e por aí vai.

Mas esse seria apenas o esqueleto desse núcleo. Porque HCE, por exemplo, pode ser qualquer figura masculina de autoridade. Napoleão, digamos. Kate pode ser apenas a versão mais velha (e Issy a mais nova) de ALP. Issy pode se cindir em duas quando conversa com o espelho. Mais ainda, HCE é sempre montanha, Shaun é pedra, Shem é árvore, ALP é rio e Issy é nuvem/chuva (que, claro, vira rio). Aquele núcleo familiar se estilhaça em miríades de relações, engloba toda e qualquer família de relações e, ao mesmo tempo, se espraia sobre o mundo como natureza, como fundo vivo e ambiente.

Em torno deles, aqueles doze clientes, por exemplo, podem ser qualquer grupo de doze. Ou podem se identificar só por seu amor pelas palavras terminadas em –ação. Quaisquer quatro homens que andem em grupo (digamos, os envangelistas) serão aqueles velhos… e por aí vamos.

Os personagens do Wake tendem a se diluir uns nos outros, como que se reduzindo ao essencial: um homem, uma mulher, e o tempo: seus tempos.

Os personagens do Wake tendem também a se expandir e abarcar a humanidade toda. Em todos os seus tempos, Wellington, Jonathan Swift, Eva, papas, generais, Berkeley, o passado da Irlanda todo.

Os personagens do Wake podem ainda virar paisagem, tempo, cena, cenário. Por vezes é só mesmo o aparecimento de uma sequência de três palavras iniciadas por um h, um c e um e, que diz ao leitor que HCE não deve estar longe. É, na verdade, muito divertido ler certas cenas e progressivamente ir percebendo que determinada figura é Issy só porque se chama Nuvoletta e chora em chuva…

E o que acontece com essas pessoas?

Numa escala pessoal? Parece que houve um “crime”, que parece ser de natureza sexual/incestuosa. HCE será julgado, condenado, morto, enterrado e ressuscitará. Seu filho bonzinho, Shaun, tomará seu lugar. Fundindo-se com ele (é essa a ressurreição?)?

Os irmãos cobiçarão a irmã. A mãe se verá abandonada por todos ao envelhecer. É uma intriga familiar.

Mas tudo isso será encenado e reencenado sob os mais variados disfarces, fazendo com que a batalha de Waterloo, uma discussão filosófica, uma narrativa antropológica, um esquete cômico de rádio, uma antiga piada, uma canção (centenas de canções), um trecho da Bíblia, uma invocação a Alá, uma paródia literária, tudo se revista daqueles mesmos trajes, incorpore aqueles mesmos traços centrais e se invista deles, ganhando vida com aquelas pessoas e fazendo com que elas vivam em todos os tempos.

Porque eles, como se viu, não são só eles, e a escala pessoal pode ser a menos adequada.

O Finnegans Wake, famosamente, empresta do filósofo italiano, Giambattista Vico a ideia de que a história se repete em ciclos previsíveis, e assim faz do eterno-retorno seu mote principal. E bem como HCE pode ser todos os homens, sua queda e seu renascimento (como filho?) são o único tema da saga dos homens sobre a terra.

Sempre.

Todos,

They lived and laughed und loved end left.

Nasceram-serriram seamaram seeforam

Todos,

Sempre.

Ao se apropriar radicalmente dos mecanismos do sonho e ao extrapolá-los e fechá-los em nó cerrado (o livro se abre com a conclusão da frase suspensa na última página), Joyce não terá escrito uma narrativa comum. Ele quis escrever a única narrativa, elementar, nuclear, explosiva, de todos os homens e mulheres que nascem e vivem e morrem e vão. E ficam.

O sonho, aqui, é de toda a humanidade.

E o sonho da humanidade, Freud já sabia, se chama mitologia.

Uma pan-mitologia, nascida menos da compilação de narrativas orais do mundo todo, do que de um exaustivo trabalho que se assemelha curiosamente ao do estrutualismo de um Lévi-Strauss, por exemplo. Joyce, como ele, quis encontrar os mecanismos que embasam a urdidura dos mitos, quis encontrar os mitologemas centrais e os procedimentos usuais pelos quais a mitologia glosa o mundo, encerra em estória a história.

Mas não era era descritiva a sua empresa. Fáustico, ele quis sempre mais. Não apenas analisar essa mitopoese que pode ser tão centralmente humana, mas se apropriar de tudo que nela houvesse para finalmente criar um novo mito da humanidade, um mito de um homem, uma mulher, uma queda, um amor e uma vida eternos.

Mais que um livro. Mais.

*Aos leitores interessados em James Joyce, a Revista Cult deste mês (#176) publicou outras matérias sobre o autor, inclusive a respeito de sua influência na cultura popular

Falsas dedicatórias

Lincoln SeccoAutógrafos perigosos que, certa vez, rondaram um sebo paulistano

Lincoln Secco | Brasileiros | 1.2.2013
Há muitos anos, um sebo na Rua Rodrigo Silva, próximo à Praça da Sé, em São Paulo, exibia uma pilha de livros muito estranha. Era uma mesma obra em centenas de cópias com uma dedicatória a um conhecido governador cleptomaníaco. Todavia, o autor teve o trabalho de colar uma tarja em cima da dedicatória de todos os exemplares!
A dedicatória de uma obra pode ser a mais enganosa de todas. Naquele caso, o autor repetia um gesto de artistas que homenageavam seu mecenas. E também repetia outro gesto comum: o arrependimento, quando tempos e vontades já haviam mudado. Terá sorte o autor cujas conveniências ditarem mudanças no próprio original antes que ele se torne livro.
Há as dedicatórias intempestivas, como a de Marx ao seu sogro: ele se desculpa por dedicar-lhe uma brochura, mas se diz impaciente para esperar oportunidade melhor! Há as recusadas: diz-se que Darwin recusou a dedicatória que talvez Marx lhe fizesse no próximo volume de O Capital, mas Engels disse que os outros volumes seriam dedicados à liebling Jenny… Há dedicatórias em troca de favores, há óbvias e as íntimas, mas as mais intrigantes são as que não foram feitas. Hannah Arendt faria uma a Heidegger, mas não o fez. Escreveu depois em uma nota que havia “permanecido fiel e infiel” a ele, “ambas as coisas com amor”.
A dedicatória de exemplar tem outro caráter. Pode ser a um amigo ou a um desconhecido que foi a um lançamento. Poderíamos pensar que a dedicatória de obra (que já vem impressa)  sobrevive mais que a de exemplar (manuscrita), mas como explica Gérard Genette em seus Paratextos Editoriais (Ateliê Editorial), a massificação dos livros causou uma busca pela individualização do exemplar. Uma primeira edição de Mário de Andrade autografada tem um valor maior de mercado.
A esse respeito, permita o leitor outra pequena memória de alfarrábio. Há anos eu frequentava um sebo na Boca do Livro paulistana, cujo dono se afeiçoara de mim. Conversávamos e esticávamos a conversa ao bar da esquina. Certa vez, mostrou-me parte de sua biblioteca. Ele tinha coleções magníficas: todas as edições de Euclides da Cunha em todas as línguas. Toda a coleção Documentos Brasileiros, de José Olympio, e a Brasiliana também. Dicionários setecentistas, autores modernistas autografados e assim por diante. Lá pelas tantas, falava-me de Há Uma Gota de Sangue em Cada Poema, obra juvenil de Mário de Andrade com uma dedicatória manuscrita.
Depois, outros tragos nos fizeram mais confidentes. Contou-me, sorumbático, que falsificava alguns autógrafos. Que imitava a caligrafia de vários autores com perfeição. Às vezes, arrancava a folha de guarda de um exemplar de outra edição, envelhecia a página e substituía a mesma folha em uma edição mais rara. E, assim, colocava o exemplar à venda em seu sebo. Descobri, desde então, que também as dedicatórias de exemplar são perigosas.
Não o julguei e continuamos amigáveis até sua morte. Comprei muitos livros dele a bom preço, mas nunca um exemplar com dedicatória!
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Lincoln Secco é Professor de História Contemporânea na Universidade de São Paulo e autor de, entre outros livros, História do PT (Ateliê Editorial).
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Ecos de Eros: elos

Décio Pignatari

A erótica poesia organismo de Décio Pignatari

Frederico Barbosa | Cult | 1.2.2013

A recente morte de Décio Pignatari, aos 85 anos, faz ecoar estas palavras do poeta e crítico mexicano Octavio Paz: “Os poetas não têm biografia. Sua biografia é sua obra”. A multiplicidade da atuação de Pignatari, como criador da poesia concreta, crítico, teórico da literatura e da arte, semioticista, romancista, tradutor, dramaturgo, professor e principalmente, como provocador e polemista, ou seja, sua biografia intelectual tem sido lembrada e é incensada em necrológicos muito bem intencionados e esclarecedores do impulso criativo e da inquietação que, de fato, sempre marcaram a atuação de Pignatari. No entanto, reforçar estas características de seu comportamento intelectual pode muito bem levar a uma visão empobrecedora de sua obra, principalmente do seu legado poético.

Vamos, aqui, apenas apontar uma característica marcante da poesia de Décio Pignatari, reunida no seu “quase-testamento poético”, como grafou em dedicatória no meu exemplar de Poesia Pois É Poesia (1950-2000), a sexualidade como leitmotiv da sua obra, como questão recorrente e explícita que conduz toda obra poética de Pignatari, desde O Carrossel (1950) até os seus últimos poemas. Ou seja, ir contra a corrente e insistir que a poesia de Pignatari apresenta uma coerência interna impressionante, que sua poética é tão obsessiva quanto a de João Cabral, que ele sempre manteve o “arco teso” da poesia, para usar sua própria metáfora, cujo teor sexual é evidente. E, acima de tudo, mostrar que a poesia de Décio é erótica, nada “fria e calculista” como acusavam os inimigos dos concretistas, como o descreve Augusto de Campos no seu poema Soneterapia: “O Concretismo é frio e desumano/ dizem todos (tirando uma fatia)/ e enquanto nós entramos pelo cano/ os humanos entregam a poesia”.

No entanto, é impossível abordar a obra de Décio sem lembrar que, em 1955, em troca de cartas entre Pignatari, então na Europa, e Augusto de Campos, os jovens criam o conceito e o nome “poesia concreta”, que assim iria ser conhecido em todo o mundo. No Plano-piloto para a Poesia Concreta, Pignatari e os irmãos Campos apresentam a seguinte proposta: “poesia concreta: produto de uma evolução crítica de formas, dando por encerrado o ciclo histórico do verso”. Esta frase muitas vezes foi lida como intransigente e redutora, pois estariam afirmando que não se poderia mais escrever poesia em versos. Mas Pignatari, num texto anterior, já afirmara: “Finalmente, cumpre assinalar que o concretismo não pretende alijar da circulação aquelas tendências que, por sua simples existência, provam sua necessidade na dialética da formação da cultura. Ao contrário, a atitude crítica do concretismo o leva a absorver as preocupações das demais correntes artísticas, buscando superá-las pela empostação coerente, objetiva, dos problemas”.

Multiplicidade programática

A leitura atenta de Poesia Pois É Poesia (1950-2000) ressalta a “evolução crítica de formas” que leva o poeta a “absorver as preocupações” não só “das demais correntes artísticas” mas também de outras artes, meios e recursos diversos que possam contribuir para tal evolução. Em outras palavras, a multiplicidade de sua poesia já estava prevista por ele mesmo ao iniciar o seu percurso de 50 anos. Podemos mesmo considerá-la programática.

Poesia Pois É Poesia (1950-2000) se divide em três partes bem distintas. A primeira, “Poesia Pois É”, apresenta os poemas anteriores à criação da Poesia Concreta. Textos como “O Lobisomem”, “Hidrofobia em Canárias” ou “Fadas para Eni” apresentam imagens contundentes de uma sexualidade quase animal. Mas é em “O Jogral e a Prostituta Negra” que lemos os versos mais impactantes desta fase: “Onde eras a mulher deitada, depois/ dos ofícios da penumbra, agora/ És um poema: / Cansada cornucópia entre festões de/ rosas murchas / É à hora carbôni-/ ca e o sol em mormaço/ entre sonhando e insone/ A legião dos ofendidos demanda/ tuas pernas em M/ silêncios moenda do crepúsculo.”

Aqui já se apresenta, “entre sonhando e insone”, em 1950, o leitor e futuro tradutor (ou tridutor, pois se trata de inovadora tradução tríplice) do poema “A Tarde de um Fauno”, de Mallarmé, lá se revelam também as suas reflexões sobre o encerramento do “ciclo histórico do verso”, quando a palavra “carbônica” é separada em dois versos e o futuro poeta concreto visualizando as pernas da prostituta “em M”. Mas o que nos interessa aqui, é que o eu lírico transforma a mulher, e o próprio ato sexual, em poema, o que seria retomado diversas vezes em sua poesia.

Na segunda parte do livro, “Pois É Poesia”, a sexualidade terá um papel ainda mais crucial, seja nos dois primeiros “Stèle Pour Vivre”, que termina com “buce-fálica”, imagem hermafrodita que ecoa nas figuras do “Stèle Pour Vivre No. 4 –  Mallarmé Vietcong”, no poema “Zenpriapolo” e nos “Ideogramas Verbais” “homem/women”, seja no “abrir as portas/ abrir as pernas/ abrir os corpos”, seja no aspecto fálico da letra I inicial de LIFE, seja no priapismo implícito das torres no “Torre de Babel”. Mas é no magnífico “Organismo”, poema que reproduz, em zoom, a penetração sexual que Pignatari consegue o que já perseguia em “O Jogral e a Prostituta Negra”, transformar o ato sexual em poema.

A mesma tendência se percebe na terceira parte do livro, que reúne os poemas pós-concretos de Pignatari. A imagem hermafrodita ressurge em “Bibelô”, a tensão sexual paira em quase todos os poemas para explodir na suruba multilinguística que é o último poema do livro, “Mais Dentro”: “caninos de saliva / denteiam / o dentro das coxas / ego femen” .

Um dos poemas derradeiros do livro, “Ideros: Stèle Pour Vivre No. 6”, parece confirmar a hipótese que vimos seguindo. Em meio a um mar de “logos” (palavras, conceitos), flutuam blocos de montar com os termos “EROS, ECOS, EGOS, ELOS”,  recombinados em diferentes ordens. Seria eros o elo que liga todos os ecos dos eus em meio a um mar de discursividade? Ou seja, estaria o poeta deixando um recado no seu “quase-testamento” de que a sexualidade é um leitmotiv fundamental da sua obra, como afirmamos no início? Evocando Freud, ID EROS?

Estaria apenas reforçando o que explicita no belo “Valor do Poema”, em que afirma, para encerrar poema e assunto: “Valem meus poemas por haverem valido infinitas carnes ternas externas e internas das que amei amo amarei. Valem os vales”.

Saiba mais sobre os livros de Décio Pignatari publicados pela Ateliê Editorial

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Um mestre da palavra poética

Segismundo SpinaMorto no final de 2012, Segismundo Spina deixa estudos pioneiros sobre filologia, crítica textual e literatura

Jornal da USP | 14-20 de janeiro de 2013

“Ao longo de sua longa e fecunda carreira de professor dos cursos de Letras da Universidade de São Paulo, Segismundo Spina soube fundir harmoniosamente as suas duas paixões dominantes: a Língua Portuguesa, de que foi e é mestre insigne, e a palavra poética.” Com essas palavras, o professor e crítico literário Alfredo Bosi homenageia o companheiro de travessia no infinito das Letras e mostra uma face inusitada do Professor Emérito da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) na apresentação do livro Poesias, publicado em 2008 pela Ateliê Editorial.

Bosi resgata o Spina poeta, que ficou em segundo plano para que o Spina professor se dedicasse aos estudos e ao ensino – por exemplo, da obra de Camões. “O seu numeroso alunado teve o privilégio de assistir às suas aulas sobre poesia trovadoresca, Os Lusiadas, poética renascentista, poesia barroca e poesia romântica, mas só alguns poucos leitores conheciam o poeta que se ocultava por trás do intérprete das letras portuguesas”, observa.

A introdução de Poesias é escrita em versos datados de 1938:

Para o mundo esperar do brilho de uma pena

A página mais bela, o canto mais sublime,

Foi preciso que fosse Isócrates, num crime,

Deslumbrar-se da glória estética de Helena.

Quem nos pode tecer, tão mágica e serena,

Uma ideia genial, flexível como vime,
Se não sente consigo a força que lhe imprime

O amor e a exaltação d’alguma Polixena?!…

O poeta, crítico severo de si mesmo,
orienta:

Vá lendo os cantos meus, porém, digo em verdade,

Não hesito em dizer que o meu leitor não há de

Nos meus versos buscar alguma coisa rica.

Vocação – Spina foi abdicando dos próprios versos para se dedicar aos poetas de sua predileção, como Gregório de Matos, ao estudo da filologia e da literatura e à crítica textual. Publicou diversos livros – A Lírica Trovadoresca, A Poesia de Gregório de Matos e Ensaios de Crítica Literária foram lançados pela Editora da Universidade de São Paulo (Edusp).

“O professor Spina pertence às primeiras gerações de intelectuais brasileiros que se formaram em universidades nacionais e nelas permaneceram, contribuindo com o seu trabalho de docência, orientação e pesquisa para a construção e transmissão de um saber institucionalizado, sim, mas não limitado, no seu âmbito e alcance, às paredes da escola”, assinala a professora de Literatura Yara Frateschi Vieira, da Unicamp. Yara apresentou um ensaio sobre a vida e obra de Spina no 22º Congresso Internacional da Associação Brasileira de Professores de Literatura Portuguesa.

Para a escritora e professora de Língua Portuguesa da USP Edith Pimentel Pinto, a história intelectual do professor Spina está associada à história institucional da Universidade de São Paulo. “A linha que une o aluno de Letras Clássicas dos anos de 1940 ao titular de Filologia de 1973 passa por todos os degraus da vida acadêmica”, observa. “Nesse percurso, cada patamar ficou assinalado por testemunhos de uma vocação firme e uma pertinácia exemplar.”

Segismundo Spina nasceu em Itajobi, interior de São Paulo, em maio de1921. Fez graduação e pós-graduação em Letras Clássicas na USP. Começou a sua carreira docente em 1944 como auxiliar técnico da cadeira de Literatura Portuguesa, aposentando-se como professor titular do Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas da FFLCH em 1987. Dois anos depois recebeu o titulo de Professor Emérito. O professor morreu no dia 22 de dezembro do ano passado, aos 91 anos, deixando, como destaca Alfredo Bosi, um legado que é referência para o estudo da língua portuguesa e da palavra poética.

Do poeta “de estofo vernáculo”, como define Bosi, ficam os poemas a serem admirados. Nos versos de Nos Bastidores da Democracia, escrito em 1944, o mestre observou:

Uns indigentes, outros plutocratas;
Ricos, plebeus, escravos, autocratas,
Todos são de uma única matéria.

Como é triste, meu Deus, esses
contrários,

Tanto dinheiro e tantos argentários
E famílias morrendo na miséria.

Entre o poeta e o professor e o filólogo e escritor, quem ganha, como bem lembra o amigo Alfredo Bosi, são os leitores e admiradores de Segismundo Spina.

Acesse os livros de Segismundo Spina publicados pela Ateliê

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Uma mente brilhante

Além de pianista, Charles Rosen, que morreu dia 9 de dezembro, foi notável crítico de artes

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João Marcos Coelho | O Estado de S. Paulo | 17.12.2012

“Quando conversam entre si, na maior parte do tempo, os músicos falam de prazer. Mostram uns aos outros passagens em que as qualidades harmônicas ou melódicas têm um interesse particular e onde há vozes interiores imperceptíveis à audição. Quando toca uma de suas obras queridas, o músico tende a valorizar as passagens preferidas. Mas acontece que essas passagens ganham mais em serem interpretadas sem ostentação, com discrição. A música é uma maneira de instruir a alma e torná-la mais sensível, mas só é útil quando também proporciona prazer, que se manifesta em todos os que abordam a música como uma necessidade imperiosa, tanto do corpo quanto do espírito. A música sempre foi escrita antes de tudo para agradar aos executantes do que ao público.”

Pincei estas frases escritas por Charles Rosen, que morreu no dia 9, aos 85 anos, porque elas revelam algumas das razões que fizeram da música e dos livros produzidos por esta mente brilhante um patrimônio da humanidade. Costuma-se atribuir tal status a obras arquitetônicas, maravilhas naturais. Mas, neste caso, vale o exagero. Certamente o mundo dos que gostam e vivem, subjetiva e/ou profissionalmente, de música empobrecerá muito daqui para a frente.

Se não acredita que isso é verdade, então leia qualquer um dos 28 ensaios de seu derradeiro livro, de 438 páginas, lançado em maio pela Harvard University Press: Freedom and the Arts. Pode começar com Western Music: A View from California, uma resenha feita em duas edições do New York Review of Books, em 2006, da monumental história da música de Richard Taruskin (6 volumes, 4.000 páginas, Oxford U. Press).

Rosen começa macio, dizendo que todo mundo razoavelmente interessado no assunto tem uma história da música em casa. As informações estão à nossa disposição, mediante uma simples consulta. Ledo engano, as histórias da música são apenas uma ficção conveniente, construída de vários modos e com os mais diferentes enfoques, a cada geração. Em seguida, desconstrói, em 40 páginas, a ideologia política e musicalmente conservadora de Taruskin, que envenena o seu projeto (Taruskin também escreve notavelmente bem e é polemista convicto).

O ensaio, como praticamente todos os 28 artigos, foi originalmente publicado na New York Review of Books (a revista Diapason, edição brasileira, n.° 2, de maio/ junho de 2006, publicou o ensaio em português. disponível em www.estantevirtual.com.br). No ano passado, após tomar conhecimento de um artigo resposta de Taruskin à sua resenha, Rosen contra-atacou com Modernism and Cold War. E desmonta o argumento de Taruskin de que o modernismo musical norte-americano foi promovido pelo governo dos EUA como propaganda da guerra fria. Taruskin acusa Rosen de ter se beneficiado deste programa ideológico, porque tocou patrocinado pelo governo dos EUA no início dos anos 1950 na Europa.

Se preferir ler algo de Rosen em português, então curta dois ensaios do livro Poetas Românticos, Críticos e Outros Loucos (Ateliê Editorial, 2004): Códigos Secretos, sobre o pintor Caspar Davi Friedrich e o compositor Robert Schumann e O Crítico Jornalista, Um Herói, sobre a produção de George Bernard Shaw como crítico musical.

Desde 1971, quando lançou O Estilo Clássico, Rosen, pianista excepcional, desenvolveu uma dupla jornada: de músico notável, tão dedicado a Bach, Mozart e Beethoven quanto à música do seu tempo (com destaque para Schoenberg e Elliott Carter, sobre os quais escreveu e gravou), acrescentou a de crítico musical e literário. Transformou-se num autêntico maître à penser, como diriam os franceses, de todos os que desejam se aproximar da música em prévias convicções ou teses, armados só com a inteligência e um profundo conhecimento do assunto. Brincalhão, dizia que começara a escrever livros no tempo livre que o piano lhe proporcionava.

A imagem que hoje se tem dele corre o risco de distorcer sua personalidade. Rosen era antes de

tudo um músico. Que, de repente, conseguiu o milagre de transformar em palavras tudo o que apreendera com os sons. A maioria dos ensaios do livro, como de vários anteriores, é de resenhas de livros ou efemérides. Transcende, claramente, este status. O chamado artigo de ocasião transforma-se em leitura obrigatória para todo tipo de público – provoca espanto nos que acham que conhecem o tema, leva pela mão, em linguagem fácil, e contamina irremediavelmente os que pouco conhecem o assunto com uma paixão avassaladora pela música.

Sedutor intelectual múltiplo, foi tão formidável na condição de critico musical, literário e de artes plásticas quanto em sua vocação original de pianista que estudou com um discípulo direto de Franz Liszt. Dividiu nas últimas décadas cada ano em duas metades: seis meses em seu apartamento de Paris, e outros seis em Nova York, as duas cidades que ele mais amava.

Você não consegue parar de ler seus textos porque, na verdade, ele se diverte enquanto nos deixa saborear seus inteligentes e inovadores passeios pelas artes românticas do romance, poesia, conto, pintura e música. Rosen quer ultrapassar o estágio da crítica como ato de julgamento e conquistar o estágio do exercício critico como ato de compreensão da obra de arte. E consegue isso de modo admirável. “Será que a crítica nos capacita a fruir melhor as obras? Até que ponto é capaz de nos dizer a respeito das obras algo pertinente que já não saibamos? Baseia-se ela em experiências com conhecimentos particulares ou está franqueada a todos os leitores, ouvintes ou espectadores? Se o profissional entende mais do que o amador leigo, qual é o valor desse entendimento?”

Estas são as questões de fundo que se propõe a responder em seus artigos em geral. Compreende-se a necessidade do crítico de desejar dizer alguma coisa original ou revelar um aspecto de uma obra que pareça completamente novo, diz esta mente brilhante que jamais barateia as questões, mas também jamais deixa a escrita escorregar para o hermetismo que afasta a maioria dos leitores potenciais. Ao contrário, todos podem curtir e sair culturalmente enriquecidos saboreando a graça e o profundo conhecimento com que maneja questões tão amplas como a da resenha da história da música de Taruskin, agora publicada em livro nos EUA – o ensaio ideal para você se aproximar do universo de Charles Rosen.