Gabriel Magalhães

Autor de Eça de Queiroz. Uma Biografia fala de sua paixão pela obra do escritor português e de como foi realizar este trabalho

Alfredo Campos Matos, que interessou-se por Eça ainda na juventude, fala de seu novo livro com exclusividade para o Blog da Ateliê

Por Renata de Albuquerque

Alfredo Campos Matos

Alfredo Campos Matos

“Uma lufada de ar fresco; um assombro”. É assim que o pesquisador português Alfredo Campos Matos define seu encontro com a obra de Eça de Queiroz. Desde então, tornou-se um pesquisador contumaz da obra do escritor português e reuniu seu conhecimento em Eça de Queiroz. Uma Biografia, lançado recentemente pela Ateliê Editorial e pela Editora Unicamp. Foram cinco anos de pesquisas e estudos até chegar às 600 páginas do volume, que traz informações precisas, vasta iconografia e reflexões críticas de quem, por toda uma vida, acostumou-se “estar ao pé” do escritor português.

Matos tem uma ampla biblioteca sobre Eça de Queiroz. Consultá-la “comodamente em casa” – ele afirma que a ida às bibliotecas tinham como foco a consulta de periódicos – certamente ajudou para que o livro fosse muito mais que uma simples biografia, uma obra que também aproxima o leitor de um dos mais importantes escritores portugueses, como quem conhece a intimidade por meio de um livro.

De onde vem seu interesse por Eça de Queiroz?

Alfredo Campos Matos: Começou esse interesse pela juventude, com a descoberta de uma obra-prima, A Relíquia, que, como diz o crítico americano Harold Bloom é tão atual agora como o foi no ano em que foi publicada (1887). Decerto que nessa altura não tinha maturidade suficiente para uma compreensão integral da obra. Ela veio como uma lufada de ar fresco varrer-me uma série de preconceitos religiosos espantando-me a liberdade e a coragem da sua mensagem numa época eivada de fanatismos. Foi um assombro. O seu humor, ironia e crítica social e religiosa deliciaram-me. Parti daí para a leitura de toda a obra de Eça, num ano em que se deram dois acontecimentos importantes: a publicação da biografia de João Gaspar Simões (1945), que me introduziu no ambiente literário do século XIX e em Eça; e no ano em que começou a publicar-se a Obra Completa do escritor, a Edição do Centenário, no Porto. Amante de livros e de leituras, nunca mais deixei Eça como um autor de cabeceira.

Quando publiquei o meu primeiro estudo eciano, pouco depois de chegar a Lisboa, Imagens do Portugal Queiroziano, em 1976 (um estudo sobre o papel do espaço real na sua ficção), estava já suficientemente à vontade. Hoje posso dizer-lhe que vivo dentro de Eça, como costumo dizer. Repare que a sua obra completa tem cerca de 6.000 páginas. Conhecê-lo bem, lê-lo em profundidade é trabalho de uma vida.

Como surgiu a ideia de escrever essa biografia?

ACM: A ideia surgiu pelo convite que me fez em Paris o diretor da Fundação Gulbenkian para que fizesse um trabalho destinado à elucidação do público francês, que dispõe de praticamente toda a sua obra traduzida. Fiz uma 1º versão com uma bela antologia, intitulada Vie et Oeuvre d’Eça de Queiroz, em 2010Essa é uma 1º versão simplificada de uma 2ª edição publicada no Porto, muito mais desenvolvida. A edição brasileira é essencialmente esta versão revista e aumentada. Foi, portanto, um processo gradual muito pensado e trabalhado que me ocupou durante meses a fio.

Em que aspectos seu estudo se diferencia dos demais já publicados sobre Eça de Queiroz?

ACM: Os comentadores e estudiosos não cessam de publicar acerca de Eça de Queiroz. Atualmente as teses acadêmicas sucedem-se em avalanche por toda a parte. Ora o meu trabalho beneficia de todo esse trabalho gigantesco. Aproveito a melhor produção crítica para informar o leitor, resolvendo assim um defeito muito comum em biografias literárias, pois frequentemente o biógrafo não é crítico e erra facilmente lançando levianamente para o papel opiniões de todo errôneas. Eu faço uma triagem criteriosa de toda a crítica mais válida, não abdicando, já se vê, de emitir o meu próprio parecer.

No Brasil, muito se fala a respeito da crítica de Machado de Assis sobre a obra de Eça de Queiroz. Em sua opinião, sob que aspectos a crítica de Machado influenciou (ou não) o trabalho de Eça?

ACM: Como é sabido, Machado fez essencialmente uma crítica moral aos dois romances realistas de Eça, que lhe caíram em casa, subitamente, como uma bomba, numa época em que ele professava declaradamente modelos literários românticos. Mas a crítica ao realismo de escola fez bem a Eça, que deve ter aproveitado a opinião de Machado para refletir acerca dos prejuízos que a obediência a ditames literários rígidos, ditos “científicos”, pode prejudicar um escritor eminentemente fantasista e imaginativo. Isso deve ter ajudado Eça a modificar a sua singradura literária. Por sua vez, Machado refletiu conseguindo mudar o seu rumo através de um processo muito seu que fez dele o enorme escritor que é. Há que considerar ainda que ambos eram profundamente dissimulados, guardando para si o melhor e o mais essencial do seu pensamento… Desse embate fascinante, hoje muito estudado, há que tirar as conclusões acertadas, sem fanatismos nem preconceitos morais ou de escola.

Qual a importância, para o senhor, em ter tido sua obra publicada no Brasil?

ACM: Eu nunca estarei suficientemente grato à Ateliê Editorial e à Editora Unicamp por se terem abalançado a publicar uma obra de cerca de 600 páginas e aproveito a ocasião para salientar o fato de ela não ter gralhas, o que é prodigioso. É uma belíssima edição, excelentemente editada, fiquei satisfeitíssimo. Ela enriquece e honra sobremaneira o conjunto dos meus trabalhos.

De que forma isso contribuiu para sua obra?

ACM: Devo concluir que a publicação da minha biografia no Brasil é o coroamento de uma vida inteiramente dedicada a Eça de Queiroz, tal como será aqui a publicação, ainda este ano, do meu Dicionário de Eça de Queiroz, em 3ª edição, revista e aumentada, com novos colaboradores. Posso informar que está tudo tratado para que ela seja também editada no Brasil. Tem vários colaboradores brasileiros e é uma obra colossal que, num só volume, atingirá cerca de 1500 páginas. Aqui lhe deixo uma grande novidade queiroziana que revelo pela primeira vez numa entrevista. Vou entregar para a semana a última revisão deste enorme texto, que não se destina apenas a intelectuais e especialistas, mas também a simples leitores que nela encontrarão uma informação completíssima acerca de Eça.

Conheça aqui, um pouco mais sobre a obra Eça de Queiroz. Uma Biografia, de Alfredo Campos Matos.

Perspectiva da micro-história permeia conteúdo do quarto número da Revista Livro

Em entrevista exclusiva ao blog da Ateliê, a professora Ana Luiza Martins, que faz parte do conselho editorial da publicação,  fala sobre o número recém-lançado.

Renata de Albuquerque

Lançamento da revista Livro 04 (03/03): Ana Luiza Martins (esq.) e Marisa Midori.

Lançamento da revista Livro 04 (03/03): Ana Luiza Martins (esq.) e Marisa Midori.

Lançada no início de março, a Livro – Revista do Núcleo de Estudos do Livro e da Edição, editado pelo NELE e publicada pela Ateliê Editorial traz, mais uma vez, farto material para a discussão do livro como objeto. A publicação, que é anual, tem como objetivo promover a pesquisa, agregar profissionais, provocar o espírito crítico.

A seguir, Ana Luiza Martins, Doutora em História Social pela FFLCH – USP, conselheira do Condephaat – Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado de São Paulo – e membro do Conselho Editorial da publicação fala sobre o recente lançamento em entrevista exclusiva ao blog da Ateliê:

Em sua opinião, qual a importância deste lançamento para o mercado editorial?

Ana Luiza Martins: Ele veio preencher uma grande lacuna do mercado editorial. Trata-se de uma iniciativa e publicação únicas no periodismo brasileiro. Os estudiosos do impresso e da história cultural do país se ressentiam de uma revista voltada especialmente para a temática do impresso no Brasil. Os assuntos que Livro trabalha –  estudos de livros, leitores, bibliofilia, arte gráfica, parque gráfico,editoração e outros afins – foram tardiamente cultivados entre nós e têm agora o acerto de contas com essa imensa defasagem da área. Seus textos permitem a recuperação de fontes inovadoras e imprescindíveis para a reconstrução da História, em suas várias dimensões. Sobretudo num país que nasceu Colônia, figurou como rara Monarquia nas Américas e conheceu formação heterogênea de seu público leitor, com trajetórias peculiares no campo da leitura, do consumo livreiro, da editoração. Além disso, a revista Livro, por seu caráter diversificado e abrangente em relação à temática, tem mobilizado estudiosos de campos de conhecimentos diversos que, inspirados na publicação, enveredam por trilhas jamais cogitadas da busca de fontes do impresso no Brasil, que subsidiam as mais diferentes disciplinas, até mesmo aquelas das ciências exatas.

Qual o conceito por trás deste número da revista?

ALM: Ressaltou para mim que, particularmente nesse número, a maioria dos artigos foram trabalhados, de certa forma, na perspectiva da micro-história, de Carlo Ginzburg. Ou seja: revelando o quanto o objeto livro, aparentemente circunscrito tão só a seu conteúdo e forma, permite a ampliação incomensurável da apreensão de sua história e da História, desde que inserido na ampla pesquisa suscitada por todos os seus componenentes, no tempo e no espaço de sua produção. Ou, conforme vem em seu prefácio: “a questão primordial que move Livro n. 4 reside no fato de um objeto por vezes minúculo, quase imperceptível – ou com proporções monumentais, pouco importa – concentrar temáticas, abordagens, perspectivas, leituras, arquivos, debates e uma produção ficcional que se renova ad infinitum”.

Que assuntos balizaram a elaboração desta edição?

ALM: As onze seções que compõem a revista Livro e que vêm se ampliando gradativamente em número de colaborações – contemplam nesse 4º número a pluralidade de abordagens sugeridas pelo objeto livro, envolvendo: o cotidiano de antigas livrarias revisitadas; os caminhos percorridos pelo livro da Europa ao Brasil; a recuperação de autores e personagens emblemáticos da literatura e da ilustração gráfica;  a história de bibliotecas históricas; a epistolografia de escritores afamados; as coleções particulares de livros; bibliofilia; novos títulos bibliográficos da área, as relações entre texto e imagem na produção do impresso; e até a recepção da literatura infantil.

De que maneira, em sua opinião, a Revista Livro nº4 contribui para a discussão da questão do livro no Brasil, hoje?

ALM: Particularmente este nº 4 abre um leque de questões que revelam a abrangência cultural da temática, ampliando as possibilidades de discussão. Torna-se mais instigante, contudo, por enriquecer tempos culturais diversos, balizando a importância do livro impresso, com seus lugares de memória na cidade, com suas marginalias e marcas pessoais de colecionadores, assim como pelas tantas histórias que estão por trás do livro. Mais que isso, este nº 4 potencializa a importância do livro impresso neste momento crucial, em que o livro digital conhece penetração expressiva. Da leitura do nº 4 – que não trata dessa questão e neste número nem caberia – fica clara a necessidade de se debruçar sobre esse objeto, que muito longe de viver sua extinção, se renova e se faz cada vez mais necessário no universo do conhecimento, das artes gráficas, da editoração e de processos históricos múltiplos.

Quais são, na sua opinião, os maiores destaques desta edição?

ALM: É uma pergunta difícil. Destaco, por ora, aqueles que incidem sobre temáticas com as quais trabalho no momento, pois senão teria que elencar praticamente todos. E me limito apenas a nomeá-los, pois comentar os respectivos conteúdos levaria longe essa apreciação de Livro nº 4. Todos os artigos, balizados nos propósitos de suas seções, são reveladores, deliciosos, instigantes. Seleciono por partes:

Já de início me encantei com os relatos informais da seção Conversas de Livraria. Revisitar a Livraria Kosmos, a Livraria Francesa, sentir o aprendizado do mundo no espaço de sebos, de Ubiratan Machado (com saudade, até porque hoje em dia estão se transformando em estantes virtuais…) e o relato inédito de Rubens Borba de Morais sobre nossas bibliotecas, livrarias e brasilianas foi um belo começo para iniciar a viagem pelas páginas de Livro nº 4.

A seção Leituras está bastante ampliada, com dez artigos. Três particularmente me interessaram por virem ao encontro de estudos de pesquisas que realizo sobre livros do século XIX: Sandra G. T. Vasconcelos, Da Mancha ao Rio de Janeiro; Rosângela M. Oliveira Guimarães, Alexandre Dumas no Brasil; Ubiratan Machado, Balzac e o Brasil.

Em Dossiê, que revisita bibliotecas, destaco o artigo de Frédéric Barbier – A Cidade, o Príncipe e a Biblioteca, enriquecido com ilustrações preciosas de tradicionais bibliotecas dos séculos XV e XVI.

Na seção Arquivo, a descoberta da correspondência entre Euclides da Cunha e Vicente de Carvalho foi uma surpresa! Nunca imaginei que se relacionassem…

No Acervo, dois textos lúdicos – até em razão de registrarem as ilustrações dos impressos analisados – são de autoria de Cristina Antunes – Uma Coleção Particular de Literatura de Cordel – e de Ésio Macedo Ribeiro: Primeiro Caderno do Alumno de Poesia Oswald de Andrade.

Almanaque é uma festa, mas me detive no Jean Pierre Chauvin, Um Ensaio do Jovem Machado de Assis (Machado de Assis, O jornal e o Livro).

Bibliomania traz o sensível texto de Marisa Midori Deaecto, que homenageia a figura especial de Cláudio Giordano, em Um Livro, um Sonho.

Em Debate, o tema é sedutor ao relacionar O Poder do Livro e sua Relação com o Cinema.

Todos os textos de Letra & Arte, selecionados por José de Paula Ramos Junior foram aperitivos estimulantes para se ir atrás de outros títulos de Luiz Rufatto, Aguinaldo J. Gonçalves, Zepa Ferrer e tantos novos nomes…

Sem falar na estante editorial, com títulos sobre a temática, alguns inéditos entre nós, outros já em novas edições reelaboradas, um convite para se ampliar de imediato a biblioteca! E envolvendo tudo isso, dando a Livro nº 4 uma ambiência plástica, a atmosfera de biblioteca, própria do universo do livro, as fotografias inusitadas de Patricia Osses.

Confira aqui essa e todas as revistas já publicadas pela Ateliê.

Caminhos do Romance em Portugal: Camilo, Eça e o Folhetim Francês

caminhos-do-romanceObra propõe uma aproximação de dois escritores portugueses praticamente contemporâneos, Camilo Castelo Branco e Eça de Queirós, porém pouco estudados em perspectiva comparada. Além disso, apresenta uma análise nova e instigante, ao tratar de dois livros pouco estudados: Os Mistérios de Lisboa de Camilo, e O Mistério da Estrada de Sintra, de Eça e de seu amigo Ramalho Ortigão, ambos adaptados para o cinema, em Filmes dirigidos respectivamente por Raúl Ruiz (2007) e Jorge Paixão da Costa (2010).

Caminhos do Romance em Portugal: Camilo, Eça e o Folhetim Francês, escrito por Andréa Trench de Castro, outro lançamento da coleção Estudos Literários, da Ateliê Editorial, apresenta os dois principais escritores portugueses do século  em uma situação específica: no momento em que tentam se firmar num mercado literário pequeno, com um público mais habituado a ler traduções do que romances nacionais. Incorporando e transmutando em seus romances muito daquilo que fazia parte dos hábitos de leitura de seu público, conseguiram criar obras peculiares e ainda hoje interessantes.

Com base nos pressupostos teóricos do comparatismo histórico-literário e das transferências culturais, a autora relativiza a visão de que a literatura e a cultura francesas teriam representado para Portugal e seus escritores uma influência hegemônica e centralizadora, lançando um novo olhar sobre a produção inicial de Camilo e Eça e repensando alguns aspectos do romance-folhetim oitocentista produzido em Portugal.

“Com evolução bastante distinta, os estudos camilianos e queirosianos beneficiam enormemente de abordagens cruzadas como esta de Andréa Trench de Castro, cuja metodologia hermenêutica, ao deter-se diacrônica e criticamente sobre especificidades de duas obras do percurso inicial dos dois escritores centrais da literatura portuguesa oitocentista, apresenta um assinalável contributo para a renovação da crítica e da história literárias.” (José Cândido de Oliveira Martins – Universidade Católica Portuguesa – Braga / Portugal).

Conheça aqui todos os detalhes da obra Caminhos do Romance em Portugal.

Literatura e Memória Política – Angola. Brasil. Moçambique. Portugal

Obra reúne textos sobre ficcionistas cujas produções literárias enfatizam tensões sociais vividas, com narrativas marcadas pela memória e experiências empíricas

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Estudos Literários, Literatura e Memória Política, coletânea de ensaios organizada em torno da produção de escritores angolanos, brasileiros, moçambicanos e portugueses, e que traz uma contribuição para pensar politicamente as produções de nosso comunitarismo linguístico-cultural.

Organizado por Benjamin Abdala Junior e Rejane Vecchia Rocha e Silva, o livro traz ensaios de Laura Cavalcante Padilha (Da Certeza das Vidas Novas à História Real de um Amor Impossível), Regina Zilberman (Duas Viagensum Destino, Moçambique), Rosangela Sarteschi (Pepetela e O Quase Fim do Mundo), Tania Macêdo (O Império Colonial Português e sua Retórica), Benjamin Abdala Junior (Linguagem e Vida Social nos Romances de Graciliano Ramos), Eneida Leal Cunha (Jorge Amado Revisitado: Conflito e Familiaridade), Fabiana Carelli (Jorge dos Subterrâneos: Literatura, História e Política no Estado Novo), José Nicolau Gregorin Filho (Literatura Infantil/Juvenil e Política: Um Jogo de Espelhos), Rejane Vecchia Rocha e Silva (Quarup: As Utopias Revolucionárias dos Anos 1960 e 1970 ), Roberto Vecchi (As Potências da Claustrosofia: Limiares Políticos do Pensamento e da Literatura do Cárcere), Isabel Pires de Lima (Realismo e Política – O Caso de Alves Redol), Jane Tutikian (A Literatura e os Retratos de Duas Gerações), Margarida Calafate Ribeiro (Íntimos Fantasmas: Memórias de África na Literatura Portuguesa Contemporânea), Pedro Brum Santos (Escrita, História e Política em José Saramago), Vima Lia Martin (Representações da Tortura e da Morte em Dois Romances de Língua Portuguesa).

Literatura e Memória Política aproxima vozes que dentro e fora da ficção se encontram e se a firmam diante dos impasses de suas respectivas estruturas sociais, sempre tomadas em processo, dinamicamente. Pretende ser uma contribuição para as discussões em torno de realidades produzidas nas malhas da  ficção, que continuam a nos lembrar que estamos num universo tensionado por problemas em que pensar politicamente continua a ser fundamental. (Os organizadores)

Conheça aqui todos os detalhes da obra Literatura e Memória Política – Angola. Brasil. Moçambique. Portugal

A Outra Guerra do Fim do Mundo

Folha de S. Paulo | Guia da Folha – Livros Discos Filmes  | Pág. 19 28 de fevereiro de 2015
fffTexto enxuto, análise precisa, foco aberto para dar conta de avaliar as consequências da Guerra das Malvinas para a América do Sul. São essas as qualidades do livro do historiador Osvaldo Coggiola, professor da USP nascido na Argentina, país do qual se exilou durante a ditadura militar que perseguia militantes de esquerda como ele.

O autor não subscreve a tese corrente de que a ditadura caiu devido à derrota da Argentina, em 1982, diante dos britânicos. Para ele, o revés só acelerou o fim do regime, que perdera o apoio internacional e enfrentava forte oposição interna, turbinada pela crise econômica.

Coggiola também argumenta que a “nova esquerda” surgida no continente, com um discurso democrático, foi testada na Guerra das Malvinas, “quando propiciou uma atitude neutra no conflito”. O PT, depois de afastar as tendências revolucionárias, seria a expressão quase quimicamente “pura” dessa esquerda.

Veja aqui a obra A Outra Guerra do Fim do Mundo, de Osvaldo Coggiola, avaliado com três estrelas (pontuação máxima), pelo Guia da Folha – Livros Discos Filmes.

Um Novo Eça de Queiroz

Severino Francisco | Correio Braziliense | Seção: Diversão & Arte | Pág. 4 28 de fevereiro de 2015

Biografia premiada revisita a trajetória do escritor português e reconstitui aspectos ainda não explorados da vida e da obra . Polêmica de Machado de Assis é um dos pontos de destaque.

ecaEça de Queiroz, um dos mestres da língua portuguesa, já foi tema de estudos e biografias elaborados por intelectuais de primeira linha, da categoria de Álavro Lins ou João Gaspar Simões. No entanto, nem tudo havia sido pesquisado ou deslindado na sua trajetória. O arquiteto português Alfredo Campos Matos revisitou a vida e a obra de Eça e escreveu a mais completa biografia do autor de Os Maias. O catarpácio de quase 600 páginas pode meter medo em uma primeira mirada. Mas a impressão se dissipa logo nas primeiras páginas, em razão da prosa elegante, agradável, límpida e fluente. Em Portugal, o livro ganhou dois prêmios literários importante: O Grande Prêmio Jacinto do Prado Coelho, da Associação Portuguesa de Críticos. Em Eça de Queiroz: Uma Biografia, Alfredo reconstrói fios delicados da trajetória de vida do estilista português: o não reconhecimento pleno da filiação pelos pais, a repercurssão da polêmica desencadeada por Machado de Assis, o “ecismo” no Brasil, a conexão pelo humor, a devoção religiosa e o estilo, a um só tempo, sinuoso, insinuante, preciso, fluído e impregnado de cor.

Qual a repercussão na vida e na obra de Eça de Queiroz do fato de não ser plenamente reconhecido pelos pais na condição de Filho?

A ilegitimidade de Eça teve na sua obra a maior das repercurssões pelo fato de tal complexo ter abalado enormemente sua personalidade. Desenvolvo este tema, ao que suponho, de forma completa na minha biografia. Ele tem sido aliás abundamente estudado, nem sempre racionalmente e a luz de todos os documentos de que dispomos. Eça sofreu sempre com essa circunstância muito particularmente por ter sido educado sem mãe, e abandonado desde a nascença.

Esse foi para mim o seu maior trauma. Quando foi viver com os pais, já adulto, em Lisboa, logo após a formatura em Coimbra, fê-lo pela primeira vez. Pela primeira vez, soube o que era ter um lar. A mãe tinha um feitio muito especial e ainda hoje se especula sobre as razões que a teriam levado a abandonar o filho. O pai foi conivente desta situação, a que decerto não pôde acudir, redimindo-se depois ao subsidiar o seu primeiro romance.

E qual o impacto na obra?

A sua obra ressente-se deste fato pois não há casais felizes nela, com a excepção de Alves & Cia e da A Cidade e as Serras. Por outro lado, para superar a sua inferioridade social, Eça procurou afirma-se e transcender tal condição tirando partido da sua vocação e desse “dom dos deuses”, que é a escrita, como escreveu. Quando, por sua vez, teve um lar, esmerou-se em atenções com a família e com os filhos, como se imaginasse o papel da harmonia e do amor no desenvolvimento psicológico das crianças. Enfim, poderemos concluir que como alguém disse, não há melhor do que uma infância infeliz para enriquecer a personalidade de um criador. A de Eça era bastante complexa e densa e tal fato teve reflexos profundos bem palpáveis na sua escrita.

Qual a relevância da atividade de Eça de Queiroz como jornalista em sua formação de escritor?

Podemos dizer: foi por meio da sua atividade como jornalista e autor de folhetins fantasitas, que produziu os seus primeiros textos que o lançaram como escritor e admirável cronista. Mais tarde, a colaboração importantíssima que deu à Gazeta de Notícias do Rio, confirmaram a sua categoria. Como se sabe, após o curso em Coimbra, produziu só, durante meses, um jornal em Évora, o Distrito de Évora.

Nelson Rodrigues afirmou que era um leitor contumaz de Eça de Queiroz e chegou a reler Os Maias seis vezes. Como explica a chamada “ecite”, a paixão dos brasileiros por Eça?

Há em Eça afinidades profundas com o temperamento brasileiro, desde logo por meio da admirável simplicidade da sua prosa, da sua ironia e, sobretudo, do seu humor. Depois, temos que confessar que os brasileiros que se sentem complexados pela colonização portuguesa sentem um secreto prazer com a leitura de descabeladas tundas que Eça dá a Portugal e aos portugueses, pelo desejo de ver a sua pátria mais progressiva, mais justa e mais a par dos países mais adiantados da Europa.

Quais as relações de Eça de Queiroz com o Brasil?

Foram múltiplas e são deveras importantes, muito particularmente as que o relacionaram com Machado de Assis, que fez uma crítica predominantemente moral ao “naturalismo-realista”. Em todo o caso, Eça lucrou com essa crítica que o ajudou a libertar-se das cadeias de escola literária que poderiam ter prejudicado a sua liberdade de imaginação e fantasia. Mas o grande Machado não lucrou menos, pois os dois grandes romances realistas do seu confrade provocaram em si um tal abalo que o fizeram mudar de singradura. Tal como Eça, era, todavia, um dissimulado, escondendo as suas reações e opções. Ambos guardaram o melhor para si. Ao longo da sua vida (sem esquecer as ligações biográficas como o Brasil – o pai era brasileiro), Eça teve ínumeros contatos com brasileiros e com representantes superiores da sua cultura, tendo convivido intensamente em Paris com um grupo de notáveis, de que destacamos Domício da Gama e Eduardo Prado, um dos seus mais íntimos amigos.

Qual o impacto da crítica de Machado sobre Eça?

Como já referimos a crítica de Machado foi sobretudo de caráter moralista, e bastante mal recebida no Brasil, até pelo excelente crítico Álavro Lins. Foi injusta e muito parcial, embora tivesse razão quanto ao considerar os prejuízos que uma escola literária pode eventualmente fazer a um grande autor, tão imaginativo e fantasista como Eça. Ele reconheceu esse inconveniente, mas salientou, ao mesmo tempo, que tal disciplina ajudou a controlar a sua fantasia.

Eça era realista e, quase sempre, essa visão era crítica à religião. Como ele resolveu essa contradição?

Pode dizer-se que Eça era um espírito religioso. Manteve sempre uma ternura muito especial pela mensagem evangélica de Cristo, social e humana. Foi, no entanto, extremamente crítico da deturpação que a instituição católica introduziu no cristianismo. Pode dizer-se que foi inteiramente anticlerical. O conto Suave Milagre, escrito numa prosa soberba, é sutilmente uma mensagem anticlerical.

Qual a singularidade de Eça de Queiroz como mestre da língua portuguesa?

A sua fama atingiu um cume inultrapassável com as comemorações de 2000. Eça está à altura de Fernando Pessoa e de Camões. É um mestre inigualável da língua, com uma mensagem clara, objetiva, extremamente atual, de crítica social e política e, nesse sentido, continua a ser o autor português mais citado. Peças como Alves & Cia (os brasileiros fizeram desta novela um filme inolvidável, com Patrícia Pilar na protagonista): o conto José Matias e A Cidade e as Serras, são valores intemporais que se leem e releem com inusitado prazer.

Na sua opinião, que obras de Eça ficaram mais datadas e que obras resistiram melhor à prova do tempo?

A obra literária de Eça é  muito variada e demonstra uma singularidade muito sinuosa, que é a de um escritor rebelde, que nunca se sujeita a disciplinas de escola. Essa singradura que passou por diversas fases, desorientou os comentadores e ainda hoje não está inteiramente compreendida. Prova-o à saciedade o que se tem dito de uma obra-prima intitulada A Relíquia. Eça começou por textos de uma descabelada fantasia, tornou-se realista depois da viagem ao Oriente, escreveu depois dois romances magistrais dentro dos princípios do realismo, fez de seguida uma viragem fantasista com O Mandarim e A Relíquia para retomar logo de seguida os princípios da observação objetiva e experimental com Os Maias, entrando na maturidade da última fase com A Cidade e as Serras, A Correspondência de Fradique Mendes e a Ilustre Casa de Ramires. Não vejo que qualquer dos gêneros literários que praticou tenha envelhecido. Harold Bloom, o grande crítico norte-americano disse que A Relíquia tinha hoje a mesma frescura e atualidade com que apareceu em 1878. Os Maias, um clássico intemporal, é e continua a ser a sua obra mais citada.

Ainda se lê Eça de Queiroz ou ele é autor soterrado na era da internet?

O segredo da sua permanência é a procura exaustiva da expressão literária simples e objetiva. Como ele escreveu: “Na arte, quando forte, fina e superior a simplicidade resulta sempre dum violento esforço, quase doloroso esforço. Não se coordena com clara elegância uma concepção, não se atinge uma expressão fácil, concisa e harmoniosa, sem longas tumultuárias lutas em que arquejam juntas Espírito e Vontade…” Eis o seu essencial segredo como criador. Da sua perenidade falam por si os Contos, talvez a sua mais notável expressão literária, A Relíquia e, é claro, Os Maias.

Conheça os títulos: A Ilustre Casa de RamiresA Relíquia, Os Maias, O Primo Basílio e Cidade e as Serras, obras escritas por Eça de Queiroz. E não deixe de conferir também o livro Eça de Queiroz: Uma Biografiaescrito por A. Campos Matos.

Poética Múltipla

Mario Bresighello | Folha de S. Paulo | Seção: Guia Folha | Pág. 3/15 28 de fevereiro de 2015

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O poeta Francesco Petrarca (1304-1374) foi o primeiro escritor da literatura italiana cujos manuscritos e esboços chegaram até nós. Isso permite compreender as etapas do seu processo criativo, no qual impunha aos textos constantes correções, revisões, cortes, acréscimos e mudanças, muitas vezes alterando-os tanto na forma como na estrutura.

O ápice desse processo é o Cancioneiro,  obra que levou 40 anos para ser finalizada. Logo obteve um sucesso vastíssimo e tornou-se um modelo não só na Itália, mas em toda a Europa. Sua importância pode ser medida pela influência que exerceu ao fundar uma das mais importantes e duradouras tradições literárias que reverberou nas gerações seguintes de poetas e continuou a ser imitada ao longo dos séculos.

Em sua forma definitiva, como o conhecemos hoje, o conjunto de composições aparentemente autônomas do Cancioneiro é formado por um proêmio e por 365 poemas. Ao concebê-lo, Petrarca lançou mão de múltiplas formas poéticas, “no vário estilo que eu razoo e choro”, como baladas, sextinas, madrigais, canções e sonetos.

Nos 317 sonetos do livro, aperfeiçoa e eterniza a forma herdada de Giacomo da Lentini, poeta italiano do século 13, e que também fora usada por Dante Alighieri. Os poemas agrupam-se com precisão para traçar um desenho narrativo feito de reflexões e de análises de sentimentos.

Protagonista absoluto do Cancioneiro é o proprio poeta, um eu dilacerado e dividido em que convivem, sem se anular, paixões terrenas (o amor por Laura, o desejo de glória), desejos sexuais que se se contrapõem ao sentimento religioso e aspirações de pureza.

Esta nova tradução vem acompanhada de cronologia, de discretas ilustrações e de uma interessante introdução em que o tradutor, o poeta e ensaísta José Clemente Pozenato, explica as motivações de sua empreitada.

Conheça aqui a obra Cancioneiro, de Francesco Petrarca.

1ª Jornada de Editores Brasileiros – PUBLISHER? EDITOR?

Livraria João Alexandre Barbosa recebe Jornada PUBLISHER? EDITOR?

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No dia três de março a partir das 9h, a Livraria João Alexandre Barbosa (Av Prof. Luciano Gualberto, 78; Complexo Brasiliana USP), recebe a 1ª Jornada de Editores Brasileiros – PUBLISHER? EDITOR?. Com o apoio do corpo docente do curso de Editoração da USP, Núcleo de Estudos do Livro e da Edição (NELE) e da Edusp, o evento irá abordar e problematizar o papel dos editores no atual cenário de mudanças pelas quais passa o mercado editorial. Participarão do encontro nomes como: Plínio Martins Filho (Edusp), Alexandre Martins Fontes (WMF Martins Fontes), Cide Piquet (Editora 34) e Livia Deorsola (Cosac e Naify).

Clique aqui e marque presença no evento!

A Questão Filosófica do Erótico

Raphaelle Batista/Henrique Araújo O Povo | Seção: Vida & Arte | Pág. 5 25 de fevereiro de 2015

Na entrevista a seguir, a professora Eliane Moraes analisa a produção erótica brasileira e sua relação com a filosofia.

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Pesquisadora Eliane Robert Moraes

Uma das mais importantes estudiosas brasileiras do chamado erótico literário, conceito elaborado a partir da pesquisa de autores como Marquês de Sade, Georges Bataille e Hilda Hilst, Eliane Robert Moraes é professora da Universidade de São Paulo (USP) e o primeiro grande nome a ministrar curso este ano no Espaço O POVO de Cultura e Arte. Nesta sexta, 27, e sábado, 28, ela discutirá “Erotismo, ficção e filosofia”. Na entrevista a seguir, concedida por email, Eliane discute temas de seu curso, como o fenômeno Cinquenta Tons de Cinza, analisa a produção erótica brasileira e discute a relação entre o erótico, a literatura e a filosofia.

O POVO – Cinquenta Tons de Cinza virou best-seller e foi mote para outros livros na mesma linha, com qualidade literária igualmente duvidosa. Agora, inspira um filme. Como a senhora vê a pasteurização do erotismo em obras desse tipo?

Eliane Robert Moraes – O sucesso de Cinquenta Tons de Cinza e de seus congêneres coloca questões de fundo que demandam reflexão. Não se trata de discutir se o livro tem ou não algum valor literário. Para se confirmar a baixa qualidade do texto, basta ler um ou dois parágrafos do romance e pronto. O curioso, porém, é que tal evidência não reduz o título a um mero problema sociológico, como acontece com a maior parte dos best-sellers. O fato de se concentrar na encenação de fantasias sexuais e, mais ainda, de explorar o delicado limiar entre o prazer e a dor, faz desse livro um caso especial, acrescido da novidade de que seu público é formado quase que exclusivamente por mulheres. Os números não surpreendem quando se leva em conta tal gênero de leitura. Lançado em 2011, o “mummy porn”, como foi logo batizado, se tornou um fenômeno editorial, ostentando cifras de tirar o fôlego. A esse balanço seguem-se as hipérboles de praxe: os inabaláveis lugares de honra nas listas dos best-sellers, uma enormidade de seguidores no Facebook, dezenas de imitadores, um quadro fixo num dos programas mais populares da TV americana, os direitos de filmagem comprados por 5 milhões de dólares e, obviamente, a exploração da “marca” em uma infinidade de produtos que enchem tanto as prateleiras das sex-shops quanto as dos supermercados. Efetivamente, o domínio aqui é o do excesso. Engana-se, porém, quem associar o excesso das cifras mercadológicas ao excesso sexual que se reconhece como a pedra de toque dos grandes títulos do erotismo literário. Nada a ver um com o outro. Nada a ver, portanto, a criação de E L James com aquela literatura erótica perturbadora, que produz em nós um imperioso deslocamento sensível e mental. Aliás, é bem outra a visada do best-seller da hora que, recorrendo a todo tipo de clichês, não tira nada, nem ninguém, do lugar.

OP – A que anseios esse tipo de livro responde, então?

Eliane – O sucesso dos “soft porns” responde aos anseios de uma época em que certa ideia de marginalidade perdeu seu poder de fogo e igualmente seu glamour. Cultivado por muitos escritores que se dedicaram à erótica literária – de Jean Genet a Henry Miller, de Bukowski a Roberto Piva –, o desejo de estar à margem da sociedade, de ficar fora do “sistema”, parece reunir cada vez menos adeptos. O marginal, vestido de bom moço, vem cedendo lugar ao excluído e, ao invés da transgressão, o que ele reivindica agora é sua inclusão. Desnecessário dizer que, uma vez “incluído”, o sexo fica esvaziado da sua capacidade de perturbação e do seu poder de desvio. O que sobra é uma sexualidade conformada às exigências da ordem social; um erotismo reduzido às demandas da utilidade. Eis a promessa do casal Christian e Anastasia (protagonistas de Cinquenta Tons de Cinza): perfeitamente adaptados ao jogo dos papéis sociais, eles reiteram os apelos sexuais que não cessam de nos assediar, oferecendo um repertório fechado e pronto de fantasias, que funciona como um fast food do sexo.

OP – A recente antologia Pornô Chic (Biblioteca Azul), na qual a senhora assina uma crítica, reúne os principais textos eróticos de Hilda Hilst; Reinaldo Moraes lançou agora O Cheirinho do Amor, em que também explora o erotismo. O erotismo tem sido revigorado como tema literário ou tem sido mais ‘bem visto’ pelo mercado editorial?

Eliane – Mais que um fenômeno do mercado editorial, talvez estejamos diante de um fenômeno “de mercado”, no sentido mais amplo. Creio que a proliferação de imagens sexuais que a indústria cultural vem colocando em circulação no Brasil nas últimas décadas, condenando o erotismo à plena visibilidade, trabalha no sentido de neutralizar a vocação subversiva que sempre caracterizou a literatura erótica. Banalizada ao extremo pela cultura de massa, a temática sexual tornou-se objeto de suspeita por parte dos circuitos literários mais cultos, atraindo apenas alguns escritores pouco assimilados pelo sistema cultural do país. Essa talvez seja uma via produtiva para se repensar as intrincadas relações entre estética, moral e erotismo que, no Brasil contemporâneo, parecem oscilar entre o viés repressivo da liberação sexual promovida pelo mercado e o moralismo dissimulado de boa parcela da elite bem pensante. Entre esses polos da cultura nacional existem, por certo, relações mais tensas e complexas do que normalmente se costuma admitir – o que mereceria uma exploração atenta, sobretudo agora que autores mais institucionalizados e escritores da cultura de massa começaram a explorar o veio do erotismo, indicando uma virada nesse cenário. Virada razoavelmente recente, inaugurada em 1999 por João Ubaldo Ribeiro que estreou no gênero com A Casa dos Budas Ditosos, seguido de Rubem Fonseca, cujo Diário de um Descenino foi publicado em 2003, ano que também marcou a primeira incursão de Paulo Coelho no tema, com Onze Minutos. Soma-se a esses títulos o surpreendente número de obras tangenciando o sexo que vem sendo editadas atualmente no País, incluindo traduções, quadrinhos e outros quetais. Para ficar apenas em alguns exemplos da produção nacional, vale citar títulos como Tesão e Prazer (Luiz Alberto Mendes) ou Catecismo de Devoções, Intimidades & Pornografias (Xico Sá), sem esquecer o livro de Bruna Surfistinha que se tornou um fenômeno comercial. Mas, em meio a isso, há também lançamentos importantes de autores de alta qualidade literária como os citados Hilda Hilst e Reinaldo Moraes… A lista não se limita a esses poucos exemplos e, dada sua diversidade, é prudente tratá-la como um fenômeno sensível e mercadológico que ainda carece de avaliação mais rigorosa.

OP – Como o erotismo, a filosofia e a ficção, palavras que resumem seu curso no Espaço O POVO de Cultura e Arte, se encontram, dialogam e reverberam na contemporaneidade?

Eliane – Gosto de citar a escritora e ensaísta americana Susan Sontag, que caracteriza a “imaginação pornográfica” como uma forma particular de consciência que transcende as esferas sociais e psicológicas. A ficção erótica, diz ela, aciona estados extremos do sentimento e da consciência humana, visando desorientar o sujeito, deslocá-lo mental e fisicamente. Por isso os textos obscenos, incluindo os contemporâneos, seriam portadores de um certo princípio de conversão do leitor, semelhante ao que encontramos nas literaturas de cunho eminentemente religioso. Se concordarmos com ela, fica impossível falar de ficção erótica simplesmente como gênero literário, pois o projeto de conversão suposto na sua leitura se imporia a qualquer convenção ou norma literária. Então, só se pode definir o erotismo como campo que coloca um problema estético particular, na medida em que privilegia as formas do excesso e, assim, viabiliza a passagem de uma consciência “social” para outra, perturbadora. Diríamos ainda mais: um campo do conhecimento que coloca uma questão filosófica maior, posto que abre ao pensamento a possibilidade contínua de alargar a escala humana para além da vida em sociedade. O repertório de subtemas que o erotismo literário aciona – bestialização, violência, perda de si no outro, etc., seja de forma trágica ou cômica, aponta para essa constante problematização da noção de homem e de humanidade. Não é pouco, pois, o que a fantasia erótica tem a oferecer para a filosofia: sob o ardiloso disfarce da ficção, ela guarda uma memória antiga, a nos lembrar que os excessos do cogito têm relações intensas com as pulsões do corpo.

A autora Eliane Robert Moraes está organizando a Antologia da Poesia Erótica Brasileira, que será publicada pela Ateliê Editorial nesse ano.

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