Revista LIVRO é “compromisso com a qualidade e o amor ao objeto livro”

Por: Renata de Albuquerque

A LIVRO – Revista do Núcleo de Estudos do Livro e da Edição – acaba de chegar ao número cinco, ultrapassando a “barreira do quarto número”. O objetivo da publicação – pensar o livro como um objeto que carrega significados e conteúdos para além dele mesmo – cumpre-se, desta vez, com a participação de mais de duas dezenas de colaboradores renomados em diversos setores, do acadêmico ao editorial. Entre eles estão Jean-Pierre Chauvin, Mônica Gama, Iuri Pereira e Marisa Midori Deaecto, editora da publicação e com quem o Blog da Ateliê conversou a respeito:

Marisa Midori Deaecto e Plínio Martins, editores da Revista LIVRO

Marisa Midori Deaecto e Plínio Martins, editores da Revista LIVRO

Qual o tema central desta edição da Livro?

Marisa Midori Deaecto: Na verdade, o tema central é o livro. É o objeto de estudo privilegiado pelos editores e pelos autores para a construção da revista. O propósito da publicação é justamente o de valorizar o caráter múltiplo do livro, o que provoca, por extensão, múltiplas frentes de investigação. O que a revista traz como diferencial para cada número é o que chamamos de dossiê temático, ou seja, em todos os números convidamos autores para contribuir em algum campo em comum e reunimos estes estudos sob a forma de um dossiê. O número 5 traz artigos reunidos no Dossiê Tipografias. Com isso, nossa intenção é a de valorizar estudos sobre a arte do livro, tendo como chave a própria palavra tipografia, que se tornou, ela também, polissêmica.

Com base em que parâmetros foram escolhidos os colaboradores desta edição?

MMD: Os colaboradores se auto convidam ou são convidados. Como a revista tem uma tradição, pois manteve sua permanência e se fixou como a principal revista especializada em estudos do livro no Brasil, então é natural que sejamos procurados. Há outro aspecto: ela não se fecha para a produção acadêmica. Entendemos que o livro é objeto de admiração e de estudos por toda parte, não apenas por aqueles que atuam nas universidades. Vem daí o amplo interesse que a revista desperta.

 

PRIMEIRA CAPA REV LIVRO 5Ao iniciar o trabalho, como foi o convite feito aos colaboradores? Havia alguma preocupação com um fio condutor ou os temas abordados eram livres?

MMD: Não, uma revista se diferencia de um livro pelo fato de ser uma obra aberta. Quando começamos, não sabemos no que vai dar. A boa surpresa é que o trabalho resulta sempre em volumes alentados e muito interessantes. E volumes bem diferentes uns dos outros. Aliás, quem coleciona nossos números não encontra artigos com temas repetidos. Se considerarmos que a revista soma aproximadamente 1500 páginas, isto é um grande feito!

 

 

O editorial fala da importância da revista ter chegado à quinta edição e do apoio que receberam de vários pesquisadores. Quais são os desafios de manter uma publicação como essa e por que ela se tornou referência para se pensar sobre o papel da comunicação?

MMD: Há uma lenda que diz que as revistas independentes não sobrevivem ao quarto número. Se nos basearmos nessa premissa, o número 5 é um feito histórico. Recebemos o apoio irrestrito dos autores que confiam em nosso trabalho e na qualidade editorial da revista. Este ponto é muito importante, pois há estudiosos brasileiros que se preocupam com a pontuação que um determinado artigo poderá lhe render no ranking acadêmico. Esta preocupação não existe entre nós. Editores e autores firmam seu compromisso com a qualidade e o amor ao objeto livro. Mas revista é um artigo de venda difícil. Mais difícil do que vender livro. Primeiro porque, na cultura acadêmica, as revistas são feitas para seus pares, muitas são financiadas por programas de pós-graduação, portanto, não são vendidas, são distribuídas. Segundo, porque fora do mundo acadêmico não existe a cultura de venda e aquisição de revistas extremamente especializadas como a nossa. Terceiro, somando um e outro aspecto, porque os canais de distribuição são raros, raríssimos. No nosso caso, eles dependem da editora e dos parceiros, ou seja, da ajuda de autores, artistas e dos conselhos editorial e científico. Mas a LIVRO segue como referência nos estudos da área e, de forma mais abrangente, nos estudos sobre a comunicação, entendendo, aqui, o livro e o impresso – pois há matérias sobre a imprensa jornalística, sobre revistas etc. – como um componente poderoso da comunicação. O livro é uma media, logo, revelar seus múltiplos aspectos constitui um exercício fundamental de análise e reflexão sobre a comunicação no sentido histórico, sociológico e econômico.
O próprio editorial da edição trata do fato de que o Brasil tem mudado muito rapidamente nos últimos tempos. Quais são as mudanças que poderiam ser destacadas e de que maneira elas são abordadas nessa edição?

MMD: O editorial trata de uma crise sistêmica que começa na política, ou termina na política, mas que tem suas raízes em uma crise que, na falta de termo mais seguro, poderíamos chamar de uma crise estrutural do país.

 

A intolerância é a expressão mais trágica e eloquente deste cataclismo social que estamos vivendo.

Porém, aparentemente, nada muda nas análises sobre o livro. Elas continuam e o interesse de autores e leitores sobre a revista só aumenta. Já temos matérias para o número 6. O que mudou, talvez, foi o estado de espírito de seus editores. Mas isto certamente não tem uma influência direta na edição.

 

Como uma publicação anual pretende dar conta dessas rápidas mudanças? Como essas mudanças refletiram nesta edição da Livro? 

MMD: A revista não tem a pretensão de abraçar as mudanças em tempos reais. Ela é editada por um editor de profissão e por uma historiadora convertida em editora. Logo, há poucas chances de querermos abraçar o presente. Mais vale pensar na perenidade das palavras impressas e no potencial do livro para a preservação da memória dos homens.

 

Qual a importância do livro (e do saber) para que possamos sair deste momento de crise social, política e econômica? 

MMD: Já escrevi noutra ocasião que o livro é um instrumento de fuga e de transformação. São dois caminhos opostos e contraditórios e cabe ao leitor fazer as suas escolhas. Mas tudo está no livro, desde que bem escolhido e bem lido! O livro é um instrumento para se compreender o mundo sem pressa. No jornal estão as informações do dia a dia. No livro estão os instrumentos para se pensar além. Às vezes é preciso sublimar a realidade dura descrita nos jornais para uma compreensão mais profunda dos fatos e para a sua superação. Às vezes, no entanto, é preciso apenas sublimar a realidade que nos cerca, pois isto faz bem à alma. Também nesse caso a leitura se apresenta como uma forma de panaceia do mundo. É por isso que nossa revista investe também em uma seção literária muito incomum na cultura periódica brasileira de nossos dias. Publicamos prosa e poesia em português ou em traduções inéditas, tudo sob a curadoria e edição do Prof. José De Paula Ramos Jr., um grande especialista de Mario de Andrade, professor da USP dedicado ao ensino da ecdótica.

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