Monthly Archives: abril 2012

Aborto

Refluxos - Edson Valente
.
Que espécie de monstrengo seria aquele?
Sim, o fogo de seus olhos nas noites de ódio intenso. E a maquinação cinzenta do revolver de minhas memórias impublicáveis. O ranger dos últimos copos de cristal de um dia de festa já
sepultado.
.
E o choro, a bocarra? Minhas súplicas de volta para um ponto obscuro? Como quando se pega a estrada errada, inúmeras vezes, numa encruzilhada, retorna-se ao princípio e, embora sabendo qual dos caminhos deveria ser evitado, escolhe-se novamente o
mesmo.
Ou seus gritos de pavor ante meus braços retesados sem consolo? O bebê sou eu? Estou num balde ou numa privada, em vez de acolhido em sua manjedoura? Tenho membros destroçados em vez de acalanto?
.
A cabeça está deformada. Guarda traumatismos, as linhas de raciocínio abriram fendas e fugiram como rios caudalosos.
De quem são essas mãozinhas?
As garras insidiosas da mãe, uma carícia como preâmbulo para o sufocamento.
E o narizinho?
Ah, claro, as grutas escamosas do papai, que farejam a solidão como um cachorro de boas intenções para, aos poucos, erguer seu templo da salvação e, então, sugar até a última gota.
.
Um câncer que se formou no exato momento da concepção. Quando as duas primeiras células se uniram em equívoco, um daqueles brinquedos em que a peça verde quadrada se encaixou no buraco redondo vermelho. O resultado era previsível, não?
O casamento da violência e de um vazio abominável. Os girinos de bom-senso não correram, ao contrário, fizeram como no exército, quando se recruta para uma tarefa inglória e os espertos dão um passo para trás. Abriram caminho para um débil em propósitos. E as reentrâncias do óvulo encontravam-se fragilizadas demais para recusá-lo.
.
No ultrassom, o prenúncio. Havia vísceras de dragão e o coração não batia.
Gravamos em DVD assim mesmo, uma justificativa para as famílias.
E a avidez delas as cegou para a aberração. Enxergaram sorrisos – que fingimos tão bem. Prepararam pratos sofisticados que esvaziamos sob a mesa sem deixar vestígio.
Escondido pelas toalhas, um engalfinhar sangrento.
.
O que virá não será menos catastrófico.
Na lembrancinha pendurada na porta da maternidade, a marca do cordeiro. Uma data simbólica e os olhos de boneca quebrada prontos para o abismo, resta saber quem empurrará o corpo, qual de nós dois.
E, considerando-se um cordão umbilical de três pontas nesse sistema, há de se temer o efeito do alpinista que desaba e leva consigo os outros, encosta abaixo.
.
Edson Valente
Conto do livro Refluxos
.

Participe da nossa pesquisa e concorra ao sorteio da Divina Comédia

Pesquisa Público - Blog
.
Participe da nossa pesquisa e ganhe um cupom de 30% de desconto para comprar seu livro preferido da Ateliê na Loja Virtual. Também sortearemos um exemplar da Divina Comédia entre os participantes da pesquisa, que leva menos de 5 minutos para ser respondida.
.
Estamos há 15 anos lançando títulos no mercado editorial e aprendendo com as mudanças e avanços tecnológicos. No mundo virtual temos apenas 5 anos de idade. Nesses anos pudemos conviver mais de perto com nossos leitores, uma relação rica para ambas as partes, mas que exige constante interação para continuar viva.
.
Nós utilizamos as redes também para discutirmos assuntos relevantes e aproximarmos os leitores dos livros, autores e editores. É notável a característica dos nossos leitores em discutir de maneira crítica os assuntos importantes que nos cercam, e em buscar na leitura saciar o desejo pelo conhecimento, sem falar do gosto apurado para livros com projeto gráfico, impressão e acabamento de qualidade. Muitos também apreciam a literatura em suas diferentes expressões – contos, mini-contos, poesia, romance, novela, ficção, suspense, comédia – seja ela feita por autores veteranos ou novatos. Continuaremos cumprindo nosso papel de difundir conteúdo, em seus diferentes formatos e suportes, e contamos com sua ajuda para fazê-lo da melhor maneira possível.
.
Foi por isso que decidimos elaborar um questionário simples, que pode ser respondido em poucos minutos, mas de extrema importância para entedermos melhor você, leitor que nos acompanha. Como agradecimento pelo tempo investido, cada participante receberá um cupom de 30% desconto e concorrerá a um exemplar da nossa edição bilíngue da Divina Comédia, escrita por Dante Alighieri, traduzida por João Trentino Ziller e com ilustrações de Sandro Botticelli. O sorteio acontecerá no dia 25 de maio de 2012 e o cupom terá validade de 6 meses.
.
Agradecemos a todos pela atenção!
.
.

Nossa edição bilíngue da Divina Comédia está novamente disponível no site

Divina Comédia

Após sucesso com a crítica e o público a primeira edição da Divina Comédia, de Dante Alighieri, está novamente em estoque e disponível para compras na Loja Virtual. A co-edição  bilíngue da Divina Comédia (Ateliê/Unicamp) traz ao leitor brasileiro a tradução de João Trentino Ziller, ilustrações inéditas de Sandro Botticelli, perdidas durante séculos e identificadas na década de 1980, e notas de leitura do professor e crítico João Adolfo Hansen.

Divina ComédiaDivina Comédia, de Dante Alighieri (1265-1321), é uma das obras-primas mais importantes da literatura mundial, conhecida e estudada há séculos. Composto por 14.233 versos, o poema está dividido em três partes: Inferno, Purgatório e Paraíso. O poeta narra sua visita aos três reinos supraterrestres, que o conduzirá à visão da Trindade. Dante realiza um inventário de crimes e méritos dos homens, um painel moral que oferece uma visão teológica e dramática da condição humana.

Durante o périplo, Dante encontra personagens célebres de seu tempo e do passado, cujo castigo, penitência ou beatitude dependem dos atos que cometeram na Terra. O poeta romano Virgílio, alegoria da razão humana, é o guia de Dante no Inferno e no Purgatório. Beatriz, a mulher amada por Dante desde a infância, é alegoria da teologia. É ela que o acompanha à contemplação última de Deus. Escrita entre 1307 e 1321, Divina Comédia tem características da literatura e do estilo medieval, mas também é profundamente inovadora, pois oferece uma representação ampla e dramática da realidade.

Escrito em versos hendecassílabos com terça-rima, o poema é um desafio para tradutores. A tradução do erudito João Trentino Ziller – italiano radicado no Brasil – é considerada por especialistas como a melhor já realizada para o português. O trabalho de Ziller, que consumiu 25 anos, respeita a estrutura rítmica e poética do original, preservando os hendecassílados e as terças-rimas. O volume traz notas de leitura do professor e crítico literário João Adolfo Hansen e um texto de João Ziller sobre Dante.

Ilustrações de Sandro Botticelli e projeto gráfico: Considerado como um dos expoentes da Arte Renascentista, o florentino Sandro Botticelli (1445-1510) começou a ilustrar a Divina Comédia em 1490. Os 102 desenhos que realizou emulam com perfeição a poesia de Dante, assim como o próprio projeto gráfico da edição renascentista, que serviu de base a esta edição. Única em seu gênero, a edição renascentista era aberta horizontalmente, contendo um canto completo por página, seguido de uma página com uma imagem que lhe corresponde. Esta edição conserva a orientação dos desenhos e dos textos nas páginas, fazendo com que o livro seja lido verticalmente, de cima para baixo. Assim, a cada virar de página, o leitor faz uma jornada descendente ao interior do livro, acompanhando literalmente a progressão de Dante em sua descida ao Inferno. Entretanto, na travessia do Inferno para o Purgatório, surge um impasse. Se ao longo do Inferno a leitura se dá em uma linha descendente, ao pas- sar para o Purgatório o leitor inicia um movimento de ascensão em direção ao Paraíso. Completa o volume o ensaio Ver a Comédia de Botticelli, de Henrique Piccinato Xavier, designer do livro.

O Efêmero e o Perpétuo em Embate

Renato Tardivo

.

Tempos da Fotografia - Boris KossoyOs Tempos da Fotografia – O Efêmero e o Perpétuo é o terceiro livro da série de Boris Kossoy (fotógrafo, professor e pesquisador) sobre a teoria da fotografia. Fotografia & História e Realidades e Ficções na Trama Fotográfica são os outros títulos. O livro, que recebe um belo prefácio de Cremilda Medina, divide-se em “Introdução” e três seções: “Teoria e Metodologia: Conceitos, Proposições, Abordagens”; “Imprensa e História”; “Imaginário e Memória”. Cada uma das seções contém mais de um capítulo. Os textos, à exceção do último – “Castelos de Cartas, Castelos de Areia” –, foram reformulados e ampliados a partir de conferências, aulas magnas, artigos etc.

O capítulo inicial apresenta um vasto apanhado de conceitos e reflexões metodológicas que nortearam a “produção teórica e histórica em torno da imagem fotográfica” por parte do autor. Entre outras importantes questões, Kossoy nos alerta para a necessidade de que se “compreenda o papel cultural da fotografia: o seu poderio de informação e desinformação, sua capacidade de emocionar e transformar, de denunciar e manipular”. A fotografia é, portanto, um objeto cultural, que “desvenda fatos” os quais “não se mostram” e desperta um “passado desaparecido”.

Na segunda seção, “Imprensa e História”, o autor traz a importante reflexão acerca do potencial ideológico que envolve as imagens, seja ao consagrar determinados fotógrafos (habilidosos ou não), seja ao “constituírem instrumento de manipulação política e ideológica”. Afinal, mesmo “pensada enquanto testemunho ‘documental’”, a imagem é “inevitavelmente fruto de um processo de criação”, que parte, por sua vez, de um ponto de vista.

A seção 3, “Imaginário e Memória”, talvez seja a mais interessante do livro, uma vez que reúne os aspectos teórico-conceituais da primeira seção e os elementos da crítica ideológica contidos na segunda. “Fotografia é memória […] É o assunto ilusoriamente re-tirado de seu contexto espacial e temporal, codificado em forma de imagem”. E, conquanto não seja o foco principal da reflexão do autor, Kossoy inclui, como não poderia deixar de ser, uma discussão acerca da tendência à “saturação” que os meios eletrônicos, nos últimos anos, implicam na apreciação das imagens.

Finalmente, é inspiradora a analogia entre a câmara fotográfica e a máquina do tempo: “Com a fotografia, descobriu-se que, embora ausente, o objeto poderia ser (re)apresentado, eternamente”. Esse embate entre “o efêmero e o perpétuo”, já presente no subtítulo da obra, faz lembrar as concepções acerca da temporalidade do filósofo francês Maurice Merleau-Ponty, em sua Fenomenologia da Percepção, para quem o presente, esse instante sempre fugidio, é o embate entre passado e futuro. E, nessa direção, podemos nos remeter também às proposições de Roland Barthes em A Câmara Clara, livro-depoimento no qual o autor afirma que a fotografia provoca um sentimento doloroso e enigmático por ser “imagem viva de uma coisa morta”, um “isso foi”.

Os Tempos da Fotografia é leitura indispensável àqueles que se dedicam à pesquisa fotográfica, mas servirá também a quem vislumbra nessa linguagem uma forma de expressão que, como escreveu Barthes, tem a potência de revelar “o que já não é”.

Coluna Resenhas - Renato Tardivo

Conheça nossos títulos da Coleção azul

Coleção Azul

.

Sociologia da Leitura

Monique Segré, Chantal Horellou-Lafarge
A sociologia da leitura é um importante campo de reflexão sobre esta prática social e experimentou grande desenvolvimento nos últimos quarenta anos, especialmente na França. Entretanto, ela ainda é pouco estudada no Brasil. A publicação deste trabalho procura lançar bases para que a discussão sobre a prática da leitura ganhe cada vez mais corpo também em nosso país. A presente obra oferece uma perspectiva panorâmica do tema, mais descritiva do que teórica, insistindo no fato de que a palavra escrita continua ocupando lugar central na sociedade contemporânea – que, por sua vez, se caracteriza, entretanto, pela onipresença da imagem e pelo mundo virtual.
R$ 35 | 14 x 21 cm | 160 páginas

.


Comunicação e IdentificaçãoComunicação e Identificação – Ressonâncias no Jornalismo

Mayra Rodrigues Gomes

Este livro toma o jornalismo como referência para investigar a constituição imaginária, discursiva, das relações humanas. A autora faz essa reflexão sob um duplo ponto de vista: o individual, ou seja, das representações sociais, e o grupal, das associações entre essas representações. Retomando a contribuição de teóricos como Derrida, Deleuze e Foucault, Comunicação e Identificação questiona de que modo as identificações se consolidam e as subjetividades se constroem..

R$ 37 | 14 x 21 cm | 200 páginas

.

.

Fetichismos VisuaisFetichismos Visuais – Corpos Erópticos e Metrópole Comunicacional

Massimo Canevacci

O antropólogo italiano Massimo Canevacci rediscute o conceito marxiano de Fetisch para compreender as contradições da cidade contemporânea. A alteração das relações entre seres humanos e mercadorias envolve fetichismos visuais disseminados, sobretudo, pela tecnologia digital. Esse novo estilo de vida mistura publicidade, moda, música, arte e design – não mais mercadorias clássicas. Isso exige, então, uma “metodologia estupefata”, polifônica, que dê conta das mutações na metrópole comunicacional.

R$ 45 | 14 x 21 cm | 336 páginas

.

+ livros da Coleção azul

.

Égloga da Maçã – Affonso Ávila

Égloga de Maçã - Affonso ÁvillaPela Ateliê Editorial o poeta, ensaísta e crítico literário também já publicou o livro Cantigas do Falso Alfonso El Sabio, ganhador do Jabuti de Poesia em 2007 e um dos 10 finalistas do Prêmio Portugal Telecom no mesmo ano

Nessa nova coletânea, à moda dos poetas renascentistas, Affonso Ávila reconhece (pelo amor) uma maçã – assim como Clarice Lispector, com o seu mote “como se agora, estendendo a mão no escuro e pegando uma maçã, ele reconhece nos dedos desajeitados pelo amor de uma maçã”. O poeta desenvolve églogas sobre a maçã. Mas não é uma maçã qualquer: é a visão idealizada que a égloga sugere, ora idílica, ora arcádica, ora contemporânea e crua de uma maçã milenar em seu “lento desfiar de fluxos”. Desde o organismo ofídico da eva-maçã primeva, a visão da maçã percorre o tempo e chega, através dos séculos, pela voz do poeta, ao nosso mundo, por mais midiático e acidentado, como “bem-vinda eva doce ou astuta/appassionata sábia fruta”.

Como na poesia: “pobre coração que vindica / saída ainda audaz voz lírica / a ele caiba a redundância / do haver comido maçã e ânsia / e hoje balbuciar tom de cio / e percorrido solo de estio / bem-vinda eva doce ou astuta / appassionata sábia fruta / – BIS BRAVO APLAUSO BEETHOVEN / SÃO OS SONS DA MAÇÃ O QUE SE OUVE”

Affonso Ávila nasceu em Belo Horizonte em 1928. Além de poeta, é ensaísta e crítico literário, especialista no barroco mineiro. Fundou nos anos 1950 a revista Tendência e no final dos anos 1960 a revista Barroco, que dirige até hoje. É considerado um dos mais importantes poetas brasileiros contemporâneos. Teve participação ativa em importantes movimentos literários, foi criador do Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais e de uma linha de pesquisas e ensaios cujo enfoque é o Barroco no Brasil, principalmente do Barroco mineiro. Foi organizador da Semana de Poesia de Vanguarda, um importante evento realizado em 1963, e vencedor de diversos prêmios – entre eles o Prêmio Jabuti, com O Visto e o Imaginado e também com Cantigas do Falso Alfonso El Sabio. Entre suas obras estão: O Açude, Sonetos da Descoberta, Carta do Solo, Código de Minas, Poesia Anterior, e A Lógica do Erro.

Bastidores da Produção Editorial

Bastidores Produção Editorial

Tereza Kikuchi

É com muita alegria que inauguro hoje meu primeiro post para o blog da Ateliê Editorial. Em primeiro lugar, quero agradecer Tomás Martins pelo gentil convite para participar desta equipe.

Aqui pretendo escrever com regularidade mensal sobre questões ligadas aos temas: livro e cultura, principalmente no que se refere ao trabalho dos profissionais destes setores e às mudanças que as novas tecnologias vêm impondo ao negócio do livro.

Escrevo em primeira pessoa, deixando claro que as opiniões e assuntos debatidos neste espaço foram elegidos por mim, não refletindo uma posição institucional da Ateliê Editorial, portanto polêmicas, acertos ou incorreções que por ventura surjam são de minha responsabilidade.

Introduções feitas, hoje quero convidá-los a conhecer os bastidores da produção editorial. Vocês sabem como um livro é feito?

No centro do palco, o Revisor

Imagine que você, caro leitor, tenha seu original aprovado por uma editora. Este texto, escrito com apreço e dedicação, ainda percorrerá um longo caminho. Primeiramente, o preparador ou revisor de texto realizará uma padronização geral do modo como o conteúdo é apresentado, seguindo o estilo adotado pela casa editorial.

E o que seria essa tal padronização? O texto já não está escrito e aprovado? Claro que sim, porém há certos elementos que no decorrer da escrita podem estar grafados de maneiras distintas. Por exemplo, os números, que ora são redigidos como algarismos, ora por extenso. Não se trata de um erro gramatical, mas de uma convenção. Algumas editoras costumam converter os dígitos para a forma extensa, quando eles podem ser reduzidos a uma palavra (um, dois, três, dez, vinte, cem). No entanto, mantêm a grafia em dígito nos casos em que a forma por extenso é composta por mais de uma palavra (22, 58, 1025).

A lista de convenções para padronização de textos é enorme: hierarquização das informações nas referências bibliográficas; regras para composição de notas de rodapé; uso de versaletes para siglas (USP, FGV, PUC) ou composição em caixa-alta e baixa (maiúscula apenas na primeira letra) nos casos em que as siglas podem ser pronunciadas (Unicamp, Unesp, Unifesp). Cada editora adota um padrão, mas o importante é que as informações estejam bem organizadas e coerentes com o estilo adotado.

Além de padronizar o texto, o preparador também realiza uma primeira leitura cuidadosa em relação à gramática e à ortografia do original, e aponta eventuais problemas semânticos, propondo correções ou melhorias.

Trata-se de um trabalho que exige formação especializada, atenção aos detalhes e muito amor à palavra escrita. Infelizmente, poucos sequer tomam conhecimento deste profissional, só se recordam de sua existência quando encontram erros numa publicação. Por este motivo, entre muitos outros, o profissional de texto na prática exerce uma carreira ingrata. Pois quando realiza seu trabalho com perfeição (o que, convenhamos, é humanamente impossível), não é notado, e quando alguém percebe um erro, torna-se automaticamente o vilão da história.

Este profissional tão importante para a produção de um livro bem editado (assim como outros profissionais que raramente são notados, como por exemplo o produtor editorial, o designer, o produtor gráfico, o iconógrafo, o infografista, o divulgador etc.) não é remunerado como deveria ser, apesar de realizar uma atividade que exige grande esforço intelectual e bagagem cultural.

E o pior de tudo, muitos acreditam que ele pode ser substituído pelo corretor ortográfico dos programas de edição!

Por que falar sobre este tema é importante, não só para os profissionais da área, mas também para o leitor?

Simples, porque ler um livro bem editado, produzido por uma equipe de profissionais competente e valorizada, faz toda a diferença, apesar de não ser tão visível a princípio.

Se você usufruiu de uma leitura agradável, com fluidez e conforto, acredite, isso se deve ao revisor e aos demais profissionais acima citados.

Fui motivada a escrever tudo isso, porque os profissionais desta área são desprestigiados, não só entre o público leigo, mas também no mercado editorial, o que é uma triste injustiça. Trazer à tona essas questões é uma modesta tentativa de retirar da coxia um profissional fundamental para que a qualidade das edições se mantenha.

Daí, vamos a outro ponto: muito se tem falado sobre a independência do autor, que por meio das novas tecnologias e dos modelos de negócio disponibilizados pelas grandes corporações, não necessitariam mais do editor ou dos demais profissionais. Ledo engano. Um bom livro – analógico ou digital – é uma obra coletiva, ou seja, apesar de destacar o escritor na capa (por seu trabalho de criação e pesquisa), o livro é como um filme: para existir, depende de inúmeros outros profissionais.

E um livro, objeto tão amado, sendo ele digital ou analógico, precisa ser produzido com todo cuidado que uma obra artística ou uma pesquisa científica merecem, a fim de que não se comprometa a qualidade do texto.

Caso o leitor um dia se depare com um livro ou e-book cheio de erros e mal desenhado, lembre-se, ali não há projeto editorial.

Até o próximo post. E um muito obrigado a todos os revisores!

Coluna da Tereza Kikuchi

Formada em Editoração pela eca-usp, escreve mensalmente para o Blog da Ateliê Editorial e quinzenalmente para o Blog Ideia de Marketing. Trabalha com livros há mais de uma década, coordenando projetos editoriais e desenvolvendo projetos gráficos. É organizadora do livro José Mindlin, Editor, publicado pela Edusp em 2004.