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Auto da Barca do Inferno, de Gil Vicente

Por: Renata de Albuquerque*

Uma das mais importantes obras do dramaturgo português Gil Vicente – considerado o pai do teatro português – o Auto da Barca do Inferno (ou Auto da Moralidade) foi escrita em 1517 e encenada, pela primeira vez, em 1531. O texto faz parte da trilogia das barcas, composta por esta e por outros dois textos, Auto da Barca do Purgatório e Auto da Barca da Glória.

Devido à sua importância histórica para a literatura, o Auto da Barca do Inferno foi escolhido para ser o primeiro título de uma coleção criada pela Ateliê Editorial ainda nos primeiros anos de existência da editora. A ideia da coleção “Clássicos para o Vestibular” era oferecer aos alunos do ensino médio uma edição de qualidade de um livro clássico, que é sempre solicitado nas provas. O livro traz o texto na íntegra, precedido de um texto introdutório que traz análise do enredo, da linguagem, dos personagens, do contexto histórico e do autor. Logo depois, a coleção passou a chamar-se “Clássicos Ateliê”. Afinal, não são apenas os estudantes que merecem ler uma edição bem cuidada de um clássico. Inicialmente, a coleção era coordenada por Ivan Teixeira, professor livre-docente da ECA/USP e professor titular de Literatura Brasileira na FFLCH/USP. Depois do falecimento de seu criador, em 2013, a coleção passou a ser coordenada pelo professor José de Paula Ramos, doutor em Literatura Brasileira pela USP e professor da ECA, da mesma universidade.

Auto da Barca do Inferno

Por ser um auto de moralidade, a peça, de um só ato, é uma alegoria do Juízo Final, uma sátira à sociedade portuguesa do século XVI. O vocabulário – muito distante da maneira como falamos hoje – pode parecer um obstáculo ao entendimento. Mas, se ultrapassado, o texto se revela divertido, com uma comicidade envolvente.

O enredo é simples. Dois barqueiros – o Anjo e o Diabo – estão em um porto, em que recebem, cada um em sua barca, as almas dos passageiros, para transportá-las para o outro mundo. O Diabo convida cada alma para fazer parte de sua barca. O Anjo autoriza ou não outras almas a viajar em sua própria barca. Vai para  céu quem durante a vida seguiu os preceitos divinos. Vai para o inferno quem foi avarento, mesquinho ou cometeu outros pecados.

Os personagens – que são, na verdade, representações de tipos sociais – apresentam-se diante do espectador como em um desfile. Sua história vai definir seu destino. Apenas o parvo e os quatro cavaleiros, mártires da Igreja, que dedicaram a vida ao cristianismo, conseguem embarcar rumo à paz eterna na barca do paraíso.

Cada personagem representa um aspecto da sociedade portuguesa. O Fidalgo, por exemplo, é o tirano representante da nobreza. O Parvo simboliza o povo português, temente a Deus e de bom coração. O Judeu representa as pessoas que não são fieis à fé cristã. O Frade desobedece o voto de castidade e, por isso, também vai para o inferno. Figuras como o Onzeneiro, o Corregedor e o Procurador são alegorias dos burocratas que usam o poder político a seu favor.

É interessante notar que o Diabo fala e age com uma fina ironia e que, muitas vezes, suas intervenções parecem ser a voz do próprio autor. Já o Sapateiro, ainda que tenha-se confessado antes de morrer não conquista o céu – o Diabo o leva porque ele roubava seus clientes.

Gil Vicente

Gil Vicente

Nascido por volta de 1465, em Guimarães, o poeta Gil Vicente é considerado o pai do teatro português. Autor de um teatro popular – apesar de estar no ambiente da Corte Portuguesa – foi um entretenimento para a família real, mesmo contendo diversas críticas ao poder. O teatro de Gil Vicente é caracterizado pela sátira crítica.

Pai de cinco filhos – dois do primeiro casamento e três do segundo, contraído após a morte da primeira esposa – estudou na Universidade de Salamanca, na Espanha. Um dos primeiros registros com seu nome data de 1502, quando encena “Auto da Visitação” ou “Monólogo do Vaqueiro”, em homenagem ao nascimento do príncipe D. João, futuro D. João III. Em 1511 foi nomeado vassalo do rei e mais tarde, mestre da balança da Casa da Moeda (1513). Faleceu por volta de 1536, provavelmente em Évora.

Conheça outros títulos da Coleção Clássicos Ateliê

*Jornalista, Mestre em Literatura Brasileira pela FFLCH/USP, autora da Dissertação Senhoras de Si: o Querer e o Poder de Personagens Femininas nos Primeiros Contos de Machado de Assis.

“A Relíquia”, de Eça de Queirós: humor e ironia em um clássico realista

Por Renata de Albuquerque*

Um romance realista cheio de ironia, humor e com um toque de cinismo. Assim é A Relíquia, romance de Eça de Queirós, publicado em 1887 em Portugal. O livro é narrado por Teodorico Raposo (Raposão), órfão de pai e mãe que, ainda criança, vai morar com sua tia, Dona Maria do Patrocínio (Titi), uma senhora beata, avara e casta. É ela quem controla a fortuna que o sobrinho herdará, no futuro.

As características da tia do narrador não são colocadas por acaso pelo autor. Eça de Queirós foi integrante da chamada Geração de 70 de Portugal, um grupo de artistas e intelectuais que desejava a renovação da  vida política e cultural portuguesa, que consideravam decadente. A obra Causas da decadência dos Povos Peninsulares nos últimos três séculos, de Antero de Quental, componente do grupo, propõe que são três os elementos que levam ao atraso científico e industrial e à decadência moral, econômica e social: o catolicismo, a monarquia absolutista e as conquistas ultramarinas. Em A Relíquia, Eça de Queirós lança mão de uma personagem beata para criticar a igreja católica e a sociedade portuguesa de então.

Enredo

A Relíquia narra as memórias de Teodorico Raposo, órfão cuja mãe morreu no dia seguinte ao parto (um sábado de aleluia) e que, por parte de pai, era neto de padre.  Tudo é contado com um forte tom de ironia. Por isso, o que está posto no romance deve ser lido com uma certa desconfiança do leitor. Graças a este recurso, a obra é uma leitura que agrada e diverte o leitor, pelo humor ácido e pelo cinismo. Teodorico narra as desventuras de viver com a tia e também suas aventuras em uma peregrinação à Terra Santa – viagem que Raposo realiza porque a tia não concordara em enviá-lo a Paris, cidade que Dona Maria do Patrocínio considerava um berço de vício e perdição. Titi pede ao sobrinho que lhe traga uma relíquia de Jerusalém.    

Na Terra Santa, Teodorico passa por uma experiência fantástica. Ele assiste pessoalmente a todo o sofrimento de Jesus Cristo e descobre que, em vez de ressuscitar, ele morreu de fato. Por causa deste episódio, muitos críticos acreditam que o romance fuja um pouco do realismo. Mas, no decorrer da trama, o realismo está fortemente presente.

Obviamente, entretanto, Teodorico não deixa de viver aventuras, ainda que em Jerusalém. Lá ele conhece Miss Mary, com quem tem um romance. Quando se separam, ela lhe dá como lembrança sua camisola, embrulhada em um pacote.

Para honrar a promessa que fez à tia – de trazer-lhe uma relíquia da Terra Santa – Teodorico trança uma falsa coroa de espinhos, que embrulha, de presente para Dona Maria do Patrocínio.

O narrador encontra, em seu caminho, uma mendiga e dá a ela a camisola de Miss Mary. Mas, em vez disso, confunde os pacotes e entrega-lhe a falsa coroa de espinhos. Ao voltar ao Brasil, entrega a camisola à tia que, então, deserda-o. Teodorico lamenta não ter convencido a tia de que aquela seria a camisola de Maria Madalena. Então, começa a vender “relíquias” de Jerusalém, que ele mesmo fabrica, mas o negócio declina com o tempo.

No final, Teodorico Raposo casa-se, torna-se pai e recebe a comenda de Cristo, sem, mesmo assim, deixar de pensar que poderia ter feito fortuna se tivesse dito uma mentira convincente  à tia beata.

Conheça outros títulos da Coleção Clássicos Ateliê


 
*Jornalista, Mestre em Literatura Brasileira pela FFLCH/USP, autora da Dissertação Senhoras de Si: o Querer e o Poder de Personagens Femininas nos Primeiros Contos de Machado de Assis.

Por que editar os clássicos

Coleção Clássicos Ateliê

João Luiz Marques

O romance brasileiro Til, de José de Alencar, entrou para a lista do vestibular da Fuvest em 2012. Isto mobilizou muitas editoras a publicar a obra e atender a procura por esse livro, que, certamente, irá aumentar. Entretanto, a lista dos vestibulares e as indicações de leitura para os currículos escolares não são os únicos parâmetros que orientam as editoras para a publicação dos clássicos da literatura. Para Plinio Martins, editor da Edusp, “há inúmeras obras que o público praticamente não tem contato na escola, mas que são importantíssimas”. E acrescenta: “Os clássicos são obras que conseguem sintetizar condições humanas que transcendem seu tempo. Felizmente, muitas pessoas buscam ainda os clássicos mesmo depois de saírem da escola”.

Na pressa de publicar títulos, para responder ao mercado e a procura crescente por um clássico, algumas edições correm o risco de fazer uso de versões pouco confiáveis de uma obra – que passaram por atualizações equivocadas ou correções indevidas e, eventualmente, deturpado o texto original. O que deve ser feito, então, e que cuidados tomados para selecionar uma obra e fazer uma edição confiável? Ivan Teixeira, professor da USP e um dos coordenadores das coleções Clássicos Ateliê e Clássicos Comentados, da Ateliê Editorial, acredita que “para publicar uma edição confiável de um clássico devem ser contratados profissionais especialistas em cada obra, tanto para o estabelecimento do texto quanto para introduções ou traduções”. E acrescenta: “Cabe ao editor manter contato com bons profissionais. Sem eles, uma coleção de clássicos não seria possível”. Na Ateliê Editorial, a seleção para publicação de clássicos é feita seguindo os critérios da relevância e da oportunidade de encontrar esses profissionais.

O que é um clássico?

Para Ivan Teixeira, os clássicos têm a capacidade de apreender a essência dos grandes debates existenciais e culturais de seu tempo, manipulando a língua de modo imprevisto e criador. “Os clássicos resultam não só da força de um autor, mas também do vigor de sua cultura. Sendo confluência de momentos privilegiados tanto no indivíduo quanto na coletividade, as obras clássicas oferecem à história o que há de melhor na própria história. Por outro lado, a tradição cuida de preservar e divulgar os clássicos. Por essas razões, eles sobrevivem e persistem na função de oferecer modelos e alterar padrões.”

Clássicos que não devem faltar na livraria

Sobre os clássicos que não devem faltar em uma livraria, Plinio Martins diz ser tarefa difícil fazer uma seleção, mas acredita ser imprescindível ter toda a obra de Machado de Assis, Eça de Queirós, Shakespeare, a Divina Comédia, clássicos gregos como Ilíada e Odisseia, Os Sertões, Dom Quixote, Guimarães Rosa, Gabriel García Márquez… Para ele, “é impossível fazer uma lista fechada, mas certamente uma livraria deveria ter a maior quantidade de clássicos que puder, não apenas os best-sellers do momento”.

Conheça!

Coleção Clássicos Ateliê

Coleção Clássicos Comentados

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