“Os Maias”: um romance clássico, moderno e atemporal

O século XXI acabara de começar quando a TV brasileira transportou os espectadores para Portugal do século XIX. Foi isso o que aconteceu em janeiro de 2001, quando estreou na TV Globo a minissérie “Os Maias”, baseada no romance homônimo de Eça de Queirós. Escrita por Maria Adelaide Amaral, com colaboração de João Emanuel Carneiro e Vincent Villari, a produção foi dirigida por Luiz Fernando Carvalho, que pouco antes finalizara as filmagens de Lavoura Arcaica.

Os Maias, publicado em 1888, conta a história da família Maia. Em dezoito capítulos, cheios de ironia e crítica social, o leitor conhece a história de três gerações diferentes. Na TV, um grande elenco foi escalado: Ana Paula Arósio, Fábio Assunção, Walmor Chagas, Selton Mello e Marília Pêra, entre outros, marcaram presença. Mas não era apenas o elenco que chamava a atenção. A estética elegante e elaborada da minissérie contribuiu para fazer dela uma marco na TV brasileira, que agora, duas décadas depois, volta a ser exibida no Globoplay. para celebrar a data, a Ateliê acaba de lançar uma nova edição do romance, que estava esgotado. “Procurei filmar com a pena do Eça”, afirma o diretor Luiz Fernando Carvalho, que falou com o Blog Ateliê sobre a obra:

O que o levou a aceitar a direção de “Os Maias”? Foi um convite recebido ou a proposta do projeto partiu de você? 

Luiz Fernando Carvalho: “Os Maias” me foi apresentado assim que retornei à televisão, logo após o termino das filmagens de Lavoura arcaica. Como já conhecia o romance, fiquei tocado pela enorme coincidência em relação ao Lavoura arcaica, já que, independente de suas linguagens específicas, ambos tratam o incesto como aspecto central da obra. A decadência da sociedade portuguesa, a crítica ácida aos costumes da aristocracia europeia e a visão anticlerical do Eça me pareciam sintetizados na paixão trágica entre irmãos. 

Quando você fez a primeira leitura do romance? Quais são suas lembranças e impressões dessa primeira leitura e que aspectos dessa experiência você pôde imprimir na direção da minissérie?  

LFC: Minha primeira leitura foi marcada pelo encantamento com uma prosa magistral. Extremamente sofisticada sem ser esnobe, mas com enorme rigor de detalhes em todas as passagens. Então foi exatamente este caminho que me propus desde o início, um diálogo com a atmosfera do romance, traçando uma ponte entre o realismo e a tragédia. Sabemos que Eça, de início, procurava escrever uma obra extremamente realista, abolindo por completo o estilo relambido do período, chegando mesmo a se dedicar a criar uma comédia dos costumes da elite portuguesa. Eis que no meio do processo da escrita, o tom trágico da história dos irmãos se impôs e o escritor foi arrastado para a outra margem. Talvez este bordado equilibrado entre crítica social e tragédia seja o elemento que mais me orientou na realização da minissérie. Há algo de teatral e operístico nas entrelinhas, uma dimensão trágica do destino, ao mesmo tempo em que nos deparamos com reflexões encharcadas por uma melancolia risonha do querido Ega (João da Ega, personagem de Selton Mello na série).

Você tem algum personagem ou situação favoritos no romance?

LFC: Trata-se de uma obra muralista. O que dizer de Ega – alter ego mais brilhante da história da literatura ocidental? Maria Monforte, Afondo e Pedro da Maia, Carlos Eduardo e Maria Eduarda, e todo aquele mar de personagens ao redor que, por menor que sejam suas participações, o escritor jamais abandona suas complexidades e dramas humanos. Os Maias é um tratado sobre a psicologia humana, não apenas do século XIX. Moderno e atemporal, será sempre um clássico atual em qualquer tempo.

Qual conceito você usou para criar a estética da minissérie?

LFC: Trabalhei a partir dos pintores impressionistas, desde José Malhoa ao Sargent. Mas não queria nada imitativo, ou mesmo que o período histórico soasse demonstrativo, explicativo. Por outro lado, sabemos que existe uma enorme distância entre o mundo conceitual e a prática em si, quando nós, equipe e elenco, iniciamos o processo de levantar as personagens das folhas do romance. Seria então impossível buscar uma excelência estética sem a colaboração sensível de toda a equipe e elenco. Entre tantas colaborações, considero os figurinos da Beth Filipeck parte fundamental para compreensão do mundo interior das personagens. Filipeck foi muito além, criando uma espécie de segunda pele com os trajes, refletindo um conjunto enorme de sentimentos através de cores, formas e texturas. 

Houve algum grande desafio nesse trabalho?

LFC: Quando trabalho a partir de uma obra literária, meu desafio maior é fazer com que a imaginação continue sendo imaginação, sem que se corra o risco de rebaixa-la à uma mera forma de representação. É como se tivesse que pensar assim: já te tenho que filmar, que não se mate a imaginação. 

Luís Fernando Veríssimo escreve que a minissérie “quase inaugura uma arte inédita”. A que você atribui esse impacto visual que a série causou?

LFC: Tudo na vida são tentativas. Nunca tenho certeza ou regra para nada no campo artístico. Procuro não ter, não quero ter. Mas a cada autor se faz necessário encontrar um método sobre o qual se vai aproximar. No caso de Os Maias, pensava em Proust e Fernando Pessoa, em um olhar do Tempo como entidade acima de todos nós, acima das sociedades, culturas, leis ou sonhos de cada um daqueles personagens. Essa premissa de que a narrativa estaria sendo elaborada em termos formais através do olhar do Tempo talvez tenha humanizado um pouco a narrativa televisiva. Eliminei o que considerava um excesso de equipamentos e tecnologia. Em termos técnicos, trabalhei com apenas uma câmera – reforçando a presença de um olhar como testemunha subjetiva e não como mero registro mecanizado. No mais, foram tentativas atrás de tentativas seguidas por enormes insatisfações, limites imensos impostos pelo meio que tentei reagir artisticamente, e sei bem que fui vencido muitas vezes.  

Vinte anos depois, como “Os Maias” ainda pode surpreender o público? 

LFC: Observando com os olhos de hoje, onde, na imensa maioria dos casos, as possibilidades narrativas surgem comandadas por um modelo único ditado pelas plataformas de streaming, Os Maias, através de uma adaptação corajosa, busca na origem literária suas coordenadas fundadoras. Deste encontro, emerge uma dramaturgia que representa uma libertação artística consistente e consciente. Acentuando este amor pela prosa do Eça, Maria Adelaide Amaral, propôs um caminho que será sempre novo e autêntico.  Por outro lado, somos seres incompletos, não? Os séculos avançam, as ciências, as tecnologias, mas algo no fundo de nossa alma humana permanece preso ao mistério. Talvez seja esta a mensagem que o Eça nos traz, nos surpreendendo sempre: somos feitos de mistério. Corremos em busca do amor, do encantamento, da felicidade, mas tanto as vitórias quanto as ruínas, tudo, absolutamente tudo, pertence ao mistério.

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