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A vida que segue

Vilma Costa | Gazeta do Povo | Junho 2013

O Rio na Parede, de Gil FelippeO Rio na Parede, de Gil Felippe, reúne vinte e cinco textos curtos, reeditados, a maioria, depois de cinco décadas. Chama atenção como a forma e o conteúdo se relacionam, negociando sentidos e instalando-se no tempo presente, mesmo que a narrativa prime pela retomada de fragmentos da memória.

Uma multiplicidade de questões é levantada, nas quais o cotidiano, aparentemente banal, dos personagens ganha peso. As frases são coordenadas por uma adição sumária de fragmentos, numa sintaxe peculiar, cujas ideias são sugeridas por imagens, sons, cores, além de traços de uma linguagem oral quase descomprometida. Quase, na medida em que há uma intencionalidade de construção de sentidos, mesmo quando o texto parece oferecer leituras herméticas.

Espaço cênico

Luz Azul inicia-se: “Do fundo da panela de ferro a luz azul jogava as sombras das plantas secas no fundo branco”. Trata-se de uma descrição que envolve elementos concretos para criar a imagem poética. O desdobramento é uma sequência de frases curtas que, como uma enumeração aleatória, precipita-se a compor a cena. “Paredes forradas de pinturas. Cada qual, sua história. Uma lembrança. Agradável… (…) Barulho forte do movimento da rua. Lá embaixo. Livros, papéis na mesa.” Por esses elementos transitam as reflexões do narrador. Um eu lírico que fala do mundo que o circunda como se só assim pudesse encontrar um lugar na solidão do seu dia ou, quem sabe, da própria vida.

A luz azul, como uma câmera, ilumina utensílios e silêncios. Acende-se e apaga-se, numa manifestação de presenças e ausências, lembranças e esquecimentos. “Sapatos, chinelos debaixo da cama espiam. Nenhum outro para companhia. Chegavam, e logo iam. Nunca, ficavam… Luzes acesas? Tirou a bermuda. Deitou na cama azul. As sombras das plantas secas no forro branco não mais. Luz azul, só amanhã. E sempre.”

Luzes e sombras desenham um espaço cênico que ajuda a construir esses sujeitos. Eles sofrem todos os percalços do viver. O medo como assombração assusta o protagonista de A Claridade, Agora:

Encontrou só a escuridão da sala. Só o escuro. Nada mais. Atravessar a sala. Acender a luz. Coração rápido. Sim, de repente ouvira. Passos. Passos fortes. Descendo as escadas… O ranger das escadas. Frio na espinha, pelo corpo… A mão na boca, apertando, apertando. Apavorado, consegui gritar. As mãos sumiram. 

Depois de uma noite escura e assustadora, a paz só pode ser restaurada com a claridade do dia. As imagens cromatizadas facilitam a narrativa difusa do encontro do mundo interno com o externo. A cidade, como alegoria deste último, traz elementos internos dos seus habitantes como quadros na parede de uma casa. “Lá em cima a cidade. E mais gente começava a viver por entre o cinza. O cinza da cidade cinza. Edinburgh cinza, sempre cinza. Gente cinza.”

Em Ponto Negro, Negro, o medo fala alto ainda: “Angústia profunda doendo a mesma dor. O medo. O meu medo? O medo de ficar só. O medo da morte. A morte concreta, não mais abstrata. A morte sem simbologia”. Este ponto negro, “naquela noite de solidão imensa” aponta uma perspectiva de travessia: “E o medo acabou. De atravessar o espelho”. A narrativa neste conto movimenta-se mais como um fluxo de consciência do que como sequência de fatos concretos. O medo da morte sem simbologias é também o medo de amar, o medo do encontro consigo mesmo do outro lado do espelho, o medo de viver, de atravessar as próprias fronteiras.

Fantasmas da vida

Se por um lado alguns contos assumem uma feição lírica da expressão dramática dos personagens, por outro, algumas surpresas interrompem a gravidade de situações desconcertantes, introduzindo uma bem-humorada solução para certos impasses. É quando o riso pede licença ao trágico e domina a cena. Luz Difusa é um bom exemplo: “Entrou, contornou de móvel fugidio, na luz difusa da sala. Estendidos no sofá. Amor interrompido. A mulher dele e um homem. Desconhecido. Fazer alguma coisa. Tudo. Matar, estrangular”. Depois de toda a tensão que o fato poderia provocar, à moda de Nelson Rodrigues, um desfecho surpreendente nos aguarda. Mais que o desespero da flagrante traição, respira-se aqui o gostinho doce da vingança. Como isso é possível? Só lendo o conto para saber.

Terno Vermelho reacende lembranças da infância do protagonista. O menino precisava pagar uma promessa. Regras e burocracias da Igreja o impediam. As artimanhas engendradas para realizar o feito contavam com a cumplicidade da avó. “Ninguém desconfiava. Nem o padre. Ele era anjo. Baixinho falou com a avó. Vontade de fazer xixi. Levantou o vestido, ali mesmo fez. Sorrisos das Filhas de Maria. Descoberta do sexo do anjo. O padre viu. Não gostou. A avó sorria. Vencera.”

Há na maioria dos textos uma semelhança de construção, apesar da variedade temática e de estilos (dramático, irônico, poético, onírico). Escritos na década de 1960, mantêm o frescor da atualidade. Talvez porque o tempo e o espaço não têm marcas definidas: quando a matéria trata da condição humana e a linguagem assume suas nuanças poéticas, as datas perdem importância e os lugares, sua concretude. São textos que tanto podem ser lidos como um só conjunto, quanto cada individualmente. Com exceção dos dois últimos, que ganham ares de crônica: E o Ano Novo Então Começou fixa-se em uma data representativa de mudança, retomada, recomeço; A Melhor Idade insinua um olhar contemporâneo, irônico, distraído sobre a passagem do tempo.

O Rio na Parede, conto que dá título ao livro, cai como um raio, abrindo um buraco por onde um rio lá fora se desenha na parede. “A cozinha era cozinha (…) A solidão, ficou solidão mesmo.” Duas afirmações tão assertivas podem nos levar a questionar: “Será? E a cozinha que era cozinha, o que é agora?”. A cada frase, sentidos se multiplicam produzindo um aparente nonsense. Sonho, representação, pintura na parede, reminiscências de um tempo povoado de lembranças, uma estrada vazia como um rio que caminha sem olhar para trás. É a vida ameaçada que continua ali através de vozes que resistem com seus fantasmas, seus sonhos, suas histórias.

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Gil Martins Felippe nasceu em São Carlos (SP). É Ph.D. em Botânica (fisiologia vegetal) pela Universidade de Edimburgo, na Escócia, e autor de vários livros sobre o tema. Tem cerca de 160 artigos publicados em revistas científicas brasileiras e estrangeiras, além de artigos de divulgação científica e vários livros didáticos. É membro titular da Academia de Ciências do Estado de São Paulo. Pela Ateliê, publicou também os livros No Rastro de Afrodite – Plantas Afrodisíacas e CulináriaAmaro Macedo – O Solitário do Cerrado.

A Transmutação Metalinguística na Poética de Edgard Braga, de Beatriz Helena Ramos Amaral

Reynaldo Damazio | Guia da Folha | 25.5.2013

A Transmutação Metalinguística na Poética de Edgard BragaA trajetória do poeta Edgard Braga (1897-1985) é curiosa. Iniciou na poesia como simbolista, sofreu influência do estilo parnasiano, passou pelo modernismo (era médico e fez o parto dos filhos de Oswald de Andrade) e acabou se relevando como autor inovador a partir do contato com o movimento concretista, no final dos anos 1950.

Ao fazer um balanço das ousadias poéticas e gráficas de Braga, Augusto de Campos destacou o espanto com “a liberdade total da criação, (…) livre das convenções livrescas”.

O livro de Beatriz Ramos Amaral, também poeta e musicista, analisa a obra de Braga sob a perspectiva da operação metalinguística, tentando captar os momentos de transição criativa, do verso tradicional à mistura de desenhos, grafismos, colagens e a reconfiguração do próprio suporte do livro. Acesse o livro na loja virtual da Ateliê

A Transmutação Metalinguística na Poética de Edgard Braga, por Beatriz Helena Ramos Amaral

A Transmutação Metalinguística na Poética de Edgard BragaLivro de Beatriz Amaral ilumina a trajetória e a linguagem de Edgard Braga

Maria Cecília de Salles | Revista Germina

Passados já quase 112 anos de seu nascimento (10 de outubro de 1897), Edgard Braga, um dos mais inovadores poetas e artistas gráficos do século XX, continua pouco lembrado entre nós, para não dizer quase desconhecido, nas antologias de literatura consultadas por alunos do ensino Fundamental e Médio. Em muitas, seu nome nem sequer aparece; em algumas, ele é só citado, junto com outros, contemporâneos seus, como José Lino Grunewald, Ronaldo Azeredo e Pedro Xisto. Quando se incluem exemplos, geralmente, só os poemas de autoria dos irmãos Campos e Décio Pignatari; encontrei em uma única coletânea o poema “Chuva”. Traduzido para vários idiomas, em diversas coletâneas dos anos sessenta, acabou se tornando mais conhecido fora do Brasil.

As razões de tal esquecimento? Várias, entre elas certamente está o vestibular, cujo foco distancia-se da poesia concreta. Sabe-se que a maioria das escolas estruturam seus currículos nos programas exigidos pelos grandes vestibulares. E os professores, premidos pelo cumprimento de tais metas, reservam pouquíssimo tempo ao concretismo e outras vertentes poéticas que surgiram depois dos anos 50, como a poesia marginal. Nos cursos de Letras e na Pós-Graduação, o poeta Edgard Braga ainda é pouco estudado e divulgado. Prova disso é que, nas bibliotecas da PUC-SP e da USP, para citar duas importantes universidades paulistas, não se encontra nenhuma dissertação ou tese sobre ele depois de 2005, quando no programa de Literatura e Critica Literária da PUC-SP, sob a orientação de Olga de Sá foi defendida a dissertação A Transmutação Metalinguística na Poética de Edgard Braga, de Beatriz Helena Ramos Amaral, cuja publicação ora se dá, pela Ateliê Editorial, em sua coleção de Estudos Literários.

Leia a resenha completa na Revista Germina

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Queixa-se o poeta de sua cidade no seu aniversário e recebe ajuda dos seus poetas mortos

Frederico Barbosa

O Estado de S. Paulo | 25.01.2013

Somos todos vítimas

da última chacina.

Somos todos cúmplices

do próximo disparo.

Anchieta, do alto do

pátio:

“Ah terrível bombardada

Da morte espantosa!

Como vem guerreira

E temerosa!”

Uns, acordam para a

notícia:

a noite em dados

urgentes.

Números frios, outrora

vida,

agora, nus, indiferentes

Maneco grita do largo:

Cavaleiro das armas

escuras,

Onde vais pelas trevas

impuras

Com a espada sanguenta

na mão?

E a noite segue calma

Para quem se esconde,

segue jorrando sangue

para quem não há onde.

Mário prevê noite e dia:

dentro de muros sem

pulos

Mais uma volta

na fechadura

blinda a vida

contra revoltas

ou idas.

Oswald anuncia a

solidão:

Anoitece sobre os jardins

Jardim da Luz

Jardim da Praça da

República

Jardins das

platibandas

Noite

Noite de hotel

Chove chuva

choverando

Nada é mais noite (e

chuva)

do que noias sob o teto

do absurdo viaduto

triste projeto infecto.

Nada é mais chuva (e

noite)

do que choro de viúva

sobre o corpo rígido

podridão indiferente.

Haroldo entrevê nas

ruas:

enquanto

de lugares absolutos

debaixo dos viadutos

transeuntes exsurtos das

cor de urina

vesperais latrinas

das sentinas dissolutas

caminham

Hoje nada não

nem se comemora,

nem poesia,

nem memória.

Hoje a cidade

(seus mortos)

chora.

Décio cria a palavra

chave:

cadaverdade

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Frederico Barbosa é poeta, autor de Rarefato (Iluminuras, 1990), Louco no Oco Sem Beiras – Anatomia da Depressão (Ateliê Editorial, 2001) e A Consciência do Zero (Lamparina, 2004), entre outros.

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Ecos de Eros: elos

Décio Pignatari

A erótica poesia organismo de Décio Pignatari

Frederico Barbosa | Cult | 1.2.2013

A recente morte de Décio Pignatari, aos 85 anos, faz ecoar estas palavras do poeta e crítico mexicano Octavio Paz: “Os poetas não têm biografia. Sua biografia é sua obra”. A multiplicidade da atuação de Pignatari, como criador da poesia concreta, crítico, teórico da literatura e da arte, semioticista, romancista, tradutor, dramaturgo, professor e principalmente, como provocador e polemista, ou seja, sua biografia intelectual tem sido lembrada e é incensada em necrológicos muito bem intencionados e esclarecedores do impulso criativo e da inquietação que, de fato, sempre marcaram a atuação de Pignatari. No entanto, reforçar estas características de seu comportamento intelectual pode muito bem levar a uma visão empobrecedora de sua obra, principalmente do seu legado poético.

Vamos, aqui, apenas apontar uma característica marcante da poesia de Décio Pignatari, reunida no seu “quase-testamento poético”, como grafou em dedicatória no meu exemplar de Poesia Pois É Poesia (1950-2000), a sexualidade como leitmotiv da sua obra, como questão recorrente e explícita que conduz toda obra poética de Pignatari, desde O Carrossel (1950) até os seus últimos poemas. Ou seja, ir contra a corrente e insistir que a poesia de Pignatari apresenta uma coerência interna impressionante, que sua poética é tão obsessiva quanto a de João Cabral, que ele sempre manteve o “arco teso” da poesia, para usar sua própria metáfora, cujo teor sexual é evidente. E, acima de tudo, mostrar que a poesia de Décio é erótica, nada “fria e calculista” como acusavam os inimigos dos concretistas, como o descreve Augusto de Campos no seu poema Soneterapia: “O Concretismo é frio e desumano/ dizem todos (tirando uma fatia)/ e enquanto nós entramos pelo cano/ os humanos entregam a poesia”.

No entanto, é impossível abordar a obra de Décio sem lembrar que, em 1955, em troca de cartas entre Pignatari, então na Europa, e Augusto de Campos, os jovens criam o conceito e o nome “poesia concreta”, que assim iria ser conhecido em todo o mundo. No Plano-piloto para a Poesia Concreta, Pignatari e os irmãos Campos apresentam a seguinte proposta: “poesia concreta: produto de uma evolução crítica de formas, dando por encerrado o ciclo histórico do verso”. Esta frase muitas vezes foi lida como intransigente e redutora, pois estariam afirmando que não se poderia mais escrever poesia em versos. Mas Pignatari, num texto anterior, já afirmara: “Finalmente, cumpre assinalar que o concretismo não pretende alijar da circulação aquelas tendências que, por sua simples existência, provam sua necessidade na dialética da formação da cultura. Ao contrário, a atitude crítica do concretismo o leva a absorver as preocupações das demais correntes artísticas, buscando superá-las pela empostação coerente, objetiva, dos problemas”.

Multiplicidade programática

A leitura atenta de Poesia Pois É Poesia (1950-2000) ressalta a “evolução crítica de formas” que leva o poeta a “absorver as preocupações” não só “das demais correntes artísticas” mas também de outras artes, meios e recursos diversos que possam contribuir para tal evolução. Em outras palavras, a multiplicidade de sua poesia já estava prevista por ele mesmo ao iniciar o seu percurso de 50 anos. Podemos mesmo considerá-la programática.

Poesia Pois É Poesia (1950-2000) se divide em três partes bem distintas. A primeira, “Poesia Pois É”, apresenta os poemas anteriores à criação da Poesia Concreta. Textos como “O Lobisomem”, “Hidrofobia em Canárias” ou “Fadas para Eni” apresentam imagens contundentes de uma sexualidade quase animal. Mas é em “O Jogral e a Prostituta Negra” que lemos os versos mais impactantes desta fase: “Onde eras a mulher deitada, depois/ dos ofícios da penumbra, agora/ És um poema: / Cansada cornucópia entre festões de/ rosas murchas / É à hora carbôni-/ ca e o sol em mormaço/ entre sonhando e insone/ A legião dos ofendidos demanda/ tuas pernas em M/ silêncios moenda do crepúsculo.”

Aqui já se apresenta, “entre sonhando e insone”, em 1950, o leitor e futuro tradutor (ou tridutor, pois se trata de inovadora tradução tríplice) do poema “A Tarde de um Fauno”, de Mallarmé, lá se revelam também as suas reflexões sobre o encerramento do “ciclo histórico do verso”, quando a palavra “carbônica” é separada em dois versos e o futuro poeta concreto visualizando as pernas da prostituta “em M”. Mas o que nos interessa aqui, é que o eu lírico transforma a mulher, e o próprio ato sexual, em poema, o que seria retomado diversas vezes em sua poesia.

Na segunda parte do livro, “Pois É Poesia”, a sexualidade terá um papel ainda mais crucial, seja nos dois primeiros “Stèle Pour Vivre”, que termina com “buce-fálica”, imagem hermafrodita que ecoa nas figuras do “Stèle Pour Vivre No. 4 –  Mallarmé Vietcong”, no poema “Zenpriapolo” e nos “Ideogramas Verbais” “homem/women”, seja no “abrir as portas/ abrir as pernas/ abrir os corpos”, seja no aspecto fálico da letra I inicial de LIFE, seja no priapismo implícito das torres no “Torre de Babel”. Mas é no magnífico “Organismo”, poema que reproduz, em zoom, a penetração sexual que Pignatari consegue o que já perseguia em “O Jogral e a Prostituta Negra”, transformar o ato sexual em poema.

A mesma tendência se percebe na terceira parte do livro, que reúne os poemas pós-concretos de Pignatari. A imagem hermafrodita ressurge em “Bibelô”, a tensão sexual paira em quase todos os poemas para explodir na suruba multilinguística que é o último poema do livro, “Mais Dentro”: “caninos de saliva / denteiam / o dentro das coxas / ego femen” .

Um dos poemas derradeiros do livro, “Ideros: Stèle Pour Vivre No. 6”, parece confirmar a hipótese que vimos seguindo. Em meio a um mar de “logos” (palavras, conceitos), flutuam blocos de montar com os termos “EROS, ECOS, EGOS, ELOS”,  recombinados em diferentes ordens. Seria eros o elo que liga todos os ecos dos eus em meio a um mar de discursividade? Ou seja, estaria o poeta deixando um recado no seu “quase-testamento” de que a sexualidade é um leitmotiv fundamental da sua obra, como afirmamos no início? Evocando Freud, ID EROS?

Estaria apenas reforçando o que explicita no belo “Valor do Poema”, em que afirma, para encerrar poema e assunto: “Valem meus poemas por haverem valido infinitas carnes ternas externas e internas das que amei amo amarei. Valem os vales”.

Saiba mais sobre os livros de Décio Pignatari publicados pela Ateliê Editorial

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Vida e obra singulares

Sementes Aladas, de Percy Bysshe Shelley

Henrique Marques-Samyn | Rascunho | 1.1.2013

Se marcas do espírito romântico individualmente encarnado são a independência e o egocentrismo auto-suficiente, Percy Bysshe Shelley é um típico representante dessa condição espiritual, em seus aspectos mais positivos e negativos. Shelley é mais um daqueles casos – não exclusivamente, mas caracteristicamente românticos – em que a vida e a obra se relacionam de tal modo que numa encontramos claves fundamentais para a compreensão da outra; mais que isso, em que ambas parecem estar todo o tempo determinando-se mutuamente, para o que sem dúvida contribuiu a maneira como o próprio poeta logrou fazer da obra uma expressão da vida, e da vida uma obra em si mesma.

A origem aristocrática e os tempos revolucionários marcariam definitivamente a personalidade daquele jovem nascido em Sussex, em 1792, que não tardaria a ser considerado um prodígio. Cedo exercitando os talentos que tinha, ou julgava ter, nos mais diversos misteres – desde a dramaturgia aos experimentos químicos, diversidade em que aliás já se podem perceber indícios daquele romântico”afã de totalidade e de unidade”, no dizer de Benedito Nunes -, Bysshe continuaria a afirmar sua individualidade ao longo da adolescência nos internatos britânicos; “Mad Shelley” seria alcunhado pelos colegas, que o ridicularizavam pela resistência que apresentava às convenções da vida estudantil. A aproximação da vida adulta faria com que esse desajuste adquirisse tons mais graves, levando-o a desafiar abertamente a ordem estabelecida. Em 1811, Shelley publicava The Necessity of Atheism [A Necessidade do Ateísmo], panfleto escrito a quatro mãos com seu amigo e futuro biógrafo Thomas Jefferson Hogg, e que ensejaria sua expulsão da Universidade de Oxford.

Por essa época, Shelley já adotara um estilo de vida em aberta tensão com os valores vigentes, aproximando-se do radicalismo político que levaria a um rompimento com seu pai e provedor. Tomando de vez as rédeas do destino, o poeta, começava a percorrer os périplos que constituiriam sua singular jornada existencial, o que incluiria o envolvimento com lutas políticas que abrangeriam desde projetos socialistas até a defesa da independência da Irlanda e dos direitos dos animais. Paralelamente, estabelecia contatos intelectuais – entre os quais se pode destacar o turbulento encontro com Robert Southey, a profícua relação com Lord Byron e a decisiva aproximação do pensador político William Godwin. Com Mary, filha nascida da relação entre Godwin e a pioneira feminista Mary Wollstonecraft, o poeta viveria a mais significativa entre suas várias (e nada convencionais) relações amorosas: Mary conseguiria mitigar as barreiras impostas pelo egocentrismo de Shelley, graças à sua inteligência e à sua personalidade igualmente independente – conquanto a posteridade, principalmente devido à interferência de interesses familiares, fizesse da autora de Frankenstein uma figura muito mais convencional.

No caso de Shelley, por outro lado, as narrativas biográficas continuariam a insistir na singularidade de sua trajetória – para o que contribuiria a mistificação de episódios associados à sua morte, como as obscuras circunstâncias de seu falecimento, em julho de 1822, por ocasião de um naufrágio na Itália; o suposto recolhimento de seu coração da pira em que o corpo era cremado; e o posterior aparecimento das cinzas num envelope preservado entre as páginas de um exemplar de seu Adonais. A figura de Shelley se consagraria, portanto, como um produto privilegiado da imaginação romântica, para além de tudo o que sua obra materializa dos princípios estéticos a ela associados.

Sementes Aladas, antologia poética publicada em edição bilíngue pela Ateliê, com traduções
de Alberto Marsicano e John Milton, é uma obra que se insere num contexto recente, no qual a poesia
de Shelley vem sendo, finalmente, devidamente apresentada ao público brasileiro. Havia, é certo, algumas traduções de José Lino Grünewald, incorporadas à sua antologia Grandes Poetas da Língua Inglesa do Século 21 (Nova fronteira, 1988); contudo, além de compilar peças menores, o trabalho de Grünewald apresentava qualidade bastante discutível. Não obstante, no início do século 21 o poeta foi finalmente trazido ao público brasileiro de modo mais satisfatório, traduzido por Leonardo Fróes (O Triunfo da Vida, Rocco, 2001), Paulo Henriques Britto (À Noite, tradução publicada na resta digital Eutomia em julho de 2008) e PéricIes Eugênio da Silva Ramos (Ode ao Vento Oeste e Outros Poemas, Rema, 2009).Vale mencionar, também, a obra do Shelley ensaísta, traduzida por Enid Abreu Dobránzsky (Defesas da Poesia, Iluminuras, 2002).

Sementes Aladas tem o mérito de apresentar um bom apanhado para apresentação da obra poética de Shelley – que, no texto introdutório Sobre a tradução, os tradutores qualificam como “o primeiro livro de traduções dos poemas de Shelley em língua portuguesa”, ignorando a anterior publicação de Ode ao vento oeste, embora isso talvez possa dever-se a um atraso editorial; para além disso, trata-se de uma antologia a ser louvada pela consistência de sua proposta estética. Marsicano e Milton explicitam a intenção de revelar “o profundo sentido filosófico que emanta os versos de Shelley”, o que é efetivamente logrado pela seleção poética constante do volume.

Assim, dele emerge um autor não redutível ao personagem gerado pelo imaginário romântico que anteriormente, mencionamos – mas alguém que, conquanto em diálogo com os valores vigentes em sua época, afirma sua singularidade afastando-se do temário superficial e produzindo uma obra que efetivamente expressa uma particular visão de mundo. Mencione-se, a propósito, a inclusão de peças como a importante Adonais, elegia composta quando da morte de John Keats; e Soneto: Inglaterra 1819, expressão poética do ideário político do jovem Shelley que, diante de “Um velho rei, louco, cego, desprezado e moribundo”, “Governantes que não vêem, sentem ou sabem/ Mas qual sanguessugas apegam-se ao país a fundo”, “Um povo faminto e ferido num campo não lavrado”, não divisa senão “tumbas, das quais um fantasma glorioso/ Pode saltar a iluminar nosso dia tempestuoso”. O reparo que se pode fazer é que Sementes Aladas não reproduz toda a riqueza formal da poesia de Shelley, adotando liberdades métricas, rímicas e rítmicas que fogem à rigorosa construção das peças originais; contudo, logra-se em geral a preservação do sentido dos poemas, que é afinal a que se propõem os tradutores.

Saiba mais sobre o livro Sementes Aladas, de Percy Bysshe Shelley

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O Poeta Vingador

Em entrevista à H, Marcelino Freire revela que escreve para se vingar de si mesmo e de um mundo meloso e falso onde o amor é apenas uma ilusão

Marcelino Freire

Hélio Filho | H Magazine | 01/11/2012

O escritor pernambucano Marcelino Freire gostaria de ter o tempo de vida de uma mosca, apenas um dia, porque acredita que a vida é longa demais e a velhice é uma perda de tempo. O que poderia parecer melancolia é apenas indignação frente a um mundo onde, como diz o nome de seu mais novo livro, amar é crime – e principalmente significa correr atrás de um ideal que a própria Literatura criou, um romance ultrarromântico. Marcelino prefere o respeito e a praticidade em um relacionamento.

Em um bate papo recheado de sonoras gargalhadas no Espaço Haroldo de Campos, Casa das Rosas, antiga residência [sic] de um dos maiores poetas brasileiros e símbolo da poesia em São Paulo, Marcelino revela que escreve para se vingar de um mundo intolerante e artificial, onde o sentimento fica escondido atrás de convenções. Mais do que isso, ele é sincero o bastante para dizer que quer se vingar de si mesmo porque acha que poderia ser mais atuante, sair da redoma que protege os escritores e suas ficções.

A vida de Marcelino não é um romance, muito menos uma poesia. É uma prosa solta, clara, direta e sem meias-palavras que diz o que quer para quem precisar ouvir, e espera que esse dizer provoque algo além de uma emoção passageira, mais rápida do que um virar de páginas, mais leve do que o bater das asas de uma mosca.

Você me deu seu mais novo livro e eu fiquei curioso sobre o título Amar É Crime?

Amar continua sendo crime. Eu acho que quando a gente está amando uma pessoa, a gente tem que matar muita coisa dentro da gente pra começar uma relação. Amar é o recomeço de alguma coisa, então você mata algumas coisas dentro de si para se renovar e reviver essas coisas na outra pessoa. Amar é crime também porque às vezes você está vivendo uma grande paixão e esse amor que você está vivendo é crime para o olhar do outro, para a sociedade, aí entra a questão dos ataques homofóbicos e tudo. Para a sociedade aquele amor é crime, aquele amor é errado. Amar é crime também porque em nome do amor muitas pessoas cometem assassinatos e não são julgadas por isso. Eu acho, por exemplo, que a Igreja prega muito o amor, mas ela matou muito em nome dessa pregação do amor. A televisão também. O comércio do amor, o Padre Marcelo (Rossi) com seus discos, com seus livros, com seus DVDs.

Você acha que o amor hoje está diferente? Ele está mudando com o mundo?

Não, o amor é o mesmo. O amor é uma coisa que a gente não consegue explicar, não consegue entender, a gente sente, a gente se aperreia por causa do amor, não é? Esse sentimento aí já vem atravessando o homem há muito tempo, mas o que eu digo é que com esse livro eu quis fazer um testemunho, ou um testamento, dessas relações. Eu percebi que os meus contos falavam de começos de relacionamentos, finais de relacionamentos. Percebi que tinha a questão do preconceito, a questão dos ataques homofóbicos. Aí eu disse, me parece que o amor é crime, me parece que cada vez mais uma pessoa estar vivendo um amor muito intenso, esse amor é crime para o olhar do outro, da sociedade, para o julgamento das pessoas. E também no sentido positivo. O amor é crime também porque ele nos renova, ele mata algumas coisas, alguns vícios, alguns preconceitos que a gente tem e ele nos renova. Então todas essas questões estão nesse livro.

O título é bem forte. Por quê?

Eu sou um escritor muito passional, muito aperreado, aí nos meus títulos eu já quero dizer que, sabe, amar é crime. Eu escrevo para me vingar, aí eu quero me vingar do Padre Marcelo, aí eu digo que amar é crime. Eu acho que de alguma forma eu estou me vingando dele, sabe?

Mas é só o amor que te serve de combustível? Pelo jeito a vingança também.

Não, eu escrevo para me vingar. Posso dizer que escrevo para me vingar de um amor que foi embora, para me vingar de uma paixão que não deu certo, para me vingar de um governo que não caminha, não vai bem. Eu escrevo para me vingar das injustiças sociais, das coisas que me afetam. Esse livro mesmo, quando eu estava fazendo esse livro, fechando para ser publicado, e eu já sabia que ele se chamava “Amar É Crime”, eu já sabia que esses contos falavam de amor, desse preconceito, do julgamento etc., quando começaram a pipocar aqueles ataques homofóbicos em São Paulo. Claro que esses ataques todos já acontecem há muito tempo, mas aí aquele episódio que um garoto tascou uma lâmpada na cara do outro e etc. etc., aí quando eu estava com o livro pronto eu disse que tinha que fazer alguma coisa para que esse livro também abarque ou seja um instrumento da minha indignação. Aí eu lembro de um poeminha que eu fiz faz tempo, um poeminha de amor concreto, que é o que abre o livro, ele é exatamente contra isso, dizendo do meu choque com esse tipo de atitude. Esse poeminha já foi publicado na revista Junior uma vez, eu não digo que é a minha contribuição, mas eu escrevo justamente, volto a dizer, para me vingar, e eu escrevo porque eu quero que meu livro também seja um instrumento dessa minha não-conformação com essa série de coisas.

E tem mais gente que você queira se vingar?

Ah, bastante gente (risos).

Então teremos muitos mais livros de Marcelino Freire?

É muita coisa pra se vingar. É uma vingança também contra mim, eu sou um bundão, eu me sinto um bundão. Eu me sinto impotente diante de tanta coisa, que a gente poderia fazer para mudar alguma coisa, eu me sinto impotente. Digo: porra, eu sou um escritor, escrevo os meus livros, mas eu não posso ser só isso, esse escritor na redoma, esse escritor que escreve e acha que já deu sua contribuição para a sociedade.

Mas você se vê em uma redoma? Não acha que fazendo esse tipo de prosa, mais engajada, provocativa, sai dessa redoma? Quem lê o seu livro é tocado, alguma coisa vai mudar na pessoa.

Eu acho, mas a minha vontade é… eu tenho uma inveja imensa daquelas pessoas que tocam fogo nas vestes e saem correndo, sabe? Aquilo é uma coragem da porra! Coragem extrema, coloca ali aquele querosene e sai correndo. A minha vontade às vezes é fazer isso, mas eu sou um bundão, eu sou covarde demais. Aí eu escrevo e tento ver se a minha escrita de alguma forma se vinga de mim, no sentido de que ela me fale “oh, bundão”. Porque eu sou pacato, a minha escrita é uma escrita que dá vexame, é uma escrita que toca fogo no próprio corpo. Claro que a Balada Literária (www.baladaliteraria.zip.net), que eu organizo em São Paulo há sete anos, é também um instrumento de vingança, um instrumento de atitude diante de tanta coisa que acontece. Eu faço um evento para não ser só esse escritor que escreve, eu tenho que fazer alguma coisa também. Aí eu faço esse evento há sete anos sem dinheiro nenhum porque eu quero que a Literatura esteja presente e viva na vida das pessoas, que ela seja legal, seja algo pulsante. Esse meu desejo, também fora da escrita, é de movimentar uma cena literária.

Bom, você já se vingou de um monte de gente, como você disse, tem mais gente que você ainda vai se vingar, mas e amor? Você amou muita gente?

Eu amei muito pouco, o problema do amor é que é muito caro (risos). Eu vou até dar meu telefone aqui na revista, vai que me ligam. Eu estou solteiro já há um tempo, mas eu na verdade sou muito desligado para essas coisas assim, eu não sei, eu me dediquei tanto à Literatura durante um tempo, com tanta vontade de fazer os meus livros, de fazer esses movimentos que eu faço, não sou desses também de dizer que está em um segundo plano isso aí, não, mas eu também não tenho muito tempo, não acredito muito no amor. Eu acho que é tudo mentira. Mentira da gente. A gente inventa alguma coisa do que gostar. A gente inventa uma possibilidade de gostar, de viver junto, de criar uma vida. O que une um casal é o respeito, o amor a gente inventa. Eu acho que o amor que eu acredito é aquele que tem absoluto respeito pelo outro, a vontade de se unir com outra pessoa para você conseguir as coisas que você quer. É ir junto, tentar modificar a vida da gente, tentar ser um melhor cidadão, pai, filho, irmão. Vamos tentar mudar um pouquinho aqui o nosso quarto, a nossa rua, começar por aqui mesmo. Eu acho que esse é um exercício de amor muito possível na prática, eu acredito na prática desse amor. Já passei essa fase tuberculosa, essa fase daqueles escritores muito românticos. Abandonemos esse romantismo tuberculoso.

É, você não tem livros melosos de mocinhas que sofrem pelo amor e no fim do livro encontram o amor e por aí vai.

Não, não tenho. Uma das pessoas mais importantes da minha vida, que me deram muito exemplo desse exercício, foi a minha mãe. Eu olho para tudo que ela realizou e digo que é aquilo ali que era a personificação de um sentimento bonito, de vontade de crescer, de vontade de exercer a honestidade, o respeito, criar os filhos. Aquilo era uma entrega muito plena. Eu faço isso naquilo que eu escrevo, naquilo que eu organizo com os amigos.

Mas com uma visão assim não fica complicado encontrar alguém para amar? Porque a maioria das pessoas tem a visão melosa do amor.

Aí fudeu, quando fica muito essa coisa de nhem nhem nhem pra cá e pra lá fudeu. Aí meu Jesus, não, pelo amor de Deus! Não, vai-te pra lá! Muito nhem nhem nhem eu não gosto não. Sou mais prático. Vai que é porque não me pegaram de jeito até agora! Vai saber. Não sou meloso.

Têm muitos textos seus no Teatro. Você gosta de Teatro, escreve para Teatro?

Tem bastante sim. Eu vou bastante ao Teatro. No começo do ano que vem o Rodolfo Lima vai voltar a fazer o Bicha Oca, parece que já conseguiu o espaço. É um grande ator, ele fez muito bem o Bicha Oca. Eu adoro Teatro porque eu queria muito ser ator, mas descobri que tinha muito pudor para ser ator. Eu fiz Teatro dos 9 aos 19 anos de idade, mas aos 19 eu desisti porque eu fui ver uma peça uma vez e todos os atores estavam pelados. E era uma peça muito boa, não era uma nudez gratuita. Eu disse “meu Jesus, eu não vou ficar pelado nunca em cena!” Aí eu desisti porque eu seria um ator limitado. E eu também não precisava causar esse vexame à plateia, de ficar pelado, balançando o bilau para cima e pra baixo, então eu desisti.

Hoje em dia você ainda é tímido assim?

Eu tiro roupa, eu faço miséria… Escrevendo. Quando eu escrevo eu não tenho pudor nenhum, mas me colocar em cena assim para fazer um personagem não. Eu queria ser ator, achava muito bonito, quando eu descobri que tinha essa limitação, que eu não seria um ator que ia se entregar completamente, eu desisti. Hoje em dia eu faço um espetáculo, tem um que eu faço com a cantora Fabiana Cozza, de quando em quando a gente se apresenta, mas sou eu como escritor lá, interpretando alguns contos meus, uma espécie de leitura, nada decorado, uma leitura cênica disso. Mas é o autor que está ali, não é o ator. Faço isso também em outros eventos, quando eu vou e posso interpretar um conto meu, ler um conto meu, eu gosto muito. O Teatro me ajudou muito nisso, respeitar os silêncios, as pausas. Quando eu escrevo eu penso em Teatro, quando eu escrevo eu penso em um ator, em uma atriz fazendo, me interpretando. Porque eu escrevo em voz alta, escrevo falando. Aí termino de escrever e vou ler aquilo, ver como está se processando. Por isso que quando os atores vêm para os meus livros, eles reconhecem ali um monólogo pronto, algo que eles podem apresentar. Eu vou escrever agora, entre dezembro e janeiro, o próximo espetáculo do Coletivo Angu de Teatro, que é do Recife. Uma das atrizes é a Ermila Guedes. Adoro e respeito profundamente o grande ator, a grande atriz. Respeito essa entrega do corpo e da alma.

E sobre o que é esse espetáculo?

É sobre velhos. Estou escrevendo meu primeiro romance, vai sair no final do ano que vem pela Editora Record. E paralelo ao romance, estou escrevendo, pela primeira vez, pensando na costura desse espetáculo. Não tem título ainda, mas eu sei que a temática é de velhos, só velhos em cena. Eu tenho vários contos que têm personagens velhos, me fascinam por uma falência múltipla dos órgãos. Eu gosto das falências, do velho quando começa a falhar a memória, a fala, as lembranças, eu gosto dessa falência. Engraçado, eu não gosto de saúde, eu gosto dessa fragilidade, dessa humanidade.

Você se sente velho aos 45 anos?

Não, me sinto bem. Até me deram 10 anos a menos esta semana. Vai ver que é porque eu estava de costas (risos). Eu estou com 45 agora, pode não parecer, mas eu tenho muita preguiça de viver. Toda vez que eu acordo eu digo: de novo? É uma preguiça, mas vamos lá, vamos embora, não estamos aqui pra isso? Aí eu vou lá, faço as coisas. Acho que até para não me sentir tão desocupado, alheio, eu quero dar sentido àquilo que não tem sentido nenhum, sabe? Aí eu escrevo, acho que é exatamente para isso. Mas eu tenho uma preguiça imensa. As pessoas dizem que a vida é muito curta, não, a vida é muito longa. É muita coisa, Jesus. Eu queria ter o tempo de vida de uma mosca, que parece que é um dia. É uma beleza isso, você faria tudo em um dia. Não era não? Aí nascia de novo lá em outra mosca. Mas essas etapas todas, e cresce, e vai estudar, e casa, é um inferno. Eu não casei não, mas menino, pelo amor de Deus, eu vejo os meus sobrinhos casando com 18, 19 anos, aí já engravida não sei quem, vai fazer família, criança, leite, leva menino não sei onde, sogra no domingo.

Você nunca casou?

Não, nunca casei, nunca morei junto. Namorei já, mas não morei junto. Eu adoro fechar meu apartamento e só eu estar respirando ali naquele lugar, mais ninguém. Às vezes vem alguém que fica hospedado em casa durante um tempo, não tem problema nenhum, mas tem uma hora em que me perturba. É o lugar em que eu me isolo, porque eu acho que na verdade eu faço um monte de coisas: viajo, vou daqui, vou dali, então é o momento em que eu fecho ali e pronto. E as pessoas têm uma mania de achar que quem mora sozinho é triste. Tudo bem que eu falo que acho a vida longa demais, mas é porque eu sou trágico.Ou que porque moram sozinhas estão disponíveis sempre. Dizem: “vamos pra casa do Marcelino, estamos chegando aí nesse sábado”. Que conversa é essa? Não venham programar meu final de semana, eu detesto. Não, eu quero acordar primeiro antes de decidir. Eu sou livre demais e as pessoas tentam me prender, mas eu não deixo não.

Qual a palavra que você mais gosta?

Fôlego. É uma palavra bonita.

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Acesse aqui os livros do Marcelino Freire pela Ateliê

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Deste Lugar, de Paulo Franchetti

Novo livro de Paulo Franchetti busca o lirismo e se dirige ao leitor comum, fugindo de artifícios eruditos
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Deste Lugar, de Paulo Franchetti
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Num texto recentemente publicado, Paulo Franchetti escreveu: “O lirismo contemporâneo brasileiro, no quadro herdado da tradição cabralina, é um lirismo culpado e regrado por tabus. Em poucos poetas e poucos poemas o eu se oferece, frágil, como algo que se julga no direito de existir e buscar a palavra. De poucos poetas nos perguntamos: quem é a pessoa que escreveu isto, que vê o mundo assim? Por que ele prefere falar desta maneira? E em quantos poetas encontramos algo frente a que pensamos: isso precisava ser dito – e precisava ser dito assim, em poesia? / Travado pela vergonha, pelo medo de se dirigir ao leitor comum e pela necessidade de trazer à vista os andaimes da construção – isto é, as marcas do ‘trabalho duro’ e da especialidade – o exercício da lírica tende a desaparecer ou a ser combatido como inimigo do contemporâneo. Embora pertença a um texto referido aqui e ali, não parece ter calado muito fundo esta formulação de Adorno: ‘o autoesquecimento do sujeito, que se abandona à linguagem como algo objetivo, e a imediatez e involuntariedade da sua expressão são o mesmo’.”
Agora, com a publicação de Deste Lugar, essas mesmas questões retornam, em outro registro: o da prática poética. Dirigido ao leitor comum, fugindo à exibição de erudição ou técnica, bem como à ostensiva recusa ao lírico, este livro constitui um momento singular na poesia contemporânea brasileira. Acesse o livro na Loja Virtual
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Paulo Franchetti é professor titular de literatura da Unicamp. Publicou, entre outros, pela Ateliê, Estudos de Literatura Brasileira e Portuguesa, a novela O Sangue dos Dias Transparentes e os livros de poemas Escarnho, Memória Futura, e Oeste, que representa uma das mais admiráveis experiências na recente poesia brasileira. Já organizou diversos títulos para a Coleção Clássicos Ateliê. Conheça os livros de Paulo Franchetti
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Soalho de Tábua – Reinações sobre Adélia Prado

Soalho de Tábua, cujo subtítulo é Reinações sobre Adélia Prado, surgiu da ideia de trabalhar com o universo da poeta mineira. O autor partiu de versos da escritora para criar os textos, trazendo à forma narrativa um pouco da poesia do cotidiano construída por Adélia ao longo de sua trajetória literária. O projeto surgiu de um edital do Ministério da Educação que pedia textos para adultos recentemente alfabetizados, entendendo não haver livros para este crescente grupo de pessoas. A tentativa de aproximar a poesia da prosa tinha o duplo objetivo de criar histórias breves e apresentar Adélia Prado aos leitores. A partir de então, novos textos foram escritos, alguns em Portugal, no período em que o autor viveu naquele país, resultando no volume agora lançado.

No livro há a participação do artista plástico Enio Squeff, que ilustrou alguns contos, além de ter realizado uma aquarela para a capa, e um texto introdutório de Moacyr Scliar:

São contos curtos, esses. O conto normalmente deve ser curto, mas estas histórias chamam a atenção pelo minimalismo quase poético. O outro aspecto que as aproxima da poesia, sobretudo da poesia de Adélia Prado, é este: são narrativas tão importantes pelo que dizem como por aquilo que deixam subentendido; tão importantes pelas linhas, como pelas entrelinhas. Moacyr Godoy Moreira cria um território comum com o leitor onde este pode, ainda que sem escrever, exercer também seu poder de criação, respondendo aos desafios que estão na história, desafio este que nada tem a ver com o “Decifra-me ou te devoro”, da Esfinge, mas é antes um convite: decifra-te, e descobrirás coisas surpreendentes. (do prefácio de Moacyr Scliar)

No livro, Moacyr Godoy Moreira percorre o universo doméstico, com histórias como a que dá nome ao livro, nas quais reminiscências de infância surgem como retratos antigos, porém fundamentais na construção do hoje que se alimenta destes retalhos do passado. Há impressões sobre as mazelas e as alegrias deste planeta onde se chora mais que as águas denominadas mar, como descreve Adélia Prado. Há cotidianos imaginados e circunstâncias que poderiam fazer parte da biografia de qualquer um que se percebe sensível ao seu em torno, a nuances que por vezes parecem banais, porém que constroem a afetividade e delineiam as relações, como no fragmento abaixo, retirado do conto “Enquanto Ela Dorme”:

A lentidão da manhã espraia-se pelo horizonte que se espreguiça e se acomoda em cores e luzes suaves. A serenidade das águas na praia, que neste momento sequer marulham, sequer emitem qualquer sonido de exasperação, despeja-se do gesto quase imperceptível da mulher que, singela, doce, bailarina, ensaia um prenúncio de despertar, mas recua, luz sonâmbula a incidir por entre as frestas da persiana, carinho generoso da brisa, que antecede o mormaço das primeiras horas do dia neste verão que ilumina as gentes com a potência de mil sóis. (trecho do conto Enquanto Ela Dorme)

Moacyr Godoy Moreira é médico formado em 1997 pela Unifesp (Escola Paulista de Medicina), e atualmente aluno de doutorado em literatura brasileira na Universidade de São Paulo. O autor lançou anteriormente os livros Lâmina do Tempo (contos, 2002); República das Bicicletas (crônicas, 2003) e Ruídos Urbanos (contos, 2008), todos pela Ateliê Editorial.

R$ 27,00 | 120 páginas | 13,5 x 21 cm | ISBN: 978-85-7480-548-1

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Poeta, o poema

Fonte: Hoje em Dia (MG)
Clarissa Carvalhaes
José Antônio Bicalho
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“As coisas se transformaram, mas o homem continua vendo o mundo pela fresta de uma caverna”
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Quando publicou o livro “Poeta Poente”, em 2010, Affonso Ávila estava triste. A morte recente da esposa com quem fora casado por décadas fez o poeta recolher-se em pranto e pessimismo, carregar-se de arrependimento e nostalgia. Dois anos se passaram e, ainda que a saudade permaneça, o escritor confessa: “Cansei de ser triste”. Desde então, passou a dedicar-se a “Égloga da maçã”, obra que acaba de lançar pela Ateliê editorial (80 páginas, R$35). E como quando se trata de Affonso Ávila o que se espera é sempre o novo, desta vez não poderia ser diferente. “Égloga” e uma poema, único.

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Entrevista Affonso Avila