Resenhas

A dissipação da raça humana

O tema da solidão, quando tratado pela ficção científica, resulta em obras como Perdido em Marte, The Leftovers e Dissipatio H. G. — O Fim do Gênero Humano

Alex Sens*

Condição primária do artista, estando sua arte ainda num plano essencialmente virtual ou absolutamente real, a solidão não só é ferramenta para a potencialização do pensar, através da observação e da concentração, como é também o alimento da criatividade. Colocada na esfera da ficção, a solidão torna-se melancólica, mas necessária, portanto um meio que apresenta um fim, sendo este a sua ideia principal, o tema. Só a arte, com seu poder imagético, pode transferir para os nossos sentidos o que na prática é ainda impossível, improvável, impalpável. É isso que faz a ficção, sobretudo a ficção científica, seja na literatura ou no cinema, onde arte e ciência se encontram e se conectam intimamente por uma tênue linha de percepção e risco, por isso mesmo uma linha fascinante. Usando o poder da imaginação, o homem já criou inúmeros cenários apocalípticos e suas consequências, hipóteses filosóficas sobre o esvaziamento do planeta, desaparecimentos misteriosos, o fim da espécie humana e a vida extraterrestre.

Matt Damon, em "Perdido em Marte"

Matt Damon, em “Perdido em Marte”

Desde as primeiras teorias sobre o fim do mundo e sobre uma profunda mudança estrutural no nosso planeta, o cinema, a TV e a literatura vem expressando o estranho e dominante papel da solidão. Surgiram recentemente nesse cenário o filme Perdido em Marte, baseado no livro homônimo de Andy Weir, e que conta a história de um astronauta que precisa sobreviver no planeta vermelho enquanto espera por ajuda, e a série televisiva “The Leftovers”, também baseada num romance de Tom Perrota e que narra o inexplicável desaparecimento de 2% da população mundial, uma metáfora para o “arrebatamento cristão”. Seguindo a mesma linha dessa dissipação humana e o poder da solidão sobre quem fica ou, numa outra visão, quem é abandonado, o italiano Guido Morselli escreveu em 1973 o romance Dissipatio H. G. — O Fim do Gênero Humano (Ateliê Editorial, tradução de Maurício Santana Dias, 168 páginas).

dissipatio

Como reflexo de seu desejo pela solidão, o autor, torturado por ruídos que atrapalhavam seu processo criativo, projetou e construiu uma pequena casa entre as pradarias de Gavirate, e nela pode dar voz a um personagem que um dia acorda sozinho no mundo. Narrado por este personagem cujo nome permanece oculto assim como a causa principal do romance, o livro não se apoia somente em seu monólogo de caráter filosófico, ontológico, histórico e misterioso, mas também na essência de um mundo solitário e suas assustadoras, mas realistas, possibilidades. Há cachorros, gatos, pássaros, vacas, ratos e toda sorte crescente de animais, mas não pessoas. Conhecemos a cidade de Crisópolis e suas cercanias em — excetuado pela narração precisa e envolvente — absoluto silêncio, com hotéis vazios, carros parados no meio da estrada, camas faltando corpos, uma paisagem inteira onde “permanece ainda aquilo que é orgânico e vivo, mas não humano”. A figura solipsista discorre primeiro sobre uma tentativa de suicídio e o restante vem de sua incansável busca por um conhecido. Em dado momento, quando já sabemos que sua personalidade misantropa de repente sente necessidade de um contato humano, o leitor pode se perder numa possibilidade de sonho, também questionada pelo personagem, este único sobrevivente do que chama de “Evento”. Também temos aqui um narrador não-confiável, cuja amizade com um psiquiatra e passagens por internações beira uma provável esquizofrenia ou uma realidade inventada por ela. Um dos pontos mais brilhantes do livro acontece quando o tempo é medido em semanas pela espessura do bolor num pedaço de queijo, revelando o quanto a inteligência perceptiva pode ser adaptada à falta de um simples calendário.

Tudo, desde a narrativa de Morselli, que cometeu suicídio antes da publicação do livro, passando pela exploração do conceito de solidão e suas respostas emocionais, pelo caos aparentemente organizado de um mundo desabitado, chegando a uma espécie de ascese filosófica que mantém, ou pelo menos tenta manter, a sanidade do personagem, faz de Dissipatio H. G. um breve, rico e apurado tratado da solidão, uma pedra preciosa e cinzenta cravada no temor ou na atração pela condição de se estar só consigo mesmo, com a fatalidade da vida ou com a inevitável condenação ao autoconhecimento.

 

*Escritor, nascido no ano de 1988 em Florianópolis, SC, e radicado em Minas Gerais. PublicouEsdrúxulas, pequeno livro de contos de humor negro e realismo mágico, seguido pelo livro artesanal Trincada. Teve contos e poemas publicados em sete coletâneas e em revistas literárias virtuais, assim como resenhas de livros, entrevistas e críticas em sites de jornalismo cultural. O Frágil Toque dos Mutilados (Autêntica Editora, 2015), seu romance de estreia, venceu o Prêmio Governo de Minas Gerais de Literatura 2012 na categoria Jovem Escritor.

 

A anatomia de Leonardo da Vinci

Cecilia Felippe Nery*

 

cadernos capa

Desde os primórdios da criação, o homem descobriu no desenho uma forma de representar – e registrar – fatos da vida e do cotidiano, visando ainda entender sua existência no mundo de maneira a aprimorá-la. Hoje pode ser banal, mas há pouco mais de 500 anos um dos grandes desafios era desbravar o corpo humano para conhecer sua intricada anatomia de músculos, esqueleto e órgãos fundamentais para a vida.

É neste cenário que surgem os artistas-anatomistas e, dentre eles, o gênio italiano Leonardo di Ser Piero Da Vinci, ou simplesmente Leonardo Da Vinci, um expoente do Renascimento que foi ainda cientista, matemático, engenheiro, inventor, pintor, escultor, arquiteto, botânico, poeta e músico. Seu interesse pela anatomia levou-o a desenhar órgãos e elementos dos sistemas anatomofuncionais do corpo humano que, anos depois, foram reunidos, junto a anotações, no livro Leonardo on the Human Body, com tradução do italiano para o inglês de Charles Donald O`Malley e John Bertrand de Cusance Morant Saunders.

Desenhos-Anatomicos3Em 2012 a obra ganhou uma versão em português – Os Cadernos Anatômicos de Leonardo Da Vinci -, publicada pela Ateliê Editorial/Unicamp, com tradução de Maria Cristina Vilhena Carnevale e Pedro Carlos Piantino Lemos. O livro tem 520 páginas com informações e mais de 1.200 desenhos de Leonardo feitos ao longo de 15 anos (1498-1513), tendo por base os tratados médicos de Galeno de Pérgamo (129-200), de Mondino del Luzzi (1270-1326) e de Avicena (980-1037), além da dissecação de peças anatômicas de animais e de corpos humanos. Com esse material, Da Vinci pretendia fazer um Tratado de Anatomia, que não chegou a concluir.

Os tradutores brasileiros trabalharam em Os Cadernos Anatômicos de Leonardo Da Vinci durante dez anos. A obra reúne os esboços de caráter artístico e técnico, acrescida do conteúdo teórico e prático das anotações do artista, segundo os sistemas anatomofuncionais do corpo humano na sequência cronológica em que foram feitos. O livro conta com uma parte introdutória em que traz interessantes fatos históricos dos estudos anatômicos durante o Renascimento, e das ilustrações anteriores aos desenhos de Leonardo Da Vinci, durante e depois dele.

 

Desenhos-Anatomicos2

Influência da matemática

Na época do Renascimento, os artistas se aproximavam dos médicos-anatomistas para melhor retratar o corpo humano em suas obras. Da Vinci, no entanto, considerava a anatomia “como algo mais que simples coadjuvante da arte” e, com isso, “adquiriu conhecimentos anatômicos que ultrapassaram aqueles que seriam suficientes para desempenhar sua arte”, descrevem os tradutores. O artista, porém, não chegou a ser um anatomista, pois estudou a anatomia de forma pouco sistemática, atendo-se mais aos aspectos que lhe interessavam artisticamente. “Mas foi o que mais conseguiu estabelecer vínculo mais estreito entre arte e anatomia, alcançando com seus desenhos anatômicos maior grau de perfeição até então alcançado por um artista-anatomista”, afirmam.

Embora alguns dos esboços de Da Vinci não tenham a perfeição de um desenhista-anatomista, as ilustrações são esplêndidas, com forte influência dos conhecimentos matemáticos do artista. Elas mostram uma evolução no trabalho de reprodução, aprendida por meio do conhecimento das leituras, a execução de algumas dissecações de animais e a inspeção da superfície do corpo humano vivo. Não é comprovado que Leonardo tenha realizado diversas dissecações humanas. A única que executou, de fato, no intuito de desvendar a disposição dos vasos do corpo humano foi a do “homem centenário”, realizada na cidade de Florença, entre 1504 e 1506.

A maior exatidão nos seus desenhos é feita a partir de 1489. Leonardo criou um método que consistia em representar cada tema sob quatro aspectos, propiciando ao observador uma visão do elemento anatômico tal qual o veria ao caminhar ao seu redor, analisando-o sob todos os ângulos. Um método que utilizaria durante toda a sua carreira anatômica.

Os esboços e as anotações de Leonardo ficaram muito tempo perdidos. Logo após sua morte, eles foram herdados por Francesco Melzi, seu discípulo, que os guardou até 1570. Mas depois foram dispersados e passaram por caminhos desconhecidos. Só no século passado que o trabalho de Da Vinci pode ser ordenado no livro de O’Malley e Saunders, trazendo assim à luz da humanidade o brilhantismo do artista, e que os brasileiros também podem conhecer na obra em português da Ateliê Editorial e Unicamp.

 

*Jornalista formada pela Puccamp, pós-graduada em Jornalismo Internacional (PUC-SP) e Jornalismo Literário (ABJL). Mantém o blog de literatura “Sobre Leituras e Observações” – www.leituraseobservacoes.blogspot.com

Quando não há mais sujeito e objeto

Renato Tardivo*

 

Viagem a um Deserto Interior é o mais recente livro de Leila Guenther. Seus poemas e microcontos agrupam-se em cinco seções: “Paisagens de Dentro”, “O Deserto Alheio”, “Castelo de Areia”, “Um Jardim de Pedra” e “A Possibilidade de Oásis”. Nota-se, portanto, uma (bem-sucedida) intenção narrativa oferecendo de antemão continente às narrativas do livro. Não é aleatório que o “espaço” seja o tema mais relevante da obra; aliás, ele está indicado em diversas palavras-chave: “viagem”, “deserto”, “interior”, “paisagens”, “castelo”, “jardim”, “oásis”.

Mas, se há deslocamento do interior de si para o interior do outro, da fragilidade da areia para a dureza da pedra, da aridez do deserto ao oásis (ou à possibilidade dele), há deslocamento também entre os versos dos poemas e os microcontos, o que confere ainda mais movimento à viagem. Aqui, poesias são narrativas e narrativas, poesias.

Imagem2Há algo de Drummond – cuja referência chega a ser explicitada – no modo de abordar o desconcerto de mundo, nos desfechos surpreendentes, no olhar ao mesmo tempo simples e profundo. Leila, ainda, repete alguns temas (suas pedras no meio do caminho?),de modo a marcar a passagem do tempo, a efemeridade do instante: a mulher sem filhos, as noites das estações do ano, as referências orientais…

E, no fim, há oásis? Cabe ao leitor empreender a sua própria descoberta. Leila nos ajuda, e muito, sugerindo trajetórias, habitando os continentes possíveis e impossíveis, da caixa de sapatos (em que consegue caber) ao desejo de ser trapezista (o que ainda não é).

Mas, talvez,a dica mais preciosa esteja em “Mushin” (em uma tradução livre, “suspensão do pensamento”):

 

Quando não há mais sujeito e objeto

como saber se aquele que mata

não é o mesmo que é morto?

 

 

Conheça outras obras de Leila Guenther

*Renato Tardivo é escritor, psicanalista, professor universitário e doutor em Psicologia Social pela USP. Publicou os livros de contos Do Avesso (Com-Arte/USP) e Silente (7Letras), e o ensaio de Porvir que Vem Antes de Tudo – Literatura e Cinema em Lavoura Arcaica (Ateliê).

Está Querendo Ser Meu Analista?

Renato Tardivo

SigmundFreud

 

Como além de escritor sou psicanalista com atuação clínica, escuto com alguma frequência comentários assim: “A clínica deve ser um rico material para a sua ficção…”; ou perguntas do tipo: “Você se inspira em seus pacientes para criar suas personagens?”. Vamos refletir a respeito.

Acredito na proximidade entre literatura e psicanálise. Quem já leu alguma coisa do Freud há de concordar que sua escrita não é alheia à literatura, tanto do ponto de vista do estilo quanto do conteúdo. Assim como outros psicanalistas, vislumbro maior parentesco da psicanálise com as artes e a literatura do que, por exemplo, com as ciências naturais. A questão foi tema desta coluna em outras ocasiões, como aqui. Isso não significa, no entanto, que um escritor de ficção se valha de sua clínica como material para a sua literatura. Explico.

Da mesma forma que há certo fetiche em torno da figura do psicanalista enquanto aquele que tudo sabe porque possui uma bola de cristal, há a crença, igualmente equivocada, segundo a qual o que distingue um trabalho terapêutico é o material trazido pelo paciente. Até pode haver eventos que o paciente conte apenas em análise, mas o que diferencia a situação terapêutica de uma conversa entre amigos confidentes, por exemplo, é sobretudo o tipo de escuta exercida pelo analista.

Dessa perspectiva, o analista é aquele que acompanha o paciente; é um interlocutor diferenciado que capta o que é dito, pensado e sentido para além do manifesto, da superfície, do cotidiano. O autor, no consultório, é o cliente; não o analista – este assume a condição de espectador que assiste à obra do outro e, assim, pode ajudá-lo a elaborar situações difíceis, sofrer menos, encontrar fontes de satisfação e dar conta de fruí-las etc.

Evidentemente, um escritor – como de resto todo ser humano – deve sempre ampliar suas possibilidades de contato com o mundo. Isso ocorre ao vivenciar obras de arte, ler, atualizar-se em relação à política e à cultura, viajar, aproveitar ao máximo as relações interpessoais etc., e, assim, conhecer-se melhor: olhar para fora é também olhar para dentro, e vice-versa. Nessa vertente, o ofício exercido na clínica compõe a visão de mundo do escritor-psicanalista como um de seus múltiplos elementos, e não como fonte de inspiração direta.

Mas há exceções. Um projeto literário pode se debruçar sobre o parentesco com a psicanálise e ser bem-sucedido. Neste espaço, resenhei dois belos livros escritos dessa perspectiva, um do ponto de vista da analista, outro do ponto de vista da analisanda. Esses livros, no entanto, possuem a especificidade de serem criados a partir das relações entre literatura e psicanálise; não podem ser tomados como regra.

De resto, a questão central talvez seja mesmo esta: o analista é espectador das histórias (que escuta); não o autor delas. Não há, portanto, motivo para considerar que os dilemas dos pacientes coloquem o escritor-psicanalista em vantagem em relação aos demais. E não se trata apenas, como talvez pensem alguns, de respeitar os limites éticos. Um psicanalista pode escrever sobre uma situação clínica, mesmo sem ser ficcionista, e ainda assim deve respeitar esses limites – não oferecendo elementos que permitam que o paciente seja identificado, por exemplo.

Por essas e outras, da próxima vez que me perguntarem se me inspiro em meus pacientes para criar minhas personagens, vou retrucar: “Por quê? Está querendo ser meu analista?”.

Coluna Resenhas - Renato Tardivo

Renato Tardivo é escritor e psicanalista. Mestre e doutorando em Psicologia Social (USP) e professor universitário, escreveu os livros de contos Do Avesso (Com-Arte) e Silente (7 Letras), e o ensaio Porvir que Vem Antes de Tudo – Literatura e Cinema em Lavoura Arcaica (Ateliê).

 

O Nheengatu que dá barato

José Ribamar Bessa Freire | Diário do Amazonas | 25 de maio de 2014

Capa do novo cd da banda Titãs

Capa do novo cd da banda Titãs

Tinha cara de bebê chorão. Morava na Ilha do Governador, no Rio. Não lembro mais o nome dele. Agnaldo ou Agnando, uma coisa assim, mas era conhecido como Pindá. Como qualquer vendedor de drogas em porta de escola, percorria diariamente universidades para abastecer a clientela, cujos vícios e gostos conhecia muito bem. Na UERJ, se esgueirava pelos corredores, qual felino de mansa pisada. Ia de sala em sala, levando a mercadoria. Silencioso e discreto, só abordava os consumidores potenciais sem presença de testemunhas. Um belo dia, sumiu. Dizem que foi preso.
Conheci-o há mais de vinte anos. Quem nos apresentou, se não me engano, foi Gilberto, um professor de engenharia, que era chegado na coisa e da qual era também dependente:
– Esse é Pindá, meu fornecedor. Mercadoria garantida. Pode confiar.
– Pindá é anzol em Nheengatu – eu disse, explicando que Nheengatu era uma língua de base tupi falada em todo o Rio Negro, tão viva que se tornaria depois, em 2002, língua cooficial no município de São Gabriel da Cachoeira (AM).
Bastou isso para que o tráfico se fizesse carne e habitasse entre nós. Pindá, um profissional sério, jogou o anzol e eu mordi a isca. Ele percebeu que eu, recém transferido do Amazonas para o Rio, passava por crise aguda de abstinência causada por suspensão brusca do uso do objeto do desejo. No dia seguinte, voltou, abriu sua maletinha e deu o bote pingando três pontos de exclamação:
– Olha aqui! Pra você! Coisa fina!
Ficou observando minha reação. Vi a mercadoria armazenada dentro de uma caixa de papel confeccionada sob medida, coberta por camada de pó branco e cristalino. Dava uma overdose.

A dopamina

 – Quanto custa? – perguntei, tentando esconder a ansiedade.
Mas ele percebeu o aumento na frequência dos meus batimentos cardíacos. Era experiente no trato com dependentes. Baseado – baseado mesmo – na vontade do consumidor de experimentar sensações mais fortes, costumava oferecer doses cavalares do produto, cada vez maiores. Deu o preço. Custava os olhos da cara somados ao olho do pescoço em francês. Uma fortuna!
– Muito caro. Quase um mês de salário. Tenho que pedir financiamento no banco – ironizei.
– É coisa rara. Tá todo mundo querendo. A doutora Ruth Monserrat, lá do Fundão, já fez uma encomenda. Aquele alemão, o Wolf Dietrich – conhece? – paga em euro ou em dólar. Não é caro não.
Tentei desvalorizar a mercadoria para baixar o preço:
– Tem até traça… – eu disse, apontando o pó.
– Não é traça. A caixa é de papel alcalino com cola anti-traça – ele disse. Parecia adivinhar que naquele momento meus neurônios já liberavam noradrenalina e dopamina. Ele nos entendia. Durante anos, nos consolou, fornecendo o que cada um de nós precisava.
Soprei o pó, tirei a mercadoria da caixa e comecei a folhear com cuidado. Era o Vocabulário da Língua Geral Portuguez-Nheengatú e Nheengatú-Portuguez, 768 páginas, escrito por Ermano Stradelli e editado em 1929, depois de sua morte, pelo Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. A edição foi feita com material vagabundo, em papel jornal, mas se trata de raridade bibliográfica, que contém um tesouro, dificilmente encontrado nos sebos.
Disfarcei a emoção desdenhando:
– É. Ainda bem que tenho todo ele fotocopiado.
Mentira. Ele sabia que não era possível fotocopiar sem esfarinhar o livro. Ele sabia que eu ia comprar, eu sabia que ele sabia que eu sabia. O que se seguiu foi jogo de dissimulação, fingimento, embromação, rasteiras, camuflagem. No final, aconteceu o previsível: apesar de muito choro, mordi a isca do Pindá, comprei pelo preço que ele pediu, afinal o dicionário era inacessível, pois nunca havia sido reeditado.

Destino do Pindá

"Vocabulario-Portugues-Nheengatu", de Ermano StradelliAgora foi. A Editora Ateliê, de Cotia (SP), acaba de reeditar, em 2014, o dicionário de Stradelli, com revisão de Geraldo Gerson de Souza, orelha escrita por José de Souza Martins (USP) e apresentação de Gordon Brotherston e Lúcia Sá (Universidade de Manchester) que chamam atenção para os usos que pode ter:
– É possível utilizar o Vocabulário de Stradelli como um dicionário qualquer, procurando termos específicos, concordando ou discordando das definições do autor, estudando a morfologia e a fonética da língua. Isso não impede, todavia, que leitores interessados na Amazônia e sua história percorram as páginas desse impressionante trabalho na tentativa de ampliar seus conhecimentos sobre fauna, flora, medicina, pesca, caça, agricultura, astronomia, história, política, rituais e costumes, além de literatura e folclore indígena caboclo – tudo isso a partir do nheengatu.
Relembrar a história do Pindá foi a forma que encontrei para anunciar aqui o lançamento de obra tão importante para a Amazônia e para o Brasil. Concluo com três notas: uma pequena crítica sem qualquer demérito para a obra, uma informação sobre o destino de Pindá e uma notícia sobre o nheengatu, que está sendo cada vez mais falado, escrito e até cantado.
A crítica: a bibliografia citada nesta reedição foi atualizada com outros trabalhos, mas não há qualquer menção a muitos autores que pesquisaram o tema, entre os quais Aryon Rodrigues, referência obrigatória quando se trata de línguas tupi, nem qualquer indicação sobre a única história que se tem até hoje do nheengatu – Rio Babel, a história da línguas da Amazônia (Eduerj 2004 1ª edição e 2011 2ª edição) de autoria de um cliente chorão e meio cabotino do Pindá, o fornecedor de livros do professor Gilberto e de toda a Uerj.
O destino de Pindá: foi preso não por vender obras raras por preços exorbitantes, com estratégia de comercialização dos vendedores de droga, que atraem a presa, seduzem e manipulam a dependência. Foi preso por não pagar pensão alimentícia. Sumiu do mapa, levando com ele as fichas dos professores da UERJ que mantinha mais atualizadas do que aquelas que figuram na Plataforma Lattes.
A notícia: no facebook tem um grupo Nheengatu on line, com quase cem membros, onde diariamente se escreve e se troca informações nesta língua. Foi lá que os usuários tomaram conhecimento do dicionário de Stradelli, lançado no momento em que a banda dos Titãs apresenta Nheengatu, seu novo álbum com capa reproduzindo pintura do século XVI – Torre de Babel – de Pieter Bruegel.
No entanto, é uma pena que na divulgação do novo CD se reproduza um erro histórico com a afirmação de que o nheengatu é uma “língua artificial criada pelos jesuítas no Brasil”. Nem é artificial, nem foi criada pelos jesuítas, cuja contribuição consistiu em dotar com  ortografia uma língua que já existia – e que foi se modificando com o uso como qualquer língua – possibilitando sua divulgação escrita na catequese e sua expansão pelos rios da Amazônia. De qualquer forma, o esforço dos Titãs por recuperar as raízes históricas do Brasil confirma que o Nheengatu falado, escrito ou cantado até na França ainda pode dar o maior barato, como queria o saudoso Pindá.

Robert Creeley

André Caramuru Aubert | Jornal Rascunho | Maio de 2014

A Um – Poemas, de Robert CreeleyO poeta norte-americano Robert Creeley (1926-2005) é, entre seus conterrâneos e contemporâneos, um dos mais conhecidos (ou menos desconhecidos) no Brasil. Além da qualidade de sua obra, talvez tenha ajudado, para isso, o fato de Creeley ter estado em São Paulo e conhecido alguns de nossos poetas. O fato é que ele deixou por aqui alguns admiradores importantes, como Ruy Vasconcelos e, principalmente, Régis Bonvicino, editor e tradutor de uma excelente coletânea brasileira (A UM, Poemas. Ed. bilíngue, Ateliê Editorial, 1997).

Ainda assim, diante de tudo o que Robert Creeley produziu, o que temos dele em português é muito pouco. Os quarenta e um poemas presentes em A UM, embora bastante representativos (são uma mistura de sugestões do próprio autor com os prediletos do tradutor), não passam de uma gota no oceano diante de alguém que escreveu continuamente por cerca de sessenta anos, e cuja obra completa, em inglês, espalha-se em dois volumes com mais de mil e duzentas páginas no total.

Creeley é uma unanimidade. Discípulo de William Carlos Williams e admirado por este, foi um líder do grupo Black Mountain, embora sua poesia muitas vezes ficasse distante da de outros membros. Elo de ligação entre os Beats e os poetas da San Francisco Renaissance, e entre os grupos de Nova York e da Califórnia, ele conseguia circular com desenvoltura entre poetas como Jack Kerouac e Allen Ginsberg, de um lado, e Charles Olson e Denise Levertov, de outro. Conhecido por sua generosidade, Creeley gostava de dar aulas e não se cansava de orientar novos poetas. Em função da combinação de sua personalidade com uma produção rigorosa e intensa, Creeley foi influente como talvez nenhum outro poeta de sua geração. Segundo alguns, um “poeta de poetas” por excelência.

A temática de Robert Creeley, como bom discípulo de W. C. Williams, gira primordialmente em torno das pequenas coisas, de cenas do cotidiano, de rápidas impressões de viagem. Econômico e preciso, suas quebras de linha são únicas. Embora afirmasse que, em poesia, a forma deveria se subordinar ao conteúdo, poucos poetas contemporâneos são mais formalmente rigorosos do que ele. Creeley possuía, segundo Williams, “o mais sutil sentido da medida desde Ezra Pound”. O que faz com que, estruturados a partir de um íntimo conhecimento dos sons, da respiração e dos ritmos da língua inglesa, os poemas de Creeley sejam muito difíceis de traduzir, especialmente para uma língua tão diferente da dele quanto é o português (Régis Bonvicino já chamava a atenção para isso na introdução a A UM). Mas penso que, apesar dos percalços e das limitações no resultado final, o esforço vale a pena, tanto para quem traduz quanto para quem lê.

Para esta introdução a Robert Creeley, procurei incluir alguns poemas de cada uma das etapas de sua carreira. Evitei apenas os que já haviam aparecido em português, especialmente na seleção de Régis Bonvicino (mesmo sabendo que ali estão algumas das mais belas composições de Creeley) porque, se por um lado eu não poderia pretender fazer uma tradução melhor, por outro, afinal de contas, eles já estão disponíveis em livro, em português. 

RETURN
Quiet as is proper for such places;
The street, subdued, half-snow, half-rain,
Endless, but ending in the darkened doors.
Inside, they who will be there always,
Quiet as is proper for such people —
Enough for now to be here, and
To know my door is one of these.

RETORNO
Silenciosa como é próprio para lugares assim;
A rua, calma, meio neve, meio chuva,
Sem fim, mas terminando nas portas escuras.
Dentro, aqueles que estão sempre lá,
Silenciosos como é próprio para pessoas assim —
Bastando por ora estar ali, e
Saber que a minha porta é uma destas.

MIDNIGHT
When the rain stops
and the cat drops
out of the tree
to walk

away, when the rain stops,
when the others come home, when
the phone stops,
the drip of water, the

potential of a caller
any Sunday afternoon.

MEIA-NOITE
Quando a chuva para
e o gato desce
da árvore
para sair

andando, quando a chuva para,
quando os outros voltam pra casa, quando
o telefone para,
os pingos d’água, a

possibilidade de um telefonema
uma tarde de domingo qualquer.

FOR HELEN
… If I can
remember anything, it
is the way ahead
you made for me, specifically:

wet-
ness, now the grass
as early it
has webs, all the lawn
stretched out from
the door, the back
one with a small crabbed
porch. The trees
are, then so high, a huge encrusted
sense of grooved trunk,
I can
slide my finger along
each edge.

PARA HELEN
… Se eu posso
me lembrar de algo, é
do caminho que
você abriu para mim, especificamente:

umi-
dade, agora a relva
como mais cedo, tem
teias, todo o campo
estendido para além da
porta, a de trás
para um pequeno, insignificante
alpendre. As árvores
estão, então, tão altas, um forte sentimento de
incrustrados e adequados troncos,
eu posso
deslizar meu dedo por
cada ponta.

AS YOU COME
As you come down
the road, it swings
slowly left and the sea
opens below you,
west. It sounds out.

ENQUANTO VOCÊ VEM
Enquanto você vem
pela estrada, ela vira
lentamente à esquerda e o mar
se abre abaixo de você,
a oeste. Isso se mostra.

THEN
Don’t go
to the mountains,

again — not
away, mad. Let’s

talk it out, you
never went anywhere.

I did — and here
in the world, looking back

on so-called life
with its impeccable

talk and legs and breasts,
I loved you

but not as some
gross habit, please.

Your voice
so quiet now,

so vacant, for me,
no sound, on the phone,

no clothes, on the floor,
no face, no hands,

— if I didn’t want
to be here, I wouldn’t

be here, and would
be elsewhere? Then.

ENTÃO
Não vá
para as montanhas,

de novo — não
embora, zangada. Vamos

resolver isso, você
nunca foi a lugar algum.

Eu fui — e aqui
no mundo, olhando para trás

na assim chamada vida
com suas impecáveis

conversas e pernas e seios,
eu amei você

mas não enquanto algum
hábito grosseiro, por favor.

Sua voz
tão quieta agora,

tão vazia, para mim,
nenhum som, no telefone,

nenhuma roupa, no chão
nenhuma face, nem mãos,

— se eu não quisesse
estar aqui, eu não estaria

aqui, e estaria
em outro lugar? E então.

SEA
Ever
to sleep,
returning water.

*

Rock’s upright,
thinking.

*

Boy and dog
following
the edge.

*

Come back, first
wave I saw.

*

Old man at
water’s edge, brown
pants rolled up,
white legs, and hair.

*

Thin faint
clouds begin
to drift over
sun, im-
perceptibly.

*

Stick stuck
in sand, shoes,
sweater, cigarettes.

*

No home more
to go to.

*

But that line,
sky and sea’s,
something else.

*

Adios, water —
for another day.

MAR
Sempre
para dormir,
a água voltando.

*

As rochas à direita,
pensando.

*

Garoto e cachorro
seguindo
pela beira.

*

De volta, a
primeira onda que vi.

*

Um velho na
beira d’água, calças
marrons enroladas nas pernas,
pernas brancas, e cabelos.

*

Leve desmaio
nuvens começam
a vaguear por sobre
o sol, im-
perceptivelmente.

*

Galho preso
na areia, sapatos,
agasalho, cigarros.

*

Sem uma casa mais
para onde ir.

*

Mas aquela linha,
de céu e mar,
alguma coisa a mais.

*

Adiós, água —
até um outro dia.

FIRST RAIN
These retroactive small
instances of feeling

reach out for a common
ground in the wet

first rain of a faded
winter. Along the grey

iced sidewalk revealed
piles of dogshit, papers,

bits of old clothing, are
the human pledges,

call them, “We are here and
have been all the time.” I

walk quickly. The wind
drives the rain, drenching

my coat, pants, blurs
my glasses, as I pass.

PRIMEIRA CHUVA
Estas pequenas e retroativas
instâncias do sentimento

alcançam um terreno
comum na umidade

primeira chuva em um
desbotado inverno. Ao longo do cinzento

e gelado meio-fio revelam-se
pilhas de cocô de cachorro, papéis,

pedaços de roupas velhas, são
os rastros humanos,

chame-os, “nós aqui estamos e
estivemos por todos os tempos.” Eu

caminho ligeiro. O vento
conduz a chuva, encharcando

meu casaco, calças, borra
meus óculos, enquanto eu passo.

HOTEL
It isn’t in the world of
fragile relationships

or memories, nothing
you could have brought with you.

It’s snowing in Toronto.
It’s four-thirty, a winter evening,

and the tv looks like a faded
hailstorm. The people

you know are down the hall,
maybe, but you’re tired,

you’re alone, and that’s happy.
Give up and lie down.

HOTEL
Não está no mundo dos
relacionamentos delicados

ou memórias, nada que
você possa ter trazido com você.

Está nevando em Toronto.
São quatro e meia, uma tarde de inverno,

e a tv parece uma opaca chuva de
granizo. As pessoas que você

conhece estão lá embaixo, no saguão,
provavelmente, mas você está cansado,

você está só, e isso é bom.
Desista, e deite-se.

HERE
Up a hill and down again.
Around and in —

Out was what it was all about
but now it’s done.

At the end was the beginning,
just like it said or someone did.

Keep looking, keep looking,
keep looking.

AQUI
Colina acima, e abaixo novamente.
Em volta dela e para ela —

Fora estava tudo o que contava
mas agora está terminado.

No final estava o começo,
como se costuma dizer ou alguém disse.

Fique olhando, fique olhando,
fique olhando.

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O poder transformador dos livros

Vivian Nani Ayres | Brasileiros | Abril de 2014

Como se deu a publicação e difusão de livros comunistas no Brasil e na França 

Edição e Revolução: Leituras Comunistas no Brasil e na FrançaOs livros fazem revoluções? Podem existir muitos protestos diante dessa pergunta, mas não se pode negar que uma das principais armas contra as ideias que ousaram questionar o status quo foi a perseguição aos livros considerados “subversivos”. É difícil encontrar alguém que conteste o poder transformador dos livros. Mesmo aqueles que só têm contato com esse objeto em sua esfera privada sabem que ao fecharem um livro depois da leitura encontram diante do espelho uma pessoa diferente. O que dizer então a respeito da literatura que se propõem justamente a cumprir esse papel transformador?

O livro Edição e Revolução – Leituras Comunistas no Brasil e na França, organizado por Jean-Yves Mollier e Marisa Midori Deaecto, nos mostra o duro caminho percorrido pelas editoras comunistas nesses dois países para consolidar e multiplicar suas ideias. Caminho que, embora distinto, atravessou as esferas da produção, da difusão e do consumo nos dois lados do Atlântico. Na sessão sobre o Brasil, podemos observar esse movimento através dos artigos de Lincoln Secco, Dainis Karepovs, Flamarion Maués e Angélica Lovatto. Do lado francês, Jean-Yves Mollier, Marie-Cécile Bouju, Julien Hage e Serge Wolikow nos dão a dimensão da situação naquele país.

Seguindo pari passu os movimentos históricos mundiais durante o século 20, vemos os percalços e sucessos das edições revolucionárias. É uma história de lutas, tanto no âmbito da transformação da sociedade quanto na esfera da edição e difusão dos textos. Mas essas duas esferas se misturam profundamente, afinal trata-se de uma ideologia que é filha da ilustração.

Mais do que todos, os comunistas acreditaram no livro como um instrumento de transformação. E não estavam errados, como podemos constatar nos capítulos dessa obra. Tanto no Brasil quanto na França, acompanhamos o esforço dos partidos comunistas para se alicerçarem no universo da edição e comemoramos suas vitórias – frutos da resistência e da criatividade –, que só em parte foram apagadas pela queda da União Soviética.

Essas ideias viajavam pelo mundo, afinal, a partir de 1917 podia-se multiplicar a Revolução. Mas é também conhecido o papel de centro difusor cultural que a França exerceu sobre o Ocidente desde o século 19, atingindo de forma substancial o Brasil. A relação entre esses dois países se dá de muitas formas: diversos textos comunistas aportaram aqui em língua francesa, muitos outros foram vertidos ao português a partir de traduções francesas. Mas o livro em questão também nos mostra que não se tratou apenas de recepção. Os comunistas brasileiros inovaram nas ideias e nos métodos, uma vez que estavam atuando em um ambiente histórico completamente distinto.

É, sem dúvida, uma leitura fundamental para aqueles que desejam conhecer a história do comunismo no Brasil e na França. Mas é, acima de tudo, um alento e um estímulo para aqueles que acreditam no poder transformador dos livros e das ideias.

Acesse o livro na loja virtual da Ateliê: Edição e Revolução – Leituras Comunistas no Brasil e na França

Leia o release do livro

O Som da Imagem

Oliviero Pluviano | Carta Capital | 7 de maio de 2014

RARAMENTE pensamos na morte. Existe um antídoto que nos impede de lembrar a todo instante que tudo acaba, que nascemos de un polvo (como os espanhóis chamam o momento da geração) e fatalmente voltaremos a ser poeira. É a mesma defesa psicológica a impedir que nos aterrorize nas noites estreladas a nossa condição de infinitésimos habitantes da Terra com os corpos celestes. Quem sabe esse remédio milagroso se chame vida? A morte dos outros passa perto de nós todos os dias: quem nunca viu um motoboy agonizando no asfalto em uma poça de sangue? Foi pensando nisso que segurei por um mês a mão da minha mãe doente. Sedada no hospital por um câncer, no último dia de sua vida acordou de repente, me acariciou e disse: “É uma pena, gostava tanto de viver” e mergulhou definitivamente no coma.

Estou lendo um livro delirante, mas extremamente lúcido, a Viagem ao Fim da Noite (1932) do gênio francês Louis-Ferdinand Céline, que afirmava saber demais e ainda não conhecer o suficiente. Ele também roça a morte quando escreve que “talvez a idade que se aproxima, traiçoeira, nos anuncie o pior. Já não há mais muita música para fazer a vida dançar. Toda a juventude já foi morrer ao fim do mundo no silêncio da verdade. A verdade é uma agonia interminável. A verdade deste mundo é a morte”.

O ex-embaixador italiano no Brasil La Francesca e eu nos especializamos em exploradores e viajantes italianos na América Latina do fim do século XIX e, como bons aposentados, viajamos livremente atrás de suas pegadas. Estivemos em um 4×4 no Chaco paraguaio, seguindo os passos de Guido Boggiani, pintor, fotógrafo e etnólogo, morto por um índio chamacoco em 1902 (veja O Som da Imagem de Carta Capital 766).

Vocabulário Português-Nheengatu – Nheengatu-Português, de E. StradelliTambém foi trágica e incomum a morte do conde Ermanno Stradelli, que chegou em Manaus em 1879 e terminou seus dias em 1926, sozinho e doente de hanseníase, no leprosário de Umirizal, nos arredores da capital amazonense. E pensar que apenas quatro anos antes produzira o único vocabulário do nheengatu, a língua geral dos povos da Bacia Amazônica, somente agora publicado pela Ateliê Editorial. Isso em nada lhe serviu para evitar seu dramático epílogo.

O calçadão da praça do Teatro Amazonas em Manaus, mostra desde os tempos de Stradelli aquele jogo de ondas em branco e preto que inspirou Burle Marx em Copacabana. Reproduz o encontro das águas claras do Rio Solimões com as águas escuras do Rio Negro. Para outros, representa a eterna luta entre a vida e a morte, o terrível duelo entre o bem e o mal. Mas será que são opostos?

Ao falar da morte, este meu texto sinistro só pode acabar com uma lembrança tocante de Claudio Abbado, em minha opinião o maior maestro de todos os tempos, falecido no dia 20 de janeiro aos 80 anos. Ele amava especialmente Carlo Gesualdo (1566-1613), “príncipe dos músicos”, senhor de Venosa, enigmático madrigalista da morte. Matou sua esposa Maria d’Avalos, considerada a mais bela mulher de Nápoles, e seu amante. Viu todos os seus filhos morrerem, e passou um ano entre a vida e a morte vítima do feitiço de uma bruxa. Disso tudo nasceu aquela obra prima tardo-renascentista que é Tenebrae. Ouça no YouTube a versão do quarteto Hilliard Ensemble, e você vai entender a predileção de Abbado por esse compositor da inquietude, inovador do cromatismo, precursor da decomposição tonal. Isso tudo envolto em um mistério mortal que ainda nos fascina…

Acesse o livro na loja virtual da Ateliê: Vocabulário Português-Nheengatu – Nheengatu-Português

Leia o release do livro: Vocabulário Português-Nheengatu – Nheengatu-Português

 

Perda Reconstruída

Renato Tardivo

Bilhete Seco, de Elisa NazarianO título da coletânea de contos de Elisa Nazarian, Bilhete Seco, inicialmente me chamou a atenção por dois motivos. O primeiro: ocorreu-me o conto “O Ventre Seco”, de Raduan Nassar, texto colérico que diz da relação do narrador com duas mulheres importantes de sua vida. O segundo: “bilhete seco”, se não chega a ser um paradoxo, causa alguma estranheza – bilhetes são molhados por excelência.

Bem, como não raro ocorre, eu poderia me desfazer dessas impressões ao fim da leitura. Mas, ao terminar o livro, foram justamente essas associações que me vieram, evidentemente transformadas por – e acrescidas de – outros elementos, de modo que, pensando agora, essas associações com efeito condensam os dois elementos que mais me capturaram no livro.

Os textos, escritos em prosa, trazem um eu-lírico feminino: questões cotidianas, perdas, relações familiares, angústias existenciais, o amor, o preparo de alimentos e a relação com a natureza são alguns dos temas explorados nas narrativas pela ótica de mulheres – o que não torna a obra panfletária; em vez disso, confere precisão e firmeza aos textos: as narradoras estão inteiras ali, reveladas em cada fresta.

A associação com “O Ventre Seco”, de Raduan Nassar, se confirma na medida em que o lirismo visceral de Eliza Nazarian parece partir do ventre das narradoras. E a tensão entre as palavras “bilhete” e “seco” se resolve justamente em um lirismo enxuto, urdido por frases curtas, orações coordenadas, em suma, por uma escrita seca. Que, não obstante, reconstrói perdas.

Leia mais textos de Renato Tardivo para o Blog da Ateliê

Coluna Resenhas - Renato Tardivo

 

 

 

Renato Tardivo é mestre e doutorando em Psicologia Social da Arte pela USP e escritor. Atua na interface entre a estética, a fenomenologia e a psicanálise. É professor universitário e escreveu os livros de contos Do Avesso (Com-Arte) e Silente (7 Letras), e o ensaio Porvir que Vem Antes de Tudo – Literatura e Cinema em Lavoura Arcaica (Ateliê).

Valéry e Nerval: o eu inesgotável

Felipe Fortuna | Valor Econômico | 04 de abril de 2014

Dois lançamentos permitem novas incursões na obra dos dois poetas franceses bem como no trabalho de tradução de poesia para o português.

Gérard de Nerval: Cinquenta Poemas

Fragmentos do Narciso e Outros Poemas

 

As numerosas diferenças entre Gérard de Nerval (1808-1855) e Paul Valéry (1871-1945) não são apenas as da cronologia, mas sobretudo de concepção da obra literária. Para o escritor de Les Filles Du Feu (1854), os símbolos do hermetismo – saturados de mensagens esotéricas e de vigoroso discurso místico – se transfiguravam em literatura. Já para o escritor de Charmes (1926), disciplina e rigor deveriam ser forças simultâneas na construção da prosa e da poesia, em repulsa a qualquer aspecto que não fosse determinado pelo intelecto.

Observa-se, no entanto, um interessante ponto em comum entre os dois escritores: ainda muito jovem, Nerval publicou sua tradução do Fausto, de Goethe, com qual ganhou notoriedade. Já Valéry escreveu, na velhice, um Mon Faust (1946) que só seria publicado postumamente: livro confessadamente “sem plano”, na forma de esboços que repercutem as derradeiras meditações do poeta na Europa em guerra.

Dois lançamentos da Ateliê Editorial – os Cinquenta Poemas, de Gérard de Nerval, e Fragmentos do Narciso e Outros Poemas, de Paul Valéry – permitem novas incursões na obra desses poetas, bem como no trabalho de tradução de poesia para o português.

A seleção e tradução dos poemas de Nerval por Mauro Gama inclui As Quimeras, célebre conjunto de 12 sonetos, bem como as Outras Quimeras. Trata-se de um considerável desafio tanto para o tradutor quanto para quem, com acesso ao original, procure desvendar o sentido de todo o esoterismo trazido pelo poeta. Em Ártemis, por exemplo: “É a Décima-Terceira, agora… E ainda a primeira:/ E é a única sempre, ou o único instante:/ Pois és Rainha, Tu! primeira ou derradeira?/ És Rei, Único, tu, ou o último amante?…”

Nem sempre, porém, o tradutor consegue resolver as surpreendentes imagens do poeta – que caíram no gosto dos surrealistas, décadas depois. No conhecido soneto El Desdichado, espécie de autobiografia espiritual e fatídica, o quarteto inicial tem muita importância: “Eu sou o Tenebroso, – o Viúvo, – o Inconsolado,/ O príncipe aquitano em torre agora ruída./ Minha Estrela morreu; meu lude constelado/ Traz o sol negro e o horror da Angústia desmedida”. Lamenta-se que o tradutor não tenha conseguido manter a palavra “melancolia” no último verso, “Porte Le Soleil noir de La Mélancolie”. Essa palavra é essencial para compreensão do estado psíquico do poeta, além de estar inserida na sofrida tendência ao spleen que caracterizou tantos (senão todos) poetas românticos. A ideia de um “horror de Angústia desmedida” introduz elementos estranhos ao já singular estranhamento que provocam os poemas de Nerval.

A edição dos seus Cinquenta Poemas mereceria maior cuidado quanto à fixação do texto original, em que alguns casos foi transcrito com erros; e, nas traduções, maior atenção com o uso pessoalíssimo das maiúsculas, que conferem à mitologia e à vaga religião esboçadas pelo poeta aspectos ainda mais fascinantes.

Desafiadora, exigente, intelectualizada, a poesia de Paul Valéry manteve decisiva influência na modernidade. No Brasil, bastaria citar a concepção de um livro como Claro enigma (1951), de Carlos Drummond de Andrade, que se permite formas clássicas e indagações filosóficas, sob a égide de uma citação do poeta francês: “Os acontecimentos me aborrecem”, em contraponto a uma poesia anterior de engajamento político; ou então, entre alguns outros, o poema Fabula de Anfion (1947) (“gesto puro/ de resíduos, respira/ o deserto, Anfion”), de João Cabral de Melo Neto, a estabelecer diretrizes de uma psicologia da composição; ou então, por fim, “um ódio e um desprezo pelas coisas vagas”, o plano de “enxertar a matemática na poesia, o rigor em imagens livres”, princípios que são traduzidos e divulgados pelo concretismo.

Consciente da complexa articulação entre poesia e pensamento em Valéry, o tradutor Júlio Castañon Guimarães (ele mesmo poeta de cunho meditativo) publica agora Fragmentos do Narciso e Outros Poemas, reunião bilíngue de dez poemas do autor de Charmes, entre os quais se encontram, além do poema que dá titulo ao livro, Ária de Semíramis e Palma.

O último dos poemas citados, Palma, dedicado à mulher, encerra aquele livro do poeta de maneira exemplar: trata do amadurecimento da poesia (e das obras de arte) por meio do trabalho que se dá com tempo e com a perseverança. Seus versos de sete sílabas sugerem leveza e contenção: é o comentário final, o acabamento de um conjunto elaborado. O tradutor brasileiro é competente ao transmitir o resultado: “Por mais que se dobre afeita/ A tais bem sem contenção,/ Sua figura é perfeita,/ E os frutos seus laços são./ Admira como vibra,/ E como uma lenta fibra/ Que divide este momento,/ Decide e, clara, descerra/ Toda a atração da terra/ E o peso do firmamento”.

Relembre-se como o símbolo implacável da poesia de Valéry, em Palma, pode ter induzido o citado João Cabral a singularizar objetos da paisagem (pedra, cana-de-açúcar, bananeira) como pretextos para tratar da arte poética praticada.

Fragmentos do Narciso, ao longo dos seus 315 versos alexandrinos, concentra parte vital das obsessões de Paul Valéry em sua poética. A imagem do narciso, se característica de muitos escritores do simbolismo europeu, tornou-se seminal para o poeta francês. O embate consigo mesmo, o diálogo permanente e tenso entre o eu e a sua imagem refletida (um falso outro a quem era necessário questionar e dirigir perguntas), o contraste entre o Único e Universal – eis alguns dos problemas trazidos por Valéry em seu poema. O narcisismo se posiciona no centro da obra do poeta, presente em diversas fases, tanto na prosa quanto na poesia (e o tradutor brasileiro também insere no livro o poema Narciso Fala: “Ah! A imagem é vã e os prantos eternos!/ (…) Ó forma obediente a meus olhos oposta!”).

A noção de fragmento expressa uma forma inacabada, um caráter ainda não definitivo do que o poeta pensa – e, também, o transito do mito de Narciso pela obra de Valéry, que o confrontava com o “inesgotável Eu”.

A tradução de Castañon Guimarães é meticulosa e seguramente atenta aos desafios apresentados pelo poeta francês, não apenas com relação ao metro, mas em especial às aliterações e às assonâncias, tão comuns em sua poesia. O tradutor, no prefácio, já demonstra sensível preocupação com o seu ofício, trazendo à discussão algumas ideias do próprio Paul Valéry sobre tradução poética. Mas, sempre preocupado, escreveu como posfácio ao livro uma “Nota sobre a tradução”, atraente exposição sobre a operação de traduzir Paul Valéry, na qual são elencados o gosto musical do poeta e o registro da sua voz ao declamar, entre outros aspectos que poderiam ser considerados na passagem para o português.

Do conjunto de problemas que toda tradução de poesia pode suscitar, o tradutor opta por um “microtrabalho das aproximações sonora” e por um genérico “mecanismo de compensação” a fim de mostrar, no outro idioma, que os versos franceses encontraram semelhança…

Como já se afirmou, a tradução de Fragmentos do Narciso e Outros Poemas mostra zelo e consciência. Por isso mesmo, teria sido importante dar maior atenção a um conjunto de palavras que se encontra no fulcro de um poema que trata do Narciso e do narcisismo. Trata-se do grupo formado por “eau/ eaux/ onde” (água/ águas/ água). Paul Valéry traz uma combinação aparentemente aleatória com as três palavras ao longo do poema.

Na primeira aparição, “Je ne troublerai pas I’onde mystérieuse” (“Não turvarei a água em jogo misterioso”), o verbo turvar não transmite a necessária ideia de que a água estagnada não pode ser agitada ou tocada, caso contrário a imagem de Narciso desapareceria da superfície (como acontece no último verso, “Passa, e num tremor quebra Narciso, e foge…”). Nos versos 59 a 61, a palavra francesa “onde” aparece três vezes, formando um núcleo por si só: mas, tangido pelas exigências de rima, o tradutor prefere “remanso” para o verso “À cette onde jamais ne burrent les tropeaux!” (Nenhum tropel jamais bebeu desse remanso!).

Duas vezes o tradutor prefere traduzir “onde” por “vaga”, quando “das águas” e “às aguas” seriam plenamente aceitáveis. Afinal, em dois versos, Júlio Castañon Guimarães se resigna a traduzir “onde” por “onda”, cujo sentido em português é notavelmente distinto do francês literário mais arcaico.

Fragmentos do Narciso e Outros Poemas”, com seus dez poemas, constitui atualmente a reunião mais generosa de poemas de Paul Valéry em língua portuguesa, uma vez que outras edições se limitavam a apenas um longo poema. Torna-se uma referência, pois, a partir de um trabalho lento e gradual que permite mirar com atenção tanto o eu do poeta quanto a imagem do seu tradutor.

Acesse o livro na loja virtual da Ateliê: Fragmentos do Narciso de Outros Poemas, de Paul Valéry

Acesse o livro na loja virtual da Ateliê: Gérard de Nerval: Cinquenta Poemas, de Gérard de Nerval

Felipe Fortuna é poeta, ensaísta e diplomata. Recentemente publicou o livro A Mesma Coisa (Topbooks)