Resenhas

O poder transformador dos livros

Vivian Nani Ayres | Brasileiros | Abril de 2014

Como se deu a publicação e difusão de livros comunistas no Brasil e na França 

Edição e Revolução: Leituras Comunistas no Brasil e na FrançaOs livros fazem revoluções? Podem existir muitos protestos diante dessa pergunta, mas não se pode negar que uma das principais armas contra as ideias que ousaram questionar o status quo foi a perseguição aos livros considerados “subversivos”. É difícil encontrar alguém que conteste o poder transformador dos livros. Mesmo aqueles que só têm contato com esse objeto em sua esfera privada sabem que ao fecharem um livro depois da leitura encontram diante do espelho uma pessoa diferente. O que dizer então a respeito da literatura que se propõem justamente a cumprir esse papel transformador?

O livro Edição e Revolução – Leituras Comunistas no Brasil e na França, organizado por Jean-Yves Mollier e Marisa Midori Deaecto, nos mostra o duro caminho percorrido pelas editoras comunistas nesses dois países para consolidar e multiplicar suas ideias. Caminho que, embora distinto, atravessou as esferas da produção, da difusão e do consumo nos dois lados do Atlântico. Na sessão sobre o Brasil, podemos observar esse movimento através dos artigos de Lincoln Secco, Dainis Karepovs, Flamarion Maués e Angélica Lovatto. Do lado francês, Jean-Yves Mollier, Marie-Cécile Bouju, Julien Hage e Serge Wolikow nos dão a dimensão da situação naquele país.

Seguindo pari passu os movimentos históricos mundiais durante o século 20, vemos os percalços e sucessos das edições revolucionárias. É uma história de lutas, tanto no âmbito da transformação da sociedade quanto na esfera da edição e difusão dos textos. Mas essas duas esferas se misturam profundamente, afinal trata-se de uma ideologia que é filha da ilustração.

Mais do que todos, os comunistas acreditaram no livro como um instrumento de transformação. E não estavam errados, como podemos constatar nos capítulos dessa obra. Tanto no Brasil quanto na França, acompanhamos o esforço dos partidos comunistas para se alicerçarem no universo da edição e comemoramos suas vitórias – frutos da resistência e da criatividade –, que só em parte foram apagadas pela queda da União Soviética.

Essas ideias viajavam pelo mundo, afinal, a partir de 1917 podia-se multiplicar a Revolução. Mas é também conhecido o papel de centro difusor cultural que a França exerceu sobre o Ocidente desde o século 19, atingindo de forma substancial o Brasil. A relação entre esses dois países se dá de muitas formas: diversos textos comunistas aportaram aqui em língua francesa, muitos outros foram vertidos ao português a partir de traduções francesas. Mas o livro em questão também nos mostra que não se tratou apenas de recepção. Os comunistas brasileiros inovaram nas ideias e nos métodos, uma vez que estavam atuando em um ambiente histórico completamente distinto.

É, sem dúvida, uma leitura fundamental para aqueles que desejam conhecer a história do comunismo no Brasil e na França. Mas é, acima de tudo, um alento e um estímulo para aqueles que acreditam no poder transformador dos livros e das ideias.

Acesse o livro na loja virtual da Ateliê: Edição e Revolução – Leituras Comunistas no Brasil e na França

Leia o release do livro

O Som da Imagem

Oliviero Pluviano | Carta Capital | 7 de maio de 2014

RARAMENTE pensamos na morte. Existe um antídoto que nos impede de lembrar a todo instante que tudo acaba, que nascemos de un polvo (como os espanhóis chamam o momento da geração) e fatalmente voltaremos a ser poeira. É a mesma defesa psicológica a impedir que nos aterrorize nas noites estreladas a nossa condição de infinitésimos habitantes da Terra com os corpos celestes. Quem sabe esse remédio milagroso se chame vida? A morte dos outros passa perto de nós todos os dias: quem nunca viu um motoboy agonizando no asfalto em uma poça de sangue? Foi pensando nisso que segurei por um mês a mão da minha mãe doente. Sedada no hospital por um câncer, no último dia de sua vida acordou de repente, me acariciou e disse: “É uma pena, gostava tanto de viver” e mergulhou definitivamente no coma.

Estou lendo um livro delirante, mas extremamente lúcido, a Viagem ao Fim da Noite (1932) do gênio francês Louis-Ferdinand Céline, que afirmava saber demais e ainda não conhecer o suficiente. Ele também roça a morte quando escreve que “talvez a idade que se aproxima, traiçoeira, nos anuncie o pior. Já não há mais muita música para fazer a vida dançar. Toda a juventude já foi morrer ao fim do mundo no silêncio da verdade. A verdade é uma agonia interminável. A verdade deste mundo é a morte”.

O ex-embaixador italiano no Brasil La Francesca e eu nos especializamos em exploradores e viajantes italianos na América Latina do fim do século XIX e, como bons aposentados, viajamos livremente atrás de suas pegadas. Estivemos em um 4×4 no Chaco paraguaio, seguindo os passos de Guido Boggiani, pintor, fotógrafo e etnólogo, morto por um índio chamacoco em 1902 (veja O Som da Imagem de Carta Capital 766).

Vocabulário Português-Nheengatu – Nheengatu-Português, de E. StradelliTambém foi trágica e incomum a morte do conde Ermanno Stradelli, que chegou em Manaus em 1879 e terminou seus dias em 1926, sozinho e doente de hanseníase, no leprosário de Umirizal, nos arredores da capital amazonense. E pensar que apenas quatro anos antes produzira o único vocabulário do nheengatu, a língua geral dos povos da Bacia Amazônica, somente agora publicado pela Ateliê Editorial. Isso em nada lhe serviu para evitar seu dramático epílogo.

O calçadão da praça do Teatro Amazonas em Manaus, mostra desde os tempos de Stradelli aquele jogo de ondas em branco e preto que inspirou Burle Marx em Copacabana. Reproduz o encontro das águas claras do Rio Solimões com as águas escuras do Rio Negro. Para outros, representa a eterna luta entre a vida e a morte, o terrível duelo entre o bem e o mal. Mas será que são opostos?

Ao falar da morte, este meu texto sinistro só pode acabar com uma lembrança tocante de Claudio Abbado, em minha opinião o maior maestro de todos os tempos, falecido no dia 20 de janeiro aos 80 anos. Ele amava especialmente Carlo Gesualdo (1566-1613), “príncipe dos músicos”, senhor de Venosa, enigmático madrigalista da morte. Matou sua esposa Maria d’Avalos, considerada a mais bela mulher de Nápoles, e seu amante. Viu todos os seus filhos morrerem, e passou um ano entre a vida e a morte vítima do feitiço de uma bruxa. Disso tudo nasceu aquela obra prima tardo-renascentista que é Tenebrae. Ouça no YouTube a versão do quarteto Hilliard Ensemble, e você vai entender a predileção de Abbado por esse compositor da inquietude, inovador do cromatismo, precursor da decomposição tonal. Isso tudo envolto em um mistério mortal que ainda nos fascina…

Acesse o livro na loja virtual da Ateliê: Vocabulário Português-Nheengatu – Nheengatu-Português

Leia o release do livro: Vocabulário Português-Nheengatu – Nheengatu-Português

 

Perda Reconstruída

Renato Tardivo

Bilhete Seco, de Elisa NazarianO título da coletânea de contos de Elisa Nazarian, Bilhete Seco, inicialmente me chamou a atenção por dois motivos. O primeiro: ocorreu-me o conto “O Ventre Seco”, de Raduan Nassar, texto colérico que diz da relação do narrador com duas mulheres importantes de sua vida. O segundo: “bilhete seco”, se não chega a ser um paradoxo, causa alguma estranheza – bilhetes são molhados por excelência.

Bem, como não raro ocorre, eu poderia me desfazer dessas impressões ao fim da leitura. Mas, ao terminar o livro, foram justamente essas associações que me vieram, evidentemente transformadas por – e acrescidas de – outros elementos, de modo que, pensando agora, essas associações com efeito condensam os dois elementos que mais me capturaram no livro.

Os textos, escritos em prosa, trazem um eu-lírico feminino: questões cotidianas, perdas, relações familiares, angústias existenciais, o amor, o preparo de alimentos e a relação com a natureza são alguns dos temas explorados nas narrativas pela ótica de mulheres – o que não torna a obra panfletária; em vez disso, confere precisão e firmeza aos textos: as narradoras estão inteiras ali, reveladas em cada fresta.

A associação com “O Ventre Seco”, de Raduan Nassar, se confirma na medida em que o lirismo visceral de Eliza Nazarian parece partir do ventre das narradoras. E a tensão entre as palavras “bilhete” e “seco” se resolve justamente em um lirismo enxuto, urdido por frases curtas, orações coordenadas, em suma, por uma escrita seca. Que, não obstante, reconstrói perdas.

Leia mais textos de Renato Tardivo para o Blog da Ateliê

Coluna Resenhas - Renato Tardivo

 

 

 

Renato Tardivo é mestre e doutorando em Psicologia Social da Arte pela USP e escritor. Atua na interface entre a estética, a fenomenologia e a psicanálise. É professor universitário e escreveu os livros de contos Do Avesso (Com-Arte) e Silente (7 Letras), e o ensaio Porvir que Vem Antes de Tudo – Literatura e Cinema em Lavoura Arcaica (Ateliê).

Valéry e Nerval: o eu inesgotável

Felipe Fortuna | Valor Econômico | 04 de abril de 2014

Dois lançamentos permitem novas incursões na obra dos dois poetas franceses bem como no trabalho de tradução de poesia para o português.

Gérard de Nerval: Cinquenta Poemas

Fragmentos do Narciso e Outros Poemas

 

As numerosas diferenças entre Gérard de Nerval (1808-1855) e Paul Valéry (1871-1945) não são apenas as da cronologia, mas sobretudo de concepção da obra literária. Para o escritor de Les Filles Du Feu (1854), os símbolos do hermetismo – saturados de mensagens esotéricas e de vigoroso discurso místico – se transfiguravam em literatura. Já para o escritor de Charmes (1926), disciplina e rigor deveriam ser forças simultâneas na construção da prosa e da poesia, em repulsa a qualquer aspecto que não fosse determinado pelo intelecto.

Observa-se, no entanto, um interessante ponto em comum entre os dois escritores: ainda muito jovem, Nerval publicou sua tradução do Fausto, de Goethe, com qual ganhou notoriedade. Já Valéry escreveu, na velhice, um Mon Faust (1946) que só seria publicado postumamente: livro confessadamente “sem plano”, na forma de esboços que repercutem as derradeiras meditações do poeta na Europa em guerra.

Dois lançamentos da Ateliê Editorial – os Cinquenta Poemas, de Gérard de Nerval, e Fragmentos do Narciso e Outros Poemas, de Paul Valéry – permitem novas incursões na obra desses poetas, bem como no trabalho de tradução de poesia para o português.

A seleção e tradução dos poemas de Nerval por Mauro Gama inclui As Quimeras, célebre conjunto de 12 sonetos, bem como as Outras Quimeras. Trata-se de um considerável desafio tanto para o tradutor quanto para quem, com acesso ao original, procure desvendar o sentido de todo o esoterismo trazido pelo poeta. Em Ártemis, por exemplo: “É a Décima-Terceira, agora… E ainda a primeira:/ E é a única sempre, ou o único instante:/ Pois és Rainha, Tu! primeira ou derradeira?/ És Rei, Único, tu, ou o último amante?…”

Nem sempre, porém, o tradutor consegue resolver as surpreendentes imagens do poeta – que caíram no gosto dos surrealistas, décadas depois. No conhecido soneto El Desdichado, espécie de autobiografia espiritual e fatídica, o quarteto inicial tem muita importância: “Eu sou o Tenebroso, – o Viúvo, – o Inconsolado,/ O príncipe aquitano em torre agora ruída./ Minha Estrela morreu; meu lude constelado/ Traz o sol negro e o horror da Angústia desmedida”. Lamenta-se que o tradutor não tenha conseguido manter a palavra “melancolia” no último verso, “Porte Le Soleil noir de La Mélancolie”. Essa palavra é essencial para compreensão do estado psíquico do poeta, além de estar inserida na sofrida tendência ao spleen que caracterizou tantos (senão todos) poetas românticos. A ideia de um “horror de Angústia desmedida” introduz elementos estranhos ao já singular estranhamento que provocam os poemas de Nerval.

A edição dos seus Cinquenta Poemas mereceria maior cuidado quanto à fixação do texto original, em que alguns casos foi transcrito com erros; e, nas traduções, maior atenção com o uso pessoalíssimo das maiúsculas, que conferem à mitologia e à vaga religião esboçadas pelo poeta aspectos ainda mais fascinantes.

Desafiadora, exigente, intelectualizada, a poesia de Paul Valéry manteve decisiva influência na modernidade. No Brasil, bastaria citar a concepção de um livro como Claro enigma (1951), de Carlos Drummond de Andrade, que se permite formas clássicas e indagações filosóficas, sob a égide de uma citação do poeta francês: “Os acontecimentos me aborrecem”, em contraponto a uma poesia anterior de engajamento político; ou então, entre alguns outros, o poema Fabula de Anfion (1947) (“gesto puro/ de resíduos, respira/ o deserto, Anfion”), de João Cabral de Melo Neto, a estabelecer diretrizes de uma psicologia da composição; ou então, por fim, “um ódio e um desprezo pelas coisas vagas”, o plano de “enxertar a matemática na poesia, o rigor em imagens livres”, princípios que são traduzidos e divulgados pelo concretismo.

Consciente da complexa articulação entre poesia e pensamento em Valéry, o tradutor Júlio Castañon Guimarães (ele mesmo poeta de cunho meditativo) publica agora Fragmentos do Narciso e Outros Poemas, reunião bilíngue de dez poemas do autor de Charmes, entre os quais se encontram, além do poema que dá titulo ao livro, Ária de Semíramis e Palma.

O último dos poemas citados, Palma, dedicado à mulher, encerra aquele livro do poeta de maneira exemplar: trata do amadurecimento da poesia (e das obras de arte) por meio do trabalho que se dá com tempo e com a perseverança. Seus versos de sete sílabas sugerem leveza e contenção: é o comentário final, o acabamento de um conjunto elaborado. O tradutor brasileiro é competente ao transmitir o resultado: “Por mais que se dobre afeita/ A tais bem sem contenção,/ Sua figura é perfeita,/ E os frutos seus laços são./ Admira como vibra,/ E como uma lenta fibra/ Que divide este momento,/ Decide e, clara, descerra/ Toda a atração da terra/ E o peso do firmamento”.

Relembre-se como o símbolo implacável da poesia de Valéry, em Palma, pode ter induzido o citado João Cabral a singularizar objetos da paisagem (pedra, cana-de-açúcar, bananeira) como pretextos para tratar da arte poética praticada.

Fragmentos do Narciso, ao longo dos seus 315 versos alexandrinos, concentra parte vital das obsessões de Paul Valéry em sua poética. A imagem do narciso, se característica de muitos escritores do simbolismo europeu, tornou-se seminal para o poeta francês. O embate consigo mesmo, o diálogo permanente e tenso entre o eu e a sua imagem refletida (um falso outro a quem era necessário questionar e dirigir perguntas), o contraste entre o Único e Universal – eis alguns dos problemas trazidos por Valéry em seu poema. O narcisismo se posiciona no centro da obra do poeta, presente em diversas fases, tanto na prosa quanto na poesia (e o tradutor brasileiro também insere no livro o poema Narciso Fala: “Ah! A imagem é vã e os prantos eternos!/ (…) Ó forma obediente a meus olhos oposta!”).

A noção de fragmento expressa uma forma inacabada, um caráter ainda não definitivo do que o poeta pensa – e, também, o transito do mito de Narciso pela obra de Valéry, que o confrontava com o “inesgotável Eu”.

A tradução de Castañon Guimarães é meticulosa e seguramente atenta aos desafios apresentados pelo poeta francês, não apenas com relação ao metro, mas em especial às aliterações e às assonâncias, tão comuns em sua poesia. O tradutor, no prefácio, já demonstra sensível preocupação com o seu ofício, trazendo à discussão algumas ideias do próprio Paul Valéry sobre tradução poética. Mas, sempre preocupado, escreveu como posfácio ao livro uma “Nota sobre a tradução”, atraente exposição sobre a operação de traduzir Paul Valéry, na qual são elencados o gosto musical do poeta e o registro da sua voz ao declamar, entre outros aspectos que poderiam ser considerados na passagem para o português.

Do conjunto de problemas que toda tradução de poesia pode suscitar, o tradutor opta por um “microtrabalho das aproximações sonora” e por um genérico “mecanismo de compensação” a fim de mostrar, no outro idioma, que os versos franceses encontraram semelhança…

Como já se afirmou, a tradução de Fragmentos do Narciso e Outros Poemas mostra zelo e consciência. Por isso mesmo, teria sido importante dar maior atenção a um conjunto de palavras que se encontra no fulcro de um poema que trata do Narciso e do narcisismo. Trata-se do grupo formado por “eau/ eaux/ onde” (água/ águas/ água). Paul Valéry traz uma combinação aparentemente aleatória com as três palavras ao longo do poema.

Na primeira aparição, “Je ne troublerai pas I’onde mystérieuse” (“Não turvarei a água em jogo misterioso”), o verbo turvar não transmite a necessária ideia de que a água estagnada não pode ser agitada ou tocada, caso contrário a imagem de Narciso desapareceria da superfície (como acontece no último verso, “Passa, e num tremor quebra Narciso, e foge…”). Nos versos 59 a 61, a palavra francesa “onde” aparece três vezes, formando um núcleo por si só: mas, tangido pelas exigências de rima, o tradutor prefere “remanso” para o verso “À cette onde jamais ne burrent les tropeaux!” (Nenhum tropel jamais bebeu desse remanso!).

Duas vezes o tradutor prefere traduzir “onde” por “vaga”, quando “das águas” e “às aguas” seriam plenamente aceitáveis. Afinal, em dois versos, Júlio Castañon Guimarães se resigna a traduzir “onde” por “onda”, cujo sentido em português é notavelmente distinto do francês literário mais arcaico.

Fragmentos do Narciso e Outros Poemas”, com seus dez poemas, constitui atualmente a reunião mais generosa de poemas de Paul Valéry em língua portuguesa, uma vez que outras edições se limitavam a apenas um longo poema. Torna-se uma referência, pois, a partir de um trabalho lento e gradual que permite mirar com atenção tanto o eu do poeta quanto a imagem do seu tradutor.

Acesse o livro na loja virtual da Ateliê: Fragmentos do Narciso de Outros Poemas, de Paul Valéry

Acesse o livro na loja virtual da Ateliê: Gérard de Nerval: Cinquenta Poemas, de Gérard de Nerval

Felipe Fortuna é poeta, ensaísta e diplomata. Recentemente publicou o livro A Mesma Coisa (Topbooks)

Chuva de dúvidas

Bruno Molinero | Folha de São Paulo | 29 de março de 2014

"Contos da Nova Cartilha – Segundo Livro de Leitura", de Liev TolstóiUm rato vivia embaixo de um celeiro e se alimentava de restos de comida que caíam por um buraquinho no chão. Certo dia, ele decidiu aumentar o tamanho do furo. Um camponês, porém, percebeu o grande buraco e decidiu tapá-lo.

Essa é uma das histórias que o escritor russo Liev Tolstói (1828-1910) contava para crianças que estudavam na escola que ele mantinha em sua propriedade. Os textos agora estão reunidos em Contos da Nova Cartilha – Segundo Livro de Leitura, que tem também um outro volume a ser lançado.

Mas o que a história do rato quer dizer? Que é ruim ter o olho maior que a barriga? Ou que é melhor não chamar a atenção? As histórias não trazem uma conclusão. Ao contrário: inundam a cabeça de dúvidas. É da troca de ideias que o escritor acreditava nascer a educação.

E tudo isso sem ser cansativo. Tolstói para crianças é bem diferente do que adultos estão acostumados: suas fábulas são curtinhas, ao contrário de seus romances famosos, que podem ter mais de mil páginas.

Os alunos de uma escola da Rússia que o digam. Após lerem os contos, mais de cem anos depois de escritos, eles os ilustraram. São esses desenhos que dão cor às páginas do novo livro.

Acesse o livro na loja virtual da Ateliê

Leia a resenha de Renato Tardivo sobre o livro

Veja mais ilustrações do livro

Ilustração de Mikhail Morósov, 14 anos

Ilustração de Ksiucha Melnitchenko, 14 anos

 

 

 

Os Dois Lados da Escuta

Renato Tardivo

Ninfomaníaca, de Lars Von Trier

Ninfomaníaca (volumes I e II), de Lars Von Trier, é uma obra prima necessária e, ao mesmo tempo, sintomática dos dias atuais. Poucos conseguem, como ele, contar bem uma história ao cutucar com força nossas feridas, deixando estrias de sangue na pele – do corpo e da tela.

No primeiro filme, uma mulher, Joe, é encontrada na rua com sinais de espancamento por um homem mais velho, Seligman. Ele a leva para a sua casa e, mais que abrigo e calor, lhe oferece a escuta. Joe trata de reconstruir sua história, tendo Seligman (e o espectador) como testemunha.

O filme alterna o presente, em que Joe conta a história para Seligman em um dos quartos da casa dele, e o passado rememorado em flashbacks. Joe retoma a infância, a descoberta da sexualidade, as primeiras relações, a compulsão sexual na juventude, o reencontro com o primeiro homem.

O volume I termina em aberto, revelando cenas do II nos créditos. A busca incessante por prazer de Joe encontra, ao fim da primeira parte, o esgotamento. E tudo indica que a busca, no limite impossível, se voltará, no volume II, para o seu corpo e potencializará sua degradação.

O equilíbrio entre o tempo da ação e os flasbacks, no volume I, tende à perfeição. Mas, sendo um filme inacabado, há menos riscos. No entanto, as chances de a história se perder, sobretudo por uma possível banalização das cenas chocantes (como talvez tenha ocorrido em Anticristo, do mesmo diretor), não seriam pequenas no volume II.

Não é o que ocorre: a continuação é simplesmente sublime.

Aspectos que ficam em aberto na parte anterior são explorados: a relação (transferencial) entre Joe e Seligman, também ele um ser faltante, o mergulho radical de Joe nas perversões, sexuais e do capital (nesse sentido, o filme lembra O Cheiro do Ralo, produção nacional de 2005 dirigida por Heitor Dhália), sua inadequação às instituições e normas vigentes, as (outras) regras dentro das quais ela pode (incestuosamente) ser mãe.

Ninfomaníaca não é um tratado sobre perversões, nem um raio x da subjetividade de Joe. O filme, na figura da protagonista, é uma metáfora perfeita – e toda metáfora perfeita é, também, um paradoxo – das modalidades de vínculos que, mediados pelo chicote, estabelecemos na contemporaneidade: da cegueira de si e do outro, da destrutividade de todos.

Lars Von Trier, munido de sua conhecida câmera na mão, dos cortes dentro do plano, aspectos finamente trabalhados mas que conferem um caráter documental e despojado à narrativa fílmica, retoma eventos do volume I e os resolve de modo surpreendente. Mais ainda: o volume II, por projeto uma continuação, traz a temática da continuidade – e seus limites – no próprio enredo. Assim, se o filme não se perde na banalização da violência, tampouco se perde na redenção das personagens: a arma não disparar uma vez (desejo inconsciente?) não significa que ela não possa disparar depois.

De um lado da escuta – e do outro.

Leia mais textos de Renato Tardivo para o Blog da Ateliê

Coluna Resenhas - Renato Tardivo

Renato Tardivo é mestre e doutorando em Psicologia Social da Arte pela USP e escritor. Atua na interface entre a estética, a fenomenologia e a psicanálise. É professor universitário e escreveu os livros de contos Do Avesso (Com-Arte) e Silente (7 Letras), e o ensaio Porvir que Vem Antes de Tudo – Literatura e Cinema em Lavoura Arcaica (Ateliê).

 

As faces do amor na obra de Paulinho da Viola

Antonio Carlos Quinto | Portal Top Vitrine | 14 de março de 2014

Paulinho da Viola

Músico traz em sua lírica a melancolia como representação do amor

Inspirada em parte da obra do cantor e compositor Paulinho da Viola, a cantora e filósofa Eliete Eça Negreiros empreendeu um estudo na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP: Paulinho da Viola e o elogio do amor (que será editado e lançado como livro pela Ateliê Editorial).

Na tese de doutorado defendida no final de 2012, ela analisa composições de Paulinho, ou por ele interpretadas, traçando paralelos com autores e pensadores da filosofia e da literatura, contemporâneos e antigos, como Epicuro — filósofo da Grécia Antiga —, Olgária Matos, filósofa e orientadora do estudo, José Miguel Wisnik, docente do Departamento de Letras da FFLCH, Platão e Walter Benjamin, entre outros.

Mesmo tendo o compositor como tema central do estudo, outros nomes da canção popular também são lembrados. Entre eles, Nelson Cavaquinho, Cartola e Dorival Caymmi.

“Há um diálogo entre as artes e a Filosofia”, avalia Eliete. “Assim como o filósofo cria um discurso, o cancionista cria a canção. Sua expressão artística então é também um modo de pensar o mundo, uma filosofia”, analisa.

Ao traçar tais paralelos, ela observa então como o amor é representado nestas canções. Para tanto, fez um recorte dividindo o sentimento em: amor breve; amor melancólico; amor feliz. “Optei por fazer um ensaio abordando estes recortes e a relação deles nas canções de Paulinho com nomes consagrados da filosofia”, descreve.

Os amores

Eliete mostra que a concepção de amor nas composições de Paulinho, ou nas canções que ele canta, quando representado como “o amor breve”, filia-se à tradição do pensamento ocidental que desde os gregos reflete sobre a fragilidade da condição humana e a brevidade da vida. Como num trecho da música “Aquela Felicidade”: Aquela felicidade que você conheceu/ Um dia, na minha vida, já terminou…

O compositor carioca traz em sua lírica a melancolia. “Ela é um dos modos da representação do amor em suas canções”, observa a pesquisadora. É neste espaço que a filósofa descreve o amor melancólico em seu trabalho. E mais uma vez cita o compositor, na música “Nada de novo”: Nada de novo capaz de despertar minha alegria.

Para Eliete, a compreensão desse amor melancólico deve levar em conta, a partir das análises de Freud sobre o luto e a melancolia, a maneira pela qual ele e o amor se entrelaçam em sua obra e, em particular, a dificuldade do melancólico em esquecer o passado.

Já em relação à felicidade, ao “amor feliz”, Eliete descreve que há várias concepções de felicidade na obra de Paulinho. “Desde a noção epicurista de felicidade enquanto busca do prazer, até a noção estoica de felicidade enquanto resistência ao sofrimento”.

Ao todo, foram dedicados cerca de quatro anos para a conclusão do estudo que, ainda este ano, será publicado em livro. Aliás, o mesmo caminho de sua dissertação de mestrado. Em março de 2011, a cantora lançou em São Paulo Ensaiando a canção: Paulinho da Viola e outros escritos, fruto da pesquisa Ensaiando a Canção: Paulinho da Viola, apresentada na mesma FFLCH em 2002.

Eliete Negreiros canta profissionalmente há 32 anos, tendo gravado seu primeiro disco, “Outros Sons”, em 1982. Somente dez anos mais tarde viria a gravar uma música de Paulinho da Viola, Para ver as Meninas, no disco “Canção Brasileira – A Nossa Bela Alma”. “Cresci ouvindo Paulinho, Wilson Batista, Gal Costa, Bethânia e tantos outros. Posso dizer que as canções do Paulinho da Viola me acompanham por toda vida.”

Conheça o livro Ensaiando a Canção – Paulinho da Viola e Outros Escritos, de Eliete Eça Negreiros

A Transmissão da Palavra ao Imaginário Infantil

Renato Tardivo

Contos da Nova Cartilha – Segundo Livro de Leitura – Vol. 1Liev Tolstói (1828-1910), escritor russo, é o célebre autor de Guerra e Paz e Ana Karenina, obras que se tornaram marcos da literatura mundial. Também difundidos são os textos de inclinação anarquista que fazem do autor uma referência importante em estudos sobre política. No entanto, nem tão conhecidos do grande público – embora lidos  por milhões de crianças pelo mundo – são os escritos de Tolstói dirigidos às crianças. O escritor manteve uma escola, em sua propriedade próxima a Moscou, onde lecionava a camponeses pautado pelo princípio da liberdade.

Em Contos da Nova Cartilha­ – segundo livro de leitura (vol. 1), reúnem-se fábulas, contos, raciocínios e histórias verdadeiras escritos por Tolstói que facultam ao leitor a experiência da liberdade para criar, imaginar, pensar. Assim, não se trata de narrativas com uma simples “moral da história”; em outra direção, os textos convidam a pensar sobre seus dilemas, despertando o interesse pelo conhecimento. Com efeito, interessantes e inteligentes, as narrativas não se destinam apenas ao público infantil, mas a todo leitor que se dispuser a ampliar a gama de significações acerca de si, dos outros, do mundo.

Parece atravessar os textos a tese de que aprender é criar e, por extensão, de que não há pensamento ou filosofia que se justifiquem senão aqueles que se questionem continuamente. É emblemático, nesse sentido, o texto “O Tato e a Visão”, em que, no primeiro momento, o autor evidencia a tese de que “os dedos enganam, mas os olhos corrigem”, e, em seguida, desconstrói a verdade absoluta que se poderia encerrar na tese anterior explicitando que também “os olhos enganam, mas os dedos corrigem”. Essa confusão, no limite insuperável, se coloca sempre que há abertura à alteridade, na medida em que não há conhecimento a respeito do outro que o encerre.

Trocas mercantis, relações do homem do campo entre si e com a natureza, a luta pela sobrevivência, variadas são as temáticas das narrativas, que na presente edição são acrescidas de belíssimos desenhos produzidos a partir dos textos por crianças russas dos dias de hoje. Note-se, entretanto, que não se trata de ilustração no sentido de dar aos textos sua justa medida, uma vez que a justa medida das coisas – e da palavra – nunca se atinge, mas é a própria transmissão dos textos ao imaginário infantil que ganha forma também na comunicação que se estabelece no nível das diferentes linguagens – palavra e imagem –, deixando para sempre em aberto (o que provavelmente agradaria Tolstói) a questão: onde mora o saber, no professor ou no aluno?

Acesse o livro no site da Ateliê

Coluna Resenhas - Renato Tardivo

Renato Tardivo é mestre e doutorando em Psicologia Social da Arte pela USP e escritor. Atua na interface entre a estética, a fenomenologia e a psicanálise. É professor universitário e escreveu os livros de contos Do Avesso (Com-Arte) e Silente (7 Letras), e o ensaio Porvir que Vem Antes de Tudo – Literatura e Cinema em Lavoura Arcaica (Ateliê).

Um rolê com Paulo Bomfim

Percursos da memória na cidade do poeta

Jorge Caldeira | Folha de S. Paulo | 19 de janeiro de 2014

Insólita Metrópole: São Paulo nas Crônicas de Paulo BomfimPAULO BOMFIM não apenas vive fisicamente em São Paulo há 87 anos. A cidade para ele tem história, de modo que muitos lugares não lhe aparecem como paisagens prosaicas do tempo que vive, mas como testemunhos ancestrais. O parque da Luz é o lugar da ermida que Domingos Luís, o Carvoeiro, construiu no século 16; a praça do Patriarca, o ponto de refúgio do Mirinhão, um ancestral seu do século 18; a rua Espírita, no Cambuci, o quilombo espiritual do negro Batuíra, no século 19.

Outros pontos da cidade ganham colorido porque evocam memórias pessoais, testemunham encontros que os tornaram especiais. A praça Marechal Deodoro atravessada pelo Minhocão tem outros ares quando descrita como ponto de encontro com o cantor Nelson Gonçalves, seu irmão Quincas e o palhaço Piolim.

A praça da República aparece com garapa, sorvete, normalistas e o guarda Antônio, protetor dos boêmios. Até o velório de Mário de Andrade muda, quando nele se mistura o desnudamento da tradutora Leonor Aguiar.

A cidade é também o centro de sua escrita, tema constante de seus 26 livros de poesia (e mais meia dúzia de antologias, no Brasil e na Espanha) ou prosa – seu livro mais recente, Insólita Metrópole, lançado em 2013, é uma antologia de crônicas sobre São Paulo, organizada por Ana Luiza Martins (Ateliê Editorial). Assim, outros aspectos da cidade são descritos por suas características metafísicas.

Com tudo isso, a São Paulo de Paulo Bomfim é tecida por casos que, contados na sequência de sua prosa viva, dão uma dimensão bem diferente daquela da metrópole que quase se esquece da alma encantadora de suas ruas.

Assista a cena (13/17) de Amor à Vida em que Natasha presenteia Thales com o livro Insólita Metrópole 

Acesse o livro no site da Ateliê

A seguir, o registro de um desses passeios, na voz do escritor.

A FUNDAÇÃO MÍSTICA

“O corpo de São Paulo foi formado pela carne e o sangue de João Ramalho e Tibiriçá. A cabeça veio de Manoel da Nóbrega. Mas a alma de São Paulo veio de José de Anchieta. Já o governo veio de Santo André, a vila dos parentes de João Ramalho.”

 

CEMITÉRIO DA CONSOLAÇÃO

MARQUESA DE SANTOS

“Toda vez que vou ao cemitério da Consolação visitar o túmulo de meus ancestrais, deixo uma rosa no túmulo da marquesa de Santos, que fica ao lado. Uma vez, quando estava depositando a flor, havia uma preta velha ajoelhada, rezando. Ela virou-se para mim e perguntou: ‘O senhor também é devoto da marquesa?’. Eu digo: ‘Sou’. E ela: ‘Comigo fez milagre. Pedi à marquesa para interceder junto ao professor Bardi. Consegui fazer uma exposição no Masp e estou aqui pagando a promessa’.”

 

PÇA. MARECHAL DEODORO

PIOLIM E QUINCAS

“Havia ali o bilhar do Quincas, irmão do Nelson Gonçalves. Joguei com ele muitas vezes, porque o lugar era um ponto de encontro de boêmios. Mas também ia até a Marechal Deodoro para conversar com o Piolim, palhaço que foi muito meu amigo a vida inteira e que então montava seu circo em plena praça.”

 

PÇA. DA REPÚBLICA

GUARDA ANTÔNIO

“Passei minha infância brincando lá, minha adolescência tomando sorvete na Japonesa ou garapa no Nosso Engenho, enquanto esperava a saída das alunas da Caetano de Campos. E havia um português muito bom, o Antônio, que era guarda do jardim. De noite ele cobria os mendigos com jornal, protegia os boêmios que ficavam dormindo nos bancos para curar a bebedeira.”

 

PARQUE DA LUZ

(HISTÓRICO DOMINGOS CARVOEIRO)

“Era a ermida de Domingos Luís, o Carvoeiro, uma figura mítica da história de São Paulo. Séculos depois o frei Galvão construiu o convento lindo que está ali até hoje.”

 

PARQUE DA LUZ

(PRÁTICO)

LUIS HUMBERTO GELFI

“Ele era de Bergamo, foi parar no Cairo, teve algum problema com uma mulher, teve de fugir. Veio sem dinheiro no navio, dando aula de dança para os passageiros. Desembarcou em São Paulo sem um centavo, na Estação da Luz. Atravessou para o jardim, olhou dali a torre da estação. Voltou, foi procurar o diretor, ofereceu-se para limpar o relógio. Foi o primeiro dinheiro que ganhou na cidade. Como sabia guiar, acabou ensinando os filhos de dona Veridiana Prado a dirigir automóveis – e acabou casando com uma amiga francesa dela, a Luíza. Ambos viriam a ser meus sogros.”

 

AV. IPIRANGA

ARACY DE ALMEIDA

“Eu era recém-casado. Um dia toca a campainha do apartamento. Era a Aracy de Almeida, dizendo: ‘Paulo, eu estou com muita angústia, não queria ficar no hotel. Posso ficar em sua casa dois ou três dias?’. Peço para a Emy [Emma Gelfi Bomfim] tirar as crianças do quarto, ela se instalou. Foi ficando. Voltava das boates de madrugada, fazia interurbanos intermináveis para a boate Vogue, no Rio de Janeiro, conversava com o Vinicius de Moraes, o Antonio Maria, até o amanhecer. Eu estava começando na vida e tinha de pagar contas de telefone astronômicas. Quase três meses depois, trouxe uma arara que ganhou de presente da boate Jangada. Quando tentei falar alguma coisa, ela cortou: ‘Eu respondo pela arara’. Levou o bicho para o quarto, ele comeu meus móveis, não aguentei e expulsei a ave. E ela: ‘Em solidariedade à arara, também me retiro’. Mas ela foi a mulher que melhor conhecia a Bíblia que vi em toda a minha vida – e também a que sabia mais palavrões.”

 

AV. SÃO LUÍS

MANUEL BANDEIRA

“Minha mulher Emy e eu ficamos sócios de uma galeria de arte que ficava no prédio Zarvos, onde antes era a casa do barão de Souza Queiroz, na Av. São Luís, bem em frente à biblioteca. Um dia, no lançamento de um livro do Manuel Bandeira, fizemos cartazes com os poemas. Chega o Lima Barreto, o cineasta que fez O Cangaceiro. Ele entra, olha os cartazes e vai direto para a mesa de autógrafos falando: “Bandeira, naquele poema tem um erro de português”. Ele largou o copo de uísque, nem precisou arregaçar os punhos, porque costumava cortá-los quando ficavam puídos. Levantou e gritou: ‘Erro de português é você, seu fotógrafo lambe-lambe. Ponha-se daqui para fora’. E expulsou o desafeto.”

Filme de Formação

Renato Tardivo

Azul É A Cor Mais Quente (La Vie d’Adele – Chapitre 1 et 2, 2013), filme dirigido por Abdellatif Kechiche (diretor do excelente O Segredo do Grão, 2007), vem repercutindo por ter levado a Palma de Ouro de melhor filme em Cannes e também o prêmio da crítica, mas também pelas cenas de sexo entre duas jovens.

Azul é a Cor Mais Quente, resenha de Renato Tardivo

A trama é baseada em uma história em quadrinhos para adultos, cujo título é justamente Le Bleu Est une Couleur Chaude, escrita e desenhada pela francesa Julie Maroh. Em ambos, uma jovem de 15 anos (Clémentine na HQ; Àdele, que significa “justiça”, no filme) cruza na rua com Emma, uma universitária com cabelos azuis. Àdele, dona de uma beleza enigmática, desperta a atração dos garotos, mas não se interessa por eles e delicadamente vai descobrindo o seu desejo por mulheres. A imagem de Emma entre os transeuntes e sua constante evocação por parte de Àdele (que tem um sonho erótico com a desconhecida) passa a ser emblema desse desejo.

O título original – A Vida de Àdele – é uma referência ao livro La Vie de Marianne, de Pierre de Marivaux, que Àdele lê no começo do filme. Ao longo das quase 3 horas de projeção, Àdele – dos 15 aos 20 e poucos anos – está em cena. Certamente, o período central – e decisivo – desta trajetória é o romance que vive com Emma, aquela que encontrara na rua e que, um pouco depois, reencontra em uma boate gay.

Como nos demais filmes de Abdellatif Kechiche, há aqui uma série de referências da cultura francesa e de suas ex-colônias, que conferem um caráter documental e político à ficção. Há sequências – como as de Àdele já professora de educação infantil – que lembram documentários. Mas isso não contamina a ficção, pelo contrário, reforça a tridimensionalidade das personagens e suas diferentes bagagens culturais, relações familiares, ambições etc.

É nessa medida que a câmera invade a privacidade de Àdele – em todos os âmbitos e não só, mas também, no sexual. Não há, portanto, apelação ou algo que o valha. Não se trata de um filme sobre sexo; trata-se de um filme de formação – sensível, plástico, enigmático. As quase três horas – que equivalem a alguns anos –  passadas em contato com Àdele não são suficientes para que deixemos o cinema convencidos de que a conhecemos. Desconcerto que provavelmente a própria personagem viva.

O azul, de início no cabelo de Emma, estende-se para diversos detalhes do filme – em tomadas internas e externas –, ou seja, para o mundo de Àdele. Que se deixa contaminar, corre riscos, empresta os seus próprios riscos para as telas de Emma, com quem pôde viver algo fundante que nunca tivera. A menina termina mulher. As três horas passam voando. Como a vida. A Vida de Àdele.

Coluna Resenhas - Renato Tardivo

Renato Tardivo é mestre e doutorando em Psicologia Social da Arte pela USP e escritor. Atua na interface entre a estética, a fenomenologia e a psicanálise. É professor universitário e escreveu os livros de contos Do Avesso (Com-Arte) e Silente (7 Letras), e o ensaio Porvir que Vem Antes de Tudo – Literatura e Cinema em Lavoura Arcaica (Ateliê).