Katherine Funke

Para loucos por livros, um livro sobre livros

A Casa dos Seis Tostões é uma história bem contada, recheada de informações reais sobre livros, para o deleite de editores, escritores e demais profissionais do mercado editorial, amantes da arte do livro e da leitura. Lançamento da Ateliê Editorial, vai ser a próxima leitura da fotógrafa Lucia Mindlin Loeb, que trabalha com arte em livros e concedeu entrevista exclusiva para o blog 

 

Por Katherine Funke*

Se você está lendo este blog, possui certo grau de loucura por livros, digo, loucura suficiente para desejar e, quem sabe, comprar mais livros do que pode ler ou guardar. Ou, mais loucura ainda: paixão, e o bastante para transformar o livro em seu trabalho, em uma livraria, sebo ou biblioteca. Mais um passo, e aí já está escrevendo, revisando ou editando livros. E, como a fotógrafa e artista visual Lucia Mindlin Loeb, deixando o livro “atravessar” sua trajetória e vice-versa – a ponto de criar e editar livros aparentemente impossíveis ou incoerentes, com a mesma fotografia impressa em todas as páginas ou serrado em duas partes (veja a entrevista com a artista)

Isto ainda não é loucura suficiente? Então junte toda uma vida relacionada ao livro, case com alguém que também está escrevendo um livro, tenha um filho e, enquanto está corrigindo as provas do seu primeiro livro a ser publicado, e seu bebê ainda precisa ser amamentado, venda sua bela casa nas colinas da Califórnia e se mude para uma pequena cidade no interior do País de Gales, com mil e quinhentos habitantes e quarenta livrarias.

Casa dos seis tostoesEsta é a história de A Casa dos Seis Tostões – Perdido numa Cidade de Livros, lançamento da Ateliê Editorial. Um livro que remete a muitos, muitos outros livros, desde a capa, em que dimensões diferentes de tipografia convivem na página, enquadrados de modo a dar ideia de que aí estão três títulos em um só. Solução genial de design: afinal,não existe livro solitário. Pelo menos desde Mallarmé e seus textos sobre o livro como instrumento espiritual, sabemos que os livros se comunicam, se exigem, demandam interações infinitas, entre diferentes épocas, edições, editorações e escritas.

Esta saborosa obra de Paul Collins, traduzida do inglês americano por Marcello Rollemberg e Ana Maria Fiorini, deleita ao mesmo tempo bibliófilos, amantes da cultura do livro, assim como quem procura uma leitura leve, dotada da fluidez de um narrador “encarregado de ver divinamente”, diria Mallarmé no ensaio citado, capaz de contar “das relações entre tudo.”

É por isso que um público tão abrangente pode se deliciar com A Casa dos Seis Tostões: Collins consegue relacionar as marcantes diferenças entre britânicos e americanos com o jeito como é recebido por colegas de trabalho, por exemplo. Entrelaça sua vida pessoal mais visível – é uma história autobiográfica –, isto é, os cuidados com o bebê, com aquilo que profissionalmente oferece de mais mágico – uma pesquisa vasta, dinâmica, sobre diferentes etapas da literatura e da cultura do livro. É a vida em todas as suas circunstâncias, dentro e fora do livro.

Em Hay-on-Wye, Collins tem muitas oportunidades para entrar no assunto do livro,  desde descrever as aventuras do inusitado trabalho temporário como “especialista em literatura americana” em uma anárquica loja gigante de livros usados até o processo de edição de um novo título, sofrido por ninguém menos que o próprio autor.

Pesquisas

O ruim de um livro tão bom é que ele, de um modo ou outro, acaba. Mas, também, não acaba: a diversão posterior é pesquisar, por conta própria, as centenas de dados apresentados sobre autores raros ou conhecidos, fatos peculiares e edições marcantes da história do livro. A uma pessoa ansiosa por informação de qualidade, como eu e Collins, difícil, na verdade, é parar de pesquisar coisas como: desde quando os livros têm sobrecapas? Quando o livro passou a ser produto popular? Existiu mesmo o título I was Hitler’s Maid?

Outra pausa útil, provocada pelo autor durante a leitura, pode ser dada para que se pense em temas metafísicos como o da duração de um livro, não só como objeto físico (delicado, especialmente quando antigo), mas também do que foi lido: o modo como ecoa ou interage com o que surge décadas, ou séculos depois.

Outro tema, mais misterioso ainda, é como, apesar de serem tantos fatores em torno do sucesso de um livro, não há fórmula que possa antever o que vai se tornar um bestseller e o que, por outro lado, será colocado na pilha do saldão. Collins conta casos de fracasso e sucesso com facilidade, dando a entender que pesquisa o tema há tanto tempo quanto se entende como leitor.

Aliás, para que escrever um livro sobre livros se já existem tantos outros livros sobre livros? “Para quê? É preciso arriscar: é preciso escrever sobre o livro por uma libertação”, responderia o filósofo francês Jean-Luc Nancy, em um texto chamado “As Razões de Escrever” (em: Demanda – Literatura e Filosofia, Edufsc, 2016).

Libertar-se de quê? Bem, talvez de um modelo ou de uma expectativa. Sabe-se lá. Cada caso, um caso. Neste, Paul Collins encontra um modo totalmente original de contar um pedaço da sua vida em que esteve, mais do que nunca, mergulhado em livros.

Tarefa infinita

Hay On Wye

Hay On Wye

Collins encontrou uma atmosfera envolvente e dinâmica na Booth’s, um sebo gigante com várias sedes espalhadas pela cidade. Ali, contratado como especialista em literatura americana, ele trabalhou durante alguns meses, até dar por terminada a tarefa de organizar uma seção em um dos prédios.

Mas o problema (e a maravilha) de trabalhar na Booth’s parece ser o fato de que há livros demais para serem organizados, e diferentes modos de sistematização e hierarquização de acervo convivendo década após década nos vários imóveis pelos quais se espalha a livraria. Collins compara o modelo de negócios da Booth’s com o de concorrentes da cidade; ao mesmo tempo, também dá um ar muito humano, contraditório e engraçado para o antigo patrão e colegas de trabalho, revelando que, além de prestar atenção em livros, lia também as pessoas ao seu redor.

Ao final do seu contrato na Booth’s, e com seu próprio livro já na etapa da revisão final (que volta dos Estados Unidos pelo correio com dezenas de bilhetes cheios de dúvidas colados no manuscrito), Collins também decide voltar para casa.

O problema é que já não era tão estrangeiro assim em Hay-on-Wye, e já não tinha um lar para chamar de seu nos Estados Unidos: dilema existencial que, poderíamos dizer, foi antecipado por outro livro, O Estrangeiro, de Albert Camus – mas isto é outra história… O que importa é que Collins não parece se preocupar demais com o que vem depois. Ao contrário, cada uma das páginas desse seu delicioso livro de memórias, especialmente as páginas finais, condensam todo aquele tipo de “informação inútil” pelo qual nós, bibliófilos, escritores, jornalistas, editores, somos absolutamente apaixonados.

E, se não adianto nesta resenha mais nenhum desses detalhes, é porque consideraria um spoiler mais grave do que contar que, enfim, a família de Collins não fixa moradia em Hay-on-Wye.

* Escritora, jornalista e mestranda em Literatura pela UFSC. 

 

Entrevista com Lucia Mindlin Loeb

Por: Katherine Funke*

Ao saber do enredo de A Casa dos Seis Tostões, a fotógrafa e artista visual Lucia Mindlin Loeb já escala o título como próxima leitura. Seu avô era ninguém menos que o bibliófilo José Mindlin; seu pai é arquiteto e lhe deu a primeira câmera fotográfica. “Fotografava pessoas, animais, casas, livros. Engraçado; fotografava livros. Abertos naquelas páginas de que eu mais gostava, como se não bastassem eles próprios, queria experimentar o fato de registrá-los”, ela conta no Manual de Uso que acompanha Mestrado, livro dividido em 8 volumes de diferentes tamanhos, que repetem a mesma fotografia em todas as páginas.

Nesta entrevista exclusiva para o blog da Ateliê, a artista conta detalhes de sua trajetória, desde o início até os principais desafios em mostras individuais e coletivas, revelando, por exemplo, que tem por livro de referência A Book of Books, de Abelardo Morell, editado em Nova York, em 2002.

Lucia Mindlin Loeb, fotografada pela filha Flora

Lucia Mindlin Loeb, fotografada pela filha Flora

Lucia, seu portfolio vem com o título “O Livro Através”. Ou seja: já deixa claro que a história da sua vida, sua trajetória, seu trabalho, é atravessada pelo “livro”. Pode nos contar um pouco de como isso tudo começou – e quando percebeu que seria sempre assim?

Lucia Mindlin Loeb – Esse título foi inspirado no título de uma exposição de livros, que foi no Metropolitan/NY, organizada por Adrian Wilson em setembro de 1985; The Book Thought Through. O catálogo é um livro fininho de capa vermelha com poucas imagens. Diz na introdução que os livros escolhidos expressam inesperada combinação de materiais e métodos. Não dá para saber direito como foi, nem sei se consegui entender a tradução do título direito, mas eu gosto da ideia de atravessar o livro de alguma maneira. Com um furo, com um pensamento, com uma serra, com um monte de livro pensando sobre o livro.

Pode se dizer que sim, que a minha vida sempre foi cercada por livros. Meu avô começou a formar uma biblioteca ainda menino, e não parou mais. Minha avó tinha uma oficina de restauro e encadernação em casa. Minha mãe se formou em arquitetura, mas sempre trabalhou como artista gráfica de livros. Eram coisas que eu gostava, e gostava de ver eles fazendo. Falo um pouco sobre isso no meu mestrado.

Das suas artes em torno do tema livro, qual foi a que trouxe mais prazer em realizar? Por quê?

LML: Não sei uma específica. Talvez a primeira vez que fiz um trabalho que tem furos e deslocamentos de impressão. Eu deixei na gráfica para furar, e tive que esperar não lembro quantos dias pra ver o resultado, pra ver se tinha dado certo. Abri ali mesmo e foi bem emocionante.

Imagem da obra "Abismo"

Imagem da obra “Abismo”

Você mesma serrou seu livro Abismo?

LML: Eu adoro colocar a mão na realização do projeto. Em todas as etapas que envolvem a produção. Muitas vezes levo para algum outro profissional fazer uma parte, ou mais de uma. Mas tenho uma oficina que me permite fazer bastante coisa (já consigo fazer os furos que tinha que levar pra fazer na gráfica, por exemplo), o que me dá mais agilidade para experimentar.

Não fui eu que serrei o Abismo. Depois de costurado ele ficou quase um cubo de 18 x 18 x 18 cm. Foi bem difícil encontrar alguém que tivesse essa serra e topasse fazer esse corte. A caixa de madeira serviu para prensar as páginas na hora do corte e também como gabarito para cortar uma série de 7 exemplares. Parecia muito simples; prensar e serrar. Mas o volume de folhas e a fibra do papel deixaram o livro mais duro que madeira. Cada exemplar ficou de um jeito, mais ou menos reto, mais ou menos queimado, alguns eu lixei depois, outros não. Mesmo ele tendo sido impresso em offset, teve um acabamento bem manual. Acabei gostando dessas variações.

Algumas de suas ideias parecem nascer em momentos de profunda abstração, ou meditação, em torno do sentido de existência do livro como objeto, como em Devaneio. É isso mesmo? Explique um pouco mais de como tem feito do livro um tema que marca sua assinatura de artista.

LML: As ideias aparecem em momentos variados. As vezes vêm de alguma palavra, de alguma coisa que eu li ou vi, de algum outro trabalho que eu esteja fazendo, de alguma coisa que eu esteja estudando. E quanto mais estiver produzindo, mais ideias vão surgindo. Às vezes de reflexões; e às vezes de ações. Devaneio foi assim: um devaneio sobre um caminhar de páginas, sobre um passeio qualquer (um tanto carioca), organizado em uma sequência, com um corpo. Que desperta uma ilusão de ótica, um devaneio do olhar.

Que referências e influências atuam no seu trabalho?

LML: Muitas referências influenciaram e influenciam meu trabalho, o tempo todo. Muitos fotógrafos, artistas e gráficos. Cinema e literatura. Tudo pode ser alimento. Mas tem um livro que me deixou maluca quando eu vi: A Book of Books, Abelardo Morell. São fotografias em preto e branco, muito bonitas, de livros, lombadas, detalhes da página, do corte do papel, da textura, do volume, e da forma. Aquilo me chamou atenção para a escultura que um livro, ou vários livros juntos, podem ser.

Detalhe da obra "Matriz"

Detalhe da obra “Matriz”

Como surgiu a ideia de Matriz, em que as mesmas fotos (uma para as páginas pares, outra para as ímpares) são repetidas do início ao fim, esvaecendo-se aos poucos?

LML: Matriz é um livro que vai revelando duas imagens, uma sempre na página da direita, outra sempre na da esquerda, que são meus avós fotografando. Nas primeiras páginas não se vê nada, mas aos poucos, com o folhear, as duas imagens vão surgindo, como a imagem latente em um papel fotográfico vai surgindo na bacia do revelador. Ele é um livro sobre isso. Sobre revelação, fotografia, matriz, imagem, memória e herança.

Vendo o panorama de suas realizações, há instalações mais conceituais e de efeito efêmero, como Memória Fotográfica, em que o livro é uma câmara escura capaz de captar as imagens efêmeras dos transeuntes, e objetos em que uma imagem se repete igual, página após página, e se torna tão sólida no livro que faz peso, faz volume, como em Maré e Tronco. Ambos os casos, livro e fotografia são temas em pauta. Além disso, o que essas fases aparentemente tão distintas têm em comum, como base conceitual?

LML: Elas têm em comum uma linguagem circular entre a forma, o assunto e o objeto. Uma troca de ideias, sentidos e materiais, que falam de si próprios. Uma metalinguagem.

Por que alguns de seus livros-objeto ou instalações não têm exatamente “capa”, no sentido mais habitual em um livro?

LML: Alguns dos meus livros não têm capa porque a capa não faz falta neles, porque quero que a costura apareça, ou porque a capa poderia atrapalhar o movimento das páginas.

Qual sua livraria favorita (de qualquer lugar do mundo) e por quê?

LML: Adoro livraria. Grande, pequena, de um assunto, de vários. Gosto da Livraria Cultura, da Livraria da Vila, da livraria da EDUSP, da Martins Fontes, de uma pequena que tem perto da minha casa, da banca do Tijuana, da Banca Tatuí, de todas essas feiras alternativas de livros, como a própria Tijuana, feira plana etc… Estive em Nova York na livraria da Printed Matter. Passei mais de três horas lá, tem muita coisa boa de publicações de artistas, livros experimentais, livros conceituais, livros objetos, livros sobre livros, flip books, revistas e etc. Muito legal!

Frequenta alguma biblioteca pública ou de acesso público, atualmente? Qual e o que indica nela para outros artistas ou amantes das artes do livro?

LML:  Em Belo Horizonte tem a coleção de livros de Artista da UFMG. Organizada pelo Amir Brito Cadôr, ocupa duas salas do prédio da biblioteca central do campus, tem muita coisa bacana e está bem organizada. Também gosto da biblioteca da ECA/ USP, tem muitos livros sobre arte, livros sobre livros, livros obra, livros de artista, dissertações. Assim como a biblioteca do MAC/USP, no Ibirapuera. Também gosto de navegar na internet, tem muita coisa boa. O www.bacanasbooks.blogspot.com.br do Fabio Morais, por exemplo, ou a própria pesquisa no google usando palavras chaves.

Na internet, como fotos de perfil ou retratos de divulgação, você divulga uma foto interessante, feita pela sua filha, de você equilibrando um livro na cabeça…  Como surgiu esta imagem, tão cheia de simbolismo? Foi pensada ou obra do acaso?

LML: Aquela foto (que abre esta entrevista) foi feita para algum evento que participei sobre livros de fotografia, e precisava de uma foto. Pedi pra Flora, minha filha, me fotografar com o Lines of May Hand, do Robert Frank, na minha cabeça, que é um livro que eu adoro. Não é uma coletânea de fotografias, é um livro com pensamento de livro. Na estrutura, na narrativa, na sequência, no ritmo.

Como mãe, gosta de ler para sua filha? (Qual a idade dela e que tipo de livro estão lendo agora?)

LML: Sempre gostei de ler para minha filha, mas agora ela tem quase 15 anos, já tem suas próprias leituras. No ano passado ela leu para a escola O Apanhador no Campo de Centeio. Me deu vontade de ler de novo, li e adorei. Quando ela era pequena alguns dos bestsellers eram: O Sapo Bocarrão, Chapeuzinho Amarelo, Carlota quer Ser Princesa, Um Garoto Chamado Rorbeto, De Passagem do Marcelo Cipis, que não tem texto, mas era ótimo pra gente inventar histórias, entre outros. É verdade que ainda hoje leio um pouquinho pra ela, algum conto, ou outra coisa qualquer.

E você, pessoalmente, gosta de ler o que, quando apenas deseja curtir o hábito de leitura?

LML: Gosto de ler. Acho que a leitura é além de uma fonte de prazer, uma espécie de meditação. Acabei de ler Zazie no Metrô do Raymond Queneau, antes estava lendo Murakami, e agora vou ler A Casa dos Seis Tostões, aproveitando a dica que veio com essa entrevista.

Conheça mais sobre a obra de Lucia Mindlin Loeb:

https://vimeo.com/138408266

https://vimeo.com/138407629

https://vimeo.com/135132379

https://vimeo.com/111785486

https://vimeo.com/103371437

https://www.youtube.com/playlist?list=FL-1152QN7mEhfp1B2wfONPA

*Escritora, jornalista e mestranda em Literatura pela UFSC.

Sementes de sentido em Girassol voltado para a terra podem germinar em aulas de interpretação de texto

Katherine Funke*

 

Em Girassol voltado para a terra (Ateliê Editorial, 2016), o escritor e psicanalista Renato Tardivo (SP) nos presenteia com sementes para histórias nunca ditas ou escritas por inteiro, mas certamente, por isso mesmo, íntegras: vividas ou vislumbradas de modo singular a cada leitura.

A alta concentração de sentido em um mínimo espaço escrito expande o poder da ficção à máxima potência. Quando bem feito, o microconto “explode” dentro do olho/corpo/mente do leitor. Já o primeiro texto do volume deixa essa provocação:

 

Volta

Há dias que, de tão reais, dão a volta toda. Viram ficção.

Um cronista teria uma história real para justificar a ideia central de “Volta”. Um contista convencional inventaria outra, talvez até mesmo duas, paralelas, mas não chegaria a conclusão alguma, deixando algumas pistas para esta verdade oculta. Já um romancista escreveria 300 páginas e este seria o slogan do livro…

Girassol voltado para terra 1

Ilustração de Anna Anjos

Tardivo, econômico e direto, opta por ocultar qualquer enredo superficial, qualquer enredo exemplar que dê uma forma fechada à história. Em vez disso, deixa vir à tona apenas a “verdade”, aquilo que é essencial e inegável, mas quase sempre fica oculto no cotidiano do próprio uso da linguagem. O “resto”, no caso, a história não contada, o que o levou a chegar a este aforisma conclusivo, é com o leitor.

Dessa forma, Girassol surge como esfinge que pede para ser decifrada ou poderá nos devorar. A epígrafe escolhida abre caminhos para o entendimento desta proposta do livro. É de Maurice Merleau-Ponty: “Toda tentativa de elucidação traz-nos de volta aos dilemas”.

Embora traga contos curtíssimos, aforismas e sementes de sabedoria, o livro não nasceu rápido. Foram anos de maturação de cada palavra. Enquanto o escrevia, Renato lançou outros livros, continuou trabalhando, vivendo, elucidando e voltando aos dilemas, a cada dia.

A falta de pressa fez bem ao contista. Sementes de girassol precisam mesmo de tempo para, quando forem plantadas, eclodirem com toda força: de poesia.

 

Sala de aula

Quem pretende trabalhar com este livro em sala de aula recebeu um presente e tanto. Para quem quer propor exercícios de interpretação de texto, cada página do livro é uma possibilidade. Vejamos, por exemplo, a página 35 de Girassol voltado para a terra:

 

“Ponto final

 

Ela é exclamação; ele, interrogação.”

 

O que aconteceu? Alguém terminou um relacionamento? Mas quem? Como? Em um tempo em que a síntese está cada vez mais presente na vida cotidiana, instigar a interpretação de texto pede atenção plena do aluno e uso do pensamento lógico, além da sensibilidade poética. Estimula a expressão e a desinibição. Afinal, falar/escrever pouco, comunicar-se o tempo todo em códigos, pode levar a muitos malentendidos. Principalmente, o entendimento de si mesmo, que é a base da felicidade; depois, o entendimento do outro e do mundo, compreensão que é a base da comunicação e, portanto, de bons relacionamentos.

Para quem quer propor criação de texto, Girassol também surge como ponto de partida. De cada microconto, pode nascer um conto único, original, singular para cada leitor. Este é um exercício possível a partir do livro: os textos de Tardivo (com os devidos créditos, claro) podem ser levados para dentro de novos textos, tornando-se trechos de outras histórias.

Ilustração de Anna Anjos

Ilustração de Anna Anjos

Um segundo exercício de criação literária, um pouco mais complicado, é tentar, como Tardivo, chegar à exatidão com poucas palavras. Contudo, um bom microconto não pode desperdiçar tempo nem espaço. “Em um conto bem-feito, as três primeiras linhas têm quase a mesma importância das três últimas”, escreveu o uruguaio Horácio Quiroga no conhecido “Decálogo do perfeito contista”, um conjunto de ideias mais ou menos polêmicas sobre a arte do conto.

Quando tentamos aplicar essa premissa de Quiroga ao microconto, como fica? No micronto, todas as linhas, as primeiras e as últimas, coincidem em importância. Cada palavra, vírgula, pausa, ponto, deve assumir seu lugar exato, para que o contista passe adiante o vislumbre, a epifania ou iluminação profana que o levou a escrever.

Um exercício possível é propor uma ação incompleta e pedir para o aluno finalizar. Por exemplo: “Abriu o livro e leu…”? Cada um poderá completar como quer. Depois, colocar o título. Que pode fazer nascer, por exemplo, uma contradição iluminadora. (Como: “Cartório. Abriu o livro e leu seu atestado de óbito.” Acabo de inventá-lo; para ver como é um exercício fácil e divertido.)

Aprendi essa brincadeira boa com o escritor pernambucano Marcelino Freire,  em uma oficina literária em Curitiba (PR), e gosto de aplicar com os meus alunos. Adoro ver o que se passa a cada recriação da cena. Pode-se ir do poético ao escatológico, do humano ao desumano, do sublime ao diabólico, em menos de um minuto. Em duas ou três palavras diferentes. É o conhecimento do poder a linguagem exposto sem mediação.

Outro bom modo de iniciar-se na escrita de microcontos é escolher títulos abertos e propor aos alunos que escrevem sob este guarda-chuva inicial. Os títulos completam o sentido do que vem a seguir, em uma relação simbiótica que não se vê tão íntegra em todos os gêneros literários. O livro de Renato Tardivo está cheio de bons exemplos nesse sentido.

 

Olhos, foguetes, conchas

O cuidadoso trabalho gráfico da Ateliê Editorial torna o livro um ótimo presente. É um livro-objeto, com páginas cuidadosamente diagramadas e papel bem escolhido para dar vida e destaque aos microcontos.

grassol

Na capa, o desenho de Anna Anjos mira o leitor: convida a abrir o livro e olhar para a terra para onde olha o Girassol, este solo onde linguagem é vida, onde vivemos todos, mas nem todos sabemos dizê-lo com tamanha precisão.

Nas páginas internas, os mesmos olhos abstratos e futuristas parecem ter se transformado em foguetes, onde o leitor pode entrar e partir para as dimensões ocultas nas verdades relevadas. Foguetes, sim, ou conchas, ou outra imagem à sua escolha (depende de quem olha, e quando o faz), isto é, lugares seguros onde se podem dizer certos segredos.

O chão que sustenta Girassol é formado de silêncios e de descobertas, vislumbres e epifanias. Portanto, solo fértil para o leitor atento, que se une ao movimento de Girassol. O escritor Nelson de Oliveira, no prólogo, destaca a interação proporcionada por esse tipo de escrita: o leitor é convidado a preencher a História, as camadas de história não-ditas, mas contidas na sabedoria do microconto.

Girassol Voltado para a Terra, com suas sementes de histórias, seus olhares, foguetes e conchas, nos convida a interagir e pensar. A leitura do livro de Renato Tardivo, se não elucida dilemas, ao menos nos mostra que pode valer a pena tentar. Mesmo que demore anos, que seja preciso antes outros voos, outros silêncios, este movimento de olhar para dentro (para a terra, de onde viemos, para onde vamos) é, talvez, o que nos falta em nossa rotina cada vez mais verborrágica, cheia de palavras mas tão vazia de sentido e plenitude.

 

 

* Escritora, 34 anos, está ministrando o Curso Livre de Contos na Biblioteca de Pirabeiraba (livre2016.tumblr.com ) , em Joinville (SC), em projeto selecionado pela Bolsa de Fomento à Literatura do Ministério da Cultura. Escreveu outra resenha de Girassol voltado para terra em seu blog pessoal, Histórias da Katherine (historiasdakatherine.wordpress.com) .