Clippings

Livro apresenta parte de Tolstoi

Dirce Waltrick do Amarante |  A Gazeta – Cuiabá |  7 de janeiro de 2014

Contos da Nova Cartilha – Segundo Livro de Leitura – Vol. 1Em 1849, Liev Tolstoi (1828-1910), depois de ter residido em Moscou e Kazan e frequentado dois cursos universitários – Línguas Orientais e Direito –, ambos abandonados apesar das boas notas, fundou uma escola na pequena propriedade rural de Iásnaia Poliana, onde havia nascido.

A questão escolar na Rússia foi uma preocupação constante de Tolstoi a ponto de ter afirmado, numa de suas cartas, que poderia morrer em paz se duas gerações de crianças russas aprendessem as primeiras letras nas cartilhas que escrevera, das quais receberiam também as primeiras lições poéticas.

Considerado por Stephan Zweig o “pedagogo do universo”, o escritor russo não só elaborou o projeto de uma publicação pedagógica, chamada Revista da Escola de Iásnaia Poliana, como dedicou ao tema cerca de 629 trabalhos.

Contos da Nova Cartilha – Primeiro Livro de LeituraNo fim de 2013, a Ateliê Editorial lançou Contos da Nova Cartilha: Segundo Livro de Leitura – vol. 1, na tradução de Aurora Bernardini e Belkiss Rabello, com ilustrações contemporâneas feitas por crianças russas. Com esse livro, o leitor brasileiro passara a conhecer parte das ideias pedagógicas de Tolstoi e poderá confrontá-las com Contos da Nova Cartilha: Primeiro Livro de Leitura, obra publicada em 2005 pela mesma editora.

O autor das “Cartilhas” foi também grande leitor de Michel de Montaigne e parece ter incorporado dele algumas ideias sobre educação, principalmente aquelas contidas no ensaio intitulado “Sobre a educação das crianças”, de 1580, no qual o ensaísta francês afirma que o preceptor deve fazer com que tudo passe pelo próprio crivo da criança e que nada “se aloje” na sua cabeça por simples autoridade ou confiança. Esse pensador acreditava que não se devia pedir aos pequenos “contas somente das palavras de sua lição mas do sentido e da substância”. Para Montaigne, o educador devia ora abrir caminho para o seu aluno, ora deixá-lo caminhar por si mesmo.

Pode-se perceber que o russo foi um ferrenho defensor da liberdade no processo educacional, pois acreditava que somente ela é capaz de desenvolver a personalidade do aluno, o seu lado criativo e de fazê-lo tornar-se até mesmo o próprio tutor. Isso se harmoniza com o que diz Montaigne ao tratar justamente da relevância da liberdade de pensamento na educação: “tanto nos submeteram às andadeiras que já não temos os passos soltos: nosso vigor e nossa liberdade se extinguiram”, e, citando Sêneca, conclui: “não estamos sob um rei, que cada um disponha livremente de si mesmo”.

Na opinião de Tolstoi, tão importante quanto conhecer as narrativas históricas, é conhecer as lendas e as narrativas ficcionais, pois são essas que apresentam as “leis fundamentais que regem a vida do povo”. Por isso, suas “Cartilhas” são compostas de histórias maravilhosas, contos, fábulas, as quais visam estimular as crianças e fazê-las refletir e filosofar. Aliás, sem filosofia toda educação é inócua, dizia Montaigne, mestre de Tolstoi.

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Inventos líricos

Daniel Benevides | Brasileiros |  1 de janeiro de 2014

"Gérard de Nerval: Cinquenta Poemas", tradução de Mauro GamaFigura única na literatura mundial, em sua autenticidade, gênio e loucura, Gérard de Nerval (1808-855) deixou um legado de prosa e poesia sombrias, mas de uma beleza estranha e fascinante. Nesta edição caprichada, bilíngue, de 50 de seus poemas, vê-se claramente como sua imaginação febril borrava os limites entre o romantismo tardio e uma nova percepção do mundo, crítica, tanto realista quanto fantástica, embrionária do que seria o Modernismo, um século depois. Nesse sentido ele pode ser alinhado com Poe e Baudelaire (que muito o admirava), mas como bem nota Mauro Gama, o excelente tradutor, Nerval não dava tanta importância ao “poético” ou à ideia de obra e autoria, estava por demais preso a seus fantasmas, que acabaram levando-o ao suicídio, tradutor celebrado do Fausto, de Goethe, e autor de romances e novelas marcantes (Umberto Eco considera Sylvie um dos maiores livros já escritos), era um poeta intuitivo, que evocava seres mitológicos refundindo-os em “suas pulsões e procuras subjetivas”. Tome-se como exemplo o famoso poema “El Desdichado”, que T.S. Eliot cita em seu Terra Desolada. Logo na primeira linha, revela uma força que raramente se vê na poesia: “Eu sou o Tenebroso – o Viúvo – Inconsolado”, terminando com “o grito de uma fada”. De arrepiar.

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O psicolirismo cotidiano de Rita Moutinho

Leo Barbosa | zonadapalavra

Psicolirismo da Terapia Cotidiana, de Rita MoutinhoNão há atividade que ponha o subconsciente mais à tona que o ato de fazer literatura. Se houver, talvez se estabeleça através dos sonhos. Então aqui se instaura a semelhança entre a literatura e a psicanálise: “Já que a literatura carrega nos seus flancos o não-consciente e já que a psicanálise traz uma teoria daquilo que escapa ao consciente, somos tentados a aproximá-las até confundi-las”, nas palavras do psicanalista Jean Bellemin-Noel. Afinal, ambas as ciências trabalham com a fala e tendem a revelar mais do que as linhas aparentam carregar.

Podemos inferir isso da leitura de Psicolirismo da Terapia Cotidiana, (Ateliê Editorial, 2013), de Rita Moutinho. Após anos de terapia, a autora segue em catarse, ainda que guiada pelo rigor formal dos seus versos, para aprender a conviver com suas incertezas, medos, pensamentos fúnebres, efemeridades e temor da finitude. Mas a esperança segue firme: “Minhas asas estão atrofiadas/ no meu céu são opacas as estrelas,/ mas todas as desgraças, vou prendê-las,/ para as horas não serem tão coitadas. […] Pra azul destino quero um passaporte./ A ave quer voar, não quer a morte!” (P64)

Nesse processo de transferência a cura pela palavra faz-se imprescindível. O eu-lírico necessita encontrar-se com o passado diante do terapeuta para que haja êxito em seu processo de superação. A psique da paciente responde com psicolirismo de forma condensada e derramada.

A obra é dividida em quatro estágios: “Tempo nublado”, “Tempo instável”, “Tempo parcialmente nublado, passando a límpido” e “Céu quase limpo com Clarões no Horizonte” e por estes vai interrogando por via da filosofia e de conhecimentos mitológicos. O eu-lírico sabe que agora é preciso caminhar sozinho. É hora de sair do divã e retomar a rotina que tanto foi marcada por chuvas de perdas, por céus nublados enquanto desejava um cotidiano ensolarado.

Rita Moutinho mostra-se uma poeta madura, conhecedora dos recursos de linguagem, do manejo dos versos, da forma, e consciente do estranhamento provocado pelas metáforas. Todavia, inevitavelmente, ao abusar do soneto, por vezes esbarra em rimas pobres como podemos conferir na página 93 da obra em questão. Peca em combinações do tipo: poucos/loucos, sangria/melancolia, ventosas/dolorosas, cura/alvura, artístico/místico etc.

Uma das marcas de Moutinho é o frequente uso de antíteses: “Venho disposta ao forte e ao frágil,/ extremar-me firme e também volátil./ Chego tão vida quanto morte,/ me faço aqui, como exilada./ Articulo a fala, me defino muda/ e penso, nas raias da filosofia:/ somos dois multiplicados ao nunca.” (P 91).

A última parte do livro assume tom de despedida como se o cotidiano se encerrasse, como uma rotina fosse quebrada pela desilusão de viver. Mas também assume novas perspectivas a partir da rebobinação de suas memórias como forma de fazer um balanço para poder prosseguir.

A poeta tem estilo próprio ainda que caminhe pela tradição. Narra com paixão seus dramas e tramas. A cada final dos seus poemas ouve-se um estampido. É a vida saindo. É a vida entrando. Aqui ela faz seu registro, convida-nos a “uma viagem interna, tendo a alma como lanterna”. Afinal, onde podemos encontrar verdade maior senão explorando a nossa realidade secreta que melhor se exprime em nosso cotidiano?

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Décio Inédito

Decio inedito

Foto de Décio Pignatari por “Life”
Poema concreto “Vai e vem”, de José Lino Grünewald

Antonio Gonçalves Filho | O Estado de S. Paulo | 30 de novembro de 2013

Poeta deixou tradução de Santo Agostinho e peça que fala de pioneira feminista

Três anos antes de morrer, aos 85 anos, em 2 de dezembro do ano passado, vítima do mal de Alzheimer, o poeta concreto Décio Pignatari começou a tradução das Confissões de Santo Agostinho, da qual o Caderno 2 publica fragmentos nesta edição. Não é tanto a tradução que surpreende. Afinal, Pignatari traduziu Dante, Shakespeare e Goethe, entre tantos outros grandes nomes da literatura universal. Surpreende, sim, o fato de um poeta ateu, conhecido por sua ironia, traduzir um doutor da Igreja Católica marcado inicialmente pelo neoplatonismo e que, convertido, deu seu dinheiro aos pobres após viver uma vida dissoluta. O que teria aproximado Décio Pignatari da primeira autobiografia de que se tem notícia, escrita por um filho de berberes do Norte da África? A sedução pelo paganismo e os prazeres do corpo ou sua conversão ao cristianismo?

Difícil saber. Nem mesmo o filho do poeta, Dante Pignatari, pianista erudito e inventariante, arriscaria uma resposta. Ele encontrou a página com a tradução de Agostinho perdida em meio a manuscritos que trazem outros textos inéditos, entre os quais uma peça teatral, a segunda escrita pelo autor do mais conhecido poema concreto da história, Beba Coca Cola (1957), em que subverte o slogan do popular refrigerante ao alterar fonemas e formar novas palavras – a última delas, “cloaca”.

Décio formou ao lado dos irmãos Augusto e Haroldo de Campos o trio de poetas mais conhecidos do movimento de vanguarda que, simultaneamente, na Suíça e Brasil, nos anos 1950, fez da experimentação linguística e visual sua mola propulsora. Com eles publicou, em 1955, a revista Noigrandes, que tratava, entre outros temas, da comunicação não-verbal (embora sem abdicar da palavra). Tantos os irmãos Campos como Décio Pignatari sempre se dedicaram à tradução de poetas pouco conhecidos ou lidos no Brasil, concretos ou não, além de produzir obras de referência no campo da teoria literária.

Cartas inéditas. Até por isso, Pignatari trocou cartas com importantes filósofos, ensaístas e linguistas europeus, entre eles o escritor italiano Umberto Eco e o linguista russo Roman Jakobson (1896-1982), pioneiro na análise estrutural da poesia, tendo assinado ensaios sobre a obra de Fernando Pessoa e Brecht. A caixa de correspondência do poeta tem também cartas da poeta carioca Cecília Meireles. Todo esse material está sendo analisado pelo filho Dante e poderá ser publicado após catalogação. Outra surpresa para Dante foi encontrar os manuscritos de um diário escrito quando seu pai estava morando temporariamente em Ferrara, no ano 2000. “Nunca imaginei sequer que ele tivesse um diário”, diz ele.

Alguns lugares na Europa – e especialmente Ferrara, terra natal de Antonioni – exerciam enorme fascínio sobre Pignatari. Ele estava morando lá, em 2007, quando escreveu a peça Nísia Viagem Magnética, a pouco conhecida história de Nísia Floresta Brasileira Augusta (1810-1885), educadora e poeta popular do Rio Grande do Norte que morou durante três décadas na Europa. Feminista de primeira hora, Nísia (pseudônimo de Dionísia Gonçalves Pinto) circulou pelas cortes europeias, conheceu Wagner e Nietzsche, foi amante do positivista Auguste Comte, mas Décio, em sua peça inédita sobre ela, joga o foco sobre seu relacionamento com outra mulher. Na primeira peça, Céu de Lona, nunca montada, ele toca em outro ponto polêmico: o casamento inter-racial e a conflituosa relação de Machado de Assis com a mulher Carolina.

“Nos últimos tempos, antes do Alzheimer, ele se mostrava muito interessado nos românticos”, revela o filho Dante, também ele um entusiasta do período, sendo autor de uma tese sobre o compositor cearense Alberto Nepomuceno. “Tínhamos uma paixão compartilhada, pois meu pai chegou a escrever sobre Chopin”. Esse e outros escritos, publicados em livros já fora de catálogo, deverão ter novas edições pela Ateliê Editorial.” Os primeiros títulos serão O Rosto da Memória, publicado pela Brasiliense em 1986, e Panteros, que a Editora 34 lançou em 1982″.

Dante coletou também crônicas de futebol que o poeta escreveu em 1965. Conseguiu encontrar quase todas as 27 escritas para um periódico paulista pelo pai, que, curiosamente, se dedicava à pintura, atividade só conhecida dos familiares e íntimos. Interessado em arte, como os irmãos Campos, ele foi amigo de Volpi e Fiaminghi, mas não fez pintura concreta. Preferia as curvas sensuais do corpo feminino. Décio Pignatari deixou mais de 20 livros, o primeiro deles Carrossel, de 1950, e o último, Bili com Limão Verde na Mão, texto infantojuvenil lançado pela editora Cosac Naify em 2009, a epifania de uma menina que empresta seu nome à obra.

Trecho Inédito

“Se fizesse silêncio o tumulto da carne…

…e silenciassem as imagens da terra, das águas e dos ares, e até mesmo dos céus, e a própria alma se superasse, não pensando mais em si (silêncio também nos sonhos e na imaginação); se todas a línguas e todos os signos e tudo o que não se produz senão de passagem fizessem silêncio absoluto, pois, se pudéssemos ouvi-los, diriam:

“Não fomos nós que nos fizemos a nós mesmos, e sim aquele permanentemente eterno” e se então se calassem, pois ouriçaram os nossos ouvidos para aquele que os fez, e se ele próprio falasse sozinho, não pelas coisas todas, mas por conta própria, de modo que ouvíssemos o seu verbo, não pela língua da carne ou pela voz dos anjos, não pelo estrondo das nuvens ou o enigma das parábolas, mas por ele mesmo, que amamos em tudo aquilo…”

Conheça os livros de Décio Pignatari publicados pela Ateliê

Obra-prima brasileira, em pleno século XXI

Renato Pompeu | Diário do Comércio

Coisas do Diabo Contra

Este belíssimo romance, Coisas do Diabo Contra, do escritor baiano radicado em São Paulo, Eromar Bomfim, lançado pela Ateliê Editorial, se insere na tradição da grande arte, nacional e internacional. Essa obra vai surpreender os críticos que alardeiam “o fim da literatura como obra de arte”. Eles se valem da argumentação de que, hoje em dia, estamos na era dos best-sellers programados. Os escritores não estariam mais preocupados com a estética, na forma, ou com as precariedades da condição humana, no conteúdo. Não estariam mais interessados em iluminar, por meio da beleza, os desvãos da alma de seus semelhantes. Pelo contrário, os escritores estariam interessados exclusivamente em publicar obras que o público quer ler, ou melhor, quer comprar. Essa atitude, inclusive, seria mais democrática do que a grande arte, muitas vezes difícil de entender. A literatura seria basicamente um exercício de entretenimento, não um exercício de atingir o que há de mais profundo entre nós, o senso de beleza, o horror tingido de fascínio pelo mal, e a sede eterna de justiça, felicidade e paz.

Pois é justamente a grande arte que Eromar Bonfim aspira. A trama, aparentemente é simples: um rico empresário quatrocentão se convence de que a única experiência que pode realmente engrandecer o ser humano é assassinar outro ser humano. Por meio de matar um semelhante, se chegaria à graça da plena realização de uma vida. Bomfim parece exaltar aqui o fascínio pelo mal, tão presente no interior de cada um de nós, cuja maioria procura exorcizar esse fascínio deleitando-se na fruição de histórias fictícias de crimes e de histórias reais de torturas e de genocídios.

Mas o que parecia, nas mãos de Bomfim, ser uma exaltação do mal, vai paulatinamente se transformando em seu contrário, o ataque contundente à banalidade do mal. O filho do empresário assassino, testemunha do crime de seu pai (este queria “educar” o filho para que assimilasse o gozo pelo sacrifício da vida de outrem), corre desesperadamente pelas ruas da cidade de São Paulo, fugindo ao horror do crime.

A cidade é um dos principais personagens do livro. E aqui Bomfim revela todo o seu talento de escritor. O autor novato, que se baseia mais na sua experiência de vida do que na sua criatividade, costuma inserir as ações de seus personagens em locais que o autor conhece, mas a maioria de seus leitores não. O autor novato sente, ele próprio, a “aura” que cada rua, bar ou prédio que descreve faz evocar. Mas o leitor, por não conhecer o lugar, não sente a “aura” do local, nem a evocação que dele emana. Um autor mais experiente pode, no entanto, criar lugares fictícios do qual emanam evocações universais. Monteiro Lobato, por exemplo, ao descrever um sítio, mencionava a casa, o paiol, o pomar, a horta, o curral, o estábulo, sem nunca esclarecer como esses pontos se relacionavam no espaço uns aos outros. A ideia de Lobato era que todo mundo tem a noção do que seja um paiol ou pomar, mas não se identificaria com a descrição de um sítio concreto, em que o paiol ficaria numa determinada posição em relação ao paiol.

Bomfim dá um passo adiante. Ele descreve ruas, galpões, prédios, casas e avenidas realmente existentes na cidade de São Paulo, mas o leitor que não conhece esses lugares sente o que significam, o que se vivencia em cada espaço, tal a profusão de sensações que o autor descreve como emanando de cada lugar. Um galpão na Mooca, rigorosamente descrito, ou o Jardim da Aclimação, cuidadosamente mapeado, evocam sensações universais e a vivência das emoções que cada lugar provoca será sentida por qualquer leitor em qualquer local do mundo.

Isso quanto à forma. Quanto ao conteúdo, Bomfim não só transforma em repulsa o fascínio inicial pelo ato de matar outra pessoa como vai muito mais além na condenação do mal. Ele demonstra que a orgulhosa cidade de São Paulo é um produto da sistemática perseguição e exploração dos índios pelos bandeirantes e da cruel exploração secular do ser humano pelo ser humano; o conforto de uns poucos foi sustentado pelo sofrimento e pela exaustão de muitos outros.

O ponto principal, entretanto, é que, dentro da tradição da grande arte, Bomfim cria uma linguagem nova, em que cada palavra e cada frase é cuidadosamente lapidada, de modo que o conjunto se frui como se fosse uma colorida escultura de sons.

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O fotógrafo Boris Kossoy é indicado ao Prêmio Brasil Fotografia Especial

Fotografia de Boris Kossoy, da série New York VA edição 2013 do Prêmio Brasil Fotografia indicou o fotógrafo Boris Kossoy para o prêmio especial pelo conjunto da obra e sua importante reflexão sobre a fotografia.

A comissão de Premiação foi composta por Cildo Oliveira, Eder Chiodetto Diógenes Moura, Maria Hirszman e Ronaldo Entler.

Natural de São Paulo, Boris Kossoy interessou-se desde jovem pela fotografia, uma paixão que perduraria ao longo de sua vida. Sua obra fotográfica se desenvolveu em quatro grandes áreas: profissional, acadêmica, institucional e artística. Em cada uma delas sua atuação tem deixado marcas e seguidores.

Assim como grande parte dos fotógrafos brasileiros de sua geração, Boris foi um autodidata; sua carreira profissional teve início em 1965 através do Estúdio Ampliart, atuando nas áreas de jornalismo, documentação e publicidade. Prestou serviços para jornais, revistas e veículos como Jornal da Tarde, Última Hora, Quatro Rodas, Manchete, TV Record, paralelamente a uma obra autoral que segue até o presente.

Arquiteto pela Universidade Mackenzie (1965); mestre e doutor pela Escola de Sociologia e Política de São Paulo (1977-1979). Iniciou-se no magistério em 1973, instalando o primeiro curso de fotografia da Faculdade de Comunicação Social Anhembi (SP), foi professor também do Curso de Especialização em Museologia, e da Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação da UNESP (Campus de Bauru). Seu percurso na Universidade de São Paulo teve início em 1987; em 2000 prestou concurso para livre-docência e, em 2002, para o cargo de professor titular de Escola de Comunicação e Artes. Nessa instituição é pesquisador e professor do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação. Entre outras atividades é coordenador do Núcleo de Estudos Interdisciplinares de Imagem e Memória (NEIIM/LEER-USP).

Ao longo de sua carreira acadêmica a fotografia foi o centro das investigações em diferentes direções: teoria, história e poética. Enquanto historiador, teórico e pesquisador têm sua obra mais conhecida voltada à investigação da história da fotografia no Brasil e América Latina, aos estudos teóricos da expressão fotográfica e à aplicação da iconografia como fonte de investigação nas Ciências Humanas. Dentre seus trabalhos mais recentes como curador, é de se mencionar: “Círculo Fechado: os japoneses sob olhar do DEOPS” (Memorial da Resistência de São Paulo/Estadão Pinacoteca, 2009); “Horizontes, fotografias de Bruno Cals” (1500 Gallery, NY, 2012) e “Um olhar sobre o Brasil: a fotografia na construção da imagem da nação” (Instituto Tomie Ohtake/Ministério da Cultura/Fundação Mapfre, SP, 2012-2013 e circuito nacional).

Sua carreira autoral como fotógrafo esteve centrada principalmente no realismo fantástico e na busca de elementos de mistério que permeiam as cenas do cotidiano urbano e da natureza, percepção essa que chamou de “mundos paralelos”. Mostras individuais de sua obra fotográfica foram montadas no Museu de Arte de São Paulo, Universidade de Nova York, Centro de La Imagem (México), Museu de Arte da Bahia, Pinacoteca do Estado de São Paulo, além de ter participado de um número expressivo de exposições coletivas. Fotografias de sua criação encontram-se representadas, entre outras instituições, nas coleções permanentes do Museu de Arte Moderna (NY), Centro da Imagem (México, D.F), Instituto Smithsonian (Washington D.C.), Eastman House/Museu Internacional de Fotografia (Rochester, NY), Museu de Arte Moderna de São Paulo, Pinacoteca do Estado de São Paulo, além de coleções particulares.

É ampla a bibliografia sobre sua obra, publicada tanto no Brasil como internacionalmente. Kossoy é autor de 13 livros, entre eles, os clássicos: Viagem pelo Fantástico; Hercules Florence, a descoberta isolada da Fotografia no Brasil; São Paulo, 1900; Fotografia e História; Realidades e Ficções na Trama Fotográfica; Os tempos da fotografia, o efêmero e o perpetuo; Dicionário Histórico-Fotográfico Brasileiro; Boris Kossoy Fotógrafo e Um olhar sobre o Brasil; a fotografia na construção da Imagem da nação (coord.).

Em 1984, recebeu do Ministério da Cultura e da Comunicação da França, a condecoração: Chevalier de L’Ordre des Arts ET des Lettres pelo conjunto de sua obra.

O Ministério da Cultura e Porto Seguro Cia de Seguros Gerais convidam para a abertura da exposição dos trabalhos premiados, no dia 22 e outubro, às 19h, Espaço Cultural Porto Seguro, na Avenida Rio Branco, 1489.

Conheça os livros de Boris Kossoy publicados pela Ateliê Editorial

Uma sinfonia da linguagem

Renato Pompeu | Carta Capital

Coisas do Diabo Contra, de Eromar Bomfim

A chamada crise de criatividade da literatura nestes tempos pós-modernos parece na verdade um fenômeno da mídia que só dá divulgação a obras feitas segundo o padrão mercadológico consagrados pelos best sellers mundiais. Pois o fato é que a literatura brasileira deste século XXI produziu até o momento pelo menos três obras primas, os romances Um Defeito de Cor, de Ana Maria Gonçalves, O Rastro do Jaguar, de Murilo de Carvalho, e este Coisas do Diabo Contra, do baiano radicado em São Paulo Eromar Bomfim, obra que pode ser definida como “pós-pós-moderna” ou como “ultramoderna”.

Trata-se de uma sinfonia complexa em linguagem totalmente elaborada, quase clássica, como a de Os Lusíadas, de Camões, em que o tema central, o assassínio como aspiração ao sublime, transforma-se em seu contrário, a demonstração de que o mundo contemporâneo, em especial a elite da cidade de São Paulo, sempre se apoiara, ao longo dos séculos, na horrenda matança em massa, seja nas guerras, seja nas bandeiras, ou no trabalho como exploração do ser humano pelo ser humano. A paulistanidade entendida como metáfora do mundo, esvai-se em vivências entre realistas e oníricas de paisagens urbanas fantasmagóricas, doentias e sublimes.

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Leia a resenha escrita por Renato Tardivo

Livro, de Michel Melot

Revista ANL | Setembro de 2013

Livro, - Michel MelotLivro, traz ensaio sobre esse objeto, o grande suporte da comunicação escrita na cultura ocidental, que remonta à lenta passagem do uso de rolos em papiro, para a descoberta do pergaminho, até a invenção do códice a partir da dobra do papel fixado em tábuas. Qual seria o milagre desse objeto, nascido há mais de dois milênios, eminentemente moderno por sua forma cúbica, matemática, industrial muito antes de o ser, que triunfou do rolo até se tornar o “tijolo elementar” do pensamento ocidental?

Nesta obra, delicadamente diagramada, para compreender o poder fenomenal do objeto livro, o autor investigou sua topografia e sua arquitetura, desceu até sua anatomia profunda, percorreu suas dobras, suas costuras, suas fibras físicas e simbólicas. E ainda interrogou suas relações estranhas com as três religiões chamadas “do Livro”, o profano, o comércio e o político, e a liberdade de pensar, de sonhar e de desejar. Contrariamente ao saber digital, o livro, nascido da dobra, fecha-se sobre si mesmo, solidário de sua mensagem. Seu espaço é concebido para produzir uma autoridade, ou mesmo uma transcendência. Confere ao conteúdo a forma de uma verdade e a credita ao autor.

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Michel Melot nasceu em 1943 em Blois. Após ter sido diretor do Departamento de Estampas e Fotografias da Biblioteca Nacional, diretor da Biblioteca Pública de Informação do Centro Pompidou, Michel Melot foi presidente do Conselho Superior das Bibliotecas. Ele também é autor de La Sagesse du Bibliothécaire entre outros.

Uma caixinha de surpresas

Revista Superpedido | Agosto/setembro 2013

Em Clichês Brasileiros, o designer e escritor Gustavo Piqueira segue desafiando as possibilidades do livro impresso – desta vez, em uma edição que não tem capa tradicional nem lombada 

Gustavo Piqueira, autor de "Clichês Brasileiros"Com um trabalho notável à frente da Casa Rex, seu estúdio com sedes em São Paulo e em Londres que conquistou centenas de prêmios de design gráfico em todo o mundo, Gustavo Piqueira é nome obrigatório em qualquer seleção de artistas visuais que se escale no país. Mas que ninguém tente restringir seu jogo para apenas uma fatia do gramado: ele é daquele tipo de atleta que gosta de atuar em todas. Apaixonado por livros, Piqueira encontrou no mercado editorial um campo ideal para dar vazão à sua fecunda criatividade. Seja como escritor, tradutor, ilustrador ou até mesmo organizador de coleções, este craque tem produzido um elenco de obras que, por mais heterogêneas que pareçam, tem como fio condutor uma sólida e marcante característica: o inesperado.

Responsável por títulos tão díspares como o fictício Marlon Brando Vida e Obra, o irônico Manual do Paulistano Moderno e Descolado e o juvenil A Vida sem Graça de Charllynho Peruca, entre outros, ele volta a inovar com Clichês Brasileiros, lançamento da Ateliê Editorial. Desta vez, utilizando-se somente de imagens de um antigo catálogo de clichês tipográficos – matrizes outrora usadas para impressão –, o autor criou uma narrativa visual única. Aproveitando o duplo sentido do termo, conta a história do Brasil por meio de nossos clichês – desde os mais antigos, como os estereótipos da chegada dos portugueses e da catequização dos índios, até os da atualidade, caso dos engarrafamentos nas cidades e os condomínios fechados (confira na página seguinte algumas dessas imagens).

Porém, não é apenas aí que o livro surpreende. Depois de fixar um espelho na capa de sua obra anterior, Iconografia Paulistana, Gustavo Piqueira concebeu um livro sem capa nos moldes tradicionais – há apenas uma lâmina de madeira impressa em serigrafia, afixada na guarda com uma fita adesiva personalizada. Além disso, a lombada tem a costura exposta. Delírio de designer? Nada disso. “A ideia é expandir as possibilidades de um livro impresso em sua dimensão de objeto, mas mantendo um conteúdo que se sobrepõe à forma”, explica o paulistano, revelando sua preocupação em não se deixar levar apenas pelo lado visual. “Muitas vezes esses ‘livros-objetos’ não primam pela riqueza do assunto abordado, de tão preocupados que estão com a exuberância visual em si.”

Para essas obras, Piqueira também busca soluções que possibilitem tiragens industriais, a fim de colocar o livro na prateleira das livrarias. Afinal, em sua opinião, ao contrário do que muitos vaticinam, a edição impressa ainda tem um longo papel a cumprir. “Não acho que o livro digital seja ‘o’ futuro do livro. É ‘um dos’ futuros, não dá para cair nesse fatalismo de que o impresso irá morrer. Meus trabalhos recentes, como Clichês brasileiros e lconografia Paulistana, por exemplo, não funcionariam em versão digital.” Independente de qualquer prognóstico, Gustavo Piqueira está fazendo sua parte: já finalizou mais uma obra, que deve ser impressa ainda neste ano, e se prepara para começar novos projetos. Os assuntos? Melhor aguardar. Afinal, ao menos quando se trata de livros, este palmeirense é uma verdadeira caixinha de surpresas.

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Assista a entrevista com o autor durante o lançamento do livro

Ilustração do livro: "Clichês Brasileiros"

Ilustração do livro "Clichês Brasileiros"

Insólita Metrópole – São Paulo nas Crônicas de Paulo Bomfim

Caio Liudvik  | Guia da Folha | 29.06.2013

Insólita Metrópole: São Paulo nas Crônicas de Paulo Bomfim

“Ah, São Paulo de 1932, um só corpo e uma só alma!”. “Trinta e dois não foi uma Revolução, foi uma Paixão! Vida, Paixão e Glória de São Paulo”. Assim vibra Paulo Bomfim, recordando a euforia do movimento popular que lançou os paulistanos contra o governo de Getúlio Vargas e por uma nova constituição – um dos episódios mais marcantes da história da “insólita metrópole” que é tema dos itinerários de memória e de afeto do “Príncipe dos Poetas Brasileiros”.

Da rua Augusta ao mosteiro de São Bento, passando pelo relógio da Sé, passeamos com ele por esta “capital de todos os absurdos”, palimpsesto em que diferentes eras e valores se entrechocam. As crônicas falam também do convívio de Bomfim com Monteiro Lobato, Mário de Andrade e Anita Malfatti. A excelente edição, pela historiadora Ana Luiza Martins, é enriquecida por fotografias de famílias históricas, que deixam ainda mais evidente – ao estilo de imaginação sociológica tão bem ensinada por José de Souza Martins, que assina o prefácio – a representatividade geral do singular, o histórico que vige no biográfico. Perpassando ambos, está aquilo que resiste a cotidianidade repetitiva e alienada que convive com a grandeza e o vigor de São Paulo, provinciana e cosmopolita, um “inconsciente urbano” que se dá a ver em seu metrô, em suas ruas que conglomeram todos os vícios e virtudes.

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