Auto da Barca do Inferno, de Gil Vicente

Por: Renata de Albuquerque*

Uma das mais importantes obras do dramaturgo português Gil Vicente – considerado o pai do teatro português – o Auto da Barca do Inferno (ou Auto da Moralidade) foi escrita em 1517 e encenada, pela primeira vez, em 1531. O texto faz parte da trilogia das barcas, composta por esta e por outros dois textos, Auto da Barca do Purgatório e Auto da Barca da Glória.

Devido à sua importância histórica para a literatura, o Auto da Barca do Inferno foi escolhido para ser o primeiro título de uma coleção criada pela Ateliê Editorial ainda nos primeiros anos de existência da editora. A ideia da coleção “Clássicos para o Vestibular” era oferecer aos alunos do ensino médio uma edição de qualidade de um livro clássico, que é sempre solicitado nas provas. O livro traz o texto na íntegra, precedido de um texto introdutório que traz análise do enredo, da linguagem, dos personagens, do contexto histórico e do autor. Logo depois, a coleção passou a chamar-se “Clássicos Ateliê”. Afinal, não são apenas os estudantes que merecem ler uma edição bem cuidada de um clássico. Inicialmente, a coleção era coordenada por Ivan Teixeira, professor livre-docente da ECA/USP e professor titular de Literatura Brasileira na FFLCH/USP. Depois do falecimento de seu criador, em 2013, a coleção passou a ser coordenada pelo professor José de Paula Ramos, doutor em Literatura Brasileira pela USP e professor da ECA, da mesma universidade.

Auto da Barca do Inferno

Por ser um auto de moralidade, a peça, de um só ato, é uma alegoria do Juízo Final, uma sátira à sociedade portuguesa do século XVI. O vocabulário – muito distante da maneira como falamos hoje – pode parecer um obstáculo ao entendimento. Mas, se ultrapassado, o texto se revela divertido, com uma comicidade envolvente.

O enredo é simples. Dois barqueiros – o Anjo e o Diabo – estão em um porto, em que recebem, cada um em sua barca, as almas dos passageiros, para transportá-las para o outro mundo. O Diabo convida cada alma para fazer parte de sua barca. O Anjo autoriza ou não outras almas a viajar em sua própria barca. Vai para  céu quem durante a vida seguiu os preceitos divinos. Vai para o inferno quem foi avarento, mesquinho ou cometeu outros pecados.

Os personagens – que são, na verdade, representações de tipos sociais – apresentam-se diante do espectador como em um desfile. Sua história vai definir seu destino. Apenas o parvo e os quatro cavaleiros, mártires da Igreja, que dedicaram a vida ao cristianismo, conseguem embarcar rumo à paz eterna na barca do paraíso.

Cada personagem representa um aspecto da sociedade portuguesa. O Fidalgo, por exemplo, é o tirano representante da nobreza. O Parvo simboliza o povo português, temente a Deus e de bom coração. O Judeu representa as pessoas que não são fieis à fé cristã. O Frade desobedece o voto de castidade e, por isso, também vai para o inferno. Figuras como o Onzeneiro, o Corregedor e o Procurador são alegorias dos burocratas que usam o poder político a seu favor.

É interessante notar que o Diabo fala e age com uma fina ironia e que, muitas vezes, suas intervenções parecem ser a voz do próprio autor. Já o Sapateiro, ainda que tenha-se confessado antes de morrer não conquista o céu – o Diabo o leva porque ele roubava seus clientes.

Gil Vicente

Gil Vicente

Nascido por volta de 1465, em Guimarães, o poeta Gil Vicente é considerado o pai do teatro português. Autor de um teatro popular – apesar de estar no ambiente da Corte Portuguesa – foi um entretenimento para a família real, mesmo contendo diversas críticas ao poder. O teatro de Gil Vicente é caracterizado pela sátira crítica.

Pai de cinco filhos – dois do primeiro casamento e três do segundo, contraído após a morte da primeira esposa – estudou na Universidade de Salamanca, na Espanha. Um dos primeiros registros com seu nome data de 1502, quando encena “Auto da Visitação” ou “Monólogo do Vaqueiro”, em homenagem ao nascimento do príncipe D. João, futuro D. João III. Em 1511 foi nomeado vassalo do rei e mais tarde, mestre da balança da Casa da Moeda (1513). Faleceu por volta de 1536, provavelmente em Évora.

Conheça outros títulos da Coleção Clássicos Ateliê

*Jornalista, Mestre em Literatura Brasileira pela FFLCH/USP, autora da Dissertação Senhoras de Si: o Querer e o Poder de Personagens Femininas nos Primeiros Contos de Machado de Assis.

“Yaser”, de Eda Nagayama

Um livro que nasceu da experiência vivida com pessoas, em uma paisagem de guerra. Assim é Yaser, de Eda Nagayama, que alinhava com o fio da ficção a dura realidade da Palestina dos dias de hoje. Eda, que é escritora e atriz paulistana, doutoranda em Estudos Literários (FFLCH/USP), foi voluntária na Palestina, onde se sentia “inimiga por extensão”. Para contar sua experiência, escreveu Yaserh. “A escrita nasceu assim dessa necessidade de dar voz e visibilidade ao que vi, ouvi e testemunhei, de responder à minha própria ferida. Não sou uma ativista e minha maneira de agir foi através da palavra – gestada na solidão, povoada por essas pessoas, por Yaser e sua família em especial”, explica a autora ao Blog da Ateliê:  

O que a levou à Palestina? O que a motivou a realizar essa jornada?


Eda Nagayama: O meu interesse e desejo de visitar a Palestina já vinha de alguns anos. Em 2014 havia me informado sobre custos e a possibilidade de me voluntariar na Cisjordânia. A oportunidade concreta veio de uma maneira inesperada. Em 2016, estava na Polônia como parte de um programa de intercâmbio acadêmico sobre trauma cultural quando, numa conversa com uma professora de Sociologia sobre refugiados, comentei sobre a Palestina: “Ah, você gostaria de ir para a Palestina? Conheço um programa de voluntariado”. Ela então me apresentou para o coordenador local do EAPPI – Programa de Acompanhamento Ecumênico em Palestina e Israel, do Conselho Mundial das Igrejas (WCC). Fui aprovada e enviada como única representante da Polônia naquele período. Chegando lá, num grupo internacional com finlandeses, noruegueses, ingleses e colombianos, o mais bizarro era parecer japonesa, ser brasileira e ter sido enviada pela Polônia.

A minha motivação para ir para a Palestina estava inicialmente relacionada a Israel. Ainda adolescente, fui muito impactada pelo Holocausto e a Segunda Guerra. Aprofundei e estudei o tema e também um pouco de cultura e literatura judaicas. Quando tive um pouco mais de informação sobre a situação na Palestina, voltei a me sentir afetada diante da opressão, da complexa disputa que se dá em torno da terra e da água, das narrativas dominantes sobre os acontecimentos. A Palestina era uma indagação, uma perplexidade que só iria aumentar após ter visitado vários memoriais e campos de concentração: Auschwitz, Treblinka, Majdanek, Belzec, Gross-Rosen, Plaszów, Theresienstadt, Sachsenhausen. O incomensurável sofrimento e injustiça do passado poderiam constituir uma justificativa absoluta para a opressão e violência contra um outro? O que acontecia na Palestina em nome desse Estado para um povo sem terra, como se terra sem povo?

Que atividades você desenvolveu ali, durante o tempo em que esteve no local?

EN: O programa visava a observação de violações de direitos humanos na Cisjordânia, parcela maior do território do Estado Palestino, separada da Faixa de Gaza. Os participantes do programa eram divididos em grupos e diferentes localidades: Jerusalém, Belém, Hebron, Tulkarm, Colinas do Sul de Hebron, Vale do Jordão e Yanoun, para onde eu fui destinada. As atividades envolviam a visita aos vilarejos da região e o acompanhamento de incidentes como demolição de construções, expropriação de terras, detenção de crianças, agressões e danos a propriedades e plantio, restrição à livre circulação, toque de recolher e punição coletiva. Com a ajuda de um facilitador local, coletávamos relatos e informações sobre os incidentes e produzíamos relatórios que eram distribuídos a outras entidades com envolvimento na situação.

Outra atividade que realizávamos era a presença protetiva visando diminuir ou refrear atos contra a população palestina através da mera presença de estrangeiros. Três vezes por semana fazíamos o acompanhamento da entrada dos alunos de uma escola à beira de uma rodovia em área C, utilizada por israelenses e palestinos. Um grupo de soldados israelenses estava sempre de vigília, de maneira mais ou menos ostensiva, tendo detido meninos em algumas ocasiões sob a acusação de atirarem pedras. Essa atuação era sempre muito tensa e ambivalente – difícil saber se a presença podia realmente ser protetiva, se não poderia justamente acirrar os ânimos. Os soldados podiam detê-los numa demonstração de força? Os meninos podiam se sentir encorajados pela nossa presença? Não vi nenhum menino atirando pedras nem enfrentando soldados. Em compensação, vi soldados detendo meninos, fazendo provocações – também dirigidas a nós. Os palestinos eram o inimigo e, por extensão, nós também. Nunca estive nessa posição – senti medo, indignação, dúvida.

Eda Nagayama fotografada por Lailson Santos

Por que decidiu escrever um livro da experiência que teve na Palestina?

EN: A experiência foi muito impactante e voltei para o Brasil afetada – a tensão é constante e muito distinta daquela provocada pela violência aqui e não corresponde à imagem do conflito na mídia internacional, vinculada à Faixa de Gaza e às bombas do Hamas, aos terroristas e homens-bomba da Segunda Intifada (2000-2005). Apesar de estar em Jerusalém à época de um atentado, copycat dos ataques utilizando caminhões em Nice e Berlim em 2016, a tensão não advinha daí, da ameaça desse tipo de crime, mas da sensação de vulnerabilidade, de arbitrária opressão a que estavam sujeitos os palestinos. Ouvi muitos relatos de pessoas sem futuro nem sonhos, que só queriam ser deixadas em paz. O que acontece na Cisjordânia é, para mim, uma maneira muito perversa de aniquilar indivíduos e um povo. Não é preciso tirar-lhes a vida, mas apenas restringir e privá-la através do abuso e arbitrariedade de força, regras e restrições, a tal ponto de não mais ser entendida como tal. Vida? Que vida? A escrita nasceu assim dessa necessidade de dar voz e visibilidade ao que vi, ouvi e testemunhei, de responder à minha própria ferida. Não sou uma ativista e minha maneira de agir foi através da palavra – gestada na solidão, povoada por essas pessoas, por Yaser e sua família em especial.

Como conheceu Yaser e porque o escolheu para ser protagonista de seu livro?

EN: O vilarejo de Yanoun foi invadido em 2002 por colonos israelenses de assentamentos do entorno. Na época, havia aproximadamente 350 pessoas e foi então que o EAPPI começou através da presença de outsiders para que o vilarejo não fosse tomado e que ao menos parte das famílias pudesse retornar.

Hoje, os que restam não chegam a oitenta, todos parentes, já que era muito comum o casamento consanguíneo. Yaser morava na casa em frente à nossa e foi de sua família que estive mais próxima, podendo conhecer mais das tarefas diárias, da violência sofrida no passado, dos temores e incertezas do presente. Escolher Yaser como meu protagonista foi uma estratégia narrativa para criar mais coesão à diversidade de relatos e experiências, mas também uma forma de expressar meu afeto e respeito pela trajetória – sua e de sua família estendida, de seu povo.

A obra mistura ficção e relatos reais. Quais foram os desafios de equalizar esses dois registros?

EN: A maior questão é mesmo ética: tenho o direito de narrar? Posso “ocupar” Yaser – percorrer seus pensamentos e sentimentos, me apropriar da memória de eventos traumáticos? Foi uma fronteira difícil de constituir, encontrar a medida para que não predominasse o aspecto informativo ou denunciativo, e que o texto tivesse sensibilidade e qualidade literária. O livro, e também minha pesquisa de doutorado, refletem esse questionamento: quais os limites e decorrências da apropriação da realidade por uma alteridade, das distorções ficcionais produzidas por esse outro ao dar voz aos eventos?

Você já iniciou a elaboração do livro com o projeto de mesclar ficção na história real ou isso foi ocorrendo aos poucos, no processo de escrita?

EN: Eu comecei a escrever Yaser sabendo que iria “contaminar” a realidade de alguma ficção, não queria um relato jornalístico. Recebi a sugestão de adotar a minha perspectiva pessoal como voluntária para narrar os eventos. Não, não era isso de forma alguma. E, a princípio, não queria usar as palavras “judeu”, “israelense”, “palestino”, mas somente “um” e “outro” – adotando assim perspectivas relativas e não absolutas. Tal opção poderia gerar muita imprecisão e ambiguidade e assim comprometer justamente a legitimidade dos eventos, seu caráter testemunhal. Os palestinos deveriam ser os protagonistas – fundidos na figura de Yaser -, com um alinhavo ficcional mínimo. Não sei o que Yaser achou dessa sua versão, espero que possa se reconhecer e apreciar.

Quais foram suas inspirações para escrever o livro, do ponto de vista estético?

EN: Eu não sei se posso apontar inspirações literárias para escrever Yaser. A experiência predominou – em situações, paisagens e pessoas. Terra Prometida ou não, a Palestina é um lugar potente, umbigo do mundo que não permite que você permaneça isento ou que parta imune. E esse afetar foi e é fundamental para mim – que reside nos vazios e silêncios dos campos de concentração, que ecoa nas conversas que tive com refugiados ao longo dos anos – aqui em São Paulo, em abrigos na Itália, em um campo de refugiados na Grécia. A minha questão como escritora é encontrar narrativa para essa realidade de contundência, muitas vezes dolorosa e traumática. 

Aniversário da Ateliê: todo mundo em festa!

A Ateliê está comemorando mais um aniversário! E, para que todo mundo entre na festa com a gente, vai ter muito desconto e promoção durante todo o mês de fevereiro.

Todo o catálogo da editora está com 42% de desconto e, para melhorar, ainda vamos ter ofertas surpresa durante vários dias do mês. Então, a dica é ficar de olho diariamente nas nossas redes sociais e no nosso site: www.atelie.com.br porque são muitos e variados títulos, que terão os preços mais baixos em alguns dias do mês, sem aviso prévio. Isso é que é surpresa boa!

Confira a seguir alguns dos títulos mais queridos da Ateliê que estão em promoção:

Os Sertões – Campanha de Canudos

Euclides da Cunha é o autor homenageado da FLIP neste ano. Então, resolvemos dar uma forcinha para você conhecer melhor este clássico da literatura brasileira, um relato sobre a Guerra de Canudos, feito pelo repórter que marcou a nossa literatura. Além do texto rigorosamente restaurado conforme as fontes mais autorizadas, possui cerca de três mil notas, auxiliando o esclarecimento do difícil vocabulário euclidiano. 

Livro Viva Vaia

Viva Vaia

Esta edição de Viva Vaia é a mais completa de todas as que já vieram a público. Além de manter o projeto gráfico original, de Julio Plaza, ela devolve a impressão em cores a alguns poemas – dentre os quais o clássico “luxo”. Este volume contém ainda um encarte com o poema-objeto “Linguaviagem”, que não foi incluído nas versões anteriores por motivos técnicos. Vem encartado, com o livro, o CD Poesia é Risco, que contém quinze poemas musicados por Cid Campos, filho do autor.

Gramática Integral da Língua Portuguesa

Esta gramática se destina a todos aqueles que gostariam de conhecer melhor a maneira como funciona a língua portuguesa e resolver dúvidas sobre concordância, regência, ortografia, colocação etc., por meio de respostas simples, escritas em linguagem clara, despidas de complicações ou erudições. Por isso, esta gramática é útil tanto para alunos do ensino fundamental e médio quanto para quem cursa ou já cursou universidade e quer ter segurança ao escrever um e-mail, um relatório, uma apresentação, uma tese acadêmica, uma petição ou até mesmo um livro de ficção.

Arte, Dor – Inquietudes entre Estética e Psicanálise

Entender a percepção como fenômeno estético é o que motiva as reflexões deste livro. Os treze ensaios retomam ideias de Lyotard, Argan, Winnicott, Bachelard, Chauí, entre outros. No entanto, o pensamento de Frayze-Pereira gira em torno das obras de Freud, Merleau-Ponty e Foucault. Com eles, o autor mostra que a arte se faz no encontro de dois sentimentos: o da forma e o do mundo. A partir dessa conexão entre percepção e política, a obra lança nova luz sobre o entendimento humano.

No Rastro de Afrodite – Plantas Afrodisíacas e Culináriah

Por que algumas plantas e pratos são considerados afrodisíacos? É em torno dessa pergunta que giram as discussões deste livro. O autor, PhD em Botânica, analisa cientificamente mais de quatrocentas espécies vegetais. Com isso, ele pretende mostrar quais delas, de fato, exercem influência sobre o apetite sexual dos seres humanos. No Rastro de Afrodite apresenta também algumas receitas culinárias capazes de despertar a libido.

A Capa do Livro Brasileiro

O bibliófilo Ubiratan Machado reuniu mais de 1700 capas coloridas reunidas em uma só obra que analisa os 130 anos de História, desde a primeira capa que data de 1820. O autor oferece uma densa e coesa história das capas dos livros no Brasil. Obra que nasce original e clássica, é indispensável nas prateleiras de bibliófilos e historiadores.

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Paradeiro: o primeiro romance de Luís Bueno

Paradeiro é o romance de estreia de Luís Bueno e tem como um de seus cenários a cidade de São José dos Campos (SP) em épocas e com personagens distintos. O exercício de estilo desafiou o autor. “Os três planos da narrativa não se relacionam pelo enredo. Ao contrário, as personagens têm pouco ou nenhum conhecimento uma da outra”, afirma Bueno, que é Doutor em Teoria e História Literária pela Unicamp e professor de Literatura Brasileira na Universidade Federal do Paraná (UFPR).A seguir, ele fala com o Blog da Ateliê.

Por que do título Paradeiro?

Luís Bueno: A palavra tem uma ambivalência entre o permanente e o efêmero, passageiro, que está na base do romance. Na esteira dessa ambivalência, o título evoca um lugar ao mesmo tempo metafórico e geográfico em que se foi parar – mas parar até quando? Existe inclusive uma expressão, “paradeiro desconhecido”, que é o ápice dessa ambivalência porque fala de um lugar desconhecido em que alguém está, ou seja, é toda parte e lugar nenhum. É nessa ambivalência que o livro se funda.

O livro se passa em São José dos Campos. Por que dessa escolha?

LB: A história da cidade faz dela um paradeiro ideal para este romance, pois ela é emblemática  desse jogo entre efemeridade e permanência. Uma permanência curiosa, resultado das experiências individuais que se mantêm muitas vezes como resíduos quando a paisagem e a dinâmica de ocupação do espaço urbano mudaram drasticamente. Desde os anos 1960, tem sido uma cidade industrial – abriga fábricas enormes como a GM e a Embraer –, mas antes disso era uma cidade sanatorial na qual uma pequena população local se misturava com uma população flutuante constituída de tuberculosos em tratamento. É, aliás, como cidade sanatorial que ela aparece, aqui e ali, na literatura brasileira, mencionada em romances como Floradas na Serra, de Dinah Silveira de Queirós, ou Território Humano, de José Geraldo Vieira. Antes disso, aparece como cenário de bangue-bangue em Quincas Borba, numa passagem em que é mencionada para dizer mal de um personagem secundário, cujo  cunhado “dera um tiro de garrucha num delegado em São José dos Campos”. Mais recentemente foi o lado de cidade tecnológica que a tornou o cenário da resistência a zumbis na saga As Crônicas dos Mortos, de Rodrigo de Oliveira.

Em Paradeiro o que interessa é a relação entre essas várias cidades que são uma só, a dinâmica histórica de um lugar que muda radicalmente em poucas décadas, no qual também muda a experiência daqueles que vivem ali. Não é porque estamos no mesmo lugar e no mesmo tempo, expostos às mesmas mudanças, que nosso paradeiro é o mesmo.

Mas vale a pena lembrar que São José dos Campos não é o único cenário do livro: o Guarujá, que aliás também passou por uma transformação enorme, ainda que de outra natureza, no mesmo período, também é. Assim como, mais episodicamente, as cidades portuguesas de Leiria e Ruge Água.

Luís Bueno

Podemos dizer que a doença é um fio que liga os personagens, ainda que não necessariamente os defina. Qual a razão para trazer este tema à literatura?

LB: A doença de fato não define os personagens, mas os coloca numa posição privilegiada para reverem o que são. Um ditado diz que para morrer basta estar vivo, mas os vivos em geral não se ocupam tanto assim da morte. Doenças como a tuberculose antes do emprego dos antibióticos, o câncer e o Alzheimer até hoje, no entanto, colocam a vida em relação direta com a ideia de morte: não tem como escapar. Ora, a doença e a morte são experiências radicalmente pessoais que, ao mesmo tempo, são forçosamente partilhadas por todo mundo. A doença é elemento fundamental na criação de um tipo de relação específica entre indivíduos que interessa ao romance, uma relação que não nasce de um contato direto, mas de experiências comuns vividas por pessoas muito diferentes.

Há uma parte do romance que é epistolar. Como se deu a escolha de inserir esse gênero dentro de uma obra que não é apenas feita da troca de cartas?

LB: A forma epistolar ajuda a compor a caracterização de um dos protagonistas, um rapaz na faixa dos 20 anos que vai a São José dos Campos em 1938 para se tratar de uma tuberculose. Ele não é da cidade, não se integra a ela, então, como era usual, mantém correspondência com os amigos de fora, de onde sua vida deveria em tese ter continuado a transcorrer. As cartas concretizam essa situação e permitem que ele revise, nesse contato ao mesmo tempo tão precário e tão íntimo, suas amizades e suas crenças. A troca de correspondência é uma experiência que se transformou demais nas duas últimas décadas. Nosso tempo, afinal de contas, é o da comunicação imediata. No entanto, contrariando as aparências, o contato permanece cheio de ambiguidades, ainda precário e ao mesmo tempo íntimo.

O livro traz uma variedade de vozes, estilos, narradores e datas. Qual o desafio desse tipo de escrita?

LB: Juntamente com a estrutura geral dos capítulos, que giram em torno de um mote central, esse foi o maior desafio na elaboração do romance. Os três planos da narrativa não se relacionam pelo enredo. Ao contrário, as personagens têm pouco ou nenhum conhecimento uma da outra. Sua relação se dá num outro plano, naquilo que partilham mal sabendo que partilham. Para isso funcionar, seria preciso que cada plano fosse escrito de maneira distinta, de maneira que o leitor pudesse identificar cada um desses planos com facilidade. Era necessário também que não houvesse diferenças enormes de registro entre eles. Unidade e distinção ao mesmo tempo, assim como acontece, no plano do enredo, com as vidas que pouco e tudo têm a ver umas com as outras. Esse é o desafio difícil que procurei vencer. O leitor poderá verificar se deu tudo certo ou não.

Você teve uma preocupação com a fidelidade aos fatos históricos, ao escrever o romance, ou eles são apenas pano de fundo?

LB: Gosto de pensar que os “fatos históricos” integram a estrutura da narrativa, sendo mais que pano de fundo. Procurei ser preciso – sempre pensando na precisão que se pode esperar de um texto ficcional – porque isso contribui para que o leitor tenha uma impressão mais forte de realidade. E também porque me interessava que o livro se ligasse à realidade do lugar onde ele foi escrito e onde sua trama tem lugar.

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“A Relíquia”, de Eça de Queirós: humor e ironia em um clássico realista

Por Renata de Albuquerque*

Um romance realista cheio de ironia, humor e com um toque de cinismo. Assim é A Relíquia, romance de Eça de Queirós, publicado em 1887 em Portugal. O livro é narrado por Teodorico Raposo (Raposão), órfão de pai e mãe que, ainda criança, vai morar com sua tia, Dona Maria do Patrocínio (Titi), uma senhora beata, avara e casta. É ela quem controla a fortuna que o sobrinho herdará, no futuro.

As características da tia do narrador não são colocadas por acaso pelo autor. Eça de Queirós foi integrante da chamada Geração de 70 de Portugal, um grupo de artistas e intelectuais que desejava a renovação da  vida política e cultural portuguesa, que consideravam decadente. A obra Causas da decadência dos Povos Peninsulares nos últimos três séculos, de Antero de Quental, componente do grupo, propõe que são três os elementos que levam ao atraso científico e industrial e à decadência moral, econômica e social: o catolicismo, a monarquia absolutista e as conquistas ultramarinas. Em A Relíquia, Eça de Queirós lança mão de uma personagem beata para criticar a igreja católica e a sociedade portuguesa de então.

Enredo

A Relíquia narra as memórias de Teodorico Raposo, órfão cuja mãe morreu no dia seguinte ao parto (um sábado de aleluia) e que, por parte de pai, era neto de padre.  Tudo é contado com um forte tom de ironia. Por isso, o que está posto no romance deve ser lido com uma certa desconfiança do leitor. Graças a este recurso, a obra é uma leitura que agrada e diverte o leitor, pelo humor ácido e pelo cinismo. Teodorico narra as desventuras de viver com a tia e também suas aventuras em uma peregrinação à Terra Santa – viagem que Raposo realiza porque a tia não concordara em enviá-lo a Paris, cidade que Dona Maria do Patrocínio considerava um berço de vício e perdição. Titi pede ao sobrinho que lhe traga uma relíquia de Jerusalém.    

Na Terra Santa, Teodorico passa por uma experiência fantástica. Ele assiste pessoalmente a todo o sofrimento de Jesus Cristo e descobre que, em vez de ressuscitar, ele morreu de fato. Por causa deste episódio, muitos críticos acreditam que o romance fuja um pouco do realismo. Mas, no decorrer da trama, o realismo está fortemente presente.

Obviamente, entretanto, Teodorico não deixa de viver aventuras, ainda que em Jerusalém. Lá ele conhece Miss Mary, com quem tem um romance. Quando se separam, ela lhe dá como lembrança sua camisola, embrulhada em um pacote.

Para honrar a promessa que fez à tia – de trazer-lhe uma relíquia da Terra Santa – Teodorico trança uma falsa coroa de espinhos, que embrulha, de presente para Dona Maria do Patrocínio.

O narrador encontra, em seu caminho, uma mendiga e dá a ela a camisola de Miss Mary. Mas, em vez disso, confunde os pacotes e entrega-lhe a falsa coroa de espinhos. Ao voltar ao Brasil, entrega a camisola à tia que, então, deserda-o. Teodorico lamenta não ter convencido a tia de que aquela seria a camisola de Maria Madalena. Então, começa a vender “relíquias” de Jerusalém, que ele mesmo fabrica, mas o negócio declina com o tempo.

No final, Teodorico Raposo casa-se, torna-se pai e recebe a comenda de Cristo, sem, mesmo assim, deixar de pensar que poderia ter feito fortuna se tivesse dito uma mentira convincente  à tia beata.

Conheça outros títulos da Coleção Clássicos Ateliê


 
*Jornalista, Mestre em Literatura Brasileira pela FFLCH/USP, autora da Dissertação Senhoras de Si: o Querer e o Poder de Personagens Femininas nos Primeiros Contos de Machado de Assis.

Luís Bueno fala sobre a nova edição de “A Trágica História do Doutor Fausto”

Fausto, de Goethe, talvez seja hoje uma das obras mais conhecidas sobre o homem que faz um pacto com Mefistófeles. Mas a peça, publicada no século XIX, está longe de ser a primeira sobre o tema. Johann Faust, um mago necromante – alguém capaz de se comunicar com o mundo espiritual – viveu no início dos anos 1500 e foi tema até mesmo para Martinho Lutero. Sua  fama deu origem a diversas narrativas ao longo dos séculos. Este A Trágica História do Doutor Fausto, que a Ateliê acaba de lançar, reúne A Trágica História do Doutor Fausto, de Christopher Marlowe, e História do Doutor João Fausto, de 1587, de autor anônimo alemão. O primeiro texto foi traduzido por Luís Bueno e Caetano W. Galindo e o segundo por Mario Luiz Frungillo. O volume, mais um da Coleção Clássicos Comentados, tem organização, notas e introdução de Luís Bueno e posfácio de Patrícia da Silva Cardoso. A seguir, Bueno fala ao Blog da Ateliê:

Como se deu a reunião das pessoas envolvidas no projeto de traduzir os dois textos?

Luís Bueno: Essa reunião se deu há cerca de quinze anos, com a constatação de que não temos muitas traduções do teatro elisabetano no Brasil, além de Shakespeare, e com a provocação de um professor da Unicamp, Eric Mitchell Sabinson, que havia sido meu orientador no mestrado. Uma das peças mais importantes do período é justamente o Fausto de Marlowe, e pareceu lógico começar com ela para dar uma contribuição para diminuir essa lacuna. Sou professor na Universidade Federal do Paraná e logo convidei meu colega de departamento Caetano W. Galindo para traduzir comigo a peça. Mas ainda antes de começarmos a trabalhar, imaginei um volume mais amplo, que trouxesse também a primeira versão escrita da história do mítico mago, aquela de autor anônimo impressa em Frankfurt em 1587, A história do Doutor João Fausto. Falei com um outro amigo, tradutor do alemão, Mario Luiz Frungillo, e ele se interessou imediatamente em fazer a tradução do texto para compor o livro. Por fim, entrou na empreitada Patrícia da Silva Cardoso, que se incumbiu de fazer uma abordagem crítica não apenas dos dois textos, mas também da tradição fáustica.

Qual a contribuição dos envolvidos?

LB: Eu e Caetano W. Galindo traduzimos e anotamos juntos A trágica história do doutor Fausto de Marlowe. Mario Luiz Frungillo traduziu e anotou a História de João Fausto. Patrícia da Silva Cardoso escreveu o posfáco crítico. Com esse material em mãos, eu assumi a tarefa de escrever uma introdução que localizasse os textos para o leitor do nosso tempo. Por fim, decidi acrescentar mais um texto, que me pareceu ser útil tanto para o leitor de Marlowe quanto para o interessado na história do mito fáustico. É que Marlowe utilizou como fonte para escrever sua peça não o texto alemão, mas sim sua tradução inglesa, provavelmente publicada já no ano seguinte, em 1588. Como era comum naquele tempo, o tradutor, também anônimo, se deu grande liberdade e promoveu várias alterações no texto. Para dar ideia da diferença entre as duas versões, traduzi para o português alguns trechos da tradução inglesa para que o leitor pudesse cotejar e verificar o alcance das mudanças feitas pelo tradutor.

 

Luís Bueno

Qual a importância de um trabalho desta magnitude? Já havia outras traduções dessas obras no Brasil? Que inovação este volume, em particular, traz ao leitor?

LB: Quando começamos o projeto, a peça de Marlowe não estava disponível para o leitor brasileiro. Alguns anos depois, a editora Hedra republicou aqui uma tradução portuguesa. Salvo engano, este volume traz tanto a primeira tradução brasileira da peça quanto do texto alemão de 1587, o que em si já pode ser considerado uma inovação. Mas considero a reunião dos textos num só volume, acrescidos de material crítico e informativo original o aspecto mais inovador do volume.

 

O tema do pacto com o demônio é bastante presente no imaginário humano e também na literatura mundial (no Brasil, podemos pensar em Grande Sertão: Veredas, por exemplo, mas há diversas outras obras que abordam o tema). Entretanto, Fausto parece ser a gênese dessa questão. Em que medida se deu o desafio da tradução de textos tão antigos, sobre os quais nem mesmo há certeza sobre qual seria a “versão correta”? Que cuidados a equipe de tradutores teve que tomar para realizar o trabalho?

LB: As histórias de pacto com o demônio datam do início do Cristianismo e foram constituindo pouco a pouco, na Europa, uma larga tradição oral. Essa tradição encontra na figura do doutor Fausto, um sábio com fama de mago que viveu na Alemanha na virada do século XV para o XVI, uma espécie de maturação e síntese. Na peça de Marlowe inicia-se uma inflexão importante nessa tradição, pois o personagem começa a ser caracterizado como um indivíduo moderno, com os dilemas de nosso tempo, e é essa figura que vai constituir uma nova tradição, a especificamente fáustica, que passa pelo mais conhecido dos Faustos, o de Goethe, para desembocar, no século XX, em obras capitais como o Fausto de Fernando Pessoa, o Doutor Fausto, de Thomas Mann e Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa. A tradução de textos mais antigos de fato exige certos cuidados particulares. No caso da História de João Fausto, felizmente há um texto bem fixado. No caso de A Trágica História do Doutor Fausto as coisas são diferentes. O grande problema é que não houve edições durante a vida de Marlowe e duas versões diferentes circularam mais tarde. Até hoje, apesar do grande esforço crítico dedicado à questão, não foi possível determinar qual seria a versão “verdadeira” da peça. No nosso caso, a decisão foi a de escolher a versão mais curta, chamada de A, de entrecho mais concentrado, ainda que cotejando com a outra, o texto B, que foi pontualmente utilizada.

 

Christopher Marlowe

Por que reunir em um só volume A Trágica História do Doutor Fausto e a História do Doutor João Fausto? O que o leitor poderá perceber ao ler ambos os textos de uma só vez, traduzidos pelos mesmos tradutores?

LB: Ao ler os dois textos o leitor vai ter a oportunidade de testemunhar o nascimento desse que é um dos temas mais marcantes da literatura moderna. Na História do Doutor João Fausto o autor alemão anônimo quer divertir, mas principalmente moralizar. O personagem aparece como alguém cujo exemplo não deve ser seguido e ponto final. A moral é muito simples: não vale a pena arriscar tudo para concretizar nossos desejos, não vale a pena fazer o pacto. Na peça de Marlowe estamos num ambiente bastante diferente, o da chamada alta literatura de seu tempo, e as intenções moralizantes são substituídas pelo dilema, pelo problema que é desejar mais do que nos está em princípio destinado. Nela o tema se aprofunda e vemos a dinâmica de um sujeito que não pode apenas ser condenado pelo que fez, mas cujo drama pode sim ser compreendido – o que não quer dizer necessariamente justificado, aqui não cabem julgamentos simplistas. Ao invés de um sujeito de quem temos que nos afastar de qualquer maneira, o que o texto de Marlowe nos dá é a oportunidade de nos identificarmos com as questões suscitadas pela trajetória do protagonista e de colocarmos nossos próprios desejos no espelho dos dele.

 

Por se tratar de um livro da coleção Clássicos Comentados, esse volume se destina apenas ao leitor que faz pesquisas acadêmicas ou também pode agradar ao leigo?

LB: A organização do volume e a tradução não tiveram em mente um leitor específico que fosse um pesquisador. Ao contrário, a ideia foi a de tornar acessíveis os textos a quem quer que os deseje ler. E, quem sabe, a quem se interesse por montar a peça de Marlowe. Afinal, uma peça só se realiza completamente no palco, não é mesmo?

 

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