“Temos que redimensionar o papel de Lima Barreto na literatura brasileira”, diz pesquisador

Por Renata de Albuquerque

Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá é um caso raro na literatura brasileira. Apesar de escrito por um dos mais importantes autores nacionais, é um livro pouco lido, pouco conhecido, pouco estudado e pouco editado. No ano em que Lima Barreto é escolhido o autor homenageado da FLIP – Festa Literária de Paraty – a Ateliê Editorial repara este equívoco e lança, em uma edição especial, o romance.

O volume é organizado por Marcos Scheffel, professor da UFRJ, que fala a seguir sobre este livro ainda obscuro de Lima Barreto:

Marcos Scheffel

O que o levou a estudar esta obra, que, ao contrário de outras de Lima Barreto, ainda é praticamente desconhecida do público?

Marcos Scheffel: Em 2005, ingressei no mestrado em Literatura Brasileira na Universidade Federal de Santa Catarina sob orientação da professora Helena Fava Tornquist. No mestrado, meu trabalho estava focado no Recordações do Escrivão Isaías Caminhas e nas anotações da intimidade de Lima Barreto. Foi ali que conheci mais de perto o Vida e Morte, vindo a descobrir que os dois romances (Vida e Morte e Recordações) tinham sido idealizados pelo autor num período semelhante. Quando ingressei no doutorado, em 2007, comecei a perceber as relações do Vida e Morte com as crônicas de Lima Barreto, que ganharam maior visibilidade a partir do livro Toda Crônica de Lima Barreto, organizado por Beatriz Resende e Rachel Valença. Além da qualidade estética, acredito que o fator determinante para escrever sobre o Vida e Morte – que resultou na tese Estações de passagem da ficção de Lima Barreto (UFSC, 2011) – foi justamente a menor incidência de estudos a respeito deste romance, que normalmente era citado de maneira vaga.

 

A demora em publicar o livro leva a crer que Lima Barreto pode ter reescrito vários trechos. Há registros desse processo?  Se sim, o que se pode apreender do que apontam as alterações?

MS: Há uma série de apontamentos sobre o romance que foram colocados por Francisco de Assis Barbosa no Diário Íntimo de Lima Barreto no ano de 1906. No entanto, essa data pode ser imprecisa, pois, como explica o biógrafo, foi baseado no texto “Explicação necessária”, em que o personagem narrador Augusto Machado explica os motivos que levaram a escrita do livro, que esse conjunto de anotações foi posto neste ano. Acredito que estes apontamentos sejam deste período ou de um período próximo. Isso pode ser comprovado por uma crônica publicada na Revista Fon-Fon em abril de 1907 e recentemente descoberta pelo pesquisador Felipe Botelho Corrêa. A crônica é na verdade o que viria a ser o terceiro capítulo do romance, intitulado Emblemas Públicos, com pequenos acréscimos. Além desse aproveitamento, há temas e técnicas comuns a produção do cronista Lima Barreto.

No texto de abertura da edição da Ateliê, algumas razões para que o livro não se tornasse tão conhecido são elencadas. Para quem ainda não teve acesso a esta edição, o que se poderia destacar a respeito? Por que esse texto se manteve quase desconhecido ao longo do século XX, mesmo depois da morte do autor?

MS: Este romance foi publicado pela primeira vez em 1919 pela Revista Brasileira sob a direção de Monteiro Lobato, que nutria grande admiração pelo autor de Triste Fim de Policarpo Quaresma. Apesar de ter recebido uma prêmio da Academia Brasileira de Letras, o romance encalhou. Para Lobato, os motivos desse encalhe teriam sido o título longo pouco atrativo e a percepção

dos leitores que se trataria da biografia de algum desconhecido. A partir dos anos 40, Vida e Morte ganha novas edições como a da Mérito (1943), com um belo prefácio de Paulo Rónai, e da Brasilense (1956) nas obras completas. Essas edições eram acompanhadas de uma série de contos – muito provavelmente por conta do tamanho do romance, que no caso da edição da Brasilense fugiria aos padrões dos demais volumes (tratava-se de padronização do formato, mas que trazia a ideia que o romance em si não bastava). No correr das décadas seguintes, Vida e Morte não mereceu tanta atenção da crítica, dos leitores e do mercado editorial – gerando uma espécie de ciclo de esquecimento. Espero que a partir desta edição possamos ver novos estudos sobre esta importante obra.

Lima Barreto, homenageado na FLIP 2017

Lima Barreto é um escritor que imprime em sua obra uma forte crítica ao seu tempo. Em “Vida e Morte…” temos um narrador mulato. Como isso ecoa na obra?

MS: No ensaio “Os olhos, a barca e o espelho”, Antonio Candido afirmava que Lima Barreto teria uma grande capacidade de criação quando queria apenas registrar (citando um exemplo do Diário Íntimo) e por outro lado quando queria “criar” via sua obra invadida por dados pessoais e por um engajamento demasiado. Uma objeção que faria a essa observação é que o Diário Íntimo é na verdade um livro montado / organizado depois da morte de Lima Barreto com apontamentos que o autor fazia com um nítido propósito ficcional, ou seja, há muito pouco de Diário ali, de registro das pequenas coisas do cotidiano.  Na minha percepção os romances de Lima Barreto sempre trazem essa perspectiva subjetiva que era uma marca da escrita dele, que pode ser percebida inclusive nas suas crônicas que são marcadas por um registro poético do cotidiano e por um desejo de diálogo e de ação na cena pública. A denúncia ao preconceito racial surgiu como uma necessidade de expressão de algo vivenciado por ele de uma maneira dramática.

 

Para o leitor do século XIX, que interesse “Vida e Morte…” pode despertar? Que questões ainda atuais o livro carrega?

MS: São muitas questões atuais, como a crítica à burocracia e ao uso da coisa pública em favor próprio

 

(no caso as críticas que são feitas ao Barão do Rio Branco). Tendo trabalhado muitos anos como amanuense, Lima Barreto pode observar as coisas mais antirrepublicanas que aconteciam na República e nunca deixou de denunciá-las.

 

Lima Barreto é um autor cujas obras têm um cunho político e filosófico/ideológico bastante acentuado. O que há em “Vida e Morte…”, sob este aspecto, que pode ser destacado?

MS: Lima Barreto apresenta no livro uma visão histórica que se opunha à visão Positivista (teleológica) que predominava em nosso meio intelectual. Quando havia um coro favorável a se soterrar nosso passado colonial, ele trazia uma noção relativa do belo e de uma história que não devia ser lida de maneira linear.  Aqueles prédios que eram considerados “feios” no início do século XX e que deveriam ser derrubados para modernização da cidade traziam um registro de outras épocas, de outras formas de ver o mundo. Nesse sentido, um dos trechos mais bonitos do livro é quando Gonzaga de Sá apresenta sua visão da história da cidade, uma visão que pressupõe o entrecruzamento de diferentes tempos que podiam ser percebidos numa caminhada ou num passeio de trem.

 

Quais inovações estéticas o livro traz?

MS: O romance praticamente não tem enredo, como observou Paulo Rónai. O enredo consiste basicamente nos diálogos entre Gonzaga de Sá e Augusto Machado (que relembra essas conversas com o velho funcionário público). Nesse sentido, temos um livro composto em quadros, com tomadas quase cinematográficas, como por exemplo, a cena em que o caixão de um personagem é transportado no trem da central do Brasil num domingo de sol em que as famílias saíam para passear. Tudo é visto da janela do trem e do bonde dando uma impressão cinematográfica. É um romance visual, imagético e marcado por percepções líricas do cotidiano. Isto era bastante inovador se pensarmos que foi um romance escrito em 1919 – três anos antes da Semana de Arte Moderna.

 

Lima Barreto é o homenageado da FLIP deste ano. Qual a importância de editar “Vida e Morte…” neste contexto?

MS: Um evento como a FLIP traz uma grande visibilidade para o autor homenageado. Há um movimento importante do mercado editorial com o lançamento de novas edições e estudos sobre o autor. Para aqueles que não conhecem o autor, é a oportunidade de travar um primeiro contato. Para os que já admiram a obra de Lima Barreto será um momento de atualizar os debates em torno de sua obra. Estou muito ansioso para ver todas as discussões que surgirão a partir da FLIP.

 

O que há, ainda, para ser (re)descoberto sobre a obra de Lima Barreto?

MS: Há muitas pesquisas ligadas a arquivos. Destaco por exemplo o trabalho da professora Carmem Negreiros (UERJ) em torno de uma série de recortes de jornais colecionados por Lima Barreto e com anotações pessoais às margens desses recortes. Também é necessário entender a ligação de Lima Barreto com os jornais e revistas onde publicou suas crônicas no sentido de termos uma clareza maior sobre a orientação dessas publicações (para que público se dirigiam, periodicidade, tiragens, posicionamentos ideológicos etc). Por fim, acho que temos que redimensionar o papel de Lima Barreto na literatura brasileira dando maior relevo ao seu projeto estético e ao fato de ter produzido uma obra significativa apesar de sua morte precoce aos 41 anos de idade.

Perto do abismo: Nove Degraus para o Esquecimento

O novo livro de poemas de Aguinaldo José Gonçalves, “Nove Degraus para o Esquecimento” acaba de ser lançado pela Ateliê. O volume traz ilustrações de Efigênia Helu, Geraldo Matos e Sebastião Rodrigues. São mais de 50 poemas. O primeiro, “Um sol emergiu”, parece tratar de esperança, mas alerta: “Enchaquetado de raios, o sol se tornou minha férvida prisão”. A partir dele, o leitor percorre um trajeto de recomposição e esquecimento até chegar ao último texto do livro, que revela, já no título: “Eu escrevi minha história”. Para Susana Busato, neste livro, “O retrato do sujeito, sua identidade íntima, confunde-se com a poesia que se procura num processo crítico de autodevoração”.

A seguir, o autor Aguinaldo José Gonçalves escreve sobre essa obra:

“Nove Degraus para o Esquecimento”consiste num livro de genuínos poemas escritos numa mescla entre a tradição clássica e os laivos da modernidade. Talvez neste sentido o livro aponte no seu processo composicional para os descaminhos da pós-modernidade. Traz como mote temático o tempo e o espaço numa espécie de verticalização bifurcada da existência. Não posso afirmar o que encontrará o leitor nesses descaminhos, mas posso afirmar que encontrará muitos “desvios de dentro” no movimento circular das imagens.

O título não pode e não deve ser explicitado mesmo porque o movimento interior que o construiu oculta todos os mistérios e segredos. Só sei que se chegasse ao décimo degrau o abismo estaria revelado. E nesse caso não existe nenhuma influência para a construção do livro, a não ser longínquos graus de familiaridade com alguma poesia após o livro ter sido composto.

Das narrativas ele se diferencia pelo gênero e dos outros livros de poemas diferencia-se aqui acolá pelo fluxo, pelo ritmo e pela consciência moduladora.

O material é inédito e o delineio do tempo para a sua elaboração é fragmentado e incomensurável.

Sem desafios…

Rosário Fusco sob o signo do imprevisto

Ronaldo Werneck

“Tanto que gastava um século para levar o copo à boca, embebido no mar, bebendo o mar… de repente copiando o céu de um vertiginoso azul: especial para místicos, invertidos em pane, astronautas e suicidas virtuais em olor de santidade ou de álcool, álcoois, alcaloides”. Assim Rosário Fusco desenhava Fulano, um dos personagens centrais de seu romance “a.s.a. – associação dos solitários anônimos” (Ateliê Editorial, São Paulo, 2003). E Fusco parecia desenhar a si mesmo: também ele, ao acaso, um autêntico “s.a.”. Como diz o narrador do romance: “num continente descoberto por acaso, é natural que o acaso impere”.

Praticamente auto exilado em Cataguases ao longo de seus últimos dez anos, foi esse vulcão de cultura e criatividade que tive o prazer de conhecer e de certa forma “praticar” (como ele gostava de dizer) entre 1968 e 1977. Um tempo jamais esquecido. Tanto que agora, ao se completarem 40 anos de sua morte (17.08.1977), acabo de publicar um livro que prima pelo afeto – Sob o signo do imprevisto (Poemação Produções/ Cataguases, 2017) –, onde falo um pouco de sua trajetória literária e, é claro, um muito sobre nossa amizade.

Rosário Fusco foi certamente grande influência, um norte para leituras, referencial de magna importância em minha trajetória de vida e literatura. Papos que ofuscavam e ofuscaram (vale o óbvio trocadilho) todos os demais tidos e havidos com outros e outros intelectuais ao longo de minha existência. Uma bênção (evoé, Fusco!) que recebi daquele mulato enorme e sagaz e triste e sarcástico e joco-sério – formado por essas porções todas que eram uma só e mágica poção na arquitetura e fascínio da personalidade de meu grande e inesquecível amigo.

“Tenho perdido ônibus, bondes, empregos, amizades. Nunca perdi a vontade de escrever. Vivo – quem não vive? – sob o signo do imprevisto, que manda chuva e manda guerra, protesto de títulos e cobradores à porta, falta de manteiga e falta de afeição, aumento do preço do cinema ou dores de cabeça irremovíveis. Escrever é um mal, é um bem, é um erro? É tudo isso e não é nada disso: é uma fatalidade, para encurtar palavras.” – ele nos dizia na entrevista que eu e Joaquim Branco fizemos para o Pasquim, e que se encontra em meu livro.

Com um mês de idade e órfão de pai, Rosário Fusco de Souza Guerra chega a Cataguases com a mãe, lavadeira – vindo de São Geraldo, Zona da Mata de Minas, onde nascera em 19.07.1910.  Duro início de vida: aprendiz de latoeiro, servente de pedreiro, pintor de tabuletas, prático de farmácia, professor de desenho.  Aos 17 anos é um dos criadores da Revista Verde e, aos 18, publica Poemas Cronológicos, parceria com Enrique de Resende e Ascânio Lopes, (Verde Editora – Cataguases, 1928). Em 1932, muda-se para o Rio de Janeiro, onde forma-se em Direito em 1937.

De 1928 a 1969 – quando a Editora Mondadori lançou na Itália seu romance L´Agressore, editado em 1943, no Rio, pela José Olympio – Fusco publica inúmeros títulos: Fruta de Conde, poesia, 1929; Amiel, ensaio, 1940; O Livro de João, 1944, Carta à Noiva, 1954, O Dia do Juízo, 1961, romances; Vida Literária, crítica, 1940; Introdução à Experiência Estética, ensaio, 1949; Anel de Saturno e O Viúvo, 1949, teatro; e Auto da Noiva, farsa, 1961.

Em 1976, sai nova edição de O Agressor, pela Francisco Alves Editora.  O mesmo livro é também republicado em 2000, pela Bluhum.  Em 2003, a Ateliê Editorial lança um romance inédito do escritor, a.s.a. – associação dos solitários anônimos. Existem ainda outros inéditos, como Vachachuvamor, romance; Um Jaburu na Tour Eiffel, livro de viagem; e Creme de Pérolas, poemas eróticos.

Em meados dos anos 60, ele volta para Cataguases. “Onde anda Rosário Fusco?” – eu me perguntava em 1996. “Onde andam o vozeirão, a velha e rombuda Parker 51, o imponderável bigode mexicano, a larga risada, o humor, a lágrima, o uísque, o cigarro, a lustradíssima bota do menino Rosário sobre a mesa do seu escritório na casa da Granjaria. Como a bota de Van Gogh, uma de suas admirações, “do rol das confessáveis” (as outras: Machado de Assis, Dostoievski, Beethoven). Ainda agora me pergunto: onde anda Rosário Fusco?

Quatro dias após sua morte, em crônica no Jornal do Brasil, Carlinhos Oliveira brindava à vida e fazia de suas palavras a melhor das elegias para Rosário Fusco: “Curiosamente, não recebo com tristeza a notícia de sua morte. Ele viveu intensamente, não desprezou nada, comeu e bebeu e estudou a vida com furor implacável. Não provou do veneno dos românticos, mergulhou de cabeça na festa, e cada minuto de sua vida foi sem dúvida uma vitória contra a insidiosa inimiga”.

 

 

Sob o signo do imprevisto pode ser solicitado diretamente à editora:

Poemação Produções – poemacaoproducoes@gmail.com – Tel (32) 3422-2671

 

O que fazer no frio? Ler!

O inverno chegou e, com ele, as famosas frentes frias e de ar polar, que invadem o Sul e Sudeste e mudam o clima tropical do país. Até mesmo regiões mais quentes experimentam temperaturas um pouco mais amenas. Torna-se comum ouvir que alguém tem “preguiça de sair da cama” por causa do frio. As pessoas passam mais tempo em casa, aquecidas, tentando fugir de ambientes externos. Para muitos, esse é o clima perfeito para ler.

Um bom café ou chá quente, um bolo caseiro, um cobertor aconchegante e um livro na mão. Há quem diga que essa é a verdadeira fórmula da felicidade. E, justamente pensando nessas pessoas que a Ateliê Editorial criou a campanha “Aqueça seu inverno com a companhia de um bom livro”.

São mais de 40 títulos em promoção, com descontos e frete grátis para os estados da região sudeste (nas compras acima de R$ 80,00). Tem de tudo: poesia, romance, estudos acadêmicos e música. Confira algumas sugestões:

 

A.S.A. – Associação dos Solitários Anônimos

Dono de um temperamento polêmico, Rosário Fusco (1910-1976) viveu a literatura de maneira intensa e apaixonada. Deixou várias obras inéditas, dentre as quais este a.s.a., um romance ousado e divertido, cheio de sarcasmo. Para o crítico Fábio Lucas, que assina o posfácio, trata-se de “uma narrativa de veloz andamento, polifacetada, palmilhada de contradições, a explorar um recanto especial do cenário brasileiro: a marginalidade acumulada ao longo do cais. Um poliedro de inspiração suprarreal”.

 

 

Contos do Divã

O que há de literatura numa sessão de psicanálise? Entre quatro paredes, dois sujeitos enfrentam palavras e silêncios, revelações e resistências, tramas de desejo, sofrimento e angústia. São histórias assim que a psicanalista Sylvia Loeb relata em Contos do Divã. No sentido inverso dos textos técnicos, a autora optou pela ficção como forma de capturar o assombro e os impasses que pontuam esse encontro. A partir da relação entre analista e analisando, ela faz uma literatura das paixões humanas.

 

Feito Eu

Ao abrir as portas da memória autobiográfica, a escritora Elisa Nazarian resgata o mais íntimo que existe em todos nós: o campo dos afetos. Sem rodeios nem melodramas, ela nos conduz delicadamente a esse universo tão particular quanto universal, sem o qual não nos saberíamos humanos. Em Feito Eu, Elisa trata dos momentos cotidianos, às vezes perturbadores, e explora o amor no que ele tem de mais visceral e doloroso. Seu verso, límpido e pungente, consegue ser confessional sem se tornar piegas.

 

Estimar Canções

Este livro fala das dosagens avaliativas típicas do pensamento humano. Fazemos constantes estimativas sobre o valor dos indivíduos, das ações, dos objetos, das artes, dos fenômenos naturais, sociais, psicológicos, enfim, dos fatos que ingressam em nosso campo de presença. Tudo vem acompanhado de certa apreciação como se pudéssemos calcular com medidas (quase) consensuais o nível de relevância dos acontecimentos e conteúdos da vida. Tais quantificações subjetivas, estudadas pela semiótica contemporânea, estão no cerne dos capítulos aqui apresentados.
Claro que os cancionistas também realizam suas estimativas íntimas quando fazem suas canções, inserindo mais (ou menos) música, mais (ou menos) fala, mais (ou menos) concentração temática, mais (ou menos) expansão passional, toda vez que criam suas relações de melodia e letra e calibram o próprio canto. São eles os principais personagens deste volume.

Gentíssima

Era com lápis, papel e noções de taquigrafia que a jovem jornalista Maria Ignez registrava, nos anos de 1960, depoimentos de famosos e anônimos. Deixando de lado o gravador e convocando a prosa solta, ela capturava na fala das pessoas os instantes mais fugazes, cotidianos. Em sua escrita ágil, a autora consegue ir muito além da biografia ou do furo jornalístico. Seus entrevistados compõem um rico mosaico cultural: de Dalí a Di Cavalcanti, de Pixinguinha a Gil, de Kubitschek a uma lavadeira carioca.

 

No Rastro de Afrodite – Plantas Afrodisíacas e Culinária

Por que algumas plantas e pratos são considerados afrodisíacos? É em torno dessa pergunta que giram as discussões deste livro. O autor, PhD em Botânica, analisa cientificamente mais de quatrocentas espécies vegetais. Com isso, ele pretende mostrar quais delas, de fato, exercem influência sobre o apetite sexual dos seres humanos. No Rastro de Afrodite apresenta também algumas receitas culinárias capazes de despertar a libido.

A Questão da Ideologia no Círculo de Bakhtin

Por Renata de Albuquerque

 

O intelectual russo Mikhail Mikhailovich Bakhtin (1895-1975) é uma das mais importantes referências de análise do discurso em termos linguagem e literatura, tendo estudado noções, conceitos e categorias de análise da linguagem com base em discursos cotidianos, artísticos, filosóficos, científicos e institucionais.  O  chamado Círculo de Bakhtin é grupo multidisciplinar de intelectuais russos, que incluía, além de Bakhtin, Voloshinov e Medvedev. Eles se reuniram regularmente entre 1919 e 1929 e uma de suas mais importantes contribuições às ciências humanas foi foi enxergar a linguagem como um constante processo de interação mediado pelo diálogo – e não apenas como um sistema autônomo. Em A Questão da Ideologia no Círculo de Bakhtin, Luiz Rosalvo Costa organiza sua pesquisa em dois eixos centrais: a  compreensão de que a produção sígnica (verbal e não-verbal) é o lugar de materialização das relações entre as determinações do sistema econômico e as formas de significar e atribuir sentidos à realidade; e a análise da divulgação científica como um campo privilegiado de reflexo e refração do conjunto de transformações pelos quais passa o sistema produtivo e a sociedade de um modo geral. A seguir, o  mestre e doutor em Letras (Filologia e Língua Portuguesa) pela USP, onde atualmente realiza estágio de pós-doutorado. Integra o grupo de pesquisa Diálogo, fala sobre seu livro recém-lançado:

O que o motivou a estudar Bakhtin com o recorte feito em sua tese?

Luiz Rosalvo Costa: A minha pesquisa de doutorado, na verdade, é um desdobramento do estudo que realizei no mestrado, que também foi sobre o discurso da SBPC e também utilizou como base teórica o Círculo de Bakhtin. O doutorado foi, então, uma oportunidade para aprofundar um pouco mais o conhecimento sobre a concepção de linguagem desenvolvida por esse grupo de estudiosos russos. E este é um ponto crucial: embora a recepção ocidental da obra tenha transformado Bakhtin no centro dessa produção intelectual cujas bases se desenvolveram nas décadas iniciais do século XX na Rússia/União Soviética, estudos mais recentes vêm dando conta de que na realidade as coisas talvez não fossem bem assim, e que, no tocante à reflexão sobre a linguagem, havia no grupo dois outros intelectuais tão ou mais importantes que Bakhtin: Valentin Volóchinov e Pável Medviédev. Então essa foi uma das grandes motivações do meu estudo: conhecer um pouco mais sobre a relação entre os trabalhos desses três autores e, ao mesmo tempo, sobre o modo como esses trabalhos se articulavam em uma concepção de linguagem de fundo comum.

 

Por que a escolha de debruçar-se sobre os enunciados da Revista Ciência Hoje?

LRC: Neste caso também se trata de um desdobramento do estudo realizado no mestrado, que tinha se voltado para o discurso da SBPC materializado nos editoriais da revista Ciência Hoje na década de 1980. Esse estudo (do mestrado) mostrou que a revista Ciência Hoje (por sua linha editorial, concepção gráfica, espectro de temas e assuntos e, em especial, por seus editoriais) constituiu-se em um dos principais instrumentos de que a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, a SBPC, lançou mão para participar ativamente do debate que naquele período se desenrolava no País sobre a necessidade e os rumos da chamada redemocratização. Nessas condições, a atuação da revista se caracterizou (e os seus editoriais evidenciavam isso exemplarmente) por uma forte politização e uma considerável retorização, traduzidas, entre outras coisas, pela utilização de procedimentos estéticos e discursivos que tinham como propósito defender uma determinada concepção de sociedade e de política. Então a ideia no estudo de doutorado foi voltar à revista em um outro período, a fim de verificar se e de que maneira grandes transformações ocorridas nas últimas décadas se refletiam e se refratavam em suas concepções e práticas.

Que desafios encontrou durante esse percurso de estudos?

LRC: Penso que o principal desafio (e talvez fosse mais apropriado dizer ‘o principal problema’) foi o acesso ao material necessário para fazer a pesquisa, e aqui me refiro especialmente à bibliografia do próprio Círculo de Bakhtin e à bibliografia sobre o Círculo de Bakhtin. Apesar de todos os avanços e ‘facilidades’ decorrentes do desenvolvimento das novas tecnologias de comunicação e de informação, enfrentei algumas dificuldades no acesso a certos textos com os quais precisava trabalhar. Só para exemplificar: há um texto de Bakhtin chamado Problemas da obra de Dostoiévski, que foi publicado na URSS em 1929. Muitos anos depois, em 1963, foi publicada uma nova versão (revisada, modificada) desse texto sob o título de Problemas da poética de Dostoiévski. A despeito de tudo o que possam ter em comum, os livros não são a mesma coisa. São, no mínimo, duas versões diferentes, produzidas em momentos diferentes, em diálogo com circunstâncias e realidades histórico-sociais diferentes etc etc. Ocorre que no mundo ocidental o livro que acabou ganhando proeminência foi o de 1963, o que é demonstrado, por exemplo, pelo fato de apenas essa versão ter sido traduzida para o português, o inglês, o espanhol e o francês. Como trabalhei com as traduções, tive que sair buscando alternativas quanto a isso, porque era fundamental fazer uma discussão sobre a primeira versão do livro, publicada por Bakhtin em 1929. Questões centrais (por exemplo: a relação de Bakhtin com o marxismo, a articulação do seu trabalho com os trabalhos de Medviédev e Volóchinov etc.) não poderiam ser adequadamente abordadas sem o recurso a esse texto. Afinal, acabei encontrando uma tradução para o italiano (em uma ótima edição, aliás) e foi com ela que pude, então, comparar as duas versões do livro.

Felizmente para os pesquisadores brasileiros atuais que não trabalham diretamente com o original em russo, há uma boa notícia. Informações dão conta de que uma tradução do livro de 1929, feita diretamente do russo, está sendo preparada. Vamos aguardar.

 

A questão da presença do marxismo em Bakhtin é bastante polêmica. Como, em sua tese, lidou com este aspecto teórico? De que maneira isso interferiu na sua análise?

LRC: Essa é realmente uma questão difícil e foi justamente um dos pontos tratados na tese. De modo geral, as posições dos comentaristas e estudiosos do Círculo situam-se entre dois extremos. Em um deles, caracteriza-se Bakhtin como um marxista. No outro, ele é qualificado como um antimarxista radical. A posição que defendi na tese e que, creio, pode ser demonstrada pela leitura dos textos do Círculo é que Bakhtin nem era marxista nem antimarxista. Era, sim, um estudioso e um pesquisador que teve com o marxismo uma relação ambígua. Por um lado, ele próprio chegou a declarar que nunca foi marxista e que, portanto, o marxismo não era uma das suas referências teóricas fundamentais. Por outro lado, há várias passagens e formulações em seus textos que estão claramente em diálogo (para dizer o mínimo) com proposições marxistas. Uma das coisas que se pode dizer sobre isso é que, mesmo não tendo o marxismo como sua principal referência teórica, não seria possível a Bakhtin ficar imune à presença dessa corrente teórica, dado que o marxismo em grande medida hegemonizou (primeiro como teoria revolucionária e depois, na versão stalinista, como uma espécie de corruptela transmutada em pensamento oficial do Estado) o ambiente intelectual em que Bakhtin produziu a sua obra. É importante dizer, no entanto, que se em relação a Bakhtin existe essa ambiguidade, o mesmo não ocorre com Volóchinov e Medviédev, que tinham na vida institucional soviética uma atuação muito mais expressiva que Bakhtin, e cujos textos se apresentavam como orientados diretamente por uma epistemologia marxista.

 

É possível perceber uma mudança no discurso de divulgação científica durante o período estudado? De que maneira essa mudança aconteceu? Que direção esse discurso tomou?

LRC: Sim, minha tese propõe exatamente uma leitura no sentido de que, durante a década de 1980, sob os influxos, condicionamentos e determinações da realidade histórico-social daquela época, o discurso de divulgação científica da SBPC na revista Ciência Hoje, inscrito em um projeto modernista de atuação, era marcado pela politização e pela retorização. Um dos efeitos disso é que o discurso da revista nesse período, materializado nos seus diversos enunciados,  era atravessado por posições associadas a matrizes ideológicas presentes na sociedade, que debatiam sobre os rumos do país, o estatuto das relações entre Estado e sociedade civil, o papel da ciência e dos cientistas na vida social etc. Nas décadas de 1990 e 2000 esse quadro muda um pouco e o discurso da revista passa aos poucos a assumir uma certa despolitização, traço refletido também nos seus editoriais, cujas mudanças vão no sentido de torná-los menos uma afirmação do ponto de vista da revista e mais uma apresentação neutra do conteúdo da edição.

Rosário Fusco ganha perfil escrito por Ronaldo Werneck

Ronaldo Werneck foi amigo de Rosário Fusco durante anos e acaba de lançar “Sob o signo do imprevisto”, em que traça um perfil do autor de ASA – Associação dos Solitários Anônimos.

O Correio Braziliense deu destaque ao lançamento: http://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/diversao-e-arte/2017/06/10/interna_diversao_arte,601515/ronaldo-werneck-traca-retrato-poetico-do-escritor-mineiro-rosario-fusc.shtml