Luís Bueno fala sobre a nova edição de “A Trágica História do Doutor Fausto”

Fausto, de Goethe, talvez seja hoje uma das obras mais conhecidas sobre o homem que faz um pacto com Mefistófeles. Mas a peça, publicada no século XIX, está longe de ser a primeira sobre o tema. Johann Faust, um mago necromante – alguém capaz de se comunicar com o mundo espiritual – viveu no início dos anos 1500 e foi tema até mesmo para Martinho Lutero. Sua  fama deu origem a diversas narrativas ao longo dos séculos. Este A Trágica História do Doutor Fausto, que a Ateliê acaba de lançar, reúne A Trágica História do Doutor Fausto, de Christopher Marlowe, e História do Doutor João Fausto, de 1587, de autor anônimo alemão. O primeiro texto foi traduzido por Luís Bueno e Caetano W. Galindo e o segundo por Mario Luiz Frungillo. O volume, mais um da Coleção Clássicos Comentados, tem organização, notas e introdução de Luís Bueno e posfácio de Patrícia da Silva Cardoso. A seguir, Bueno fala ao Blog da Ateliê:

Como se deu a reunião das pessoas envolvidas no projeto de traduzir os dois textos?

Luís Bueno: Essa reunião se deu há cerca de quinze anos, com a constatação de que não temos muitas traduções do teatro elisabetano no Brasil, além de Shakespeare, e com a provocação de um professor da Unicamp, Eric Mitchell Sabinson, que havia sido meu orientador no mestrado. Uma das peças mais importantes do período é justamente o Fausto de Marlowe, e pareceu lógico começar com ela para dar uma contribuição para diminuir essa lacuna. Sou professor na Universidade Federal do Paraná e logo convidei meu colega de departamento Caetano W. Galindo para traduzir comigo a peça. Mas ainda antes de começarmos a trabalhar, imaginei um volume mais amplo, que trouxesse também a primeira versão escrita da história do mítico mago, aquela de autor anônimo impressa em Frankfurt em 1587, A história do Doutor João Fausto. Falei com um outro amigo, tradutor do alemão, Mario Luiz Frungillo, e ele se interessou imediatamente em fazer a tradução do texto para compor o livro. Por fim, entrou na empreitada Patrícia da Silva Cardoso, que se incumbiu de fazer uma abordagem crítica não apenas dos dois textos, mas também da tradição fáustica.

Qual a contribuição dos envolvidos?

LB: Eu e Caetano W. Galindo traduzimos e anotamos juntos A trágica história do doutor Fausto de Marlowe. Mario Luiz Frungillo traduziu e anotou a História de João Fausto. Patrícia da Silva Cardoso escreveu o posfáco crítico. Com esse material em mãos, eu assumi a tarefa de escrever uma introdução que localizasse os textos para o leitor do nosso tempo. Por fim, decidi acrescentar mais um texto, que me pareceu ser útil tanto para o leitor de Marlowe quanto para o interessado na história do mito fáustico. É que Marlowe utilizou como fonte para escrever sua peça não o texto alemão, mas sim sua tradução inglesa, provavelmente publicada já no ano seguinte, em 1588. Como era comum naquele tempo, o tradutor, também anônimo, se deu grande liberdade e promoveu várias alterações no texto. Para dar ideia da diferença entre as duas versões, traduzi para o português alguns trechos da tradução inglesa para que o leitor pudesse cotejar e verificar o alcance das mudanças feitas pelo tradutor.

 

Luís Bueno

Qual a importância de um trabalho desta magnitude? Já havia outras traduções dessas obras no Brasil? Que inovação este volume, em particular, traz ao leitor?

LB: Quando começamos o projeto, a peça de Marlowe não estava disponível para o leitor brasileiro. Alguns anos depois, a editora Hedra republicou aqui uma tradução portuguesa. Salvo engano, este volume traz tanto a primeira tradução brasileira da peça quanto do texto alemão de 1587, o que em si já pode ser considerado uma inovação. Mas considero a reunião dos textos num só volume, acrescidos de material crítico e informativo original o aspecto mais inovador do volume.

 

O tema do pacto com o demônio é bastante presente no imaginário humano e também na literatura mundial (no Brasil, podemos pensar em Grande Sertão: Veredas, por exemplo, mas há diversas outras obras que abordam o tema). Entretanto, Fausto parece ser a gênese dessa questão. Em que medida se deu o desafio da tradução de textos tão antigos, sobre os quais nem mesmo há certeza sobre qual seria a “versão correta”? Que cuidados a equipe de tradutores teve que tomar para realizar o trabalho?

LB: As histórias de pacto com o demônio datam do início do Cristianismo e foram constituindo pouco a pouco, na Europa, uma larga tradição oral. Essa tradição encontra na figura do doutor Fausto, um sábio com fama de mago que viveu na Alemanha na virada do século XV para o XVI, uma espécie de maturação e síntese. Na peça de Marlowe inicia-se uma inflexão importante nessa tradição, pois o personagem começa a ser caracterizado como um indivíduo moderno, com os dilemas de nosso tempo, e é essa figura que vai constituir uma nova tradição, a especificamente fáustica, que passa pelo mais conhecido dos Faustos, o de Goethe, para desembocar, no século XX, em obras capitais como o Fausto de Fernando Pessoa, o Doutor Fausto, de Thomas Mann e Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa. A tradução de textos mais antigos de fato exige certos cuidados particulares. No caso da História de João Fausto, felizmente há um texto bem fixado. No caso de A Trágica História do Doutor Fausto as coisas são diferentes. O grande problema é que não houve edições durante a vida de Marlowe e duas versões diferentes circularam mais tarde. Até hoje, apesar do grande esforço crítico dedicado à questão, não foi possível determinar qual seria a versão “verdadeira” da peça. No nosso caso, a decisão foi a de escolher a versão mais curta, chamada de A, de entrecho mais concentrado, ainda que cotejando com a outra, o texto B, que foi pontualmente utilizada.

 

Christopher Marlowe

Por que reunir em um só volume A Trágica História do Doutor Fausto e a História do Doutor João Fausto? O que o leitor poderá perceber ao ler ambos os textos de uma só vez, traduzidos pelos mesmos tradutores?

LB: Ao ler os dois textos o leitor vai ter a oportunidade de testemunhar o nascimento desse que é um dos temas mais marcantes da literatura moderna. Na História do Doutor João Fausto o autor alemão anônimo quer divertir, mas principalmente moralizar. O personagem aparece como alguém cujo exemplo não deve ser seguido e ponto final. A moral é muito simples: não vale a pena arriscar tudo para concretizar nossos desejos, não vale a pena fazer o pacto. Na peça de Marlowe estamos num ambiente bastante diferente, o da chamada alta literatura de seu tempo, e as intenções moralizantes são substituídas pelo dilema, pelo problema que é desejar mais do que nos está em princípio destinado. Nela o tema se aprofunda e vemos a dinâmica de um sujeito que não pode apenas ser condenado pelo que fez, mas cujo drama pode sim ser compreendido – o que não quer dizer necessariamente justificado, aqui não cabem julgamentos simplistas. Ao invés de um sujeito de quem temos que nos afastar de qualquer maneira, o que o texto de Marlowe nos dá é a oportunidade de nos identificarmos com as questões suscitadas pela trajetória do protagonista e de colocarmos nossos próprios desejos no espelho dos dele.

 

Por se tratar de um livro da coleção Clássicos Comentados, esse volume se destina apenas ao leitor que faz pesquisas acadêmicas ou também pode agradar ao leigo?

LB: A organização do volume e a tradução não tiveram em mente um leitor específico que fosse um pesquisador. Ao contrário, a ideia foi a de tornar acessíveis os textos a quem quer que os deseje ler. E, quem sabe, a quem se interesse por montar a peça de Marlowe. Afinal, uma peça só se realiza completamente no palco, não é mesmo?

 

Conheça outras obras de Luís Bueno

Ano novo, livro novo: Novos títulos e reedições Ateliê

O novo ano acabou de chegar, mas que ama ler já fez ou está fazendo a lista de leituras de 2019. E você, o que planeja ler em 2019? Novidades, clássicos, autores nacionais ou estrangeiros?

Para muita gente, um clássico é uma grande novidade. Por isso, relançamentos de títulos são sempre bem vindos para que os novos leitores possam encontrar livros que muitos já consideram essenciais. Por isso, neste ano, a Ateliê vai lançar títulos novos e relançar títulos de sucesso, todos feitos com o mesmo carinho de sempre, perfeitos para os leitores que amam edições bem cuidadas que valorizam o texto sem deixar de privilegiar um lindo projeto editorial. Confira:

 

O Tempo Vivo da Memória – Ensaios de Psicologia Social, de Ecléa Bosi, acaba de ser reeditado. A autora torna atuais as ideias de pensadores como Bergson, Benjamin, Gandhi e Simone Weil, e convida o leitor a dialogar sobre o que a memória recupera, redime e inspira. Dentro dessa perspectiva, os clássicos ajudam a compreender o cotidiano das metrópoles de hoje, com suas contradições entre lembrança e esquecimento.

 

Preservação do Patrimônio Arquitetônico da Industrialização, De Beatriz Mugayar Kühl, também está voltando às prateleiras, devido à sua importância para os pesquisadores da área. O livro traz a releitura crítica de algumas teorias, de modo a conciliá-las às circunstâncias atuais e guiar as intervenções concretas nesses bens. O texto aprofunda, especificamente, algumas questões sobre a restauração do patrimônio industrial. Assim, a autora busca superar certas lacunas conceituais nos atuais debates sobre preservação no Brasil.

Michelângelo – Cinquenta Poemas, traduzido por Mauro Gama, traz textos de um dos maiores gênios da humanidade, em função de suas pinturas e esculturas. Poucos sabem, no entanto, que ele encontrou na poesia um modo de dar vida àquilo que só as palavras podem expressar. Neste livro, o escritor e crítico literário Mauro Gama traduz 50 poemas do artista renascentista para o português da mesma época. O propósito foi estabelecer uma analogia entre o contexto histórico do original italiano e a cultura lusófona do período.

Fragmentos do Narciso e Outros Poemas, traduzido por Júlio Castañon Guimarães, é uma coletânea composta pela tradução de poemas extraídos dos dois principais conjuntos poéticos de Paul Valéry, o Album de vers Anciens (1920) e Charmes (1922), de modo a mostrar diferentes momentos e centros de atenção de sua poesia. Ao se adotar para este conjunto o título de um dos poemas, Fragmentos do Narciso, chama-se a atenção para a tensão entre realidade, imaginação e discurso que percorre toda a obra poética e crítica de Valéry.

Olho Imóvel Pela Força da Harmonia, de William Wordsworth, é uma  coletânea cujos poemas extraem de vivências banais uma dimensão sublime e uma contemplação da ordem do mundo. Com esta edição bilíngue, soma-se ao virtuosismo técnico do poeta a sensibilidade estética das traduções de Alberto Marsicano e John Milton. Wordsworth  é um dos maiores expoentes do romantismo inglês. Sua obra, dotada de uma notável visualidade cinematográfica, influenciou nomes importantes do modernismo, como Fernando Pessoa.

Velhos Amigos, de Ecléa Bosi, traz pequenas narrativas sobre as lembranças de velhos operários, imigrantes e outros personagens anônimos da vida brasileira. As histórias, que se colocam entre o conto e a crônica, tratam de episódios de amigos e família, em tom bem humorado.  A apresentação do livro é de Adélia Prado e as ilustrações, de Odilon Moraes.

O Pai, de Dirce de Assis Cavalcanti, conta, pelos olhos da filha do cadete Dilermano de Assis – assassino de Euclides da Cunha –, como a autora descobriu sua história familiar. Pelos olhos de criança e depois adolescente, seguimos a dolorosa tomada de consciência de ser “a filha do assassino”. No decorrer do depoimento, acompanhamos como ela perdeu e recuperou a estima pelo pai, protagonista da tragédia. Neste ano em que Euclides da Cunha é o homenageado da FLIP, saber mais sobre essa história é uma boa pedida de leitura!

 

 

Euclides da Cunha: Uma Odisseia nos Trópicos, de Frederic Amory, abandona os mitos e dá destaque ao gênio sem separá-lo de suas misérias. O autor dedicou-se como poucos a entender a personalidade e as ideias do autor de Os Sertões. Para isso ele confrontou, de modo rigoroso e objetivo, as problemáticas fontes de informação sobre o escritor. Esta biografia aprofunda e esclarece aspectos da vida e da obra de Euclides da Cunha até então pouco estudados. Outro livro fundamental para quem quer ficar por dentro de tudo o que acontecerá na FLIP!

Ateliê participa de evento da ECA para alunos de jornalismo

A Ateliê Editorial participou de um evento da Jornalismo Júnior, empresa de jornalismo júnior da ECA – Escola de Comunicação e Artes – da USP. A empresa é formada exclusivamente por alunos do curso que pretendem exercitar na prática os aspectos do jornalismo e tem como objetivo propor a discussão da profissão sempre que possível.

O evento “No Ar! Jornalismo na TV”, que teve a participação da Ateliê, tratou de discutir diferentes pontos do telejornalismo, promovendo alguns debates diversos que foram desde a influência da TV nos dias atuais, até como se dá o processo de produção de notícias nesse meio, passando também pela dinâmica do formato de programas documentais.

A editora foi uma das patrocinadoras do evento, cedendo exemplares de livros como O Livro no Jornal, da jornalista Isabel Travancas; e Papel-Jornal – Artigos de Jornalismo Cultural, do também jornalista Marcello Rollemberg. Os títulos foram sorteados para o público do evento.

O evento contou com a participação de nomes do jornalismo como Mauricio Stycer, Ananda Portela e Luana Ibelli, entre outros.

Veja algumas fotos:

“O Tempo Vivo da Memória – Ensaios de Psicologia Social” de Ecléa Bosi, volta às prateleiras

O Tempo Vivo da Memória – Ensaios de Psicologia Social é um daqueles livros essenciais para quem estuda ciências sociais e, especialmente, psicologia social. Escrito por Ecléa Bosi – professora de psicologia social da USP – e publicado pela primeira vez em 2003, ele ganha, agora, nova edição da Ateliê Editorial.

Na obra, Ecléa Bosi faz caminhos teóricos para tratar de memória, preconceito, conformismo e rebeldia. A autora procura tornar atuais as ideias de pensadores como Bergson, Benjamin, Gandhi e Simone Weil, e convida o leitor a dialogar sobre o que a memória recupera, redime e inspira. Dentro dessa perspectiva, os clássicos ajudam a compreender o cotidiano das metrópoles de hoje, com suas contradições entre lembrança e esquecimento.

O livro é um dos mais importantes títulos da autora, falecida em 2017. Sobre ele, Renato Tardivo escreveu:

“Atentando no início para os aspectos do cotidiano e seu dinamismo, o que os afasta das definições estanques e cronológicas (a que estamos mais acostumados) de História, Ecléa Bosi nos mostra que o tempo da memória não é o tempo morto dos calendários, mas o tempo ‘de outra história mais densa’, o tempo das pequenas coisas, dos gestos, o tempo que nos une a todos e que, por isso mesmo, escapa a qualquer apreensão definitiva”. (leia o texto completo aqui)

Além deste título fundamental, em 2019 a Ateliê também publica Velhos Amigos. O livro traz pequenas narrativas sobre as lembranças de velhos operários, imigrantes e outros personagens anônimos da vida brasileira. As histórias, que se colocam entre o conto e a crônica, tratam de episódios de amigos e família, em tom bem humorado.  A apresentação do livro é de Adélia Prado e as ilustrações, de Odilon Moraes.

 

Saiba mais sobre Ecléa Bosi

“O Língua” dá voz a índios e mamelucos, originalmente silenciados e oprimidos

O primeiro estranhamento do leitor acontece na capa. Língua é substantivo masculino? Sim. Neste caso, o termo é usado para indicar o intérprete que mediava as relações entre portugueses e índios, ainda durante o século XVI no Brasil. O romance de Eromar Bomfim alterna narradores para contar a história de Leonel, filho da índia Ialna e de Antônio Pereira, fazendeiro e padre. A seguir, Eromar, que também é autor também dos romances O Olho da Rua (Nankin Editorial) e Coisas do Diabo Contra (Ateliê Editorial), fala sobre o lançamento:

 

Como surgiu a ideia de O Língua?

Eromar Bomfim: Surgiu do desejo de narrar uma possível vivência psicológica do povo a partir da voz desse mesmo povo, no momento da formação de nossa sociedade, momento esse que lançou fundamentos psicossociais que parecem nos desunir e nos manter como uma nação não resolvida. Minha idéia era, então, criar personagens que, sendo nossos contemporâneos, tivessem existido no momento de mestiçagem de nossa sociedade e que pertencessem ao pólo oposto da sociedade dominante, narrando eles próprios, do seu ponto de vista, suas vivências. Por meio de um artifício literário, e baseado na idéia de que há sempre permanência na transformação, fiz meus personagens atravessarem séculos de existência.

O que significa língua, substantivo masculino?

EB: O termo “língua”, substantivo masculino, é sinônimo de “intérprete”. O língua era requisitado para intermediar o contato entre os portugueses e suas companhias militares na atividade de apresamento dos índios ou nas frentes de batalha.

 

O texto é ficcional, mas traz ao leitor alguns aspectos históricos. Poderia falar um pouco sobre como se deu a união destes dois universos? Qual deles prevalece no romance?

EB: Além de pesquisa etnográfica sobre os indígenas do Nordeste, li também a história da penetração dos colonizadores luso-brasileiros nos sertões nordestinos, notadamente no século XVII, momento de maior ataque a essas populações. Colhi episódios históricos dessa época, bem como pessoas reais que estiveram à frente desses episódios, e inseri neles personagens fictícios, justamente aqueles representantes do contingente anônimo e popular que a história oficial costuma desprezar. Posso dizer que os fatos históricos serviram de base sólida na qual eu plantei uma história totalmente fictícia.

 

Eromar Bomfim, fotografado por Hemerson Celtic

O romance tem diversos narradores. Quem são eles? O que você pretendeu com esta escolha estética?

EB: São quatro narradores, nenhum deles é branco. Os quatro se conheceram e participaram dos mesmos fatos narrados. É como se fosse uma história só, na qual todos tiveram participação, e que cada um contasse uma parte. Um deles é Gabiroba, filho de um escravo africano com uma índia. Este narrador orquestra as narrações dos demais. É ele que abre e fecha a história toda. Outro narrador é Aleixo, índio cariri, que vivia na região do Rio Itapicuru, na Bahia. É um personagem na linha dos heróis picarescos de nossa literatura. Um terceiro é Ascuri, índio anaió. Ele testemunhou a gênese da ambigüidade de caráter do brasileiro na pele de Leonel, o futuro Língua. Finalmente, a narradora Ialna, índia anaió, mãe de Leonel, guerreira, heroína, trágica, mas sempre mãe.

Essa multiplicidade de narradores, além de enriquecer o narrado, oferecendo sobre ele vários pontos de vista, resolveu problemas estruturais, por exemplo: eles não podiam contar a sua própria morte. Neste momento, a palavra é passada a outro narrador, resolvendo assim o problema.

 

O que é possível dizer sobre o personagem Leonel de Matos para os futuros leitores, que ainda não tiveram contato com o livro?

EB: Eu diria ao leitor que vale a pena pensar no personagem Leonel como nosso antepassado direto. O mameluco, filho de português com uma índia, vindo a ser, como dizia Darcy Ribeiro, o primeiro brasileiro. Antepassado que já não é nem índio nem branco. Desintegrado ou mal integrado na sociedade do pai, e arredio de sua origem materna, a qual, em larga medida tendeu a renegar, cometendo talvez o seu primeiro grande equívoco na vida. Equívoco que lhe vem da fascinação pela civilização branca que talvez ele devesse corrigir.

 

O que um livro com temática indígena pode dizer ao Brasil do século XXI?

EB: Não considero que eu tenha tratado de uma temática indígena nesse romance, mas de uma temática brasileira, ou do povo brasileiro. Meu personagem central, a rigor, não é um índio. É um mameluco. E é a partir disso que esse personagem pode dizer alguma coisa para o Brasil hoje: uma reflexão sobre a nossa formação identitária, como caminho para fazermos distinções culturais que caracterizam nosso modo de ser, incluindo nesse modo de ser atitudes destrutivas do outro ou integradoras, ou, na pior das hipóteses, extraviados de nós mesmos e de nossa origem, como eternamente estrangeiros em sua própria terra. Nesse sentido, quero crer que o romance O Língua cumpre uma das funções inerentes à arte literária que é restaurar emocional e criticamente o passado.

 

Conheça as obras de Eromar Bomfim

 

Filosofia, Pintura e Merleau-Ponty

Por: Renata de Albuquerque

A Pintura como Modelo para uma Filosofia da Expressão em Merleau-Ponty é uma leitura de Merleau-Ponty, sobre como pintura, filosofia, arte e pensamento podem contagiar-se mutuamente. O livro traz ao leitor uma reflexão sobre como o filósofo francês estabelece a relação entre pintura e filosofia. Um dos pontos de partida é a afirmação do filósofo que a pintura foi para Cézanne seu mundo e sua maneira de existir. O assombro que o pintor tem diante do mundo relaciona-se ao assombro que seria intrínseco ao filósofo para pensar o mundo. “A proposta é identificar como Merleau-Ponty elabora a passagem da percepção à expressão, e porque ele acorda à pintura um modelo possível para filosofia”, explica a autora, Ana Westphal.  A seguir, ela fala sobre o lançamento ao Blog da Ateliê:

Há uma complexa relação entre pintura e filosofia, de acordo com Merleau-Ponty. O que se pode dizer a respeito disso para o leitor que não teve contato com esse tema antes?

Ana Westphal: Imaginar a pintura como modelo para filosofia é, por um lado, algo que soa surpreendente àqueles que nunca leram a obra de Maurice Merleau-Ponty, e, por outro, complexo àqueles que pensam nos desdobramentos desta relação proposta à filosofia. Mas, se tal como nos diz Merleau-Ponty, pensar a prática reflexiva conforme a pintura – entendendo-se que as relações por ele estabelecidas no âmbito da pintura-filosofia, são sempre relações metafóricas -, causa-nos, em um primeiro momento, certo estranhamento, pelo próprio suporte ou “elemento constitutivo” que a pintura teria a oferecer ao discurso filosófico, ao olhá-las como ele as olha, somos levados ao encaminhamento da questão. Desse modo, para que o problema se nos apresente recoloco-o: de que modo esse homem-pintor aparece à Merleau-Ponty e o faz anexar os “procedimentos” da pintura à filosofia? À questão, resumidamente posta, vincula-se a essência do aparecer, ao olhar que restitui à presença o outro e o mundo. Assim sendo, ao tomar a pintura como modelo para filosofia, entende-se que Merleau-Ponty entrevê o sentido originário da linguagem pictural, interpretando-a como “materialização” dos olhares na inspeção do mundo, não quando esses olhares já se tornaram um sistema de significações, mas enquanto “lógica alusiva”, isto é, sem modelo exterior.

Merleau-Ponty deseja mostrar que há uma linguagem primeira que é anterior à linguagem sistematizada, linguagem que não tem seu sentido manifesto na correspondência de uma palavra a um conceito, isto é, um signo para uma significação já definida. Podemos dizer, grosso modo, que para Merleau-Ponty a linguagem é espontaneamente criada pelo entrelaçamento dos sentidos, e essa “linguagem sem pensamento” tem, para ele, sua potência de simbolização intimamente relacionada à motricidade e ao olhar. De certo modo, podemos dizer que o olhar é o fundo que sustenta a reflexão merleau-pontyana sobre a origem do sentido, é ele que coloca em movimento a articulação entre interioridade e exterioridade. Para Merleau-Ponty este movimento é reiterado pela pintura de Cézanne, no momento em que seu olhar encontra o mundo, momento em que o pintor toca o real e fá-lo falar na tela, o sentido que a visão lhe sussurra. Merleau-Ponty identifica, pelo que é próprio à pintura, uma ordem nascente, ordem que expõe a percepção, o corpo, o mundo, à novas articulações de sentido. Assim, se se pensa no Cézanne “de” Merleau-Ponty em Sens et Non-Sens, ali onde Merleau-Ponty afirma que a pintura foi para Cézanne seu mundo e sua maneira de existir, entende-se que sua pintura-vida é capaz de responder ao assombro do olho que olha o mundo. Para além da questão relacionada à transposição dos procedimentos da pintura à filosofia, percebe-se a crítica que Merleau-Ponty acorda à “filosofia de seu tempo”, crítica ao abandono do assombro filosófico enquanto atitude existencial, ao abandono de seu caráter interrogativo – atitude que Merleau-Ponty infere como essencial à reflexão filosófica. Assim, trata-se, para ele, de buscar uma linguagem capaz de neutralizar as sedimentações conceituais, uma linguagem que não esteja subsumida à razão. Nesse sentido, pode-se dizer que a pintura lhe aparece como experiência viva, em meio a um pensamento que reivindica à razão, um novo modo de olhar.

Que temas e aspectos da pintura, relacionada à filosofia, o livro coloca para o leitor?

Paul Cézanne

Lembro ao leitor que Merleau-Ponty não fala da pintura em sua ambitude geral. Desse modo, embora faça menções a Paul Klee, Leonardo da Vinci e outros, é, especificamente, a pintura de Paul Cézanne que Merleau-Ponty toma como referencial. Assim sendo, seja por sua originalidade absoluta, por sua explosão de veracidade, tão próxima a desvendar o enigma da natureza, do homem, ou pelo poder de subversão que sua obra impõe à história da arte, é Cézanne o pintor por ele escolhido. Desse modo, pode-se dizer que a pintura de Cézanne aparece à Merleau-Ponty como excelência do modelo requerido à filosofia. Pintura, cujo sentido, tomado de precisão, esclarece a passagem do mundo natural ao mundo da expressão – passagem que Merleau-Ponty vê como imagem da anexação do mundo pelo indivíduo. É a potência expressiva da pintura, o que o motiva sua escolhê-la: “a pintura nos reconduz à visão das próprias coisas (…) uma filosofia da percepção que queira reaprender a ver o mundo restituirá à pintura e às artes em geral seu lugar verdadeiro (…) trata-se, como na percepção – das próprias coisas – de contemplar e perceber o quadro segundo as indicações silenciosas de todas as partes que me são fornecidas pelos traços de pintura depositados na tela, até que, sem discurso e sem raciocínio, componham-se em uma organização rigorosa em que se sente de fato que nada é arbitrário... [Merleau-Ponty, 1948]

Descobrir o sentido primeiro, sem abandonar a situação do homem no mundo, esse é o desejo da pintura de Cézanne, essa é a filosofia que teria “abrangido tudo”, diz Merleau-Ponty. Percebe-se que Merleau-Ponty trabalha com a ideia de um fundo comum à criação, isto é, com a ideia da existência de uma unidade do “estilo humano” que está presente na obra, e que a torna “reconhecível” a todos os homens. Assim sendo, ao ater-se sobre o modelo cézanneano da visibilidade, Merleau-Ponty percebe que o artista retoma os dados que lhe chegam pela percepção, e os transforma a partir de um sistema interno de equivalências, ou seja, para ele a percepção do artista não produz o visível, ela o torna visível. Com efeito, se recuperarmos a fala de Cézanne, “a paisagem reflete-se, humaniza-se, pensa-se em mim”, nos é possível dizer que sua fala torna-se exemplar à Merleau-Ponty, ela põe às claras o movimento de seu pensamento. E então, o que a princípio parecia-nos um desvio, a pintura como modelo para filosofia, firma-se como possibilidade de permutação.

Maurice Merleau-Ponty

O livro se divide entre “O Mundo de Merleau-Ponty”, “O Corpo” e a conclusão “Merleau-Ponty encontra Cézanne”. Como estas partes se inter-relacionam?

Em linhas gerais, a proposta é identificar como Merleau-Ponty elabora a passagem da percepção à expressão, e porque ele acorda à pintura um modelo possível para filosofia. O pensamento parte do pressuposto de que ele não reduz a pintura às mudanças no âmbito do pensar, mas a toma a partir das relações que o pintor estabelece com o mundo que vê. Conquanto, pensar a relação estabelecida por Merleau-Ponty entre filosofia e pintura, sem uma familiarização com a obra, tornaria a leitura do trabalho impossível. É nesse sentido que os capítulos foram propostos. O mundo de Merleau-Ponty procura entender o desenvolvimento de seu pensamento a partir de leituras soltas e diversas, ou seja, sem que a linha do tempo ou a especificidade do tema fossem utilizados como guias. Em O Corpo procuro mostrar a importância que Merleau-Ponty afere à presença do corpo no mundo: o corpo merleau-pontyano aparece como articulador da gênese de sentido, ele é corpo que percebe e porque percebe, é capaz de metamorfosear o percebido em expressão. A conclusão, O olhar círculos que se envolvem – Merleau-Ponty encontra Cézanne, busca responder à questão posta no início:  em que consiste o privilégio que Merleau-Ponty acorda à pintura a ponto de pretendê-la modelo para filosofia?

Alguns aspectos da filosofia de Merleau-Ponty são baseados nas relações:  o ser em relação com o mundo leva à elaboração de uma “filosofia da ‘ligação’”, como pode-se ler no posfácio. Quais são as bases dessa filosofia que propõe relações e ligações e como ela impacta nossa relação com a arte?

O trecho mencionado na questão refere-se ao seguinte excerto do posfácio: “Merleau-Ponty fundamenta a necessidade do retorno às questões maiores da filosofia ao expô-las à problemática da encarnação, momento em que passa a elaborar uma filosofia da “ligação”: ligação do homem com ele mesmo, ligação do homem com o outro, ligação do homem com o mundo”.

Ao se refletir sobre essa reflexão, entende-se que para Merleau-Ponty a filosofia mantém uma relação de dependência com a vida, sua fala, se verdadeiramente expressiva, deve seguir o rastro do mundo, interrogando-o de maneira continuada. É nesse sentido que podemos dizer que Merleau-Ponty ao introduzir o mundo em sua contingência, infere à filosofia a necessidade de renunciar-se como positividade, como criação separada e isolada da vida dos homens. Se a filosofia não pode fugir do mundo, é necessário que ela se realize destruindo-se como filosofia separada, diz Merleau-Ponty em Fenomenologia da Percepção [1945]. Esta referência guiou-me na escrita do posfácio. É nesse sentido que digo ali, que Merleau-Ponty elabora uma filosofia da “ligação”. Trata-se de uma reexposição das questões maiores da filosofia à problemática da encarnação – crítica ao abandono do mundo percebido. Desse modo, no que concerne, especificamente, à filosofia, Merleau-Ponty percebe que ao afastar-se do rigorismo que cambia entre polos, ela, filosofia, estará novamente em presença de sua verdadeira inspiração.

A partir do exposto, não diria que a relação estabelecida por Merleau-Ponty, entre filosofia e pintura, altera nossa relação com a arte, pois como lhes disse, Merleau-Ponty não se propõe falar “de” pintura, mas “conforme” a pintura. Ora, e então como situarmo-nos em relação a isso? O referido abre-se como caminho, ou seja, leva-nos à compreensão do sentido de “conforme” a pintura. Desse modo, consideremos que é possível afirmar que Merleau-Ponty não desejou elaborar uma teoria estética, ou, dito de outro modo, que Merleau-Ponty, em seus escritos, não tomou a arte como unidade estética, isto é, como fundada em um sentir. Conquanto, caber-nos-á perguntar mais uma vez: como compreender o dito, se temos o hábito de tomar a arte, em sua origem, como intrinsicamente relacionada ao sensível? Estamos diante da seguinte situação: ao falar em expressão primordial – operação que constitui os signos em signos – Merleau-Ponty secundariza o plano do sentir, isto é, ele acentua o surgimento do sentido, em detrimento à especificidade do elemento sensível, a partir do qual esse sentido aparece. Assim, no caso da pintura, a obra surge à Merleau-Ponty como o suporte à articulação entre o dentro e o fora, obra que ao dar-se “na” expressão, realiza e revela um sentido novo. A ideia da ideia, reside aí… Grosso modo, Merleau-Ponty não está preocupado com a fruição da obra, mas com o processo de criação.  Atém-se, por assim dizer, ao movimento que vai da percepção à expressão.