“Bruno Palma, Escolhedor de Palavras”

Renata de Albuquerque*

“Traduzir é levar a palavra aos que não podem compreendê-la”. A frase está no livro Bruno Palma, Escolhedor de Palavras – Ensaio sobre a Arte e o Ofício de um Tradutor (Com-Arte), de Marcus Fabiano Gonçalves. Mas ela não é suficiente para sintetizar o trabalho (ou, talvez, seria melhor dizer fazer artístico) de Bruno Palma, paulista de Araraquara, cuja experiência com tradução começou ainda na fase ginasial. Hoje, com mais de 90 anos de idade, ainda atua ativamente nessa área.  

Bruno de Palma, que aos vinte anos converteu-se ao catolicismo e passou a integrar a Ordem dos Dominicanos, colaborou com a tradução da Suma Teológica de São Tomás de Aquino e atualmente integra a equipe de tradução da Vulgata. Para ele, traduzir é uma arte comparada a transpor, para outro instrumento musical, uma peça originalmente composta para um instrumento distinto. Essa metáfora já oferece ao leitor a medida da complexa delicadeza que o próprio tradutor percebe em sua atividade.

O volume tem capítulos inteiros dedicados a duas das mais famosas traduções de Bruno Palma. “Saint-John Perse: De Amers a Marcas Marinhas” e “Traduzir o Duplo Canto de François Cheng” são um minucioso estudo sobre estes marcos da tradução brasileira. Palma dedicou trinta anos à tradução de Amers, para que pudesse investigar a erudição do autor e, de maneira original, incluir toda essa bagagem no texto em português, recriando o original com uma fina elegância. O resultado recebeu o Prêmio ABL de Tradução. Isso dá a medida do mergulho que o tradutor se dispõe a realizar nas obras originais para então chegar ao resultado esperado.

Tradução que recebeu o Prêmio ABL

Ainda na Introdução do volume, parte do segredo da qualidade da tradução feita por Bruno Palma é desvelada: “Mais fácil seria, então, reconhecer, no sucesso final de uma boa tradução, a presença iniludível de uma certa sensibilidade, não inata, mas adquirida e apurada ao longo de um convívio demorado com as obras e autores traduzidos” (p. 18).

O livro de Marcus Fabiano Gonçalves traz ainda uma interessante entrevista com Bruno Palma, em que são abordados os trabalhos de tradução de Saint-John Perse e François Cheng. A entrevista é plena de revelações, como, por exemplo, a passagem em que Palma revela a influência da tradução de Perse para a tradução de Cheng:

“Creio, porém, que minha tradução da obra poética de François Cheng foi ajudada pela minha experiência anterior, a tradução de obras de Saint-John Perse. Pode parecer estranho, pois SJP é muito diferente de FC. Contudo, ambos são ‘poetas do ser’, como diz François Cheng, e se encontram por isso no essencial: na sua maneira de ver o mundo e de se relacionar com ele”.

Um dos momentos mais curiosos do volume é quando Palma é convidado a exemplificar as dificuldades enfrentadas – e a solução que ele encontrou para cada uma delas – quando traduziu Cheng e Perse. A cada exemplo dado, o leitor é convidado a participar da complexidade que o trabalho de tradução impõe, em um processo que ao mesmo tempo explica o quanto o tradutor precisa saber e o quanto ele aprende durante  essa jornada única.

* Jornalista, Mestre em Literatura Brasileira pela FFLCH/USP, autora da Dissertação Senhoras de Si: o Querer e o Poder de Personagens Femininas nos Primeiros Contos de Machado de Assis.

Sobre Espantalhos e Limões Espremidos: Farsas e Tragédias na reedição do livro Os Males do Tabaco e Outras Peças em um Ato

Paulo Maia*

O humor e a brevidade estão presentes nos oito textos desta reunião editorial de Os Males do Tabaco que chega agora à sua terceira edição (2001, 2003, 2019). Vemos aqui estudos cômicos de Tchekhov (cena, cenas monólogos, estudo dramático, peça e farsas) que em alguns casos evoluem para a tragédia cômica. É o caso da versão de 1902 da cena monólogo em um ato intitulada “Os Males do Tabaco”. Ivan Ivánovitch Niukhin é um melancólico bufão revoltado que, a mando da mulher, vem falar sobre os tais malefícios. De todo modo, uma conferência não passa de uma conferência. Preso às entranhas do cotidiano e da memória, acerta as contas com a própria vida numa tragédia cômica inundada pela digressão. Seu humor é claramente desesperado e trágico, e a profundidade do conflito existencial vem à tona misturada aos detalhes cotidianos mais corriqueiros e aparentemente insignificantes. Assim, entre o desejo de libertação e as panquecas, a genialidade do estilo tchekhoviano vai sendo costurada a cada digressão pela espera de uma conferência que nunca virá. A resignação e o enclausuramento da personagem tornam os elementos risíveis imediatamente aflitivos, pois nos reconhecemos como espantalhos. É certamente um dos clássicos maiores do escritor.

Já sua primeira versão, que abre a presente edição, atem-se à superfície cômica, sem grandes aprofundamentos existenciais. Apesar do argumento em torno de um conferencista que acaba por não fazer nenhuma conferência e mistura sua fala com assuntos diversos de sua vida pessoal, a real angústia perante aquilo que foi vivido e o desejo intenso por livrar-se da própria história é desenvolvido magistralmente apenas na segunda versão, na qual os males do tabaco revelam-se como os males da própria vida. Entre Márkel Iványtch Niúkhin e Ivan Ivánovitch Niukhin existe o abismo da confissão explícita e desnudada perante sua plateia.    

Bufão melancólico

Svetlovídov, do belíssimo estudo dramático O Canto do Cisne, também pode ser considerado como um bufão melancólico. O velho ator que, bêbado, dorme sentado no camarim após sua apresentação, não quer voltar para casa e enfrentar a solidão. Lembra-se da mulher pela qual era apaixonado, quando ela pediu que ele abandonasse o palco: Compreendi então que não existe nenhuma arte sagrada, que tudo é sonho e ilusão […] Interpretar os clássicos com seu ponto Iványtcha leva-o do êxtase às lágrimas : O vigor jorra de todas as minhas veias como um chafariz […] Não passo de um limão espremido, um picolé, um prego enferrujado […] Se rimos da sua desgraça, é um riso triste – ou, como tantas vezes presenciei nas plateias de Niukhin, um riso contido, tenso.

A peça em um ato O Urso encena uma situação humorada do credor que interrompe um luto de oito meses para cobrar a viúva da dívida deixada pelo falecido marido que, mesmo injusto e infiel, acaba por encerrar Popova num estado de ânimo tal que jurou não tirar o luto nem frequentar a sociedade até o dia do meu próprio enterro… Mas eis que a dívida torna-se paixão e a desavença, um prolongado beijo na boca.  A farsa em um ato O Pedido de Casamento parte da tentativa do excessivamente hipocondríaco Ivan Vassílievitch Lomov de casar com Natália Stepánovna, mas rapidamente revela adisputa entre famílias pela posse de terras e pela qualidade canina de seus animais. Após todo tipo de injúrias lançadas entre o pai de Natália e o futuro casal – Seu moleque! Seu fedelho! Rato velho – o matrimônio se efetua, mas sem dar trégua às polêmicas que percorrem toda farsa: Ora, e assim começa a felicidade conjugal! Champagne!           

No caso das Bodas, por exemplo, mesmo que o tema da corrupção acabe sendo o desfecho moral da cena em um ato, e que o noivo dê sinais claros de ter sido motivado por razões financeiras para casar, é o humor dinâmico das situações segue seu curso na festa de casamento através de tipos diversos, como o confeiteiro grego e o telegrafista. A mãe da noiva diz logo no início o quanto o novo marido da filha é inoportuno, e a festa aguarda a presença de um militar que dará mais nobreza ao evento – mas Revúnov – Karaúlov se mostra enfadonho ao descrever os detalhes técnicos da marinha.

A farsa O Jubileu trata do aniversário de quinze anos do Banco de Crédito Mútuo N. O diretor-presidente, na expectativa de receber os acionistas para a leitura de um discurso escrito por ele mesmo, acaba recebendo as reclamações de Nastássia Fiódorovna Mertchútkina sobre a demissão do marido de uma repartição médico- militar. Mas o conteúdo da reclamação não possui relação alguma com a responsabilidade do banco. No entanto, tal é a insistência de Mertchútkina que Chipútchin dá a ela o dinheiro reclamado para poder vê-la fora dali.        

Outra vez não vemos a densidade do conflito existencial angustiado presente na segunda versão de Os Males do Tabaco, O Canto do Cisne e também na farsa em um ato Trágico à Força. Todas possuem traços evidentes de humor, mas estes traços não parecem estar em primeiro plano. Pode-se dizer que, no caso das outras peças do livro, o humor é mais protagonista, ou seja, a comicidade parece ser mais importante que as tragédias existenciais humanas.

Paulo Maia como Niukhin

Trágico à Força talvez seja um bom meio termo. Ironicamente, o protagonista anuncia: Isso não é uma farsa, é uma tragédia! Ivan Ivánovitch Tolkatchov entra em cena ofegante, esgotado, carregando diversos objetos, e suplica a Muráchkin que lhe dê um revólver, pois não ficará entre os vivos. Diz Ivan: Sou um trapo, um palerma, um idiota! Por que é que eu vivo? Qual o objetivo? […] Para que este nunca acabar de sofrimentos físicos e morais? Que se possa ser mártir de uma ideia, isso eu compreendo, mas ser mártir de algo que nem o diabo sabe […] Para mim chega! O texto, aliás, caberia muito bem na boca de outro Ivan, o Niukhin de 1902. A farsa gira em torno das reclamações de Tolkatchov sobre o excesso de atividades que lhes são impostas, de modo que Muráchkin seria seu confidente e ombro amigo durante o desabafo do veranista. Mas eis que, no desfecho da peça, o próprio Muráchkin passa a pedir favores quando descobre o próximo destino do amigo. Revela-se, portanto, de modo bem humorado, dinâmico, verborrágico e aflitivo o quanto as pessoas usam as outras em prol dos próprios interesses disfarçando-os de favores pessoais: Não por obrigação, mas por amizade! […] A alma humana é sugada e Tolkatchov não aguenta mais: Monte em cima você também! Sirva-se! Esfole o homem! Dê-lhe o golpe de misericórdia! […] Tenho sede de sangue! 

* Paulo Maia é ator e baterista. Doutorando em filosofia, encena a segunda versão do monólogo Os Males do Tabaco desde 2015, tendo percorrido 11 casas até a finalização desta resenha, em 2019.              

Black Friday: conheça a história da data

Por: Renata de Albuquerque

Que Black Friday é sinônimo de preço baixo, todo mundo sabe. Mas você sabe a origem dessa tradição do comércio? Existem várias versões a respeito da origem da Black Friday.

No Brasil, a primeira Black Friday aconteceu em 2010 e apenas online. Nos EUA, a tradição remonta ao século XIX e está atrelada ao feriado de Ação de Graças, um dos mais importantes do país, que é celebrado na quarta quinta-feira de novembro.

Na metade do século XX, um documento chamou a atenção para os efeitos que a sexta-feira  depois do dia de Ação de Graças causava: muitos trabalhadores ausentes, lojas vazias e sem compradores. Segundo esta versão, a Black Friday seria uma reação a essa situação. Devido à proximidade do Natal, há quem diga ainda que a Black Friday tenha sido uma resposta à baixa de vendas: quando as lojas saem do “vermelho” e voltam a vender.

Uma outra versão oferece uma razão econômica para a criação da data. Numa sexta-feira 24 de Setembro de 1869, dois grandes especuladores de Wall Street, depois de um intenso trabalho para conseguirem grandes lucros, fracassaram, gerando resultados ruins nos negócios, não só para eles, mas para investidores que, tentando dominar o mercado de ouro, acabaram indo à falência.  A data teria ficado conhecida como “Black Friday”.

Hoje, o comércio em diversos países, como EUA, Canadá e Brasil, aproveita a data para faturar com grandes promoções, seja para liberar o estoque para a chegada dos produtos natalinos; seja para estimular as compras de presentes para esta data.   

Black Friday e Black Week

No Brasil, logo que a data foi acolhida pelo comércio, muita gente desconfiava dos descontos e logo o apelido “black fraude” começou a se espalhar. Funcionava assim: o lojista, no período imediatamente anterior à promoção, aumentava os preços e, quando chegava a Black Friday, oferecia um desconto que, na verdade, só trazia o produto de volta ao seu preço “normal”. Hoje, além de os consumidores estarem mais atentos – o que diminui a chance de ações como essa – há ainda alguns reguladores de mercado, como o Selo Black Friday Legal, que chancela as boas práticas dos descontos.

Seja como for, o importante é planejar-se para a data, para não correr o risco de gastar mais do que o orçamento permite, e pesquisar os preços com antecedência para saber que promoções valem realmente a pena.

E, se você quiser aproveitar a Black Friday da Ateliê, elas já estão no ar: https://www.atelie.com.br/publicacoes/black-week/

“Geórgicas”, de Virgílio, ganha edição anotada e comentada pelo Grupo de Trabalho Odorico Mendes

Um poema sobre as práticas e as técnicas de agricultura. Este assunto que aparenta não despertar interesse é o pretexto que Virgílio (70 a.C. – 19 a.C.) usa, em Geórgicas,  para tratar de temas grandiosos: a força do sentimento amoroso, as dificuldades humanas, o papel do trabalho. Para muitos, esta é a maior obra de Virgílio.

A nova edição de Geórgicas, que a Ateliê Editorial está lançando, traz o texto integral (os quatro “livros”) em versão bilíngue, comentado e anotado por integrantes do Grupo de Trabalho Odorico Mendes – que congrega docentes da Unicamp, USP, UNIFESP, UFMG e UNESP. A edição é organizada por Paulo Sérgio de Vasconcellos, que fala a seguir ao Blog da Ateliê:

O que é o Grupo de Trabalho Odorico Mendes?

Paulo Sérgio de Vasconcellos: O Grupo de Trabalho Odorico Mendes é um grupo de pesquisa que nasceu no Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp e tem por objetivos principais estudar e divulgar as traduções da obra de Virgílio realizadas pelo tradutor maranhense Manuel Odorico Mendes (1799-1864). Odorico Mendes foi considerado por Haroldo de Campos um pioneiro da tradução criativa dos textos poéticos em português e também da reflexão crítica sobre o processo tradutório, e o grupo pretende mostrar aos leitores não especialistas os méritos dessa empreitada pioneira através de edições bem cuidadas de sua obra. Houve formações diferentes do grupo, em função das atividades do momento; nos primeiros trabalhos, contou-se com a colaboração não apenas de docentes de várias universidades mas também de pós-graduandos. Para a anotação e comentário das Geórgicas, reuniu-se um grupo de docentes da Unicamp, USP, UNIFESP, UFMG e UNESP.

Qual a importância de Geórgicas na obra de Virgílio?

PSV: Atribuem-se a Virgílio, com segurança, três obras que tiveram grande influência na literatura ocidental; as Geórgicas é a segunda delas na ordem cronológica. Há quem julgue ser essa a maior obra de Virgílio, um juízo subjetivo mas que diz muito sobre sua recepção; o próprio Odorico Mendes considera essa a obra mais bem acabada do poeta. Se nas Bucólicas, sua obra de estreia, Virgílio imitava Teócrito no gênero pastoril, dando voz a personagens que eram pastores-poetas, nas Geórgicas imita sobretudo Hesíodo, praticando o gênero didático. O poema tem um tema técnico, as práticas e técnicas dos agricultores, mas esse parece ser apenas um pretexto para tratar de temas mais grandiosos como a força do sentimento amoroso em todos os seres animados, as dificuldades que o homem enfrenta na lida diária, etc. Em meio à simulação de transmissão de conteúdos agrários, aparecem episódios notáveis como o da descida do poeta Orfeu ao mundo dos mortos na tentativa vã de resgatar da morte sua esposa Eurídice, e aqui Virgílio parece refletir sobre os limites do poder da poesia. É um clássico, aberto a releituras constantes. Por outro lado, trata-se do poema mais difícil de Virgílio, por causa dos conteúdos técnicos (cultivo dos campos e do gado, arboricultura, apicultura), mas justamente o desafio do poeta é tratar de grandes temas universais a partir de matéria aparentemente tão miúda e antipoética.

Quanto tempo levou para concluir o trabalho que agora está ao alcance do público, nesta edição de Geórgicas? Quais foram os desafios enfrentados nesse processo?

PSV: A tarefa consumiu cerca de dez anos. Todos os que participaram do projeto são professores universitários, que têm uma rotina de trabalho muito exigente, entre aulas, pesquisas, orientações, atividades administrativas etc. Além disso, a trabalho de anotação e comentário da tradução foi muito cuidadoso e, por isso, lento. O português de Odorico Mendes busca a precisão na tradução dos termos técnicos, e o grupo teve de fazer muita pesquisa de vocabulário (por vezes em dicionários de séculos passados) para identificar com precisão os sentidos do léxico empregado pelo tradutor. O conjunto foi submetido a revisões minuciosas e criteriosas de toda a equipe para que o trabalho resultasse o melhor possível, uma espécie de homenagem a um tradutor genial que no passado foi alvo de incompreensões.

Paulo Sérgio de Vasconcellos

Qual a importância de ter a obra integral à disposição do público? Além deste, quais são os outros diferenciais desta edição da Ateliê?

PSV: A edição da Ateliê não tem igual. Toda dificuldade apresentada pelo texto e  que poderia atrapalhar a leitura do não-especialista  (vocabulário técnico, sintaxe complexa, alusões mitológicas, alusões a acontecimentos históricos, etc.) recebeu uma explicação em nota de rodapé. São centenas de notas, redigidas com todo rigor filológico. Além disso, depois de cada “livro” das Geórgicas, além das notas do próprio tradutor, interessantes por revelar suas concepções de tradução, acrescentam-se notas e comentários feitos pelo grupo; nelas, analisamos os modos por vezes surpreendentes como Odorico Mendes responde a certos aspectos do texto latino e comentamos, sobretudo, como efeitos de som, ritmo, sintaxe do original virgiliano são recriados no português de Odorico. O leitor terá, assim, uma espécie de demonstração didática dos modos como Odorico Mendes traduz a obra. Por fim, a edição traz o texto latino adotado por Odorico e aponta erros de impressão que a edição original trazia, quer no texto latino, quer no texto português.

Por favor, pode escrever brevemente sobre a suposta “humildade” das Geórgicas, que Matheus Trevisam aponta no texto de introdução?

PSV: A Antiguidade classificava os vários gêneros poéticos segundo uma hierarquia; os gêneros mais elevados eram a epopeia e a tragédia (aliás, objetos da Poética de Aristóteles). Gêneros como a comédia e a poesia didática (caso das Geórgicas) eram, comparativamente, considerados mais “humildes”. Mas que não nos enganemos. O tema é “humilde” e também certo vocabulário técnico pode parecer prosaico, mas a grandiosidade da mais alta poesia perpassa toda a obra. Justamente o desafio de Virgílio era dotar essa matéria humilde de densidade poética, e a recepção da obra diz bastante sobre o sucesso de sua empreitada.

O que o sr. gostaria de dizer ao público que pretende ler Geórgicas e nunca antes teve acesso à obra? O que esperar desta edição?

PSV: O leitor não está diante de uma obra fácil, não está diante de uma tradução fácil. Mas este é um caso em que superar a complexidade que muito exige do leitor é  gratificante. Há episódios belíssimos na obra (como o tão influente de Orfeu e Eurídice, no final do quarto “livro”) e, no conjunto, uma visão do homem e do mundo que alterna sombras e luz: em Virgílio, a realidade retratada nunca é monocromática nem fácil, daí as interpretações por vezes radicalmente divergentes de suas obras, quando se acaba vendo só uma face de um mundo na verdade mutifacetado. Entre outros temas que o poema parece tratar de forma sutil, destaco que a natureza aparece personificada, mas ao mesmo tempo o homem parece por vezes animalizado: uma espécie de simpatia universal em que homens e animais compartilham muita coisa em sua condição de existência no mundo, afetados igualmente por forças como o impulso erótico, a doença e a morte. É um longo poema para se ler e reler. A tradução é o que se pode esperar de um tradutor como Odorico Mendes: nada banal, criativa, poética. Gonçalves Dias dizia que Odorico metrifica “como um rei” e sem dúvida, mas não só pela habilidade na métrica, há passagens de suas traduções que poderiam figurar em antologia do que de melhor produziu a poesia brasileira. O leitor tem diante de si uma edição que tudo faz para aplainar as dificuldades de fruição de um dos mais instigantes projetos tradutórios, o de uma obra como as Geórgicas, o poema mais desafiador, e talvez o mais instigante, de Virgílio.

Conheça outros títulos da coleção

“Epigramas” ganha edição em brochura: leia trechos

O Twitter popularizou a ideia de escrever em poucos caracteres para expressar uma mensagem. Hoje, fala-se de política, comportamento, cultura e até fofocas de celebridades em 280 caracteres. Mas, esse recurso já era usado na Roma Antiga, há quase dois mil anos. O poeta Marco Valério Marcial foi um dos precursores da técnica de criar poemas cômicos, pornográficos e de crítica social muito concisos. Marcial, considerado o pai do epigrama (forma poética breve, marcada pelo estilo satírico e engenhoso), é autor dos “Epigramas”, edição bilíngue traduzida por Rodrigo Garcia Lopes que acaba de chegar à nova edição. Agora em brochura, a obra fica mais acessível e prática.

Confira a seguir alguns desses pequenos, mas cortantes poemas:

IV
Se acaso, César, topar com meus livrinhos,
Deixe essa cara séria de dono do mundo.
O riso é liberado até em seus triunfos.
Ser tema de piada não envergonha um líder.
Leia meus poemas como quem assiste
as palhaçadas de Latino, a Tímele.
Que o Censor permita a graça inofensiva.
Lasciva é minha página, vida limpa.

Contigeris nostros, Caesar, si forte libellos,
terrarum dominum pone supercilium.
consuevere iocos vestri quoque ferre triumphi,
materiam dictis nec pudet esse ducem.
qua Thymelen spectas derisoremque Latinum,
illa fronte precor carmina nostra legas.
innocuos censura potest permittere lusus:
lasciva est nobis pagina, vita proba.

XIX
Se não me engano, Élia, tinha quatro dentes:
Dois foram expulsos numa tosse, dois na outra.
Pode tossir agora o dia todo, velha:
Não tem lugar pra tosse em sua boca.

Si memini, fuerant tibi quattuor, Aelia, dentes:
expulit una duos tussis et una duos.
iam secura potes totis tussire diebus:
nil istic quod agat tertia tussis habet.

LXXXIII
Seu totó lambe sua boca, sua língua. Como gosta!
Não me admiro, Maneia. Cães adoram bosta.

Os et labra tibi lingit, Manneia, catellus:
Non miror, merdas si libet esse cani.

XIII
Juiz e advogado adoram uma propina.
Não duvide, Sexto: pague sua dívida.

Et iudex petit et petit patronus.
solvas censeo, Sexto, creditori.

XXVIII
Surpreso que a orelha de Mário feda?
Culpa sua, Nestor, que falou nela.


Auriculam Mario graviter miraris olere.
tu facis hoc: garris, Nestor, in auriculam.

A Literatura em sua Humanidade

Renato Tardivo*

Os Arquétipos Literários, livro fundamental do russo E. M. Melentínski, foi publicado pela primeira vez no Brasil em 1998. Agora acaba de sair sua terceira edição.

Além de uma apresentação, assinada pela professora Aurora Fornoni Bernardini, uma das tradutoras da obra para o português, o livro divide-se em duas partes: “Sobre a Origem dos Arquétipos Temáticos, Literários e Mitológicos” e “As Transformações dos Arquétipos na Literatura Russa Clássica – cosmos e caos, herói e anti-herói”.

O texto aborda as relações dos mitos e arquétipos com a ficção, de modo a, por meio de um aprofundado estudo da história da literatura, delinear as estruturas mentais da humanidade.

Fortemente influenciado pela teoria dos arquétipos de C. G. Jung, Melentínski, no entanto, diverge do médico suíço no seguinte sentido: enquanto para Jung o mito diz de uma harmonização do pensamento individual consciente com o inconsciente coletivo, para Melentínski essa harmonização apareceria não no estádio do mito, mas no estádio do romance cortês e medieval.

Da perspectiva original de Melentínski, então, a função do mito seria harmonizar as relações do homem com a sociedade, a cultura e o mundo que os envolve.

Na seção dedicada à literatura russa, o autor analisa obras de escritores como Gógol, Dostoiévski e Tolstói, destacando a presença de arquétipos do cosmos e do caos, do herói e do anti-herói. É interessante perceber nas análises que, ao se valer de arquétipos arcaicos, a literatura os transforma, os recria e, por que não dizer, os atualiza.

Assim, o livro de Melentínski configura-se como um trabalho fundamental de crítica literária, uma vez que, como poucos, habita o trânsito compreendido entre as obras, quem as produziu e a tradição. E é por isso que não se trata de mera aplicação de conceitos psicanalíticos ou antropológicos à literatura, mas, felizmente, de considerá-la uma das produções humanas mais preciosas.     

* Renato Tardivo é psicanalista e escritor. Doutor em Psicologia Social da Arte (USP). Autor, entre outros, dos livros Porvir que vem antes de tudo – literatura e cinema em Lavoura Arcaica  (Ateliê/Fapesp), Cenas em Jogo – Literatura, Cinema, Psicanálise e do volume de poemas Girassol Voltado Para a Terra (Ateliê).