O sentido político do livro

Por: Renata de Albuquerque

Fllamarion Maués, Sandra Reimão, Felipe Quintino, Ana Caroline Castro e João Elias Nery, alguns dos autores de textos do livro

Fllamarion Maués, Sandra Reimão, Felipe Quintino, Ana Caroline Castro e João Elias Nery, alguns dos autores de textos do livro

Composto de seis textos inéditos, escritos por diferentes pesquisadores de diversas áreas, Livros e Subversão – Seis Estudos é fruto de um dos trabalhos do grupo Censura a Livros e Ditadura no Brasil.

O volume foi organizado por Sandra Reimão, Professora na Universidade de São Paulo (USP) na Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH)  e na Pós Graduação em Comunicação (PPGCOM-ECA). Os estudos mostram como os livros eram vistos pela Ditadura (1964 a 1985) como possíveis instrumentos de subversão da ordem estabelecida e como potenciais inimigos a serem combatidos. Os textos são assinados pelos pesquisadores Felipe Quintino, Ana Caroline Castro, Andréa Lemos, a própria Sandra Reimão, João Elias Nery e Flamarion Maués.

É Maués, Doutor em História pela Universidade de São Paulo/USP, investigador do Instituto de História Contemporânea da Universidade Nova de Lisboa, autor de Livros Contra a Ditadura: Editoras de Oposição no Brasil, 1974-1984 (Publisher, 2013) e professor substituto na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, que fala sobre o lançamento com exclusividade ao Blog da Ateliê:

 

Como surgiu a ideia de reunir os textos para a obra?

Flamarion Maués: O livro surgiu como decorrência do nosso trabalho no Grupo de Pesquisa Censura a Livros e Ditadura Militar no Brasil, vinculado à EACH-USP (Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo) e ao Programa de Pós-Graduação em Comunicação da ECA-USP (Escola de Comunicações e Artes da USP). Este grupo tem por objetivo identificar, compreender e discutir a censura à publicação de livros durante a ditadura militar brasileira (1964-1985).

Nosso trabalho busca estudar o processo de censura a livros nos diferentes momentos da ditadura militar brasileira; verificar as repercussões dos vetos no panorama editorial do momento; e seguir o percurso editorial das obras em questão após o ato da censura.

Entendemos a censura, durante a ditadura militar brasileira, como parte de um aparelho de coerção e repressão que resultou em enormes prejuízos para o exercício da cidadania e da cultura.

 

Os ensaios foram escritos exclusivamente para o livro?

FM: Os artigos são inéditos e escritos especialmente para o livro. Eles são fruto de pesquisas de doutorado ou pós-doutorado de cada membro do grupo, assim como de trabalhos coletivos que desenvolvemos, como é o caso dos artigos sobre a Banca de Cultura do CRUSP e sobre a Editora Diálogo, de autoria minha, de Sandra Reimão e João Elias Nery.

 

Os pesquisadores autores dos ensaios não são todos da mesma área. De que maneira essa multidisciplinaridade enriquece um estudo como este?

FM: A interdisciplinaridade é uma das marcas fortes das pesquisas no campo da história do livro e da edição. No nosso caso, os pesquisadores são da área de Comunicação e História, mas poderiam ser também das áreas de Letras, Sociologia, Educação ou mesmo Economia ou Ciência Política, uma vez que este campo de estudos tem congregado colaborações desses diversos ramos de conhecimento. Isto tem enriquecido as pesquisas referentes à história do livro e da edição, permitindo olhares plurais e a utilização de métodos diversificados, sem perda de uma perspectiva crítica e inovadora.

 

Alguns personagens dos estudos (como Ênio Silveira e Zuenir Ventura) são figuras centrais na história da resistência da imprensa durante a Ditadura; bem como algumas instituições, como a Banca do Crusp. Mas, por exemplo, o caso da obra de Lenin não é tão debatido.  Como se deu a escolha dos temas de cada ensaio? O que o senhor tem a dizer sobre isso?

FM: Os temas se relacionam às preocupações relacionadas ao Grupo de Pesquisa Censura a Livros e Ditadura Militar no Brasil, e à pesquisa que cada um dos autores desenvolve. Então, os temas às vezes nem tão conhecidos – como a edição da obra de Lenin às vésperas do AI-5 por uma pequena editora de Niterói (a Editora Diálogo), ou sobre o uso de livros como elemento de provaem processos judiciais contra pessoas acusadas de subversão, ou ainda sobre a Global Editora – se relacionam a pesquisas que cada um de nós desenvolve. No primeiro caso, da Editora Diálogo, a ideia surgiu em decorrência da entrevista que fizemos (Sandra Reimão, eu e João Elias Nery) com o editor Fernando Mangarielo, responsável pela Banca da Cultura (e depois fundador da editora Alfa-Ômega), que mencionou a história do livro do Lenin. Ficamos curiosos em relação ao tema, e acabamos descobrindo que o professor Aníbal Bragança tinha sido um dos proprietários da Editora Diálogo. O professor Aníbal é um dos principais estudiosos da história do livro no Brasil, e como nós o conhecemos ficou mais fácil fazermos o artigo.

 

livrosQual o traço em comum que pode ser percebido nos seis estudos agora publicados?

FM: Penso que é a preocupação em entender o sentido político do livro e da edição, buscando destacar seu papel como elemento relacionado a formas de intervenção política e social, principalmente no que diz respeito à difusão e ao debate de ideias inovadoras e/ou contestadoras. Ao mesmo tempo, relacionar isso ao fato de o livro ser sempre perseguido pelos regimes autoritários, sofrendo censura e restrições a sua circulação. Desse modo, buscamos destacar aqueles momentos em que esse embate se deu, seja de modo mais direto, seja de maneira mais sutil. E também mostrar como a atuação dos editores se deu, na maior parte dos casos, na confrontação dessas perseguições e censuras, buscando levar a público as obras que colocavam em questão os poderes autoritários e que proporcionavam o debate democrático.

 

Em um contexto histórico no qual parte da sociedade julga “golpe” o impeachment recém-sofrido pela ex-presidente, qual a relevância de um lançamento como este? O senhor acredita que é possível traçar algum paralelo ou fazer alguma relação entre os momentos históricos retratados na obra e o que o Brasil vive, em 2016?

FM: É preocupante – e sintomático – que atualmente as manifestações políticas estejam sendo criminalizadas. Aqui em São Paulo (mas não só aqui) a ação do governo estadual, por meio da Polícia Militar, tem sido de repressão sistemática e desproporcional dessas manifestações, com conivência da Justiça, que considera normal que a PM use balas de borracha e cause ferimentos e até cegueira em manifestantes. Isso tem se relacionado ao tema que tratamos em Livros e subversão, uma vez que tem havido casos de prisões de pessoas em manifestações políticas em que a posse de certos livros (de autores anarquistas ou marxistas) está sendo usada como “prova” de acusação contra essas pessoas.

O golpe que acabamos de viver reflete esse quadro de criminalização da participação política pluralista. É uma situação preocupante. Todavia, vemos que o campo editorial tem se manifestado a respeito, ou ao menos algumas pequenas editoras, com o lançamento de livros como Por que Gritamos Golpe (Boitempo) ou Historiadores pela Democracia: o Golpe de 2016 e a Força do Passado (Alameda). São ações editoriais de cunho político que mostram que os editores estão atentos.

Correspondência preciosa

Pela primeira vez, as Cartas a Miranda são traduzidas para o português, tornando disponível aos pesquisadores o conhecimento e as reflexões que deram origem ao campo disciplinar do restauro

Por Renata de Albuquerque

Teste

Ao decidirem trabalhar na tradução e organização de Cartas a Miranda: Sobre o Prejuízo que o Deslocamento dos Monumentos da Arte da Itália Ocasionaria às Artes e à Ciência, o pesquisadores Paulo Mugayar Kühl e Beatriz Mugayar Kühl sabiam da responsabilidade que os esperava. Afinal, esta tornou-se a primeira tradução para o português desse conjunto de textos epistolares – escrito por Antoine-Chrysostome Quatremère de Quincy ao general Francisco de Miranda no final do século XVIII – que deu origem ao que hoje conhecemos como restauro, tanto do ponto de vista conceitual quanto ético.

O trabalho resultou na publicação que a Ateliê Editorial acaba de lançar, um volume da Coleção Artes & Ofícios que conta com um texto de apresentação e dois ensaios – cada um assinado por um dos pesquisadores – sobre dois dos assuntos centrais das cartas. No primeiro, Paulo Mugayar Kühl aborda o problema da transferência de obras de arte, inclusive no que respeita a repercussões para o Brasil. No segundo, Beatriz Mugayar Kühl explora algumas das questões levantadas por Quatremère de Quincy em suas implicações para a preservação de bens culturais.

A seguir, a arquiteta Beatriz Mugayar Kühl, que é Mestre em preservação de bens culturais pela Katholieke Universiteit Leuven, na Bélgica; Doutora pela FAUUSP e Pós-Doutora pela Università degli Studi di Roma “La Sapienza”, fala sobre o trabalho:

Beatriz Mugayar Kühl

Beatriz Mugayar Kühl

Por gentileza, explique brevemente para quem não conhece a obra, do que se trata Cartas a Miranda

Beatriz Mugayar Kühl:  Quatremère de Quincy, publicou as Cartas a Miranda em 1796. As cartas teriam por destinatário o general Francisco de Miranda, que propôs que Quatremère abordasse os perigos de espoliação dos monumentos de Roma depois das vitórias do General Bonaparte no norte da Itália, sob o ponto de vista das artes. No texto, Quatremère elabora de maneira original a intrínseca relação da obra com o contexto em que está inserida, e a importância capital desse contexto; problematiza a transferência de obras de arte a partir de sua visão de como se aprende o fazer artístico e a apreciar a produção artística; e oferece contribuições de grande interesse no que respeita à fundamentação teórica de questões de preservação.

Como um texto original do século XVIII pode ajudar a pensar a preservação dos bens culturais no século XXI?

BMK: Isso acontece pelo fato de  Quatremère de Quincy antecipar o debate de determinadas questões sobre a produção artística e a preservação e lançar luzes sobre temas  que permanecem essenciais para a atual reflexão sobre a preservação de bens culturais – como o papel do contexto para a apreensão dos monumentos e a necessidade de sua conservação, evidenciando a intrínseca articulação entre o que hoje chamamos patrimônio material e patrimônio imaterial.

Ele desenvolve formulações teóricas da apreensão e do aprendizado das artes, tanto no que respeita às suas implicações para o fazer artístico, quanto para a apreciação das obras de arte, um tema que explora ao longo das várias cartas. Aponta os malefícios da remoção de obras de um país para outro para o estudo das artes, pois obras espalhadas ofereceriam meios incompletos para a educação.  Observa que as obras de arte são mais bem apreciadas juntamente com outras da mesma época, comparando-as com as escolas que as precederam e sucederam e questiona se ao deslocar esses objetos serão trazidas também as razões  das diversas maneiras de elaborar de várias escolas. Enfatiza, assim, a necessidade da preservação das obras de arte em seu contexto, e a importância capital desse contexto, entendido de modo muito alargado, abarcando variadíssimos aspectos como o clima, as formas da natureza, as fisionomias, as lembranças e as tradições locais, os jogos, as festas. Trabalha, pois, de modo articulado com aquilo que hoje chamamos de patrimônio material e imaterial, mostrando sua inter-relação e o fato de serem incindíveis.

Quatremère de Quincy em imagem de F. Bonneville

Quatremère de Quincy em imagem de F. Bonneville

O que Quatremère de Quincy pode ensinar ainda hoje para o leitor contemporâneo?

BMK: Muito o que refletir sobre a arte e o patrimônio nos dias de hoje, como nos temas mencionados acima. Quatremère desenvolve seu raciocínio a partir de uma base ética em prol do interesse público e do bem comum, outra lição essencial nos dias de hoje.

 

De que maneira as Cartas a Miranda ajudaram a formatar as bases da transferência da obra de arte e do restauro?

BMK: De muitas maneiras e não apenas nas Cartas a Miranda. Ele invoca diversos temas de maneira inovadora, a exemplo do papel do contexto mencionado acima.  Em outros textos, como em sua Encyclopédie Méthodique ou ainda em Considérations Morales,  sintetizou experiências diversas que se sucederam ao longo dos séculos, antecipou e lançou luzes sobre duas das principais vertentes da restauração no século XIX, uma mais conservativa e com grande apreço pelos valores formais da pátina, com ênfase na manutenção constante (que teria entre seus expoentes John Ruskin) e outra, mais voltada a completamentos e refazimentos em estilo, seguindo a lógica constitutiva da obra, cujo mais notório representante, na França, foi Eugène Emmanuel Viollet-le-Duc. Ou seja, os textos de Quatremère de Quincy oferecem vários pontos para reflexão e antecipam algumas das principais vertentes de atuação do século XIX, que ofereceram bases essenciais, a partir de releituras críticas, ao pensamento sobre o restauro ao longo do século XX e até os dias de hoje.

Conheça outros títulos da Coleção Artes & Ofícios

Campanhas sobre leitura movimentam a internet com #diadelertododia e #tempodeler

Por: Renata de Albuquerque

A leitura está em alta no mundo virtual. No próximo dia 20 de setembro é #diadelertododia, uma campanha mundial pela leitura que tem o apoio da CBL e que foi destaque na Bienal Internacional do Livro de São Paulo, que aconteceu até o início do mês.

A campanha mobiliza pessoas do mundo todo, do Paquistão ao Canadá, passando por diversas cidades brasileiras. Para fazer parte da Campanha Mundial pela Leitura basta registrar uma imagem de alguém lendo e enviar para a coordenação. Mais informações no site http://www.diadelertododia.com/

Outra campanha que já está acontecendo é a #tempodeler. A campanha, promovida pela Ateliê Editorial, tem como objetivo incentivar as pessoas a buscarem mais tempo para ler, com dicas sobre como alcançar esse objetivo já que, segundo a pesquisa “Retratos da Leitura no Brasil”, esta é uma das principais razões para que as pessoas não leiam mais.

Arte de divulgação da campanha #tempodeler

Arte de divulgação da campanha #tempodeler

Qualquer pessoa pode participar. Basta usar a #tempodeler no Twitter e dar a sua dica de como conseguir mais tempo para a leitura, essa atividade tão deliciosa e prazerosa.

Agora, se o problema é não ter o hábito da leitura, a Ateliê também dá uma ajuda. A editora fez uma lista de livros que são perfeitos para quem quer começar a adquirir esse hábito, porque são leituras tão rápidas e agradáveis que vai ficar fácil encontrar um tempinho para elas, mesmo na sua agenda lotada. Confira:

Os Cem Menores Contos Brasileiros do Século

Organizado por Marcelino Freire, o livro parte do princípio de que, em tempos de Twitter, a linguagem tem de ser renovada, para ser ainda mais concisa e objetiva. O autor de Angu de Sangue convidou cem autores brasileiros (entre os quais Laerte, Manoel de Barros, Glauco Mattoso, Lygia Fagundes Telles, Millôr Fernandes e Marçal Aquino) paras escrever histórias de até 50 letras. O resultado são contos tão curtos quanto interessantes. Perfeito para quem tem apenas poucos minutos disponíveis, já que os contos podem ser lidos de maneira independente e não levam mais que alguns segundos para serem lidos.

 

Silêncios no Escuro

Primeiro livro adulto de Maria Viana reúne 16 contos que têm, como fios condutores, a morte e o silêncio. “Acho que o que me levou a escrever este livro foi o desejo de contar algumas histórias que de alguma maneira estavam esperando o momento certo para tomar forma de palavra escrita, já que povoavam meu imaginário e minha memória há muito tempo”, diz a autora.

 

ASA – Associação dos Solitários Anônimos

Romance ousado e divertido, cheio de sarcasmo, deixado inédito por Rosário Fusco, que morreu em 1976. O romance escrito em 1967 e teve sua primeira edição em 2003. Desde então encanta os leitores com sua  narrativa de andamento veloz, que dialoga com o surrealismo e naturalismo, explorando um recanto especial do cenário brasileiro: a marginalidade acumulada ao longo do cais.

 

Se você quiser conhecer toda a lista de livros em promoção, visite o link http://www.atelie.com.br/publicacoes/promocao/

A natureza e a essência da fotografia

Por: Renata de Albuquerque

Lançado pela primeira vez em 1999, Realidades e Ficções na Trama Fotográfica, escrito por um dos mais importantes pesquisadores e ensaístas brasileiros dedicados à fotografia, Boris Kossoy, acaba de chegar à sua quinta edição. A obra, agora revista e reformulada em seu aspecto visual, tem se constituído em obra de referência interdisciplinar.

Para falar sobre essa nova edição, o Blog da Ateliê convida Boris Kossoy, professor titular da Escola de Comunicações e Artes da USP que prioriza em suas reflexões os modos como se constroem ficções e realidades por meio do documento visual, abordando questões da história, da memória e do jornalismo.

 

Capa Realidades e Ficções_2016A primeira edição do livro é de 1999. Desde então, muita coisa mudou: por exemplo, a popularização da internet, a fotografia digital e aplicativos como Instagram e Snapchat, que mudam a relação que havíamos estabelecido antes com a fotografia.  Nesse contexto, qual ainda é a atualidade do livro e de que forma ele pode nos fazer refletir sobre o assunto?

Boris Kossoy: A primeira edição foi lançada há 17 anos. Durante este período, todas essas tecnologias que surgiram vieram a interferir fortemente na forma de apreciar, transmitir e utilizar as imagens fotográficas. Mas isto não interfere em nada quando se trata de pensar a fotografia enquanto meio de comunicação e expressão que tem modificado a vida do homem e das sociedades nos últimos 170 anos.  Com Realidades e ficções na trama fotográfica espero estar contribuindo para o pensamento fotográfico no que tange ao estudo dos mecanismos que regem a produção e a recepção das imagens. Neste livro formulo um conjunto de conceitos sobre a natureza e a essência da fotografia, conceitos estes desvinculados das tentativas que sempre se fizeram de compreender a fotografia a partir de parâmetros estabelecido para a comunicações escrita e verbal.

 

Quais são as realidades e ficções da fotografia?

BS: Quando falo em “realidades” no plural, é justamente porque procuro desvelar um componente nebuloso intrínseco da imagem fotográfica que é sua natureza ficcional,não importando a tecnologia, a época e o lugar em que ela tenha sido produzida e independentemente de quem tenha sido seu autor.

A ficção se instala na fotografia a partir do próprio sistema de representação que a  torna possível e, naturalmente, pelos componentes de ordem imaterial que marcam a atuação do autor durante a sua produção: o repertório, cultura, convicções políticas, visão de mundo, enfim, de seu operador.

Neste processo, novas realidades são constantemente criadas a partir do objeto. E o mesmo se dá na recepção das imagens. Basta ver como as imagens são interpretadas e reinterpretadas diariamente pelos órgãos de imprensa e também por todos aqueles, fotógrafos ou não, que se permitem construir fantasias a partir das imagens.

A esse fenômeno dei o nome de processo de criação/construção de realidades, que, ao fim e ao cabo é verdadeira vocação da fotografia.

Toda fotografia é um “recorte”, um ponto de vista?

BK: Sim, toda fotografia resulta de um recorte, de um ponto de vista, de uma visão do mundo, de uma formação cultural, de um  intenção e finalidade e de outras coisas.Não há nenhuma objetividade no documento fotográfico, nunca houve, no passado, não haverá no futuro. É por tais razões que o livro permanece atual.

Parece que a desmontagem da imagem, conforme desenvolvo no livro, tem sido apreciada, desde os conceitos que estabeleço à metodologia de análise e interpretação que proponho. Fico feliz que a obra tem sido lida, estudada e indicada em diferentes áreas das Ciências Humanas e Sociais durante todo este tempo juntamente com os outros dois livros que complementam minha trilogia teórica, ambos também publicados pela Ateliê (Fotografia & História eOs Tempos da Fotografia, o Efêmero e o Perpétuo na Imagem Fotográfica). Creio que por tudo isso o livro se acha hoje na sua quinta edição.

Diagrama presente na obra

Diagrama presente na obra

Um leitor que está tendo o primeiro contato com a obra nesta 5ª edição terá percepções diferentes daquele que tomou conhecimento dela no início dos anos 2000?

BK A referência cultural dos leitores de hoje, em particular dos mais jovens, é diferente da dos leitores do ano 2000, isto é verdadeiro. Basta pensarmos nas câmeras digitais altamente sofisticadas que estão no mercado, além do impressionante avanço da internet, dos softwares, dos programas de “tratamento de imagens” disponíveis, que tudo fazem, tudo modificam, tudo manipulam.

Contudo, a manipulação das imagens – e das mentes – não teve início no ano 2000.O homem tem se servido das imagens desde tempos imemoriais. Todo este equipamento de produção, distribuição e veiculação disponíveis hoje continua necessitando do olhar e repertóriodo operador da câmera. É este um aspecto que creio ser importante no livro, pois não é a tecnologia, e sim a compreensão da natureza da imagem fotográfica e a forma como tem sido usada na representação da vida e do mundo que está em questão. A contribuição está na percepção das realidades, ficções, usos e aplicações da imagem fotográfica como instrumento de informação e desinformação, meio de conhecimento e como forma de expressão artística.

 

Com a popularização do ato de fotografar (pois agora isto pode ser feito por qualquer um que tenha um celular em mãos) e com a foto não sendo mais um objeto concreto (ampliar não é mais uma necessidade), altera-se de alguma forma o conceito de documento/representação da fotografia? Como se coloca a questão ideológica se pensada a partir deste panorama?

BK: Temos aqui duas perguntas em uma. Primeiro: é importante que se compreenda que existem duas categorias de produtores de fotos que jamais vão deixar de existir. Os que “clicam” convulsivamente a tudo e a todos e, principalmente, a si mesmos (os “selfies”) e a segunda categoria: a dos fotógrafos propriamente ditos.

Para estes fotógrafos, sejam profissionais ou não, mas que costumam participar de exposições, as fotografias continuam, sim, a ser impressas, seja a partir de negativos fotográficos, (as chamadas fotos analógicas, a fotografia química), embora em número bem reduzido, ou as obtidas a partir de arquivos digitais.

Em ambos os casos, os verdadeiros amantes da arte fotográfica seguem ampliando suas fotos, buscando a melhor qualidade de produção física para serem apresentadas em galerias e museus. E há todo um público interessado também em ter fotos de determinados autores nas paredes de suas casas.

Em síntese, existe a foto “convulsiva” – que se presta para ser vista na tela do computador ou do celular – e a foto pensada, construída, criada e produzida como forma de expressão pessoal e artística. Penso que isto responde a primeira parte da pergunta.

Agora a segunda parte, que poderia se ligar de alguma forma à primeira, é conceitual: quando formulei a relação documento/representação esclareci que se trata de uma relação fundante da fotografia, e como tal, ocorre em todas as fotografias que encontrarão sua aplicação e uso (dirigido de alguma forma) no jornalismo, na história, na arquitetura, na antropologia e assim por diante. No livro esclareço em detalhe o fato da fotografia ser um registro a partir de um processo de criação, um registro expressivo, portanto.  De qualquer modo, e para finalizar, o documento fotográfico só existe a partir de uma representaçãoconstruída, elaborada de um cenário, personagem, objeto, de um assunto enfim do real cuja aparência foi registrada pela fotografia.Mas o que está por trás da aparência?E do aparente?Muito bem, aí começa a questão do mistério inerente às imagens e a discussão ideológica da fotografia enquanto documento e representação. Nesta altura recomendo a leitura do livro!

 

Conheça outros livros de Boris Kossoy

Melodias em Estado Nascente

Por Renato Tardivo*

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A primeira característica a se destacar neste ensaio sobre À Sombra das Raparigas em Flor é o trânsito minucioso empreendido pelo autor entre excertos do segundo volume de Em Busca do Tempo Perdido, manuscritos de Proust e a fina interpretação construída em dezesseis capítulos, divididos em duas partes.

Como se trata de um ensaísta de formação psicanalítica, coloca-se a questão: a que se presta o recurso à psicanálise, visto que se trata de literatura? Muitos são os estudos acerca dessa relação que encerram a obra literária em teorias e conceitos psicanalíticos pré-concebidos. Tal uso, vale dizer, parece servir mais à validação da psicanálise. No ensaioOs Processos de Criação em ‘À Sombra das Raparigas em Flor’”, de Philippe Willemart, por outro lado, o recurso à psicanálise enriquece, e muito, as possibilidades interpretativas do livro analisado e de seu processo de criação.

Isso ocorre, por exemplo, no capítulo “A Arte do Retrato”. Escreve o autor: “Não posso deixar passar este trecho sem observar o paralelo entre ‘a iluminação retrospectiva’ e o ‘só depois’ freudiano. Enquanto este reina na análise e permite ao analisando encontrar uma lógica no seu passado […] o escritor já autor num movimento muito mais amplo dá também uma olhada no passado da escritura para encontrar aí uma lógica que poderia chamar genética”.

É observada a temporalidade freudiana do après-coup, ou só depois, marcada pela mistura de tempos e constantes ressignificações. Célebre nesse sentido são as madeleines do primeiro volume…

Há um capítulo poeticamente intitulado “Como Criar a Lembrança de uma Melodia”, que, além de também aludir ao só depois, remete diretamente ao livro de Proust e à pulsão invocante, expressão contida no subtítulo do ensaio de Willemart. Pulsão invocante é aquela que se refere aos chamamentos: ser chamado, se fazer chamar, chamar.

É por essa trama expressiva que o ensaio aborda o enredo e o seu processo de criação, isto é, o momento em que a obra se apresentava em estado nascente, à espera de ser criada. Com densidade intelectual e escrita fluida, este livro acrescentará ao leitor de Proust e pode ser um convite à leitura deste clássico da literatura.

 

*Escritor, psicanalista, professor universitário e doutor em Psicologia Social pela USP. Publicou, entre outros, os livros Girassol Voltado para a Terra (Ateliê), Do Avesso (Com-Arte/USP) e Silente (7Letras), e o ensaio de Porvir que Vem Antes de Tudo – Literatura e Cinema em Lavoura Arcaica (Ateliê).

Morte e silêncio conduzem personagens em “Silêncios no Escuro”

Por: Renata de Albuquerque

O primeiro livro que Maria Viana escreveu para adultos quase chegou à maioridade antes de seu publicado. Passaram-se 17 anos desde que a autora mineira – que escreve livros infantis e didáticos e organizou diversas antologias – escreveu o conto que dá título ao volume. A autora relata que só se deu conta de que a morte e o silêncio são os fios condutores de todos os contos do livro Silêncios no Escuro depois de tê-los reunidos. Personagens que não falam habitam histórias que os levam de um extremo a outro (morte e vida; tristeza e alegria), costuradas por uma narrativa escrita por alguém que se define como uma leitora voraz que gosta de “contar histórias”. A seguir, Maria Viana fala sobre seu mais recente lançamento:

 

Maria Viana fotografada por Laura Campanér

Maria Viana fotografada por Laura Campanér

Este é seu primeiro livro de ficção adulta. O que a levou a escrevê-lo?

Maria Viana: Acho que o que me levou a escrevê-lo foi o desejo de contar algumas histórias que de alguma maneira estavam esperando o momento certo para tomar forma de palavra escrita, já que povoavam meu imaginário e minha memória há muito tempo. Nessas narrativas quis dar vazão para os meus silêncios e os silêncios das personagens, que queriam sussurrar algo por meio da minha escrita.

Como o livro foi escrito?

MV: Sou uma colecionadora de cadernos e cadernetas. Sempre que tenho uma ideia ou uma lembrança me vem à mente, anoto. Como trabalhava, e ainda trabalho, muitas horas como editora ou escrevendo livros teóricos e didáticos, quando me sobra tempo para a ficção desenvolvo essas ideias salpicadas nas anotações. Por isso, essa coletânea foi escrita assim, nas horas que sobravam e ao longo dos anos. Mas há fios conduzindo tudo, como disse, a morte e o silêncio. A presença do pai também é recorrente em toda a obra. Na verdade, o primeiro e o último conto foram estrategicamente posicionados. No primeiro, moveu-me o desejo de retratar a dor de um pai que perdeu muitos filhos antes de ver um deles realmente sobreviver. O último fala também da morte, mas do ponto de vista da criança que presenciou a morte do pai. Deixei de fora alguns contos que tratavam de temas que acontecem no espaço urbano, acho que esse espaço rural, em um tempo indefinido, também dá certa unidade à antologia.

Alguns contos foram reescritos muitas vezes, é o caso de “Silêncios no escuro”, por exemplo. Outros surgiram de histórias que ouvi na infância. Caso da narrativa “A santa que fugiu do altar”. Na verdade, minha avó falou-me desse retrato da menina-santa que circulava pela cidade. Esse foi o mote para a criação da história, mas só esse aspecto da narrativa oral está lá. O resto é invencionice. Esse conto escrevi em uma noite e não mexi em nada, só mudei o título, que foi publicado em uma revista eletrônica como “Santa Manuelinha”.

Capa Silencios no escuro

 

Em termos do processo de criação, qual a diferença entre escrever um livro para crianças e um livro para adultos?

MV: Para mim, escrever para crianças é ainda mais difícil do que para adultos, pois é preciso escrever tendo em vista um destinatário que tem um poder de imaginação enorme, não se pode subestimar isso ao escrever uma história para crianças, no entanto, também é preciso estar atento ao vocabulário, à linguagem. Então, não vejo muita diferença. O trabalho com a linguagem e a depuração do estilo é um desafio sempre, quando se escreve tanto para a criança como para o adulto.

Quais são suas maiores influências literárias?

MV: O fato de ter sido leitora de biblioteca pública desde menina fez com que eu lesse tudo o que me caía nas mãos com muita voracidade e sem critério de escolha muito apurado. Os clássicos da literatura brasileira comecei a ler na adolescência; na juventude tive a sorte de ter uma biblioteca de clássicos de dramaturgia à minha disposição, na escola de teatro onde estudei. Isso foi uma descoberta! Foi quando li pela primeira vez Racine, Molière, Shakespeare e as tragédias gregas. Depois, veio a formação em Letras e o mergulho na literatura francesa. Ainda sou uma leitora e (re) leitora de clássicos e tento, na medida do possível, acompanhar a produção contemporânea, sobretudo dos escritores de expressão portuguesa dos países africanos, mas não saberia dizer se um ou outro escritor influenciou ou influenciará minha produção literária. Claro que ser uma leitora de literatura desde a juventude faz de minha uma boa produtora textual, mas nem eu sei se o que escrevi realmente é literatura ou não, acho que os leitores darão mais conta disso do que eu…

Quais são os temas recorrentes do livro e por que desta escolha?

MV: Depois que fechei o volume me dei conta de que há um fio que percorre toda a obra, a morte e o silêncio, mas isso não foi intencional. Uma amiga que leu alguns contos antes da publicação, chegou a observar que achava estranho uma pessoa que teve uma formação em teatro, como foi o caso da minha, escrever histórias em que as personagens não falam. Essa observação me fez pensar que esse é mesmo um livro de silêncios. Então, este talvez seja o tema central.

Na apresentação da obra, Edy Lima escreve que você faz uma “reinvenção do Realismo”. De que maneira você entende e interpreta essa afirmação?

MV: Estes contos só foram publicados porque a Edy Lima leu os originais e me estimulou a enviá-los para uma editora. Sempre que eu ia visitá-la, ela me perguntava se já tinha enviado para alguém. Não podia mentir, dizendo que já havia enviado sem fazê-lo, é claro. Então, um dia criei coragem, coloquei em um envelope e mandei pelo correio para o Plínio Martins. Portanto, seria natural que a Edy Lima, de quem fui leitora na infância, escrevesse a apresentação desse livro, que realmente não teria saído da gaveta se não fosse por insistência dela. E não veja nisso nenhuma falsa modéstia. Creio que ao escrever isso ela quis aproximar os contos da minha linha de pesquisa à época, já que ela leu também minha dissertação de mestrado, que é sobre a obra O Coruja, do Aluísio Azevedo. Não acho que estou reinventando nada. Só estou contando histórias, que é o que gosto de fazer quando escrevo, faço leituras dramáticas como atriz ou interpreto um samba, pois todo bom samba tem que contar uma história. Mas a Edy Lima tem licença poética para escrever o que quiser.

É sua estreia como escritora de contos. Era um desejo antigo ou a vida lhe levou para esse caminho, naturalmente? O que você destaca dessa nova experiência?

MV: Sou uma estudiosa de romances do século XIX, mas uma apreciadora das narrativas curtas. Sempre admirei a capacidade de alguns escritores que dão conta de uma existência em poucas linhas. Organizei vários livros de contos para diferentes editoras e cheguei a traduzir um livro de contos do Guy de Maupassant. Essas experiências fizeram-me perceber que escrever contos é muito desafiador, por que é preciso cortar os excessos, não há espaço para descrições e digressões, próprias do romance. Creio que quis cometer essa ousadia também, se consegui, não sei.

 

O livro será lançado em 29 de agosto de 2016

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