Férias: tempo de descansar e reenergizar

Por Renata de Albuquerque*

“Enfim, férias!”. Para qualquer pessoa, de qualquer idade, a palavra “férias” traz consigo uma sensação de felicidade e tranquilidade. É a chance de escapar das pressões do cotidiano, de ter tempo para fazer apenas o que se quer, de dedicar-se exclusivamente àquilo que mais se gosta, sem ter obrigações a cumprir: viajar, relaxar, colocar as leituras em dia e recarregar as energias gastas.

E as férias não são bem-vindas à toa. Vivemos uma rotina com a sensação de que temos cada vez menos tempo disponível, mais tarefas a executar, mais trânsito. O estresse diário afeta a saúde física e mental e, segundo pesquisas, é uma doença que já atinge cerca de 90% da população mundial. Por isso, a pausa das férias não é apenas merecida, mas necessária.

Para quem gosta de ler (e se você está lendo esse blog, provavelmente este é seu caso!), uma parte das férias é sempre dedicada aos livros que compramos mas não tivemos tempo de ler, àqueles lançamentos que colocamos em uma lista de desejos, às releituras dos livros mais amados.

E, se você precisa de uma razão extra para se motivar a ler, aqui vai ela: um estudo recente comprova que a leitura é a melhor forma de reduzir o estresse. Apenas seis minutos de leitura diária são capazes de reduzir o estresse em até 68%, com diminuição da frequência cardíaca e da tensão muscular. Os resultados da leitura foram mais eficazes contra o estresse que ouvir música (61%), caminhar (42%) e jogar videogame (21%). “É mais que uma mera distração; é um engajamento ativo da imaginação, pois as palavras impressas no papel estimulam a criatividade e fazem você entrar, essencialmente,  em um estado alterado de consciência”, destaca a pesquisa.

Para dar uma forcinha extra para que você relaxe nas férias, a Ateliê está com uma promoção de 30% de desconto em todo o site. Confira alguns títulos:

 

Epigramas – Se hoje em dia o Twitter desafia o internauta a escrever em poucos caracteres, Marco Valério Marcial, ainda na Roma Antiga, já produzia uma poesia curta, objetiva carregada de ironia. A tradução é de Rodrigo Garcia Lopes.

 

 

A Capa do Livro Brasileiro – O bibliófilo Ubiratan Machado reuniu mais de 1700 capas coloridas reunidas em uma só obra que analisa os 130 anos de História, desde a primeira capa que data de 1820. 

 

 

 

Os Sertões – Organizada por Leopoldo M. Bernucci, a 5ª edição revista e ampliada traz  notas explicativas sobre a obra e seu contexto histórico. O prefácio serve de introdução para os leitores apreciarem a diferentes linguagens que se entrecruzam em Os Sertões.

 

 

O Hóspede – Livro de contos de Mário Higa, que tem a figura paterna como tema central. “O nascimento de uma voz própria, avançada, reveladora, no frequentemente repetitivo, tímido e desanimador cenário da literatura contemporânea”, aponta Rinaldo Gama.

 

 

Gramática Integral da Língua Portuguesa – Nesta gramática, Antônio Suárez Abreu  procura mostrar para que serve tudo aquilo que se estuda numa gramática. Por isso, ela é prática, funcional e útil tanto aos estudiosos da língua como a quem apenas tem dúvidas pontuais, já que traz exemplos simples.

 

Electra(s) – Trajano Vieira, um dos mais importantes pesquisadores brasileiros, traduz em um só volume a Electra de Eurípedes e a de Sófocles, permitindo uma comparação estilística quanto às diferenças e semelhanças de ambas.

 

 

Conheça todas as promoções  (válidas por tempo limitado)

*Jornalista, Mestre em Literatura Brasileira pela FFLCH/USP, autora da Dissertação Senhoras de Si: o Querer e o Poder de Personagens Femininas nos Primeiros Contos de Machado de Assis.

“Moby Dick”, o romance infinito

Maria Schtine Viana*

Na obra Por quê ler os clássicos?,  Italo Calvino faz a seguinte afirmação: “Um clássico é um livro que nunca termina de dizer aquilo que tinha para dizer”. Isso significa que o clássico é uma obra aberta, em que os sentidos podem ser revistos a cada nova geração de leitor, de acordo com os valores do tempo em que está sendo lida. Mas essa inesgotabilidade de sentidos também pode ser associada ao fato de que a cada nova leitura que fazemos de um clássico termos a sensação que estar lendo uma obra nova.

Recentemente reli Moby Dick, pois daria um ciclo de palestras em que trataria justamente da importância de ler os clássicos, e pude comprovar essa máxima de Calvino  mais uma vez. Passagens que não haviam chamado minha atenção em leituras realizadas anteriormente ganharam importância e, ao reler trechos que havia assinalado nas leituras feitas anos atrás, perguntava-me o motivo de aquele trecho ter sido tão importante outrora.

Com isso quero dizer que foi com a emoção de uma baleeira de primeira viagem que embarquei novamente com Ishmael a bordo do Pequod por algumas noites seguidas, relendo avidamente as aventuras do capitão Ahab em busca de Moby Dick. Mesmo conhecendo o desfecho trágico do romance. Na verdade, estava ansiosa por ler novamente os três dias de caçada que ocorrem nos capítulos finais, quando, em meio aos embates dos arpoadores sob o comando de Ahab, vence, majestosamente, a potência da natureza. Talvez goste dessa obra justamente por saber que as últimas palavras do obstinado capitão, ao lançar o arpão que selaria sua morte, são apenas a confirmação de que, se a única certeza que temos é a de que somos mortais, é preciso lembrar sempre que os embates enfrentados no decorrer da vida devem ser realmente significativos. Ainda que para outrem eles pareçam desprovidos de sentido, cada ser humano é singular e deve ter liberdade para escolher o leviatã com o qual quer lutar.

Cabe lembrar que muito do realismo presente em Moby Dick se deva ao fato de o autor dessa obra monumental, o norte-americano Herman Melville, ainda muito jovem ter embarcado como grumete em um navio em direção a Liverpool, na Inglaterra. Essa viagem permitiu que Melville descobrisse duas paixões que o acompanhariam pelo resto da vida: o mar e a escrita literária. Seu livro Redburn (1849) foi baseado nessa primeira experiência de viagem. Nele, o escritor denuncia a exaustão da vida a bordo. Três anos mais tarde, depois de inúmeras tentativas de sobreviver como escriturário e professor, embarca em janeiro de 1841 em um navio baleeiro, o Acushnet, que o levaria aos mares do Sul. Essa viagem, com duração de aproximadamente 18 meses, lhe forneceu os elementos necessários para escrever Moby Dick, dez anos depois.

Cansado da pesca de baleias, desembarca do Acushnet na ilha Nuku-Hiva, na companhia de um camarada, que o abandona dias depois. Convive com os moradores locais por algum tempo, até ser resgatado pela tripulação do Lucy Ann, um barco australiano.

O escritor Herman Melville

Os primeiros livros de Melville, Typee: A peep at Polynesian life (Uma espiadela na vida da Polinésia, 1846) e Mardi (1849), foram inspirados nessas viagens. No primeiro, relata sua convivência com os nativos das ilhas Marquesas; no segundo, descreve sua vida a bordo do Lucy Ann. Uma das experiências relatadas em Mardi é o motim organizado pelos tripulantes, que reivindicavam o pagamento em atraso e melhores condições de vida a bordo, do qual Melville participou e que resultou em sua prisão no Taiti. Consegue fugir da prisão e chega a trabalhar como agricultor nessa ilha antes de retornar para Boston, três anos depois, como marinheiro, a bordo da fragata United States. Essas últimas aventuras foram relatadas no livro Omoo (1847).

Todavia, Melville escreveu sua obra-prima, Moby Dick, não no calor das viagens, mas alguns anos depois, em 1851. Diferentemente dos livros anteriores, nessa obra o que impera não é o espírito aventureiro e a prosa de fácil entendimento. Por trás da aparente caça à baleia branca, descortina-se um mundo simbólico, metafísico e denso, que não caiu no gosto popular. As vendas não atingiram o patamar esperado.

O escritor faleceu em Nova Iorque em 1891, aos 72 anos, e o mundo ainda demoraria pelo menos mais trinta anos para reconhecer sua genialidade literária. Isso porque, com o advento da Primeira Guerra Mundial, sua obra passou a ser vista como uma reflexão possível acerca do sombrio destino da humanidade. A luta constante entre o bem e o mal, tão presentes em Moby Dick, e a busca pela perfeição do caráter humano fizeram com que filósofos e escritores da segunda metade do século XX passassem a vê-lo como uma espécie de precursor do existencialismo.

O crítico inglês D. H. Lawrence, em particular, em ensaio de 1923, faz uma interessante analogia entre a obra e o desejo de domínio por parte dos norte-americanos. De acordo com ele, no momento em que a obra foi escrita os Estados Unidos lutavam por expandir suas fronteiras. Por isso, o que temos no romance são três raças selvagens, simbolizadas pelos três arpoadores de diferentes origens: Queequep, o ilhéu do Sul; Tashtego, o pele-vermelha da costa; e Daggoo, o negro, servindo sob a bandeira norte-americana, ao comando do capitão de um barco que representaria o mundo civilizado.

À primeira vista, o romance de Melville trata da perseguição obstinada de um capitão em busca do cachalote que lhe destruiu a perna em um embate em alto-mar. No entanto, o próprio narrador deixa claro que os reais motivos do capitão Ahab eram de outra ordem: “Havia poucos motivos para duvidar de que, desde aquele encontro quase fatal, Ahab nutrisse uma violenta sede de vingança contra a baleia, ainda mais terrível porque, em sua morbidez frenética, atribuíra a ela não apenas todos os seus infortúnios físicos, como também seus sofrimentos intelectuais e espirituais.”

Antes da caçada propriamente dita, o narrador Ishmael, único sobrevivente da trágica aventura, apresenta informações minuciosas sobre a região onde se encontra; a maneira como conhece Queequeg, o ilhéu dos mares do Sul, que será um dos principais arpoadores na caça à baleia branca. Detalhes sobre a equipagem do navio e a origem da tripulação; informações históricas sobre a caça à baleia e muitas outras vão preparando o espírito do leitor para a grande batalha que será travada em alto-mar.

Mais de uma centena de páginas antecedem a apresentação do grande capitão Ahab. Além disso, somente alguns capítulos depois de sua aparição é que a tripulação, e também os leitores, saberemos que o baleeiro Pequod foi equipado especialmente para uma perseguição a Moby Dick, e não para uma caçada rotineira a quaisquer espécies de baleia.

Dessa maneira, Melville vai enredando o leitor de tal forma em sua trama narrativa que, como os marinheiros recrutados pelo obstinado Ahab, já não se consegue desembarcar do navio. Passa-se a fazer parte dessa comunidade de baleeiros solitários que percorrem os mares por três anos, em busca desse monstro sagrado, sabendo-se, de antemão, que a essa missão estria fadada ao fracasso.

Mais um exemplo desse processo gradual de construção narrativa, que parte do geral até chegar no específico, pode ser verificado no capítulo intitulado “A brancura da baleia”. Nele o narrador discorre sobre o branco em suas diversas manifestações, passando pela delicadeza da camélia e das pérolas, pela coragem do destemido corcel branco, pela inocência das noivas em suas vestes nupciais – até chegar ao terror que aparições encobertas pela alvura dos fantasmas podem provocar, para sintetizar que, Moby Dick, o cachalote branco representava simbolicamente todas essas manifestações da brancura. Se, por um lado, o branco é apresentado neste capítulo como símbolo de pureza, da inocência e do poder divino; em contrapartida, simboliza também a palidez da morte e o horror das aparições sobrenaturais. É o vazio que tudo esconde.

O narrador Ishmael desenvolve reflexões em torno dos mistérios que o circundam ao entrar em contato com esse vazio, representado por Moby Dick, e empenha-se em entendê-lo por meio de questionamentos que não passam apenas pela razão, mas também pela sua fé, suas emoções e dúvidas. Por outro lado, o capitão Ahab ataca esse vazio e seu desejo é destruí-lo, ainda que assim acabe levando consigo toda tripulação ao encontro da morte.

Quando escreveu Moby Dick, Melville estava longe de saber que sua obra se tornaria um clássico, mas as impressões que Jorge Luis Borges apresenta dessa obra confirmam minhas sensações: esta é uma obra que vale a pena ser lida e (re) lida como um romance infinito. Escreve o escritor argentino: “No inverno de 1851, Melville publicou Moby Dick, o romance infinito que determinou sua glória. Página a página, a narrativa se engrandece até usurpar o tamanho do cosmos: no início, o leitor pode supor que seu tema é a vida miserável dos arpoadores de baleias; depois, que o tema é a loucura do capitão Ahab, ávido por perseguir e destruir a Baleia Branca; depois, que a Baleia e Ahab e a perseguição que fatiga os oceanos do planeta são símbolos e espelhos do Universo.”

 

 

*Atualmente, mora em Portugal e é doutoranda no Departamento de Estudos Estudos Portugueses, da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. É escritora e autora de obras didáticas e livros destinados à formação de professores. Mestre em Culturas e Identidades Brasileiras pelo IEB-USP e Bacharel em Letras pela mesma instituição, escreveu os livros Silêncios no escuro (Ateliê), História e Geografia do Nordeste (FTD), A lenda dos diamantes e outras histórias mineiras (Scipione), Festa no céu (Positivo), Asa da Palavra: literatura oral em verso e prosa (Melhoramentos), Um estudo sobre as obras clássicas de viagens e aventuras, Um estudo sobre as fábulas e os contos de fadas (Eureka), entre outros.

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Um mito, duas versões

Por: Renata de Albuquerque

Trajano Vieira é um dos mais reconhecidos pesquisadores da literatura grega no Brasil. Com uma bagagem de décadas de estudo e dedicação ao tema, ele preparou, exclusivamente para a Ateliê Editorial, a tradução de duas versões da tragédia Electra: uma de Sófocles; outra de Eurípedes. O desejo de vingar a morte do pai desdobra-se, em cada autor, com características próprias, que vão da tensão ao humor. A seguir, o Doutor em literatura grega pela USP, livre docente e professor do IEL,  na Unicamp, fala sobre seu Electra(s):

 

Qual a importância em reunir as duas “Electra” em só volume? Esta é uma iniciativa inédita?

Trajano Vieira: O objetivo maior da publicação num único volume das duas Electra, que apresentam o mesmo mito, foi dar ao leitor a oportunidade de comparar o diferente tratamento conferido ao tema por dois poetas trágicos com características bastante distintas: Sófocles e Eurípides. Desconheço a existência de projetos tradutórios com a mesma motivação. Creio que não há, pelo menos entre nós.

Quais os desafios da tradução para compor um volume como esse? As traduções foram realizadas especialmente para este volume ou já haviam sido feitas anteriormente e foram apenas reunidas?

TV: As duas traduções foram pensadas em função da publicação da Ateliê. Os desafios que obras dessa magnitude impõem ao tradutor são inúmeros. Destacaria, entre outros, a necessidade de encontrar uma coerência formal em português, que dialogue com aspectos centrais da linguagem do original. Se o resultado é positivo ou não, cabe ao leitor avaliar. Contudo, deve-se considerar a relevância ou não do gesto tradutório. Nesse tipo de trabalho, o tradutor se arrisca ao buscar formulações que escapem dos sentidos cristalizados nos dicionários e nas gramáticas. Esses instrumentais são ponto de partida e não de chegada, como costuma ocorrer em traduções escolares convencionais.

 

A bibliografia sobre as Electra(s) é vasta. Para este trabalho especialmente, quais foram as referências utilizadas e por quê?

TV: Eis uma questão de difícil resposta. Como você observa, a bibliografia sobre as duas tragédias é imensa. Até por dever de ofício, por causa da minha atividade de professor na Unicamp, procuro me manter atualizado sobre as publicações especializadas, dando preferência àquelas que abordam questões poéticas e retóricas. Acabo privilegiando os ensaios com qualidade estilística e procuro me distanciar dos que exibem argumentação esquemática e perfunctoriamente acadêmica. Estes últimos trabalhos dão muitas vezes a impressão de estar fazendo uma grande descoberta científica, quando na verdade revelam apenas o uso nem sempre significativo de uma vírgula ou de um ponto e vírgula. Entre os especialistas de tragédia que admiro muito, não só pela agudeza e erudição, como pela elegância da escrita, mencionaria Bernard Knox.

 

Quais são os principais pontos de contato entre os textos de Sófocles e Eurípides?

TV: O principal ponto de contato entre ambos decorre das características de fundo do gênero trágico. Refiro-me à questão do destino e de sua inesperada reviravolta, cujos efeitos nefastos exibem a fragilidade da experiência humana. O personagem atua como senhor de sua história e descobre, ao final, que outros aspectos foram responsáveis por sua forma de agir e de enxergar a vida. Normalmente isso ocorre tarde demais, quando o cenário negativo conduz o herói à própria destruição.

 

O que os distancia mais?

TV: A concepção de linguagem e do próprio gênero trágico afasta os dois escritores. A grosso modo, apenas para situar o leitor que desconhece os autores, pode-se dizer que em Sófocles prevalece o tom sereno e a abordagem clássica do acontecimento trágico. Eurípides é sobretudo moderno e chega a introduzir elementos cômicos em sua obra (notem-se, por exemplo, as características acentuadamente simplórias do marido oficial de Electra…), dando a impressão, muitas vezes, de que seu projeto procura ir além do gênero trágico tradicional. Há um aspecto dramático na Electra de Eurípides que antecipa certos traços romanescos.

 

De que maneira o senhor recomenda a leitura, para que as diferenças e semelhanças fiquem mais claras para o leitor? Cena a cena ou cada peça em sua totalidade?

TV: Cada um de nós deve descobrir o modo mais adequado de realizar a própria leitura. Eu prefiro ler integralmente cada uma das obras, para, num segundo momento, retomar trechos marcantes e estabelecer paralelos.

Conheça mais sobre Trajano Vieira

Viaje pela história de Rússia através dos livros

A Rússia, que hoje é sede de uma Copa do Mundo, já foi cenário de uma grande transformação na passagem do sistema socialista para o sistema capitalista, conta Lenina Pomeranz em seu livro “Do socialismo soviético ao capitalismo russo“.

História da Rússia pelos Livros

Caderno de Literatura e Cultura Russa – Dostoiévski é uma revista bienal do Departamento de Letras Orientais da Universidade de São Paulo. Destina-se aos pesquisadores interessados em temas relacionados à Rússia: literatura, artes, filosofia e ciências humanas em geral.

Teatro Russo – Literatura e Espetáculo traz um amplo debate sobre os mais variados aspectos, que cercam a história e a estética da arte teatral na Rússia.

Matrizes Impressas do Oral: Conto Russo no Sertão une Brasil e Rússia, dois polos geográficos, culturais e simbólicos do mundo. Jerusa Pires Ferreira demonstra neste seu livro, não só que a linguagem dos contos maravilhosos é universal, além disso nos desvela, os mecanismos literários e culturais dessa universalidade. Consegue assim aproximar a magia dos contos a uma geografia da razão, na medida em que alcança o prodígio de comunicar esses polos.

Contos da Nova Cartilha – Primeiro Livro de Leitura, contém fábulas, histórias reais, contos folclóricos, descrições de paisagens e adivinhações que o autor russo Liev Tolstói, conhecido pelos romances Guerra e Paz (1869) e Anna Karenina (1877), usava em suas aulas. Mais do que ensinar a ler, sua proposta era “educar para libertar”.

Esses e outros livros, você vai encontrar nessa seleção especial que a Ateliê separou para que viaje pela história da Rússia, sem sair do Brasil. Confira.

Mistura de técnicas marca ilustrações de “Coração, Cabeça e Estômago”

Gustavo Piqueira, da Casa Rex, é um designer premiado internacionalmente. Ele foi convidado a ilustrar a edição de “Coração, Cabeça e Estômago”, de Camilo Castelo Branco, que a Ateliê acaba de lançar, pela coleção Clássicos Ateliê. Nesta entrevista, ele fala ao Blog da Ateliê sobre como foi a experiência:

Quando surgiu o convite para ilustrar a obra, você a leu? Ou o interesse veio após a leitura?

Gustavo Piqueira: Eu a li após o convite, o Plínio Martins Filho me chamou para ilustrar pois considerou que eu gostaria da obra (o que de fato ocorreu).

Caso tenha lido a obra, qual foi sua primeira impressão a respeito?

GP: Confesso que foi surpreendente: como muitos, o que conhecia de Camilo Castelo Branco era “Amor de Perdição” — não esperava uma obra tão divertida como “Coração, Cabeça e Estômago”.

 

Quais foram suas inspirações e referências para ilustrar a obra?

GP: Já que o texto apresentava esse viés cômico, quis brincar com a própria ideia de ilustração contemporânea para um clássico: quase todos os personagens masculinos que ilustrei (inclusive aquele que representa o protagonista) tem o rosto do próprio Camilo Castelo Branco. Mesmo os outros rostos que compõe as ilustrações vem de retratos expostos em sua antiga casa, hoje tornada museu. Além disso, misturei não apenas técnicas de desenho — colagem, pincel, caneta — como também uma execução de aparência mais “descontraída” tomando, contudo, o tipo de caricatura que predominava nos periódicos da segunda metade do século 19 como base gráfica estrutural. Ou seja, a ideia foi mesclar técnicas, épocas e tons.

 

Qual a função, em sua opinião, das ilustrações nesta edição?

GP: Penso que ajudar a aproximar o leitor contemporâneo do texto, ajudar a remover uma eventual torcida de nariz que aqueles livros considerados “clássicos” podem trazer a tiracolo, como se a classificação fosse sinônimo de conteúdo pouco interessante ou ultrapassado.

 

Camilo Castelo Branco é um autor considerado romântico, mas nesta obra ele mostra uma veia cômica bastante marcada. Isto, para o trabalho de ilustração, foi um desafio ou um elemento que ajuda na desconstrução da imagem canônica do “clássico para vestibular”?

GP: Para a ilustração não foi nenhum problema, pois os desenhos terminam por se vincular muito mais à narrativa específica do livro do que à obra do autor como um todo.

Como essa veia cômica do autor foi traduzida no trabalho de ilustração?  

GP: Escolhi passagens específicas que pudessem ser traduzidas em desenhos divertidos e, mesmo naquelas imagens que ilustram trechos mais neutros, busquei acrescentar alguma expressão ou movimento que carregasse um pouco de graça. O objetivo foi o de criar uma série engraçada, mas sem passar do ponto.

 

Como foi o trabalho de elaboração da capa? Qual foi sua preocupação maior quanto a este aspecto?

GP: A capa deveria seguir o padrão da coleção Clássicos Ateliê. Logo, penso que o trabalho foi muito mais o de encontrar um “encaixe” entre a linguagem que adotei nas ilustrações e essa estrutura.

Conheça a Coleção Clássicos Ateliê

Do Socialismo Soviético ao Capitalismo Russo

Lenina Pomeranz, professora livre docente associada do Departamento de Economia da FEA – Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP acaba de lançar  Do Socialismo Soviético ao Capitalismo Russo. Sua pesquisa sobre o processo de transformação sistêmica da Rússia, teve início com o acompanhamento da perestroika, como a primeira pesquisadora a implementar um programa de cooperação entre o Instituto da América Latina da Academia de Ciências da URSS e a USP. Ela, que fez seu doutoramento no Instituto Plejanov de Moscou, de Planejamento da Economia Nacional e pós doutoramento na Boston University, com bolsa Fulbright fala, nesta entrevista ao Blog da Ateliê, sobre seu novo livro:

Do Socialismo Soviético ao Capitalismo Russo

Neste ano em que se comemoram 200 anos de Marx, qual o legado deste autor e do socialismo soviético para o mundo de hoje?

Lenina Pomeranz: A resposta a esta pergunta exige, em primeiro lugar, a divisão dela em duas. A relação entre o legado de Marx e o do socialismo soviético é motivo de ampla discussão entre marxistas e pós marxistas, parte dos quais não reconhece o sistema soviético como socialista. Além disso, a contribuição de Marx, no seu 200º aniversário transcende o socialismo soviético, não obstante façam parte do legado marxista as preocupações e os escritos sobre a Rússia, nos anos finais da década de 1880. São exatamente estes escritos, relativos aos caminhos alternativos possíveis para a revolução russa, derivados da existência da exploração comunitária da agricultura – característica própria da Rússia à época – que constituem um bom exemplo de como os fundamentos de sua teoria podem e devem ser aplicados em diferentes contextos e situações históricas do sistema.  Acredito que este seja o seu grande legado.

Quanto ao legado do socialismo soviético, está no aprendizado que oferece uma  avaliação dos acertos e erros incorridos na tentativa de construção de um sistema alternativo ao capitalismo dominante. Ambos, acertos e erros, foram muitos e esta avaliação, mesmo restringida pelo curto espaço do tempo histórico que separa os dias de hoje da data de sua extinção, é plena de ensinamentos.

 

Seu livro fala de sua experiência na Rússia em um momento de profundas mudanças históricas. Pessoalmente, o que mais lhe marcou nessa experiência?

LP: Marcou-me profundamente o processo pelo qual acabou se dando o desmanche da URSS. A esperança de um socialismo de face humana, bandeira da perestroika , acabou por desfazer-se,  frente à realidade social  em que este socialismo deveria ser implantado.

 

Como foi ser pesquisadora do tema e viver seu “objeto de estudo” na prática?

LP: Foi muito bom, porque esta vivência tornou possível sentir o clima da época, a explosão da participação popular nas ruas, derivada da glasnost – a democratização política, acompanhar as contradições de interesses e os conflitos que permearam o processo de transformação iniciado com a perestroika, assim como, posteriormente,  o aguçamento dessas contradições e conflitos que levaram ao fim da URSS.

 

É possível falar em um legado do socialismo soviético ao capitalismo russo? Se sim, quais são os ecos do primeiro no segundo?  Ou: há rastros do primeiro no segundo?

LP: É possível sim, embora os fundamentos de ambos os sistemas sejam completamente distintos. Exatamente para entender as heranças culturais do passado existentes no novo capitalismo russo, busquei estruturar a minha pesquisa e o livro dela resultante, em torno dos traços culturais básicos formados ao longo da história russa.  Como rastros do socialismo soviético, já existentes antes mesmo dele, dois são proeminentes: o paternalismo e o autoritarismo. No âmbito do paternalismo, pode se incluir a preocupação com a manutenção, ainda que restrita, de alguns benefícios do sistema de bem estar social existentes no sistema soviético.

 

Na apresentação do livro, a senhora escreve: “Afirmar que entendi seria prepotência; mas procurei fazê-lo. Dadas as próprias necessidades de acompanhar a construção de um novo sistema, tanto no plano econômico quanto no plano político, ou seja o como, durante alguns anos releguei a segundo plano a análise do funcionamento do sistema soviético, o porquê.” Hoje, o que se pode depreender dessa análise do porquê?

LP: Logo depois da dissolução da URSS, surgiram inúmeras análises sobre esse porquê, apontando para fatores que estiveram presentes e marcaram a existência deste país. A minha contribuição ao debate em torno dessas análises do  porquê  está em sublinhar alguns elementos dessa experiência, que julgo devam ser considerados no debate em torno do tema, ressaltando o seu caráter controverso e as limitações impostas pelo limitado tempo histórico desde a dissolução da URSS. Resumindo, estes elementos referem-se: i) ao quadro de referências em que se deu a revolução de outubro de 1917: a participação da Rússia na 1ª. Guerra Mundial e suas consequências sobre a vida da população, inclusive seus anseios pela paz; a não realização da esperada revolução mundial; a existência de forte tradição revolucionária contra o czarismo; finalmente, a construção do socialismo em um único país; ii) às condições nas quais se deu a evolução do sistema: a Rússia era um país relativamente atrasado em comparação com os países econômica e politicamente mais avançados, o que levou à adoção de uma estratégia de crescimento centrado na industrialização; não havia experiências anteriores, nem indicações teóricas sobre como construir o novo sistema, o que, por sua vez,  levou à adoção pragmática de alternativas até finalmente se consolidar no modelo formado a partir dos anos 1930, sob a liderança de Stalin; iii) ao stalinismo e as marcas positivas e negativas por ele deixadas; iv) ao debate sobre as possibilidades de  reforma do sistema, introduzido pelo insucesso da perestroika.

 

O que se pode dizer do sistema russo hoje, cem nos depois da revolução de 1917?

LP: Acredito que a melhor resposta a esta pergunta será fazer uma nova pergunta: teria a revolução russa interrompido um caminho no sentido do desenvolvimento capitalista da Rússia? Em outros termos, qual teria sido o perfil do capitalismo russo se o seu desenvolvimento não tivesse sido interrompido pela revolução de outubro de 1917 e a construção do sistema socialista soviético, que marcou significativamente o século XX? Acredito que uma resposta  a estas perguntas depende de um aprofundada análise das condições históricas que determinaram a própria eclosão da revolução.

Conheça a obra Do Socialismo Soviético ao Capitalismo Russo.