O Avesso da Tela: corte, ponto

Renato Tardivo*

As duas operações mais básicas em um filme são a filmagem e a montagem. A primeira se refere à forma com que são feitos os registros, ou seja, à mise-en-scène – posição de câmera, efeitos de luz, interações entre os atores, cenários etc. Já a montagem diz respeito à escolha e à combinação das imagens. Dessas duas operações resulta o filme, uma narrativa que se vale de som e imagem e se constrói do encadeamento de quadros, planos e sequências. É, portanto, a sucessão de imagens, aliada ao código sonoro, que cria a nova realidade. Não se trata, contudo, de mera soma de registros. O encadeamento de imagem e som implica descontinuidade em sua percepção. Corte.         

Os 14 contos de Somente nos Cinemas, livro escrito por Jorge Ialanji Filholini, são cinematográficos por excelência. E não apenas porque tematizam o cinema em seus enredos, mas sobretudo porque se correspondem com a linguagem fílmica em sua forma. Nessa medida, as histórias tanto trazem o universo do cinema para o centro, por meio da metalinguagem e da intertextualidade, como também estabelecem diálogo com esse universo de forma indireta, sendo as narrativas resultado do imaginário e das fantasias das personagens.

Ainda, chama a atenção a recorrência de dois temas ao longo da coletânea: a ambiência ficcional – São Carlos, cidade do interior paulista – e a presença da morte. Falemos, primeiro, do último. “A morte é a vitória do tempo”, escreve o narrador-protagonista do conto “O Diário de JF”, parafraseando o crítico e teórico do cinema André Bazin (1918-1958). Mas, se as imagens pretendem imortalizar o que foi filmado, a operação, no limite, jamais se consuma. O filme sempre parte da tela preta e retorna a ela. E, durante a travessia, a morte se interpõe: nas transições, nos cortes, no que fica para trás, em tudo aquilo que o quadro não mostra.

Uma vez mais, forma e conteúdo coadunam-se. As frases do livro são curtas. Dissecam, pelo avesso, o universo retratado. Implicam descontinuidade em sua leitura. Há contos primorosos nesse sentido. “Projeto: Favela” é um deles. A narradora, responsável pela construção dos cenários, é chamada para um projeto, encabeçado por um gringo, e deve construir uma favela. “Cenários são atores sem fala”, ela escreve. O final do conto é arrebatador, ao trazer da invisibilidade personagens reais que, ao se apropriarem do cenário, inviabilizam a produção: “Uma criança me pede para ajudá-la a abrir a janela. Foi a primeira vez em que uma janela cenográfica teve uma visita do cotidiano sem roteiro e filmagem”.

“O Diário de JF” também apresenta um projeto que é abortado. Em forma de diário, o narrador-protagonista, um cinéfilo, relata o período em que realiza seu primeiro grande trabalho como assistente de produção. Metalinguagem e intertextualidade aliam-se, de modo que o conto encampa a potência do livro – o cinema na literatura; a literatura como cinema; vida que, motivada ao avesso pela morte, salta na tela: “Foi bonito. Uma pena, em meia hora vou morrer sufocado e todo vomitado ao lado dela”.

Retomando as duas operações básicas de um filme e transpondo-a para a literatura de Filholini, podemos propor que o enredo, os cenários e as personagens são trabalhados na chave da filmagem; já o encadeamento entre as frases, a combinação de elementos, a pontuação, isto é, a forma, que em última instância cria a nova realidade, é trabalhada na chave da montagem.

Nessa operação engenhosa de correspondência entre imagem e palavra, os cenários – universos forjados – são contaminados pela vida e, reversivelmente, São Carlos – cidade real – é transformada em cidade cenográfica: “Sanca é traiçoeira. Quando você está de boa, vem a cidade e na maciota te queima”. Por meio dessa ambiência, as personagens e, por extensão, o leitor têm a oportunidade de se prolongarem ao infinito, como também afirmava André Bazin a respeito da tela do cinema, na exata medida em que são visitados pela morte.

Campo e contracampo, literatura e cinema, avessos. Não é aleatório que o narrador do conto “O Eldorado” escreva: “Nunca mais sairia do Cine Joia. O avesso do cenário. O drama cinematográfico. Nenhum detalhe excluído da tela. A vida deveria morar em um filme”. Ponto. 

*Renato Tardivo é psicanalista e escritor. Professor Colaborador do Departamento de Psicologia Clínica do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo e doutor em Psicologia Social da Arte (USP). Autor, entre outros, dos livros Cenas em Jogo – Literatura, Cinema, Psicanálise (Ateliê/Fapesp) e do volume de microcontos Girassol Voltado Para a Terra (Ateliê). 

William Morris – Sobre as Artes do Livro

Sempre que é preciso apontar um marco inicial do movimento de private press, o marco é a publicação de The Story of the Glittering Plain. De autoria de William Morris, o objetivo da obra era recuperar a beleza do livro, perdida em meio às tiragens cada vez mais apressadas e descuidadas da imprensa regular. Editado por Gustavo Piqueira, responsável pela introdução e revisão técnica, William Morris – Sobre as Artes do Livro traz à tona este tema. A seguir, Gustavo Piqueira, que com Samia Jacintho  elaborou o projeto gráfico da edição, fala sobre ela com o Blog Ateliê:

Como surgiu a ideia do projeto de editar este livro?

Gustavo Piqueira: A ideia partiu do Plinio Martins Filho, a partir de uma coletânea de textos de Morris publicada em inglês, em 1982, intitulada “The Ideal Book”. A princípio meu envolvimento no projeto seria bem menor: eu me limitaria a escrever um posfácio e executar o projeto gráfico. A coisa começou a mudar quando, ao ler o conteúdo, percebi que alguns dos textos eram conferências proferidas por Morris com o auxílio da projeção de slides (slides ausentes da versão impressa do original em inglês) e que um texto comentando imagens que o leitor não poderia ver, sobre temas tão específicos como “xilogravuras de Um no século XV”, se constituiria em algo extremamente árduo e, para boa parcela de leitores, desinteressante. Do mesmo modo, senti falta de uma profusão de imagens mostrando a produção de Morris na Kelmscott Press, dele colocando em prática aquilo que pregava. Então, por conta própria, comecei a rechear o conteúdo com um vasto aparato iconográfico que passei a pesquisar. E esse trabalho foi tão intenso que acabou me levando a mexer em todo o resto: uma considerável revisão técnica na tradução, a troca do breve posfácio por uma introdução de maior fôlego, etc. No fim, quando me dei conta, havia transformado o livro quase que totalmente.

Para quem ainda não teve contato com o livro, poderia falar brevemente sobre o que foi o “Arts and Crafts” e o que ele representou?

GP: Muito mais do que um movimento calcado em pilares estéticos, o Arts and Crafts surgiu na Inglaterra como um arcabouço de princípios ideológicos em contraposição aos efeitos colaterais da industrialização que transformava o país durante o século XIX quando, em paralelo aos propalados benefícios do progresso, a produção em massa começava a ser associada à desumanização e o produto que saía das fábricas à materialização dessa degradação em forma de feiura. Assim, bebendo num passado idealizado do folclore inglês e da Idade Média, com suas guildas e artesãos, os partidários das “Artes e Ofícios” pregavam um retorno à valorização da manufatura, à valorização do homem por trás do objeto — inclusive em suas condições de trabalho. Enalteciam o processo de produção, defendiam a beleza não como ornamento fútil, mas como expressão da verdade: a verdade de seus materiais e execução, a verdade de sua identidade cultural particular. 

Do Reino Unido, o movimento se espalhou por outros países da Europa e pelos Estados Unidos, com diversos graus de intensidade e originalidade. No entanto, a insustentabilidade de sua base fundamental — a negação da indústria — logo tornou-o obsoleto, com seu idílio medieval esmagado pelo horror da Primeira Guerra e sua frágil teoria solapada pelo modernismo, que, ao seguir na direção contrária e abraçar as máquinas, definiu o caminho a ser percorrido pelo século XX. A ruptura, contudo, não é tão profunda quanto se costuma avaliar: alguns membros fundadores da Deutscher Werkbund são oriundos do Arts and Crafts alemão. E, com Mies van der Rohe, Peter Behrens e Walter Gropius entre seus integrantes, a associação foi uma espécie de gênese da escola mãe do modernismo, a Bauhaus.

Já no século XIX havia uma preocupação com a volta da manufatura e com uma “industrialização desenfreada”. De que maneira esta discussão pode ser transposta para o século XXI?

GP: Penso que não é nem um pouco difícil encontrar alguns paralelos com o crescente incômodo gerado por nossa completa submissão à revolução tecnológica corrente, que também vem gerando uma reação no sentido de se revalorizar algumas práticas e saberes do fazer manual. 

Qual a importância de William Morris para o design (e, em particular, para o design dos livros)? Qual o legado da Kelmscott Press para o mercado editorial?

GP: Morris buscou, na Kelmscott Press, elevar os princípios de composição e produção aos mais altos padrões, com alguns deles até hoje reverberando como paradigmas do “livro ideal” — principalmente a defesa da unidade visual da página, da integração de texto, imagens, ornamentos, mancha e demais elementos como partes de um único sistema. O “belo livro” seria a soma de todas as suas dimensões — nem só forma, nem só conteúdo. O modelo editorial da Kelmscott Press, assim como de todas as outras private presses do período, também frutifica até hoje — seja nas pequenas tiragens extremamente caprichadas de alguns livros (muitos deles artesanais), seja naquilo que denominamos como “editoras independentes”. Visualmente, porém, seus livros não parecem ter deixado herdeiros. Não há como passar incólume por um Kelmscott Chaucer, mas ele é admirado em sua opulenta excentricidade, não como algo que lançou as bases para o que hoje associamos ao “belo livro”. O fato é que, numa análise puramente formal, o programa estético que ele desenvolveu para a Kelmscott Press não deixou quase nenhum fruto visível no design do livro moderno. Suas fontes Troy e Golden nunca exerceram a influência por ele imaginada. O inconfundível design de página, em seu gritante contraste das margens com a pesada mancha de texto, também não. Nem a igualmente densa moldura ornamentada. Até mesmo a fonte Bodoni, que no livro ele classifica como possuidora de uma “feiura sufocante”, passou longe de se ver eternizada como o tipo mais ilegível já criado (outra de suas afirmações).

“Com todas as suas idiossincrasias, Morris sempre se mostrou muito coerente e devotado a um único deus — ao único deus possível: a sua, perdoe- me o termo um tanto desgastado, arte”. Quais são as idiossincrasias a que este trecho se refere? 

GP: A produção de Morris foi tão prolífica que seria possível redigir biografias nas quais, aparentemente, trataríamos de pessoas diferentes: o idealista que imprimia seus próprios livros em casa, o designer que ditava a moda nos living rooms londrinos abastados, o radical líder socialista, o nostálgico medievalista, o bem-sucedido homem de negócios, o protetor do patrimônio histórico, o autor de literatura hoje classificada como fantástica… Penso que, ao se combinar todas essas possibilidades, é fácil entender o que eu chamo de idiossincracias e aparentes contradições em sua trajetória. Mas, como afirmo no texto introdutório, não considero isso um problema. Pelo contrário, do choque de tudo isso brotou uma produção extremamente original e consistente.

Conheça outras obras de Gustavo Piqueira

Livro: sua melhor companhia

Em tempos do isolamento imposto pela pandemia de coronavírus, muita gente se sente sozinha. Afinal, o contato social presencial fica restrito às pessoas que moram na sua casa e a melancolia pode tomar conta, especialmente nas famílias pequenas ou nos lares de pessoas sozinhas.

Há quem busque refúgio na rede social, há quem organize encontros virtuais por teleconferência, há quem tenha (re)descoberto o hábito de telefonar todos os dias para um parente ou amigo querido.  Independente de como você escolheu passar essa quarentena, certamente algo que não pode faltar para que possamos suportar esse momento é a cultura. Afinal, como ensina Nietzsche: “A arte existe para que a realidade não nos destrua”.

Para ajudar você a atravessar esse período, fizemos uma seleção de livros de leitura leve, interessante e enriquecedora:

50 Tons da Vida (Roberto Livianu) – As crônicas falam das miudezas do cotidiano, sobre a experiência profissional do autor, corrupção e sobre amor. Livianu prende o leitor desde a primeira linha, com sensibilidade e humanismo. Além disso, sua palavra é extremamente descritiva, fazendo com que aquele que a lê sinta as sensações e veja as cores mostradas vivamente nas crônicas. Um convite estimulante e instigante.

Contos do Divã (Sylvia Loeb) – O que há de literatura numa sessão de psicanálise? Entre quatro paredes, dois sujeitos enfrentam palavras e silêncios, revelações e resistências, tramas de desejo, sofrimento e angústia. São histórias assim que a psicanalista Sylvia Loeb relata em Contos do Divã. No sentido inverso dos textos técnicos, a autora optou pela ficção como forma de capturar o assombro e os impasses que pontuam esse encontro. 

Somente nos Cinemas (Jorge Ialanji Filholini) – Os contos misturam a vida, a literatura e o cinema, paixões de quem ama cultura e arte. E mais: em sua escrita, o autor de certa forma mimetiza e homenageia o cinema, deixando a prosa saborosa e instigante para os amantes da sétima arte.

Velhos Amigos (Ecléa Bosi) – Uma abordagem literária sobre o tema da memória individual e coletiva no Brasil. Aqui, lembranças reais de velhos operários, imigrantes e outros personagens anônimos da vida brasileira estão organizadas em pequenas narrativas entre o conto, o poema e a crônica, para serem lidas por jovens, crianças, adultos e velhos.

Cinematografia (Paulo Lopes Lourenço) – As imagens presentes nos 90 poemas de Paulo Lopes Lourenço reunidos neste livro criam narrativas a partir desse conceito. “Estes poemas poderiam ser fotogramas, fabricados visuais ou instalações. E embora contenham, também, uma experiência narrativa precisa e oculta, eles são a minha coleção particular e pessoal de curtas metragens”, afirma o autor.

Geometrias de Cosmos (Rodrigo Suzuki Cintra) – Primeiro volume da série “A Trilogia da Invisibilidade”, livro de Rodrigo Suzuki Cintra reúne poemas que são metáforas da invisibilidade, criando, nas palavras do autor, sentimentos e percepções que estão por trás das palavras. 

O Retorno De Bennu (Majela Collares) – Bennu corresponde à Fênix mitológica. “Foi o grito da ave Bennu na criação do mundo que marcou o início dos tempos”, explica o autor. A obra traz ao leitor poesia em prosa, aforismos, versos livres e uma poesia caudalosa, que inspira o leitor.

Coleção Bibliofilia: três volumes sobre o amor pelos livros

O livro é um dos mais fascinantes objetos produzidos pelo homem. Mesmo em nossa época atual marcada pelos avanços tecnológicos e novas mídias, o livro permanece sendo um artefato sem igual, e não dá mostras que irá desaparecer. Jovens seguem comprando livros, criando clubes de leitura e falando sobre seus autores e histórias preferidos em podcasts e canais no YouTube.  As bibliotecas reforçam sua vocação de centros comunitários de difusão cultural. As coleções de livros impressos seguem preenchendo prateleiras e os aspectos sensoriais do livro impresso – o cheiro, a sensação do papel ao toque, o conforto visual na leitura das letras impressas no papel – ainda não foram imitadas satisfatoriamente pelos dispositivos digitais. Afinal, o livro não precisa de conexão com a internet ou baterias a serem recarregadas.

Com os três livros da Coleção Bibliofilia, organizada por Marisa Midori Deaecto e Plínio Martins Filho, a Ateliê Editorial e as Edições Sesc São Paulo se unem para celebrar o prazer da leitura e a importância social, cultural, econômica e simbólica do livro. Apesar das transformações tecnológicas e sociais, que impactam a produção editorial, as formas de transmissão da linguagem escrita e seus mecanismos de recepção, o amor ao livro permanece. Para falar sobre a coleção, o Professor aposentado da Universidade de São Paulo João Adolfo Hansen respondeu a algumas perguntas para o Blog da Ateliê:

      A coleção é uma verdadeira celebração ao livro. Qual a importância simbólica dele, hoje, em nossa cultura e dentro do contexto atual do Brasil?

 João Adolfo Hansen: Na situação brasileira atual, em que o ministro da Educação é um asno e o Presidente um desclassificado ao quadrado, a valorização do livro é fundamental. Sem nenhum fetichismo, óbvio, é fundamental celebrar o livro como produto, monumento, instrumento e arma de cultura contra a barbárie fascista.

No volume “O que é um Livro”, o senhor fala da materialização da ideia em objeto. O livro enquanto objeto, em sua opinião, continua ocupando um lugar de destaque?

 JAH: O livro como objeto que condensa e divulga práticas simbólicas dos múltiplos campos da cultura pode ser materialmente produzido e reproduzido em vários meios e canais, desde uma página de papiro à tela de um computador. Nesse sentido, o livro continua ocupando lugar de destaque.

Em sua opinião, o livro digital e o livro de papel ocupam o mesmo espaço e têm a mesma importância?

 JAH: Não ocupam o mesmo espaço (e, sem trocadilho, hoje também por razões de espaço). E não sei se têm a mesma importância.  Provavelmente, o livro digital vai substituir o livro de papel- não sei se a totalidade dos livros de papel- mas grande parte deles.

O público que “consome” o livro físico mudou?

JAH: Acredito que mudou e está mudando a cada momento.

O livro, enquanto objeto, vai continuar a existir no futuro?

 JAH: Não sei se nessa forma material que tem hoje. Mas como mensagem e como condensação de referências de muitos e muitos campos da cultura deve continuar – provavelmente, em novos media, como a tela de um celular, de uma TV ou computador, desmaterializando-se mais e mais.

O livro também é constituído de leitores, e eles o leem de maneira diferente a cada época. O senhor poderia falar um pouco sobre esse assunto, por gentileza?

 JAH: O leitor é um indivíduo que se inclui numa sexualidade, num grupo, numa classe, numa profissão, num país, numa língua, numa cultura etc. A cada instante, a história de seu grupo e sua classe e país e língua e cultura etc. muda. Evidentemente, o leitor lê segundo os critérios que em seu tempo estabelecem, definem e garantem a inteligibilidade do que lê. Esses critérios mudam historicamente. Borges, num conto chamado “Pierre Menard, inventor do Quixote”, trata disso, propondo que o  enunciado  de Cícero, “A história, mestra da vida”, usado por Cervantes no primeiro volume do Dom Quixote, em 1605, não tem o mesmo significado e o mesmo sentido quando usado por Pierre Menard, em 1917, quando escreve o Dom Quixote e repete o enunciado, ipsis litteris, idêntico ao texto que Cervantes escreveu em 1605. Ou seja, a cultura muda segundo as determinações e os condicionamentos históricos.

Capa do volume O Que é um Livro?, parte da Coleção Bibliofilia

No volume, o senhor aborda questões como censura e controle de conteúdo, que parecem – infelizmente – questões muito atuais. De que maneira esse controle perpassou os tempos? A forma e a finalidade da censura são sempre as mesmas?

 JAH: A censura classifica formulações e imagens e práticas que contrariam e negam a doxa ou a opinião que um grupo, um partido, um Estado, uma igreja etc.  afirmam como “verdade”. A censura classifica formulações e imagens e práticas como inadequadas, indevidas, impróprias, incorretas, erradas, heréticas, indecentes, imorais, proibidas etc., caçando e cassando seu autor.  A prática da censura veta e nega versões e, com isso, nega a liberdade de pessoas e grupos. Evidentemente, ainda que a forma e a finalidade da censura sempre sejam as de desautorizar e impedir a liberdade de pensamento e ação e, muitas vezes, a finalidade de eliminar o autor de tal pensamento e ação, queimando-o numa fogueira, como fazia a Inquisição católica, ou fuzilando-o, como faziam nazistas e estalinistas, suas razões, seus meios e suas finalidades variam historicamente, assim como seus agentes e suas vítimas.  

Conheça outros títulos de João Adolfo Hansen

“O Ateneu”, de Raul Pompéia

Publicado em folhetim no ano de 1888, “O Ateneu”, de Raul Pompéia, é um romance realista/naturalista que, de certa maneira, extrapola as características desse movimento. Isso porque o romance pode ser considerado um romance autobiográfico ou de formação, o que se justifica pelo subtítulo “Crônicas de saudade”.

Apesar da palavra no subtítulo poder levar o leitor a pensar que a história retratada deixa saudades ou boas lembranças, o fato é que o texto não é tão agradável quanto pode parecer. Os castigos sofridos, o rancor e a raiva do personagem principal fazem do subtítulo uma grande ironia – inclusive porque não se tratam de crônicas, mas sim de um romance.

Sérgio, o protagonista, narra, já adulto, sua história n’O Ateneu, um colégio interno onde ele passa o fim da infância. Apesar de ser uma oportunidade para uma narrativa cheia de memórias afetivas, o colégio é visto como um microcosmo da sociedade, e o texto é, em muitas passagens, quase científico. O Ateneu é um internato onde impera um regime severo e punitivo, que incentiva a delação e ao mesmo tempo a condena (por cumplicidade): um ambiente de muitas falhas morais. O narrador afirma que ali só teve um único amigo verdadeiro: Egbert.

Enredo

Sérgio entra n’O Ateneu, pela primeira vez, em uma data festiva. Tudo lhe parece muito novo e instigante e ele fica ansioso para entrar no internato. Mas, logo na sua chegada, o protagonista percebe que a festa que havia presenciado não era o cotidiano do colégio. Após um desmaio (ao ser apresentado aos colegas), ele passa a ser perseguido. Tudo começa parecer perigoso e dúbio n’O Ateneu. O aluno Sanches, por exemplo, a um só tempo parece ter provocado um afogamento  e salvado Sérgio nessa situação. Sérgio se incomoda com as aproximações físicas de Sanches (apesar de beneficiar-se porque este é um bom aluno) e acaba afastando-se dele. Outra relação retratada no livro, a de Sérgio com o bibliotecário Bento (que também é aluno do internato) sugere homossexualidade, o que inclui, também, comentários maldosos de outros alunos sobre o assunto.  

O livro todo é um pêndulo entre o bem e o mal, o pecado e a culpa. Sérgio busca refúgio na religião, pois as amizades não lhe parecem verdadeiras e ainda há o agravante de um amor platônico que Sérgio desenvolve por d. Ema, esposa do diretor Aristarco.

Outro episódio marcante do livro é a morte de Franco, aluno que, “esquecido” pelos pais no internato, torna-se um problema para o diretor. Franco é desprezado e agredido, e um belo dia resolve se vingar, enchendo a piscina onde os alunos tomam banho com cacos de vidro. Sérgio fica sabendo, mas nada faz para impedir Franco. Entretanto, tem uma grave crise de consciência. No dia seguinte, descobre que ninguém ficou ferido porque um funcionário da escola limpara a piscina antes do banho dos alunos, evitando que se machucassem. Depois, Franco morre de uma doença mal explicada, mas que parece ter a ver com descaso por parte da instituição.

Análise

O Ateneu, enquanto microcosmo da sociedade do século XIX, é, na verdade, uma severa crítica à sociedade carioca da época. Enquanto quem paga a mensalidade em dia é bem tratado, os alunos cujos pais atrasam os valores são desprezados.

O ambiente cotidiano de opressão muda completamente nos dias de festa, quando pessoas do lado de fora d’O Ateneu vêm até o colégio. As descrições científicas e psicológicas do ambiente e dos personagens deixam clara a intenção de analisar e criticar o status quo.

Conheça a Coleção Clássicos Ateliê

Livro 7/8: Revista do NELE traz dossiê sobre museus e bibliotecas

Museus e bibliotecas: lugares de resistência diante de uma realidade de fake news em que certa parcela da sociedade negligencia o saber acadêmico. Esta é a forte mensagem que traz a Revista LIVRO 7/8, publicação do NELE: Núcleo de Estudos do Livro e da Edição.  Editada por Marisa Midori Deaecto e Plinio Martins Filho, a edição traz a participação de diversos nomes importantes, como Lincoln Secco, Ana Cláudia Suriani da Silva, Jean-François Delmas, Andrea De Pasquale, Thiago Lima Nicodemo, Frédéric Barbier, Fiammetta Sabba, María Luisa López-Vidriero Abelló, Carlos Zeron, Christophe Didier, Carolina Bednarek Sobral e Fabiana Marchetti.

Para falar sobre a publicação, Marisa Midori Deaecto respondeu a perguntas do Blog da Ateliê:

 As “ondas fascistizantes” não parecem ter cessado. Neste contexto, qual a importância de uma publicação como a LIVRO 7/8? O livro ainda é uma forma de resistência? 

Marisa Midori Deaecto: Por um desses mistérios insondáveis, sim, o livro é símbolo e meio de resistência. Digo “insondável” porque, malgrado todas as análises e possíveis respostas, ainda me espanta essa questão: por que, após milênios, os livros continuam a ser alvo de tantas destruições e desconfianças? Outro dia, foram os livros censurados no norte do país; antes, os livros rasgados na biblioteca da UnB; os livros censurados pelo Deops; os livros queimados; as bibliotecas negligenciadas; os livros e a leitura, na fala do presidente, desqualificados… Ora, um objeto que consegue manter uma aura de resistência tão forte e, ao mesmo tempo, portador de uma linguagem universal, pois estou a falar do objeto e não de seus conteúdos, merece uma publicação que cuide de sua natureza, de sua história, de suas múltiplas formas de apropriação. Esta é a nossa resistência.  

Qual a importância de museus e bibliotecas neste cenário? 

MMD: A cultura é o corpo e a alma de uma nação. Um corpo são se manifesta por instituições sãs, ou seja, dirigidas por profissionais qualificados, com infraestrutura condizente com a importância, a coerência e os usos que delas se faz, tanto da parte do poder público, quando do cidadão. E a alma é tudo o que a comporta. São as manifestações de um povo, em diferentes esferas de sua existência, em múltiplos campos de atuação e em todos os setores da sociedade. Por isso a cultura deve ser universal. Museus e bibliotecas constituem, nesse sentido, instituições vitais para a inteligência e a salvaguarda da memória das sociedades. Notemos que os Estados nacionais, desde que se configuraram como Estados fortes, na época moderna, investiram pesadamente em suas bibliotecas e museus. No século XIX, bibliotecas operárias, bibliotecas de associações de classes ou de agremiações formadas por imigrantes, mulheres, entidades públicas se proliferaram por todo o mundo. Isso porque a humanidade se deu conta de que é preciso nutrir a alma para transformar o mundo. É a nossa herança iluminista que nos conduz a resistir contra as trevas, sempre. Donde a importância de se refletir sobre as funções e os múltiplos significados das instituições de cultura hoje e sempre. 

Quais foram os pilares para escolher e reunir os textos contidos nesta edição? Sob que tema(s) eles estão reunidos? 

MMD: A revista LIVRO procura funcionar como um sismógrafo. Ela capta os possíveis abalos que acontecem na sociedade brasileira e, de forma mais ampla, no mundo. E, a partir daí, buscamos os materiais. Às vezes, recorremos a parcerias internacionais, noutras, optamos por produções nacionais. No próximo Dossiê, LIVRO 9 vai pautar a questão da leitura no Brasil, sob diferentes matizes. O título é uma provocação: “E por falar em leitura… onde andas vocês, leitorxs?”. 

João Condé é um dos temas da LIVRO 7/8. Qual a importância dos colecionadores em um momento em que o livro digital ganha espaço? 

MMD: Temos insistido na luta pela preservação e guarda de acervos formados por particulares pelas instituições públicas. Isso é patrimônio nacional. As bibliotecas de Rubens Borba de Moraes e de José Mindlin, reunidas na BBM, são um patrimônio inconteste, felizmente acolhidos pela USP. O mesmo se pode dizer de outros acervos, como o de Mario de Andrade, Ian de Almeida Prado, para citar apenas dois exemplos de peso da riquíssima coleção do IEB. E eu citei apenas duas instituições pertencentes à Universidade de São Paulo. Há muito mais! É preciso pensar que a USP conformou essas coleções porque não se acomodou ao discurso conformista e, não raro, falacioso, da falta de espaço para armazenar os acervos, ou dos gastos “exorbitantes” para a higienização e catalogação das coleções. Esses argumentos são, antes, um sintoma de uma crise dos paradigmas, que tem esvaziado os projetos e as políticas de preservação do patrimônio nacional, do que exatamente uma questão de infraestrutura. Em um passado não muito distante, alguns gestores de arquivos e bibliotecas acreditaram que era possível armazenar tudo em microfilmes e descartar o papel. Hoje se pensa o mesmo sobre a digitalização. E amanhã, nós depositaremos toda a nossa história e nossa memória em quais bases de dados. Já atingimos as nuvens, mas, e daí. Nossa universidade não tem cem anos e corre os risco de desperdiçar acervos importantíssimos, que poderiam fazer dela a maior guardiã da memória e da história nacional. Eu me pergunto se as universidades europeias operam com essa mentalidade do descarte. E quando penso no rico acervo de Yale, nos EUA, eu me pergunto: teriam eles cessado as políticas de aquisição e de recebimento de doações? Não podemos desistir. Não temos o direito de nos acomodar. Do contrário, estas coleções vão parar em instituições estrangeiras. Ou, o que é pior, elas podem se dispersar nos leilões e nos alfarrabistas de todo o mundo.  

Jean-Yves Mollier fala, na publicação, sobre a “Invasão das Fake News”. Este é um tempo em que esta invasão é inevitável, em sua opinião? 

MMD: Sim, é inevitável e compromete as democracias, porque transforma o debate público em um poço de mentiras. Quando convidei o prof. Mollier para fazer uma conferência sobre este tema, no IEA, eu pensava justamente na importância de se debater as fake news na esfera política e, nesse ponto, creio que o caso Dreyfus, na França da virada do século XIX para o XX, foi paradigmático. Mas, como diz um grande historiador, Lucien Febvre, a história é a ciência do presente. 

A Profa. Jerusa Pires Ferreira faleceu durante (ou logo imediatamente após) a conclusão desta edição. Qual foi sua contribuição para a LIVRO 7/8? 

MMD: Jerusa era uma bússola, com a diferença que o seu ponteiro sinalizava para todos os sentidos, antes, é claro, de ela finalmente nos apontar o seu norte. Jerusa comentava temas relevantes que poderiam entrar na revista, indicava autores, como no caso de Jacques Migozzi, para o último número, desenhava questões, imaginava soluções e, o que é mais importante, sabia transformar tudo isso em tertúlias muito aprazíveis. A LIVRO terá sempre a presença, o norte da Jerusa.   

Quais serão os próximos desafios da LIVRO? 

MMD: Cada número de LIVRO é uma história e cada número é um desafio. Editar uma revista é tarefa complicada, meus colegas editores de revistas bem o sabem. Mas, como disse, a revista é um veículo vivo, ela é um sismógrafo! Já antecipei o tema do Dossiê e, no mais, é ver para crer! 

Há alguma curiosidade ou bastidor interessante sobre a revista que se possa compartilhar com os leitores do Blog?

MMD: Há dois aspectos curiosos que eu gostaria de contar: o Dossier Museus-Bibliotecas antecipou a versão italiana, que se encontra na gráfica. Eu o organizei em parceria com Andrea De Pasquale, diretor-geral da Biblioteca Nacional de Roma. Ele é um grande amigo, mas uma pessoa difícil. Não queria que a publicação brasileira saísse antes, então, esperamos. Mas, como estávamos muito atrasados e, ele também, disse para que a nossa revista teria data de lançamento. Ele ficou bem contrariado, mas, agora, parece que está tudo bem. Estamos aguardando o volume italiano, com os mesmos artigos. O artigo de István Monok, diretor do arquivo e biblioteca da Academia de Ciências da Hungria, foi feito sob encomenda nossa. A instituição mantém a guarda do arquivo de Lukács e o mundo estava escandalizado com a suposta dilapidação do acervo. Eu contei isso pra ele e, poucos dias depois, recebi o artigo que dava conta dos projetos de preservação e guarda do fundo Lukács. Ele queria, enfim, dissipar essa ideia que se propagou de destruição do acervo desse grande filósofo do século XX. E isso se deu, certamente, porque a Hungria vive, hoje, uma conjuntura política muito complicada, não muito diferente da nossa. Mais uma prova de que a cultura continua a ser um foco de resistência vital.