Vencedores do Concurso #tempodeler

Arte de divulgação da campanha #tempodeler

Arte de divulgação da campanha #tempodeler

Parte da Campanha Tempo de Ler (que acontece até 2017), o Concurso #tempodeler terminou. Depois de dois meses intensos, em que as pessoas se manifestaram dando suas sugestões e dicas sobre como conseguir mais tempo para incluir a leitura no cotidiano, nos intervalos da correria do dia a dia, foram definidos os vencedores do Concurso #tempodeler. Promovido pela Ateliê Editorial, o concurso movimentou a internet no mesmo período em que a campanha mundial #diadelertododia, da CBL, aconteceu.

Confira, a seguir, os textos dos vencedores, escolhidos com base no objetivo do concurso:

O objetivo é o compartilhamento de ideias e sugestões que ajudem o leitor a encontrar tempo para inserir esse hábito em sua rotina diária, pois a falta de tempo é o principal motivo alegado pela maioria das pessoas segundo a pesquisa “Retratos da Leitura no Brasil”.

 

 

1-jardel-rodrigues-ferreira

 

Tempo de ler é todo tempo. Para mim não existe um tempo reservado ao exercício da leitura. Durante todo o dia, e noite, estamos em contatos com a leitura seja em um out door descascando em uma parede ou via, seja em um anúncio de moradia ou cartomante preso em um poste imundo. Mas quando sobe aquele formigamento do desejo de fuga ou no querer ser outro, estar não aqui: este é o tempo de ler.

Jardel Rodrigues Ferreira, 1º lugar

 

 

 

2-luisa-de-quadros-coquemala

Sempre busco tempo para ler, mas principalmente nas horas de “vazio” da vida: na fila de espera do banco ou do correio, voltando para casa no ônibus, viajando, enquanto ando na rua, antes de dormir e naqueles momentos onde muitas pessoas ficam no celular ou na internet. Dessa maneira, onde a vida seria chata ou vaga, eu passo o tempo imaginando, entrando em outros mundos e vivendo outras vidas. Onde há o nada, cria-se um mundo.

Luisa de Quadros Coquemala, 2º lugar

 

 

 

 

3-andrea-strevaA pergunta correta seria: como não arranjar tempo pra ler? É possível ler quase o tempo todo, se você for perspicaz. Para os que duvidam, vou ensinar meu método, que é muito simples: esteja sempre acompanhada de um livro e leia em cada brecha no trabalho, em cada intervalo na escola ou faculdade, em cada deslocamento (seja no carro, ônibus ou metrô) e, obviamente, em casa. Como efeito colateral, você notará seus olhos perdidos em outros horizontes e a cabeça em sonhos.

Andrea Moreira Streva, 3º lugar

 

Os vencedores ganharam cupons de desconto para usar em sua próxima compra no site da Ateliê.

A editora agradece a todos os participantes e parabeniza os vencedores!

 

É Dezembro! O Natal está chegando!

Pois é, o ano passou muito rápido e dezembro já chegou. O Natal se aproxima, as ruas se enfeitam, as fachadas se iluminam. E você, já começou a fazer a lista de presentes? Para ajudar, preparamos uma seleção especial de livros, que certamente vão agradar as pessoas dos mais variados perfis:

 

Poesia

cena

 

Cena Absurdo – Revisto e Diminuto: 1998-2015, de Pedro Marques, apresenta poemas que revelam os absurdos do dia a dia, nem sempre notados quando se vive em meio a eles. Em alguns momentos, o livro apresenta dois ou três poemas na mesma página, ampliando a possibilidade de leitura simultânea.

 

 

 

 

cicatriz2

 

Ao reunir escritos de 1995 a 2015, Eduardo Guimarães apresenta o seu quarto livro de poemas: Cicatriz. O título reflete os cortes, as cicatrizes, perceptíveis quando o autor nos faz refletir sobre dor e felicidade, por exemplo, bem como quando nos instiga a questionar sobre a nossa própria condição de ser.

 

 

 

 

poemas2

 

Novos Poemas, de Carlos Vogt, reúne três pequenas coletâneas: “Bandeirolas”, “Bolinhos de Chuva” e “Dedo de Moça”. As duas primeiras não tinham aparecido em livro, mas os poemas já haviam sido apresentados em canais da internet, como na página de poesia do autor: Cantografia. A terceira foi publicada em 2011.

 

 

 

 

Antologias

capa_antologia_fantastica

 

Antologia Fantástica da Literatura Antiga, organizada por Marcelo Cid, contempla trechos relativamente curtos que podem ser entendidos como literatura fantástica – um gênero que só passa a ter esse nome no século XX, mas é encontrado ao longo de narrativas históricas ou poéticas, ou mesmo em obras filosóficas de séculos passados.

 

 

 

 

Antologia da Poesia Erótica Brasileira

 

Antologia da Poesia Erótica Brasileira, organizada por Eliane Robert Moraes, com desenhos de Arthur Luiz Piza, é resultado de uma extensa pesquisa iniciada em 2005. São cerca de 350 poemas escritos nos últimos quatro séculos por autores brasileiros como Gregório de Matos, Carlos Drummond de Andrade, Ana Cristina César, Hilda Hilst, Roberto Piva e Arnaldo Antunes, entre outros.

 

 

 

 

Lançamentos

Palmeirim

 

Palmeirim de Inglaterra não é apenas uma novela de cavalaria. O texto, escrito por Francisco de Moraes, faz parte de um ciclo. Nesta edição, os pesquisadores Lênia Márcia Mongelli, Raúl Cesar Gouveia Fernandes e Fernando Maués realizaram um minucioso e primoroso trabalho, transcrevendo a partir de várias fontes para poder chegar a um resultado fidedigno, que interferisse minimamente no estilo original – um dos pontos altos da obra.

 

 

 

 

Sobrecapa do livro "Capas de Santa Rosa"

 

Capas de Santa Rosa, de Luís Bueno, venceu o Prêmio Jabuti 2016. Foi o primeiro colocado na categoria Projeto Gráfico.  O livro destaca as capas criadas por Santa Rosa, permitindo ao leitor acompanhar a transição das capas predominantemente tipográficas para as ilustradas, bem como compreender o aprimoramento crescente do campo editorial.

 

 

 

 

capa produção gráfica

 

Considerado uma referência quando o assunto é produção e design, o livro Production for Print, de Mark Gatter, ganha tradução inédita em português, com o título de Produção Gráfica para Designers. O trabalho de tradução foi feito por Alexandre Cleaver, com revisão técnica de Thiago Cesar Teixeira Justo.

 

 

 

 

Música

capa-paulinho-da-viola-elogio-amor

 

Paulinho da Viola e o Elogio do Amor, de Eliete Eça Negreiros, é uma reflexão sobre a lírica amorosa das composições de Paulinho, cujo eixo é a separação dos amantes”, explica Olgária Matos na apresentação da obra. A autora já havia lançado um estudo anterior sobre o tema, Ensaiando a Canção: Paulinho da Viola e Outros Escritos.

 

 

 

 

voz que canta

 

Em A Voz que Canta na Voz que Fala – Poética e Política na Trajetória de Gilberto Gil, o autor Pedro Henrique Varoni de Carvalho trafega pela análise do discurso e aponta como Gilberto Gil trouxe o seu discurso poético-tropicalista ao ministério, sugerindo e promovendo mudanças até então inéditas no que toca ao tratamento dado à cultura brasileira pelo Estado.

“Cena Absurdo”: poesia e tecnologia multimídia

Por: Renata de Albuquerque

cena

Pedro Marques está lançando Cena Absurdo – Revisto e Diminuto: 1998-2015, um livro de poemas que revelam os absurdos do dia a dia, nem sempre notados quando se vive em meio a eles. Em alguns momentos, o livro apresenta dois ou três poemas na mesma página, ampliando a possibilidade de leitura simultânea. Além disso, traz QR Codes de clusters sonoros, que ampliam a experiência da leitura. Pela Ateliê, o autor também lançou Manuel Bandeira e a Música (ensaio, 2008) e Clusters (poesia, 2010).

A seguir, Marques fala do livro, que tem lançamento neste dia 24 de novembro, na Livraria da Vila, em São Paulo:

 

Qual foi a ideia de unir clusters sonoros aos poemas do livro? Em que medida os clusters ressignificam sua poesia para o leitor?

Pedro Marques: A poesia escrita tende a ser sequencial:fonema depois de fonema, palavra depois de palavra, verso depois de verso. Mário de Andrade, ligado à música e à oralidade, experimentou criar efeitos de simultaneidade com palavras (“verso harmônico”) e com versos (“polifonia poética”). Na música, a simultaneidade é natural, não só na harmonia, mas na própria coexistência rítmica, melódica e harmônica. Na oralidade falamos, ouvimos, gesticulamos, tudo ao mesmo tempo. Em poesia literária, em geral, conseguimos apenas a sensação disso tudo. No primeiro livro, Clusters (2010), testei transladar para poesia esse recurso da massa sonora concomitante, comum na música. Como no cacho sonoro, um cardume de poemas que deveriam ser lidos no seu valor de conjunto. Isso gerava já uma intervenção no modo tradicional de ler o poema apenas como unidade própria dentro de um livro. Cena Absurdo (2016) dá um passo além, quando dispõe dois ou três poemas na mesma página, ampliando a possibilidade de leitura simultânea. Isso feito, surgiu a ideia de, nas dez páginas em que isso ocorre, inserir a música propriamente. Ou seja, depois de simular clusters na literatura – o que por si ressignifica nossa expectativa retilínea de leitor -, devolvi o simulacro ao original: a música.

O poeta Pedro Marques

O poeta Pedro Marques

É a primeira vez que isso acontece em um livro de poemas?

PM: Há tanta coisa sendo testada na poesia mundo afora, não? De todo modo, o diferencial aqui é testar os limites deste que é dos suportes mais bem-sucedidos da poesia escrita: o volume em papel. Veja, não é livro que vem com partitura, CD, dobradura ou DVD. É livro aparentemente tradicional, mas que num instante arranca o leitor de sua leitura silenciosa para a experiência sonora, que materializa simultaneidades acústicas e intelectuais entre poemas. O leitor vai lendo o livro como de costume, linearmente. De repente, é convidado à audição músico-poética por meio de seu celular ou computador. Esse conteúdo sonoro, guardado na nuvem invisível (www.cenaabsurdo.com.br), acompanha o leitor/ouvinte conectado à internet em qualquer lugar.

 

O que diferencia essa obra de Clusters, lançada em 2010?

PM: A ideia de cluster poético nasce com Clusters. Ali, no entanto, é antes metafórica que efetiva. Você pode ler os poemas do cluster “Tragédias”, por exemplo, como unidades independentes ou como grupo. Não há uma disposição editorial e multimídia que suporte o conceito aplicado à poesia. O poema está lá sozinho na mancha. Ao mesmo tempo, nesse primeiro livro, os dez clusters são nomeados, distinguíveis em suas características temáticas, estilísticas, narrativas ou dramáticas. Cena Absurdo é um fluxo só que, de repente, propõe um cluster sem título cuja simultaneidade é, por um lado, realizado pelo leitor, e, por outro, materializada pelas composições musicais.

 

Por que do título “revisto e diminuto”? Rever, na sua opinião é editar, é condensar, é cortar?

PM: Em 1998, com a ajuda do poeta Welington Fernandes, rodei em casa um livro chamado Em Cena com o Absurdo. Fizemos tudo, da diagramação à colagem do miolo, passando pela gestão da grana curta. Eram cinquenta livros artesanais. Graduando em Letras, na UNICAMP, fui lido por poetas, músicos e professores duros na crítica. Uma escola de prática editorial e de exercício poético. Abrir o peito ao frio. O livro era grande demais, cheio de ideias, pouca resolução formal. Uma oficina aberta aos amigos. Peraltice de vinte anos. Aprendi que rotina de poeta é escrever e rescrever, não publicar. É tomar mel e pedrada de gente como Paulo Franchetti e Antonio Candido. É ouvir parceiros que acompanham a lida: Luís Fernando Prado Telles (do posfácio) e Marco Catalão (da quarta-capa). Sempre vi edições “revistas e aumentadas”, esta, embora revisada, é diminuta por dois motivos. Primeiro, Cena Absurdo preserva, condensando em volume e estilo, a ideia central do seu rascunho caseiro: o dado absurdo está entre nós, não lá longe. As cenas do livro dramatizam exemplos disso. Segundo, em harmonia, o acorde diminuto tem acidentes estranhos ao ouvido, seus dois trítonos. O termo também nesse sentido cabe ao livro, que rearranja a percepção tradicional do leitor de livros de poesia, ao entrechocar mais de uma poema por página, ao trazer áudios inusitados que não são locuções.

 

De que maneira a decisão do uso dos clusters, em QR Code, influenciou o fazer poético do livro? As poesias são anteriores a essa decisão?

PM: Não chegou a influenciar a composição dos poemas. As decisões técnicas e conceituais do livro já estavam todas tomadas. O uso do QR Code, ao contrário, foi uma solução tecnológica proposta pelo Estúdio Risco, que assina o projeto editorial com a Ateliê Editorial. Foi a saída encontrada para o problema estético, quanto aos poemas, e para o impasse prático, quanto à experiência de leitura.

 

A poesia é um ato, muitas vezes, referido como solitário pelos artistas. Na medida em que você contou com a contribuição de Gustavo Bonin, Micael Antunes e Juliana Amaral no livro, a criação passa a ter um aspecto também coletivo. Qual a importância disso nesse contexto?

PM: A criação, nesse caso, foi coletiva por conta dos anos decompondo e compondo o livro a partir de leituras críticas. A reunião de produtores, músicos e compositores para esta edição trouxe coletividade de produção mesmo. Havia os poemas no Word, dez páginas eram clusterizadas. O projeto gráfico e o espetáculo baseado no livro (que pode ser visto nos lançamentos) surgiu no Estúdio Risco, nas figuras de Juliana Amaral e Humberto Pio, arquitetos da arte qualquer que ela seja. Os clusters sonoros nasceram do contato com Juliana Amaral, cantora essencial na atual canção popular brasileira. Seus shows e discos apresentam acabamento e significado nada triviais, são vivências na arte de cantar. Foi na canção popular que nos achamos, quando ela gravou uma parceria minha com Nenê Baterista. Só que no Cena Absurdo esse encontro cancional enveredou para uma música concreta, com entonações e sobreposições abertas ao estranho, ao cênico. Para burilar essa ideia, Juliana puxou para o projeto os compositores experimentais Gustavo Bonin e Micael Antunes, ourives do som, senhores da onda sonora, das tecnologias de edição. Tanto a produção editorial quanto sonora (esta passou por todo processo de estúdio e mixagem) foi coletiva e conduzida por Juliana. Sem ela, o livro assim não existiria. Com cada indivíduo no seu instrumento, Cena Absurdo, no fundo, virou tipo um álbum de banda, só que com a palavra escrita à frente.

 

QR Code de cluster contido no livro

QR Code de cluster contido no livro

Em que medida os clusters ressignificam sua poesia para o leitor? O que você buscou com a inclusão deles na obra?

PM: De um lado, busquei expandir os fronteiras midiáticas e intelectivas desse objeto maravilhoso que é o livro. Ou seja, expandir a ideia de volume não é apenas convertê-lo em livro eletrônico, cujo formato pode ser bem tradicional quanto à experiência leitora. De outro lado, os poemas de Cena Absurdo guardam vozes (de falas a referencias literárias). Como ecoar isso de modo simultâneo? Como transpassar o leitor/ouvinte com esse coro de informações? Os clusters na página redefinem a percepção mental, os clusters sonoros materializam musicalmente essa percepção.

 

Há alguma espécie de continuidade ou de ruptura entre Clusters e Cena Absurdo? Que inovações, o que este novo livro agrega ao anterior?

PM: Cena Absurdo desenvolve a noção de cluster poético iniciada em Cluster. Mais que isso, a ideia é que cada um dos dez cachos do livro Clusters virem uma massa autônoma com uma nova versão ou aplicação do conceito clusters-poético. Cena Absurdo, que no livro de 2010 chamava-se “Em cena com o absurdo”, contando com apenas quatro poemas, é o segundo passo dessa história que vou caminhando pacientemente.

 

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A travessia de Freud pelas artes

Por Renato Tardivo

 

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A relação de Freud com as artes foi marcada por ambiguidades. Em uma vertente, ele se valeu das artes e do trabalho do artista a fim de validar a teoria que estava criando. Em outra, Freud parece privilegiar a correspondência entre as artes e a psicanálise, pois ambas se prestam a explorar os mistérios da alma humana.

Em um excerto curto, anexo à carta a Fliess (1897), Freud compara as fantasias histéricas aos mecanismos da criação poética: “Shakespeare tem razão ao igualar criação poética e delírio”. Essa acepção, talvez majoritária ao longo de sua obra, é a que está contida no ensaio “Escritores criativos e devaneio” (1908): a arte enquanto sublimação de desejos inconscientes reprimidos. Em vez de transformar em sintomas, os artistas dariam forma a esses desejos, isto é, os sublimariam, de modo a serem aceitos pela cultura.

Um dos principais textos nessa direção é o longo ensaio “Uma lembrança de infância de Leonardo da Vinci” (1910). Freud procura resolver os enigmas que a obra de arte coloca por meio da aplicação da teoria que ele construía, aplicando a psicanálise à obra de arte e ao trabalho do artista, ao testar e buscar validar os conceitos.

A propósito, o fenomenólogo francês Maurice Merleau-Ponty, no ensaio “A dúvida de Cézanne” (1945), faz ressalvas a esse uso de Freud, muitas vezes arbitrário, mas também reconhece a sua importância.De acordo com o filósofo, “o sentido de [uma] obra não pode ser determinado por sua vida”. Ao contrário, é a “obra por fazer [que] exigia essa vida”. Assim, “a psicanálise não é feita para nos dar, como as ciências da natureza, relações necessárias de causa e efeito, mas para nos indicar relações de motivação que, por princípio, são simplesmente possíveis”.

Há ensaios em que Freud discute as artes ou o trabalho do artista em que isso fica muito claro. Nesses casos, ocorre uma inversão da acepção majoritária de Freud sobre as artes. Em vez da analogia entre sintoma e trabalho do artista, a analogia se coloca entre o trabalho criativo do artista e as interpretações do psicanalista.

Célebre nesse sentido é a carta de 1922 que Freud endereçou ao escritor Arthur Schnitzler. Nela, o psicanalista confessa encontrar no escritor o seu duplo. Curiosamente, a carta não foi veio a público enquanto Freud esteve vivo, pois de fato revela o seu temor a respeito da aproximação entre trabalho do artista e trabalho do psicanalista. Homem da ciência que foi, sabemos que Freud rompe com ela, mas procura a todo tempo reconciliar-se.

Não deixa de ser fortuito que o único prêmio que recebeu em vida foi o Goethe. Sabemos que em muitos de seus escritos, Freud valeu-se de passagens do escritor alemão. No discurso lido por Anna Freud na ocasião do prêmio (1930), Freud afirma que ter colocado o escritor na “condição de objeto da pesquisa analítica” não significava um rebaixamento. Uma vez mais, são a obra e o trabalho do artista objetos da teoria psicanalítica, que é capaz de esclarecer “o mistério do talento extraordinário que o torna artista”. Freud recebe o prêmio Goethe enquanto homem da ciência…

“Transitoriedade” (1916) é um artigo curto, mas muito importante. Nele encontramos o Freud escritor em sua melhor forma. Com ares proustianos, o pai da psicanálise discorre poeticamente sobre a passagem do tempo. No ensaio, é abordada a temporalidade freudiana do après-coup, segundo a qual as inscrições do vivido são ressignificadas “só depois” de sua ocorrência factual. Eis uma forma interessante de pensar o atravessamento de Freud pelas artes, também ele empreendendo uma série de ressignifcações ao lugar da arte e do trabalho do artista. Ora, ao o procurar desvendar os mistérios da alma humana, Freud nos ensinou que ela é um mistério interminável.

Para ler mais sobre arte e psicanálise, acesse: http://www.atelie.com.br/livro/arte-dor-inquietudes-entre-estetica-psicanalise/

Psicanalista e escritor. Doutor em Psicologia Social da Arte (USP). Autor, entre outros, do ensaio Porvir que vem antes de tudo – literatura e cinema em Lavoura arcaica (Ateliê/Fapesp).

A Força Dos Louros

por Alex Sens

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O ano é 2012, uma quinta-feira, a última do mês de novembro. Saio e esqueço o celular em casa. Quando volto, há uma mensagem na caixa postal, sotaque mineiro da Secretaria de Estado da Cultura pedindo para eu retornar. A consciência inunda o meu corpo, se inicia uma breve palpitação, mas eu retorno trêmulo. A notícia de que eu ganhei o Prêmio Governo de Minas Gerais de Literatura na categoria “jovem escritor” é a faísca que vai causar o incêndio do meu primeiro livro. O prêmio, uma espécie de bolsa para escrever um livro durante seis meses, me coloca dentro do universo literário quase à força. “Vai, Alex! ser escritor na vida”, me sussurra o coração, empurrando meu corpo diante da escrivaninha, preparado para os próximos meses de muita dedicação e muito trabalho.

A importância dos prêmios literários é inquestionável e imensurável. Quando voltados para o fomento da cultura, para incentivar escritores, colocar óleo nas engrenagens do mercado editorial, da produção artística, e não como fertilizante de egos, os prêmios podem fazer borbulhar diamantes no meio de uma massa escura de carvões opacos. O Frágil Toque dos Mutilados, meu romance de estreia, lançado em 2015 pela Autêntica Editora, foi escrito a partir de um prêmio. Com a publicação, vieram as indicações aos prêmios São Paulo de Literatura e Oceanos, algumas das maiores vitrines da literatura brasileira contemporânea. “Vitrine” é uma palavra perigosa, traz no som o vidro do capitalismo, da exposição, do consumo, do comércio. No entanto, os prêmios não deixam de ser, além de uma forma de reconhecimento do difícil e pouco remunerado trabalho do artista, essa bela galeria do que podemos conhecer da nossa cultura, da nossa imaginação. Sem os prêmios, talvez tivéssemos menos escritores, menos leitores, editoras menores desconhecidas ou até inexistentes.

Sustentado ou não por conluios, formado muitas vezes de polêmicas, escopo da lapidação do ego ou da luta por um espaço já tão ocupado, tão apertado de opiniões, técnicas, histórias e ideias, o universo dos prêmios literários, dos triunfos trazidos pela imaginação ou pela construção de um nome, pode ser a única forma de não apenas valorizar a literatura, mas respeitá-la. Reconhecer seu espaço precioso. Resistir (porque a arte também é movimento de resistência) à força esmagadora da cultura da preguiça, da mídia fácil e mastigada. Dar voz a quem tem na linguagem, nas palavras, a sua forma de sobrevivência. Assim como tornar a vida do escritor mais possível, menos romântica — sem anular seu romantismo. A literatura precisa ser premiada, ela é a natureza das ideias, das possibilidades. Ela é o registro axiomático da dúvida, portanto, do pensamento de um tempo.

Neste ano, a Ateliê Editorial possui três finalistas no mais tradicional prêmio literário brasileiro, o Prêmio Jabuti, nas categorias Poesia e Projeto Gráfico. São eles: a Antologia da Poesia Erótica Brasileira, organizada por Eliane Robert Moraes, Viagem a um Deserto Interior, de Leila Guenther, e Capas de Santa Rosa, um trabalho de Luís Bueno, com projeto da Negrito Produção Editorial e lançado em coedição com as Edições SESC SP. São livros que, como todos os outros finalistas, foram reconhecidos por sua qualidade e têm, através de suas indicações, o papel de estimular ainda mais novos olhares, novos leitores e expandir a qualidade literária atual, seja na criação, a partir de várias ideias, seja num projeto que as organize com mestria.

 

*Escritor, nascido no ano de 1988 em Florianópolis, SC, e radicado em Minas Gerais. Publicou Esdrúxulas, pequeno livro de contos de humor negro e realismo mágico, seguido pelo livro artesanal Trincada. Teve contos e poemas publicados em sete coletâneas e em revistas literárias virtuais, assim como resenhas de livros, entrevistas e críticas em sites de jornalismo cultural. O Frágil Toque dos Mutilados (Autêntica Editora, 2015), seu romance de estreia, venceu o Prêmio Governo de Minas Gerais de Literatura 2012 na categoria Jovem Escritor.