Retratos da Leitura no Brasil 5ª edição

Por Renata de Albuquerque*

A quinta edição da Pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, realizada pelo Itaú Cultural e Instituto Pró-Livro, acaba de ser divulgada.  O objetivo da iniciativa é conhecer o comportamento do leitor e identificar os hábitos do brasileiro em relação à literatura.

Uma das mais interessantes novidades da edição é um módulo dedicado a leitores de literatura, seja em papel ou em outros suportes. Para efeito da pesquisa, literatura é qualquer conteúdo não utilitário/informativo.  

Além disso, a pesquisa contou com novos indicadores e opções de resposta, incluindo visitas a eventos (a coleta de dados foi realizada ainda em 2019, antes da pandemia), o uso do formato digital e a importância de influenciadores digitais nas escolhas de leitura. A inclusão da variável de gênero e raça também foi um importante avanço nesta edição da pesquisa.

Foram feitas 8076 entrevistas em 208 municípios brasileiros. Os leitores de literatura leem maior quantidade de livros por ano e são as pessoas mais jovens (até 29 anos), que leem por vontade própria e não por solicitação de instituições (escola, faculdade, trabalho). Ainda há mais leitores do gênero feminino lêem mais que do gênero masculino.

Papel, o predileto

O papel continua sendo o formato preferido dos leitores: 67% do total, enquanto que apenas 20% ouviu áudio livros. É interessante notar que quem lê livros físicos tende a compartilhar mais impressões de leitura que aqueles que lêem em outras plataformas. Estudantes do Ensino Médio lêem mais que em qualquer outra fase da vida escolar, incluindo-se aqui os livros de literatura.

Considerando leitores (quem leu, inteiro ou em partes, pelo menos 1 livro nos últimos 3 meses) e não-leitores, a média  de livros lidos foi de 5 (semelhante ao número da pesquisa anterior). O tema ou assunto do livro continua sendo a razão pela qual a maior parte dos leitores escolhe os livros que lerá, sendo que 12% afirmam escolher um livro pelo autor.  

A pesquisa aponta uma tendência de decréscimo na frequência de leitura de quase todos os formatos, especialmente livros de literatura por vontade própria e livros didáticos indicados pela escola. Entre as preferências de leitura, estão a Bíblia, contos, romances e outros livros religiosos.

Machado de Assis e Monteiro Lobato são os autores mais citados, enquanto que a sugestão de professores é levada em conta para que um leitor em fase escolar escolha o próximo título. Aqui vemos claramente a importância da escola na formação dos leitores no Brasil.    

Quem declara frequentar bibliotecas afirma ser bem atendido e gostar do espaço. Entretanto, 37% dos estudantes e 52% dos leitores não vão a esses espaços, sendo que 8% não sabe responder o que uma biblioteca representa para si. Estes dados indicam que é preciso revalorizar esses espaços para democratizar ainda mais a leitura.

Quer saber mais sobre a pesquisa? Acesse!

*Jornalista, Mestre em Literatura Brasileira pela FFLCH/USP, autora da Dissertação Senhoras de Si: o Querer e o Poder de Personagens Femininas nos Primeiros Contos de Machado de Assis.

“A Nebulosa”: um belo poema

Por: Roberta Araújo*

Publicado em 1857, “A Nebulosa” foi considerada à época como “um dos mais belos poemas dos tempos modernos”. 

Escrito por Joaquim Manoel de Macedo, autor dos clássicos “A Moreninha” e “Vítimas Algozes”, a obra é um poema-romance que, há um século e meio não era reeditada. Caída no esquecimento até mesmo por especialistas. 

Eu, que sequer sabia da existência desta obra, tive uma ótima surpresa ao ler esta caprichada edição da Ateliê Editorial, que conta com um texto de apresentação de Angela Maria Gonçalves da Costa e notas de rodapé, que facilitam demais a compreensão dos leitores. As ilustrações do artista plástico Kaio Romero dão um toque especial à edição. 

“A Nebulosa” conta a história de um amor impossível a partir da lenda de uma mulher linda, que surgia à noite em um penhasco e encantava os homens com o seu canto. O Trovador, encantado com ela, uma feiticeira, decide se matar. Ao pedir para sua Mãe socorro, ela vai até a Peregrina, que cede aos apelos. No entanto, já era tarde: ele se encontra com a Doida, descendente da Nebulosa e, juntos, se atiram do penhasco. A Mãe, de tanto sofrimento, morre e a Peregrina, amaldiçoada por ela, também. 

Gosto muito de obras que partem de lendas e mitos para desenvolver a história e esta realmente me cativou do início ao fim. 

Destaco aqui dois trechos: 

“Ó, natureza! Minha dor insultas!

Na tua placidez leio um sarcasmo;

Abomino-te, assim, amo-te horrível”.

“Dói-te a vida que arrasta alma cativa?

Pesa-te amar debalde?… – não a vejas:

Pede ao céu que desfira um raio ardente, 

Que de uma vez te cegue, melhor fora, 

 Do que vê-la e morrer de amor por ela”. 

Precisamos cada vez mais de poesia e este poema-romance de Macedo foi escrito com maestria, para encantar os leitores. 

Quer saber mais sobre A Nebulosa?

*Advogada, pós-graduada em direito e processo penal. Mestranda em direito pela UFRJ, mantém o perfil @justa.causa

Leia trechos de Museu da Infância Eterna

A infância é uma energia que nunca morre, um tempo idílico de boas lembranças, que nos remete à pureza e à inocência. Miguel Sanches Neto reuniu, neste Museu da Infância Eterna, crônicas sobre este tempo delicado, “que podem ser lidas como um eterno presente”. A seguir, você tem acesso a alguns trechos do livro:

“Mãe, pai e irmãos trabalhando sem lamúrias: aqueles eram anos de labor e alegria, de fé e fascínio, de suor e sono. Com o que ganhava, o menino podia comprar seu lanche, garrafas de sodinha e as bolinhas de gude, chamadas burcas. E Burca virá a ser o apelido de uma de suas paixões adolescentes, por causa de certos olhos negros como as bolinhas usadas nos jogos em quintais de terra”. (p.9)

“Meu avô usou chapéu a vida toda. Eu passava pela loja de sapatos ao lado da igreja matriz e via, nas vitrines de madeira escura, chapéus pretos, muito bonitos, e ficava esperando o dia em que também poderia ter o meu – o tempo estava emperrado na cidade, mas logo ela seria incorporada à civilização. Um dos prefeitos instalaria uma tevê na praça. A cidade entraria no presente, os hábitos mudariam, eu cresceria, ouvindo agora rock. Não deu tempo para eu usar chapéu”. (p. 39)

“Nessa idade e ainda me assustando com um barulho provavelmente
de raposa no forro – lembrei então que a casa é de laje e que raposas não são tão comuns assim. Acendi a luz da sala de tevê e encontrei um Papai Noel sentado em frente da lareira. Ele estava com a roupa rasgada e suja de carvão. Em toda a minha vida, nem quando eu acreditava em Papai Noel, ele me apareceu. Depois deixei de me fiar nessas bobagens e sempre fiz os presentes natalinos de minha filha chegarem acompanhados de nota fiscal em meu nome, o que era motivo de espanto e revolta entre os vendedores” (p.56).

“O que antes era cosmos se tornara caos. O caderno deixava de ser espaço para a ordenação do mundo e das ideias e assumia sua condição de muro, onde todos inscreviam uivos de raiva e de amor. E apareciam nos cadernos nomes de pessoas queridas, palavras sujas, riscos, garranchos, desenhos, principalmente desenhos – caricaturas entre os que tinham maior aptidão para os traços, e rudimentares casinhas com árvore e sol nascendo entre nós, carentes de qualquer vocação”. (p. 95)

Conheça outros livros de Miguel Sanches Neto

Herdando uma Biblioteca: uma declaração de amor aos livros

Por: Renata de Albuquerque*

Assim como “não se compra um livro pela capa” – ditado popular que nos lembra sobre o quanto podemos nos enganar com o que está aparente – nem sempre é possível “comprar um livro pelo título”. É o que acontece com este Herdando uma Biblioteca, de Miguel Sanches Neto, cuja segunda edição (revista e ampliada) acaba de sair pela Ateliê. Afinal, quem lê apenas o título imagina que o autor tenha recebido como legado uma coleção de livros.

Ao abrir o volume, descobrimos que não é isso exatamente o que aconteceu. As crônicas trazem reflexões sobre o mundo do livros e contam um pouco da trajetória do autor, filho de família modesta e pouco letrada do interior do Paraná. Na época, conta Sanches Neto, ele tinha quase nenhum contato com livros que não fossem os didáticos e, apesar disso, tornou-se um bibliófilo na vida adulta.

Mas, apesar de não ter herdado uma biblioteca, Sanches Neto nos conta, com delicadeza, como construiu a sua e que heranças ligadas ao livro trouxe desde a infância. Já os primeiros parágrafos emocionam qualquer leitor amante de livros. A maneira delicada, perspicaz e singela com que o autor conta passagens de sua história enquanto leitor fazem do volume uma verdadeira celebração ao mundo dos livros.

Ao contar fragmentos de sua história, Sanches Neto lembra a cada leitor de reconstruir, para si mesmo ou para os outros, a sua trajetória em meio aos livros. As idas à biblioteca pública, o único livro disponível em casa (uma Bíblia), os livros abandonados por uns e encontrados por outros, os livros ruins recebidos de amigos bons que perguntam nossa opinião que não podemos dar sinceramente.

 “É um volume de crônicas sobre como, vindo de uma família de analfabetos, eu tive que inventar a minha biblioteca, tive que acreditar que era, sim, possível uma vida intelectual ao lado dos livros. Este é meu único volume de crônicas que não foi publicado em jornais. Nasceu como projeto estruturado para livro, como se fosse um romance fragmentado de meu amor à biblioteca”, diz o autor.

Com uma escrita afetuosa, que traz à tona memórias valiosas de “amor à biblioteca”, Sanches Neto envolve o leitor em uma atmosfera idílica, recriando histórias que não se prendem apenas ao livro, mas ao universo que o permeia, como é o caso da deliciosa crônica “A Arte de Apontar Lápis”.

Muitas das importantes experiências pelas quais um leitor passa ao longo da vida estão nas páginas de Herdando uma Biblioteca, um livro que consegue ser, a um só tempo, uma história contada singularmente e um incentivo para que, ao fechar o livro, cada leitor torne-se autor de sua própria história, revivendo, nem que seja apenas na lembrança, as passagens que o fizeram amar os livros.

*Jornalista, Mestre em Literatura Brasileira pela FFLCH/USP, autora da Dissertação Senhoras de Si: o Querer e o Poder de Personagens Femininas nos Primeiros Contos de Machado de Assis.

No Dia do Psicólogo, livros sobre psicologia e psicanálise

Dia 27 de agosto é comemorado o Dia do Psicólogo, um profissional responsável pela manutenção da saúde mental, pelo estudo do comportamento humano e comprometido com a promoção dos direitos humanos e a transformação da realidade social.

Em 2020, quando passamos grande parte do tempo isolados de outras pessoas, por conta da pandemia do novo coronavírus, a importância desse profissional ganhou ainda mais evidência. A busca por esse tipo de atendimento subiu, com a possibilidade de realizar consultas online.

Na Ateliê, a área de psicologia e psicanálise merece destaque. São quase duas dezenas de títulos dedicados ao assunto, publicados ao longo da história da editora.  E, para comemorar o Dia do Psicólogo, selecionamos alguns títulos em destaque:

Proust, Poeta e Psicanalista

Philippe Willemart problematiza trechos da obra proustiana a partir da psicanálise. O livro analisa clássicos, como Em Busca do Tempo Perdido, e inclui manuscritos não disponíveis para o leitor brasileiro. Com esse riquíssimo material, o autor traça relações entre a criação literária (o poeta) e o conhecimento do homem (o psicanalista).

Arte, Dor – Inquietudes entre Estética e Psicanálise

Entender a percepção como fenômeno estético é o que motiva as reflexões deste livro. Os treze ensaios retomam ideias de Lyotard, Argan, Winnicott, Bachelard, Chauí, entre outros. No entanto, o pensamento de Frayze-Pereira gira em torno das obras de Freud, Merleau-Ponty e Foucault. Com eles, o autor mostra que a arte se faz no encontro de dois sentimentos: o da forma e o do mundo. A partir dessa conexão entre percepção e política, a obra lança nova luz sobre o entendimento humano.

Eugênio Montale – Criatividade Poética e Psicanálise

Marisa Pelella Mélega analisa textos do poeta italiano e de autores que fizeram de sua obra objeto de crítica. A partir dessas leituras, propõe sua própria hipótese interpretativa, com o aporte da psicanálise contemporânea. A autora encontra na poética de Montale subsídios para pensar a passagem do tempo, a finitude da vida, a angústia da separação e, sobretudo, a emoção como centro da experiência humana.

As Portas do Sonho

O sonho é “o mais antigo e complexo dos gêneros literários”: quem sonha é poeta da própria imaginação. Para além da interpretação psicanalítica, a autora vê no mundo onírico um modo de conhecer a cultura de um período histórico. É com essa perspectiva que ela estuda os sonhos na Grécia Antiga, como o de Penélope, na Odisseia, e os de Clitemnestra, nas tragédias de Sófocles e de Ésquilo. As imagens do livro ajudam a compor a análise, revelando aspectos importantes da sociedade grega – e da nossa.

Cores de Rosa

 “As cores são ações da luz. Ações e paixões”, diz Goethe. E é à reverberação de significados desta frase, antes poética que científica, que se quer vincular o título deste livro de ensaios sobre Grande Sertão: Veredas e alguns contos e novelas de Guimarães Rosa. Efetivamente, num recurso interpretativo, alguns de seus textos, objetos aqui de análise, são colorizados. As cores estão também presentes nas fotografias de Germano Neto, que povoam estas páginas: que essas fotos cumpram sua função de suporte imagético para o mundo do sertão, na sua realidade poética e geográfica – mesmo que saibamos, com Riobaldo, que “sertão: é dentro da gente.”

O Encanto de Narciso: fotografia, história e memória

Em seu novo livro, o fotógrafo Boris Kossoy faz reflexões sobre temas que permeiam seu trabalho em textos curtos, densos e objetivos. Para além de registrar as imagens, aqui ele se debruça sobre seus significados e desdobramentos, “em busca de sua natureza e essência”, como ressalta o autor. Os textos foram escritos entre 2010 e 2018 e se organizam em seis capítulos: O Sistema e a Essência; Produção e Recepção; Desmontagem do Constructo; Fotografia e Memória; História da Fotografia; e Outras Dimensões da Fotografia.

A seguir, você lê alguns trechos do livro O Encanto de Narciso:

 A imagem fotográfica é um produto social e cultural; fornece sempre informações de diferentes naturezas acerca dos infindáveis assuntos que ocorrem na realidade concreta ou em motivos puramente abstratos ou ficcionais. Isso significa que são ilimitadas as possibilidades temáticas e que a criatividade só encontra limites na imaginação do fotógrafo, um filtro cultural.

Assim como a palavra é a expressão de uma ideia, de um pensamento, materializada pela linguagem verbal, a fotografia é, também, a expressão de um modo particular do seu autor interpretar o mundo tangível ou intangível.

A realidade do objeto não é a realidade da sua representação. Esta é criada a partir do objeto; não é, portanto, um duplo do objeto. A representação tem vida própria e duração perene. (p. 19/20)

Ao contrário do que diz o ditado popular, a imagem não “vale mais que mil palavras”. Se o receptor nada sabe a respeito do objeto fotografado em si ou do seu entorno, como compreender o que ela representa? As imagens fotográficas históricas, assim como as contemporâneas, contêm informações visuais sobre o objeto. Contudo, é necessário que o receptor da imagem tenha em seu repertório saberes e conhecimentos acumulados de diferentes naturezas para que possa compreender o objeto que vê representado, assim como o contexto histórico, social, político, cultural em que o mesmo se insere. Além de sua aparência. É através da experiência real, mas também da palavra, dos livros, da linguagem verbal, da cultura que adquirimos estes conhecimentos. (p. 25)

Onde termina o documental e onde começa o ficcional da imagem fotográfica?

A criação fotográfica é ilimitada, ou melhor dizendo, só é limitada pela imaginação do fotógrafo. No mundo da representação os fotógrafos se expressam de diferentes modos acerca da vida, da natureza, do mundo, da realidade. Qualquer que seja a aplicação, o registro – adjetivado de “documental” – é, desde a tomada da foto, resultado do olhar criativo de seu autor. (p. 75)

A desmontagem do documento fotográfico corresponde à desarticulação do processo de criação/construção da representação, etapa em que se busca decifrar o conjunto de informações codificadas que elas portam. Trata-se de trazer à tona suas histórias próprias tendo em vista o contexto local e a conjuntura política, social, econômica, cultural; reconstituir as condições de produção; decifrar os enigmas e os porquês acerca de intenções e finalidades que cercam a existência da representação; recuperar a mentalidade da época, entre outras descobertas circunscritas à imagem, operações necessárias para se compreender o aparente e o oculto, suas tramas, significação e alcance. (p. 123)