Leitores, editoras, livrarias e autores em defesa do livro

A hashtag #emdefesadolivro tomou as redes sociais em agosto. O que parece algo óbvio – defender o livro, este instrumento de educação, cultura que ajuda a construir o presente e o futuro de uma nação – precisou mobilizar a comunidade em torno deste objeto. Autores, leitores, livrarias e editoras precisaram começar a se manifestar pois uma proposta do governo para a Reforma Tributária abriu uma brecha legal para a taxação do livro. É bom lembrar que, desde os anos 40 o mercado editorial conta com isenções para a produção de livros, algo que a atual proposta pretende derrubar. Se, mesmo com a política de apoio que tem mais de sete décadas, o número de livros lidos por ano por pessoa no Brasil não chega a três (segundo a 4ª edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil), esta iniciativa, que torna o livro ainda mais caro, deve reduzir ainda mais esse índice, impactando toda a cadeia produtiva.

Por isso, a Ateliê também aderiu à campanha para defender o livro, que ganhou inclusive um manifesto assinado por entidades representativas, como ABDL, ABDR, ABEU, ABRELIVROS, ANL, CBL, LIBRE e SNEL.

O público também pode contribuir, assinando o abaixo-assinado

A seguir, conheça a íntegra do Manifesto Em Defesa do Livro:

Em virtude do projeto de reforma tributária proposto pelo Ministério da Economia, ora em tramitação no Congresso Nacional, as entidades representativas do livro no Brasil, signatárias deste Manifesto, consideram urgentes e necessárias as seguintes ponderações:


⠀⠀⠀1. A Constituição Democrática de 1946 consagrou no país o regime de isenção de impostos para o papel utilizado na impressão de livros, jornais e revistas. Inspirada na luta de intelectuais, editores e escritores, a emenda constitucional foi apresentada pelo autor brasileiro de maior prestígio internacional à época, Jorge Amado.

⠀⠀⠀Por um lado, a isenção visava tornar o papel acessível às mais diferentes vozes no debate das questões nacionais, garantindo o suporte material para a livre manifestação de opiniões; por outro, barateava o produto final, permitindo que o livro e a imprensa pudessem chegar às camadas mais amplas da população, em um país onde o analfabetismo era, infelizmente, a regra e não a exceção.

⠀⠀⠀A mudança constitucional possibilitou a criação e o desenvolvimento das bibliotecas públicas no país, beneficiando as pessoas de menor poder aquisitivo e permitindo que o mercado editorial passasse a ter condições de publicar obras de alto valor intelectual e pedagógico, muitas delas sem apelo comercial, a custos compatíveis com o poder aquisitivo do leitor médio. Não há dúvidas de que a popularização do livro teve, e ainda tem, papel fundamental no aumento da educação do brasileiro.

⠀⠀2. De tal forma se enraizou no espírito da sociedade brasileira o apego à importância da leitura como fonte de educação e crescimento intelectual, de formação de cidadãs e cidadãos, de difusão da cultura e da informação qualificada, que a reforma de 1967 não só preservou o “espírito imunitário” da Constituição, como o ampliou, estendendo a isenção ao próprio objeto: o livro.

⠀⠀⠀A Constituição Cidadã de 1988 não poderia fazer diferente e consolidou a reiterada jurisprudência que isenta o livro, ferramenta básica de conhecimento, educação e cidadania, de impostos. A atual Carta Magna diz, em seu artigo 150, que é vedada à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios criarem impostos de qualquer natureza sobre o livro e a imprensa escrita.

⠀⠀3. No entanto, dada a complexidade da legislação tributária brasileira, foram criadas ao longo dos anos contribuições sociais, como PIS e COFINS, incidindo sobre a receita das empresas. Uma vez que os livros não são imunes das contribuições, a Lei nº 10.865 de 30 de abril de 2004 reduziu a zero a alíquota do PIS e da COFINS nas vendas de livros, em reconhecimento da importância deste bem para a sociedade.

⠀⠀⠀Isso permitiu uma redução imediata do preço dos livros nos anos seguintes: entre 2006 e 2011, o valor médio diminuiu 33%, com um crescimento de 90 milhões de exemplares vendidos. Os fatos demonstram claramente a correlação entre crescimento econômico, melhoria da escolaridade e aumento da acessibilidade do livro no país.

⠀⠀⠀A imunidade tributária está presente em vários países do mundo. Um relatório da International Publishers Association (IPA) de 2018 argumenta que o livro não é uma commodity como qualquer outra: é um ativo estratégico para a economia criativa, que facilita a mobilidade social assim como o crescimento pessoal e traz a médio prazo benefícios sociais, culturais e econômicos para a sociedade. Qualquer aumento no custo, por menor que seja, afeta o consumo e, em consequência, os investimentos em novos títulos. A imunidade é uma forma de encorajar a leitura e promover os benefícios de uma educação de longo prazo.

⠀⠀⠀ Recentemente, em abril do corrente ano, o Supremo Tribunal Federal (STF), em decisão unânime, reconheceu por meio da Proposta de Súmula Vinculante 132, que o direito à isenção tributária do livro se estendia também aos leitores eletrônicos. Enfim, está na tradição da formulação das leis brasileiras e na história das decisões jurídicas, bem fundamentadas e analisadas em vários períodos diferentes da nossa história, que o livro é disseminador de conhecimento em lato senso, e que deve contribuir para o combate à desigualdade de formação da população brasileira.

⠀⠀4. O escritor e editor Monteiro Lobato cunhou a famosa frase “um país se faz com homens e livros”; anos depois, o editor José Olympio acrescentou: “…e ideias”. Ai do país que se torna um deserto de homens, livros e ideias. Queimado em praça pública sempre que a intolerância triunfa, o livro resistiu aos séculos e atravessou as crises tendo a sua significação para a humanidade renovada e fortalecida.

⠀⠀⠀Aliás, existe alguma prova mais eloquente da importância do livro para as vidas humanas do que as estantes cheias de obras, tal como vemos na televisão e nas telas dos computadores e celulares, nesse momento de isolamento social? Os livros estão ali, às costas das pessoas como as asas de um anjo, significando proteção, sabedoria, compartilhamento de ideias e imaginário, reafirmando nossa fé na humanidade. O amor ao livro renasceu na pandemia.

⠀⠀⠀É fácil calcular o quanto o governo poderá arrecadar com a nova CBS (Contribuição sobre Bens e Serviços), proposta em regime de urgência ao Congresso. Muito mais difícil é avaliar o que uma Nação perde ao taxar o bem comum da formação intelectual de suas cidadãs e cidadãos. Em perspectiva histórica, o dinheiro arrecadado à cultura, aos livros e à formação científica significa, de fato, um desinvestimento no crescimento futuro do país – que não se dará sem o crescimento intelectual amplo e igualitário de sua população.


⠀⠀⠀5. As instituições ligadas ao livro estão plenamente conscientes da necessidade da reforma e simplificação tributárias no Brasil. Mas não será com a elevação do preço dos livros – inevitável diante da tributação inexistente até hoje – que se resolverá a questão. Menos livros em circulação significa mais elitismo no conhecimento e mais desigualdade de oportunidades no país das desigualdades conhecidas, mas pouco combatidas.

⠀⠀⠀ O Brasil foi o último país a acabar com a escravidão e um dos últimos a permitir a impressão e a circulação de livros e da imprensa, duas marcas negativas na nossa História que até hoje não conseguimos superar. Poucos se dão conta que o mercado nacional de livros tem menos de 200 anos. Enquanto em Paris, no Século das Luzes, lia-se Diderot e Voltaire, enquanto na Alemanha se lia Goethe, na Espanha o Dom Quixote tornava-se leitura popular, em Londres, ilustrava-se com os trabalhos de David Hume, nos Estados Unidos podia-se formar o conceito de uma grande Nação nos escritos de homens públicos da estatura de Thomas Jefferson e Benjamin Franklin, no Brasil, Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, um autodidata, articulava sua conjuração carregando um exemplar surrado e contrabandeado do “Compêndio das leis constitutivas das colônias inglesas confederadas sob a denominação de Estados Unidos da América” – em francês.

⠀⠀⠀Ainda não se descobriu nada mais barato, ágil e eficiente do que a palavra impressa – em papel ou telas digitais – para se divulgar as ideias, para se contar a história da humanidade, para multiplicar as vozes da diversidade, para denunciar as injustiças, para se prever as mudanças futuras e para ser o complemento ideal da liberdade de expressão.

Aldo Manuzio: uma aventura chamada livro

Por Renata de Albuquerque*

A Ateliê Editorial acaba de reeditar Aldo Manuzio. Editor. Tipógrafo. Livreiro. O livro, cuja primeira edição é de 2004, estava esgotado e o fato de voltar às prateleiras deve ser comemorado. Afinal, mais que uma simples biografia de uma figura fundamental para o universo dos livros, a obra percorre e  analisa cuidadosamente as contribuições de Manuzio, mestre quinhentista (1450-1515).

O livro é escrito pelo historiador e pesquisador de projetos gráficos Enric Satué, que é historiador, teórico e crítico de projetos gráficos, além de projetista, investigador e divulgador de livros. O estudioso já publicou mais de uma dezena de livros, ganhou diversos prêmios e debruçou-se sobre a vida e obra de Manuzio, um nome central para a cultura do livro no mundo.

O livro como objeto físico tem mais de cinco séculos e meio de História, tendo sido pouco alterado estruturalmente desde sua criação. E as contribuições de Manuzio para este objeto de desejo, ainda que feitas no início da Idade Moderna, permanecem até hoje.

Aldo Manuzio

Ainda na Introdução, descobrimos que o autor considera apenas três invenções importantes para o livro que não tenham sido ideias de Manuzio: a tipologia estreita, encolhida e condensada (criada no século XIX); a publicação da fotografia em livro e o livro com texto linear (contribuição dada por Jan Tschichold). Logo no início da leitura, a sensação – que depois se confirma – é que, sem Manuzio, o livro não seria o que conhecemos hoje. É de Manuzio, por exemplo, a primeira publicação da História em tipografia cursiva. “Justamente na biblioteca do poeta Piero Bembo, Manuzio encontrou o legendário manuscrito autógrafo de Francesco Petrarca, que dizem ter utilizado para compor a primeira publicação da história em tipografia cursiva, editada em 1501”, explica Satué.

Aldo Manuzio. Editor. Tipógrafo. Livreiro analisa o livro como objeto, contempla a vida e obra de Manuzio e faz referências críticas à situação atual do livro. Conta, por exemplo, como Manuzio teria embarcado na aventura de tornar-se editor – com a ajuda financeira de Giovanni Francesco Pico della Mirandola, que investiu na ideia de seu professor e amigo.

Violinos e “efes”

Durante a leitura, descobrimos ainda que a tipografia cursiva teria “inspirado” os luthiers, criadores de violinos da cidade de Cremona, na Itália (país natal de Manuzio). “Será que a influência cultural das formas tipográficas aldinas, estendendo-se além de seus limites razoáveis, alcançou a música sinfônica, da qual os violinos são a parte substancial? Se assim for, toda a numerosa família das cordas traria no peito esse doce estigma aldino, de tal sorte que, ao contemplar uma grande orquestra sinfônica, poderíamos encontrar até setenta e cinco efes cursivos de diferentes tamanhos”, diz o texto.

Com quase 300 páginas, o livro fala de diagramação, História, projetos editoriais e muitos outros aspectos da editoração, em capítulos que abordam as variadas facetas de Manuzio: editor, tipógrafo e livreiro – e a obra que publicou. Traz ainda um capítulo especial com informações sobre o tempo em que Manuzio viveu, as pessoas com quem se relacionava – e como influenciou e foi influenciado por elas. Por fim,  Aldo Manuzio. Editor. Tipógrafo. Livreiro traz uma reflexão sobre o legado deste gênio, sendo de grande interesse para quem trabalha no mercado editorial ou mesmo para quem ama livros e quer saber um pouco mais sobre os aspectos formais desse objeto que, há mais de 500 anos, encanta e fascina leitores ao redor do mundo.

*Jornalista, Mestre em Literatura Brasileira pela FFLCH/USP, autora da Dissertação Senhoras de Si: o Querer e o Poder de Personagens Femininas nos Primeiros Contos de Machado de Assis.

Novidade: Hidra Vocal

O que vem por aí? Muita gente tem feito esta pergunta, querendo saber sobre quais os próximos lançamentos da Ateliê e sobre o que esperar para o futuro. Como muitas novidades devem chegar em breve, para satisfazer a curiosidade dos nossos leitores – ou para aguçá-la ainda mais – o Blog da Ateliê resolveu fazer uma série de entrevistas com autores de obras que a editora deve lançar em breve.

Desta vez, entrevistamos com os organizadores do livro Hidra Vocal, que será em breve lançado. Marcelo Lachat é professor do Departamento de Letras da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP). Ele é Doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP), com pós-doutorado pela UNIFESP. Maria do Socorro Fernandes de Carvalho, professora de Literatura da UNIFESP, é Doutora em Literatura Portuguesa pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), com pós-doutorados pela USP e ULisboa. Já a professora de Literaturas de Língua Inglesa na Universidade Federal de São Paulo, Lavinia Silvares, é Doutora e pós-doutora pela USP. Leia a seguir:

Marcelo Lachat

Qual o tema do livro?

Resposta: O livro Hidra Vocal é uma coletânea de textos que discutem como os variados campos artísticos se articulam com o âmbito da retórica e da poética – duas importantes disciplinas que, desde a chamada “Antiguidade Clássica”, formularam preceitos para as produções discursivas e artísticas em diversas línguas, espaços geográficos e momentos históricos. Desse modo, o tema do livro perpassa diferentes práticas de representação a fim de investigar as relações entre retórica, poética e as artes.

Por que homenagear o Prof. João Adolfo Hansen com essa obra? Qual a importância de homenageá-lo?

R: O professor João Adolfo Hansen foi pioneiro nos estudos de retórica e poética no Brasil, sobretudo em suas relações com o campo hoje dito “literário”. Desde a década de 1980, Hansen tem produzido obras importantíssimas acerca do assunto, como o livro A Sátira & O Engenho: Gregório de Matos e a Bahia do Século XVII (Ed. Ateliê/Unicamp, vencedor do Prêmio Jabuti em 1990), em que realiza um estudo profundo a respeito da produção poética do Brasil colônia. Além da relevância de sua obra, a homenagem ao professor Hansen se dá também como reconhecimento de sua imensa generosidade intelectual, traço que sempre encantou e animou seus orientandos, colegas e alunos.   

Maria do Socorro Fernandes Carvalho

Quais os destaques do livro em sua opinião?

R: A relevância deste livro consiste no fato de ele ser um significativo panorama dos estudos sobre retórica e poética no Brasil, reunindo trabalhos de professores/pesquisadores de diferentes universidades brasileiras: USP, UNIFESP, UESB e UFSM. Além disso, a obra conta também com textos de dois grandes professores estrangeiros: Isabel Almeida (Universidade de Lisboa) e Roger Chartier (Collège de France).

Lavinia Silvares

O livro traz a fala do próprio Professor em um evento na Unifesp. Que evento é esse e de que forma a fala do professor incentivou a elaboração do volume?  

R: O livro resulta do encontro de estudiosos brasileiros e estrangeiros em um evento sobre retórica e poética, realizado na Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade Federal de São Paulo (EFLCH-UNIFESP) em setembro de 2018: o I Panorama dos Estudos Poéticos e Retóricos no Brasil. Abarcando um amplo escopo temático e temporal, os trabalhos apresentados ao longo de três dias versaram sobre poesia, música, narrativas em prosa, arquitetura e outras artes e campos do saber em sua relação com as técnicas retóricas e poéticas. Contando com a presença de grandes pesquisadores e professores, o encontro também homenageou os trabalhos acadêmicos do professor João Adolfo Hansen, fundamentais para o desenvolvimento dos estudos retóricos e poéticos no Brasil. Assim, nesta obra, reúnem-se textos inéditos produzidos pelo professor Hansen e pelos conferencistas convidados, consistindo ela em um arco de reflexões contemporâneas acerca de retórica, poética, história, arte e cultura em diferentes matizes e nuances teóricas e críticas.

Romance de formação é tema de novo livro da Ateliê

O que vem por aí? Muita gente tem feito esta pergunta, querendo saber sobre quais os próximos lançamentos da Ateliê e sobre o que esperar para o futuro. Como muitas novidades devem chegar em breve, para satisfazer a curiosidade dos nossos leitores – ou para aguçá-la ainda mais – o Blog da Ateliê resolveu fazer uma série de entrevistas com autores de obras que a editora deve lançar em breve.

Desta vez, entrevistamos Marcus V. Mazzari, professor de Teoria Literária e Literatura Comparada na Universidade de São Paulo. Ele traduziu para o português, entre outros, textos de Walter Benjamin, Adelbertvon Chamisso, Heinrich Heine, Karl Marx, Gottfried Keller e Jeremias Gotthelf. Entre suas publicações estão Romance de formação em perspectiva histórica. O Tambor de Lata, de Günter Grass (Ateliê Editorial, 1999), Labirintos da aprendizagem (Editora 34, 2010) e A dupla noite das tílias – História e Natureza no Fausto de Goethe (Editora 34, 2019). Coordena desde 2015 a coleção Thomas Mann, editada pela Companhia das Letras.Em breve, o livro que organizou com Cecilia Marks, Romance de Formação: caminhos e descaminhos do herói, estará nas prateleiras. A seguir, ele fala sobre a obra:

Do que trata o livro?

Marcus V. Mazzari: O livro é dedicado ao gênero literário “romance de formação” (Bildungsroman), criado por Goethe, no final do século XVIII, com o romance Os Anos de Aprendizado de Wilhelm Meister. O volume enfeixa 26 ensaios que contemplam manifestações desse gênero em várias literaturas, não só europeias (alemã, espanhola, francesa, inglesa, italiana, portuguesa, russa), mas também a brasileira, que comparece com sete nomes, peruana (José MaríaArguedas), moçambicana (Paulina Chiziane). Um espectro, portanto, rico e diversificado de um gênero de imensa relevância na Literatura Mundial.

Marcus Mazzari

A  quem o livro deve interessar, em sua opinião: apenas estudiosos e pesquisadores ou o público em geral?

MVM: O livro tem grande interesse ao público em geral, pois lhe apresenta, de uma perspectiva muito fecunda (justamente a da questão da “formação”), renomados clássicos literários, entre os quais romances de Machado de Assis e o rosiano Grande Sertão: Veredas, e também obras menos conhecidas, mas de grande valor estético.

Quais os destaques do livro, em sua opinião?

MVM: É difícil mencionar alguns destaques em meio a tantos textos excelentes. O ensaio de Luis Bueno sobre a produção romanesca de Machado de Assis a partir do prisma da “formação” e, sobretudo, da “não formação” do homem brasileiro de elite é certamente um dos highlights do volume. Importante mencionar também os ensaios de Paulo Bezerra (Dostoiévski), Walnice N. Galvão (Victor Hugo), Sandra G. Vasconcelos (Dickens).

Lembro ainda que Maria Augusta Vieira enfocou a “aprendizagem deleitosa” (como figura no título do belo ensaio) de Dom Quixote e Sancho Pança, num romance precursor do Bildungsroman; e Willi Bolle fez uma aguda leitura “atualizadora” da formação de Franz Biberkopf, no romance de Alfred Döblin Berlim Alexanderplatz, o que transparece no título de seu ensaio: “Crise do Romance – Crise de um País”. O ensaio de Cecilia Marks oferece-nos uma magistral leitura bakhtiniana de Grande Sertão: Veredas. Mas com isso estou deixando de mencionar muitas outras riquezas do volume, como o ensaio de Mário Frungillo que enfoca a obra de Thomas Mann na confluência entre Romance de Formação e Romance Picaresco, ou seja, as Confissões do impostor Felix Krull.

De que forma o livro poderá contribuir com o contexto brasileiro atual, em sua opinião?

MVM: Já os ensaios sobre autores brasileiros (Machado e G. Rosa, como já mencionado, mas também Lima Barreto, Clarice Lispector ou Antônio Callado) incorporam à abordagem dos romances reflexões críticas sobre a história brasileira, o que representa uma contribuição no sentido visado pela sua pergunta.

O estudo que enfoca a produção de Dalcídio Jurandir, sobre o moderno Bildungsroman na “Amazônia Oriental”,traça interessantes paralelos com a obra narrativa de Milton Hatoum, para quem a tradição do romance de formação é muito importante: o ciclo romanesco O lugar mais sombrio, cujo segundo volume, Pontos de fuga, foi lançado em 2019, é apresentado explicitamente como “romance de formação”.

O ensaio sobre Jorge Amado considera o herói de Jubiabá, Antônio Balduíno, “um dos primeiros, senão o primeiro herói negro da literatura brasileira”, lançando uma reflexão sobre a questão racial em nosso país. Mas também os outros textos podem contribuir significativamente para uma discussão ampla e aprofundada (de uma perspectiva comparativa) da atual situação brasileira. O mencionado estudo de Willi Bolle, por exemplo, apoia-se no breve ensaio “Sobre a estupidez” (Über die Dummheit), de Robert Musil (representado no volume pelo seu monumental romance O homem sem qualidades), para aludir à extrema estupidez de um país que elegeu Adolf Hitler em janeiro de 1933 – e assim convidando o leitor, de maneira sub-reptícia, a refletir sobre os recentes desdobramentos na história brasileira… Enfim, num momento em que a cultura e a educação estão tão aviltadas no Brasil, este volume sobre as várias modalidades de “formação” se reveste de um significado bastante candente.

Orações Insubordinadas: aforismos para uma leitura rápida e divertida

Segundo o dicionário, aforismos são textos curtos e sucintos, de estilo fragmentário, relacionados a uma reflexão de natureza prática ou moral. Com base nessa definição, o publicitário piauiense Carlos Castelo, fundador do grupo Língua de Trapo, escreveu Orações Insubordinadas – Aforismos de Escárnio e Maldizer. O livro traz as frases curtas e cortantes, de autoria do próprio Castelo, que causam riso e reflexão ao mesmo tempo. A seguir, ele conversa com o Blog da Ateliê:

O que o levou a escrever Orações Insubordinadas – Aforismos de Escárnio e Maldizer?

Carlos Castelo: Desde muito jovem me interessei pelas formas breves. Primeiro foram os provérbios. Gostava de toda a sabedoria que eles traziam em sentenças tão curtas. Depois, com 14 anos, li o Meditações, do Marco Aurélio. E assim fui seguindo, conhecendo outros autores, até que descobri o frasismo de humor: Barão de Itararé, Don Rosse Cavaca, Nelson Rodrigues, Dirceu, Millôr – só para citar os brasileiros. Era natural que, um dia, eu passasse a criar minhas próprias frases e isso aconteceu a partir de 2007. Foi no site Castel-O-Rama, do Humor UOL. Ali comecei a produzir sistematicamente num link chamado Aboboral.A compilação dos anos em que escrevi o Aboboral fez nascer o Orações Insubordinadas.

Como foi feita a seleção dos seus aforismos?

CC: Eu guardava num arquivo todos aforismos que postava no Castel-O-Rama, e no meu Twitter, o @casteladas. O critério usado foi o de cortar as frases sobre fatos passageiros, do dia a dia, e optar pelas frases atemporais. Justamente para não deixar o livro datado. Creio que funcionou, já que o Orações Insubordinadas continua sendo lido, e provoca riso e reflexão, há mais de 10 anos.

Em sua opinião, qual a força do aforismo? Para você, aforismos são atemporais ou podem perder relevância ao longo do tempo?

CC: A força do bom aforismo é a sua alta densidade. Ele contém muita informação, paradoxo, desconstrução ou originalidade em poucas palavras. Então, quando o leitor o decifra é como se detonasse uma explosão de prazer. Isto não é propriamente uma ideia minha, mas uma simplificação grosseira do que dizia Sigmund Freud em Os chistes e sua relação com o inconsciente. Se um aforismo será atemporal, ou perderá a relevância, vai depender da massa de sua densidade.

Seu livro teve a primeira edição lançada em 2009, mas ele continua causando riso. A que você deve essa permanência?

CC: Devo essa continuidade, como disse, ao critério de escolha das frases mais atemporais da minha produção. E também ao fato do aforismo ter se adaptado muito bem ao mundo da internet e suas redes sociais. Por sua brevidade e capacidade de estimular a discussão, ele é um gênero literário perfeito para a Grande Rede. Meu livro, portanto, chegou no momento certo, na hora em que passou-se a valorizar 140 caracteres como se fossem 140 páginas.

Os aforismos têm, em comum, o humor e a graça que causam. É possível identificar como se dá a construção desse efeito de humor que os aforismos causam no leitor?  

CC: Os aforismos de humor, que são os que escrevo, funcionam como o chamado humor “on-liner”. Normalmente possuem uma frase inicial que levanta a bola e, uma segunda, que faz o “saque” – o famoso “punchline”. Mas há muitas outras maneiras de se criar um aforismo. Podem ser lugares comuns refeitos, definições de neologismos, falas, diálogos, comparações, indagações, provocações, paródias de frases famosas e até microcontos. Ou seja, quase tudo pode ser um aforismo de humor, desde que ele faça rir e pensar.

Morte aos Papagaios

A subjetividade é a chave do processo de criação do designer gráfico. Esta é a premissa de Morte aos Papagaios, o primeiro livro de Gustavo Piqueira, um dos mais importantes designers gráficos do país, que trata, de maneira leve e divertida, questões relativas à atividade do profissional de design. À frente de seu estúdio Casa Rex, Gustavo Piqueira é um dos mais reconhecidos e premiados designers gráficos do Brasil, com mais de 500 prêmios recebidos. Conhecido por livros nos quais mistura livremente texto e imagem, ficção e não ficção, design, história e tudo mais que encontrar pela frente, ele já lançou 30 títulos de sua autoria. Pela Ateliê Editorial, além de Morte aos Papagaios, publicou: “Clichês Brasileiros”, a tradução e edição de “A História Verdadeira” de Luciano de Samósata e a edição de “William Morris – Sobre as artes do livro”A seguir, o autor fala ao Blog da Ateliê sobre o livro:

O quanto de ficção e o quanto de “lastro real”existe no livro?

Gustavo Piqueira: Digamos que o livro é todo construído a partir de um “lastro real”, mas sempre com considerável liberdade. Ou seja: não houve preocupação em me ater a nenhuma espécie de rigor — fosse ele acadêmico ou factual. Acho que dá pra considerar Morte aos Papagaios como um livro de “não ficção livre”, se é que existe tal categoria.

A tecnologia e os meios de trabalho disponíveis para um designer mudaram muito desde que o livro foi lançado. De que maneira isso impacta no conteúdo do livro?

Gustavo Piqueira

GP: Na verdade os meios de trabalho para um designer gráfico não mudaram – eles seguem os mesmos da época em que escrevi o livro (a grande mudança se deu na década de 1990, com a chegada dos softwares gráficos que são, essencialmente, os mesmos de hoje, só que com menos recursos). Já a tecnologia como um todo se alterou profundamente — ou melhor, o impacto da tecnologia em nossas vidas se alterou profundamente. De qualquer modo, penso que um livro escrito há 16 anos e que buscava falar do mundo a seu redor termina por, inevitavelmente, carregar trechos que já podem ser considerados como parte do passado. O que não é, vale dizer, um atestado de invalidez — apenas indica que é recomendável a consciência desse ajuste temporal para sua leitura.

O que “alimenta” a criatividade?

GP: Ainda que muita gente tenha lido o livro dessa maneira, Morte aos Papagaios não é um livro sobre criatividade em si, não fala sobre como ser ou não criativo nem nada do gênero. Para dizer a verdade, o termo “criativo” nunca me agradou muito, me parece mais um jargão publicitário do que qualquer outra coisa. Minha ideia com Morte aos Papagaios foi a de falar de design como uma atividade cuja “bibliografia” não está exclusivamente em livros de design, vídeos de design ou qualquer outra obra de referência restrita, mas sim em tudo o que nos rodeia. Em absolutamente tudo, inclusive nas coisas mais cotidianas. Mais do que “dicas para estimular a criatividade” ou algum tipo de “defesa da criatividade”, se há uma tese central no livro é a de que design é uma atividade que acredito se basear num conhecimento amplo, universal. Não uma atividade técnica em que basta um aprofundamento vertical na disciplina em si para se chegar a uma atuação consistente.

O que, na sua opinião, faz com que um projeto seja efetivamente original e relevante?

GP: É uma pergunta que não dá para sintetizar numa resposta, numa só direção. Em linhas gerais creio que ele deve, ao mesmo tempo, refletir o tempo presente e projetar alguma visão futura.

Como você percebe que um trabalho seu está “acima da média” quando o termina?

GP: Bom, eu só posso responder por aqueles que estão “acima da minha média”… E acho que a resposta não tem muito segredo: é fácil perceber quando acabei de executar algo que foi um pouco além daquilo do que eu já havia executado, que dei um passinho à frente na minha trajetória. Agora, o curioso disso é que muitas vezes projetos em que eu senti isso, projetos que me marcaram por terem sido aqueles que ampliei de algum modo minha capacidade, minhas “forças”, não necessariamente foram aqueles que obtiveram maior reconhecimento, como prêmios e etc. Muito pelo contrário, aliás.

Qual a importância dessa autoavaliação, tanto para perceber o que pode melhorar quanto para perceber o que foi positivo no projeto?

GP: É fundamental. Autocrítica, capacidade de autoavaliação é um dos itens fundamentais em quase qualquer atividade.

O que você gostaria de dizer hoje ao leitor de “morte aos papagaios” que não havia sido dito quando o livro foi lançado, há mais de 15 anos?

GP: Acho que muitas coisas. Morte aos Papagaios foi meu primeiro livro — logo, é mais do que natural que hoje eu enxergue nele uma série de problemas, das mais variadas origens. Mas a melhor maneira de dizer outras coisas não é reescrevendo algo, mas escrevendo coisas novas. É o que venho tentando fazer. E, quando de tempos em tempos reencontro Morte aos Papagaios, posso até não me reconhecer em boa parte da obra, mas sinto o prazer de reencontrar um velho amigo.

Conheça outros livros de Gustavo Piqueira