Quando e por que o novo “vira” velho – e vice-versa

Marise Hansen*

Quando provocado sobre a suposta superação do Modernismo dos anos 1920 e 1930, Carlos Drummond de Andrade respondeu com ironia, referindo-se à Geração de 1945 como o “novo”, e a si mesmo e seus pares como os “antigos”:

“Este é o “novo” que se oferece hoje em substituição ao “antigo”, também chamado “modernista”. (Revista Orfeu, número 6, Rio de Janeiro, 1948)

Essa e outras polêmicas são recolhidas e explicitadas por Vagner Camilo, crítico literário e professor de Literatura Brasileira da USP, no recém-lançado Modernidade entre Tapumes: da Poesia Social à Inflexão Neoclássica na Lírica Brasileira Moderna. As querelas literárias são apenas uma face do movimento pendular que se verifica na primeira metade do século XX na poesia modernista brasileira e que, muito mais que dicotômico, é complexo e dialético, pois não se reduz a uma “sucessão de rupturas”, já que pode – e deve – ser visto também como “sucessão de continuidades”.

Fases e gerações se sucedem, “novíssimos” se justapõem a “novos”, e dessa dinâmica decorrem paradoxos, como o que se verifica na chamada Geração de 1945, cuja “modernidade” consistiria numa superação, justamente, do Modernismo, entendido como vanguarda. Essa complexidade é analisada de forma panorâmica e, ao mesmo tempo, rigorosa, na empreitada de largo fôlego realizada por Camilo.

Em parte, o livro desdobra o estudo anterior sobre a trajetória de Drummond (Da rosa do povo à rosa das trevas, Ateliê Editorial), mas, sobretudo, é fruto de pesquisa historiográfica vasta sobre a lírica brasileira (in)surgida e consolidada no século XX. Em doze densos capítulos, o autor percorre a poesia modernista para revelar como, por quê, e até mesmo se – os poetas do pós-II Guerra constituíram uma geração modernista, com projeto estético comum e definido. Para tanto, ele soma, ao amplo aporte teórico, cartas, depoimentos, artigos das revistas da época, ilustrações, além dos textos literários propriamente ditos.

Se os dois capítulos iniciais são dedicados a Drummond, por ser ele epítome de um movimento que vai dos antecedentes da II Guerra até a Guerra Fria, passando pela poesia de participação social, os demais mantêm o rigor analítico ao tratarem da poesia de Jorge de Lima, Murilo Mendes, Augusto Meyer, José Paulo Moreira da Fonseca, Dantas Motta e João Cabral de Melo Neto. Na abordagem, o crítico mobiliza conceitos e problemas fundamentais para o entendimento do jogo de forças que se estabelece quando programas poéticos clamam para si o caráter de inovação, mesmo os que propõem o “retorno à ordem”, como os surgidos no pós-guerra. Assim, campo literário, imagem do autor, prestígio da poesia e do poeta, determinações históricas, comunicação com o leitor, geração, grupo, são tópicos esmiuçados que levam a uma reflexão sobre os porquês da emersão de uma “arrière-garde” na poesia modernista, metaforizada na substituição dos salões e cafés pelos clubes literários. No que diz respeito ao conceito de “geração”, por exemplo, parte-se da questão sobre como estabelecer um perfil geracional, e mesmo sobre como definir o conceito. A respeito da “Geração de 1945”, percorrem-se as proposições e composições de grupo estabelecidas por Alfredo Bosi, Afrânio Coutinho, Péricles Eugênio da Silva Ramos, João Cabral de Melo Neto, Gilberto Mendonça Telles, Carlos Felipe Moisés, Domingos Carvalho da Silva e Sérgio Milliet. Vale destacar também os capítulos dedicados às influências de Valéry, Eliot e Rilke; a problematização feita por Sérgio Buarque de Holanda acerca da poesia do período e das leituras feitas sob os princípios do New Criticism; o estudo do soneto e o interesse que sobre essa forma demonstraram os modernistas, inclusive heroicos, como Mário de Andrade.

Se, por um lado, os capítulos têm certa autonomia, podendo ser lidos como estudos sobre os autores, textos, problematizações e polêmicas mencionadas, por outro, mantêm articulação entre si e concorrem para uma surpreendente consideração do poema “A um hotel em demolição”, último de A vida passada a limpo (1959), de Carlos Drummond de Andrade. No longo poema, que trata da ruína do Hotel Avenida, demolido para dar lugar ao Edifício Avenida Central, Drummond erige um monumento que reúne memória e reflexão crítica, passado e presente, universal e particular, transcendente e histórico. Na medida em que mescla, além dessas, as referências a provincianismo e cosmopolitismo, hábitos urbanos e sociedade rural, esfera pública e privada, o poeta faz de seu “retrato” do hotel uma verdadeira alegoria do país. Camilo não só aponta essa representação como, indo além, vê no poema uma alegoria da própria trajetória da poesia modernista que veio sendo analisada nos onze capítulos anteriores. Tal interpretação se revela coerente e instigante não só pelo caminho percorrido com acuidade até então, mas também pela análise dos elementos constitutivos do poema, que reúne formas fixas e tradicionais, trazendo inclusive um soneto incrustado, sintaxe discursiva e fragmentada ou experimental, à maneira concretista, léxico vernáculo e neológico. Não por acaso, o autor vê “A um hotel em demolição” como poema emblemático que dá fecho não só ao livro de Drummond, como também à fase classicizante do poeta, e até mesmo a uma “modernidade”, representada pelo grandioso hotel, a ser substituída por outra.

O que o autor apresenta, portanto, como “narrativa histórico-crítica plausível” da lírica brasileira da primeira metade do século XX, prova-se, ao fim da leitura, incursão obrigatória para quem queira entender não só a poesia produzida por nossos autores modernistas, mas a dinâmica das sucessões geracionais e a dialética a ser considerada quando se trata de tradição e ruptura.

*Marise Soares Hansen é doutora em Literatura Brasileira pela FFLCH-USP, com tese sobre João Guimarães Rosa, pesquisadora, ensaísta e professora de Literatura Brasileira na mesma universidade. 
Poeta, publicou Porta-retratos  pela Ateliê Editorial. Para essa editora, também elaborou prefácio e notas para a obra A Ilustre Casa de Ramires, de Eça de Queirós. 

“A Forma do Livro” é tema de debate

Tereza Bettinardi*

Novembro foi o mês em que lemos e debatemos no Clube do Livro do Design o livro A Forma do Livro – Ensaios sobre Tipografia e Estética do Livro, escrito pelo tipógrafo e designer alemão Jan Tschichold (1902–1974). A escolha deste livro para encerrar esta primeira temporada do Clube não foi por acaso. Além da minha relação pessoal com o tema [trabalhando com design editorial há quase 15 anos], este livro também é um excelente ponto de partida para discutir a fascinante biografia de Tschichold.

Tschichold foi, em momentos distintos, um expoente das duas grandes correntes estéticas que dominaram a tipografia do século XX: a ousada “nova tipografia” e os princípios da tipografia clássica, orientada pelas convenções seculares em vigor desde a Renascença. Depois de ser perseguido pelo regime nazista e partir para o exílio na Suíça, Tschichold também trabalhou na reformulação do design da série de livros de bolso da editora Penguin.

A Forma do Livro

Nesta coletânea de ensaios, escritos de 1937 até sua morte, Tschichold reconsidera seus postulados da juventude e volta-se ao estudo e reflexão a respeito da tipografia tradicional e aos layouts de composição simétrica. O livro só seria traduzido para o inglês, por Robert Bringhurst (autor de Elementos do estilo tipográfico), em 1991, e publicado no Brasil em 2007. Em mais de vinte textos críticos sobre temas gerais da prática do design gráfico e especificidades tipográficas, Tschichold procura sistematizar a intuição, descrevendo vigorosamente os parâmetros de qualidade de uma boa composição. Para ele, somente um impresso que honra a tradição do livro europeu é capaz de emergir de prateleiras e mais prateleiras de modismos injustificados. Ou seja, o design de qualidade teria origem na pesquisa histórica e na análise científica de tudo que já foi feito. E a inovação pela inovação não passaria de um capricho.

Como bem apontou a designer Flora de Carvalho, no texto enviado aos participantes do Clube na newsletter, em diversas passagens, a leitura de A Forma do Livro pode se tornar um exercício angustiante: “é possível chegar a esse nível de experiência e precisão? Ainda mais depois de 2020, o ano da abolição do planejamento? Para evitar a crise, sugiro que você pense nestes ensaios como fábulas de uma época distante, na qual era possível alcançar algum tipo de controle”. Neste sentido, tal constatação foi quase que unânime entre os participantes.

No entanto, é inegável o valor do esforço e determinação do tipográfico alemão em registrar, documentar e refletir sobre os diversos elementos que compõem uma página: a relação entre tamanho da página e mancha de texto, margens e alinhamento, corpo e entrelinha, espaço entre palavras e entre letras, forma e contraforma, branco e preto, papel e tinta. Como bem analisou Flora de Carvalho: “como bom explorador, Tschichold dedicou grande parte de sua carreira a observar e descrever as relações de proporção que encontrou em sua jornada – como Darwin observando Galápagos, ou Galileu olhando para o céu” que complementa: “os textos de Tschichold servem para nós, designers do século 21, como ponto de ancoragem ou de partida, porque associam criatividade a método, e não a genialidade. Segundo esses textos, o terror da página em branco, seria diluído se considerássemos combinações e estratégias preexistentes”. 

Durante os últimos meses, formamos um grupo com mais de 300 pessoas, entre designers, educadores, estudantes e entusiastas do design e da comunicação visual. Pudemos entrar em contato com realidades muito distintas: de São Luís, Porto Alegre, Recife, Salvador, Belo Horizonte, São Paulo, Rio de Janeiro… e aprendemos a ouvir e discordar respeitosamente. Mais do que um grupo de apaixonados pela profissão e pelo ofício de projetar, este grupo também serviu como uma valiosa rede de apoio e troca durante o isolamento. Os livros — tais como as importantíssimas contribuições de Tschichold — foram apenas um ponto de partida… e esperamos que as descobertas e trocas não acabem.

*Designer gráfica, criadora do Clube do Livro do Design

Uma livraria em meio às flores

Emília Amaral,  doutora pela Unicamp e professora de Literatura, é autora de O Leitor Segundo G.H. – Uma Análise do Romance A Paixão Segundo G.H. de Clarice Lispector

Apaixonada por livros, ela acaba de abrir sua própria livraria, a Livraria Jardim das Delícias, na cidade de Holambra, em sociedade com a irmã, Dinda Amara. A seguir, ela conta o que a levou a esse empreendimento.

Qual foi sua motivação para abrir uma livraria em um contexto em que a leitura se dá, cada vez mais, por meios digitais?

Emília Amaral: Na verdade, acho que o livro de papel não está competindo com o virtual, haja vista os relatos de abertura de novas livrarias, inclusive com vendas excelentes, que temos visto em todo o país. No Brasil, onde o nível de leitura é tão baixo, não podemos prescindir de ambos os tipos de livros, pois há possíveis leitores para eles.

Por que escolheu a cidade de Holambra?

EA: Holambra era uma cidade de vários indícios de gente interessada em leitura, mas não tinha livraria. Hoje, tem, e, pelo movimento, merecia mesmo. Além de ser uma linda cidade, centrada em produção e venda de flores, seus habitantes sempre estão em busca de novas atividades.

As sócias da Livraria Jardim das Delícias, em Holambra

Quando a livraria foi inaugurada?

EA: Devido à pandemia, não houve inauguração oficial, mas estamos trabalhando com bastante vigor e boas surpresas, há mais de dois meses. 

Que tipo de livros são os focos da livraria? Infantis, didáticos, literatura em geral?

EA: Sim. Literatura brasileira, literatura universal, teoria e crítica literária, biografias, ciências humanas, etc, além do que você colocou. Somos uma livraria-sebo, por isso temos produtos com assuntos, apresentações e custos variados. Atendemos muito pela internet e aceitamos doações.

Seu objetivo é também fazer da livraria um espaço de convívio para a comunidade de leitores da cidade? A ideia é realizar eventos presenciais e/ou online?

EA: Sim. Queremos criar um espaço cultural que seja reconhecido pela cidade. Temos atividades de cineclube, clube de leitura, palestras, lançamentos de livros, exposições, aulas etc. No fim de 2020, coordenei uma vivência da literatura de Clarice Lispector; tema de meu doutorado, para um grupo de seis pessoas. Foi bem interessante.

Quais são os desafios de abrir uma livraria no atual cenário pandêmico? E, por outro lado, como uma livraria pode contribuir para melhorar este cenário?

EA: O paradoxo é apenas aparente. Na pandemia, as pessoas buscam se interiorizar, procurar novos valores para sua vida, descortinar novos horizontes. Para isso, os livros, as revistas, muitas vezes indicados pela internet, são essenciais. Soube até de um aumento de vendas e de abertura de livrarias, nesse período.

Serviço

Livraria Jardim das Delícias

Avenida Solidagos, 218 – Morada das Flores – Holambra

@livrariajardimdasdelicias

Vendas on-line: dindi03uol.com.br

Várias Histórias, contos de Machado de Assis

Renata de Albuquerque*

A edição da Ateliê de Várias Histórias tem apresentação e notas de José de Paula Ramos Jr e ilustrações de Sérgio Kon.

Este é o quinto livro de contos de Machado de Assis, lançado em livro no ano de 1896. Isso significa que, antes dele, já haviam sido lançadas obras fundamentais como Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881) e Quincas Borba (publicado em formato de folhetim entre 1886 e 1891; e reunido em livro em 1892). Essas informações ajudam o leitor a entender que Várias Histórias é um livro de contos especialmente instigante, escrito por um escritor já maduro e disposto também a experimentar e a provocar o leitor.

São, ao todo, 16 contos: A Cartomante, Entre Santos, Uns Braços, Um Homem Célebre, A Desejada das Gentes, A Causa Secreta, Trio em Lá Menor, Adão e Eva, O Enfermeiro, O Diplomático, Mariana, Conto de Escola, Um Apólogo, D. Paula, Viver! e O Cônego ou Metafísica do Estilo. Entre eles, muitos são bastante famosos e figuram em diversas coletâneas dedicadas ao autor.

Um Apólogo é uma lição de concisão, uma das mais importantes características do conto. A disputa entre uma agulha e a linha que costuram um vestido de uma dama vai muito além da “lição de moral” típica do gênero. É, além disso, uma crítica sócio-política construída com cuidado e muitos subentendidos.

A Desejada das Gentes traz um Conselheiro (escrito antes do famoso Aires) que se lembra da “divina” Quintília, que havia sido disputada por ele com João Nóbrega: uma aposta entre amigos que é pretexto para que Machado crie mais uma de suas personagens femininas complexas e inesquecíveis.

Uns Braços é um texto que presenteia o leitor com ambiguidade e interdito. Nada (ou quase nada) está à mostra. O ambiente doméstico parece dar pouca abertura para um universo mais amplo, mas a imaginação do jovem Inácio e os braços de d. Severina, sua anfitriã, casada com Borges, leva o leitor a buscar, intrigado, em cada sinal sutil da narrativa, algo que frequentemente lhe foge: a atração de Inácio por d. Severina parece um estudo para o que depois viria a ser A Missa do Galo (de Páginas Recolhidas, lançado em 1899).

Enquanto isso, A Causa Secreta traz elementos de suspense, terror, loucura e é quase um thriller, cheio de personagens complexos psicologicamente que instigam a curiosidade do leitor para tentar entender todo aquele ambiente incômodo que, de alguma forma atrai a atenção.

Outra figura feminina inesquecível e misteriosa de Várias Histórias é D. Paula, personagem-título de um conto que, na superfície, é apenas mais uma história romântica que, se lido em profundidade e com cuidado, revela um jogo de poder que personagens muito singulares usam para defender seus próprios interesses.

Várias Histórias, enfim, é um exemplo acabado de que Machado de Assis parecia estar sempre atento ao resultado de sua obra como um todo, ao que desejava alcançar com cada texto ficcional e como, de certa maneira, testava situações e personagens que, com o passar do tempo, ia aprimorando.

*Jornalista, Mestre em Literatura Brasileira pela FFLCH/USP, autora da Dissertação Senhoras de Si: o Querer e o Poder de Personagens Femininas nos Primeiros Contos de Machado de Assis.

Conheça outros títulos da Coleção Clássicos Ateliê

As viagens do texto

Alex Sens*

Comecei a escrever ficção aos treze anos de idade, depois de ler muito e sentir que eu também podia contar uma história que ainda não tinha descoberto ou que, na minha jovem e ingênua vida literária, nunca fora escrita. Publiquei meu primeiro livro aos vinte, depois de participar de antologias e escrever textos esparsos por encomenda. Na época, o processo de produção de um livro me parecia muito simples e lógico, uma linha traçada sem desvios com começo, meio e fim: escrever, enviar o original para uma editora, ter o original corrigido de todos os erros e então publicado. Voilà! O livro era isso, o resultado de uma série de poucas etapas de cuja parte das funções cabia a mim. Certo? Não exatamente.

Foto de Alex Sens, tirada em uma livraria de Barcelona

Eu sabia que havia muito trabalho envolvido, que existia ali uma espessura densa e invisível por trás do livro finalizado, do objeto livro. No entanto, não sabia de suas inúmeras camadas e do quanto elas são importantes, ou melhor, do quanto são essenciais — por vezes, mais burocráticas, mais profundas e mais lentas do que a própria escrita. Porque a essência do livro enquanto objeto não é abstrata, tampouco romântica; ela é, antes de tudo, fruto de um longo trabalho em conjunto, organizado entre funcionalidades que, compostas, buscam um resultado comum. É a comunicação entre todas as partes envolvidas no processo de criação do objeto livro que vai produzir esse resultado. O livro é um bolo: cada ingrediente tem uma função para que ele exista, e o leitor fica sempre com a melhor fatia quando decodifica seus símbolos, lançando sobre esse bolo a luz da sua própria interpretação e encontrando nele um canal de fuga, de alegria ou de encontro.

Para uma criança ou para um adolescente que não lê, para qualquer um distante desse meio de produção, os livros nascem prontos, estão lá, simplesmente existem como existe o movimento dos ponteiros no relógio, a comida no prato, a televisão em frente ao sofá, a carteira na sala de aula, os cabelos brancos na cabeça do avô, ou, coisas mais naturais, como o dia e a noite, o Sol e a Lua, as águas do Rhône ou a lava do Kilauea. Quem vê a coisa, não pensa sobre a coisa: ela é — ao menos num primeiro momento. Pensando sobre o livro, somos atravessados não só pelo tempo, mas por uma longa cadeia de funções necessárias para que ele exista.

Com o passar dos anos (e me parece estranhamente sintomático não conseguir escrever isso sem esboçar um risinho nervoso), aprendi muito sobre o mundo editorial e livreiro, mas preciso e quero aprender muito mais. Escrevo há quase duas décadas, mas só nos últimos dez ou doze anos fui me inserindo melhor nessa área, me dividindo naturalmente, de forma orgânica e incontornável. A divisão consistiu, e ainda consiste, entre o Alex Sens que cria — escrevendo, colocando “escritor”, com um orgulho quase acintoso, na primeira página da declaração do imposto de renda, indo a eventos literários, tentando prêmios e aprendendo que tudo tem seu tempo de ampulheta quando se trata da linguagem e da criação literária como vocação — e o Alex Sens que revisa — corrigindo, reparando nas bordas, se cortando com as farpas dos erros, preparando o texto, sugerindo, apontando, que percebe com o olhar os ruídos entre as palavras. Às vezes, eles se confundem, se fundem, se aglutinam, trabalham juntos. Outras vezes, brigam entre si e precisam ficar separados.

Então, da escrita literária, daquilo que me escolheu antes da minha própria escolha, eu passei a revisar. Sempre revisei meus próprios textos como uma etapa da própria escrita, como um verniz para as palavras. Eu via a revisão como uma lapidação, um aperfeiçoamento do texto bruto. Em parte, ela o é. Mas mais do que isso, a revisão e a preparação de um texto são formas de aprimorar a viabilidade da comunicação entre autor e leitor. Depois que um escritor entrega seu original a uma editora, é papel do editor, do revisor e do preparador cuidar desse original, tentar diferentes roupas, vernizes, lapidações e até sonoridades. Também essas coisas cabem ao escritor, mas esses profissionais existem como uma espécie de terceiro olho, que vai enxergar coisas que ele, o escritor, já não consegue ver, tão acostumado ele está com a história — e muitas vezes perfeitamente acomodado nela. São esses terceiros olhos que vão limpar uma série de vícios, repetições, ecos, erros e às vezes iluminar passagens obscurecidas pela própria familiaridade do autor com sua obra. Depois, ele lê a prova, já revisada, aprova ou desaprova, e só então libera seu texto para a diagramação, que será a aparência do livro, relê outra vez e todos esses olhares, todas essas camadas, essas intervenções, seguem para a gráfica, onde tudo será concretizado, transformado em objeto palpável. Obviamente, a ordem das camadas, o tempo e a espessura de cada uma, dependem do método de cada editor, da fórmula de cada profissional, da ansiedade de cada autor.

Mercado, processos editoriais, análise, setor comercial, projeto gráfico, indexação, ISBN são alguns dos poucos e mais básicos termos do universo editorial, sem falar em gralhas, pastéis, print, remissiva e tantos outros que entram no processo de revisão e de preparação de um original, atravessando todos os envolvidos. Ninguém que esteja do lado de fora desse cosmos da publicação precisa de fato conhecer estes termos, compreender o processo que, muitos anos depois, descobri não ser apenas uma linha traçada sem desvios com começo, meio e fim, mas uma espiral em movimento, uma linha labiríntica e quase infinita, um corpo vivo, multifuncional e onidirecional. Este corpo, que é o processo de publicação, não termina quando o livro está editado e exposto nas livrarias, guardando no coração de suas páginas, ali próximo à costura e à cola, o perfume do papel impresso que libera nos leitores mais do que um prazer afetivo, um prazer ancestral (desde a oralidade na contação de histórias); não, este corpo não tem fim: depois de publicado, um livro ainda mexe com uma imensa cadeia que envolve livreiros, distribuidores, armazenamentos, logísticas, empregos, direitos autorais, e talvez, às vezes, alguns bons acidentes de percurso, como prêmios, traduções e adaptações audiovisuais — outro corpo que dele nasce e se ramifica numa nova cadeia, poderosa e essencial para a cultura de um povo.

*Escritor, nascido no ano de 1988 em Florianópolis, SC, e radicado em Minas Gerais. Publicou Esdrúxulas, pequeno livro de contos de humor negro e realismo mágico, seguido pelo livro artesanal Trincada. Teve contos e poemas publicados em sete coletâneas e em revistas literárias virtuais, assim como resenhas de livros, entrevistas e críticas em sites de jornalismo cultural. O Frágil Toque dos Mutilados (Autêntica Editora, 2015), seu romance de estreia, venceu o Prêmio Governo de Minas Gerais de Literatura 2012 na categoria Jovem Escritor.

Um guia de viagem inusitado

O escritor e designer Gustavo Piqueira esteve na cidade de São Francisco do Pará em janeiro de 2020. Lá, fotografou todas as placas comerciais da cidade. O resultado é um documento que mais parece um mapa de viagem, com tiragem única de mil exemplares. “Ao desdobrar o enorme cartaz que exibe, condensado num intricado mosaico, todo o conteúdo do livro, o leitor é convidado a refletir sobre questões que vão da relação entre a linguagem visual e a mensagem da qual é portadora até o quanto um recorte do Brasil distante de seus centros econômicos é, de fato, representativo desse lugar ou não passa de um olhar concentrado somente naquilo que lá encontra de diferente e logo enquadra como exótico”, explica Piqueira.

Toda a cidade de São Francisco do Pará conforme encontrada no dia 12 de janeiro de 2020 é exatamente aquilo que seu título declara: uma cidade comum do Brasil que, num dia qualquer, recebeu o registro fotográfico de todas as suas placas comerciais. Todas. Sem nenhum filtro, nenhum recorte. Uma visão completa de uma cidade, sem juízo de valor ou de gosto. Um retrato de quais histórias seus habitantes contam para si mesmo, de como as contam.

A aparente neutralidade, contudo, é ilusória. Pois ao desdobrar o enorme cartaz que exibe, condensado num intricado mosaico, todo o conteúdo do livro, o leitor é convidado a refletir sobre questões que vão da relação entre a linguagem visual e a mensagem da qual é portadora até o quanto um recorte do Brasil distante de seus centros econômicos é, de fato, representativo desse lugar ou não passa de um olhar concentrado somente naquilo que lá encontra de diferente e logo enquadra como exótico. A seguir, o autor fala ao Blog Ateliê:

Como surgiu a ideia do livro-objeto?

Gustavo Piqueira: Penso que há algum tempo já me debruço sobre questões ao redor do tema central do livro, que são as definições sobre o que deve ou o que não deve ser admirado como “arte” ou “cultura” e, dentro desse assunto amplo, venho olhando para algumas manifestações daquilo que se convencionou chamar de “arte popular” — como em meu livro “Desvios” (WMF Martins Fontes/2018), sobre fachadas populares contemporâneas do sertão nordestino. Falando especificamente desta obra, o “Toda a cidade…”, ela nasceu inicialmente numa visita à ala de ex-votos da Casa Museu do Padre Cícero, em Juazeiro do Norte. Além dos já esperados entalhes de madeira, singelas representações de braços, pernas e cabeças curadas pela fé, encontrei uma boa quantidade de presentes de outra ordem — igualmente oferecidos por fiéis em agradecimento pelas graças alcançadas —, como fotos de motos estacionadas em frente à estátua do padre milagreiro, camisas de times de futebol (sobretudo a do Flamengo) e miniaturas de carros, entre elas a de um Porsche branco. Nenhum problema nisso: cada um sabe de seus desejos e aflições. O que me chamou mesmo a atenção foi o fato de que sempre que ex-votos são expostos, por exemplo, aqui em São Paulo — despidos de sua função religiosa e transformados exclusivamente em expressão cultural de um suposto Brasil profundo —, não se costuma incluir na mostra fotos de motocicletas, mantos rubro-negros ou Porsches brancos. Com certeza, não por falta de espaço nas salas expositivas. Então o que realmente enxergamos? Quais são essas vozes que não apenas organizam e escolhem a cultura a ser consumida como também ensinam ao espectador como consumi-la?

Por que ele foi feito durante uma viagem?

GP: Na verdade ele nasceu no meio de uma viagem, uma longa viagem de carro indo de Juazeiro do Norte a Belém. São Francisco do Pará não estava no roteiro inicial, foi escolhida em função do surgimento do projeto do livro, cuja ideia passava por escolher aleatoriamente uma cidade comum do Brasil que, num dia qualquer, recebeu o registro fotográfico de todas as suas placas comerciais sem nenhum filtro, sem nenhum recorte. Uma visão completa de uma cidade, sem juízo de valor ou de gosto. São Francisco do Pará se encaixava nos parâmetros que defini para o livro (em termos de população e atividade) e ficava relativamente próxima ao trajeto original da viagem, então foi a escolhida.

Lançar um livro feito durante uma viagem em meio a uma pandemia, que obriga a um distanciamento social, é de alguma maneira uma inspiração, um apelo à esperança de que esta fase vai passar? Qual o significado disso, para você?

GP: O livro estava feito antes da pandemia, então não existe relação direta. E creio que seu assunto é válido independentemente do impacto da pandemia (que vai passar, mas vai deixar marcas). Claro que, neste 2020, a chegada da pandemia interrompeu meus projetos de livro que envolviam viagens — dois deles foram seriamente prejudicados por isso — mas, por outro lado, fez nascerem outros que talvez não tivessem brotado não fosse o isolamento (ainda que nenhum deles seja sobre isolamento, pandemia ou algo diretamente ligado ao tema). 

Por que fotografar os letreiros especificamente?

GP: Não é uma maneira muito habitual de se retratar uma cidade, eu sei: normalmente escolhem-se suas edificações, sua paisagem natural ou sua gente. Mas porque não os letreiros? Afinal, eles são peças que unem mensagens em texto e imagens, elaboradas pelos próprios moradores da cidade para se comunicar com os demais moradores. Não são esses ótimos ingredientes para se compor um retrato consistente?

Que história esses letreiros contam?

GP: Creio que os letreiros comerciais contam histórias muito ricas, pois neles é possível encontrarmos quais as atividades  movimentam a cidade, quais os códigos visuais utilizados para comunicá-las (ou seja, qual o repertório visual daquela população), quais as técnicas utilizadas para produzi-los… Dá pra falar de local x global, dá pra falar de manualidade x digital… É um material de aparência prosaica mas que, a meu ver, abre caminho para reflexões das mais ricas.

Como é feito o acabamento do livro? São colagens feitas uma a uma?

GP: Sim, as etiquetas de título/autor são coladas uma a uma. O formato do livro brinca com aqueles antigos mapas impressos de viagem, vem daí a ideia para seu tamanho pequeno que se desdobra num grande cartaz.

Em sua opinião, o livro só interessa ao público ligado ao design ou também ao público em geral?

GP: Gostaria de acreditar que o interesse do livro transcende sua forma e alcança todos aqueles que, de algum modo, se interessam por refletir sobre as questões que coloquei, vinculadas a nossa própria percepção do Brasil, a nosso olhar sobre a produção dita “popular”, a pensar sobre quem escolhe o que consumimos com o rótulo de “cultura”…

Você já tem outros projetos de livro em mente? Pode falar sobre isso?

GP: Sim, tenho alguns. No começo de 2021 lançarei o quinto volume de minha coleção Gráfica Particular, “A Cidade sem nome de Torres-García” (Lote 42), além de um livro sobre a história de São Paulo, “A Pirâmide do Piques” (Edições Sesc) e “Domex“, uma história em quadrinhos (Editora Veneta). Esses são os que estão prontos já. Dos que farei, pela Ateliê, planejei com o Plinio de escrever e lançar, neste 2021 que chega, um volume para a coleção Artes do Livro, da qual já participei organizando/desenhando “William Morris – Sobre as Artes do Livro”, mas desta vez serei também o autor. Será mais um ano produtivo, espero.