O Coruja, de Aluísio Azevedo

Era 1885 quando Aluísio Azevedo começou a publicar O Coruja, em folhetim, no jornal O Paiz. A versão da Mont’Alverne surgiu dois anos depois. Mas, ao contrário de outros textos de Azevedo, que se tornaram clássicos da literatura brasileira, como O Cortiço e O Mulato, O Coruja é uma obra menos conhecida do público. Talvez porque faça parte da lista de obras do autor escritas para serem folhetins, feitos especialmente para leitores de jornal.

Apesar de não fazer parte da lista de livros mais famosos do maranhense, O Coruja merece atenção do leitor interessado em conhecer o que existia na literatura brasileira do  século XIX “para além dos clássicos”. A Ateliê acaba de lançar uma edição desse título, que faz parte da Coleção Clássicos Ateliê, com apresentação e posfácio de Maria Schtine Viana.

Aluísio Azevedo, em imagem da Academia Brasileira de Letras

Análise do enredo

André, um menino do interior de Minas Gerais, é um órfão considerado feio e desajeitado. Por isso, é apelidado de O Coruja. Mas, a despeito da aparência física, tem uma personalidade e um caráter fortes e um bom coração. Por considerar as outras pessoas sempre superiores a si – talvez por ter um complexo de inferioridade desenvolvido por ser visto como feio – acaba renunciando às suas próprias vontades para ajudar aos outros. Ele conhece Teobaldo, filho de um homem poderoso, no internato. Mais tarde, ambos partem para o Rio de Janeiro para finalizar os estudos. Teobaldo fica órfão e casa-se com uma moça rica, em uma união de aparências. Enquanto isso, André começa a poupar para abrir uma escola, um dos planos que o próprio Teobaldo interrompe sempre que surge um problema em sua vida – o que desvia André de seu planejamento. André ajuda o amigo sempre que ele está em apuros, passando por necessidades. Mas Teobaldo não se corrige.

Considerado por alguns críticos um “romance de formação às avessas”. “O Coruja constitui uma ‘educação sentimental’, romance de aprendizagem, mas não da personagem que dá título à narrativa: o Coruja é figura secundária, ainda que relevante pelo papel que desempenha. O ‘Herói’ é Teobaldo Henrique de Albuquerque”, escreve Massaud Moisés.

A forma como constrói o romance faz com que o leitor entenda claramente o que Aluísio Azevedo quer dizer com a história narrada em O Coruja. Ele fala sobre a dicotomia entre aparência e essência; sobre como as pessoas vestem máscaras sociais para tentar se adequar; em oposição àqueles que, tendo um bom coração e caráter ilibado, nem sempre conquistam o que desejam nem são reconhecidos por seus pares.  

Para dar mais ênfase àquilo que pretende destacar, o autor carrega nas tintas, um procedimento que também pode ser notado em outras obras suas. André é bom, prestativo, bondoso. Teobaldo é interesseiro, busca sempre ter conforto com o mínimo esforço.

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