Monthly Archives: setembro 2018

Figurações do Oitocentos: literatura romântica nas obras de autores brasileiros e europeus

Por: Carina Marcondes Ferreira Pedro*

O livro Figurações do Oitocentos, organizado por Paulo Motta Oliveira, coordenador do Grupo de Estudos Oitocentistas da Universidade de São Paulo, contém ensaios que discutem a literatura romântica nas obras de autores brasileiros e europeus. O leitor poderá saber mais sobre o trabalho de autores como Émile Zola, Abel Botelho, Camilo Castelo Branco, Machado de Assis, Eça de Queirós, José de Alencar e Jane Austen. Os ensaios foram divididos no livro em duas partes: “Entre Tempos e Culturas”, a primeira, e “Religião, História e Crítica”, a segunda.

A primeira parte inicia-se com o ensaio “Émile Zola e Abel Botelho: Dois Olhares, Distintas Nações”, de autoria de Paulo Motta Oliveira. Como recorte, Oliveira seleciona os romances “A Besta Humana” de Zola e o “Barão de Lavos” de Botelho para analisar as realidades das classes sociais de seus países. Nessa comparação, o autor encontra uma forte classe dominante na França e a ausência da mesma em Portugal.  O segundo ensaio “As viagens de Adelbert von Chamisso: Da Literatura à Ciência, da Alemanha ao Brasil”, de Karin Volobuef, trata da obra de Chamisso, autor pouco conhecido no Brasil, embora tenha tido uma breve passagem pelo país. A ensaísta observa que a narrativa do autor é rica e instigante, cheia de expressões poéticas, ao mesmo tempo em que é fluente e objetiva, como a de um homem da ciência ao narrar as intempéries vivenciadas em viagens marítimas.

O terceiro ensaio “As Primeiras Impressões são as que ficam? Jane Austen Retorna ao Cinema”, de Carla Alexandra Ferreira, aborda apagamentos ou relativizações que a obra de Austen sofreu ao ser adaptada para o cinema nos anos 2000. Apesar de alguns pontos fortes do filme “Orgulho e Preconceito”, como o reforço das diferenças sociais que existiam no contexto histórico de Austen, a obra cinematográfica celebra o romance em um nível muito além do apresentado pela escritora em seu livro. Daí a necessidade de situar historicamente temas como o casamento e o amor na obra de Austen.

Coração, Cabeça e Estômago, obra de Camilo Castelo Branco

A ensaísta Flavia Maria Corradin aborda no quarto ensaio “Camilo Castelo Branco Revisitado pela Moderna Dramaturgia” a obra desse autor, considerado o mais importante do romantismo português, por conta de sua originalidade. De acordo com a ensaísta, a intertextualidade está presente nas paródias, estilização e paráfrases de Branco. O último ensaio da primeira parte do livro, de autoria de Renata Soares Junqueira, “Máscaras, Transmutações e Outras Formas do Duplo no Moderno Teatro de Branquinho da Fonseca” diz respeito a esse autor, considerado um dos grandes modernistas portugueses, não somente nas produções literárias, contos e novelas, como também nas obras teatrais. Em suas ficções, a narrativa é marcada por poesia em prosa com personagens que incorporam princípios do romantismo, como o individualismo obsessivo.

 

Na segunda parte do livro, os dois primeiros ensaios discutem a questão da religião na sociedade oitocentista. O primeiro “Cristo Revisitado”, de Aparecida de Fátima Bueno, retoma a obra de Eça de Queiroz, analisando a crítica severa do autor à Igreja Católica do século XIX, com destaque para o romance A Relíquia. Queiroz apresenta um Cristo dessacralizado, que não esconde seus atos falhos, o oposto da visão institucional transmitida aos fiéis pela Igreja.

Eça de Queirós

A obra de Eça de Queiroz continua sendo analisada no segundo ensaio pela perspectiva do orientalismo, mas dessa vez acompanhada pela obra de Machado de Assis. De autoria de Osmar Pereira Oliva, o ensaio intitulado “Eça e Machado e as Reescritas do Livro de Gênesis” destaca em Eça de Queiroz a crítica severa ao clero e a adoção da teoria darwinista, a partir da releitura do Livro de Gênesis. Já em Machado de Assis, a análise da releitura do Livro de Gênesis contribui para identificar a visão deste autor sobre o Oriente, visto que a Bíblia é um texto “paradigmático da cultura oriental” e fundamental nas sociedades ocidentais.

No terceiro ensaio “Quando o Medo Vence o Amor. O Estabelecimento do Domínio Filipino em Oliveira Martins”, de Patrícia Cardoso, é discutida a presença do sebastianismo na obra do historiador Oliveira Martins, que o considera um fenômeno cultural lusitano. Tal fenômeno é utilizado para dar sentido ao passado em seus romances, como em “Febo Moniz”, em que o discurso historiográfico é permeado pela ficção. O quarto ensaio “Gonçalves Dias e a Burocracia Imperial: Favores e Afrontas”, de Wilton José Marques, trata do reconhecimento de Gonçalves Dias como um dos grandes intelectuais do Império e, simultaneamente, rastreia sua inserção no funcionalismo público do segundo reinado do Brasil. Dias queria ser reconhecido como poeta nacional pelos seus méritos literários e não pela via da “lisonja fácil”. A temática indianista é presente em seus poemas, que possuem um tom nacionalista e elementos “de uma nova escola literária”, como foi reconhecido por José de Alencar, seu contemporâneo.

Iracema, de José de Alencar

Iracema, de José de Alencar

O quinto ensaio “Papel da Crítica na Fixação do Indianismo: o Caso José de Alencar”, de Mirhiane Mendes de Abreu, discute o papel do escritor José de Alencar como crítico literário de indianistas contemporâneos, com destaque para as “Cartas sobre a Confederação dos Tamoios”, em que analisou o livro de José Gonçalves de Magalhães. O ensaio ainda destaca outros importantes debates literários com participação de José de Alencar, cuja temática principal era o problema linguístico na literatura local, considerado um dos aspectos controversos da instituição da literatura nacional brasileira. A presença da categoria nacional na retórica oitocentista é o destaque do sexto ensaio, “Retórica do Romantismo”, de Eduardo Vieira Martins. O ensaísta discorreu sobre cinco tratados de retórica: Lectures on rhetoric and belle letres, de autoria do escocês Hugh Blair, “Lições Elementares de Eloquência Nacional” e “Lições Elementares de Poética Nacional” do português Francisco Freire de Carvalho, “Lições de Eloquência Nacional” do padre pernambucano Miguel do Sacramento Lopes Gama e os “Elementos de Retórica Nacional”, de Junqueira Freire. Para Martins, a análise da retórica oitocentista permite uma releitura do romantismo a partir dos valores que orientavam as produções literárias da época, evitando o anacronismo na crítica realizada nos dias atuais.

 

* Historiadora, mestre em História Social pela Universidade de São Paulo e agente cultural na Secretaria de Cultura de Santos. É autora do livro Casas Importadoras de Santos e seus Agentes, publicado pela Ateliê Editorial, em 2015.

Incêndio no Museu Nacional: como preservar os acervos?

Por Renata de Albuquerque

 

O incêndio que se abateu sobre o Museu Nacional do Rio de Janeiro destruiu quase todo o acervo de 20 milhões de peças. Menos de 1,5 milhão de itens saíram intactos. O Museu, que em 2018 completou 200 anos, contava, entre muitos outros itens, com uma coleção de peças egípcias, artefatos greco-romanos e abrigava Luzia, o mais antigo fóssil humano já encontrado no Brasil. Essa tragédia cultural colocou na pauta o tema da conservação dos acervos e dos museus no Brasil, muitos dos quais correm também riscos.

Beatriz Mugayar Kühl

A arquiteta Beatriz Mugayar Kühl, especializada na área de preservação de bens culturais na Katholieke Universiteit Leuven (Bélgica) e doutora pela Universidade de São Paulo e pós-doutora pela Università degli Studi de Roma, explica que o problema não é apenas o dano no acervo. “É um acervo de 200 anos que sumiu. O prédio até pode ser restaurado, mas o próprio edifício era uma peça de acervo, pois mostrava um modo de construir que pegou fogo”, afirma.

Ela, que é uma das organizadoras da Coleção Artes&Ofícios, da Ateliê Editorial, faz parte atualmente de um grupo de trabalho que se dedica a auxiliar na restauração do Museu Paulista. Conhecido como Museu do Ipiranga, ele deve reabrir ao público em 2022, depois de quase uma década em obras. O grupo, formado por profissionais da FAU (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP) e do Departamento de Pesquisa da Universidade de Ferrar (Itália), tem por função coordenar trabalhos e auxiliar na captação de verbas para preservar tanto a edificação em si quanto o acervo do museu.

Segundo a arquiteta, no Museu Paulista, o diagnóstico estrutural foi concluído em 2017, o projeto arquitetônico de restauração já foi escolhido e está em andamento. “Foi realizado um escaneamento do telhado, para entender como podemos sustentar o forro, por exemplo. Coletamos dados que agora estão sendo analisados e que ajudam os arquitetos a ‘enxergar o que as paredes escondem’, as estruturas, os elementos da construção”. Assim, é possível planejar com mais segurança o restauro e a manutenção futura do edifício, diminuindo o risco para o próprio edifício, o acervo e o público.

“Os museus, principalmente os ligados a universidades, não são apenas locais de visitação. São centros de pesquisa, com elementos que nos ajudam a refletir sobre o hoje, com o olhar contemporâneo sobre peças do passado. E assim conseguimos vislumbrar o amanhã”, avalia.

Com o incêndio do Museu Nacional, aumentou o interesse pelo tema da conservação de acervos. Para quem quer conhecer mais a respeito do assunto, a arquiteta sugere a leitura de Cartas a Miranda, de Quatremère de Quincy. “Esse livro chama a atenção para a questão da preservação. É um livro que pode ser lido por quem está interessado pelo tema”, indica.

Afinal de contas, quanto mais informação tivermos, maior a chance de evitar que tragédias como o incêndio do Museu Nacional se  repitam.

 

 

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