Monthly Archives: julho 2018

“Konstantinos Kaváfis – 60 poemas” ganha nova edição

A literatura grega não é feita apenas de textos do período clássico da Idade Antiga. Autores mais recentes também reservam ao leitor experiências literárias impactantes, como é o caso de Konstantinos Kaváfis (1863 – 1933), considerado um dos mais importantes escritores cuja produção foi elaborada em grego moderno. Autor de mais de 150 poemas, teve sua obra reunida apenas postumamente.

 “Konstantinos Kaváfis – 60 poemas”, tem seleção e notas de Trajano Vieira, um dos mais importantes pesquisadores da cultura helênica no Brasil. Na obra, o leitor tem a oportunidade de entrar em contato com um universo esteticamente rico e provocador. A seguir, Trajano Vieira fala ao Blog da Ateliê sobre o livro:

Que alterações foram feitas em relação à primeira edição?

Trajano Vieira: A segunda edição mantém exatamente os princípios que nortearam a primeira: tentar apresentar ao leitor, através da linguagem poética, algo da expressividade estética de um autor extraordinário.

Como se deu o processo de tradução dos poemas para esta antologia, à época da primeira edição? Houve ajustes para esta segunda edição?

TV: O processo de tradução foi uma decorrência do processo de leitura dos poemas do autor. Aqueles textos que me tocavam mais, eu os tentava traduzir. Preservei as traduções que, pelo menos para o meu gosto, atingiram alguma qualidade estética. As demais, deletei. De um modo geral, costumo trabalhar assim: só consigo traduzir obras que, no processo de leitura, me motivam a vertê-las. Isso não é garantia de sucesso, apenas um princípio de trabalho.

 

No prefácio do livro, o senhor fala da poesia fantasmagórica e do exotismo dos personagens de Kaváfis. Poderia, por gentileza, falar um pouco sobre isso para os leitores que não conhecem esse autor?

TV: Trata-se da atmosfera que prevalece nos poemas de Kaváfis. Seus personagens são avessos ao banal e previsível. Normalmente suas atitudes sugerem naturezas excêntricas. Parecem viver num universo deslocado, em que não é mais possível realizar suas fantasias. Daí o tema da morte ser tão recorrente em sua produção. Quase nada do tempo histórico vale a pena ser vivido. O imaginário refinado se expande e domina as ações dos personagens. Um dos parâmetros fortes dessa experiência é o ideal clássico, o tom contemplativo avesso ao utilitarismo e à redundância cotidiana.

 

Konstantinos Kaváfis

O senhor destaca ainda a dimensão estética da linguagem de Kaváfis. O que se pode dizer a respeito disso?

TV: Destacam-se, em sua linguagem, o coloquialismo e o distanciamento da elocução, num padrão verbal de elevadíssimo domínio formal, fazendo às vezes pensar em T. S. Eliot. A erudição do autor se evidencia em seu conhecimento profundo da tradição greco-latina. Muito do desespero que se depreende de situações que ele representa se deve à constatação de que certo gosto literário se perdeu irremediavelmente na modernidade. Registre-se, entretanto, que sua poesia é tributária, por outro lado, de um forte traço da produção moderna: a ironia.

 

Como se dá a inserção de elementos teatrais na poesia do autor grego?

TV: Normalmente, através da configuração de um personagem exótico, que parece histórico, mas não é. Esse personagem desenvolve comportamento incomum diante de uma situação. Tal aspecto que denominaríamos ficcional prende a atenção do leitor, surpreendido com a imprevisibilidade da ação. A beleza é um parâmetro central para esse tipo de personagem, não só a beleza de certa forma física, mas a que se busca num determinado estado de espírito, impossível de perdurar ou até mesmo de se provar. Algumas vezes, fica no ar a sugestão de que nada vale a pena, porque até o êxtase mais intenso não passa de uma quimera na temporalidade transitória.

 

Existe um elemento de coloquialismo na poesia de Kaváfis que permitiria fazer uma aproximação deste poeta com a poesia de Drummond. O senhor pode falar brevemente a respeito, por favor?

TV: Haroldo de Campos, em sua tradução notável do poema mais famoso de Kaváfis, “À espera dos bárbaros”, introduz, num certo momento, uma expressão de um poema de Drummond, correlata ao do poeta neogrego. A aproximação seria possível justamente por causa da confluência de ironia e registro coloquial, presente nos dois autores. Certa visão sobre a trágica experiência humana, um reflexo da percepção da brevidade da vida, é outro aspecto que poderia aproximar os dois autores. Contudo, as figuras emblemáticas da poesia de Kaváfis nada têm a ver com as representações de Drummond. A luxúria que retoma certa visão do classicismo tardio é algo que afasta o primeiro escritor do segundo. A melancolia diante da vulgaridade dos fatos cotidianos leva Kaváfis a outra direção, em que os personagens se arriscam e se excedem em sua incontida sensualidade. Esse tipo de risco é menos presente em Drummond, que se retrai muitas vezes diante da potencialidade do desastre.

 

O senhor considera que há um elemento de ironia na poesia de Kaváfis? Como ela se coloca na obra?

TV: A ironia está presente sobretudo no comportamento de personagens que cultivam a hiperestesia, diante da qual os fenômenos cristalizados pelo senso comum num certo contexto não têm nenhuma importância. É da ausência de ilusão sobre a positividade dos fatos históricos que nasce a ironia extremamente sutil com que o autor constrói a experiência incomum. Registre-se, contudo, que sua linguagem é bastante precisa. Ela não padece de indefinições redundantes, nem de evasões de transes surrealistas.

 

Conheça a obra de Trajano Vieira

 

“Moleque de fábrica”: memória de um trabalhador

Por Carina Pedro *

O livro “Moleque de Fábrica – Uma Arqueologia da Memória Social” do sociólogo e professor José de Souza Martins é um mergulho profundo nas memórias do autor, da sua infância à maturidade, das difíceis relações familiares e profissionais estabelecidas entre o campo e a cidade, que ajudaram a formar o homem adulto e acadêmico, crítico de sua própria trajetória. São memórias com as quais muitos brasileiros vão se identificar, seja pela imigração de seus antepassados, pela infância no interior e na cidade (uma das do ABC paulista), em meados dos anos cinquenta, quando ser operário de fábrica era o destino certo da maioria dos trabalhadores. A obra é composta por catorze capítulos, um prólogo e uma conclusão, que nos fazem refletir sobre o Brasil de José e de outros tantos brasileiros.

No primeiro capítulo “Estranho Regresso”, Martins narra sua viagem a Portugal nos anos 70 e a descoberta da história de origem de seu pai, nascido em Santiago de Figueiró. Em pouco tempo, informações surpreendentes sobre sua família paterna foram reveladas, em especial, sobre sua avó Maria de Souza Martins, a Mãe Maria, e o contexto de nascimento de seu filho, Alberto, pai de Martins. Um dos indícios de que algo tinha sido omitido é o fato de Alberto ter herdado apenas o nome de sua mãe. No segundo capítulo “Encontro na Estação Victoria” podemos conhecer mais sobre a família materna do autor, que emigrou da Espanha duas vezes, a primeira para Argentina e a segunda e definitiva para o Brasil, onde após trabalharem nos cafezais, construíram sua própria casa de pau a pique no bairro caipira do Arriá em Pinhalzinho (SP). Entre as memórias compartilhadas, Martins nos revela como foi a morte de seu avô materno e de uma de suas tias, ainda pequena, tragédia que repercutiu na personalidade de sua mãe até os últimos dias.

No capítulo três, “Iniciação ao medo”, o autor nos conta sobre o início da sua vida escolar em um externato católico, com regras rígidas de comportamento, após a morte precoce do pai e a necessidade de sua mãe trabalhar. Outra mudança significativa na vida de Martins e seu irmão foi o segundo casamento de sua mãe, que os levou a morar na área rural, em um pequeno lote de terra em Guaianazes. No capítulo quatro, “A arca encantada”, temos um interessante relato de um evento ocorrido nessa passagem do autor pela roça: a busca de um baú cheio de moedas de ouro enterrado por um antigo senhor de escravos. No capítulo “A cachorra Lembrança”, a partir das dificuldades vivenciadas por Martins e sua família em Guaianazes, o autor faz uma profunda reflexão sobre as principais oposições entre a cultura caipira e a cultura urbana.

O autor com a mãe e o irmão, em 1948, em Guaianazes

O capítulo “Moleques de rua” traz algumas questões sobre a sociabilidade infantil no subúrbio operário. Como exemplo, brinquedo e brincadeira eram coisas diferentes para eles, sendo que o brinquedo só fazia sentido se resultasse em uma atividade coletiva na rua, considerada um território livre para brincar com bola de borracha, papagaio, peão, etc. No capítulo “A margem”, o sociólogo traz à tona a cultura da sova ou a violência doméstica praticada contra os imaturos, atitude que interpreta como uma transferência injusta para os filhos das adversidades da vida operária. Tal prática ocasionou a separação definitiva de sua mãe e seu padrasto. O capítulo “Cada dia do nosso pão” aborda uma nova fase da sua vida familiar e profissional, quando ainda adolescente consegue um emprego na Cerâmica São Caetano.

“Vida intransitiva” traz uma reflexão sobre os conflitos culturais vivenciados pelos imigrantes. O autor discute os dois casamentos de sua mãe, o primeiro com seu pai português, que representou a vitória da cultura europeia e a negação do mundo caipira, e o segundo com seu padrasto, que configurou um retorno sem sucesso para o meio rural. No capítulo dez, “A pulga e a fé”, Martins relata suas experiências nas religiões católica e protestante, sendo esta última considerada pelo autor uma importante influência no seu autodidatismo. Na sequência, em “Os mistérios da fábrica”, o leitor encontrará uma análise detalhada de quem fez parte do sistema fabril. Cumprindo seus deveres de trabalhador na Cerâmica São Caetano, Martins presenciou fatos inusitados, como o suposto aparecimento de um demônio para uma das operárias. Acontecimento que mais tarde virou objeto de estudo do sociólogo.

No capítulo doze “Na última manhã de Getúlio” é abordada a reação à morte de Getúlio Vargas, cuja trajetória cruza com a do fundador da Cerâmica São Caetano, o engenheiro Roberto Simonsen, pioneiro na adoção de direitos sociais e fundador da Escola de Sociologia e Política de São Paulo. Em “A greve” colocam-se outras questões relacionadas ao trabalho na fábrica, como a invisibilidade dos trabalhadores e sua alienação. Há, inclusive, uma crítica aos sindicatos da época, que não prestavam atenção nas crianças e adolescentes. Como ressalta Martins, o trabalho e sua disciplina eram vistos como algo benéfico pelos pais operários. O capítulo catorze, “A saída do labirinto”, é um relato sobre a chegada do autor à vida adulta, a saída da fábrica e o início no curso de Formação de Professores Primários do Instituto de Educação Dr. Américo Brasiliense, de onde saiu formado para ingressar no curso de Ciências Sociais da USP.

Escrever sua própria biografia, baseada nas memórias de um homem comum, que vivenciou a pobreza e as dificuldades que dela derivam, possibilitou ao sociólogo José de Souza Martins compartilhar uma história real, repleta de incertezas e angústias que lhe são próprias, assim como as alternativas encontradas para superar as inúmeras adversidades. Na conclusão do seu livro, após tantas lembranças significativas e comoventes, o autor insiste na necessidade de voltarmos a atenção para o operário de carne e osso, aquele que vai até a fábrica porque precisa e que nela entra como objeto e não como sujeito, com ele foi um dia. Além da consciência da exploração, esse trabalhador precisa se libertar de seu passado e encontrar caminhos para promover as mudanças. Um deles seria o encontro com a grande cultura, aquela que emancipa e provoca superações.

*Historiadora, mestre em História Social pela Universidade de São Paulo e agente cultural na Secretaria de Cultura de Santos. É autora do livro Casas Importadoras de Santos e seus Agentes, publicado pela Ateliê Editorial, em 2015.

Conheça o livro “Moleque de Fábrica – Uma Arqueologia da Memória Social”

 

Férias: tempo de descansar e reenergizar

Por Renata de Albuquerque*

“Enfim, férias!”. Para qualquer pessoa, de qualquer idade, a palavra “férias” traz consigo uma sensação de felicidade e tranquilidade. É a chance de escapar das pressões do cotidiano, de ter tempo para fazer apenas o que se quer, de dedicar-se exclusivamente àquilo que mais se gosta, sem ter obrigações a cumprir: viajar, relaxar, colocar as leituras em dia e recarregar as energias gastas.

E as férias não são bem-vindas à toa. Vivemos uma rotina com a sensação de que temos cada vez menos tempo disponível, mais tarefas a executar, mais trânsito. O estresse diário afeta a saúde física e mental e, segundo pesquisas, é uma doença que já atinge cerca de 90% da população mundial. Por isso, a pausa das férias não é apenas merecida, mas necessária.

Para quem gosta de ler (e se você está lendo esse blog, provavelmente este é seu caso!), uma parte das férias é sempre dedicada aos livros que compramos mas não tivemos tempo de ler, àqueles lançamentos que colocamos em uma lista de desejos, às releituras dos livros mais amados.

E, se você precisa de uma razão extra para se motivar a ler, aqui vai ela: um estudo recente comprova que a leitura é a melhor forma de reduzir o estresse. Apenas seis minutos de leitura diária são capazes de reduzir o estresse em até 68%, com diminuição da frequência cardíaca e da tensão muscular. Os resultados da leitura foram mais eficazes contra o estresse que ouvir música (61%), caminhar (42%) e jogar videogame (21%). “É mais que uma mera distração; é um engajamento ativo da imaginação, pois as palavras impressas no papel estimulam a criatividade e fazem você entrar, essencialmente,  em um estado alterado de consciência”, destaca a pesquisa.

Para dar uma forcinha extra para que você relaxe nas férias, a Ateliê está com uma promoção de 30% de desconto em todo o site. Confira alguns títulos:

 

Epigramas – Se hoje em dia o Twitter desafia o internauta a escrever em poucos caracteres, Marco Valério Marcial, ainda na Roma Antiga, já produzia uma poesia curta, objetiva carregada de ironia. A tradução é de Rodrigo Garcia Lopes.

 

 

A Capa do Livro Brasileiro – O bibliófilo Ubiratan Machado reuniu mais de 1700 capas coloridas reunidas em uma só obra que analisa os 130 anos de História, desde a primeira capa que data de 1820. 

 

 

 

Os Sertões – Organizada por Leopoldo M. Bernucci, a 5ª edição revista e ampliada traz  notas explicativas sobre a obra e seu contexto histórico. O prefácio serve de introdução para os leitores apreciarem a diferentes linguagens que se entrecruzam em Os Sertões.

 

 

O Hóspede – Livro de contos de Mário Higa, que tem a figura paterna como tema central. “O nascimento de uma voz própria, avançada, reveladora, no frequentemente repetitivo, tímido e desanimador cenário da literatura contemporânea”, aponta Rinaldo Gama.

 

 

Gramática Integral da Língua Portuguesa – Nesta gramática, Antônio Suárez Abreu  procura mostrar para que serve tudo aquilo que se estuda numa gramática. Por isso, ela é prática, funcional e útil tanto aos estudiosos da língua como a quem apenas tem dúvidas pontuais, já que traz exemplos simples.

 

Electra(s) – Trajano Vieira, um dos mais importantes pesquisadores brasileiros, traduz em um só volume a Electra de Eurípedes e a de Sófocles, permitindo uma comparação estilística quanto às diferenças e semelhanças de ambas.

 

 

Conheça todas as promoções  (válidas por tempo limitado)

*Jornalista, Mestre em Literatura Brasileira pela FFLCH/USP, autora da Dissertação Senhoras de Si: o Querer e o Poder de Personagens Femininas nos Primeiros Contos de Machado de Assis.

“Moby Dick”, o romance infinito

Maria Schtine Viana*

Na obra Por quê ler os clássicos?,  Italo Calvino faz a seguinte afirmação: “Um clássico é um livro que nunca termina de dizer aquilo que tinha para dizer”. Isso significa que o clássico é uma obra aberta, em que os sentidos podem ser revistos a cada nova geração de leitor, de acordo com os valores do tempo em que está sendo lida. Mas essa inesgotabilidade de sentidos também pode ser associada ao fato de que a cada nova leitura que fazemos de um clássico termos a sensação que estar lendo uma obra nova.

Recentemente reli Moby Dick, pois daria um ciclo de palestras em que trataria justamente da importância de ler os clássicos, e pude comprovar essa máxima de Calvino  mais uma vez. Passagens que não haviam chamado minha atenção em leituras realizadas anteriormente ganharam importância e, ao reler trechos que havia assinalado nas leituras feitas anos atrás, perguntava-me o motivo de aquele trecho ter sido tão importante outrora.

Com isso quero dizer que foi com a emoção de uma baleeira de primeira viagem que embarquei novamente com Ishmael a bordo do Pequod por algumas noites seguidas, relendo avidamente as aventuras do capitão Ahab em busca de Moby Dick. Mesmo conhecendo o desfecho trágico do romance. Na verdade, estava ansiosa por ler novamente os três dias de caçada que ocorrem nos capítulos finais, quando, em meio aos embates dos arpoadores sob o comando de Ahab, vence, majestosamente, a potência da natureza. Talvez goste dessa obra justamente por saber que as últimas palavras do obstinado capitão, ao lançar o arpão que selaria sua morte, são apenas a confirmação de que, se a única certeza que temos é a de que somos mortais, é preciso lembrar sempre que os embates enfrentados no decorrer da vida devem ser realmente significativos. Ainda que para outrem eles pareçam desprovidos de sentido, cada ser humano é singular e deve ter liberdade para escolher o leviatã com o qual quer lutar.

Cabe lembrar que muito do realismo presente em Moby Dick se deva ao fato de o autor dessa obra monumental, o norte-americano Herman Melville, ainda muito jovem ter embarcado como grumete em um navio em direção a Liverpool, na Inglaterra. Essa viagem permitiu que Melville descobrisse duas paixões que o acompanhariam pelo resto da vida: o mar e a escrita literária. Seu livro Redburn (1849) foi baseado nessa primeira experiência de viagem. Nele, o escritor denuncia a exaustão da vida a bordo. Três anos mais tarde, depois de inúmeras tentativas de sobreviver como escriturário e professor, embarca em janeiro de 1841 em um navio baleeiro, o Acushnet, que o levaria aos mares do Sul. Essa viagem, com duração de aproximadamente 18 meses, lhe forneceu os elementos necessários para escrever Moby Dick, dez anos depois.

Cansado da pesca de baleias, desembarca do Acushnet na ilha Nuku-Hiva, na companhia de um camarada, que o abandona dias depois. Convive com os moradores locais por algum tempo, até ser resgatado pela tripulação do Lucy Ann, um barco australiano.

O escritor Herman Melville

Os primeiros livros de Melville, Typee: A peep at Polynesian life (Uma espiadela na vida da Polinésia, 1846) e Mardi (1849), foram inspirados nessas viagens. No primeiro, relata sua convivência com os nativos das ilhas Marquesas; no segundo, descreve sua vida a bordo do Lucy Ann. Uma das experiências relatadas em Mardi é o motim organizado pelos tripulantes, que reivindicavam o pagamento em atraso e melhores condições de vida a bordo, do qual Melville participou e que resultou em sua prisão no Taiti. Consegue fugir da prisão e chega a trabalhar como agricultor nessa ilha antes de retornar para Boston, três anos depois, como marinheiro, a bordo da fragata United States. Essas últimas aventuras foram relatadas no livro Omoo (1847).

Todavia, Melville escreveu sua obra-prima, Moby Dick, não no calor das viagens, mas alguns anos depois, em 1851. Diferentemente dos livros anteriores, nessa obra o que impera não é o espírito aventureiro e a prosa de fácil entendimento. Por trás da aparente caça à baleia branca, descortina-se um mundo simbólico, metafísico e denso, que não caiu no gosto popular. As vendas não atingiram o patamar esperado.

O escritor faleceu em Nova Iorque em 1891, aos 72 anos, e o mundo ainda demoraria pelo menos mais trinta anos para reconhecer sua genialidade literária. Isso porque, com o advento da Primeira Guerra Mundial, sua obra passou a ser vista como uma reflexão possível acerca do sombrio destino da humanidade. A luta constante entre o bem e o mal, tão presentes em Moby Dick, e a busca pela perfeição do caráter humano fizeram com que filósofos e escritores da segunda metade do século XX passassem a vê-lo como uma espécie de precursor do existencialismo.

O crítico inglês D. H. Lawrence, em particular, em ensaio de 1923, faz uma interessante analogia entre a obra e o desejo de domínio por parte dos norte-americanos. De acordo com ele, no momento em que a obra foi escrita os Estados Unidos lutavam por expandir suas fronteiras. Por isso, o que temos no romance são três raças selvagens, simbolizadas pelos três arpoadores de diferentes origens: Queequep, o ilhéu do Sul; Tashtego, o pele-vermelha da costa; e Daggoo, o negro, servindo sob a bandeira norte-americana, ao comando do capitão de um barco que representaria o mundo civilizado.

À primeira vista, o romance de Melville trata da perseguição obstinada de um capitão em busca do cachalote que lhe destruiu a perna em um embate em alto-mar. No entanto, o próprio narrador deixa claro que os reais motivos do capitão Ahab eram de outra ordem: “Havia poucos motivos para duvidar de que, desde aquele encontro quase fatal, Ahab nutrisse uma violenta sede de vingança contra a baleia, ainda mais terrível porque, em sua morbidez frenética, atribuíra a ela não apenas todos os seus infortúnios físicos, como também seus sofrimentos intelectuais e espirituais.”

Antes da caçada propriamente dita, o narrador Ishmael, único sobrevivente da trágica aventura, apresenta informações minuciosas sobre a região onde se encontra; a maneira como conhece Queequeg, o ilhéu dos mares do Sul, que será um dos principais arpoadores na caça à baleia branca. Detalhes sobre a equipagem do navio e a origem da tripulação; informações históricas sobre a caça à baleia e muitas outras vão preparando o espírito do leitor para a grande batalha que será travada em alto-mar.

Mais de uma centena de páginas antecedem a apresentação do grande capitão Ahab. Além disso, somente alguns capítulos depois de sua aparição é que a tripulação, e também os leitores, saberemos que o baleeiro Pequod foi equipado especialmente para uma perseguição a Moby Dick, e não para uma caçada rotineira a quaisquer espécies de baleia.

Dessa maneira, Melville vai enredando o leitor de tal forma em sua trama narrativa que, como os marinheiros recrutados pelo obstinado Ahab, já não se consegue desembarcar do navio. Passa-se a fazer parte dessa comunidade de baleeiros solitários que percorrem os mares por três anos, em busca desse monstro sagrado, sabendo-se, de antemão, que a essa missão estria fadada ao fracasso.

Mais um exemplo desse processo gradual de construção narrativa, que parte do geral até chegar no específico, pode ser verificado no capítulo intitulado “A brancura da baleia”. Nele o narrador discorre sobre o branco em suas diversas manifestações, passando pela delicadeza da camélia e das pérolas, pela coragem do destemido corcel branco, pela inocência das noivas em suas vestes nupciais – até chegar ao terror que aparições encobertas pela alvura dos fantasmas podem provocar, para sintetizar que, Moby Dick, o cachalote branco representava simbolicamente todas essas manifestações da brancura. Se, por um lado, o branco é apresentado neste capítulo como símbolo de pureza, da inocência e do poder divino; em contrapartida, simboliza também a palidez da morte e o horror das aparições sobrenaturais. É o vazio que tudo esconde.

O narrador Ishmael desenvolve reflexões em torno dos mistérios que o circundam ao entrar em contato com esse vazio, representado por Moby Dick, e empenha-se em entendê-lo por meio de questionamentos que não passam apenas pela razão, mas também pela sua fé, suas emoções e dúvidas. Por outro lado, o capitão Ahab ataca esse vazio e seu desejo é destruí-lo, ainda que assim acabe levando consigo toda tripulação ao encontro da morte.

Quando escreveu Moby Dick, Melville estava longe de saber que sua obra se tornaria um clássico, mas as impressões que Jorge Luis Borges apresenta dessa obra confirmam minhas sensações: esta é uma obra que vale a pena ser lida e (re) lida como um romance infinito. Escreve o escritor argentino: “No inverno de 1851, Melville publicou Moby Dick, o romance infinito que determinou sua glória. Página a página, a narrativa se engrandece até usurpar o tamanho do cosmos: no início, o leitor pode supor que seu tema é a vida miserável dos arpoadores de baleias; depois, que o tema é a loucura do capitão Ahab, ávido por perseguir e destruir a Baleia Branca; depois, que a Baleia e Ahab e a perseguição que fatiga os oceanos do planeta são símbolos e espelhos do Universo.”

 

 

*Atualmente, mora em Portugal e é doutoranda no Departamento de Estudos Estudos Portugueses, da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. É escritora e autora de obras didáticas e livros destinados à formação de professores. Mestre em Culturas e Identidades Brasileiras pelo IEB-USP e Bacharel em Letras pela mesma instituição, escreveu os livros Silêncios no escuro (Ateliê), História e Geografia do Nordeste (FTD), A lenda dos diamantes e outras histórias mineiras (Scipione), Festa no céu (Positivo), Asa da Palavra: literatura oral em verso e prosa (Melhoramentos), Um estudo sobre as obras clássicas de viagens e aventuras, Um estudo sobre as fábulas e os contos de fadas (Eureka), entre outros.

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