Paulinho da Viola: sambista-pensador

Paulinho da Viola e o Elogio do Amor é uma reflexão sobre a lírica amorosa das composições de Paulinho, cujo eixo é a separação dos amantes”, explica Olgária Matos na apresentação do livro de Eliete Eça Negreiros que a Ateliê Editorial acaba de lançar. Ela é cantora e ensaísta, para além do título de Doutora em Filosofia pela Faculdade de Filosofia da USP (FFLCH). A música é realmente um marco em sua vida. São dela discos como Outros Sons de 1982, produzido por Arrigo Barnabé e vencedor do Prêmio APCA na categoria cantora revelação. Depois vieram Ângulos – Tudo está dito (1986), Canção Brasileira- nossa bela alma (1992), com o qual ganhou o prêmio APCA de melhor cantora de música popular e 16 canções de tamanha ingenuidade (1996). Este já é seu segundo livro sobre o grande sambista brasileiro. O primeiro, Ensaiando a canção: Paulinho da Viola e outros escritos (Ateliê editorial), foi lançado em 2012.

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A seguir, Eliete conversa com o Blog da Ateliê sobre seu mais novo livro:

Este não é seu primeiro livro sobre Paulinho da Viola. O que a instiga tanto na obra dele?

Eliete Negreiros: A obra do Paulinho da Viola é fascinante, profundamente bela e brasileira. Não foi uma decisão intelectual. Fui movida primeiro pelo afeto, por gostar muito de suas canções desde que o ouvi pela primeira vez, num radinho portátil, num final de tarde, quando papai me mostrou “Coisas do mundo minha nega” e me disse: -“ Presta atenção, minha filha, este moço é muito bom.” E, como diz o samba do Paulinho, “o meu pai tinha razão”. Em segundo lugar, sua obra tem uma grande amplitude: Paulinho não só faz samba tradicional e moderno, como é um sambista tradicional e moderno ao mesmo tempo. Como ele explicou no filme de Izabel Jaguaribe: o tempo dele é hoje. Então, esta virtude de ser um guardião da memória do samba e de ser um inovador, isto ao mesmo tempo, é coisa rara e de uma riqueza cultural e brasileira incalculável.  Em terceiro lugar, porque vejo a canção como uma forma de conhecimento e auto-conhecimento afetivo-intelectual. Vou me explicar: quando uma pessoa ouve certas canções meditativas do Paulinho da Viola, conhece a alma lírica do compositor ao mesmo tempo em que mergulha na sua própria alma, pois, na verdade,falando de si, ele fala da alma de muitos de nós e é neste ponto que há uma catarse e, ao mesmo tempo, um instante de alumbramento, de conhecimento do outro  (do poeta), de si mesmo (do ouvinte) e do mundo que nos rodeia. Paulinho é um sambista-pensador da alma humana e quando ele fala do seu coração, fala do nosso coração com profundidade, com sabedoria.

Agora, tudo isto que estou explicando, eu descobri no processo de reflexão sobre a obra do Paulinho da Viola. Não foi uma premissa para a escolha. A escolha deu-se porque eu adoro suas canções, porque elas me comovem e porque o acho um dos maiores compositores brasileiros.  A escolha foi pelo viés do afeto, da beleza e do estado de deleite que suas músicas desencadeiam nos ouvintes. Seus sambas são de uma perfeição rara. Depois, refletindo, só fui descobrindo ainda mais motivos para esta escolha.

 

Por que retratar o amor por meio da canção brasileira?

EN: Este trabalho nasceu de minha tese de doutorado. Depois, reescrevi alguma coisa, enfim, sempre gostei de pensar, tentar compreender o mundo, sempre senti muita afinidade com as canções reflexivas do Paulinho da Viola.  Algumas de suas canções foram para mim iluminadoras. Acho que a canção é uma forma de conhecimento e de auto-conhecimento, como já disse, uma “gaia ciência”,  no dizer de  José Miguel Wisnik. E, para o ser humano, o amor é uma das coisas fundamentais da existência, algo que a gente sempre está buscando, experimentando, refletindo, tentando entender o que é, como é, onde está,quais suas diversas formas de manifestação.

Eliete Negreiros, fotografada por Mallu Magalhães

Eliete Negreiros, fotografada por Mallu Magalhães

De que forma este novo livro se diferencia do anterior, Ensaiando a canção: Paulinho da Viola e Outros Escritos?

EN: No livro anterior eu me detive mais no tecido das canções, na relação entre melodia e letra – claro que sempre em busca de um sentido – mas trabalhei mais a estrutura de algumas canções. Neste, a abordagem é temática, isto é: através de uma ampla reescuta – pois conhecia as canções que escolhi – fui buscando ver como o amor é retratado na obra do Paulinho da Viola. Digamos que neste livro há um viés mais reflexivo, mais filosófico, mais abrangente.

 

Qual foi o critério para a escolha das canções analisadas?

EN: Então, fui escutando, buscando ver as faces do amor reveladas nas canções. Foi através da escuta e do que encontrei nelas que selecionei as canções.

É possível fazer uma leitura psicanalítica da obra de Paulinho da Viola? Sobre quais conceitos teóricos está construída sua análise sobre a obra dele?

EN: Eu acho que sim, que é possível. Mas acho também que partir de uma teoria para abordar uma obra acaba reduzindo seu potencial expressivo, determinando o modo de interpretar uma obra e desconsiderando certos aspectos. Empobrece a fruição da arte. Prefiro, então, uma abordagem mais livre, ir ouvindo, ver o que a canção sugere,  diz e, a partir daí, fazer as relações com a teoria com a qual o que está sendo dito e a forma com que isto está sendo dito tenha alguma afinidade. Claro que nenhuma escuta é neutra, temos nossa forma de interpretar, mas acho que quanto mais livre, melhor.  No fundo, este livro contém muito do que já li, estudei e pensei e que veio à tona quando da escuta da música de Paulinho da Viola. Daí, ao escrever o livro, as questões foram sendo aprofundadas. Mas é importante dizer que eu não parti de um conceito, mas da escuta das canções, da experiência estética.

O livro é dividido em partes: amor breve, amor feliz e amor e melancolia. Do que trata cada parte?

EN: No amor breve, trato do amor que não resiste à ação do tempo, o amor fugaz. Este tema filia-se à tradição do pensamento ocidental que desde os gregos reflete sobre a fragilidade da condição humana e a brevidade da vida, como no topos estóico, principalmente em Sêneca, que escreve em suas Cartas Consolatórias: “Esta é a lei: nada é eterno, poucas são as coisas duradouras; cada coisa é frágil a seu modo, o fim das coisas é diferente, mas tudo que começa tem um fim.” Filia-se também à filosofia de Montaigne, que em seus Ensaios reflete sobre nossa inconstância interior: “Se minha alma pudesse fixar-se, eu não seria hesitante; falaria claramente, como um homem seguro de si. Mas ela não para e se agita sempre à procura do caminho certo.” Há diversos sambas de Paulinho que tratam desta modalidade do amor, entre eles “Pressentimento”, “Coração Leviano”, “A dança da solidão”.

Estátua de Platão

Estátua de Platão

No amor feliz, trato da busca da felicidade enquanto plenitude associada ao encontro entre amado e amante. Amor luminoso. “Eudaimonia” é o termo grego usado para designar felicidade. Se perguntarmos o que todos os homens almejam, buscam, podemos afirmar ainda hoje, o mesmo que disse Aristóteles na antiguidade: os homens buscam a felicidade. Nisto todos são iguais. Agora, saber o que é felicidade é que é a grande questão. E é aí que as respostas são diferentes.  Uma das formas da felicidade é o sentimento de plenitude que advém do encontro da “cara metade”. Este tema já está presente em “O Banquete” de Platão, no mito do andrógino. Segundo este mito, foi para enfraquecer os homens, plenos, que começaram a desafiar os deuses, que Zeus cortou-os ao meio. A partir de então, estes seres mutilados buscam sua outra metade para recuperar sua unidade perdida. Assim, a felicidade amorosa é causada pela união de dois seres que na verdade são um. “Bela manhã” é um samba do Paulinho que trata do amor feliz, da felicidade sentida pelo amante ao ver sua amada dormindo. É, nas palavras de Octavio Paz, a “consagração do instante”, do instante mágico e feliz de contemplação do ser amado. Alumbramento e plenitude.

No amor melancólico, trato do amor que não consegue se realizar e que fica preso a um mundo de ruínas e perdas, preso na lembrança do que já foi e não é mais. “Nada de novo/ capaz de despertar minha alegria”, canta o poeta. A melancolia é nuclear na lírica de Paulinho da Viola. Para refletir esta intrigante dimensão da alma humana, busquei compreender como o amor  e a melancolia se entrelaçam nas canções de Paulinho da Viola, partindo dos ensinamentos de Freud em seu antológico escrito “Luto e melancolia” e de pensadores que se debruçaram sobre este tema, como Aristóteles, Montaigne, Walter Benjamin, entre outros. Vários sambas de Paulinho da Viola representam o amor melancólico, entre eles “Nada de novo”, “Flor esquecida”, “Estou marcado”

A última parte do livro, “Educação Sentimental”, evoca Flaubert. De que maneira é possível relacionar a obra do autor francês à do compositor brasileiro?

EN: Foi mesmo uma evocação, sem nenhuma intenção de relacionar o trabalho destes dois grandes artistas, o sambista brasileiro e o romancista francês. Usei esta evocação por achar uma expressão feliz para sintetizar o ensinamento que a escuta das canções nos propicia, para falar como através das canções encontramos uma filosofia que nos orienta sobre os movimentos dos sentimentos. Ou, como diz Olgária Matos, uma “filosofia moral”, que nos ajuda a compreender e a nos orientar em meio ao tumulto e à instabilidade da vida e das paixões. Por isso falo em “educação sentimental”, pois o tema central é o conhecimento do amor  que resulta da escuta das canções entrelaçada à filosofia.

 

Em tempos de grande intolerância, um livro sobre o amor pode nos libertar? O que você pode falar sobre isso? Quais as relações possíveis?

EN: Não acho que um livro sobre o amor pode nos libertar nestes tempos sombrios, mas acho que pode nos ajudar no processo de libertação, ser um amigo querido, um companheiro de reflexão, pode nos ajudar a trilhar nosso caminho.  E é um convite para ouvir a obra de Paulinho da Viola que, com certeza, ilumina nossas mentes e corações e torna nossa vida melhor e mais bela.

 

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