Livro Os Arquétipos Literários ganha reedição

Edição com tradução inédita, que estava esgotada, mostra como Eleazar Meletínski modifica e amplia a teoria junguiana sobre os arquétipos, para aplicá-la aos estudos literários

Por: Renata de Albuquerque

Os livros escritos por Eleazar Meletínski situam-no como um dos nomes mais importantes das Ciências Humanas na Rússia. Em Os Arquétipos Literários, ele dá continuidade à pesquisa sobre mito e literatura, analisando como mitos e arquétipos são abordados nessa arte. Em sua pesquisa, Meletínski amplia as fronteiras da teoria junguiana sobre os arquétipos. De acordo com o autor russo, as relações individuais/coletivas começam a manifestar-se apenas no “estádio” do romance cortês e medieval (e não desde o “estádio” do mito). Segundo ele, a função do mito seria harmonizar as relações do homem com a sociedade e o mundo, para além de harmonizar a consciência individual com a subconsciência coletiva.

O livro, que hArquetiposavia sido publicado em 1998 pela Ateliê Editorial, em tradução inédita feita por Arlete Cavaliere, Aurora F. Bernardini e Homero Freitas de Andrade, estava esgotado nas prateleiras. Agora que a obra ganha reedição, o Blog da Ateliê conversou com Arlete Cavaliere a respeito. Ela é ensaísta, tradutora e professora de teatro, arte e cultura russa e professora titular da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, onde se graduou em língua e literatura russa e defendeu seu mestrado, doutorado e livre-docência. Realizou estágio de pós-doutorado durante o ano de 1992 na Universidade Nova de Lisboa, onde também lecionou. Foi professora leitora na Universidade Estatal Lomonóssov de Moscou entre 2002 e 2003. Coordena o Curso de Língua e Literatura Russa do Departamento de Letras Orientais e o LERUSS-Laboratório de Estudos Russos-FFLCH/USP. É autora e organizadora de vários livros, como O inspetor geral de Gógol-Meyerhold: um espetáculo síntese (Perspectiva, 1996); Tipologia do simbolismo nas culturas russa e ocidental (org., Humanitas, 2005); e Teatro russo: literatura e espetáculo (org., Ateliê Editorial, 2011). De sua atividade como tradutora, destaca-se a cotradução de Ivánov, de A. P. Tchékhov (Edusp, 1998) que foi indicada ao Jabuti.

Em sua opinião, qual a importância em discutir os mitos a partir de uma visão semiótica na literatura, como é a abordagem de Meletínski? A psicanálise é uma chave eficiente para a análise de obras literárias em quaisquer circunstâncias?

Arlete Cavaliere: O etnólogo russo Eleazar Meletínski propõe um caminho teórico de extremo interesse para se pensar e analisar a obra literária dentro de uma perspectiva ligada à poética histórica, à mitologia comparada e à tradição do folclore narrativo e épico-heróico. Em um primeiro momento a estratégia analítica de Meletínski é inventariar os mais importantes grupos arquetípicos que constituem a estruturação básica e os motivos que permeiam a narrativa, seguindo um percurso a partir do estudo do mito, passando para o conto maravilhoso, depois para o epos, para o romance de cavalaria e, finalmente, para o romance de costumes. Conforme Meletínski explicita em seu livro Os Arquétipos Literários, o seu objetivo não é a descrição mitológica enquanto tal, mas a resenha daqueles “tijolos” de enredo que constituíram o arsenal básico da narrativa tradicional.

De que maneira a questão dos arquétipos literários está presente na literatura brasileira? Muitas pessoas conseguem perceber esta questão em obras como Grande Sertão: Veredas, Macunaíma e outras. Mas é possível aplicar esse tipo de leitura a obras de autores mais contemporâneos? Como?

A.C.: Se a proposta essencial de Meletínski é apresentar um desenvolvimento orgânico e dinâmico de diversos motivos arquetípicos de modo a alcançar também, por meio desse viés analítico, as transformações dos arquétipos na literatura moderna, me parece perfeitamente possível analisar esse processo da passagem do mito à literatura, tomando como objeto de estudo diferentes textos literários, modernos ou contemporâneos. Refletir e captar o movimento dessa espécie de “desmitologização” e de afastamento gradual dos temas mitológicos tradicionais em literaturas de outros países e de diferentes épocas pode ser um procedimento de análise muito profícuo.

Em sua opinião, há alguma forma renovada, diferente ou inovadora do uso de arquétipos literários que possa ser dada como exemplo, nacional ou mundialmente?

A.C.:Certamente o diálogo que as teorias de Meletínski estabelecem com as investigações do estruturalismo francês, da semiótica e da psicologia junguiana abre perspectivas infinitas, sempre novas e inusitadas, para a análise do pensamento mítico, sua estruturação e trajetória no âmbito da história literária. Um bom exemplo é o livro A Estrutura do Conto de Magia – Ensaios sobre mito e conto de magia, recentemente lançado pela Editora da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e organizado por Aurora Fornoni Bernardini e S. Nekliúdov, que apresenta vários ensaios instigantes de autoria de diferentes pesquisadores russos do grupo de Meletínski, traduzidos para essa coletânea diretamente do russo, e que vem demonstrar o quanto esse campo de estudos está longe de se esgotar.

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