Monthly Archives: agosto 2015

Leila Guenther fala do processo criativo de Viagem a um Deserto Interior

Livro de poemas e haicais, que acaba de ser lançado pela Ateliê Editorial, trata de temas como solidão, fuga e libertação. Confira abaixo entrevista com a autora

Leila2Quais as suas motivações para escrever poesia e não prosa, por exemplo? E quais as motivações para escrever Viagem a um Deserto Interior?

Leila Guenther: Comecei escrevendo prosa. Contos, mais especificamente. Publiquei O Voo Noturno das Galinhas pela Ateliê Editorial, que acaba de ser lançado em uma edição portuguesa. E participei de antologias de contos. Depois houve a necessidade de experimentar outras formas, mas também a percepção de que os contos que escrevia, os mais breves, pelo menos, estavam próximos da poesia. Na verdade, mais próximos da poesia que da prosa. Isso me permitiu me aventurar pelo gênero. E, quando surgiram os esboços de Viagem a um Deserto Interior, me dei conta de que não havia outra forma para aqueles textos que não fosse a poética. As motivações para escrever – qualquer coisa – são sempre de ordem íntima. Escrevo porque é um jeito de estar por inteiro no momento presente.

O que você leu que serviu de inspiração para se tornar uma poeta?

L.G: Não me vejo como “poeta”. Não me vejo sequer como escritora. Nem todo mundo que cuida de doente é enfermeiro. Sou, antes, uma leitora. Uma amadora, no bom e no mau sentido. E, como gosto de observar e de aprender, tudo me serve de inspiração.

Como sua atividade acadêmica influencia a sua produção literária?

L.G: Não tenho atividade acadêmica, propriamente dita, mas como trabalho no mercado editorial, principalmente com material didático, acabo tendo a oportunidade de ler muita coisa que não leria, não fosse por isso. E, claro, essas leituras me influenciam, me fazem pensar, aguçam minha curiosidade.

Você prefere não usar formas fixas, como soneto?

L.G: Não se trata de preferência. Nunca pensei a respeito. Mas no livro há muitos haicais e, embora eu não tenha preocupação com o número fixo de sílabas – cinco/sete/cinco, eles não fogem muito disso.

Imagem2Viagem a um Deserto Interior foi desenvolvido a partir de um material que você já tinha ou você decidiu escrever o livro e então passou a produzir os poemas? Quanto tempo você demorou para reuni-los/escrevê-los?

L.G: Eu tinha escrito alguns textos e, como no caso de O Voo Noturno das Galinhas e do livro de contos que acabo de terminar, percebi que eles se articulavam, que as temáticas se relacionavam para compor um todo. Concluí o livro muito mais rapidamente do que esperava. Dois anos, mais ou menos, o que, para mim, é um recorde. A execução de Viagem a um Deserto Interior coincidiu com uma fase de transformação profunda por que estava passando, que me fez sentir muito mais livre para escrever. Foi uma mudança tão grande que já tenho praticamente pronto mais um livro de poemas.

O que você pode nos dizer sobre a escolha dos temas da obra?

L.G: Viagem a um Deserto Interior é um livro de poemas e haicais dividido em cinco partes: Paisagens de Dentro, O Deserto Alheio, Castelo de Areia, Um Jardim de Pedra e A Possibilidade do Oásis. Tais partes relacionam, respectivamente, drama interior e solidão; o Outro, lugares estranhos/estrangeiros e o desejo de fuga para regiões distantes; observação minuciosa do ambiente doméstico; o ambiente urbano, a natureza e o caminho do zen-budismo; e, com alguma ironia, a lembrança do amor e o desejo de libertação.

Qual é, para você, a importância das ilustrações de Paulo Sayeg na obra?

L.G: Faz mais de quinze anos que me identifico com o trabalho dele. Seus traços são magníficos e se combinaram aos textos, enriquecendo-os. Foi a realização de um sonho.

Viagem a um Deserto Interior foi selecionado no Programa Petrobras Cultural 2012, correto?

L.G: Sim. Foram 1452 inscritos em Produção Literária e Viagem a um Deserto Interior ficou entre os 17 contemplados.

Décio, plural

Na data em que faria 88 anos, Décio Pignatari ganha exposição em sua homenagem

Por Renata de Albuquerque

Decio Pignatari crédito Vilma SlompSe estivesse vivo, Décio Pignatari faria hoje 88 anos. Nascido em Jundiaí, interior paulista, Pignatari tornou-se um dos mais importantes intelectuais de sua época. Ao lado dos irmãos Augusto e Haroldo de Campos, lançou as bases da Poesia Concreta, que mudou profundamente a literatura brasileira e ecoou por todo o mundo.

Pignatari, a um só tempo, criou a Teoria da Poesia Concreta e a colocou em prática, com seus poemas, romances, contos, crônicas e até peças de teatro. Foi ensaísta, tradutor, escritor, bacharel em direito, publicitário, ator (atuou em Sábado, de Ugo Giorgetti) e professor. Um multiartista, intelectual que atuava nos mais diversos meios.

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Poema “Beba Coca-Cola”: crítica à perda da identidade cultural

Morto em 2012, Pignatari torna-se, agora, tema da exposição “Arquivo Décio Pignatari: Um Lance de Dados”, que acontece no Centro Cultural São Paulo, de hoje até 25 de outubro. A exposição busca contextualizar a obra poética e teórica de Décio Pignatari, por meio de debates, palestras e da exibição de livros, datiloscritos, áudios, partituras e correspondências, entre outros. A mostra tem um arranjo constelar e é composta de núcleos por onde orbitam dados das diferentes frentes de Décio Pignatari. A poesia concreta, como não poderia deixar de ser, tem lugar de destaque. Os itens ficam dispostos em estantes, que não apenas mimetizam uma biblioteca, mas também convidam o visitante à interação.

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“Organismo”: o ato sexual em poema

O nome da exposição alude a Un Coup de Dês, poema de Stéphane Mallarmé, que se tornou base fundamental da formulação poética da Teoria Concreta. O poeta francês é o assunto de um dos núcleos da exposição. Outro é dedicado a Ezra Pound, cuja obra Pignatari traduziu e cujo experimentalismo foi-lhe inspirador. O terceiro núcleo, por sua vez, tematiza Oswald de Andrade, pilar “marginalizado” do Modernismo Brasileiro, cuja importância Pignatari ajudou a revitalizar.

O quarto núcleo da exposição é dedicado ao próprio Pignatari, com a exposição de peças de seu espólio, que está sendo catalogado e digitalizado. São raridades, como exemplares das revistas Noigandres, Invenção e Código. Ao todo, catorze estantes reúnem poemas, fotos, publicações e edições especiais, além de uma mesa com livros para leitura e manuseio. Tudo para entrar no universo de Pignatari e perceber que ele é imenso e plural.

Serviço
Arquivo Décio Pignatari: Um Lance de Dados
De 20 de agosto a 25 de outubro de 2015
Centro Cultural São Paulo: Rua Vergueiro, 1000 (Sala Tarsila do Amaral)
De terça a sexta: das 10h às 20h
Sábados, domingos e feriados: das 10h às 18h
Informações: (11) 3397-4002

Abertura da exposição – 20 de agosto, 19h

Debate – 27 de agosto, às 19h
Signatari: do verbal ao não verbal
Augusto de Campos, Tadeu Jungle, Walter Silveira e Dante Pignatari como mediador
Local: Sala Lima Barreto

Palestra – 28 de agosto, às 19h
Décio Pignatari e o Memorial da Cultura – IDART
Claudio Ferlauto
Local: Sala de Debates – Piso Caio Graco

Conheça outras obras de Décio Pignatari

Raduan Nassar e os 40 anos de Lavoura Arcaica

*Por Renato Tardivo

TardivoA mesa com o cineasta e diretor de tevê Luiz Fernando Carvalho e o escritor Lourenço Mutarelli estava atrasada. O anfiteatro da Livraria da Vila, na Vila Madalena, em São Paulo, estava lotado. Marcelino Freire, organizador da Balada Literária, evento que naquele ano de 2012 homenageava o escritor Raduan Nassar, estava apreensivo. “O Luiz está atrasado, porque foi almoçar com um amigo aqui de São Paulo – vocês imaginam quem é o amigo…”, sugeriu Marcelino, dando a entender que seria o próprio Raduan. Como se sabe, o autor de Lavoura Arcaica, Um Copo de Cólera e Menina a Caminho e outros contos se mantém reservado desde que abandonou a literatura para dedicar-se exclusivamente à produção rural. Era esperado, portanto, que não estivesse nos seus planos dar as caras na Balada Literária, ainda que – ou sobretudo – na condição de autor homenageado. Mas qual não foi a surpresa de todos quando Luiz Fernando Carvalho chegou na livraria na companhia de Raduan Nassar? Atônito, o público ficou em pé. Eu jamais me esquecerei do que se seguiu. Raduan trocou o semblante estrangeiro de quem não pertencia àquela parafernália toda ao me ver na primeira fila e, com certa familiaridade, sussurrar: “Oi, Tardivo”.

Porvir que vem antes de tudoTenho muita admiração por Raduan Nassar. Seu romance Lavoura Arcaica, um dos livros mais importantes da literatura brasileira, me acompanhou (sempre me acompanhará) durante o meu mestrado, quando analisei a correspondência do livro com o filme homônimo (dirigido por Luiz Fernando Carvalho). O trabalho foi publicado pela Ateliê – Porvir que Vem Antes de Tudo Literatura e Cinema em Lavoura Arcaica. O romance, lançado em 1975, completa 40 anos agora em 2015. A Revista Cult lembrou-se da data e me convidou a escrever sobre o romance na edição de fevereiro. Por sinal, sempre que tive oportunidade ao longo deste ano, como agora, faço questão de festejar os 40 anos de Lavoura Arcaica.

Na condição de pesquisador, jamais esbocei qualquer tentativa de me encontrar com Raduan. Sempre soube de sua postura reservada e optei por respeitá-la de antemão, procurando me abrir exclusivamente para o que a obra me comunicasse. Posso dizer que funcionou. No momento certo, com o trabalho já publicado, tive a felicidade de conhecê-lo. O encontro a que me refiro no parágrafo inicial deste texto foi o segundo, ocasião em que pudemos papear mais um pouco. Raduan Nassar escreveu (apenas?) 3 livros, sua “safrinha” como ele já disse, e vêm dessa safrinha as linhas mais preciosas que a literatura brasileira produziu. Pelo o que expus até aqui, reconheço que sou suspeito, mas basta consultar nossos antologistas ou críticos para confirmar que Raduan Nassar é um dos nossos autores mais relevantes – no patamar em que se encontram Machado, Rosa, Álvares, Drummond, Bandeira, Graciliano, Clarice…

Meu espaço para este texto está perto de acabar e noto que pouco ou nada falei sobre Lavoura Arcaica. Talvez porque, com o passar do tempo, eu tenha me permitido revisitar os afetos envolvidos em meus encontros, desencontros e reencontros com a história (tarefa, diga-se, encampada por André, narrador-protagonista do romance). É nessa condição que me recordo de uma das poucas perguntas na Balada Literária que fez Raduan levantar a cabeça (quase sempre baixa) e dizer alguma coisa. Perguntaram a ele se sua entrega à literatura teria valido a pena. Após alguns segundos com o olhar fora de foco, Raduan virou-se para o interlocutor e, com alguma resignação, sussurrou: “Não sei”.

Conheça mais sobre Lavoura Arcaica

Renato Tardivo é escritor, psicanalista, professor universitário e doutor em Psicologia Social pela USP. Publicou os livros de contos Do Avesso (Com-Arte/USP) e Silente (7Letras), e o ensaio de Porvir que Vem Antes de Tudo – Literatura e Cinema em Lavoura Arcaica (Ateliê).

Livro Os Arquétipos Literários ganha reedição

Edição com tradução inédita, que estava esgotada, mostra como Eleazar Meletínski modifica e amplia a teoria junguiana sobre os arquétipos, para aplicá-la aos estudos literários

Por: Renata de Albuquerque

Os livros escritos por Eleazar Meletínski situam-no como um dos nomes mais importantes das Ciências Humanas na Rússia. Em Os Arquétipos Literários, ele dá continuidade à pesquisa sobre mito e literatura, analisando como mitos e arquétipos são abordados nessa arte. Em sua pesquisa, Meletínski amplia as fronteiras da teoria junguiana sobre os arquétipos. De acordo com o autor russo, as relações individuais/coletivas começam a manifestar-se apenas no “estádio” do romance cortês e medieval (e não desde o “estádio” do mito). Segundo ele, a função do mito seria harmonizar as relações do homem com a sociedade e o mundo, para além de harmonizar a consciência individual com a subconsciência coletiva.

O livro, que hArquetiposavia sido publicado em 1998 pela Ateliê Editorial, em tradução inédita feita por Arlete Cavaliere, Aurora F. Bernardini e Homero Freitas de Andrade, estava esgotado nas prateleiras. Agora que a obra ganha reedição, o Blog da Ateliê conversou com Arlete Cavaliere a respeito. Ela é ensaísta, tradutora e professora de teatro, arte e cultura russa e professora titular da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, onde se graduou em língua e literatura russa e defendeu seu mestrado, doutorado e livre-docência. Realizou estágio de pós-doutorado durante o ano de 1992 na Universidade Nova de Lisboa, onde também lecionou. Foi professora leitora na Universidade Estatal Lomonóssov de Moscou entre 2002 e 2003. Coordena o Curso de Língua e Literatura Russa do Departamento de Letras Orientais e o LERUSS-Laboratório de Estudos Russos-FFLCH/USP. É autora e organizadora de vários livros, como O inspetor geral de Gógol-Meyerhold: um espetáculo síntese (Perspectiva, 1996); Tipologia do simbolismo nas culturas russa e ocidental (org., Humanitas, 2005); e Teatro russo: literatura e espetáculo (org., Ateliê Editorial, 2011). De sua atividade como tradutora, destaca-se a cotradução de Ivánov, de A. P. Tchékhov (Edusp, 1998) que foi indicada ao Jabuti.

Em sua opinião, qual a importância em discutir os mitos a partir de uma visão semiótica na literatura, como é a abordagem de Meletínski? A psicanálise é uma chave eficiente para a análise de obras literárias em quaisquer circunstâncias?

Arlete Cavaliere: O etnólogo russo Eleazar Meletínski propõe um caminho teórico de extremo interesse para se pensar e analisar a obra literária dentro de uma perspectiva ligada à poética histórica, à mitologia comparada e à tradição do folclore narrativo e épico-heróico. Em um primeiro momento a estratégia analítica de Meletínski é inventariar os mais importantes grupos arquetípicos que constituem a estruturação básica e os motivos que permeiam a narrativa, seguindo um percurso a partir do estudo do mito, passando para o conto maravilhoso, depois para o epos, para o romance de cavalaria e, finalmente, para o romance de costumes. Conforme Meletínski explicita em seu livro Os Arquétipos Literários, o seu objetivo não é a descrição mitológica enquanto tal, mas a resenha daqueles “tijolos” de enredo que constituíram o arsenal básico da narrativa tradicional.

De que maneira a questão dos arquétipos literários está presente na literatura brasileira? Muitas pessoas conseguem perceber esta questão em obras como Grande Sertão: Veredas, Macunaíma e outras. Mas é possível aplicar esse tipo de leitura a obras de autores mais contemporâneos? Como?

A.C.: Se a proposta essencial de Meletínski é apresentar um desenvolvimento orgânico e dinâmico de diversos motivos arquetípicos de modo a alcançar também, por meio desse viés analítico, as transformações dos arquétipos na literatura moderna, me parece perfeitamente possível analisar esse processo da passagem do mito à literatura, tomando como objeto de estudo diferentes textos literários, modernos ou contemporâneos. Refletir e captar o movimento dessa espécie de “desmitologização” e de afastamento gradual dos temas mitológicos tradicionais em literaturas de outros países e de diferentes épocas pode ser um procedimento de análise muito profícuo.

Em sua opinião, há alguma forma renovada, diferente ou inovadora do uso de arquétipos literários que possa ser dada como exemplo, nacional ou mundialmente?

A.C.:Certamente o diálogo que as teorias de Meletínski estabelecem com as investigações do estruturalismo francês, da semiótica e da psicologia junguiana abre perspectivas infinitas, sempre novas e inusitadas, para a análise do pensamento mítico, sua estruturação e trajetória no âmbito da história literária. Um bom exemplo é o livro A Estrutura do Conto de Magia – Ensaios sobre mito e conto de magia, recentemente lançado pela Editora da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e organizado por Aurora Fornoni Bernardini e S. Nekliúdov, que apresenta vários ensaios instigantes de autoria de diferentes pesquisadores russos do grupo de Meletínski, traduzidos para essa coletânea diretamente do russo, e que vem demonstrar o quanto esse campo de estudos está longe de se esgotar.