Contos que Sangram

Renato Tardivo*

angu de sangue bxAngu de Sangue, coletânea de contos de Marcelino Freire, foi publicado pela primeira vez em 2000. No entanto, as dezessete narrativas do livro, que acaba de ser reimpresso, são extremamente atuais.

Não é exagero afirmar, por exemplo, que sua ambiência ficcional antecipa boa parte do (bem-sucedido) cinema pernambucano dos últimos anos, ao abordar, por meio de uma prosa ágil, a violência urbana e seus ruídos, a sexualidade explícita (mas não gratuita), o resgate dos afetos.

Mas é a convergência entre conto, teatro e poesia a maior virtude do livro. Não são poucas as frases que soam como versos exaustivamente lapidados, não obstante não percam o frescor e a oralidade de quem diz o que sente, e, ainda, componham narrativas que capturam o leitor e o derrotam, como queria Cortázar, por nocaute.

Os contos breves de Angu de Sangue são retratos da miséria humana. Sem concessões, Marcelino Freire extrai da abjeção, beleza; do “lixão”, “paraíso”; de “Socorrinho”, a menina abusada sexualmente, o “desmaio de anjo”. No conto “A Cidade Ácida”, por sua vez, morte e poesia aproximam-se vertiginosamente; também com poesia, em “J. C. J.”, adolescente infrator e vítima, no fim das contas, revelam-se dois lados de uma mesma moeda.

Ainda que as narrativas equilibrem-se quanto à (alta) qualidade, a mais brilhante delas é justamente a que dá título ao livro: “Angu de Sangue” é um conto inventivo que trabalha muito bem a dimensão espaço-temporal e os paralelismos entre amor e violência, ruptura e ligação, “como se fosse novidade o fim de um relacionamento, o começo de um outro ainda mais violento”. A (aparente) circularidade do conto aponta, na verdade, para a passagem do tempo em espiral, em que sempre se pode sangrar mais um pouco. Afinal, “a gente não se toca quando o coração está parando”.

A vida tem mesmo dessas incoerências: de súbito, vai morrendo aos poucos, e, quando vamos ver, “mataram o salva-vidas”. Com efeito, os planos fechados das narrativas de Angu de Sangue são emblema de um Brasil diverso e arcaico que historicamente (ainda) se alimenta do próprio sangue. Até quando?

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*Renato Tardivo é escritor, psicanalista, professor universitário e doutor em Psicologia Social pela USP. Publicou os livros de contos Do Avesso (Com-Arte/USP) e Silente (7Letras), e o ensaio de Porvir Que Vem Antes de Tudo – Literatura e Cinema em Lavoura Arcaica (Ateliê).

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