“Décio sempre falou em Nísia”

Em entrevista exclusiva ao Blog da Ateliê, o Professor Francisco Ivan da Silva, que acompanhou Décio Pignatari nas pesquisas sobre a personagem de Viagem Magnética

Por Renata de Albuquerque

Quando faleceu, em 2012, o poeta concretista, semioticista, crítico literário e pesquisador Décio Pignatari deixou uma obra inédita. Viagem Magnética, que a Ateliê Editorial acaba de publicar, é o segundo texto dele como dramaturgo. Na peça, ele conta, em 26 segmentos, sobre a vida e a obra de Nísia Floresta (1810-1885), escritora e educadora potiguar considerada uma pioneira do feminismo no Brasil.

A obra, escrita entre 2004 e 2007, fez com que Décio Pignatari se debruçasse sobre o mundo de Nísia Floresta. Esse mergulho incluiu uma viagem ao Rio Grande do Norte, onde foi recebido pelo Professor Francisco Ivan da Silva, ex-orientando de Décio. A seguir, o Professor Francisco, que ensina Literatura Brasileira há mais de 30 anos na UFRN, conta como foi esse encontro:  

Como conheceu Décio Pignatari?

Francisco Ivan da Silva: Conheci, pessoalmente, Décio Pigantari na PUC de São Paulo, quando lá fazia curso de pós-graduação em Comunicação e Semiótica, em 1978. Ele lá era professor, ao lado de outro Concreto, Haroldo de Campos. Foi um momento epifânico. Ele era meu orientador de Dissertação de Mestrado e iniciou a orientação de minha Tese de Doutorado. Mas antes disso já conhecia sua obra. Chegar à PUC de São Paulo e me deparar com o homem e o poeta que já havia lido foi um grande acontecimento em minha vida. Logo ficamos amigos. Ele me convidou a escrever em uma revista que ele organizava, a De-Signos.

Qual a relação de Décio Pignatari com Nísia Floresta?

FIS: Nas primeiras aulas de Décio que assisti já ele falava em Nísia. Certa vez, ele disse que ela era paraibana e no intervalo da aula, na hora do cafezinho, houve a correção:  “Décio, o senhor disse que Nísia é paraibana, mas ela nasceu no Rio Grande do Norte”. Logo, como conterrâneo de Nísia, ajudei-o a fazer a correção, juntamente com mais um professor da Universidade do Rio Grande do Norte, Manoel Nely da Rocha Vieira. A partir daí sempre estávamos ouvindo Décio falando o nome de Nísia. Décio não tinha pesquisa formal sobre a obra de Nísia, mas era um curioso e grande estudioso da cultura. Décio sempre falou em Nísia. E falava de forma livre, sem amarrações acadêmicas.

Como se deu essa visita dele ao Rio Grande do Norte, no qual o senhor acompanhou-o?

FIS: Em 1980, Décio vem a Natal como conferencista do I Congresso de Semiótica, organizado pela UFRN. Veja: Décio não veio a Natal com o propósito de pesquisar a obra de Nísia. Mas creio que para ele conhecer o chão, a terra de Nísia foi algo inesquecível. Diria, foi um acontecimento na vida do poeta. Visitamos o túmulo de Nisia em Papari, hoje cidade que recebe seu nome. Foi uma visita rápida a esse recanto da cidade onde se ergue um interessante obelisco onde se acham seus restos mortais.

Depois convidei Décio, em 1995, para um ciclo de conferências. Ele veio com sua esposa, Lila. Foram dias muito proveitosos. De novo visitamos o túmulo da escritora. Ele olhava com atenção aquele obelisco, lia as placas, as datas, epitáfio. Emitia opiniões de maneira muito natural. Ele não dizia que estava pesquisando a obra de Nísia. Ele só queria saber mais. Ficou cercado de professores e estudantes que lhe contavam coisas da vida de Nísia e ele ouvia; relia livros sobre a escritora.

Em junho de 2008 ele voltou a Natal para uma conferência sobre Ulisses, de James Joyce. O tema da conferência, sugerido por ele mesmo, foi: Bloomsday/Doomsday, O dia do Juízo Final. Mas ele não pode vir, adoeceu e na última hora tivemos que modificar tudo. Adiamos sua vinda. Ele finalmente veio em 2010 participar de um Colóquio de Estudos Barrocos, evento que ocorre anualmente na UFRN. Deu duas conferências, passou três dias conosco.

 Visitamos mais uma vez o túmulo de Nísia (foto ao lado), fizemos fotografias, ele falou, ele comentou, ele leu placas, tocou com tom solene, quase em ritual, a pedra do obelisco.

Ele nos falou de sua pesquisa em progresso; da obra que escrevia sobre Nísia, sublinhava que era uma trilogia de três mulheres. Ele disse que a parte dedicada a Nísia ainda não estava pronta, mas prometia logo publicar.

O que o senhor destaca nessa obra tão singular, a Viagem Magnética?

FIS: Só Décio Pignatari faria um texto tão atual, tão expressivo, tão aberto ao leitor moderno, tão polêmico. Não se trata de um texto descritivo, biografia historicista, que aponta como nasceu, viveu e morreu. O texto de Décio ilustra desde seu realismo o universo da criação. Estamos na esfera dos signos, e nisto Décio extrapola deixando a autora no universo artístico e teatral da criação.

 

*Francisco Ivan é autor de vários livros de poesia, entre eles Thálassa, A Chave Azul, Variações, Epiphanias e Azul Grego. É autor do livro Augusto dos Anjos dos Deuses e dos Diabos. Recentemente publicou a Antologia hispano-brasileira, uma coletânea da Geração dos poetas de 27, na Espanha. Atualmente é professor de Literatura Comparada no Programa de Pós-Gradução em Estudos da Linguagem da UFRN.

 

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  1 comment for ““Décio sempre falou em Nísia”

  1. Arlene Venâncio
    10/06/2016 at 14:22

    O conheci na Semana de Humanidades de 2010 na época era orientanda de Francisco Ivan e foi um momento ímpar conhecer um dos ícones na nossa literatura e foi um momento único na minha vida e na minha formação. Conheci um Décio que exalava juventude e que nos mostrou um olhar semiótico nunca antes visto. Sua palestra no Deart foi sobre a voz e nesse momento conheci tb um outro professor que me emociou muito o professor Alex Beigui.

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