O Conto

O Conto

Uma, duas, três  palavras. Assim é possível criar uma ação, uma narrativa popular que tenta dizer o real, mas investe na ficção.

Paulo Vasconcelos | Brasileiros

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“(Natal) Minha sogra ficou avó.” — Oswald de Andrade, em Memórias Sentimentais de João Miramar,  1924.

Era uma vez, um homem que…,  O conto é, por excelência em suas raízes, uma narrativa popular, que tenta dizer o real e instaura a ficção. Mesmo os povos ágrafos tinham os seus contos orais.
O gênero é tão antigo quanto a fala e encontramos narrativas de povos indeterminados, até egípcios, gregos e romanos, orientais e africanos, passando assim por lendas, parábolas bíblicas, novelas medievais e fábulas que constituem nosso conhecimento narrativo e nos faz adentrar ao romance, à novela, enfim, a uma diversidade de gêneros literários.
O conto aparece familiarmente entre nossos grupos: família, amigos e igreja… Ele se constitui de uma corrente de fatos, fazendo o encadeamento do enredo instaurando o espaço, o tempo e os personagens.
Com a imprensa, o conto popularizou-se como gênero e ganhou status de narrativa no campo da literatura. Machado de Assis, os irmãos Artur e Aluísio Azevedo e Lima Barreto, entre tantos, que o digam. Sendo uma narrativa breve, o conto chega a seus extremos nos minicontos, em que a quantidade de letras varia desde que o sentido e a estrutura tenham amarras.
Dalton Trevisan, em 1994, por meio de sua obra Ah, É? (Editora Record), traz pequenas histórias que, na verdade, entram no reino dos minicontos: “Só de vê-la – ó doçura do quindim se derretendo sem morder – o arrepio lancinante no céu da boca.”
Marcelino Freire, em seu excelente atrevimento literário, nos aponta essa carpintaria literária, em obras de muitos autores de medonha oficina da palavra. Em 2004 ele publicou Os Cem Menores Contos Brasileiros do Século (Ateliê Editorial, SP), que reúne cem escritores brasileiros em cem minicontos de até 50 letras. Alguns deles:
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Assim
“Ele jurou amor eterno. E me encheu de filhos. E sumiu por aí.” – Luiz Rufatto
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Aeroporto
“Banheiro na chamada do voo. Cálculo renal salta. Ele guarda.” – João Gilberto Noll
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Quem
“Sim, doutor, estou louco. Mas quem é esse que diz estou louco?” – Sérgio Sant’Anna
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Confissão
“- Fui me confessar ao mar.
– O que ele me disse?
– Nada.”
Lygia Fagundes Telles
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Pedofilia
“Ajoelhe, meu filho. E reze.” – Marcelino Freire
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E aí vem o poeta, que me convence que os limites dos gêneros textuais são fronteiras muito tênues:
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Amor
“Maria, quero caber todo em você.” – Manoel de Barros
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E parece nosso saudoso Moacyr Scliar (1937-2011): “Um microconto em 50 letras? Pior. A vida toda em 50 letras.”
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Mas o êxtase vem com as palavras do pernambucano Raimundo Carrero: “Quatro letras nada.”
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Paulo VasconcelosPaulo Vasconcelos é paraibano, mestre e doutor pela ECA-USP, Professor de Teoria Literária na Anhembi Morumbi, professor colaborador da ECA-USP, Fundação Escola de Sociologia e Política-FESP, além de contista e poeta com livros publicados (paulo@brasileiros.com.br).

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