Monthly Archives: julho 2012

Livros que dão Samba

Romance e estudo acadêmico mostram que o mais brasileiro dos ritmos inspira literatura de qualidade e permite interpretações valiosas sobre a cultura nacional

João Paulo | Correio Braziliense

Quando pôs o samba em leilão em “Quem Dá Mais”, o pregoeiro de Noel Rosa defendia que a música exprimia “dois terços do Rio de Janeiro”. Corria o ano de 1930, tempo de profundas transformações políticas e de afirmação de um dos elementos mais fortes da cultura brasileira. O país buscava o rumo da modernização e a música popular surgida na periferia se fincava no coração da cidade e da nascente indústria cultural. Noel (1910 – 1937) sabia das coisas e tinha pouco tempo. Em 26 anos de vida, compôs quase 300 sambas, estabeleceu os marcos da moderna canção popular e saiu de cena.

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Noel Rosa

Soalho de Tábua – Reinações sobre Adélia Prado

Soalho de Tábua, cujo subtítulo é Reinações sobre Adélia Prado, surgiu da ideia de trabalhar com o universo da poeta mineira. O autor partiu de versos da escritora para criar os textos, trazendo à forma narrativa um pouco da poesia do cotidiano construída por Adélia ao longo de sua trajetória literária. O projeto surgiu de um edital do Ministério da Educação que pedia textos para adultos recentemente alfabetizados, entendendo não haver livros para este crescente grupo de pessoas. A tentativa de aproximar a poesia da prosa tinha o duplo objetivo de criar histórias breves e apresentar Adélia Prado aos leitores. A partir de então, novos textos foram escritos, alguns em Portugal, no período em que o autor viveu naquele país, resultando no volume agora lançado.

No livro há a participação do artista plástico Enio Squeff, que ilustrou alguns contos, além de ter realizado uma aquarela para a capa, e um texto introdutório de Moacyr Scliar:

São contos curtos, esses. O conto normalmente deve ser curto, mas estas histórias chamam a atenção pelo minimalismo quase poético. O outro aspecto que as aproxima da poesia, sobretudo da poesia de Adélia Prado, é este: são narrativas tão importantes pelo que dizem como por aquilo que deixam subentendido; tão importantes pelas linhas, como pelas entrelinhas. Moacyr Godoy Moreira cria um território comum com o leitor onde este pode, ainda que sem escrever, exercer também seu poder de criação, respondendo aos desafios que estão na história, desafio este que nada tem a ver com o “Decifra-me ou te devoro”, da Esfinge, mas é antes um convite: decifra-te, e descobrirás coisas surpreendentes. (do prefácio de Moacyr Scliar)

No livro, Moacyr Godoy Moreira percorre o universo doméstico, com histórias como a que dá nome ao livro, nas quais reminiscências de infância surgem como retratos antigos, porém fundamentais na construção do hoje que se alimenta destes retalhos do passado. Há impressões sobre as mazelas e as alegrias deste planeta onde se chora mais que as águas denominadas mar, como descreve Adélia Prado. Há cotidianos imaginados e circunstâncias que poderiam fazer parte da biografia de qualquer um que se percebe sensível ao seu em torno, a nuances que por vezes parecem banais, porém que constroem a afetividade e delineiam as relações, como no fragmento abaixo, retirado do conto “Enquanto Ela Dorme”:

A lentidão da manhã espraia-se pelo horizonte que se espreguiça e se acomoda em cores e luzes suaves. A serenidade das águas na praia, que neste momento sequer marulham, sequer emitem qualquer sonido de exasperação, despeja-se do gesto quase imperceptível da mulher que, singela, doce, bailarina, ensaia um prenúncio de despertar, mas recua, luz sonâmbula a incidir por entre as frestas da persiana, carinho generoso da brisa, que antecede o mormaço das primeiras horas do dia neste verão que ilumina as gentes com a potência de mil sóis. (trecho do conto Enquanto Ela Dorme)

Moacyr Godoy Moreira é médico formado em 1997 pela Unifesp (Escola Paulista de Medicina), e atualmente aluno de doutorado em literatura brasileira na Universidade de São Paulo. O autor lançou anteriormente os livros Lâmina do Tempo (contos, 2002); República das Bicicletas (crônicas, 2003) e Ruídos Urbanos (contos, 2008), todos pela Ateliê Editorial.

R$ 27,00 | 120 páginas | 13,5 x 21 cm | ISBN: 978-85-7480-548-1

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Questão Inesgotável

“Talvez devamos concordar com Adorno nesse ponto, ao lembrar que a realidade é, em si mesma, ideologia”

Equus

Renato Tardivo

Um médico angustiado. Martin Dysart (Elias Andreato) acumula uma série de questões e, ao que parece, não dá conta delas sozinho. Corajoso, sabe que o melhor dos remédios é compartilhá-las. É assim que passa a limpo a enigmática história que viveu com o paciente Allan Strang (Leonardo Miggiorin), jovem que cometeu o seguinte crime: cegou 5 cavalos.

Refiro-me à peça Equus, de Peter Shaffer, adaptada e dirigida em montagem em cartaz em São Paulo por Alexandre Reinecke e que, além de Andreato e Miggiorin – dupla mais que afinada –, conta também com Patricia Gasppar, Jorge Emil, Mara Carvalho, Leo Steinbruch, Gustavo Malheiros, Bruna Thedy e Fernanda Cunha.

O texto foi adaptado para o cinema nos anos 1970, com roteiro do próprio Shaffer e direção de Sidney Lumet. No Brasil, o espetáculo fez sucesso com Paulo Autran (psiquiatra) e Ewerton de Castro (Allan). Em 2007, a peça voltou a ser notícia, devido à polêmica em torno da cena de nudez pelo ator Daniel Radcliffe (Harry Potter), que fazia Allan.

Peter Shaffer, o autor, diz ter tomado conhecimento dessa história – verídica, portanto – e, embora desconhecesse os detalhes, ficou tão impactado que a transformou em ficção. Temos, de saída, uma primeira chave interpretativa: a analogia entre o impacto que Allan causa ao médico (personagens) e o impacto experimentado por Shaffer. Com efeito, em ambas as camadas – realidade e ficção – parte-se de um enigma (o ato de cegar os cavalos) que se desmembra em inúmeras questões para as quais, finalmente, não se encontram respostas; ou, pelo menos, não uma única resposta.

O que interessa é encaminhar as questões, isto é, ficam em evidência as (im)possibilidades de existência de continente para os mais diversos e por vezes absurdos conteúdos. O texto disparado pelas reflexões do médico e, a partir disso, as atitudes vividas por Allan interpelam o espectador o tempo todo. É muito interessante, na montagem atual, o aspecto de prisão da clínica psiquiátrica – corredor gradeado, espécie de clausura habitada pelo paciente, mas também pelo médico.

A clausura de Allan é arcaica. Sufocado pelo fanatismo religioso da mãe e pelo comunismo fanático (outra religião) do pai, seu desenvolvimento vai encontrando entraves importantes de modo que a relação com seu próprio corpo e a sexualidade adquira uma magnitude que ele não consegue dar conta. A partir dos encontros com o médico – sustentados pela promotora (Mara Carvalho) – os resíduos de mistérios são associados e vão tecendo a história de Allan. História que precisa ser testemunhada para existir, ter lugar. Aqui, cabe mencionar mais um acerto da montagem – os atores/personagens, mesmo quando ausentes da ação, permanecem no palco: olham/testemunham a história.

Mas e os cavalos? Bem, Allan elege este animal como depositário do seu desejo e da ambiguidade, em estado limite, que ele traz: fascínio e temor se condensam nessa figura, ao mesmo tempo traumatizada e traumática. Essa ambiguidade é vivida no âmbito do seu próprio corpo – outro aspecto muito bem explorado pela peça, uma vez que os cavalos são representados pelos próprios atores. O corpo (perceptivo) não é mero instrumento, ferramenta, senão a linguagem mesma, diria Merleau-Ponty; linguagem misteriosa, poética, trágica.

As explosões de Allan, ao mesmo tempo virulentas e líricas (quem disse que o transe também não liberta?), têm lugar justamente para além das grades da clínica – que são rearranjadas no palco pelos próprios atores. O trauma precisa ser reeditado e é nessa medida que também o médico, representante do saber e da lucidez, toma contato com a própria loucura. Só assim, quem sabe, Allan pudesse ser reconhecido enquanto um sujeito cindido. Podemos pensar essa cisão, aliás, colada à própria encenação: há o Allan que revive os eventos com o psiquiatra no passado recuperado e há o Allan pós-surto, digamos assim, na ação do presente. Trata-se, contudo, de duas facetas de um mesmo e complexo corpo. E tal ambiguidade coloca em sobressalto a oposição entre saúde e doença, razão e lucidez, liberdade e prisão.

Há quem resolva a questão da seguinte forma: Allan é fruto de uma sociedade que alimenta valores hipócritas e, se ele sofre, é por conta da imposição desses valores. Entretanto, esta talvez seja uma forma tão ideológica de lidar com o problema quanto as ideologias que ela busca combater, isto é, esse relativismo é tão perigoso quanto patologizar o diferente. Explico. O convívio com as diferenças implica invariavelmente conflito. Talvez devamos concordar com Adorno nesse ponto, ao lembrar que a realidade é, em si mesma, ideologia. Ora, o reconhecimento de que valores hipócritas atuam na história de Allan implica que ele seja visto em sua complexidade. Mas Allan só pode ser visto em sua complexidade se houver convívio – e portanto confronto, embate – com as diferenças sociais e culturais. Ficássemos cada um de nós fechados no círculo do próprio gozo, não haveria reconhecimento do outro, abertura à alteridade e tampouco seríamos reconhecidos.

Talvez seja esta a verdadeira “cura” que a peça dá a pensar: o discurso angustiado do médico, na aparência atestado do seu fracasso, é emblema do que há de mais bonito (e mais trágico) na existência humana – em um mesmo movimento, ir em direção ao outro e deixar-se atravessar por ele (mas nunca dar conta completamente dessa questão).

Coluna Resenhas - Renato Tardivo

Escritor, mestre e doutorando em Psicologia Social da Arte, psicanalista. Autor do livro de contos Do Avesso (Com-Arte) e de Porvir que Vem Antes de Tudo – Literatura e Cinema em Lavoura Arcaica(Ateliê Editorial/Fapesp).

O guia essencial para sua viagem a Buenos Aires

El Ateneo Gran Splendid - Buenos Aires

A Ateliê preparou o guia 50 Livrarias de Buenos Aires, feito especialmente para quem deseja explorar o mundo literário da cidade portenha. O consumidor poderá adquirí-lo na Loja Virtual com um desconto de 15%, até o final de julho.

50 Livrarias de Buenos AiresDe autoria da jornalista Adriana Marcolini, com fotos de Alejandro Lipszyc, o guia contém informações básicas e histórias saborosas sobre as 50 livrarias portenhas selecionadas pela autora. Inclui desde as enormes, que lembram um supermercado, até as pequenas, super-acolhedoras. A obra é inédita no Brasil e rende homenagem a Buenos Aires, cidade que foi considerada Capital Mundial do Livro pela Unesco, no período de 2011 a 2012. Traz mapas de localização das livrarias e muitas dicas.

Buenos Aires tem uma sólida tradição livreira construída lentamente e favorecida por fatores externos, como a guerra civil na Espanha (1936-1939), que levou vários editores espanhóis a emigrar para a Argentina. A cidade tem uma livraria para cada seis mil habitantes. Elas fazem parte da identidade portenha: estão espalhadas por todos os lados e atendem aos mais diferentes interesses. São a expressão da pluralidade de pensamento, resistindo às crises e às ditaduras com suas livrarias especializadas, grandes redes e livrarias de bairro. Há ainda as librerías de saldo, que vendem obras esgotadas, as de viejo, equivalentes aos nossos sebos, e as antiquárias.

11 x 19 cm | 160 páginas

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Adriana Marcolini trabalhou em O Estado de S. Paulo e na Gazeta Mercantil. Participou do programa de voluntários das Nações Unidas em 2001, servindo em Sarajevo, Bósnia Herzegóvina. Em 2008 atuou na equipe do Comitê Internacional da Cruz Vermelha em Buenos Aires. Foi correspondente freelancer da Argentina até meados de 2011. Nesta função, publicou matérias na Folha de S. Paulo e no Valor Econômico; nas revistas Piauí, História Viva, Carta Capital, Revista da Cultura, GOL e Globo Rural, entre outras.
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Mapa do centro de Buenos Aires

Noel Rosa, o poeta da vila, é capa do Jornal Hoje em Dia

Fonte: Jornal Hoje em Dia (BH)

Livro Noel Rosa – O Humor na Canção, da pesquisadora Mayra Pinto, volta a jogar luzes sobre o instigante manancial de um dos mais notáveis compositores da música popular brasileira, Noel Rosa.

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Capa do Jornal Hoje em Dia

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Noel Rosa – O Humor na CançãoNoel Rosa – O Humor na Canção

Mayra Pinto

O modo como Noel Rosa criou uma obra de alta carga poética, articulando a coloquialidade da língua falada à musicalidade, é tratado com acuidade por Mayra Pinto. Na análise de suas canções, Mayra mostra como o tom coloquial, próprio do samba, se apoia em estrofes construídas com base em paralelismos poéticos, entoativos e rítmico-musicais. A única alteração nessa “fórmula” está na letra, que a cada estrofe descreve com mais detalhes a situação do locutor. Este livro é uma contribuição original ao estudo da obra de Noel Rosa e, ao mesmo tempo, à toda canção brasileira.

R$ 35,00 | 14 x 21 cm | 216 páginas

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Michel Sleiman está confirmado na Flip 2012

Michel Sleiman, professor de Literatura Árabe na USP, participará da Mesa 8 da Flip, sexta-feira, às 17h15, na Tenda dos Autores. O tema da mesa é “Literatura e liberdade” e tem participação do sírio Adonis e do libanês Amin Maalouf, com mediação de Alexandra Lucas Coelho.
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Michel SleimanMichel Sleiman fez sua carreira estudando a literatura árabe-islâmica de Alandalus (a Península Ibérica medieval quando governada pelos muçulmanos), especialmente a poesia em dialeto árabe-andalusino utilizado no século XII, em meio a outras questões da poética medieval. Concernente a esse período, realizou ensaios e traduções de poemas do poeta cordovês Ibn-Quzman Alqurtubi, que publicou em revistas acadêmicas e magazines, bem como em livros: A Poesia Árabe-Andaluza; As Cidades no Tempo; e A Arte do Zajal. Atualmente leciona e orienta na pós-graduação na Universidade de São Paulo, na Área de Língua e Literatura Árabe. Estuda e traduz poesia árabe medieval e contemporânea e suras do Alcorão. Tem experiência na área de Letras em geral, atuando principalmente em estudos literários e poética. Recentemente publicou o livro de poemas Ínula Niúla. Concebeu a revista Tiraz de estudos árabes e das culturas do Oriente Médio, da qual é diretor desde 2004.