Monthly Archives: junho 2014

Matrizes Impressas do Oral – Conto Russo no Sertão

Resultado de muitos anos de pesquisa da autora, livro traz estudos sobre o conto tradicional, culturas populares mitopoéticas, histórias para crianças, culturas comparadas, comunicação oral e performance

15'5x22'5 - 15mm lombada

Em seu novo livro Matrizes Impressas do Oral – Conto Russo no Sertão, Jerusa Pires Ferreira cruza observações teóricas acerca de oralidade, escrita, memória impressa e do conto popular ancestral, que se recria, atualiza e reinventa no nordeste brasileiro, em textos e imagens. A autora apresenta experiências vivas, e propõe a partir daí um modo de lidar com esses materiais mitopoéticos, em várias de suas possibilidades.

Nesta obra agregam-se observações diversas, em que a própria teoria se oferece como um trajeto e o material se mostra em suas mediações e circulação sem fim. A presença do lendário “Pássaro de Fogo” em nossa cultura também é destacada, e em outro capítulo, o intrigante conto do Czar Saltan de Puchkin, que encontra no folheto de cordel a sua extensão. O filme O Trovador Kerib, de Sergei Paradjánov, é apresentado numa perspectiva de comparações e achados críticos e “A Princesa que Não Ria” nos situa diante da ritualidade do riso e suas condições, em muitas partes, na Rússia como na Bahia. O livro traz ainda traduções de Boris Schnaiderman, como em Puchkin e Lérmontov.

“Jerusa Pires Ferreira demonstra neste seu livro, que é o mais corajoso e maduro, não só que a linguagem dos contos maravilhosos é universal (isso é algo que já nos tinham dito muitas vezes), além disso nos desvela, com minúcia e erudição, os mecanismos literários e culturais dessa universalidade, coisa rara de fazer. Consegue assim aproximar a magia dos contos a uma geografia da razão, na medida em que alcança o prodígio de comunicar esses polos. Sem que se quebre o encan- tamento, aumentando o espanto.” (José Manuel Pedrosa, Universidade Alcalá de Henares / Madri)

Jerusa Pires Ferreira é doutora e livre-docente pela Universidade de São Paulo, autora de inúmeros livros e artigos sobre comunicação e linguagem, além de profes- sora de pós-graduação em comunicação e semiótica da PUC-SP. Criou e dirige o CEO (Centro de Estudos da Oralidade) da COSPUC – SP. Além do livro Matrizes Impres- sas do Oral – Conto Russo no Sertão, já publicou pela Ateliê Editorial, Armadilhas da Memória e Outros Ensaios; Livros, Editoras & Projetos e Cultura das Bordas – Edição, Comunicação, Leitura.

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A arte do granito

Alex Sens Fuziy

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Há mais de dez anos, as quatro paredes dos dois banheiros da casa foram cobertas de granito. São fragmentos de cores leitosas e escuras, espelhadas, placas pontudas, formas geométricas, cacos que alisam a luz do ambiente e refletem qualquer coisa de arte, de sonho gráfico, de selvageria icástica, de linguagem de um tempo duro, preso em si mesmo. Fascinam-me as pedras, seus reflexos, pigmentos, contornos, seus veios e ilhotas de cores cuja essência também se derrama em ímpeto no talento de um fauvista mais observador.

Composto essencialmente de mica, quartzo e feldspato, o granito é uma obra de arte da natureza. Em cada centímetro da rocha encontramos uma pintura. Portanto, a fascinação exercida pelas cores e pelas formas é a mesma que se rompe diante de um Monet, um Klimt, um Turner, um Ianelli. Se Elvis Presley tinha livros em seus banheiros (e ainda questiono a umidade, a evaporação da água quente dos banhos; os livros ficavam em armários fechados, atrás de portas de vidro?), em casa temos o granito para admirar enquanto o tempo passa e a luz que entra pela janelinha se acende em sol ou se eclipsa em nuvem.

Com um pouco de imaginação, faço de conta que cada granito nas paredes é um teste individual e artístico de Rorschach. Ali em cima vejo um sapato de salto baixo e quadrado; abaixo, uma arraia pálida com olhos de cereja escura; ao lado, um rosto de um olho só, azul e redondo, voyeur dos banhos; em seguida uma caveira cinza, escurecida nas órbitas pelo humor misterioso dos anfibólios; e então um quadro que lembra qualquer coisa sinistra e dolorida de Munch, como um rasgo no âmago, de onde sangra uma ampulheta negra, e depois uma reprodução quase fiel de “O beijo”, de Gustav Klimt, mas sem os amantes. Indo para a porta, há um mapa sem nomes, um lago coberto de confetes, lâminas de prata, caranguejos, uma cachalote em pleno nado de alegria, um leão castanho, um chapéu de névoa sobre um cume, um tubarão-martelo, uma encruzilhada antes de um bosque, uma menina segurando um balão, uma boneca de olhos escuros com uma fenda no nariz.

Como arte é percepção, acolhimento a partir daquilo que também nos acolhe, então o granito pode ser percebido de diferentes formas, lido como runas deixadas por um solo engenhoso, sentido como a poesia cuja estrutura e desenho são alinhados pela granulometria do tempo, da rítmica de abalos, de emoções cristalizadas. No granito encontramos universos paralelos, estáticos, e uma beleza primeva que quando não se pode reproduzir em palavras, deixamos que sedimente no coração.

 

As palavras todas - Alex

Alex Sens Fuziy nasceu em 1988 em Florianópolis (SC), vive em Minas Gerais e é escritor. Publicou Esdrúxulas, livro de contos de humor negro e realismo mágico, seguido pelo livro artesanal Trincada. Teve contos e poemas publicados em sete coletâneas e em revistas literárias virtuais, assim como resenhas de livros e críticas em sites de jornalismo cultural. Seu romance de estreia O Frágil Toque dos Mutilados venceu o Prêmio Governo de Minas Gerais de Literatura 2012.

Lançamento do livro Matrizes Impressas do Oral – Conto Russo no Sertão

Ateliê Editorial | Assessoria de Imprensa

15'5x22'5 - 15mm lombada

 

No último dia 31 de maio, a professora e escritora Jerusa Pires Ferreira lançou seu novo livro Matrizes Impressas do Oral – Conto Russo no Sertão. Nesta obra a autora cruza observações teóricas acerca de oralidade, escrita, memória impressa e do conto popular ancestral, que se recria, atualiza e reinventa no nordeste brasileiro, em textos e imagens. A autora ainda apresenta experiências vivas, e propõe a partir daí um modo de lidar com esses materiais mitopoéticos, em várias de suas possibilidades.

 

 

 

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Leia o release

Confira abaixo algumas fotos do lançamento

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Achik-Kerib: História turca

Folha de S. Paulo | 9 de Fevereiro de 2014

O “Achik Kerib” é uma das narrativas estudadas por Jerusa Pires Ferreira em Matrizes Impressas do Oral – Conto Russo no Sertão, livro que trata da “tradição oral, das mitopoéticas e do conto popular universal, passando à recriação desses textos por grandes escritores”, conforme descreve sua autora. 

Matrizes Impressas do Oral: Conto Russo no Sertão

 

MUITOS ANOS ATRÁS, na cidade de Tíflis¹, vivia um turco rico; Alá lhe deu muito ouro, porém mais valioso que o ouro era sua filha única Magul-Meguéri. São belos os astros do céu, mas atrás dos astros vivem anjos que são ainda mais belos e assim Magul-Meguéri era a mais bela das jovens de Tíflis. Vivia também em Tíflis o pobre Achik Kerib; o profeta não lhe dera nada além de um grande coração e o dom das canções. Tocando saaz e celebrando os antigos cavaleiros do Turquestão ele ia de um casamento a outro, para alegrar os ricos e felizes; num desses casamentos ele viu Magul-Meguéri e eles se apaixonaram. O pobre Achik tinha pouca esperança de obter a sua mão, e se tomou tão triste como um céu de inverno.

Um dia ele estava deitado num vinhedo e finalmente adormeceu; nessa hora passaram por ele Magul-Meguéri e suas amigas; uma delas, ao ver Achik adormecido, ficou para trás e aproximou-se dele. “Por que ficas dormindo embaixo de uma videira” – cantou ela – “levanta-te, insano, a tua gazela está passando”; ele acordou e a moça fugiu como um passarinho; Magul-Meguéri tinha ouvido a sua canção e começou a censurá-la: “Se tu soubesses” – respondeu a outra – “a quem cantei esta canção, me agradecerias: é o teu Achik-Kerib”; “Leva-me até ele” – disse Magul-Meguéri: e elas foram.

Vendo seu rosto tristonho, Magul-Meguéri começou a interrogá-lo e a consolar: “Como não vou me entristecer” – respondeu Achik-Kerib – “eu te amo e tu nunca serás minha.” “Pede a minha mão a meu pai e meu pai vai celebrar nosso casamento com o dinheiro dele e me dará tanto que será o suficiente para nós dois”. “Está bem” – respondeu ele” – admitamos que Aian-Agá não poupe nada para sua filha; mas quem sabe se depois tu não vais me censurar porque eu não tinha nada e fiquei te devendo tudo. Não, minha doce Magul-Meguéri; eu coloquei um penhor sobre a minha alma; comprometo-me a peregrinar sete anos pelo mundo, conseguir riquezas ou morrer nos desertos distantes; se concordas com isso, decorrido esse prazo serás minha”. Ela concordou, mas acrescentou que, se no dia marcado ele não voltasse, ela se tomaria esposa de Kurchud-Bek, que há muito pedia sua mão.

Achik-Kerib foi ter com sua mãe; tomou a bênção, beijou a irmãzinha, pendurou no ombro a bolsa, apoiou-se num cajado e peregrinou, saiu da cidade de Tíflis. E eis que um cavaleiro o alcança e ele vê que é Kurchud-Bek. “Boa viagem” – grita-lhe Bek – “aonde quer que vás, peregrino, sou teu amigo”; Achik não ficou contente de ver o amigo, mas não havia nada a fazer, caminharam juntos por muito tempo até que encontraram um rio. Nem ponte nem vau; “Nada na frente” – disse Kurchud – “eu vou te seguir”. Achik tirou a roupa e nadou; chegando à outra margem, olhou para trás e – Oh, desgraça! Oh, Alá onipotente! – Kurchud-Bek tinha apanhado a sua roupa, galopando de volta a Tíflis, e somente a poeira turbilhonava atrás dele, feito cobra em campo liso.

Kurchud-Bek leva a roupa de Achik a sua velha mãe: “Teu filho se afogou no rio profundo, aqui está a sua roupa”; numa angústia indescritível, a mãe caiu sobre a roupa do filho amado e passou a molhá-la com lágrimas ardentes; depois apanhou-a e levou à sua noiva prometida Magul-Meguéri. “Meu filho se afogou,” – disse ela – “Kurchud-Bek trouxe a roupa dele, estás livre”. Magul-Meguéri sorriu e repondeu: “Não acredites; tudo são invenções de Kurchud-Bek; antes que passem sete anos ninguém será meu esposo”. Ela tirou da parede o saaz e começou a cantar tranquilamente a canção predileta de Achik-Kerib.

Neste ínterim, o peregrino chegou descalço e nu a uma aldeia; gente boa vestiu-o e alimentou-o; ele, para recompensá-los, cantou umas canções maravilhosas; assim foi passando de aldeia em aldeia, de cidade em cidade, e sua fama se espalhou por toda parte.

Chegou finalmente a Khalaf; como de costume, entrou num café, pediu um saaz e pôs-se a cantar. Nessa época vivia em Khalaf um paxá, grande apreciador de cantores; muitos foram levados a sua presença, mas ele não gostou de nenhum; os seus servos se esfalfaram, correndo pela cidade: de repente, passando por um café, ouviram uma voz surpreendente; eles então: “Vem conosco à presença do grande paxá” – gritaram – “ou vais responder com a tua cabeça”. “Eu sou um homem livre, peregrino da cidade de Tíflis – se quiser irei, se não quiser, não. Canto quando me dá na veneta e o vosso paxá não é meu chefe.”

Apesar disso, eles o agarraram e o levaram à presença do paxá. “Cante” – disse o paxá, e ele cantou e nessa canção ele celebrava a sua querida Magul-Meguéri; e essa canção agradou tanto ao orgulhoso paxá que ele deixou em seu palácio o pobre Achik-Kerib. Ouro e prata choveram sobre ele, brilharam nele ricos trajes; Achik-Kerib passou a viver em felicidade e alegria e tornou-se muito rico.

Se ele esqueceu ou não a sua Magul-Meguéri, não sei, mas o tempo ia correndo, o último ano estava próximo do fim, e ele nem se preparava para a partida. A formosa Magul-Meguéri começou a desesperar: nesse tempo, um mercador estava saindo com uma caravana de Tíflís, com quarenta camelos e oitenta escravos: ela chama o mercador à sua casa, e lhe dá uma bandeja de ouro: “Toma esta bandeja” – diz ela – “e em qualquer cidade que chegues expõe a bandeja em tua venda e declara em toda parte que aquele que se declarar dono da bandeja há de recebê-la, e de sobra o seu peso em ouro”.

Partiu o mercador e em toda parte cumpria o encargo de Magul-Meguéri, mas ninguém se declarava dono da bandeja de ouro. Ele já tinha vendido quase toda a mercadoria e chegou com as restantes a Khalaf e proclamou em toda a parte a incumbência de Magul-Meguéri. Ouvindo isso Achik-Kerib chega correndo ao caravançará e vê a bandeja de ouro na venda do mercador de Tíflis. “É minha” – disse ele, agarrando-a com a mão. “Está certo, é tua” – disse o mercador. “Eu te reconheci, Achik-Kerib: vai quanto antes a Tíflis, a tua Magul-Meguéri mandou te dizer que o prazo está terminando e que, se não chegares no dia marcado, ela se casará com outro”. Desesperado, Achik-Kerib agarrou a cabeça: faltavam apenas três dias para a hora fatal.

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