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A Transmissão da Palavra ao Imaginário Infantil

Renato Tardivo

Contos da Nova Cartilha – Segundo Livro de Leitura – Vol. 1Liev Tolstói (1828-1910), escritor russo, é o célebre autor de Guerra e Paz e Ana Karenina, obras que se tornaram marcos da literatura mundial. Também difundidos são os textos de inclinação anarquista que fazem do autor uma referência importante em estudos sobre política. No entanto, nem tão conhecidos do grande público – embora lidos  por milhões de crianças pelo mundo – são os escritos de Tolstói dirigidos às crianças. O escritor manteve uma escola, em sua propriedade próxima a Moscou, onde lecionava a camponeses pautado pelo princípio da liberdade.

Em Contos da Nova Cartilha­ – segundo livro de leitura (vol. 1), reúnem-se fábulas, contos, raciocínios e histórias verdadeiras escritos por Tolstói que facultam ao leitor a experiência da liberdade para criar, imaginar, pensar. Assim, não se trata de narrativas com uma simples “moral da história”; em outra direção, os textos convidam a pensar sobre seus dilemas, despertando o interesse pelo conhecimento. Com efeito, interessantes e inteligentes, as narrativas não se destinam apenas ao público infantil, mas a todo leitor que se dispuser a ampliar a gama de significações acerca de si, dos outros, do mundo.

Parece atravessar os textos a tese de que aprender é criar e, por extensão, de que não há pensamento ou filosofia que se justifiquem senão aqueles que se questionem continuamente. É emblemático, nesse sentido, o texto “O Tato e a Visão”, em que, no primeiro momento, o autor evidencia a tese de que “os dedos enganam, mas os olhos corrigem”, e, em seguida, desconstrói a verdade absoluta que se poderia encerrar na tese anterior explicitando que também “os olhos enganam, mas os dedos corrigem”. Essa confusão, no limite insuperável, se coloca sempre que há abertura à alteridade, na medida em que não há conhecimento a respeito do outro que o encerre.

Trocas mercantis, relações do homem do campo entre si e com a natureza, a luta pela sobrevivência, variadas são as temáticas das narrativas, que na presente edição são acrescidas de belíssimos desenhos produzidos a partir dos textos por crianças russas dos dias de hoje. Note-se, entretanto, que não se trata de ilustração no sentido de dar aos textos sua justa medida, uma vez que a justa medida das coisas – e da palavra – nunca se atinge, mas é a própria transmissão dos textos ao imaginário infantil que ganha forma também na comunicação que se estabelece no nível das diferentes linguagens – palavra e imagem –, deixando para sempre em aberto (o que provavelmente agradaria Tolstói) a questão: onde mora o saber, no professor ou no aluno?

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Coluna Resenhas - Renato Tardivo

Renato Tardivo é mestre e doutorando em Psicologia Social da Arte pela USP e escritor. Atua na interface entre a estética, a fenomenologia e a psicanálise. É professor universitário e escreveu os livros de contos Do Avesso (Com-Arte) e Silente (7 Letras), e o ensaio Porvir que Vem Antes de Tudo – Literatura e Cinema em Lavoura Arcaica (Ateliê).

Livro apresenta parte de Tolstoi

Dirce Waltrick do Amarante |  A Gazeta – Cuiabá |  7 de janeiro de 2014

Contos da Nova Cartilha – Segundo Livro de Leitura – Vol. 1Em 1849, Liev Tolstoi (1828-1910), depois de ter residido em Moscou e Kazan e frequentado dois cursos universitários – Línguas Orientais e Direito –, ambos abandonados apesar das boas notas, fundou uma escola na pequena propriedade rural de Iásnaia Poliana, onde havia nascido.

A questão escolar na Rússia foi uma preocupação constante de Tolstoi a ponto de ter afirmado, numa de suas cartas, que poderia morrer em paz se duas gerações de crianças russas aprendessem as primeiras letras nas cartilhas que escrevera, das quais receberiam também as primeiras lições poéticas.

Considerado por Stephan Zweig o “pedagogo do universo”, o escritor russo não só elaborou o projeto de uma publicação pedagógica, chamada Revista da Escola de Iásnaia Poliana, como dedicou ao tema cerca de 629 trabalhos.

Contos da Nova Cartilha – Primeiro Livro de LeituraNo fim de 2013, a Ateliê Editorial lançou Contos da Nova Cartilha: Segundo Livro de Leitura – vol. 1, na tradução de Aurora Bernardini e Belkiss Rabello, com ilustrações contemporâneas feitas por crianças russas. Com esse livro, o leitor brasileiro passara a conhecer parte das ideias pedagógicas de Tolstoi e poderá confrontá-las com Contos da Nova Cartilha: Primeiro Livro de Leitura, obra publicada em 2005 pela mesma editora.

O autor das “Cartilhas” foi também grande leitor de Michel de Montaigne e parece ter incorporado dele algumas ideias sobre educação, principalmente aquelas contidas no ensaio intitulado “Sobre a educação das crianças”, de 1580, no qual o ensaísta francês afirma que o preceptor deve fazer com que tudo passe pelo próprio crivo da criança e que nada “se aloje” na sua cabeça por simples autoridade ou confiança. Esse pensador acreditava que não se devia pedir aos pequenos “contas somente das palavras de sua lição mas do sentido e da substância”. Para Montaigne, o educador devia ora abrir caminho para o seu aluno, ora deixá-lo caminhar por si mesmo.

Pode-se perceber que o russo foi um ferrenho defensor da liberdade no processo educacional, pois acreditava que somente ela é capaz de desenvolver a personalidade do aluno, o seu lado criativo e de fazê-lo tornar-se até mesmo o próprio tutor. Isso se harmoniza com o que diz Montaigne ao tratar justamente da relevância da liberdade de pensamento na educação: “tanto nos submeteram às andadeiras que já não temos os passos soltos: nosso vigor e nossa liberdade se extinguiram”, e, citando Sêneca, conclui: “não estamos sob um rei, que cada um disponha livremente de si mesmo”.

Na opinião de Tolstoi, tão importante quanto conhecer as narrativas históricas, é conhecer as lendas e as narrativas ficcionais, pois são essas que apresentam as “leis fundamentais que regem a vida do povo”. Por isso, suas “Cartilhas” são compostas de histórias maravilhosas, contos, fábulas, as quais visam estimular as crianças e fazê-las refletir e filosofar. Aliás, sem filosofia toda educação é inócua, dizia Montaigne, mestre de Tolstoi.

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