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Obra-prima brasileira, em pleno século XXI

Renato Pompeu | Diário do Comércio

Coisas do Diabo Contra

Este belíssimo romance, Coisas do Diabo Contra, do escritor baiano radicado em São Paulo, Eromar Bomfim, lançado pela Ateliê Editorial, se insere na tradição da grande arte, nacional e internacional. Essa obra vai surpreender os críticos que alardeiam “o fim da literatura como obra de arte”. Eles se valem da argumentação de que, hoje em dia, estamos na era dos best-sellers programados. Os escritores não estariam mais preocupados com a estética, na forma, ou com as precariedades da condição humana, no conteúdo. Não estariam mais interessados em iluminar, por meio da beleza, os desvãos da alma de seus semelhantes. Pelo contrário, os escritores estariam interessados exclusivamente em publicar obras que o público quer ler, ou melhor, quer comprar. Essa atitude, inclusive, seria mais democrática do que a grande arte, muitas vezes difícil de entender. A literatura seria basicamente um exercício de entretenimento, não um exercício de atingir o que há de mais profundo entre nós, o senso de beleza, o horror tingido de fascínio pelo mal, e a sede eterna de justiça, felicidade e paz.

Pois é justamente a grande arte que Eromar Bonfim aspira. A trama, aparentemente é simples: um rico empresário quatrocentão se convence de que a única experiência que pode realmente engrandecer o ser humano é assassinar outro ser humano. Por meio de matar um semelhante, se chegaria à graça da plena realização de uma vida. Bomfim parece exaltar aqui o fascínio pelo mal, tão presente no interior de cada um de nós, cuja maioria procura exorcizar esse fascínio deleitando-se na fruição de histórias fictícias de crimes e de histórias reais de torturas e de genocídios.

Mas o que parecia, nas mãos de Bomfim, ser uma exaltação do mal, vai paulatinamente se transformando em seu contrário, o ataque contundente à banalidade do mal. O filho do empresário assassino, testemunha do crime de seu pai (este queria “educar” o filho para que assimilasse o gozo pelo sacrifício da vida de outrem), corre desesperadamente pelas ruas da cidade de São Paulo, fugindo ao horror do crime.

A cidade é um dos principais personagens do livro. E aqui Bomfim revela todo o seu talento de escritor. O autor novato, que se baseia mais na sua experiência de vida do que na sua criatividade, costuma inserir as ações de seus personagens em locais que o autor conhece, mas a maioria de seus leitores não. O autor novato sente, ele próprio, a “aura” que cada rua, bar ou prédio que descreve faz evocar. Mas o leitor, por não conhecer o lugar, não sente a “aura” do local, nem a evocação que dele emana. Um autor mais experiente pode, no entanto, criar lugares fictícios do qual emanam evocações universais. Monteiro Lobato, por exemplo, ao descrever um sítio, mencionava a casa, o paiol, o pomar, a horta, o curral, o estábulo, sem nunca esclarecer como esses pontos se relacionavam no espaço uns aos outros. A ideia de Lobato era que todo mundo tem a noção do que seja um paiol ou pomar, mas não se identificaria com a descrição de um sítio concreto, em que o paiol ficaria numa determinada posição em relação ao paiol.

Bomfim dá um passo adiante. Ele descreve ruas, galpões, prédios, casas e avenidas realmente existentes na cidade de São Paulo, mas o leitor que não conhece esses lugares sente o que significam, o que se vivencia em cada espaço, tal a profusão de sensações que o autor descreve como emanando de cada lugar. Um galpão na Mooca, rigorosamente descrito, ou o Jardim da Aclimação, cuidadosamente mapeado, evocam sensações universais e a vivência das emoções que cada lugar provoca será sentida por qualquer leitor em qualquer local do mundo.

Isso quanto à forma. Quanto ao conteúdo, Bomfim não só transforma em repulsa o fascínio inicial pelo ato de matar outra pessoa como vai muito mais além na condenação do mal. Ele demonstra que a orgulhosa cidade de São Paulo é um produto da sistemática perseguição e exploração dos índios pelos bandeirantes e da cruel exploração secular do ser humano pelo ser humano; o conforto de uns poucos foi sustentado pelo sofrimento e pela exaustão de muitos outros.

O ponto principal, entretanto, é que, dentro da tradição da grande arte, Bomfim cria uma linguagem nova, em que cada palavra e cada frase é cuidadosamente lapidada, de modo que o conjunto se frui como se fosse uma colorida escultura de sons.

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Contrafluxo de Consciência

Renato Tardivo

Coisas do Diabo Contra, de Eromar Bomfim

Dalton Trevisan, Sérgio Sant’anna, Raduan Nassar; mais recentemente, Luiz Ruffato, Marçal Aquino, Rinaldo de Fernandes, Marcelino Freire. Pode-se dizer que já há uma tradição em histórias cruéis na literatura brasileira; histórias em que diversas formas violentas de transgressão da lei ocupam papel central.

Coisas do Diabo Contra, romance de Eromar Bomfim, insere-se nessa temática. O livro se destaca inicialmente pelo projeto gráfico (ao fim, aliás, o leitor poderá relacionar aspectos materiais do livro com a trama narrada): antes do primeiro capítulo, uma série de fotografias de primeiros planos de uma metrópole alude a um cotidiano sombrio e feito de interrupções. E são justamente as interrupções que movimentam essa história: a morte que traz morte em uma cadeia interminável que transborda para a própria linguagem.

Matias Tavares de Aragão, após a morte da esposa, sente-se impelido a matar um homem. Leopoldo Tavares de Aragão, seu filho, presencia o gesto que trará desdobramentos para a sua vida e, por extensão, para a história (narrada por um empregado de Matias). O leitor talvez encontre aqui algo de Camus: as personagens erram contra si mesmas e, assim, constroem (ou destroem?) a sua trajetória (e a dos outros). Ao fluxo de consciência, contudo, equilibram-se descrições da geografia da cidade de São Paulo. Com efeito, um dos méritos do romance é este entrelaçamento entre mundo interno e mundo externo, consciência e mundo.

A banalização do mal, na trama, talvez seja alegórica das modalidades de vínculos que estabelecemos na contemporaneidade, mas com uma diferença fundamental. Enquanto no cotidiano (aquele das fotografias do início) o crime se presta à desimplicação dos sujeitos, em Coisas do Diabo Contra, o movimento é radicalmente oposto: ao escancarar que a história se movimenta pelo desligamento, o leitor certamente sairá deste livro mais implicado ao mundo em que vive e que constrói/destrói.

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Coluna Resenhas - Renato Tardivo

Renato Tardivo é mestre e doutorando em Psicologia Social da Arte pela USP e escritor. Atua na interface entre a estética, a fenomenologia e a psicanálise. Foi professor universitário e escreveu os livros de contos Do Avesso (Com-Arte) e Silente (7 Letras), e o ensaio Porvir que Vem Antes de Tudo – Literatura e Cinema em Lavoura Arcaica (Ateliê).