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Queixa-se o poeta de sua cidade no seu aniversário e recebe ajuda dos seus poetas mortos

Frederico Barbosa

O Estado de S. Paulo | 25.01.2013

Somos todos vítimas

da última chacina.

Somos todos cúmplices

do próximo disparo.

Anchieta, do alto do

pátio:

“Ah terrível bombardada

Da morte espantosa!

Como vem guerreira

E temerosa!”

Uns, acordam para a

notícia:

a noite em dados

urgentes.

Números frios, outrora

vida,

agora, nus, indiferentes

Maneco grita do largo:

Cavaleiro das armas

escuras,

Onde vais pelas trevas

impuras

Com a espada sanguenta

na mão?

E a noite segue calma

Para quem se esconde,

segue jorrando sangue

para quem não há onde.

Mário prevê noite e dia:

dentro de muros sem

pulos

Mais uma volta

na fechadura

blinda a vida

contra revoltas

ou idas.

Oswald anuncia a

solidão:

Anoitece sobre os jardins

Jardim da Luz

Jardim da Praça da

República

Jardins das

platibandas

Noite

Noite de hotel

Chove chuva

choverando

Nada é mais noite (e

chuva)

do que noias sob o teto

do absurdo viaduto

triste projeto infecto.

Nada é mais chuva (e

noite)

do que choro de viúva

sobre o corpo rígido

podridão indiferente.

Haroldo entrevê nas

ruas:

enquanto

de lugares absolutos

debaixo dos viadutos

transeuntes exsurtos das

cor de urina

vesperais latrinas

das sentinas dissolutas

caminham

Hoje nada não

nem se comemora,

nem poesia,

nem memória.

Hoje a cidade

(seus mortos)

chora.

Décio cria a palavra

chave:

cadaverdade

.

Frederico Barbosa é poeta, autor de Rarefato (Iluminuras, 1990), Louco no Oco Sem Beiras – Anatomia da Depressão (Ateliê Editorial, 2001) e A Consciência do Zero (Lamparina, 2004), entre outros.

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