Homem Polivalente – Incomparável e genial Da Vinci

Luiz Fernando Vieira | A Gazeta – Cuiabá | 31 de setembro de 2013

Os Cadernos Anatômicos de Leonardo da VinciComo o médico Roy Glover, professor de Anatomia e Biologia Celular da Universidade de Michigan, que revolucionou ao criar uma exposição de corpos humanos reais dissecados e preservados por um processo de “plastificação”, Leonardo da Vinci (1452-1519) elaborou um dos mais incríveis estudos sobre anatomia. A diferença é que o artista plástico e inventor italiano fez isso entre os séculos 15 e 16, criando um clássico tanto sob o ponto de vista científico como artístico. O estudo está no livro Os Cadernos Anatômicos de Leonardo da Vinci (Editoras Unicamp e Ateliê).

Na obra estão mais de 1200 desenhos anatômicos de Da Vinci, distribuídos em 215 gravuras feitas em preto e branco que mostram a diferença entre um gênio e um mero desenhista.

Os registros são conhecidos por sua extraordinária beleza e precisão. Tamanha que eles antecederiam, em muito, trabalhos análogos que viriam a aparecer até o século XVII. O problema de Da Vinci é que ele não chegou a terminar e publicar o trabalho. Se o fizesse poderia ter revolucionado a medicina décadas antes do belga Andreas Vesaluis, chamado de “Pai da Anatomia”, que publicou seu De Humani Corporis Fabrica em 1543.

O material é fruto de 15 anos (1498 a 1513) de trabalho do artista, que desenhou órgãos e elementos de vários sistemas do corpo humano. Antes de partir para o registro, Da Vinci leu muitas obras de autores da medicina pré-renascentista, como Galeno de Pérgano (129-200), Mondino dei Luzzi (1270-1326) e Avicena (980-1037). Para aprofundar os estudos, participou de muitas dissecações de corpos humanos e de animais. Ele não só se preocupou em ver os órgãos e sistemas, mas procurou entender sua dinâmica, a forma como funcionavam, o que enriqueceu ainda mais o estudo.

Da Vinci foi além do que costumavam fazer os chamados “artistas-anatomistas”. Os autores do livro Charles O’Malley (Universidade de Stanford) e L.B Saunders (Universidade da Califórnia) explicam que era comum eles se aproximarem dos médicos para aperfeiçoar seus traços. Mas no caso do pintor italiano criador da Mona Lisa a anatomia era algo mais do que um simples coadjuvante da arte. Por isso ele adquiriu conhecimentos que ultrapassaram e muito os necessários para desempenhar sua arte, explicam os escritores.

Os próprios Charles O’Malley e J.B Saunders não se conformaram em fazer o básico para registrar os estudos de Da Vinci. Passaram um bom tempo organizando e traduzindo as anotações do italiano para o inglês. Na edição, as figuras foram dispostas em ordem cronológica com o objetivo de apresentar, passo a passo, o aprimoramento do artista italiano como anatomista. Além disso, para facilitara apreensão dos conteúdos, as informações foram organizadas em nove grandes áreas de estudo: Sistema Esquelético, Sistema Muscular, Anatomia Comparada, Sistema Cardiovascular, Sistema Nervoso, Sistema Respiratório, Sistema Digestório, Sistema Urogenital e Embriologia. As anotações de Da Vinci que acompanham as imagens oscilam entre um tom descritivo e explicativo e outro um tanto quanto autobiográfico e anedótico.

O mesmo zelo se pode atribuir aos tradutores para o português. O trabalho foi realizado pelo cirurgião cardíaco Pedro Carlos Piantino Lemos, professor de Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), em parceria com a tradutora Maria Cristina Vilhena Carnevale, e levou dez anos.

São 520 páginas e informações que explicam detalhadamente o lado anatomista do gênio italiano. Como acréscimos, Lemos criou marcações que ajudam o leitor a ligar o desenho ao comentário a que se refere. Os tradutores também inseriam termos médicos atuais que ajudam na localização do que foi descrito por Leonardo, pois na época boa parte do organismo humano ainda não tinha nome.

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O AUTOR – Leonardo da Vinci foi pintor, escultor, músico, cientista, arquiteto, engenheiro, inventor. Talvez nenhuma outra figura personifique tanto o ideal humanista do Renascimento quanto ele. Um homem polivalente que não se contentava em dominar uma dada técnica artística ou em registrar os mecanismos de uma invenção. Guiado por uma curiosidade insaciável, ele procurava entender o porquê dos diferentes fenômenos. Seus escritos, interesses e reflexões permitem acessar os mais variados aspectos de sua mente incisiva, questionadora e investigativa que, não por acaso, mergulhou na aventura científica de estudar e representar os elementos constitutivos do corpo humano. (Com assessoria)

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