Daily Archives: 19/07/2010

Novo livro de Fernando Paixão extrai e injeta poesia nas frestas do dia-a-dia

(Por Marcos Pasche – Jornal Rascunho)


Era um convicto catador de poemas. Entregava-se aos acasos para poder colecionar detalhes ou cenas quaisquer, donde se depreendesse o sinal possível, espiralado, que permitia o estirar de uma frase natural. Ele, sempre atento na ponta dos olhos, recusava-se a emendar palavra com palavra em meio à limpeza higiênica das mesas poéticas; não queria a poesia remediada, de tato virtual, nem a fria plumagem da língua.

À maneira de T. S. Eliot, para quem o fim engendrava o início, o fragmento acima – extraído de O farejador, último texto de Palavra e rosto, de Fernando Paixão – funciona perfeitamente como preâmbulo do livro, visto concentrar o que se verifica ao longo de suas páginas: o exercício do olhar, o qual, nivelado ao dos pintores impressionistas, colhe e lança seiva poética aos buracos das coisas em geral, sejam elas cotidianas, nas quais se topam corriqueiramente, sejam elas insólitas, as quais topam em nosso pensamento nos raros momentos em que a ele cedemos espaço.

Da mesma forma como ocorre em muitas exposições de pintura atuais – em que se exibem não necessariamente as obras acabadas, e sim os estudos que dão gênese a elas – Palavra e rosto é um livro-ensaio, pois os textos que o constituem são comentários a respeito de situações que geraram poemas, ou a respeito dos próprios poemas gerados, como se o autor estivesse inclinado a vasculhar, com todas as suas sensações, o misterioso sopro que gera a bolha de sabão e que a mantém suspensa no ar. No entanto, apesar da intenção registradora, a ação, por ser poética, é sempre criadora, como o autor esclarece em Álbum, nota explicativa que abre o volume:

As páginas aqui reunidas foram escritas ao sabor das ocasiões, sem plano de vôo. Inicialmente, o intuito era fixar impressões em torno de algumas situações vividas ou flagrantes percebidos. Mas logo a criação seguiu atalhos próprios, aproximando-se do tom poético e sucumbindo ao desejo de registrar momentos e comentários ligados ao campo da poesia.